
Caminha começou por volta das 7h na BR-290 (Foto: Daniel Cassol/Divulgação)
Helen Lopes
O sol estava nascendo na manhã do Feriado de 15 de novembro, quando mais de 500 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) – cerca de 100 crianças – começaram uma caminhada rumo ao trevo de Charqueadas, na BR-290 com a RS-401, última parada antes do destino final: a fazenda Cabanha Dragão, em Eldorado do Sul.
O MST saiu do Km-139 da BR-290, no município de Arroio dos Ratos, por volta das 7h da manhã. A reportagem do JÁ encontrou os sem-terra às 8h30. Nessa hora e meia, já tinham percorrido quase dois dos oito quilômetros previstos. Quem passava na estrada identificava a mobilização a partir de uma carroça com a bandeira vermelha do Movimento.
Um carro de som dava o ritmo da mobilização. “Estão cansados?”, pergunta uma das coordenadoras. “Não”, gritam os sem-terra, organizados em duas fileiras no acostamento da via. Alguns metros adiante, o carro da polícia rodoviária desvia o trânsito.
A caminhada segue em ritmo rápido, apesar dos rostos marcados pelo sol, testas franzidas, suor escorrendo e pés marrons de poeira. Às vezes se houve apenas o barulho do arrastar dos chinelos ou uma foice roçando no asfalto, em outros momentos, palavras de ordem.
Nesse meio tempo, Ana Hanauer e Mauro Cibulski, coordenadores estaduais do MST, explicam à imprensa o porquê da mobilização. A reivindicação é que o Governo Federal cumpra a meta estabelecida pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) de assentar 1.070 famílias em 2006. Há menos de dois meses do final do ano, apenas 98 famílias foram assentadas no Estado.
“Também pedimos a liberação de R$ 2,4 milhões, repassados da União ao Governo do Estado, que nos últimos quatro anos não assentou nenhuma família”, afirma Mauro. Em Eldorado do Sul, o MST quer a desapropriação da Fazenda Dragão, de 760 hectares.
Propriedade de um jordaniano, que está envolvido num inquérito policial por tráfico de droga, a área chegou a ser vistoriada, mas como o MST ocupou a fazenda em junho de 2005, a vistoria foi suspensa pelo Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRF), com base na lei que impede a desapropriação de áreas ocupadas pelos sem-terra.
“Esse local serve ao crime organizado e à lavagem de dinheiro do tráfico. Deveria beneficiar dezenas de famílias”, diz Ana Hanauer, lembrando que a mídia negligencia essa parte da história. “Não esperamos outra posição, pois a imprensa é financiada pelo grande capital, só enxerga nossos pontos negativos. Temos problemas, sim e são muitos, mas temos também muitas coisas que dão certo”, sustenta Ana, natural de Roque Gonzáles, que está há 10 anos no Movimento.

Ao chegar na beira da estrada, em menos de uma hora as barracas estavam quase prontos (Foto: Helen Lopes/JÁ)
Após três horas e meia de caminhada, às 10h30, o grupo chega ao destino e começa levantar acampamento – o material já estava lá, fora levado por caminhão. Em menos de uma hora, as barracas estão quase montadas, um poço começa a ser limpo e o almoço preparado. Ana passa instruções aos colonos, que vêm de três acampamentos – Nova Santa Rita, Charqueadas e Arroio dos Ratos –, indicando o ponto em que cada grupo vai se instalar.
Os coordenadores do MST anunciam que ficam por tempo indeterminado na beira da estrada do trevo de Charqueadas, mas uma das integrantes do setor de alimentação dá a dica. “Temos comida para mais ou menos uma semana”.

Ao fundo, os fardos de arroz, farinha e feijão (Foto: Helen Lopes/JÁ)
A pedagoga que virou professora do MST
Integrada à marcha, encontramos a pedagoga Julia, professora da rede estadual em Mato Grosso. Aos 42 anos, ela decidiu mudar de vida e passou a educar os filhos dos sem-terra no Rio Grande, seu estado natal. Depois de criar os dois filhos homens, ela e o marido partiram em busca da “realização pessoal”. Ela garante que a família apóia. “Entendem que o importante é que eu esteja feliz”, conta.
Julia explica que “sempre sentiu uma inquietação, queria ajudar a construir a conscientização coletiva”. Para isso, acha que o ensino é o melhor meio. Há oito meses no Movimento, ela educa 50 crianças na Escola Itinerante do acampamento de Nova Santa Rita, região metropolitana de Porto Alegre. “Trabalhamos com os elementos do cotidiano delas na alfabetização e nas primeiras noções de matemática. Método reconhecido pelo MEC [Ministério da Educação]”, destaca.

Realização pessoal: Julia educa 50 crianças da Escola Itinerante (Foto: Helen Lopes/JÁ)
Na mobilização do dia 15, Julia acompanhava os pequenos que vinham nas carroças no final da marcha – parte das crianças eram levadas no colo ou caminhavam com os pais. Sob calor intenso, ela revezava as garrafas d’água entre elas. Volta e meia, dois homens passavam com um galão de água do poço, trazida do acampamento de Arroio dos Ratos. Era o único refresco ao calor.
Paulo Índio deixou o campo e entrou no Movimento
Em frente às carroças das crianças, um homem aparentando 40 anos leva um menino nos ombros. Ele observa um riacho que cruza a estrada e não resiste ao comentário: “Deve ter uns baita peixe aí”, fala para o amigo. Como a marcha já se aproxima do entroncamento de Charqueadas, os homens deixam a pescaria prá lá.
Um deles era Paulo Roberto, ou Paulo Índio, como é conhecido. A história dele coincide com a de grande parte dos integrantes do MST. Filho de pequenos agricultores que trabalhavam em uma fazenda na região de São Borja, ele e os irmãos ficaram sem nada quando os pais morreram. Decidiram sair do campo.

Em três horas e meia de caminhada, MST chega ao trevo de Charqueadas (Foto: Daniel Cassol /Divulgação)
Na cidade, com pouco estudo e nenhuma qualificação para atividades urbanas, acabaram desempregados e foram morar na favela. “Aquilo não era vida”, recorda. Nessa época, Paulo Índio resolveu se juntar ao MST para reivindicar um pedaço de terra que considera de direito, já que os pais trabalharam a vida inteira no campo.
Há quatro anos e sete meses nos acampamentos do MST, ele diz que recuperou a dignidade e a esperança. “Sonhar é tudo. Dá motivação, um objetivo… Estou preparado para lidar na minha terra, já tenho um cavalo, uma carroça e ferramentas”, conta entusiasmado. Paulo também sente orgulho dos animais que cria com as outras famílias sem-terra, num dos núcleos do acampamento de Arroio dos Ratos, ponto de partida da marcha na segunda-feira, 13 de novembro. “Lá tem galinha e porco”.
Isolde: Da fábrica para de volta para lavoura
Assim como Paulo Ìndio, Isolde teve que sair do interior para buscar colocação na cidade. Ela não tentou a Capital, ficou por Sapiranga mesmo, município onde nasceu. “Trabalhava na indústria, repetia todo dia a mesma coisa. Não era o que gostava, nem o que sabia fazer”, conta.

Isolde: entre um chimarrão e outro, dê olho na construção das barracas (Foto: Helen Lopes/JÁ)
Com o marido e três filhos, Isolde está há três anos e 10 meses no MST. Ela é uma das responsáveis pelo setor de infra-estrutura. Nessa função, não tem cotidiano. Ao chegar no destino da marcha, organizada, Isolde indica quantas são e onde devem ser montadas as barracas. Depois, acompanha a “construção” das moradias provisórias. “Vamos montar 10 barracas aqui na beira da estrada. Esse local é bom, tem sombra e um poço”, explica.

Poço antigo fornecerá água para o acampamento provisório (Foto: Helen Lopes/JÁ)
Estudantes da UFRGS apóiam Reforma Agrária
Cerca de 30 estudantes de vários cursos da UFRGS montaram um grupo de apoio à Reforma Agrária, o Garra. A iniciativa surgiu a partir da crítica ao projeto de extensão da Universidade. “Era superficial, conhecíamos a realidade, mas não interagíamos com ela”, conta Eduardo Ruppental, de 25 anos, filho de pequenos agricultores de Lajeado e estudante de Biologia.
Os acadêmicos montaram um seminário com representantes do MST e professores, para começar a conhecer o Movimento, depois, fizeram um estágio de vivência de 15 dias no assentamento de Nova Santa Rita e hoje acompanham os sem-terra nas atividades. Ajudam na construção das casas dos assentamentos, ensinam a fazer viveiros, a instalar as fossas e a fazer os poços.

Eduardo: “aprendemos com a experiência de vida deles” (Foto: Helen Lopes/JÁ)
“Na verdade, aprendemos muito mais do que ensinamos, é uma troca de conhecimento. Nos assentamentos, pedimos para que cada um desenhe como imagina seu lote e depois, vamos indicando onde é melhor colocar a fossa, por exemplo”, conta.
Além da orientação, os alunos estão tentando montar uma feira ecológica no Campus do Vale, só com produtos dos assentamentos. Algumas edições já foram realizadas, mas o bar do Campus reclama da concorrência. “Os colegas gostam, sai tudo que levamos”, comemora Ruppental.
Quando conseguem, as feiras acontecem nas quartas-feiras, das 10h às 16h. Também participam do Garra acadêmicos de Veterinária, Ciências Sociais, Jornalismo, entre outros cursos.
Húngaro pesquisa MST
O antropólogo húngaro Gábor Halmai, de Budapeste, está no Estado há um mês para conhecer as práticas dos movimentos sociais brasileiros contra o neoliberalismo. O pesquisador explica que sua tese de doutorado busca identificar semelhanças e diferenças entre as manifestações latino-americanas e as da Europa ocidental.

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