Autor: Geraldo Hasse

  • Perplexo, Partido dos Trabalhadores tenta voltar às raízes

    GERALDO HASSE

    O seminário petista realizado no último sábado (14) em Porto Alegre demonstrou haver disposição para superar o impasse que paralisa o partido responsável pelas mudanças socioeconômicas dos últimos anos no Brasil.

    Embora reeleito para a presidência da República, o PT tenta interpretar a maré conservadora que emergiu nos últimos meses como reflexo dos problemas de gestão da economia combinados com a descoberta de casos de corrupção nas entranhas da administração pública, claramente contaminada pelo interesses de lobbies privados.

    No encontro de centenas de militantes na Câmara de Vereadores da capital gaúcha, iniciou-se o debate sobre a possibilidade de ir à frente por meio de uma volta às origens.

    As conclusões de seminários semelhantes em outros estados serão levadas ao 5º Congresso Nacional do PT, marcado para junho em São Paulo.

    Nesse sentido foram reveladores os pronunciamentos feitos na manhã de sábado por Tarso Genro, ex-governador; Raul Pont, ex-prefeito; e Rui Falcão, presidente nacional do PT. Eles falaram para cerca de 300 militantes.

    Pont (e), Tarso (c) e Falcão (d) debateram durante a manhã os rumos da legenda | Caroline Biccochi/PTRS
    Pont (e), Tarso (c) e Falcão (d) debateram durante a manhã os rumos da legenda | Caroline Biccochi/PTRS

    A seguir, um resumo dessas três falas, que podem ser resumidas assim: enquanto os dois líderes petistas gaúchos fizeram manifestações radicais, o paulista de origem baiana, recém-entrado na casa dos setenta anos e que acaba de encerrar seu mandato como deputado estadual em São Paulo, veio com um discurso firmemente conciliatório, visando o público interno mas sem perder de vista o entorno.

    TARSO GENRO: ”O modelo de distribuição de renda está esgotado”

    O PT ainda não está maduro para compreender a extensão e profundidade da atual crise, mas precisa começar o debate defendendo desde já:

    1 – a taxação dos altos salários, de forma a reduzir a distância entre os extremos, que chega a mais de 80 por um; nos países capitalistas mais adiantados, essa relação chega a 25/30 vezes;

    2 – o início da reforma política;

    3 – a taxação das grandes fortunas, já que o modelo recente de distribuição de renda, que foi correto, está esgotado por falta de poupança pública;

    4 – a volta da participação popular na definição de políticas públicas;

    5 – a redução da dependência financeira internacional, em nome da soberania e de uma inserção inteligente na economia global.”

    RAUL PONT: “Não nos confundam com o PP”

    Precisamos desmascarar a hipocrisia dessa imprensa safada que atribui somente ao PT uma corrupção que é sistêmica no Brasil. Já aguentamos dez anos de “Mensalão do PT”. Agora tentam nos impingir a corrupção na Petrobras. Estou cansado de ser chamado de ladrão. Temos de acabar com isso. No estatuto do PT está prevista medida cautelar para afastar militantes envolvidos em atos suspeitos. Só assim se vai recuperar a credibilidade do partido. Não nos confundam com o PP, esse sim um partido de ladrões. (APLAUSOS)

    Essas políticas econômicas do Levy não fazem parte do nosso programa e não nos representam. Não é verdade que o país esteja em crise. Há dificuldades mas os fundamentos estão sólidos. A queda dos preços das commodities aumentou a instabilidade do Brasil, que mergulhou num ajuste neoliberal enquanto na Europa as políticas de austeridade dão sinais de crise. Se o governo continuar as medidas de “ajuste”, vamos perder a confiança dos movimentos sociais.

    É responsabilidade nossa explicar como se constitui um governo que não tem nenhuma garantia de governabilidade e lealdade; como pessoas e partidos se apropriam de cargos em ministérios e estatais. Não é possível ficar só com o canal parlamentar. Nossos governos no Rio Grande do Sul tiveram conselhos populares.”

    RUI FALCÃO: “Nosso projeto não é só melhorista”

    Dias atrás, cobrei dos estados a lentidão no processo de organização do nosso 5º congresso, em junho. Hoje fiquei sabendo que já temos 14 comissões estaduais trabalhando. O PT tem o que defender. De 2003 até hoje, o Brasil subiu de 14º para sétimo lugar no ranking econômico mundial; melhoramos o salário mínimo e a distribuição da renda. Mas nosso projeto não é só melhorista.

    Nós precisamos organizar um bloco político de esquerda, aumentar a participação popular em nossas decisões e rever a correlação de forças no país depois da árdua disputa programática das últimas eleições. A nossa vitória fez aparecer a Direita que estava à sombra do Capital e com o apoio da Mídia. A oposição luta explicitamente para fazer a presidenta Dilma “sangrar” com a ideia do terceiro turno e do impeachment. Temos de começar a pensar em 2018, ver com que lideranças podemos contar.

    Após 35 anos de existência, o PT deve fazer uma reflexão, retomar a militância cotidiana e sair ás ruas com disciplina. Nosso quinto congresso deve ser ‘para fora’. Nossa militância está perplexa com o que se passa. O ajuste econômico denuncia o esgotamento do modelo de 2003. O Estado exauriu-se no financiamento do desenvolvimento econômico. Tivemos uma queda do Produto Interno Bruto, redução da arrecadação por causa das desonerações e diminuição do superávit comercial por causa da queda do preço das commodities. É um quadro de crise fiscal que se reflete na estrutura de classes.

    O que fazer? Recuamos para um projeto financista? Ou construímos uma nova correlação de forças, caminhando para reformas estruturais capazes de demolir o modelo rentista?

    Mais do que taxar grandes fortunas, é preciso taxar grandes lideranças. Os impostos indiretos pagos por toda população representam 50% da carga tributária brasileira. O Imposto de Renda de Pessoa Física só representa 20%. O resto vem de contribuições sociais de trabalhadores e empresas.

    Precisamos fortalecer a Petrobras. Não se justifica mexer no pré-sal. A privatização da Petrobras é ideia dos fariseus da ética. Não é só a Lava Jato que fragiliza a Petrobras. O preço internacional do petróleo caiu pela metade.

    Precisamos retomar a bandeira da reforma agrária a partir da revisão dos índices de produtividade da terra. A agricultura brasileira aumentou seus rendimentos nas últimas décadas. O país precisa rever os parâmetros de eficiência da exploração agrícola. Só assim haverá liberação de terras capazes de gerar ocupação no campo e produzir alimentos mais baratos.

    A reforma política precisa ter cinco eixos:

    – fim do financiamento empresarial das campanhas eleitorais;

    – fixação de um teto para as contribuições particulares a campanhas;

    – aumento da participação popular;

    – voto proporcional;

    – fim das coligações partidárias.

    O partido precisa tratar as dificuldades do momento com um choque de realidade. Devemos começar relendo o manifesto de fundação do partido. Lá está escrito por que devemos participar de eleições. Não é para conquistar mandatos, mas para fazer andar um projeto de reforma da sociedade brasileira. Precisamos fazer a releitura do socialismo petista. Chega de usar os gabinetes para construir mecanismos de poder (APLAUSOS).

    O Brasil mudou, o PT também. Não proponho criar um novo partido. Estamos em transição. Nós temos nos mobilizado a cada dois anos, em função das eleições. Precisamos pensar num programa de quatro anos. Mais do que isso, precisamos de um programa que dê continuidade e sustentabilidade ao que já conquistamos. Precisamos atualizar nosso programa e pensar em novas alianças para ajudar o Brasil a mudar.

    Diante de tudo que está acontecendo, o partido precisa se preparar para a resistência. E uma das ideias é voltar ao autofinanciamento que existia na época da fundação, quando os primeiros eleitos para mandatos políticos davam ao partido 30% dos seus salários. É por aí que o PT vai livrar-se do estigma da corrupção. Não há dúvida de que o financiamento empresarial das campanhas é a chave da corrupção político-eleitoral, mas precisamos agir com rigor ético. O militante envolvido em atos ilícitos não cabe no nosso partido. O partido não comete ilícitos. Os indivíduos que os cometeram estão pagando e vão pagar, depois dos processos legais próprios do estado de direito democrático.”

  • O desmatador Castanha, a Amazônia e a crise hídrica

    A prisão de Ezequiel Castanha, apontado pelo Ibama e a Policia Federal como “o maior desmatador da Amazônia”, levanta o véu da impunidade sobre crimes ambientais tais como extrair madeira de florestas públicas e vender terras griladas para criadores de gado.
    Castanha foi preso no sábado 20 de fevereiro em Novo Progresso, município paraense de 25 mil habitantes situado na beira da BR-163, que liga Cuaibá (MT) a Santarém(PA).
    Se Castanha é o chefe da maior quadrilha, conforme a classificação do Ibama e da PF, é de esperar que logo sejam divulgados os nomes dos outros desmatadores, os lugares onde atuam e a quem entregam o produto (madeira) de seus roubos. O crime é antigo, secular. Não é difícil desvendá-lo. Basta que se queira fazê-lo. Sempre foi praticado na esteira de abertura de estradas.
    Se não for uma cortina de fumaça para desviar a atenção da Operação Lava jato, que investiga a quadrilha de empreiteiros que vinha atuando na órbita da Petrobras, a prisão do “maior desmatador” faz uma ligação direta entre as duas pontas de dois fenômenos – a destruição da floresta amazônica e a crise hídrica no Sudeste.
    ciência prova relação
    Não se trata de uma especulação leiga: quem ligou as pontas foi o cientista Antonio Donato Nobre, especialista no estudo da floresta amazônica e autor do estudo O Futuro Climático da Amazônia, publicado em outubro de 2014.
    Agrônomo com doutorado em biogeoquímica, Nobre é o único brasileiro a fazer parte do Painel Internacional de Mudanças Climáticas da ONU. No estudo de 42 páginas, ele afirma que a única solução para evitar o colapso hídrico na parte mais rica do Brasil é iniciar um intenso processo de reposição florestal.
    Ele mesmo reconhece que, antes de qualquer coisa, é preciso superar a ignorância (climática, florestal, econômica) que permeia as relações da maioria dos brasileiros com a vegetação.
    Como denunciou o ecologista José Lutzenberger nos anos 1970, “há muita gente no Brasil que gosta de botar fogo no mato”, fruto de um atavismo que precisa ser reciclado, pois persiste no imaginário popular e na ideologia governamental a ideia de que o mato é um obstáculo ao progresso econômico.
    Durante a ditadura militar (1964-85), o Banco do Brasil financiou as derrubadas para a implantação de pastagens na Amazônia e no que restava da Mata Atlântica, no sul da Bahia.
    Os conceitos, ideias e descobertas de Antonio Nobre e seus amigos cientistas sobre o papel da floresta amazônica no equilíbrio climático do continente têm sido objeto de artigos, entrevistas e reportagens. Destacamos abaixo trechos de recente entrevista que o jornalista Marcelo Csettkey, baseado no Rio, fez com Nobre.
    “Destruição de florestas garante clima não amigável”
    O que de fato acontece que põe em risco o abastecimento de água e energia elétrica nas cidades e capitais do Sudeste?
    NOBRE – Os sintomas do desarranjo climático estão aí. Como na crônica da morte anunciada, experimentamos já agora muito do que fora previsto desde mais de 20 anos por vários estudos feitos na Amazônia. E da observação desta nova realidade chegamos à conclusão cientifica: remover árvores leva a um clima inóspito. Com a destruição continuada das florestas é garantido o destino de clima não amigável, especialmente sob o estresse aumentado das mudanças climáticas globais.
    Éramos felizes e não sabíamos, pois a Amazônia foi e, apesar do desmatamento, ainda é, grande provedora de serviços ao clima. Sabemos agora que a região centro sul da América do Sul recebe a maior parte de suas chuvas a partir de vapor bombeado pela grande floresta. Tal explicação permite compreender por que essa rica região produtiva não é deserto, como são outras regiões na mesma latitude.
    O clima é variável, assim é provável que, apesar destes anos alarmantemente secos, ainda voltem as chuvas. Não sabemos exatamente como essa transição para uma aridez possa se dar. Mas sabemos que, quando vier, toda a região se verá permanentemente privada do elo mais importante do ciclo de água doce em terra: o suprimento pelas chuvas. 2014 já é um exemplo do que poderemos esperar.
    O que provoca o surgimento de uma enorme massa de ar seco, um “paquiderme atmosférico”, em cima da Região Sudeste?
    NOBRE – O fenômeno é decorrência direta da remoção de florestas (também na própria região Sudeste), o que impede a convergência de umidade do oceano para o interior do continente, permitindo a estacionamento dessa massa de ar quente e seco, típica de deserto.
    Tem também a alça de ar da circulação de Hadley, aquela do ar ascendendo úmido no entorno do Equador e baixando seco nas latitudes médias – a explicação clássica para o cinturão de desertos nessas latitudes – que poderia estar recebendo vitamina energética do próprio aquecimento global.
    Liguemos as pontas: tire as florestas e os efeitos da circulação alterada pelo aquecimento global têm campo livre para atuar e eventualmente ali se fixar. Se essa nova circulação e seu clima associado vieram para ficar, se já não for tarde demais, a única possibilidade é recolocar na paisagem o elemento-chave para um clima amigo: restaurar as florestas.
    Quais as medidas mais eficientes para se impedir a catástrofe climática anunciada?
    NOBRE – Nesta altura e a curto prazo não parece provável ou mesmo possível impedirmos a calamidade climática que nos bate a porta. Mas creio que podemos, se fizermos um genuíno esforço de guerra na restauração extensiva das florestas, atenuar muito os efeitos e quiçá logremos recuperar o espetacular sistema de condicionamento climático que operava no “berço esplêndido”.
    Como a destruição da Floresta Amazônica pode interferir no clima mundial?
    NOBRE – Simulando a morte e desaparecimento da floresta, alguns estudos estimaram o efeito da liberação massiva do carbono estocado na Amazônia sobre o clima e os prognósticos que geraram indicam sério agravamento do aquecimento global.
    Outros estudos avaliaram o efeito do desaparecimento da floresta sobre a circulação atmosférica, transporte de vapor e mesmo no balanço de energia, e indicaram que o clima próximo e distante pode ser impactado via perturbação no funcionamento dos oceanos.
    A grande floresta amazônica, descobriu-se ter papel importantíssimo na regulação climática local, regional e mesmo global. Eliminá-la será uma catástrofe impensável para a humanidade.
    Nos últimos cinco séculos houve devastação sistemática de fauna e flora no Brasil que, apesar de enorme, alterou pouco o clima do país. O que provocou a mudança drástica?
    NOBRE – A grande floresta amazônica, como sabemos hoje, exporta serviços ao clima para uma maior parte da América do Sul. A destruição da Mata Atlântica certamente teve efeito ruim sobre o clima local, especialmente na perda da regulação hidrológica fina e da capacidade de atenuação de extremos climáticos.
    Mas nos séculos passados essas regiões continuaram recebendo umidade suficiente da Amazônia para não terem se aridificado. A destruição sistemática e acelerada da floresta amazônica nos últimos 40 anos começa a destroçar a proteção que oferecia. Estamos matando a galinha dos ovos de ouro.
    Qual o impacto da destruição de árvores na diminuição dos “rios aéreos” que, tudo indica, tem provocado a crise hídrica crescente?
    NOBRE – A crise hídrica atual parece resultar da atuação de vários fatores. Aquecimento global, mudança da circulação atmosférica, impedimento da progressão da umidade amazônica e enfraquecimento dos fluxos de vapor nos rios aéreos são alguns destes fatores.
    Quanto e de que forma exatamente contribui cada um deles, ainda não sabemos. Mas sabemos que todos estes fatores têm sido impactados por atividade humana. O desmatamento é a face mais visível da tragédia: somente de corte raso foram três estados de São Paulo (~763 mil km2).
    Degradação florestal, uma área maior ainda (~1,2 milhão de km2). Somadas, estas áreas de impacto já ocupam mais de 47% da área original de floresta na Amazônia brasileira. Tanta destruição já está produzindo impacto.
    Qual a importância das árvores na formação das nuvens? De que forma as árvores são vitais para se gerarem as chuvas de que tanto precisamos para viver?
    NOBRE – As árvores transpiram grandes quantidades de água bombeada do solo, o que resfria a superfície e fornece matéria-prima principal para a formação de nuvens. Elas também emitem compostos voláteis, os cheiros que, como gases que se precipitam na forma de poeira finíssima, atuam na nucleação de nuvens e promoção de chuvas.
    Com a condensação do vapor fornecido pelas árvores, ocorre um abaixamento da pressão na atmosfera sobre a floresta, o que determina a sucção dos ares úmidos sobre o oceano para dentro do continente.
    Há alguma possibilidade de tombar-se a Floresta Amazônica como patrimônio da Humanidade, tentando impedir assim sua destruição pela ignorância humana?
    NOBRE – Creio ser mais factível e prático empreender esforços para eliminar a ignorância humana. Somente uma sociedade consciente consegue fazer frente a interesses menores e destrutivos que surgem e são defendidos por elites poderosas.
    O exemplo das hidrelétricas na Amazônia é sintomático. Nos anos 80, depois de absurdos como Balbina e outras represas, pensou-se que nunca mais voltariam a cogitar novas obras deste tipo na Amazônia. Mas passaram-se décadas e o lobby das hidrelétricas voltou à carga, desta vez recebendo suporte de um governo oriundo de movimentos populares e até de parcela da sociedade que passou a justificar a geração de energia para atender à crescente demanda nacional.
    Até a proteção das reservas indígenas e outras áreas de conservação inscrita em nossa carta magna estão sob ataque eficiente dos interesses menores que dominam o Congresso. A meu ver, somente tombar a floresta, como se faz com valores culturais reconhecidos, não conseguirá barrar tais ataques.
    Foto: Everton Pimentel/Ibama

  • Hidrovia do Mercosul pode entrar no PAC III

    O projeto está pronto, os investimentos detalhados, as licenças ambientais estão encaminhadas.
    Os técnicos agora estão  buscando apoio político para incluir no PAC III a sonhada Hidrovia do Mercosul. O PAC III é o novo pacote de investimentos em infraestrutura que o governo federal está gestando.
    A hidrovia é um projeto de  20 anos, faz parte de um acordo entre os governos brasileiro e uruguaio.
    Vai ligar o centro produtivo do Rio Grande do Sul aos portos de Rio Grande e Montevidéo, numa extensão de 1.800 quilômetros de vias navegáveis.
    O  porto de Estrela (foto), no rio Taquari, é o ponto estratégico deste projeto. Está situado num entroncamento onde se ligam importantes rodovias e ferrovias que ligam as regiões de onde sai a maior parte da produção de grãos do Estado.
     Estrela, um porto abandonado
    Inaugurado em 1977 pelo general Adalberto Pereira dos Santos, vice-presidente da República, o porto fluvial de Estrela brilhou inicialmente como o maior entroncamento rodo-hidro-ferroviario do Sul do Brasil.
    Em operações sustentadas por caminhões e trens, ali eram carregadas barcaças de soja para o porto de Rio Grande. O recorde de movimentação chegou a 1,3 milhão de toneladas em 1987.
    Depois daquele pico, a maior parte das indústrias de soja se transferiu para junto do porto de Rio Grande, esvaziando Estrela e Lajeado, a cidade do outro lado do rio Taquari.
    Movimento diminui a cada ano
    Além de ter perdido a maior parte de suas cargas, o porto não cresce porque, mesmo sendo alvo permanente de dragagens para a retirada de cascalho, seixos e pés-de-moleque, passa a maior parte do ano com baixo calado, desanimando tanto os donos de cargas quanto os armadores de navios.
    Além disso, pesa-lhe a baixa conexão com a ferrovia ALL, que prefere concentrar seus vagões em trechos mais lucrativos.
    Devido ao baixo movimento naval, o pessoal do porto, reduzido a 17 pessoas, tem tempo de manter uma bela horta nos fundos da repartição.
    Quando pinta operação de carga ou descarga, o porto faz mutirão com mão-de-obra contratada na cidade.
    Quem vê o cais quase sempre vazio não imagina que esse simpático porto fluvial tenha maquinário capaz de movimentar 600 toneladas por hora.
    Em abril  de 2013, um acidente com o navio Trevo Azul chamou atenção para as péssimas condições de navegação no rio Taquari, entre o Porto de Estrela e o cais de Porto Alegre.
    O casco do navio quase se rompeu no choque com os cascalhos no leito raso do rio.
    Resultado: em 2014, apenas cinco embarcações – afora chatas carregadas de areia – realizaram o trajeto entre Estrela e a capital gaúcha.
    A última empresa a desistir de transportar mercadorias pela hidrovia do Taquari, a Navegação Aliança desistiu de seguir “arriscando”.
    Foram só três viagens até Estrela em 2014.
    O diretor operacional da empresa, Ático Scherer, declarou à imprensa: “Não estamos mais fechando contratos para buscar carga no Porto de Estrela. É muito arriscado”.
    Segundo Scherer, o último frete realizado levou cerca de 2,4 mil toneladas de fertilizantes, menos da metade da capacidade do navio, por causa dos bancos de areia. “Com pouca carga, o transporte naval fica caro”.
    A empresa opera na hidrovia desde 1980. Em épocas de intensa atividade, costumava fazer entre seis e sete viagens por semana.
    A média era de 40 mil toneladas transportadas a cada 30 dias. Em 2014 não atingiu 25% desse montante. “Estrela conta com um dos melhores portos do Brasil, e ele está cada vez mais abandonado. É desanimador.”
    “Sem pai e nem mãe”
    Quando assumiu no início de 2014, o superintendente da Administração das Hidrovias do Sul (AHSul/Dnit), Elói Spohr, disse que o Porto de Estrela estava “sem pai e nem mãe”, apesar da qualidade da estrutura. Ligado  à Secretaria dos Portos (SEP), era administrado pela Docas do Maranhão, uma empresa privada .
    Spohr advertia  no entanto que, sem um real envolvimento da iniciativa privada e de gestores municipais, nada aconteceria. Nada aconteceu.
    No início do ano passado o governo do Estado chegou assumir o porto, disposto a revitalizá-lo. Penso em criar uma empresa pública para administrá-lo, mas não teve tempo de fazer nada. Agora o governo Sartori faz gestões para devolver o porto de Estrela à União.
    No ano passado, executivos da Terminal Multiusos do Beato, grupo português, acenaram com a intenção de investir R$ 300 milhões na reestruturação do local. As negociações não avançaram.
    Projeto está orçado em R$ 270  milhões
    Um “corredor multimodal”, interligando o Porto de Estrela aos portos de Montevidéu e Rio Grande, é um projeto de mais de 20 anos, que já perdeu o crédito junto aos empresáros do setor naval.
    Agora, mesmo com o entusiasmo aque suscita, não sairá do papel antes do segundo semestre de 2015. Se sair.
    Anunciado no início do ano passado, o Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTA) foi entregue em novembro de 2014.
    Custou cerca de R$ 5 milhões, e apontou as principais necessidades de investimentos. Os projetos executivos estão prontos. Faltam os licenciamentos ambientais do Ibama e da Fepam para iniciar as licitações.
    O estudo aponta falta de dragagem contínua, sinalização e necessidade de balizamento como as principais carências do trecho.
    Alterações nos limites da eclusa de Bom Retiro do Sul também devem ocorrer a partir do próximo ano. Permitirão elevar em 50 centímetros o calado, que hoje é de 2,50 metros.
    Há discrepâncias entre os valores anunciados para implementar o novo corredor. Em 2009, a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, anunciava cerca de R$ 240 milhões em investimentos provenientes do PAC II. Em 2012, o anúncio era de R$ 270 milhões. No início do ano passado, o valor baixou para R$ 217 milhões.
    Apontada como prioridade dentro do Plano Nacional de Logísticas e Transportes entre os anos de 2008 e 2011, a hidrovia deve abranger a Bacia da Lagoa Mirim, da Lagoa dos Patos, do Lago Guaíba, os rios Jacuí, Taquari, Sinos, Gravataí, Camaquã, Jaguarão, Uruguai e Ibicuí. No lado uruguaio, o projeto inclui ainda os rios Cebollatí e Tacuary.
    Detalhes do Porto
    A estrutura está construída em uma área de 49 hectares, com capacidade para movimentar até três milhões de toneladas por ano.
    Tem acesso pelo Rio Taquari, e os terminais têm conexões pelos modais rodoviário e ferroviário. O cais de acostagem tem 585 metros de extensão e dispõe de seis berços, sendo três para operações de embarque e três para desembarque.
    Conta ainda com dois armazéns graneleiros. Um para 13 mil toneladas e outro para 37 mil toneladas de capacidade estática, e um silo vertical de 40 mil toneladas. Para carga geral, o armazém disponível tem 2,26 mil metros quadrados. A estrutura foi construída entre 1975 e 1977, quando houve a inauguração oficial.
    “SEM COMPROMETIMENTO DE TODAS AS PARTES, HIDROVIA NÃO FUNCIONA”
    (da revista JÁ, maio de 2014) – “Eu vivo dizendo que as cargas existem e as hidrovias estão aí, mas só poderemos  juntá-las se houver um real comprometimento das partes envolvidas: os donos das cargas, os donos dos barcos, os operadores dos portos e a ferrovia”. A frase, entre otimista e desanimada, é de José Luiz Azambuja, diretor da Administração das Hidrovias do Sul (AHSul), responsável  pela Hidrovia do Mercosul, que liga (mais na teoria do que na prática) o porto de Estrela à porção uruguaia da Lagoa Mirim.
    Remanescente da Portobrás, extinta em 1990, a AHSul permanece vinculada ao Ministério dos Transportes, embora devesse fazer parte da Secretaria Especial dos Portos. Essa situação administrativa anômala se agrava quando se recorda que a AHSul cuida da pólos menos operativos do sistema hidroviário gaúcho. Com três eclusas, o rio Jacuí é movimentado apenas por barcos de areia, lazer e pesca, todos de pequeno porte. Com uma eclusa e o calado de 2,50 metros (o mesmo do Jacuí), o rio Taquari raramente recebe navios, mesmo oferecendo um porto bem equipado em Estrela, município bem servido por rodovia federal (BR-277) e ferrovia operada pela América Latina Logística. Na Lagoa Mirim, navegam apenas pequenas embarcações de lazer ou pesca.
    Mais movimentado, com calado de 5,20 m e os cais mais extensos do país, o porto de Porto Alegre é administrado pela Superintendência de Portos e Hidrovias, estatal gaúcha que tem também a concessão do porto de Pelotas, praticamente inviabilizado pela proximidade (60 km) do porto de Rio Grande, cujo calado se mantém acima de 16 metros, atraindo grandes navios transoceânicos.
    O rico porto de Rio Grande, que caminha para se tornar o maior do Mercosul, tem administração exclusiva, mais voltada para a navegação internacional do que para a  interior. No total, os portos e as hidrovias gaúchos são explorados por três instituições públicas que se olham atravessado, pois são absolutamente desiguais.

  • O exemplo que vem de cima

    O poder aquisitivo do salário mínimo representa menos de 25% do necessário a uma família
    Os políticos e juizes que se outorgaram aumentos de salários nessa virada de ano/troca de governos ofenderam brutalmente a cidadania no momento em que tanto se fala em apertar cintos e conter despesas. Eles não se deram reajustes para cobrir a inflação, como acontece com o salário mínimo; deram-se aumentos muito acima da taxa inflacionária. Em suma, falta de vergonha na cara.
    Vamos falar sérío: a medida mais democrática a tomar no Brasil é cumprir o artigo constitucional que determina que o salário mínimo dos trabalhadores seja suficiente para atender às suas necessidades vitais e as de sua família quanto a educação, saúde, alimentação, habitação, transporte, vestuário e lazer ao longo de um mês.
    É claro que os atuais R$ 788 não são suficientes. O Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mantém uma tabela atualizada sobre o valor do “mínimo necessário”. Em dezembro, era de R$ 2 975,55. A correção para janeiro deve elevar o valor para pouco acima de R$ 3 mil.
    Lembremos que o teto do Judiciário acaba de ser fixado em R$ 33 mil e uns quebrados. A isso se acrescenta o auxílio-moradia de R$ 4,3 mil. E outras mordomias como diária de viagem acima de R$ 1 mil.
    Não é preciso ser nenhum gênio da aritmética para concluir que algumas categorias do funcionalismo estão fazendo uma farra com dinheiro público – isso, num país que ainda está sendo construído e possui enorme carências a suprir. O salário mínimo vigente é 42 vezes menor do que o teto dos magistrados, o qual serve como referência para outros cargos na União e nos Estados (e até em alguns municípios).
    Só há uma palavra para definir tamanha desigualdade: descalabro. Por cima e por baixo.
    Até parece que não evoluímos. A época de maior poder aquisitivo do salário mínimo foi em janeiro de 1958. Desde então a Constituição vem sendo descumprida – e não só nesse item referente aos direitos sociais dos brasileiros.
    Leia-se o Capítulo XX da Constituição, que trata dos direitos sociais. Diz o Artigo 6º- São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade, a assistência aos desamparados.
    Na sequência, diz o Artigo 7º- São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
    I – relação de emprego protegida contra despedida arbitrária ou sem justa causa
    II – seguro-desemprego em caso de desemprego involuntário
    III – fundo de garantia do tempo de serviço
    IV – salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às suas necessidades vitais e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo
    V – piso salarial proporcional à extensão e à complexidade do trabalho
    VI – irredutibilidade do salário… (seguem outros 28 itens pertencentes ao Artigo 7, entre eles o direito à aposentadoria, férias remuneradas, aviso prévio, repouso semanal remunerado, seguro contra acidentes de trabalho, creche para os filhos, salário-família, participação nos lucros etc).
    Não é preciso estender-se mais para concluir o quanto deve o Brasil aos trabalhadores situados na base da pirâmide social.
    Quem melhor do que deputados, governadores, juízes e ministros seria capaz de compreender a necessidade de fazer justiça por meio da elevação do salário mínimo e dos direitos a ele vinculados?
    No entanto, são os próprios governantes – eleitos pelo voto ou escolhidos por concurso – os primeiros a desdenhar das necessidades dos mais pobres ao avançar sobre os recursos do erário com a síndrome do “meu pirão primeiro”.
    Se os governantes tivessem senso ético e vergonha na cara, fariam um pacto no sentido de só aumentar os próprios rendimentos depois que o salário mínimo alcançasse o valor do DIEESE.
    No mínimo.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    O dinheiro fala mais alto. O salário mínimo apenas cochicha.
    Millor Fernandes

  • Arrocho na economia começou antes da posse

    O segundo governo Dilma começou dias antes da posse, quando o ministro da Casa Civil, Aloisio Mercadante, saiu do remanso pós-eleitoral para anunciar o fim da farra do seguro-desemprego. Foi o primeiro apito do trem pilotado por Joaquim Levy, o novo ministro da Fazenda.
    Ao acabar com a liberalização do mecanismo social que permitia aos trabalhadores malandros forçar a demissão após três meses de trabalho e assim ganhar dobrado nos três meses seguintes com a acumulação do salário-desemprego + um serviço sem carteira assinada, os novos maquinistas do trem Brasil já sinalizaram como será a viagem nos próximos tempos.
    Se estávamos crescendo menos de 1% ao ano, agora provavelmente vamos para uma estagnação ou, quem sabe, uma recessão que pode durar um ano e meio, pelo menos. Boa viagem a todos.
    É significativo o que aconteceu com o novo salário mínimo. Até alguns meses, admitia-se que ele seria arredondado para R$ 800. Semanas depois, o arredondamento caiu para R$ 790. Por fim, na hora H, ficou valendo R$ 788.
    Segundo o Correio do Povo, apenas com esse enxugamento de 2 mirréis, o governo vai fazer uma economia anual de R$ R$ 800 milhões. O recado não podia ser mais claro: trabalhadores, aposentados, protejam suas bolsas.
    Resta saber se um ano e meio é prazo suficiente para arrumar a casa nos seguintes aspectos principais: controle da inflação abaixo de 4,5% ao ano; ajustes nos gastos orçamentários; e aumento dos investimentos privados em capacidade produtiva e inovação tecnológica, o que sinaliza reciclagem de pessoal e provável redução de salários na base da economia.
    Luz amarela no cruzamento
    Onde quer que vá trabalhar ou descansar ao deixar o governo, o  ex-ministro Guido Mantega carrega consigo a memória da mais longa e criativa gestão da economia brasileira.
    De economista para economista, deve ter sido difícil para ele explicar ao novo maquinista, o ortodoxo Levy, como e por que fez tal ou qual manobra enquanto o trem precisava atravessar um trecho de neblina sem direito a apitar ou puxar o freio. Seus 100 meses de viagem podem render um comboio de livros. Dificil adivinhar se vão compor um relato coerente.
    Ainda que o ministro da Fazenda não seja o senhor absoluto da economia, é ele que detém uma das chaves do Tesouro. O problema do ministro das Finanças é que ele tem interlocutores muito poderosos.
    O primeiro e mais imediato é um senhor chamado Orçamento. Pode-se enrolá-lo aqui e ali, mas é melhor não brigar com ele. O segundo é a Moeda, que tem vida própria e gosta de circular no mundo das finanças internacionais, embora não tenha cacife para ir à mesma boate frequentada pelo Dólar, o Euro, a Libra.
    Como controlar os ricos brasileiros e até as classes médias que adoram Miami e outros centros de compras, lazer e negócios?
    Por fim, convenhamos, o principal interlocutor do ministro-todo-poderoso é a Presidente, que não é de fritar bolinho em pouca banha. Nesse primeiro momento de governo, é ponto pacífico que Levy e Dilma precisam botar ordem na casa, promover os ajustes e melhorar os indicadores.
    Podemos acreditar que Levy tem carta branca para promover o chamado choque de gestão (prometido pelo candidato que perdeu o trem na última estação – em Minas). Pode ser que lá por julho de 2016 as coisas já estejam melhores, mas não é certo que tudo aconteça conforme a previsão dos maquinistas – por bons malabaristas que pareçam, não são magos.
    Nem quando o poderoso da Fazenda era Delfim Netto (e todos eram obrigados a lhe dizer amém, pois a ditadura era militar) a economia se comportou de acordo com o planejado. O que é mais ou menos certo é que a coisa tende a ficar mais difícil para quem vive de salário na base da pirâmide das rendas.
    É consenso que, se a inflação é ruim, pior é a queda do crescimento econômico abaixo de zero. Preparemo-nos, pois, para os solavancos. Que se percam os colares, mas se salvem os pescoços.
    Pela necessidade do ajuste econômico-financeiro, o próprio governo está obrigado a reduzir seus investimentos em obras públicas.
    O que devia fazer em dois anos, talvez demore cinco. Teremos uma boa medida da redução do novo ritmo governamental em obras como a transposição das águas do rio São Francisco, que já anda devagar, mesmo constando como prioridade no Programa de Aceleração do Crescimento, o famoso PAC; ou a conclusão da ponte de Laguna (SC) na BR-101 Sul, cujo prazo de 36 meses acaba em maio de 2015.
    Outro indicador do andamento da economia deve ser dado pela Petrobras, que vai reduzir seus investimentos, não apenas por causa da queda do preço do petróleo de US$ 100 para US$ 70 o barril de 159 litros, mas em consequência do abalo produzido em projetos alcançados pela Operação Lava Jato, que descobriu o mar de lama das empreiteiras responsáveis pelas principais obras públicas do país (sem esquecer que nove entre dez estrelas da construção pesada brasileira operam em outros países).
    Além disso, pela força do mesmo jato, é provável que venha a cair temporariamente o volume de financiamentos do BNDES, que vem girando cerca de R$ 150 bilhões por ano. E também parece inevitável que se reduza o volume de operações da Caixa Econômica Federal no âmbito do programa Minha Casa, Minha Vida.
    Por enquanto, apenas o Banco do Brasil não parece ter sido afetado pelas investigações em curso. Ou, seja, pelo menos o Agro e as Exportações estão a salvo da tempestade.
    Abrindo o leque das dúvidas e indagações, pode-se perguntar como ficarão os investimentos da Eletrobrás, da Infraero, das Forças Armadas e de ministérios tradicionalmente detentores de grandes orçamentos, como os de Cidades, Integração Nacional e Transportes.
    No mínimo, todos serão colocados sob rédea curta, pelo menos até que a Polícia Federal e o Ministério Público terminem de encaminhar ao Judiciário suas denúncias e descobertas, nos primeiros meses de 2015.
    Será o momento de começar a saber quem lavou mais branco, quem levou mais propina e quem delatou mais e melhor. Por mais jato que se ponha na máquina judicial, um ano e meio será pouco tempo para lavar tanto roupa suja.
    Há quem diga que “o país vai parar” com a prisão e condenação dos empreiteiros e seus cúmplices na administração pública. Quem diz isso duvida que o Brasil possa ser outra coisa além do país do futuro, cujo potencial se esvai pelo ralo da descrença e da desesperança a cada novo mandato presidencial.
     

  • Campanha subliminar pela privatização da Petrobras

    GERALDO HASSE
    Em artigo na Carta Capital, o economista Delfim Netto anotou os problemas enfrentados pela Petrobras, que atravessa um período complicado. Para o ex-ministro do milagre econômico da ditadura militar, são estes os problemas da Petrobras:
    1 – Corrupção administrativa de altos funcionários, especialmente no superfaturamento de encomendas em conluio com grandes empreiteiras
    2 – Problemas com investidores norte-americanos que se consideram lesados por “propaganda enganosa” no lançamento de ações da BR na Bolsa de Nova York
    3 – Queda de 30% nas cotações internacionais do petróleo (de US$ 100 para US$ 70), o que a obrigará a frear investimentos no pré-sal
    4 –Dívida equivalente à sua receita anual (cerca de R$ 300 bilhões)
    5 – Lucratividade reduzida por ter sido obrigada pelo governo a manter baixos os preços dos derivados do petróleo em nome do controle da inflação
    6 – Obrigada pelo governo a priorizar encomendas (barcos e plataformas de prospecção de petróleo) à indústria nacional
    7 – Imagem pública destruída
    Depois de mostrar as sete pragas da nossa estatal do petróleo, Delfim elogia a Petrobras por já estar produzindo 500 mil barris diários de petróleo do pré-sal (jazida descoberta em 2006) e ter ampliado sua capacidade de refino, o que significa aumento das receitas e redução das importações.
    Ou, seja, tirando a roubalheira praticada por funcionários mancomunados com empreiteiras e políticos, a Petrobras continua admirável, inclusive por ter reabilitado a indústria naval brasileira, o que só configura problema para quem vive da importação de equipamentos e de operações financeiras com o exterior.
    O problema associado a essas pragas/conquistas é que o custo operacional e financeiro de tudo pode ter passado dos limites do razoável, mas é bom lembrar que a Petrobras não pode ser encarada como uma empresa qualquer. Ela tem uma missão constitucional – zelar pelo cumprimento do monopólio estatal do petróleo. Desde sua fundação em 1953 tem sido usada como instrumento de gestão da economia. Felizes os brasileiros por possuírem uma empresa tão poderosa.
    É aí que os liberais como Delfim Netto torcem os bigodes. Estão contrariados. Perderam a eleição presidencial e querem a revanche. Se a Vale do Rio Doce foi privatizada, por que não a Petrobras? É o que pensam, deixando o traseiro à mostra.
    Em muitos casos, privatização e prevaricação são a mesma coisa.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    A Refinaria Abreu Lima, mais conhecida como Refinaria do Nordeste, que foi projetada para ser uma “joint venture” entre a Petrobras e a PDVSA, está começando a operar — sem a participação da Venezuela — e seu custo final ficou em R$ 18 bilhões, 80% acima do maior valor admitido pela Petrobras no momento da aprovação do orçamento da obra em 2009. Os números são da própria estatal, que não deu qualquer explicação para  tamanha discrepância orçamentária. Aí tem

  • Javali virou praga ambiental no RS

    Abigeato? Bruzone? Carrapato? Estiagem? Ferrugem da soja? Gafanhoto? Granizo? Graxaim? Mosca do chifre? Puma? Nada disso: atualmente, a maior ameaça a lavouras e criações do Rio Grande do Sul são os javalis, nativos da Europa e introduzidos no Uruguai há quase um século como curiosidade da fauna.
    Depois de escapar dos cativeiros, esses porcos alçados devastam lavouras, obrigando os peões a andar armados e protegidos por cães. Mas nem assim se controlam essas feras de presas afiadas. Em Alegrete um peão atirou num javali do tamanho de um bezerro. Mesmo ferido, o animal o atacou a dentadas, cortando a bota e lanhando sua perna.
    Há histórias de pessoas que tiveram de trepar em árvore para escapar do ataque desses bichos que se juntam em manadas e percorrem longas distâncias em busca de alimento.
    Por circular mais à noite, os javalis driblam a vigilância dos peões e fazendeiros, que se surpreendem com os vestígios de sua passagem pelos lugares. Fazem estragos inacreditáveis. Vorazes, comem raízes, matam animais e devoram até carniças. Não há fazenda que não tenha perdido bezerro ou cordeiro para os javalis.
    A proliferação dos javalis no interior gaúcho virou motivo de troça. Recentemente, num evento na Farsul, diante de quase uma centena de fazendeiros e jornalistas, o vice-presidente Francisco Schardong brincou ao microfone ao saudar a presença do veterano criador Camilo Costa, de Tupanciretã: “Nosso eterno diretor Camilo Costa está cevando lá em Tupan javali à base de cordeiro mamão…”
    Em algumas fazendas, peões capturam filhotinhos de javalis que são criados “guachos” em chiqueiros para abate aos quatro/seis meses, como se fossem leitões.
    O cruzamento com o porco doméstico amansa os javaporcos, à semelhança do que aconteceu há meio século, quando as abelhas européias se miscigenaram com as africanas em território sulamericano.
    Durante anos, o Ibama só permitiu a captura de javalis por meio de armadilhas. Em 2013 finalmente autorizou o abate por qualquer meio. Se antes era raridade, a carne do javali já aparece com mais frequência no cardápio de restaurantes gaúchos.
    Na Serra, indústrias de embutidos misturam a carne do javali à de bovinos e suínos, obtendo uma linguiça diferenciada vendida a R$ 20 por peça de 500 gramas na última Expointer.

  • Mentiras na internet fomentam o golpe

    GERALDO HASSE
    Está em curso na Internet uma campanha marota intitulada “Obras Concluídas do PT”.
    Exibe fotos de ferrovias, portos, usinas hidrelétricas, pontes e outras construções realizadas em países latino-americanos e africanos com financiamento integral ou parcial do BNDES.
    O nome do banco aparece sobre as fotos das obras com uma tarja dando conta do CUSTO do empreendimento em dólares, como se o Brasil estivesse bancando o Pai João na Argentina, Bolívia, Venezuela, Panamá, Angola etc.

    Campanha anti-PT confunde o BNDES com o partido
    Campanha anti-PT confunde o BNDES com o partido

    À jornalista de Brasília que me enviou o material venenoso, respondi que a campanha é fruto da ignorância e da má fé.
    Mal sabem os ignorantes e mafiosos difusores dessas informações que desde a ditadura militar o Brasil financia obras em outros países, não para bancar o bacana, mas para que as construtoras brasileiras aumentem seu mercado de trabalho e os fabricantes nacionais de equipamentos, idem.
    Já vai para meio século que a engenharia brasileira tem alto nível técnico na construção de hidrelétricas, portos, rodovias, pontes e metrôs.
    A indústria de equipamentos caminha junto.
    É uma grande bobagem achar que, ao financiar uma obra num país qualquer, o BNDES estaria “desviando recursos” do Brasil.
    Ao ver as fotos da campanha anti-PT, lembrei-me de que em setembro de 1972, quando era repórter de economia da revista Veja, fui à Bolívia com um grupo de jornalistas brasileiros.
    Fomos conhecer uma pequena hidrelétrica construída no meio dos Andes pela mineira Mendes Junior, que dava os primeiros passos no exterior (depois ela foi construir estradas no Iraque, onde quebrou a cara por confiar demasiadamente no ditador Sadam Hussein).
    Não preciso dizer quem a financiava. Essas obras geravam empregos lá fora e aqui dentro, pois uma usina exige desenhos, insumos, equipamentos.
    Depois, entre 1979 e 1981, repórter da revista Exame, fui duas vezes à Venezuela para ver o início e o fim da construção da grande Hidrelétrica de Guri, erguida num afluente do rio Orenoco, no meio das montanhas venezuelanas.
    A construção era da Camargo Correa, que mantinha lá engenheiros e técnicos. As turbinas e outros equipamentos foram feitos no Brasil.
    Ou, seja, Guri gerou empregos na indústria brasileira.
    Uma obra desse porte, que custou cerca de US$ 500 milhões, gera encomendas e empregos em diversos setores. Nos setores de transporte, siderurgia e bancos, por exemplo.
    Para emprestar dinheiro, o BNDES, como qualquer banco, exige garantias aos responsáveis pela obra, sejam os donos ou os empreiteiros.
    Então é má fé achar que o banco nacional está custeando obras a fundo perdido nos países vizinhos.  Se fizesse isso, o BNDES não estaria líquido como está.
    O que o BNDES faz é financiar o desenvolvimento da economia brasileira. Ao fomentar uma obra num país vizinho ou distante, aprimora as condições para a melhoria das relações de trocas com o Brasil.
    Portanto, restam duas conclusões, que ficam como LEMBRETES DE OCASIÃO:
    1 – as pessoas que repassam acriticamente tais mensagens malévolas são ingênuas ou inocentes úteis, como se dizia antigamente
    2 – os autores e editores dessas mensagens e campanhas é que são maldosos a serviço da indústria de um golpe antidemocrático que se tenta aplicar no Brasil.
     

  • Governador eleito do Maranhão compara Lava Jato a Mãos Limpas

    GERALDO HASSE 
    Profundo conhecedor dos mecanismos judiciários – além de juiz, foi secretário do primeiro Conselho Nacional da Justiça –, o governador eleito do Maranhão, Flavio Dino, acredita que a Operação Lava Jato, se continuar sendo bem conduzida pela Polícia Federal e o Ministério Público, pode equiparar-se à  Operação Mãos Limpas, que esterilizou a Máfia na Itália, nos anos 1990.
    A Operação Lava Jato investiga a corrupção no âmbito da Petrobras e, na semana passada, prendeu uma dezena de dirigentes de empreiteiras de obras públicas. A analogia Brasil-Itália foi feita na segunda-feira (17/11) no programa Roda Viva, que a TV Cultura de São Paulo transmite em rede com as emissoras educativas estaduais.
    Flávio Dino governador eleito do Maranhão no roda viva
    Talvez a maior surpresa eleitoral de 2014, pois derrotou o grupo político do ex-presidente José Sarney, o atual deputado Flavio Dino (PCdoB) não é um aventureiro ou fantoche, como se poderia imaginar. Na entrevista das 22h às 23h30, diante de uma bancada de cinco repórteres escolados, entre eles Fernando Rodrigues, da Folha de S. Paulo, o novo governador maranhense deu um show de conhecimento histórico, articulação política e visão econômica.
    “O senhor acha que a presidenta Dilma pode não estar envolvida no escândalo da Petrobras?”, perguntou o apresentador Augusto Nunes, que não esconde seu desprezo pela sucessora de Lula, nem pelo ex-presidente petista, em seu blog na Veja online.
    “Dilma é uma pessoa honesta. Acho que ela não está envolvida”, disse Dino, que por contingências políticas regionais não recebeu o apoio do PT no Maranhão, onde o partido da presidenta apoiou o PMDB. Com a vitória no primeiro turno, Flavio Dino está com dois terços da equipe de secretários formada. Entre os convidados, figuram técnicos do PMDB, do PSDB e de outros sete partidos aliados, fora o PT.

  • Livro resgata a história da AP, que nasceu católica e morreu guerrilheira

    O jornalista Otto Filgueiras lançou no segundo semestre de 2014 o primeiro volume do livro Revolucionários sem rosto: uma história da Ação Popular, da Editora Caio Prado, do Rio. Com 400 páginas, o primeiro volume abrange o período 1930-68. O volume 2, com outras tantas páginas, vai até 1986,mas ainda não tem data de lançamento.
    Baseado principalmente na história documental, mas também em depoimentos orais de 200 antigos dirigentes, militantes, simpatizantes, advogados de presos políticos e ativistas de outras organizações, o livro narra a trajetória teórica, política, ideológica e prática da Ação Popular e de seus personagens.
    A AP foi uma das principais siglas políticas engajadas na resistência à ditadura militar de 1964-85, ao lado da ALN, do PCdoB e da VPR. Entre seus militantes originais, destacaram-se o sociólogo mineiro Herbert de Souza (Betinho, já falecido) e o líder estudantil José Serra, que lidera uma facção do PSDB paulista.
    Relativamente popular no seu tempo, a AP é pouco conhecida pelas novas gerações. De origem cristã, principalmente com influência de pensadores católicos humanistas como Emmanuel Mounier, Teilhard de Chardin, Jacques Maritain, o padre Louis-Joseph Lebret e o padre brasileiro Henrique Lima Vaz, mas também influenciada por pensadores teóricos progressistas da igreja presbiteriana como o pastor estadunidense Richard Shaull, a AP começou a ser articulada pela esquerda católica a partir de 1961, em Minas Gerais, onde surgiu o jornal Ação Popular, editado por Vinicius Caldeira Brant.
    Inicialmente, a Ação Popular era considerada apenas um movimento, mas logo em 1962 seus articuladores realizaram duas reuniões nacionais, primeiro em Belo Horizonte e depois em São Paulo, quando esboçaram seu estatuto ideológico. Seu congresso de fundação só aconteceu no carnaval de 1963, em Salvador, na Escola de Veterinária da Universidade Federal da Bahia (UFBA), quando foi aprovado seu documento-base. A partir de então, a AP passou a ter um referencial teórico e se constituiu nacionalmente como organização política, embora sem registro legal jurídico.
    Ao longo de sua trajetória, a Ação Popular aglutinou mais de 25 mil militantes, simpatizantes e pelo menos um milhar deles foi deslocado para trabalhar em fábricas e no campo a partir de 1968, na chamada “fase maoísta”, que atendia à orientação do PC chinês liderado por Mao Tse Tung.
    Uma das principais bases políticas da resistência ao regime militar, a AP defendeu a luta armada para derrubar a ditadura, mas era contra as ações foquistas. Mesmo se esforçando para manter seus vínculos sociais, inclusive com militância política dentro de partidos (PTB e PSB), terminou isolada e esfacelada pela repressão da ditadura militar.
    O livro esmiuça os embates internos que levaram a Ação Popular a migrar do cristianismo esquerdista ao marxismo-leninismo e, também, a história de seus principais militantes e dirigentes, entre eles Jair Ferreira de Sá, um dos fundadores da organização, que esteve  no comando desde o começo e foi seu principal dirigente nos anos mais duros do regime militar.
    Jair já estava clandestino em 1968, quando coordenou os protestos populares durante as comemorações oficiais do dia 1 de maio em São Paulo, episódio que levou o governador Abreu Sodré a submeter-se aos militares. Além de pesquisar o arquivo de Jair Ferreira de Sá, depositado no Arquivo Público do Rio de Janeiro, Otto recebeu da família o seu arquivo pessoal.
    Entre as mais de 200 entrevistas realizadas, destacam-se os depoimentos de personagens históricos, como o Padre Henrique Lima Vaz (já falecido), na época filósofo e principal teórico da esquerda católica, cujas ideias foram decisivas na fundação da organização e na redação do documento-base aprovado em 1963, época que esteve em alta o humanismo do Concílio Vaticano II, liderado pelo Papa João XXIII (1881-1963), um dos inspiradores da Teologia da Libertação. Lançada em 1968 na Conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín, na Colômbia, a TL exigia da Igreja Católica a “opção preferencial pelos pobres”, ou seja, a volta do cristianismo original.
    Otto Filgueiras também registra o depoimento de outras figuras:
    + o operário Ênio Seabra, que liderou as greves de Contagem (MG), em 1968;
    + o operário José Barbosa (já falecido), um dos líderes da manifestação contra a ditadura no 1 de maio de 1968, na Praça da Sé, em São Paulo;
    + o mineiro José Gomes Dazinho (já falecido), líder operário nas minas de ouro e prata, em Nova Lima (MG), e deputado até 1964, quando foi preso e torturado;
    + o líder camponês Manoel Conceição Santos, dirigente da organização;
    + Jean Marc, ex-presidente da UNE;
    + Doralina Rodrigues Carvalho, José Fidelis Sarno, José Luiz Moreira Guedes, Maria Nazaré Pedrosa,  ex-dirigentes da UNE;
    + Maria Auxiliadora Arantes, Anete Rabelo, Aldo Arantes, Haroldo Lima e Renato Rabelo, dirigentes do PCdoB;
    + O pessoal que participava do Movimento de Educação de Base (MEB) no governo João Goulart, entre eles Nilson Batista e Zélia Rezende;
    + Felícia Andrade de Moraes, militante da AP e companheira de Rui Frazão, dirigente  da AP morto pela ditadura.
    + Tibério Canuto e Emiliano José, ex-dirigentes da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES).
    Com esses e outros, o pesquisador reuniu dados sobre a presença da AP nos movimentos estudantil, camponês e operário, particularmente de Contagem (MG), Osasco, São Paulo e no ABC paulista nas décadas de 1960 e 1970.
    Com base na documentação encontrada nos arquivos foi possível esclarecer também a prisão e morte dos militantes e dirigentes da AP Jorge Leal Gonçalves, Raimundo Eduardo da Silva, Luiz Hirata, Paulo Stuart Wright, Umberto Câmara, Honestino Guimarães, José Carlos da Mata Machado, Gildo Macedo, Eduardo Collier, Fernando Santa Cruz e Paulo Stuart Wright.
    Eles foram presos em agosto, setembro  e outubro de 1973 durante uma operação executada pelo Centro de Informações do Exército (CIE), que capturou mais de 40 pessoas da organização. Morto no DOI-CODI de São Paulo, o dirigente Paulo Stuart Wright, de origem norte-americana e religião presbiteriana, foi enterrado no Cemitério de Perus com o nome de Pedro Tim, mas seu corpo nunca foi encontrado.
    O relato de Otto Filgueiras configura uma das mais perturbadoras viagens às prisões do governo militar, pois revela grandezas e misérias do comportamento dos dois lados da história. O repórter achou nos arquivos policiais um documento do Ministério da Justiça que orienta como interrogar e torturar os militantes da AP.
    Segundo o documento, o pessoal da AP era bem preparado ideologicamente, resistia para “falar” mesmo sob tortura e, quando dava depoimento, “inventava estória”. Por outro lado, alguns capítulos se referem à colaboração de pessoas ligadas à AP com os órgãos da repressão. Foi a partir dessas delações que o CIE promoveu o cruel desmantelamento da AP em 1973.
    O pano de fundo da história escrita por Otto Filgueiras é a luta pelo socialismo em face do processo capitalista no Brasil, que vem crescendo enquanto a maioria dos regimes comunistas perdeu-se na voragem da História.