
O músico e ensaísta José Miguel Wisnik, o crítico de cinema Pedro Butcher e o diretor de teatro Zé Celso Martinez (Fotos: Cleber Passus/Divulgação/JÁ)
Naira Hofmeister
O caldeirão de tendências, por vezes antagônicas ou não lineares, é a gênese da cultura brasileira, contemporânea mesmo em sua origem. Essa pode ser a síntese das palestras que Zé Celso Martinez, José Miguel Wisnik e Pedro Butcher realizaram dentro do Projeto Copesul Cultural, na noite de terça-feira, 19, cujo tema era Brasil Contemporâneo.
A primeira intervenção, de Pedro Butcher, teve como alvo a construção do Cinema Brasileiros no século 20 e as perspectivas para os próximos anos, principalmente ligadas a tecnologia digital. A seguir, José Miguel Wisnik utilizou o futebol como metáfora da matriz criadora do brasileiro, pouco objetiva mas com um conceito artístico complexo. Por fim, Zé Celso Martinez levou o público à loucura, abordando temas diversos como o trabalho que desenvolve no teatro Oficina, legalização das drogas, urbanização ou política contemporânea. “O PT fez um favor à sociedade, porque revelou como funciona o sistema realmente”, disse, arrancando aplausos dos espectadores.
Macunaíma e futebol: a evidência da arte brasileira
A cultura tupiniquim pode ser compreendida através dos tipos literários que ela mesma produz. Macunaíma, herói e vilão ao mesmo tempo, representa a matriz sobre a qual se forjou a arte nacional: o que deveria ser considerado deficiência, acaba originando a singularidade e o espetacular: “Em Garrincha, o que parece faltar, vira a sobra”, anotou Wisnik, que defendeu que o futebol se aproxima enormemente do teatro, por ser o primeiro esporte dedicado à platéia, com códigos universais que tornam possível sua compreensão em qualquer lugar.

Wisnik: a redescoberta do’jeitinho brasileiro’
Além do mais, “não há como falar em futebol, em qualquer parte do mundo, sem considerar a existência do Brasil”, acredita. É essa importância da contribuição nacional ao desenvolvimento da arte da bola – na contramão do desinteresse e insucesso americano pelo ‘soccer’ – que o transforma em via de expressão da cultura brasileira em toda a parte.
Wisnik criou uma relação entre arte erudita e a prática esportiva, que explica a subjetividade da cultura nacional. “O futebol alemão é uma prosa realista; o italiano, uma prosa estetizante, e o brasileiro pura poesia”. Segundo o pensador, essa característica poética é justamente atravessada pela narrativa que liga o futebol ao teatro. Ambos podem ser épicos, trágicos, líricos ou uma paródia: não dependem diretamente do resultado final, do número – de gols ou de público –, mas sim, da atuação de seus integrantes.
Essa união do popular com o erudito, que se repete na música, por exemplo, não se assemelha a nenhum outro movimento cultural no mundo. A música de beira da praia de Tom Jobim, fortemente influenciada pelo maestro Villa-Lobos, que, por sua vez, foi grande admirador do chorão Pixinguinha. “Tente explicar essa relação para um francês…. nunca vão entender”.
No cinema, falta a marca de brasilidade
Pedro Butcher deixou clara sua opinião de que, ao menos no cinema, o Brasil não conseguiu impor sua personalidade. À exceção do Cinema Novo – liderado por Glauber Rocha na efervescente década de 60 – , a sétima arte nacional não imprimiu originalidade ao produto. Ao mesmo tempo que não soube reinventá-lo a partir dos modelos já existentes, como fizeram os filmes de ação asiáticos, que “obrigaram a industria americana a remoldar-se”.

Pedro Butcher criticou a falta de identidade do cinema nacional
Para o crítico de cinema, a melhor característica da atual fase brasileira de produção cinematográfica é a tendência à democratização, desenhada pelas tecnologias digitais e a facilidade de acesso. “A nova hegemonia da Rede Globo é mastodôntica e corre sério risco de se destruir quando houver um enorme espaço a se preencher”, disse.
É também a Internet que possibilita o acesso as grandes referencias do cinema. “Vejo muitos jovens críticos de cinema – gente de 20 anos – que tem um largo conhecimento, que, na minha época, só podia ser atualizado através dos cineclubes”.
Zé Celso é a contemporaneidade em pessoa
Se a contemporaneidade nada mais é do que uma intensa e constante tensão entre as diversas tendências, ela está presente na arte brasileira desde sempre, que se constituiu a partir da diversidade. E na noite de terça-feira, 19, o público pôde presenciar uma delas, ao vivo. Zé Celso Martinez, antológico diretor teatral que ajudou a fundar o movimento tropicalista com a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, que revolucionou as artes cênicas, forjando a brasilidade nos palcos.

Zé Celso: a encarnação da contemporaneidade
E foi no clima tropicalista que ele abriu sua fala: “Gosto de ser brasileiro como o Glauber falava: com ‘Z’ e ‘Y’”. Zé Celso é a personificação do conceito de contemporâneo: sabe o que quer dizer, mas fala de uma maneira nada linear e acaba trasnmitindo sua mensagem mesmo sem deixar claro o raciocínio que pretende fazer.
O artista passeou por diversos assuntos. Atualizou a história do Teatro Oficina, que estréia essa semana a montagem completa de Os Sertões, de Euclides da Cunha, preparada durante os seis últimos anos. Cada um dos cinco capítulos virou uma noite de espetáculo, assim que a peça começa na quarta-feira e termina num domingo. O mais curto dos textos dura 3h30 e os mais longos (os dois últimos), 6h.
Zé Celso ainda defendeu suas idéias de criação, por parte do Oficina, do Teatro Estádio – “porque a arte chega sim à multidão – e da Pluriversidade Brasileira – “para formar líderes”. Cantou Primavera, como se fosse uma ode à esperança, em homenagem à nova estação que chega, ao colega e amigo Wisnik – autor da canção.
Cutucou a classe política, defendendo que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), as maiores facções do crime organizado em São Paulo e Rio de Janeiro “demonstram que ainda há vida no país”. “É impossível viver sob o domínio do capitalismo, onde tudo se reduz a guetos, e as pessoas estão proibidas de se encontrar”, atacou. E completou “Nossa língua permitiu a aproximação entre PODER e PHODER, com PH mesmo, que e a mesma coisa!”.
Ainda falando sobre marginalidade, Zé Celso foi aplaudido ao defender a legalização das drogas, sob o argumento de que morre-se muito menos de overdose do que de tiro: “A droga não é uma questão policial, é sim, cultural e educacional”.

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