Geraldo Hasse
No seu terceiro encontro preparatório para o congresso nacional do partido (11 a 14 de junho em Salvador), o PT de Porto Alegre reuniu mais de uma centena de militantes e simpatizantes no sábado (9) para debater como sair do impasse em que se encontra.
Com o auditório do Sindicato dos Bancários quase lotado, o PT da capital gaúcha elogiou o legado de Olívio Dutra e avançou na ideia de renovar a direção nacional do partido, controlada por paulistas, reduzindo a influência pessoal de Lula, apontado como responsável pela indicação do economista Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda.
O encontro privilegiou as manifestações dos deputados federais Paulo Pimenta e Maria do Rosário, além do ex-prefeito e ex-deputado estadual Raul Pont.
Cada um deles teve 15 minutos para expor seus pontos de vista. Em seguida, manifestaram-se 17 pessoas, cada uma com três minutos.
No final, o trio Pimenta, Rosário e Pont teve mais de cinco a dez minutos para uma síntese das propostas levantadas na reunião, considerada bastante convergente e produtiva. A seguir, uma síntese das falas, por ordem de entrada em cena:
RAUL PONT: “PRECISAMOS REVER NOSSAS ALIANÇAS”
Começou recomendando a leitura de um documento de Samuel Pinheiro Guimarães (Impeachment, golpe de Estado e ditadura de “mercado”) publicado em março; e de uma entrevista de Leda Paulani, economista da USP, que se declarou “bastante decepcionada” com os rumos do segundo governo de Dilma.
“Depois de 12 anos vividos no comando do país, eu partilho da tese de que o partido precisa mudar principalmente em relação ao delineado em 2003 quanto ao pragmatismo em favor da governabilidade”, introduziu.
“As alianças feitas com o centro e a direita não nos atendem e cobram um preço programático e ideológico. Acredito que vivemos uma transição da qual precisamos sair com uma alternativa para 2018”, defendeu.
Segundo Pont, a experiência dos governos petistas de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul mostra que é possível executar o que classificou como “uma nova política”. “Nem precisamos fazer orçamentos participativos bonitinhos, mas não podemos depender do PMDB, essa federação melequenta com quem não é possível tocar nenhum projeto de futuro”, alfinetou.
O ex-deputado foi duro com o sistema de alianças à direita: “são danosas” e sugeriu formar uma frente o PSol e o PCdoB – “sem abandonar o centro trabalhista e mantendo conversas com esses partidos republicanos que estão por aí meio sem rumo”.
Lembrou que o partido enfrenta um momento delicado, “só com fatos negativos contra nós”: a crise internacional, “a tragédia” da Petrobras, derrotas na Câmara e no Senado, as dificuldades com a opinião pública.
“E temos de agir logo porque a companheirada do interior já está ligando para saber com quem poderá se aliar para as eleições de 2016”.
Para Pont, os pontos básicos da retomada das origens do PT devem ser a retomada do sistema congressual de consulta às bases e o voto direto para todos os filiados, que também deveriam ter uma contribuição financeira obrigatória (pelo menos semestral).
Ocupantes de cargos públicos ou em comissão deveriam pagar uma mensalidade à sigla e ao sistema de arrecadação que mantém o PT precisa ser desburocratizado. “Hoje está excessivamente centralizado na direção nacional”.
Pont clamou ainda pela aplicação do estatuto que prevê o afastamento de todos os dirigentes indiciados em inquéritos policiais/judiciais. “Precisamos considerar que o foco é o PT, que vem sendo apontado como culpado de tudo. Sangramos dez anos com o Mensalão e agora estamos arcando com a desgraça da Petrobras. Temos de ser exemplares no combater a quaisquer privilégios que o Estado burguês criou para nos cooptar”, finalizou.
ROSÁRIO: “NOSSOS ALIADOS SÃO INIMIGOS”
A deputada federal Maria do Rosário iniciou sua fala referindo-se à uma “semana dura em Brasília”, com o debate sobre a crise, que tem um viés econômico e outro político – mas que é também uma crise ética.
Rosário concordou com Raul Ponto sobre alianças inadequadas. “A direita não vai desistir. A aliança estratégica do PMDB é contra o PT. Os nossos aliados de governo são nossos adversários estratégicos”.
A deputada notou que “há uma crise de confiança em relação às conquistas obtidas pelos governos petistas. Ninguém fez mais políticas sociais nem criou infraestrutura para o desenvolvimento do que o PT, mas só elegemos dois senadores em 2014 –sendo governo!”.
Ela fez também uma referência às manifestações de 2013 – sua leitura é de que o PT não soube escutar corretamente as ruas, que “mostraram o esgotamento de nossa relação com a sociedade”
Para piorar o cenário, há as medidas provisórias referentes ao seguro-desemprego e direitos dos trabalhadores, editadas pelo Planalto. “Mas elas não fazem ajuste econômico”, criticou.
Pelo contrário, prosseguiu Maria do Rosário, “as metas do governo nos isolam”.
Mais uma vez seguindo linhas parecidas com a de Raul Pont, a deputada lembrou do distanciamento com a base do partido e questionou a fala de preocupação com a fomração de novos militantes.
“Não criamos associações de bairros nos locais onde construímos casas. Fizemos uma renovação da política educacional e não temos canais com os estudantes. E temos de engolir um ministro Mangabeira nos apresentando uma baboseira sobre a Pátria Educadora!”
PAULO PIMENTA: “a direita domina”
O também deputado federal Paulo Pimenta iniciou sua participação com um questionamento: “Os governos petistas tiraram 36 milhões de pessoas da miséria e agora estamos numa crise que nos coloca diante da pergunta: ainda é possível construir uma democracia socialista num só país?”
Embora tenha também tecido críticas à aliança PT-PMDB, Pimenta foi mais conciliatório. “A coalizão feita por Lula em 2003 resultou numa política econômica que não apenas tirou milhões da pobreza, via criação de empregos, distribuição de renda e investimentos em inclusão social. Ela beneficiou o agronegócio, os bancos, a construção civil, empresários da infraestrutura, e de outros setores industriais e de serviços, que foram, beneficiados com o fomento do BNDES, e financiamentos do Banco do Brasil e da Caixa”.
Apesar disso, Pimenta acredita que esse modelo de crescimento via incentivo ao consumo chegou ao limite em 2014, apesar da influência da crise financeira global de 2008.
“Embora tenha aproveitado as medidas de Lula e Dilma, a verdade é que o capital não nos enxerga como aliado, tanto que apostou no Aécio”, recordou, acrescentando que mesmo derrotada, a elite financeira “continua na ofensiva atrás de suas metas: reduzir os custos da mão-de-obra via terceirizações, diminuir o papel do Estado na economia, incentivar a privatização de ativos estatais”.
“Não nos iludamos, a direita tem 80% do Congresso. Além disso, tem a mídia, o empresariado e o Judiciário”, anotou ainda.
Pimenta também abordou a organização de base, assim como seus colegas que o antecederam ao microfone. “Precisamos admitir que o erro não foi do governo. Quem errou foi o partido ao desconstituir-se como organizador da sociedade. Nossos quadros foram todos para dentro dos governos”, lamentou.
Porém, agora, com o PT assumindo um “papel secundário” no governo federal, a situação está ainda pior. “Corremos o risco de perder nos próximos três anos o que construímos nos últimos trinta anos”.
Juventude teme caminhar para trás
Uma das integrantes da Juventude Petista, Rossana Prux, fez coro à Maria do Rosário, criticando a falta de ações diante das manifestações de 2013. “O partido ficou perplexo”, lamentou.
“A direita soube capitanear melhor 2013 melhor do que o PT. Após cinco meses de governo, a juventude teme caminhar para trás”.
Lembrou de projetos que tramitam no Congresso Nacional com forte apelo conservador, como a terceirização dos contratos de trabalho, a redução da maioridade penal, a abolição do T das embalagens dos transgênicos.
“Seguindo assim, em 2018 não vai ter Lula que resolva. Nossa agenda não pode ficar restrita a segurar a onda conservadora”, clamou, completando que é preciso “empurrar o partido mais para a esquerda”.
O militante Pedro Loss concordou. “Sabemos o que precisa ser feito: retomar as bandeiras históricas e virar protagonista outra vez”
O economista Ubiratan de Souza, também seguiu na mesma linha, lembrando que a política econômica que está sendo implementada não tem coerência com as propostas eleitorais de 2014.
“O problema não é a Dilma. O problema é que ela foi pressionada a nomear Joaquim Levy para a Fazenda. Essa política está criando inflação e desemprego. E aumentando os ganhos do rentismo. A última elevação em 0,5% dos juros do Banco Central significa um ganho de R$ 12 bilhões/ano para os rentistas. É um ajuste fiscal ao contrário, em favor do sistema financeiro. Tudo isso começou com a política de coalizão criada por Lula em 2003”, apontou.
A escritora Tania Jamardo Faillace atribuiu as dificuldades atuais à uma postura ainda mais anterior do partido. “A atual situação do PT começou lá atrás quando Zé Dirceu promoveu filiações on line, abrindo as portas do partido para um monte de vagabundos”.
Para a militante, Dilma está sozinha e o ministro da Defesa, Jacques Wagner “é homem do Pentágono”. Lula tampouco merece a confiança da base.
Já Mamão lembrou que o mesmo modelo de coalização que foi alvo de diversas críticas ao longo do sábado foi adotado em estados e prefeituras administradas pela sigla. “Mas o PT não sabe usar a burocracia”, observou.
O presidente da primeira zonal do PT de Porto Alegre, Erick da Silva lamentou a falta de consultas às bases. “O PT não foi consultado sobre a nomeação dos ministros Levy,
Katia Abreu, Kassab e outros representantes de um lado da dicotomia que vem desde o primeiro governo Lula. Portanto, digo desde já que o 5º congresso do PT não vai resolver porque os delegados já foram eleitos há anos. O PT se desidrata a cada eleição. Precisamos mudar a direção do partido”, provocou.
Rodrigo Campos concordou. “O 5º congresso dificilmente vai mudar algo no PT, que se acomodou demais no poder e deixou de se ocupar com as atividades partidárias de base. Agora, com Eduardo Cunha na Câmara, as reformas ficaram mais difíceis. Além disso, o que informa e influencia o governo são os colunistas da mídia conservadora”, lamentou.
Retomada das bandeiras é imperativo
Reginete Bispo, do Movimento de Mulheres Negras estava pessimista. “Acho que já perdemos esse governo. Lamento dizer que o fortalecimento do neoliberalismo fascista tem como base a intolerância, o machismo e o racismo”, introduziu.
Para ela, a saída é recuperar a relação com os beneficiados pelas políticas públicas dos governos petistas.
O advogado Luiz Augusto Waschburger relembrou o senador João Paulo Bisol.
“Vi na TV Senado um depoimento comovente dele, dizendo que o PT foi a coisa mais fantástica que já aconteceu no Brasil. E que só o amor poderá recuperá-lo”.
Pediu que o PT não se envergonhe de suas bandeiras, pois na sua opinião, só vai retomar seu caminho se “buscar coisas como a regulamentação da mídia e a reforma política”.
A professora Sueli Mousker abordou as razões para o afastamento da militância. “Não queremos deixar de defender Dilma, mas como defender esse governo”?
Ela também aposta em um reencontro com ideias pregados no passado, especialmente focados na ecologia. “A energia solar era nosso tema, alimentação orgânica era nossa bandeira”, resumiu.
O servidor público Ademir Medeiros Rodrigues relatou que há seis meses tenta reunir militantes.
“Venho lá da zonal 160, na Vila Nova. No primeiro de maio, fui pra Volta do Gasômetro com um vizinho. Assamos uma carne. Não vi petista por ali, apesar da questão duríssima que representa a terceirização da mão-de-obra. Estou me sentindo bastante solito, mas marquei para o dia 26 de maio às 20 horas uma reunião lá na sede do CTG Inhanduí, na Vila Nova”, anunciou
União é a palavra de ordem
O professor Assis Brasil Olegário Filho também fez sua análise sobre as jornadas de junho de 2013. “Há alguns anos, André Singer anunciou em livro o fim do modelo lulista. Hoje sabemos que o reformismo social desmobilizou os movimentos de base. Ao incorporar consumidores, o partido não fez politização”.
Militante antigo, Sylvio Nogueira culpou a atual direção da sigla. “Qual a orientação do partido para atuar junto aos movimentos sociais? Onde está aquela estrutura de participação? Precisamos voltar aos núcleos de atuação”, defendeu.
Jussara Dutra, utilizou seu tempo para falar sobre uma recente viagem ao Chile, onde participou de uma reunião da Internacional da Educação. Segundo seu relato, a presidenta Michelle Bachelet apareceu no meio da reunião – no mesmo dia em que havia demitido todo o seu ministério.
“Ela foi lá conversar com o presidente do sindicato nacional dos professores, comunicar a decisão de desprivatizar escolas que haviam sido desestatizadas pelo general Pinochet. Portanto, o que eu trouxe dessa viagem do Chile foi a lição da unidade. Unidade, essa é a palavra do momento para o PT e para a esquerda”.
Militância cobra coragem para agir
A advogada Tâmara Biolo Soares queria saber se o debate feito no sábado vai significar alguma ação objetiva. “Foram muito boas falas aqui entre nós, diante de dois deputados federais, mas eu pergunto: quando o conteúdo exposto nesses debates vai se transformar em ações e medidas do partido”?
O servidor público Luiz Borba narrou sua surpresa ao se deparar, nas eleições de 2014, com eleitores do PSDB que haviam ingressado em universidades graças ao ProUni, programa criado na gestão de Lula na Presidência da República.
“Infeliz o dirigente de esquerda que não entende que o modelo de governo de coalizão criado por Lula começou a vazar em 2005. Todos fazem boas análises, mas o que falta mesmo é coragem para agir”, avaliou.
Autor: Geraldo Hasse
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PT de Porto Alegre em busca de uma saída
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Babel on line: comunicação digital e capitalismo
Geraldo Hasse
Quando a TV chegou ao Brasil, décadas atrás, alguém tentou vender um televisor a um próspero agricultor, homem razoavelmente bem informado, assinante de jornais e radiouvinte contumaz.
Meio de má vontade, já sabendo que o novo brinquedo tecnológico começava a ornar a sala dos ricos da cidade, o bom homem rural aceitou ir a uma loja.
Diante do caixote luminoso, foi informado de que era preciso dispor de uma certa infraestrutura para usar o aparelho: uma mesa perto de uma tomada de luz e – o mais difícil – uma antena no telhado, para captar as imagens.
Naquele horário vespertino, na loja, clientes e vendedores podiam assistir a um filme no principal canal disponível. Em outro canal, rolava uma novela, mas a imagem estava com chuviscos. Na terceira emissora, arrastava-se um xaroposo programa de estúdio.
O agricultor ficou decepcionado:
– Se a televisão é só isso, não me interessa.
O vendedor e outras pessoas presentes lhe perguntaram qual era sua expectativa em relação à novidade. Ele explicou:
– Me falaram tanto da TV que eu imaginei assim: a gente vai girando um botão e escolhe um programa. Pode ser a paisagem de um país distante, uma partida de futebol, uma corrida de cavalos, um filme, uma orquestra, um programa de notícias e assim por diante – tudo muito rico e mais variado do que um cinema, mas de acordo com meu desejo, não com a vontade da estação de TV.
Encurtando o causo, o agricultor morreu com mais de 80 anos em 1994, o ano em que a internet entrou timidamente no Brasil. Portanto, ele não teve a oportunidade de acompanhar o que vivenciamos hoje em dia: boa parte do mundo está conectada, é como se vivêssemos numa torre de Babel em que as pessoas (as que podem, claro) se comunicam e se entendem, ou brigam.
Imaginemos aquele agricultor, hoje centenário, diante de um moderno televisor ligado num provedor de TV a cabo e zapeando à vontade entre uma centena de canais de TV. Será que ele se sentiria satisfeito e realizado por poder ver tantos filmes, e jogos, e jornais, e musicais, e programas de aventuras nas paisagens mais exóticas?
Simplificando, podemos dizer que chegamos perto do ponto imaginado pelo agricultor de nossa história. De uma forma ou de outra, hoje podemos desfrutar de facilidades semelhantes àquelas imaginadas meio século atrás por nosso matreiro personagem.
Fruto do casamento da informática com a telecomunicação, a internet revolucionou a vida moderna.
É claro que é preciso dispor de certa infraestrutura técnica, mas basta acionar o mouse de um computador ou as teclas de um controle de TV ou de um telefone celular para ter acesso a 1001 imagens de diversas partes do mundo.
Fácil e divertido, não? Barato não é, mas o que é barato no mundo moderno? (Um cafezinho no bar da esquina custa mais do que um quilo de açúcar no supermercado).
Muito mais rápida no gatilho do que jornais e revistas, a internet não é apenas um meio de comunicação. É uma ferramenta de múltipla utilidade e com alta capacidade de interação com as fontes de informação e a massa de internautas.
O meio que mais se aproxima da mídia digital, em rapidez, é o rádio, mas a este falta a imagem, o grande trunfo da televisão, naturalmente mais lerda porque depende do deslocamento de equipamentos pesados e equipes numerosas. E de patrocínios consistentes. A infraestrutura que garante a qualidade das imagens/palavras está montada.
O que importa lembrar aqui é o seguinte: diante do avassalador poder de comunicação dos meios digitais, as emissoras de rádio e TV, os jornais e revistas reduziram seu raio de investigação, contentando-se em ser instrumento de lobbies que se especializaram na produção de dicas, dossiês e releases – tudo com um viés substancialmente mercantil.
Esse perfil comercial, submisso a quem paga mais, transformou a maioria dos profissionais da comunicação em meros serviçais acríticos e aéticos.
De uma forma ou de outra, como refletiu o agricultor de nossa história, todos nós consumidores/usuários continuamos submissos à vontade dos donos dos meios de comunicação.
Mas não é somente aí que mora o perigo.
O perigo maior está na cartelização e na oligopolização dos meios de comunicação. Em alguns países, essas deformações são proibidas por lei. Em outros, caso do Brasil, a própria mídia dominante argumenta que controlar a (de)formação de redes tentaculares seria impor a censura e ferir a liberdade de expressão.
O governo se intimida e não ousa propor nada. E segue o baile dirigido pelos grupos que transformaram a comunicação social num negócio altamente rentável. O interesse público foi colocado de lado.
Bem ou mal, enquanto os profissionais da comunicação de massa seguem manuais técnicos e códigos morais que têm como norte o compromisso com os valores democráticos e os direitos humanos, os donos dos negócios midiáticos estão severamente subordinados ao pensamento único ditado pelas leis do mercado ou, seja, “para vender mais, fazemos qualquer negócio”.
Veja, a propósito, o que escreveu em seu último artigo na Carta Maior o ensaista Emir Sader: “O estilo de consumo ‘shopping center’ se globalizou de maneira aparentemente avassaladora. É uma espécie de ponta de lança do neoliberalismo, materializando seu principio geral, de que tudo é mercadoria, tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra”.
Sim, sempre houve um conflito entre a liberdade de expressão dos comunicadores profissionais e a necessidade de sobrevivência material dos empreendimentos midiáticos, mas nunca talvez na história da humanidade se viveu uma crise tão intensa e larga como a atual. Nesse contexto, o vigor da mídia digital é enganoso.
O estar conectado (ao mundo digital) é uma espécie de droga. Quem se sujeita à conexão permanente por meio dos diversos instrumentos de comunicação digital está inexoravelmente submetido às pautas do mercado, que se orienta pela razão mercantil.
O mercadejar insano que acompanha todos os movimentos em torno da modernização tecnológica conspira contra a vida em harmonia com a natureza, entendida como um contato amigável com animais, vegetais, terra, mar e ar.
Observe como muitas pessoas se tornaram, mais do que usuárias, dependentes, viciadas em aparelhos digitais, que servem à comunicação pessoal mas estão infiltrados por mil estratégias de mercantilização.
Esses instrumentos diabólicos que condensam telefonia, informática, eletrônica, máquina de escrever, canal de correio e notícias, aproximam as pessoas distantes e isolam quem está próximo.
Em qualquer lugar, podemos ver diversas pessoas juntas fisicamente, mas dispersas espiritualmente, graças ao uso das vias digitais disponíveis.
Até na rua as pessoas caminham de olho nos seus aparelhinhos de comunicação digital, buscando nutrir-se de informações superficiais e apressadas.
Aparentemente, a alienação sustentada pela mídia alimenta a robotização das pessoas. Tem-se a impressão de que a rede mundial de computadores assumiu efetivamente a liderança do processo de comunicação de massa, sobrepondo-se aos meios tradicionais – jornais, revistas, rádio, TV.
Está pendente de confirmação o vaticínio segundo o qual os meios impressos (jornal, revista, livro) vão morrer nas garras da mídia eletrônica, mas a verdade é que, atualmente, a comunicação de massa parece depender mais do tiroteio vigente na rede mundial de computadores do que da modorra dos meios convencionais de informação.
Diante dessa parafernália midiática, o que diria o agricultor da nossa história? Acredito que ele juntaria suas tralhas de pesca e diria:
“Minha gente, tô sartando fora!”
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Para mim a política é a luta para que a maioria das pessoas tenha uma vida melhor. Viver melhor não é apenas ter mais: é ser feliz, e isso tem a ver com as carências materiais, mas também com outras coisas.”
Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, que continua usando um fusca 1973 e morando numa chácara nos arredores de Montevidéu. -
Walter Lídio encara o grenalismo
GERALDO HASSE
Com a arrancada da nova fábrica de Guaíba no primeiro domingo de maio de 2015, a Celulose Riograndense passa a fazer parte do clube gaúcho do bilhão de dólares por ano.
Está ao lado da Gerdau, Lojas Renner, Sicredi, Braskem, Randon, Marcopolo, Tramontina, Grendene, Getnet, Bianchini, SLC e Vonpar, segundo o ranking 2014 da revista Amanhã, com as 500 maiores do Sul.
Até agora, por causa de sua turbulenta trajetória ambiental e sua baixa expressão econômica, a empresa química guaibense não se arvorava a ter voz no seleto grupo dos grandões do Estado.
Com a quadruplicação de sua capacidade – de 450 mil toneladas para 1,8 milhões de toneladas ao ano -, a empresa parece disposta a perder o medo de ser grande, pois deverá causar um impacto de 1,1% no Produto Interno Bruto gaúcho, segundo estimativa da Fundação Getúlio Vargas.
Esse novo status combina com a postura mais assertiva do seu principal executivo, o engenheiro Walter Lídio Nunes, que liderou as obras de expansão da empresa, na qual foram investidos US$ 2,2 bilhões.
No encontro com os jornalistas convidados para conhecer a fábrica, no último dia 30 de abril, ele foi taxativo: “Se o governo quer mesmo acabar com a corrupção, que é endêmica entre nós, o primeiro passo é reduzir a burocracia”.
Segundo Nunes, é preciso acabar com as “exigências cartelizantes” que permeiam os editais de empresas estatais e órgãos públicos.
Como exemplo de comportamento propiciador da formação de cartéis, citou a Petrobras, que está na ordem-do-dia desde 2014, graças à Operação Lava Jato, do Ministério Público da Polícia Federal.
estágio em guaíba
O depoimento de Walter Lídio Nunes é significativo porque se trata de um engenheiro nativo de Porto Alegre que fez a maior parte de sua carreira fora do Rio Grande do Sul.
Formado na engenheira mecânica da PUC, ele lembra com detalhes de seu estágio estudantil na fábrica de celulose de Guaíba, na primeira metade dos anos 1970:
“Minha obrigação era passar 4 horas por dia na fábrica, mas eu cheguei a dormir no alojamento dos trabalhadores para acompanhar tarefas que me interessavam”.
Após cada jornada, sua roupa fedia, impregnada pelo cheiro de enxofre emitido pela fábrica daqueles tempos pioneiros.
Mesmo olhado com estranheza pelos colegas, que caçoavam da sua “catinga de gambá”, ele teria começado sua carreira em Guaíba. Mas as desavenças da indústria Borregaard com as autoridades ambientais, que fecharam duas vezes a fábrica, o afugentaram.
Em busca do primeiro emprego, Nunes foi parar no Espírito Santo, contratado pela Aracruz Celulose, que começou a produzir em 1978. Nos seus mais de 30 anos de experiência no Espírito Santo, Walter Lídio se defrontou mais de uma vez, como gerente e/ou diretor, com um braço do famoso cartel burocrático que “cria dificuldades para vender facilidades.”
Nos anos 1980, a Aracruz ensaiou expandir sua fábrica mas foi proibida de aumentar suas plantações de eucalipto no Espírito Santo. O projeto acabou sendo implantado no sul da Bahia.
Hoje, passados tantos anos daquela desavença político-ambiental, Walter Lídio Nunes acredita que as exigências capixabas daquela época faziam parte de um esquema de achaques que tinha como expressão maior, no âmbito parlamentar, o deputado José Carlos Gratz, que emergiu do jogo do bicho para o comando da Assembleia Legislativa do Estado. Mais tarde, Gratz seria cassado e preso.
repatriação
Como principal executivo da Aracruz Celulose, o engenheiro gaúcho comandou a compra da fábrica de Guaíba, controlada pelo grupo paranaense Klabin, que elevara sua capacidade de produção a 450 mil toneladas anuais de celulose, quase o dobro da original.
Em 2005, depois de considerar a hipótese de investir no Uruguai, no Paraguai e em outros estados, a Aracruz decidiu expandir sua produção em Guaíba.
O projeto foi aprovado pelo governo de Germano Rigotto, que atraíra outros dois investimentos em celulose: Votorantim e Stora Enso.
Depois de entrar em atrito com os adversários do cultivo maciço de eucalipto, a melhor matéria-prima para a fabricação de celulose de fibra curta, os três megaprojetos foram suspensos por causa da crise financeira de 2008, que provocou o desaparecimento da Aracruz Celulose, absorvida pela Fibria, novo nome do segmento de papel/celulose do grupo Votorantim.
No ano seguinte, a Fibria Guaíba foi vendida para o grupo Matte, que possui três fábricas de celulose no Chile.
Nunes participou de todas essas operações, ao fim das quais ganhou carta branca de Eleodoro Matte para auditar e refazer o projeto de quadruplicação da planta de Guaíba.
Mais de 30 anos depois de se formar, o ex-estagiário da engenharia da PUC é o presidente da ex-Borregaard. Em Guaíba, provavelmente, ele encerrará sua carreira.
credenciado
A experiência profissional de Walter Lídio o credencia a falar com propriedade do comportamento dos empresários do Espírito Santo e do Rio Grande do Sul.
Talvez por conviver há séculos com baianos, fluminenses e mineiros, que concorrem para usar a infraestrutura portuária do Espírito Santo, os capixabas são abertos a negociações e fazem acordos com facilidade.
Um dos orgulhos de Walter Lídio é ter ajudado a viabilizar em torno da Aracruz Celulose, no Espírito Santo, cerca de 70 empresas que nasceram de contratos simples de fornecimento de um ou dois itens.
Uma dessas empresa, chamada Frioar, cresceu tanto que se tornou fornecedora de equipamentos de ar dos jatos da Embraer.
No Rio Grande do Sul, ao contrário, Nunes encanzinou-se ao verificar o quanto é arraigado o costume de investir na contenda.
No afã de proteger a própria empresa, alguns empresários acabam inviabilizando muitos negócios. “O índice de omissão social é muito alto no Rio Grande do Sul”, diz Nunes.
Um dos resultados do cultivo exacerbado do conflito – que alguns chamam de “grenalização da vida” – é a descontinuidade administrativa, expressa no descarte quadrienal de governadores que não conseguem reeleger-se ou eleger o sucessor.
Em consequência, o Estado não possui um projeto de futuro.
Conclusão de Walter Lídio Nunes: “No fim das contas, para resgatar a autoestima, o gaúcho se volta para o passado e cultiva lendas distorcidas”. -
Sem tinta, Lanceiros ganham homenagem a carvão
Geraldo Hasse
No último sábado (25), um grupo de três artistas plásticos liderado pelo professor Marcos Sari fez uma série inicial de desenhos no muro principal da Passagem Lanceiros Negros, o rico beco que liga os bairros Auxiliadora e Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
Três carantonhas negras, cada uma com dois metros de altura, foram gravadas para lembrar a participação dos escravos na Guerra dos Farrapos (1835-1845). Com a promessa de ganhar a liberdade, os negros cativos formaram batalhões de choque contra as forças do Império.
A pé ou a cavalo, só tinham uma arma: as lanças de três metros de comprimento. Mesmo sendo considerados “valentes como o diabo”, os lanceiros perderam a guerra, sofreram um massacre no final e não ganharam o prometido passe livre.
Apesar do bom resultado final, a empreitada artística na Passagem dos Lanceiros foi frustrante porque o grupo – formado além de Sari por Paulo Correia, Leandro Machado e Fabriano Rocha – teve de trabalhar com recursos muito escassos, como no final da guerra que ensanguentou “esta bela província”, expressão deixada pelo general Netto.
Contrariando o que havia prometido ao presidente da Associação dos Moradores do Bairro Auxiliadora (AMA), uma grande loja de material de construção situada na rua Silva Jardim não entregou aos artistas o material necessário (tinta) para o mural – a explicação só viria dias depois: os herdeiros da loja não tinham sido avisados do compromisso assumido pelo fundador da ferragem…
Numa alegoria à penúria dos guerrilheiros farroupilhas nos últimos anos de sua aventura político-militar, os artistas fizeram o mural com carvão (de fazer churrasco) e duas caixas de giz doadas pela Papelaria Bambi, da mesma rua Silva Jardim, que honrou a promessa feita à AMA. O quarteto artístico trabalhou sem pró-labore, cachê ou ajuda de custo. Só na moral. -
Uma rara novela sobre o nazismo no Sul
No finalzinho dos anos 1930, uma jovem loura escultural chamada Hertha desloca-se de sua terra natal, Blumenau, para Porto Alegre. Na flor dos seus 20 anos viaja de trem em segredo.
Adepta do amor livre, sabe que sua tarefa é de natureza sexual, mas ignora a quem servirá. É um homem importante, ligado ao Partido Nazista. Mas quem?
Assim começa A Segunda Pátria, romance (mais para novela) do paranaense Miguel Sanches Neto recém-lançado pela Editora Intrínseca, do Rio.
Hospedada no Hotel Majestic, na Rua dos Andradas, Hertha entedia-se com a rotina da espera na capital gaúcha. Ela se insinua para os homenzarrões que montam guarda diante de seu quarto, mas eles não lhe dão bola, todos imbuídos da secretíssima missão.

Obra sai com o selo da Editora Intrínseca, do Rio | Divulgação JÁ
Uma noite, depois de rodar a esmo por quase uma hora, um carro a deixa numa mansão de aspecto antigo. Deste local é conduzida a um túnel mal iluminado que percorre a pé, cheia de tensão e medo. Depois de um tempo, meia hora talvez, ela chega ao porão do Palácio do Governo, onde lhe está reservado um quarto com cama, roupa limpa etc.
Hertha não sabe, nem lhe importa saber, que o ditador Getúlio Vargas está na cidade para um encontro com uma figura muito importante vinda da Europa. A reunião em Porto Alegre selará o pacto do nazismo com o Brasil. A missão de Hertha é proporcionar um momento de lazer — não ao chefão brasileiro, mas ao primeiro-ministro alemão Adolfo Hitler, que teria chegado secretamente via Buenos Aires.
Missão cumprida, ela volta para Blumenau, já controlada por um punhado de nazistas fanáticos. É ficção de alto nível penetrando num território praticamente inexplorado pela literatura brasileira. Em ritmo de novela policial, o livro “viaja” por lugares e sentimentos que ainda sobrevivem entre nós. -
Praça homenageia Lanceiros Negros em Porto Alegre
À sombra de uma grande tipuana enraizada no terreno vizinho e cujo tronco inclinado para o sul ganhou uma fenda no muro, o prefeito José Fortunati inaugurou na manhã deste sábado (11/4) a Passagem de Pedestres Lanceiros Negros, uma simpática travessa de 10 metros de largura que liga as pequenas ruas Mata Bacelar/Xavier Ferreira à grande Coronel Bordini.
“Parece uma obra simples, mas vocês não imaginam sua complexidade”, disse o prefeito a mais de uma centena de curiosos e moradores que aplaudiram a referência ao custo do empreendimento – “mais de 500 mil reais em parceria com a Companhia Zaffari, que tem sido perfeita”. A maior rede gaúcha de supermercados tem uma loja com frente para a Bordini e fundos para a Xavier Ferreira.
Fortunati não entrou em detalhes, mas o custo elevado da passagem, com jeito de praça ou pérgula, se deveu à necessidade de proteger com concreto a tubulação subterrânea do famigerado conduto forçado (obra de R$ 59 milhões) que leva as águas das enxurradas, via Bordini e Dr. Timóteo, para o Lago Guaíba. Pouca gente sabe que sob a passagem de pedestres havia ali, outrora, um riacho chamado Tamandaré.
A denominação da passagem, em homenagem aos Lanceiros Negros, é fruto do empenho da Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Auxiliadora (AMA) em recuperar a memória da área situada “atrás” da Coronel Bordini.
Segundo o sociólogo João Volino Correa, presidente da AMA, a área onde fica a Passagem Lanceiros fazia parte da periferia da cidade, há cem anos. “A primeira casa da rua Mata Bacelar foi construída em 1916”, diz Correa, lembrando que “a casa ainda está de pé”, à sombra de um gigantesco empreendimento imobiliário do grupo Maiojama que ocupa meio quarteirão entre as ruas 24 de outubro, Mariland e Nova York.
Apesar de servir como morada de classemedianos, o bairro Auxiliadora ainda abriga descendentes de negros e mulatos. Na cerimônia, porém, houve uma maioria absoluta brancos.
Entre o fim de abril e o início de maio, a AMA vai coordenar a pintura de um painel-memorial alusivo aos Lanceiros Negros no muro mais alto da Passagem, perto da rua Mata Bacelar. Nas demais extensões dos muros, serão feitos grafites. Depois, o espaço será ocupados por feiras ecológicas e eventos artísticos. -
Ritmo desigual na duplicação da BR-116
Com 211 quilômetros no trecho Guaíba-Pelotas, as obras de duplicação da BR-116 exibem ritmo desigual nos nove lotes — cada um variando de 19 a 26 quilômetros — entregues a oito construtoras diferentes.
A única construtora com dois lotes, totalizando 51 quilômetros, é a veterana Constran, envolvida na Operação Lava Jato, que investiga contratos da Petrobras com as maiores empreiteiras nacionais. A Constran foi fundada por Olacyr de Moraes, o Rei da Soja dos anos 1970, mas não pertence mais a ele, que a transferiu para antigos executivos.
Um mapa copiado do site do DNIT mostra longos trechos prontos — sinalizados em vermelho –, só faltando a sinalização sobre o asfalto ou a conclusão de uma ou outra ponte; em compensação, há trechos que não foram sequer desmatados.

Mapa do DNIT mostra trechos concluídos em vermelho / Reprodução JÁ
Quem viaja pela rodovia tem a nítida impressão de que as obras perderam o ritmo inicial e estão sendo afetadas pela falta de recursos decorrente do ajuste fiscal praticado pelo Ministério da Fazenda.
Segundo o DNIT, porém, até agora não houve nenhuma mudança no cronograma das obras seja pelo ajuste fiscal, seja por qualquer outro problema. As diferenças entre os trechos seriam reflexo da maior ou menor iniciativa das empreiteiras. Segundo o DNIT, as desapropriações de áreas estão em bom ritmo – das 900 previstas, 400 já foram concluídas.
A perda de ritmo nas obras de infraestrutura acaba de ser denunciada pela Confederação Nacional dos Transportes. Segundo o boletim de abril da CNT, em 2014, dos R$ 18,7 bilhões autorizados para aplicação em todos os modais de transporte, apenas R$ 5,8 bilhões foram efetivamente pagos. Os R$ 12,9 bilhões não usados ficaram como “restos a pagar”, atravancando o andamento do Orçamento da União.
Segundo o Plano CNT de Transporte e Logística 2014, para solucionar os gargalos logísticos que tiram a competitividade do país, é necessário um aporte de R$ 987,18 bilhões, que abrange diversos tipos de intervenções em 2.045 projetos nos segmentos rodoviário, ferroviário, navegação interior, aeroportos, portos e terminais. -
Vem Pra Rua impõe teste à democracia
Geraldo Hasse
Nesta quarta-feira (8), apareceu nas caixas de correio de casas e prédios residenciais, nos escritórios e nas ruas de Porto Alegre um panfleto em preto & branco com o título ELA TAMBÉM MENTIU PRA VOCÊ – seguido de várias frases afirmando que Dilma e o PT fizeram uma série de coisas negativas para os interesses dos trabalhadores.
Sem assinatura, o panfleto exibe uma foto da presidente aparentemente amuada e convoca para a manifestação do dia 12/4 às 15 horas no Parcão de Porto Alegre, palco de outro protesto oposicionista há três semanas.
A fonte aparente do panfleto em papel couché é o movimento Vem Pra Rua, um dos promotores da manifestação de 15 de junho na Avenida Paulista em São Paulo e em outras cidades.
O Vem Pra Rua nasceu na internet e a partir dela se organiza, mas sua inspiração de fundo vem da classe média e de grupos políticos, empresariais e sindicais inconformados com a vitória eleitoral de Dilma em outubro de 2014. Tanto que suas palavras de ordem (“Fora Dilma!” e “Impeachment Já!”) ecoam declarações de políticos como Aécio Neves, o tucano mais contrariado com o resultado das eleições de 2014.
Segundo o panfleto, Dilma mentiu na campanha e, após a vitória, despejou sobre o povo e os trabalhadores um saco de maldades: aumentos de gasolina, luz, impostos e juros, cortes em vagas e bolsas estudantis e até no Minha Casa Minha Vida.
“O PT e seus aliados saquearam a Petrobras, quebraram o Brasil e mandaram a conta para o povo pagar”, diz uma das frases-síntese, numa perfeita combinação de demagogia e marquetagem – evidência de que o movimento Vem Pra Rua, seus inspiradores e seguidores estão operando em circuito fechado, sem ver, ler ou ouvir o que rola no Brasil e no mundo.
Justamente por seu tom de “não quero nem saber”, é um movimento disposto a testar a maturidade da democracia brasileira. -
Caso Ford : uma sentença surpreendente
O Tribunal de Justiça declarou encerrado o processo em que o Estado do Rio Grande do Sul reclama a devolução de valores investidos e incentivos fiscais concedidos à multinacional Ford, que prometia montar uma fábrica em Guaíba e acabou se mudando para a Bahia.
Em vez dos R$ 126 milhões estimados como valor da devolução, o TJ o reduziu para R$ 22,7 milhões. Um dos processos mais caros e longos da história judicial gaúcha sai a preço de liquidação.
Resta saber se a Procuradoria Geral do Estado (PGE), autora da ação contra a Ford, vai recorrer à instância superior em Brasília.
A ação foi iniciada em 2000 no mandato de Olívio Dutra, que havia revogado decisão do governador anterior Antonio Britto.
Em 2002, a PGE publicou uma edição especial da sua revista, 300 páginas em formato de livro. O título era “CASO FORD – Em Defesa do Interesse Público”.
Passados três governos – Germano Rigotto, Yeda Crusius e Tarso Genro –, o surpreendente desfecho judicial do caso Ford ocorreu algumas semanas depois que o governador José Ivo Sartori recebeu no Palácio Piratini a visita de um diretor da Ford.
Rogélio Goufarb comunicou ao governador a implantação – “sem incentivos fiscais” – de um centro de distribuição de peças da montadora em Gravataí, negócio que deverá movimentar R$ 4 milhões por mês a partir da operação efetiva em julho. -
Chananeco, o primeiro voluntário da pátria
Diz uma lenda vigente no centro do Rio Grande do Sul que no verão de 1864 um peão conhecido por Chananeco tocava uma carreta carregada de cal de Caçapava do Sul para São Gabriel.
Ia tranquilo quando foi alcançado por um destacamento militar que lhe pediu informações sobre o melhor caminho para Uruguaiana.
Chananeco deu a dica e perguntou – mas por que tanto soldado cruzando o pampa? Soube então que o ditador paraguaio Solano Lopez havia atacado São Borja, dando início a uma nova guerra.
Chananeco não teve dúvida: desajojou a junta de bois e, escorando a carreta ali mesmo, incorporou-se à caravana guerreira que rumava ao rio Uruguai.
Foi talvez o primeiro e mais autêntico “voluntário da pátria”. Os bois…voltaram sozinhos para a querência, presume-se; e a carreta ficou ali mesmo, sendo devorada pelo tempo, dela só restando um vestígio no caminho: a carga de cal diluída no chão ainda era visível nas primeiras décadas do século XX, muitos anos depois do desaparecimento do carreteiro lendário.
Chananeco era o apelido de um peão chamado Vasco Antonio da Fontoura, nascido entre 1820 e 1826 na localidade de Cerrito do Ouro, hoje município de São Sepé e perto de Caçapava.
Havia participado do final da Guerra dos Farrapos como alferes da cavalaria do General Netto. Também participou da invasão do Uruguai em 1848 e da campanha contra Oribe e Rosas por volta de 1850.
Na Guerra do Paraguai (1865-1870) entrou como tenente e voltou coronel, peito cheio de medalhas por bravura. Destacou-se como chefe de uma vanguarda de cavalaria escalada para missões arriscadas.
De todas se safou com brio invulgar, recebendo elogios por escrito de todos os principais comandantes, desde Osório até Caxias e o Conde d’Eu.
Numa ocasião, a ordem do dia do comandante chegou a lamentar seu desaparecimento, mas no dia seguinte lá estava ele são e salvo de volta ao acampamento com seu grupo de guerreiros a cavalo.
Apesar de constar em livros como herói em várias batalhas no Paraguai, Chananeco foi esquecido pelos historiadores brasileiros.
Talvez por ser um peleador, sem cabeça para o comando – como Bento Gonçalves ou Davi Canabarro –, os intelectuais não lhe deram importância.
Ou contribuíram para reforçar aspectos românticos da sua biografia, enriquecida por causos passados pela voz do povo.
Segundo outra lenda, em plena campanha do Paraguai, Chananeco teria pedido ao general Osório para voltar a ser capitão, pois não estava gostando da função de major da intendência, um posto burocrático. Queria lutar.
Como um certo capitão Rodrigo, ele gostava de pelear
Tudo isso é verossímil, mas depois de 150 anos não há dúvida: ninguém chegou mais perto do verdadeiro Chananeco do que o advogado e historiador caçapavano Cesar Pires Machado em seu livro “Chananeco da Lenda para a História”.
Lançado em 2008 por Já Editores, esse livro de 226 páginas repassa os principais momentos da Guerra do Paraguai no afã de recuperar o perfil do carreteiro valente do Cerrito do Ouro.
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, Cesar Pires Machado não valida as lendas em torno de Chananeco, mas reconhece que ele foi um guerreiro de extraordinária valentia, podendo-se concluir que rivaliza na história gaúcha com comandantes como Sepé Tiaraju e Moringue, entre outros.
Entre fatos e lendas, vasculhando minúcias aparentemente sem importância, Cesar Pires Machado refaz a história da vida de um gaúcho esquecido pela História.
É evidente que Chananeco foi um tático, não um estrategista. Por isso e por não ser dado a leituras, não passou de coronel. Seria como um certo capitão Rodrigo Cambará, personagem de Erico Verissimo em O Tempo e o Vento. E chegadíssimo em corridas de cavalo, a grande diversão dos gaúchos da campanha.
Depois que voltou da guerra, Chananeco teve até um bolicho de campanha que lhe servia como ponto para amarrar carreiras e contratar carreteadas.
