Geraldo Hasse
“Isso me entristece profundamente”, disse o professor Anselmo Kuhn, presidente da Federação Apícola do Rio Grande do Sul (FARGS), diante das ruínas do Parque Apícola de Taquari, criado em 1929 e fechado por falta de recursos há cerca de cinco anos pela Fundação de Pesquisas Agropecuárias (Fepagro), extinta este ano pelo governo do Estado.
A última vez que Kuhn esteve lá foi há uns 15 anos, quando guiou ao local uma turma de alunos da Escola Técnica Agrícola de São Leopoldo, onde lecionou até se aposentar.
Recebido pelo agrônomo Caio Efrom, diretor do Centro de Pesquisas Emilio Schenk, Kuhn visitou o local na última quinta-feira, 7/12, para avaliar a possibilidade de reativar o parque apícola por sua importância na história do desenvolvimento da tecnologia da criação de abelhas.
“A FARGS tem interesse em recuperar o parque por razões culturais, mas só poderemos fazê-lo por meio de parcerias porque não temos recursos financeiros”, diz ele, lembrando que o local possui inegáveis atrativos como ponto de turismo agrocultural, já que Taquari é considerado o berço da apicultura racional no Rio Grande do Sul.
Pioneirismo

Foi nesse reduto cercado por cítricos, eucaliptos e vegetação nativa que o apicultor alemão Emilio Schenk ensinou técnicas apícolas a milhares de pessoas ao longo da primeira metade do século XX.
Num esforço pedagógico que se estendeu de 1903 a 1946, Schenk ministrou cursos, distribuiu mais de um milhão de abelhas-rainha e difundiu um modelo de colmeia que leva seu nome.
Bastante usada por apicultores amadores por ser adequada para o clima frio, a colmeia Schenk foi superada pela americana Langstroth, que se tornou padrão mundial.
O parque apícola ocupa pouco mais de um hectare. Já se desmanchou o rancho de pau-a-pique onde tudo começou no início do século XX, quando Schenk acampou no local e iniciou seu trabalho como apicultor disposto a dividir seus conhecimentos com a vizinhança.
Já em 1923 ele publicou a primeira edição do livro O Apicultor Brasileiro, largamente difundido no Brasil.

Respeitado, ele arranjou recursos para construir o que ainda hoje se configura como um complexo de ensino e pesquisa de apicultura.
Constituído por uma casa de centrifugação de mel, uma casa de laminação de cera e um laboratório de criação de abelhas-rainha, o parque foi incorporado ao Centro de Pesquisas da Fepagro em 1994, quando este era dirigido pelo professor Aroni Sattler, da UFRGS, que permanece em atividade como a maior referência científica da apicultura no Rio Grande do Sul.
Parque apícola está abandonado

Na casa originalmente usada pela administração do parque apícola, chegou a ser montado um museu que não resistiu ao gradual abandono – ultimamente se tornou refúgio de corujões e morcegos.
O que resta do acervo de livros e revistas jaz numa sala com goteiras, teias de aranha e ninhos de cupins. Não há funcionários para zelar pela conservação do material. Alguns equipamentos foram danificados ou desfalcados por ladrões do patrimônio público.


O efetivo do centro de pesquisas de Taquari, que já foi uma ativa colmeia lotada por 100 pessoas, está reduzido a 14 funcionários colocados pelo atual governo estadual num quadro de pessoal em extinção, ou seja, não podem ser sequer substituídos, caso resolvam sair por aposentadoria ou renúncia aos seus cargos.
Na prática, o pessoal da Fepagro está num regime do “salve-se quem puder”.
Na apicultura, mantém-se ativa apenas a bióloga Sidia Witter, que estuda as abelhas nativas, que produzem pequenos volumes de mel mas são fundamentais na polinização da flora.
Na quarta-feira, 6 de dezembro, o pessoal remanescente do centro de pesquisas de Taquari passou o dia ajudando a Brigada Militar a desalojar um pequeno contingente de pessoas que, em nome do MST, havia montado barracos dentro do perímetro de 460 hectares.
A prefeitura de Taquari, que prometeu ajudar na ingrata tarefa de expulsar os invasores, não enviou o apoio esperado. Recentemente, mandou um ofício pedindo a devolução de sua parte na área compartilhada com o Estado. Segundo Caio Efrom, essa parceria é tão antiga que ninguém sabe a quem exatamente correspondem as duas áreas – uma de 199 ha, a outra de 261 ha.
No fundo, esse detalhe burocrático é um dos fatores capazes de complicar qualquer nova iniciativa para reativar o parque apícola.
Além disso, há outras questões bem mais densas. Por exemplo, qual o custo da eventual restauração dos prédios deteriorados? Os equipamentos ainda poderiam ser usados ou perderam a validade? E, mais, como manter tal patrimônio histórico? “A FARGS pode organizar cursos e eventos aqui, mas não tem recursos para manter sequer um guarda nesse local”, admite Kuhn.
Assembleia discute planos de recuperação
Líder nacional na produção de mel, com 30 mil apicultores ativos, a maioria pequenos “tiradores de mel” – amadores também chamados de “gigolôs de abelhas” -, o Rio Grande do Sul possui um grupo de apicultores de alto nível profissional que, além de abastecer o mercado interno, têm condições de exportar.
Falta-lhes, porém, a união necessária para empreitadas como a recuperação do berço de Taquari, um dos assuntos da pauta da assembleia geral da FARGS convocada para este sábado, dia 9, nas dependências da UFRGS em Eldorado do Sul.
A federação representa 90 associações apícolas municipais ou regionais.
Destas, apenas 60 estão com as prestações em dia, situação que ainda reflete a crise conjuntural que atingiu a apicultura há dois anos, quando metade das 400 mil colmeias existentes no estado morreu por causas associadas ao clima. Hoje se acredita que a infraestrutura apícola já se recuperou, mas a atividade vive naturalmente de altos e baixos determinados pelo comportamento da Natureza.
Este ano, explica Kuhn, caiu a quase zero a produção de mel de laranjeira, por excesso de chuvas na época da florada dos cítricos. Em compensação, a região que mais produziu mel na temporada 2017 foi justamente a região de Taquari, onde há milhares de capões de eucaliptos de diversas idades e variedades.
Embora não haja um levantamento fidedigno sobre a contribuição de cada espécie vegetal para a produção de mel no estado, Kuhn afirma que os eucaliptos respondem por cerca de 60% do total: seriam 5 mil toneladas anuais de um total de 8 mil toneladas/ano, volume que representa cerca de 20% da produção nacional (40 mil t/ano). .
Apicultor residente em Novo Hamburgo, onde envasa o Mel Lomba Grande, Kuhn possui 400 colmeias espalhadas entre Butiá (nos eucaliptais da Celulose Riograndense), Montenegro (em pomares de cítricos) e Cambará do Sul (matas nativas dos Campos de Cima da Serra). É um profissional de médio para grande. Entre os maiores costuma ser citado Gerson Ferstenseifer, produtor do Mel Tio Gerson. Originário de Arroio do Meio, ele tem mais de duas mil colmeias na região de Bagé, onde passou a trabalhar há 30 anos.
A região da Campanha é a mais próspera produtora de mel do RS, atualmente. Destacam-se Santiago, Santana do Livramento, Dom Pedrito, São Borja e São Gabriel, que sedia a Cooperativa de Apicultores do Pampa (Coapampa).
Aposentado como professor de técnicas agropecuárias, Kuhn ocupa pela primeira vez a presidência da FARGS – seu mandato vai até o inverno de 2019. No congresso em que foi eleito, em agosto, em São Gabriel, a reativação do parque apícola de Taquari já provocou alguns debates entre os associados.

Na visão de Kuhn, a reativação do parque apícola de Taquari pode ser o estopim de uma arrancada profissionalizante na apicultura do sul do país. Ele mesmo acredita na perspectiva de se montar no âmbito da FARGS um grupo técnico para dar cursos sobre a apicultura racional. “O mel está num bom momento, com bons preços ao produtor”, diz ele, lembrando que há diversas outras questões que precisam ser tratadas com muito cuidado. A mais delicada é a convivência da apicultura com os venenos usados por agricultores submissos aos pacotes tecnológicos dos trustes do agronegócio. Em Santiago, existe um grupo de apicultores que vem convivendo harmoniosamente com produtores agrícolas. Quando estes programam pulverização tóxica em lavouras, os criadores de abelhas são alertados a tempo de remover seus apiários dos locais perigosos.
Um dos maiores entusiastas da reativação de Taquari é o biólogo Flavio Silva, apicultor em Bagé e membro da comissão científica da FARGS. Ele foi um dos produtores que há dois anos fizeram uma visita de surpresa ao Centro de Pesquisas da Fepagro em Taquari com a intenção de avaliar o estado dos equipamentos de manipulação de mel e cera deixados ali por Emilio Schenk, que morreu em 1946, quando revisava a terceira edição de seu livro O Apicultor Brasileiro.
Para alguns associados da FARGS, como o próprio presidente, não há melhor lugar no Rio Grande do Sul para difundir a apicultura, que se desenvolveu ali também porque Taquari foi um polo de citricultura, de onde os cítricos se espalharam para outros municípios situados nos vales dos rios vizinhos. Houve um momento no final dos anos 1920 em que Taquari chegou a ter uma faculdade de agronomia, fechada por falta de recursos do governo estadual. Emilio Schenk foi um dos cabeças desse momento fugaz.
Foi ele quem montou a primeira laminadora de cera a operar no Estado, lembra Kuhn. Até cinco anos atrás, a máquina era usada em benefício de apicultores da região, afirma Caio Efrom. Qualquer iniciativa depende da vontade da Secretaria da Agricultura, herdeira das estações experimentais da Fepagro. O problema é que, no momento, a Secretaria só tem recursos para a manutenção básica de suas operações.
Mais antiga do que o legado técnico e espiritual de Emilio Schenk em Taquari, segundo Kuhn, é a herança cultural e material deixada em Rio Pardo por Frederico Augusto Hannemann, mestre apicultor alemão considerado o pioneiro da apicultura rio-grandense. Em sua Fazenda Abelina, Hannemann montou em 1865, com peças importadas da Alemanha e complementos feitos por ele com madeira, a primeira centrífuga de mel a operar no Rio Grande do Sul. Era uma máquina manual acionada por uma prosaica corda. Esse e outros equipamentos são conservados em Rio Pardo, o primeiro berço da apicultura.
Bem ou mal, Schenk e Hannemann ensinaram a chacareiros, sitiantes e fazendeiros os segredos da criação das abelhas e da extração de mel, própolis e cera. De Schenk, falecido há 70 anos, ainda se ouvem histórias deixadas por seus discípulos ou parceiros.
Apicultores veteranos citam nomes de líderes da apicultura como José Muxfeldt (Porto Alegre), Eduardo Vidra (Taquara) e de Bruno Schirmer, editor do jornal A Colméia, que nasceu em Santa Maria e morreu em Canoas, onde também operava o russo Roberto Grunupp, imigrante excêntrico que importava abelhas-rainha de várias partes do mundo e se tornou popular por ser… avô da atriz Elke Maravilha (1945-2012).
Um dos nomes que permanecem na memória dos praticantes da apicultura é o de um criador de abelhas-rainhas da Vila IAPI, em Porto Alegre. Todos o conheciam por Trainini. Parece lenda, mas a lembrança tem fundamento: o sobrenome Trainini consta como fabricante de antigos aparelhos apícolas ainda existentes em perfeito estado no parque de Taquari.
Não seria esta uma boa razão para pensar no restauro do berço da apicultura rio-grandense?

Viagem ao berço destruído da apicultura gaúcha
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