Um abrigo antiaéreo sob o viaduto Otávio Rocha, na Borges de Medeiros?
Sim, este projeto existiu. Foi em 1942, o Brasil havia entrado na guerra contra o nazismo. Os exércitos italiano e alemão bombardeavam embarcações brasileiras no Atlântico.
O medo de que a guerra chegasse até aqui era real. A construção de bunkers nos subsolos de edifícios e de caminhos subterrâneos ligando o Centro e a Cidade Baixa era projeto do prefeito Loureiro da Silva, atendendo as determinações da Presidência da República.

No dia 10 de setembro, foi realizado o primeiro exercício de defesa antiaérea, um blecaute. Uma velha sirene foi instalada na torre da Hidráulica dos Moinhos de Vento.
Ao aviso, todas as luzes da cidade foram apagadas, quem estava na rua correu para se abrigar, os motoristas pararam os automóveis. Após soar o segundo sinal, as luzes foram acesas e a cidade voltou à normalidade. O exercício foi considerado um sucesso.
No final daquele mês, Porto Alegre deu início a seu mais ousado projeto na defesa antiaérea: um bunker no Viaduto Otávio Rocha com capacidade para 1.200 pessoas. As arcadas laterais foram cobertas por altos muros. A Prefeitura apontou 22 edifícios da região central da cidade que teriam os subsolos transformados em refúgios para bombardeios. Foram construídos abrigos em instituições de caridade, como o Asilo Providência, o Orfanato Pão dos Pobres e as creches São Francisco e Navegantes, além do Colégio Americano. Porto Alegre tinha capacidade para abrigar cerca de 13 mil pessoas na eventualidade de um bombardeio. A população total da cidade era de 300.000 habitantes
“Abrigos contra explosões e gases”
A defesa antiaérea tornou-se “encargo necessário à defesa da Pátria”, pelo decreto 4.098, do presidente da República, em 6 de fevereiro de 1942. Estabelecia obrigações aos cidadãos e órgãos públicos. A União, Estados e Municípios deviam construir “para proteção da população, abrigos contra explosivos e gases”. Edifícios a partir de cinco andares e locais como hospitais, hotéis, escolas e indústrias, tinham que providenciar bunkers.
As empresas tinham que financiar o material para defesa dos funcionários, dos quais seriam descontados depois. Os homens em idade adulta que não estivessem servindo ao exército deveriam desempenhar as funções “determinadas pelos órgãos executores”, como enfermagem, limpeza pública, policiamento e construção de trincheiras. Jornais e revistas ficavam obrigados a transmitir gratuitamente comunicados do Ministério da Aeronáutica.
A sociedade porto-alegrense se mobilizou na defesa. Ao menos duas campanhas foram lançadas para arrecadar fundos: uma capitaneada pelo jornal Correio do Povo que buscava fundos para construção de abrigos antiaéreos, e outra, do Sindicato dos Metalúrgicos, que juntava dinheiro para ajudar a FAB a adquirir caças.
Para o historiador Fernando Cauduro Pureza é difícil precisar o quão espontânea era esta mobilização. “Era época do Estado Novo, um estado autoritário, havia muito controle da imprensa. Então essa mobilização que se vê nos jornais era um discurso muito oficial”, afirma o doutor em história, que abordou em sua dissertação de mestrado os impactos da Segunda Guerra na vida dos trabalhadores de Porto Alegre.
As contribuições vinham de todas as partes e o jornal fazia o balanço nas edições dominicais. Nas fábricas e locais de trabalho tornaram-se comuns as campanhas para arrecadar doações. Uma comissão de funcionários do Banco do Rio Grande do Sul deu 4:000$000 (quatro contos de réis), a Guarda Civil e funcionários de diversas empresas contribuíram com um dia do ordenado. Os operários da pedreira da Serraria também se somaram à campanha. Ofereceram o resultado de um dia inteiro de trabalho: 1.130 pedras lapidadas para a construção de bunkers. “Havia uma mobilização popular, agora, se ela fazia o cara que tinha seus vencimentos mais constrangidos pela economia de guerra doar, aí já não sei. Podem até ter sido voluntário, mas havia pressão do Estado e dos patrões, principalmente o empresariado alemão, que tentava se desvincular da pecha de apoiadores do Eixo”, questiona o historiador. No final da campanha haviam sido arrecadados 460:521$600 (460 contos, 521 mil e 600 réis). O valor estimado pela interventoria federal para a construção de diversos bunkers em asilos e orfanatos era de 20:000$000.
A campanha arrecadou um valor muito maior, porém, não se sabe ao certo quantos abrigos foram construídos com o recurso. Como Porto Alegre não foi alvo de nenhum ataque aéreo durante a guerra, o bunker da Borges não chegou a ser testado para sua finalidade original, mas “para fins bem outros que os legítimos”, relatou o jornal Correio do Povo, quando o prefeito Loureiro da Silva mandou desmanchar o abrigo um ano após sua construção. A notícia não deixa claro que fins eram estes, mas fala de razões relacionadas à estética, higiene e bons costumes para o fim do empreendimento.
Alemães afundam “Porto Alegre”
No dia 3 de novembro de 1942, os alemães torpedearam por duas vezes e afundaram o Porto Alegre. Desarmado e sem escolta, o cargueiro, batizado com o nome da capital gaúcha, foi atingido no oceano Índico, próximo à África do Sul. Os torpedos foram disparados pelo submarino alemão U-504. O navio ganhou o nome de Porto Alegre ao ser adquirido pela Companhia Carbonífera Sul Rio-Grandense, em 1933.
Construída em 1921, no estaleiro italiano Cantiere Navale Triestino, a embarcação de 110 metros de comprimento havia sido batizada originalmente como Gilda. O ataque fez apenas uma vítima fatal, o imediato Francisco Lucas de Azevedo. A tripulação era composta por 52 pessoas.
Em julho de 43, após 16 afundamentos, o carrasco U-504 teve seu fim, atacado por corvetas britânicas, no Atlântico Norte.

Dois dias de quebra-quebra
Em 15 de agosto, o exército alemão desfechou uma sangrenta onda de ataques a embarcações brasileiras. Se antes os alvos eram cargueiros, agora eram atacados navios de passageiros, próximos à costa. Em três dias, cinco navios afundados, 610 mortos. A notícia despertou revolta.
Em Porto Alegre, os dias 18 e 19 de agosto foram de quebradeira generalizada. O interventor federal, Cordeiro de Farias, o chefe de polícia do Estado, Aurélio da Silva Py, pouco fizeram para controlar a fúria da massa. Tudo que remetesse aos alemães era alvo. A Casa Guaspari foi depredada e saqueada. Na Casa Lira, na Rua dos Andradas, a coisa foi mais feia. O dono, Reinaldo Langer, era tido como apoiador do Eixo e teria gritado “Viva a Alemanha!”, à chegada dos revoltosos. Entrou para o cacete e a polícia teve de evitar seu linchamento. Só escaparam o Hospital Alemão, que havia adotado a alcunha de Moinhos de Vento, e a fábrica da Renner, que recebeu proteção policial especial. A sociedade Turnerbund tentou desvincular sua origem, mudando o nome para Sociedade Ginástica de Porto Alegre (Sogipa), o que não impediu a depredação. Na Sociedade Germânica, no Moinhos de Vento, a mobília virou fogueira no meio da rua. No quarto distrito, o povo saiu em marcha.
Ruas de nome alemão foram rebatizadas com nome de embarcações brasileiras afundadas na guerra. Alguns permanecem. Avenida Napolitana virou Olinda, Rua Italiana virou Arabutan, a Avenida Germânia virou Cairú.
Um bunker no viaduto da Borges: o ano em que a guerra chegou a Porto Alegre
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Comentários
Uma resposta para “Um bunker no viaduto da Borges: o ano em que a guerra chegou a Porto Alegre”
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Excelente texto e fascinante história. Moro ao lado do Viaduto e nunca imaginei que aqui houvesse tal aparato. Parabéns e sucesso sempre.

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