Vendavais catastróficos ocorrem 10 vezes por ano no Sul do Brasil

Geraldo Hasse
Em sua primeira palestra pública sobre as mudanças climáticas, tema de seu mestrado, a geógrafa Flávia Dias de Souza Moraes mostrou a uma plateia de 160 pessoas na noite de segunda-feira (11) que o vendaval de 29 de janeiro em Porto Alegre é um fenômeno recorrente que acontece dez vezes por ano, em média, no Sul do Brasil, alcançando até o Paraguai.
A tendência é que ocorram principalmente nos meses de maior calor – de outubro a abril.
Convocado pela Associação Gaúcha Para a Proteção do Ambiente Natural (Agapan), o debate sobre a arborização da capital em tempo de mudanças climáticas lotou o auditório da Faculdade de Arquitetura da UFRGS.
Com a segurança de uma veterana, a jovem estreante explicou que os tais vendavais catastróficos foram batizados com um nome técnico (complexos convectivos de mesoescala, CCM) mas podem ser chamados simplesmente de “nuvens de tempestade”.
Armam-se ao entardecer e desabam até a meia-noite, durando cerca de seis horas.
As fotos de satélite (tiradas a cada 30 minutos) indicam que o CCM de 29 de janeiro cobriu uma área de 390 mil quilômetros quadrados (maior do que o Rio Grande do Sul, cujo território ocupa 287 mil km²) e tinha um núcleo de quatro quilômetros de largura que desabou exatamente sobre o centro de Porto Alegre.
No Menino Deus, os ventos chegaram a 150 km/h. “São ventos que varrem, não são ventos que sugam, como os dos tornados”, explicou Flávia.
Com fotos e gráficos, a geógrafa da UFRGS mostrou que o fenômeno dos CCMs resulta de uma combinação de altas temperaturas na superfície terrestre (entre 30/36 graus C) com a intensa circulação de umidade marinha e da Amazônia, formando nuvens cujo topo alcança temperaturas baixíssimas (-52 graus C).
O fenômeno é previsto, descrito e diagramado pelos meteorologistas, mas sua intensidade é imprevisível. No caso de 29 de janeiro, explicou Flávia, “foi uma microexplosão com duração de 20 minutos”, cujo núcleo caiu em cima do Parque da Redenção e arredores.
Foi azar de Porto Alegre, mas pode acontecer de novo com danos muito maiores do que apenas 45 feridos e 3 mil árvores atingidas.
Não há dúvida de que os CCMs são a novidade climática trazida pelo aumento da temperatura na superfície terrestre. “O aumento da temperatura na superfície terrestre é o combustível dos CCMs”, disse Flávia, concluindo: “Temos que nos preparar”.
TIPUANAS E JACARANDÁS, ADEUS

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Plateia cheia mostra que Agapan se revigora como movimento em defesa do ambiente urbano

Tanto as palestras como as manifestações do auditório se ativeram à pauta sugerida pela Agapan, cuja militância está se revigorando diante das evidências de que as árvores de Porto Alegre são as vítimas preferenciais tanto das mudanças climáticas quanto da negligência dos gestores públicos.
A defesa das árvores foi estopim do processo de conscientização ambiental promovido pela Agapan, fundada em 27 de abril de 1971 por Augusto Carneiro, José Lutzenberger e um grupo de pessoas preocupadas com a preservação da vida no planeta.
O sentimento dominante no auditório da Arquitetura era de que os cidadãos conscientes dos riscos climáticos e dos problemas ambientais precisam juntar forças para agir, pois a ação dos gestores públicos tem ficado aquém das necessidades.
No caso da arborização, prevaleceu a palavra do biólogo Paulo Brack, da UFRGS, que sugeriu aos portoalegrenses começar a dizer adeus às árvores de grande porte que ocupam as calçadas da capital, colocando em risco não apenas a vida das pessoas, mas o patrimônio público e particular (fios, cabos, postes, tubulação subterrânea, carros, muros e telhados).
“A tipuana é linda, mas não dá mais”, disse ele. “O jacarandá, uma pena”.
Ele não chegou a fazer uma lista, mas lembrou que as dez árvores mais plantadas em Porto Alegre são exóticas como a tipuana, nativa das planícias andinas introduzida no paisagismo urbano a partir dos anos 1940.
“É hora de começar o plantio de árvores de pequeno porte”, recomendou o professor de Biociências e dirigente do Instituto Ingá, lembrando que o mínimo que a prefeitura pode fazer, nesse caso, é montar uma lista das espécies mais indicadas e facilitar à população a participação no processo de plantio e manutenção do arvoredo urbano.
Como fazer isso é uma dúvida, pois os funcionários municipais que assistiram à fundação da Agapan se aposentaram sem que a prefeitura tenha feito a reposição desse pessoal especialista em manejo arbóreo.
Paulo Brack citou um antigo viveiro municipal que “tinha 70 funcionários e hoje tem meia dúzia de pessoas”. Segundo Brack, “há na prefeitura uma ação deliberada para dificultar o planejamento ambiental”.
CONDOMÍNIOS DEVASTADORES
A vereadora Fernanda Melchionna (PSOL) fez uma intervenção-relâmpago para condenar o comportamento da administração da capital em favor da construção imobiliária do sucateamento do sistema de controle ambiental do município, do que resulta a “vista grossa” diante de projetos de condomínios residenciais que avançam sobre a zona rural do município.
Segundo a vereadora, os ambientalistas estão particularmente espantados com o Pontal do Arado (246 hectares), que prevê cerca de 2,3 mil residências em áreas alagadiças onde estão projetados aterros de dois metros de altura.
“Cabe ação civil pública contra o projeto do Pontal do Arado”, afirmou Melchionna, levantando a bola para outras intervenções sobre a participação popular na gestão do meio ambiente.
Leonardo Melgarejo, presidente da Agapan, lembrou que ao completar 45 anos a instituição fundada pelo agrônomo José Lutzenberger está disposta a recuperar o ativismo ecológico que colocou o Rio Grande do Sul na vanguarda das lutas ecológicas nos anos 1970.
Só que agora, considerando o agravamento da crise ambiental em face das mudanças climáticas, a Agapan quer mudar seu modo de lutar: “Nosso papel agora deve ser de articulação dos grupos envolvidos nas questões ambientais”.
VAI TER FESTA
Para o final do mês, a Agapan está programando uma série de ações populares em comemoração ao seu aniversário. No dia 23, às 10 horas da manhã, vai partir um bolo na feira ecológica  da rua José Bonifácio.
À tarde, participa do abraço ao Cais Mauá. No dia 27, haverá uma programação especial cujos detalhes ainda não foram divulgados, mas vai ter festa.

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Comentários

2 respostas para “Vendavais catastróficos ocorrem 10 vezes por ano no Sul do Brasil”

  1. Avatar de Flávia Moraes
    Flávia Moraes

    Olá Sr. Geraldo, obrigada pelo texto. Sou a Flávia, pesquisadora que fez a palestra. Apenas preciso fazer algumas correções dos termos utilizados para que os conceitos fiquem claros na matéria. Não sei se você poderá editar o que já está publicado, então esclareço aqui:
    – o que ocorrem 10 vezes no Sul do Brasil são os eventos chamados Complexos Convectivos de Mesoescala (CCMs) e não os vendavais;
    – esses CCMs podem estar associados a vendavais, precipitação extrema, granizo, inundações, mas não necessariamente todos esses fatores juntos;
    – o tema do meu mestrado foi eventos extremos no Sul do Brasil e não mudanças climáticas;
    – o vendaval específico do dia 29/1 foi singular, não é recorrente, o que é recorrente é o evento do tipo CCM;
    – os CCMs são formados por “nuvens de tempestade”, as cumulonimbus, mas não são chamados assim;
    – o evento do dia 29/1 não tinha um núcleo de 4km, esse valor de 4km foi a área aproximada que a microexplosão, associada ao CCM, atuou em POA;
    – os valores de tempertura de 30/36 graus e -52 graus foram específicos do CCM do dia 29/1, não necessariamente todo CCM é formado com essas temperaturas;
    – ao invés de dizer “O fenômeno é previsto, descrito e diagramado pelos meteorologistas” o correto seria dizer que o fenômeno é rastreado pelos meteorologistas;
    – o núcleo da microexplosão não foi localizado, então não se pode afirmar que “núcleo caiu em cima do Parque da Redenção e arredores”, essas foram áreas mais atingidas;
    – Por fim, os CCMs são alimentados por altas temperaturas, umidade, baixas pressões etc., ligados à circulação atmosférica da América do Sul, ou seja, não são novidades resultantes direta das mudanças do clima, mas podem ser alimentados pelo aumento de temperatura e umidade que estão ocorrendo e, então, podem se tornar mais intensos e até mais frequentes.
    Achei importante esclarecer, pois sei que é um tema complexo e é preciso que as pessoas saibam alguns dos seus conceitos básicos.
    Obrigada!
    Flávia Moraes

  2. Avatar de Flávia Moraes
    Flávia Moraes

    Olá Sr. Geraldo, obrigada pelo texto.
    Apenas vou fazer alguns esclarecimentos de termos para que os conceitos fiquem claros. Não sei se você poderá editar o que já está publicado, então esclareço aqui:
    – o que ocorrem 10 vezes no Sul do Brasil são os eventos chamados Complexos Convectivos de Mesoescala (CCMs) e não os vendavais;
    – esses CCMs podem estar associados a vendavais, precipitação extrema, granizo, inundações, mas não necessariamente todos esses fatores juntos;
    – o tema do meu mestrado foi eventos extremos no Sul do Brasil e não mudanças climáticas;
    – o vendaval específico do dia 29/1 foi singular, não é recorrente, o que é recorrente é o evento do tipo CCM;
    – os CCMs são formados por “nuvens de tempestade”, as cumulonimbus, mas não são chamados assim;
    – o evento do dia 29/1 não tinha um núcleo de 4km, esse valor de 4km foi a área aproximada que a microexplosão, associada ao CCM, atuou em POA;
    – os valores de tempertura de 30/36 graus e -52 graus foram específicos do CCM do dia 29/1, não necessariamente todo CCM é formado com essas temperaturas;
    – ao invés de dizer “O fenômeno é previsto, descrito e diagramado pelos meteorologistas” o correto seria dizer que o fenômeno é rastreado pelos meteorologistas;
    – o núcleo da microexplosão não foi localizado, então não se pode afirmar que “núcleo caiu em cima do Parque da Redenção e arredores”, essas foram áreas mais atingidas;
    – Por fim, os CCMs são alimentados por altas temperaturas, umidade, baixas pressões etc., ligados à circulação atmosférica da América do Sul, ou seja, não são novidades resultantes direta das mudanças do clima, mas podem ser alimentados pelo aumento de temperatura e umidade que estão ocorrendo e, então, podem se tornar mais intensos e até mais frequentes.
    Obrigada!
    Flávia Moraes

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