GERALDO HASSE
O jornalista gaúcho Ayrton Centeno vai autografar na Livraria Saraiva do Moinhos Shopping, em Porto Alegre, às 19 horas do dia 18 de novembro, o livro Os Vencedores, um catatau de 856 páginas produzido pela Geração Editorial.
Seus personagens são os derrotados de 1964 e 1968 que chegaram ao poder a partir do final do século XX.
Nas livrarias Saraiva, o livro, que custa R$ 69,90, está por R$ 55,90. O e-book sai por R$ 24,90.

Os Vencedores não é o primeiro livro de Centeno, autor da competente biografia do ecologista Henrique Luís Roessler (JÁ), mas é seguramente o maior e o que lhe exigiu mais fôlego para captar as dimensões humana e política de personagens presentes na história brasileira dos últimos 50 anos.
A maioria dos 25 vencedores focalizados por Centeno – entre eles Dilma Rousseff, Lula, Carlos Araújo, Frei Betto, Tarso Genro e Raul Ellwanger – passou pela cadeia ou pelo exílio e sangrou na mão de policiais civis e militares a serviço da ditadura.
Suas histórias são mais ou menos conhecidas graças a dezenas de livros e filmes, mas de cada um Centeno captou a essência nem sempre presente em outros depoimentos.
Tudo somado, tem-se um rico painel do movimento de resistência à ditadura realizado por advogados, políticos, militares, artistas, estudantes, professores, jornalistas, operários, sindicalistas e outros profissionais.
O projeto levou três anos para ser concluído, além da sua expeiência de quase quarenta anos como jornalista.
É um livro jornalístico editado com o cuidado de uma obra de história. A cada um dos 26 capítulos corresponde um bloco de fotos. O índice onomástico ocupa 35 páginas. As notas de referência exigiram 74 páginas.
Para quem tem tempo e disposição, é livro para ser devorado em poucos dias. Para quem só lê à noite para chamar o sono, Os Vencedores pode ser excelente companhia do Natal ao Carnaval.

Autor: Geraldo Hasse
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Um grande painel da resistência à ditadura
Ayrton Centeno O ator José de Abreu já leu Os Vencedores,já à venda -
Na fala da vitória, Dilma falou em “solidariedade”
GERALDO HASSE
Dizem os comentaristas, e muitas pessoas repetem, que a presidenta Dilma Rousseff foi reeleita pelo Brasil “preto e pobre”, “comprado” pelo dinheiro do Bolsa Família e os subsídios do Minha Casa Minha Vida e algumas bolsas de estudos do Prouni etc.
É uma visão estreita do resultado eleitoral. Estreita, elitista e repleta de mágoa. Querem nos provar que o pobrerio “roubou” de Aécio Neves uma vitória estrondosa que traria de volta o modo neoliberal de governar, privilegiando as finanças e recolocando os trabalhadores no lugar subalterno que lhe cabe na história do capitalismo.
Dizem que temos um país dividido. Quem o diz são os perdedores. Desde quando somos um país unido?
O que emergiu das urnas foi o país que sobrou da abolição da escravatura, que jogou na miséria quase a metade da população brasileira da segunda metade do século XIX.
O resgate sociocultural e econômico mal começou. Temos pela frente 300 anos de medidas compensatórias para equalizar o Brasil rico e o Brasil pobre. Esses dois brasis já deviam estar mesclados e unido, mas seguem separados pela insensibilidade das elites.
O resultado das eleições de 2014 nos traz de volta o humorista Henfil. Há 40 anos ele foi morar em Natal para ver melhor as diferenças com o Sul maravilha, expressão inventada por ele para enfatizar a distância econômica do Nordeste pobre. Henfil, como seu irmão Betinho, era um atormentado pela justiça social, tarefa elementar que mal começou.
Os cidadãos bem plantados na vida podem ignorar as vissicitudes dos esquecidos e deserdados, mas os governos não podem fechar os olhos para a realidade. Dar oportunidade aos desvalidos é um preceito constitucional, além de ser um ato humanitário elementar.
A equalização se impõe não apenas no acesso à comida, mas aos direitos elementares da cidadania. Enquanto o Brasil rico não entender isso, continuaremos a ser um país dividido, mas não pelas urnas.
O Bolsa Família é o degrau mínimo para tocar pra frente o milagre da distribuição de benesses e oportunidades do progresso. Junto com o pão, o Estado tem de oferecer escola, posto de saude, remédios, emprego, casa própria, lazer. É o trivial variado dos discursos eleitorais. Os candidatos prometem e depois esquecem.
Não foi por acaso que no discurso da vitória Dilma falou em “solidariedade”. É a palavra certo no momento exato. Como dizia Aécio Neves, ela vai “aprimorar” os programas sociais. Se esquecer os pobres, queima seu filme.
É hora de estender a mão aos caídos pelo caminho. Aos derrotados de ontem, por que não?, mas também e principalmente aos de 1964, 1888, 1789 e todos os 500 anos de nossa História. -
É hora de implantar a democracia por via digital
Geraldo Hasse
Às vésperas das eleições, os políticos e outros velhacos vêm nos dizer que a urna é o símbolo máximo da democracia e que esse domingo de outubro é o dia mais importante do quadriênio porque vamos eleger nosso governante maior.
Sim, voto na urna é fundamental, mas só um tolo acredita que, digitando o número de um candidato, vai garantir a continuidade da democracia.
Ao votar o eleitor garante a continuidade do ritual básico, mas seu gesto não interfere no funcionamento do processo político, que continua no mesmo batidão viciado.
O que garante a democracia não é o blablablá eleitoreiro, mas a participação popular efetiva, que não pode se resumir a uma ida à cabine de votação a cada dois anos. .
O que estão esperando os técnicos, os legisladores, os juizes eleitorais que não ampliam as formas e os instrumentos de participação dos cidadãos no encaminhamento das grandes decisões nacionais?
O orçamento participativo, um bom começo, foi congelado por administrações que não gostam de povo.
Já não está provado que a internet é uma excelente ferramenta de participação?
É preciso oficializar esse processo de participação. O revolucionário Fernando Gabeira propôs isso quando passou pelo Congresso, mais de uma década atrás.
Nada é mais visível do que a ânsia de participação/interferência na gestão pública do que a parafernália de blogs e sites empenhados numa panfletagem diuturna.
As redes sociais estão cutucando os cidadãos/eleitores para que não se acomodem.
A quem se alarma com a proliferação de factoides e a banalização das denúncias, é preciso dizer: melhor isso do que a paz servil das democracias cansadas, improdutivas.
Em bancos, empresas, cadeias de lojas, na previdência social, nos ministérios, nas praças de pedágio, nos tribunais e nas universidades, a informática se tornou um instrumento fundamental da vida cotidiana.
A existência de fraudes aqui ou ali não pode ser motivo para não se mudar o batidão pervertido da administração pública. A prática da democracia digital certamente vai contribuir para aumentar não apenas a participação popular, mas o acesso às benesses do progresso, entre elas a educação, o computador, a internet.
Só falta o governo fazer sua parte. Quando se diz governo, entenda-se Presidência, Congresso, Judiciário, Universidades, Imprensa, Rádio, TV, Internet e outras instituições públicas e privadas.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”
Paulo Freire, criador da pedagogia da alternância, que se baseia em quatro práticas fundamentais: “observar”, “refletir”, “experimentar” e “transformar”
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Avanço de grupo cearense inquieta moinhos gaúchos
A indústria moageira gaúcha está inquieta com o avanço do grupo nordestino M. Dias Branco, líder nacional do setor de massas e biscoitos, com uma receita de R$ 4,3 bilhões em 2013.
Apoiado por incentivos fiscais do Estado, o grupo octogenário sediado no Ceará comprometeu-se no início de 2014 a investir R$ 173 milhões na ampliação de sua fábrica de Bento Gonçalves, comprada em 2003 do grupo Adria, de São Paulo.
Com o investimento, a unidade da Serra Gaúcha – cuja marca Isabela é “a mais lembrada” pelos consumidores gaúchos – passará a ter capacidade instalada de 65 mil toneladas/ano de biscoitos e 60 mil toneladas/ano de massas, acrescentando mais duas centenas de empregados ao seu quadro de pessoal, integrado por 900 funcionários.
Junto com a ampliação da linha de massas e biscoitos, o grupo promete montar um moinho com tecnologia de última geração capaz de produzir 1.300 toneladas de farinha de trigo por dia.
Se operar a pleno durante 300 dias por ano, processará o equivalente a 15% da produção gaúcha do cereal.
Por aí se entende a inquietação da indústria riograndense, composta por cerca de 90 moinhos, alguns parados, outros operando intermitentemente e a maioria produzindo sem usar toda sua capacidade instalada.
Fiel a um modelo de governança corporativa de feições globais, muito comum em empresas multinacionais, o grupo M.(M de Manuel) Dias Branco mantém em São Paulo uma “assessoria de imagem” (Press à Porter) que alega não ter autorização para divulgar informações sobre marcas e unidades empresariais isoladas.
Por isso é impossível, no momento, saber precisamente a quantas anda o projeto de Bento e qual seu prazo de conclusão ou a época do início das atividades do novo moinho.
Na Prefeitura de Bento Gonçalves, o secretário Neri Mazzochin, do Desenvolvimento Econômico, confirma que o novo moinho, “um dos mais modernos da América Latina”, começará a ser implantado no próximo ano e iniciará a produção ainda em 2015, ocupando área de 10 mil metros quadrados no bairro Botafogo, onde já opera a fábrica de massas e biscoitos Isabela.
Na realidade, como outros grupos industriais, o Dias Branco assegurou-se o direito de usar os incentivos oferecidos pelo Fundopem, mas é livre para fazê-lo quando melhor lhe convier.
Quando reclamaram da concessão dos benefícios ao poderoso grupo sediado no Ceará, os empresários gaúchos foram informados de que a indústria moageira do Rio Grande do Sul pode usufruir das mesmas vantagens, basta realizar o procedimento burocrático junto à Secretaria de Desenvolvimento e Promoção do Investimento, que tem como um dos seus objetivos “melhorar a competitividade” de setores tradicionais da economia estadual.
No caso, pode ser que os moinhos menos modernos tenham acelerado seu colapso.
O JÁ cansou de tentar ouvir o presidente do Sinditrigo-RS, José Celestino Antoniazzi, cuja base operacional fica em Santa Maria.
MUITA BALA NA AGULHA
Para saber sobre as diversas empresas do grupo M Dias Branco, a saída é navegar nas águas de seu site, cujas demonstrações financeiras são extremamente transparentes.
Por ali se fica sabendo que no último exercício fiscal, encerrado em dezembro de 2013 com receitas de R$ 4,3 bilhões,- o grupo tinha um patrimônio líquido de R$ 2,8 bilhões
- obteve um lucro líquido de R$ 524 milhões
- detinha 30% do mercado nacional de biscoitos e massas
- gastou R$ 486 milhões com salários, previdência social e FGTS do pessoal
- pagou R$ 386 milhões de impostos
- teve despesas de R$ 2,86 bilhões, sendo R$ 1,1 bilhões com a compra de farinha de trigo
- possuía uma dívida líquida de R$ 261 milhões
- estava investindo R$ 288 milhões
- dispunha de uma reserva para investimentos de R$ 780 milhões
- contava com incentivos fiscais no total de R$ 233 milhões, sendo R$ 183 milhões referentes a créditos estaduais de ICMS e os R$ 50 milhões restantes, federais
Controlado pelo seu próprio presidente Francisco Ivens de Sá Dias Branco, que possui 63% dos ações (outros 25% estão na Bovespa), o grupo tem excelente saúde econômico-financeira e vem ancorando todos os seus principais investimentos em locais que oferecem incentivos fiscais.
No cinco estados onde fez ou está fazendo investimentos, apenas no Rio Grande do Norte os benefícios fiscais terminam em 2014. No Ceará e em Pernambuco, as vantagens fiscais vão até 2024. Na Bahia, até 2025. Na Paraíba, até 2032.
Além de incentivado, o Dias Branco dispõe de munição própria suficiente para alterar a correlação de forças no mercado gaúcho de moagem de trigo, do qual se ausentaram, há vários anos, grandes grupos moageiros como o norte-americano Bunge, aqui chamado Sociedade Anônima Moinhos RioGrandenses (SAMRIG), que começou com um moinho de trigo em 1929 e, em 1958, implantou em Esteio a maior fábrica de soja do Estado.
Embora não dê informações isoladas sobre unidades e marcas, o grupo M. Dias Branco tem consciência de que sua penetração no mercado moageiro gaúcho reacende a chama da agroindústria tritícola no Estado e, por isso, precisa pisar com cuidado no berço da lavoura nacional de trigo.
Nesse sentido, amaciaria o terreno se tivesse a gentileza de responder, entre outras, às seguintes dúvidas:- O novo moinho de Bento vai se dedicar apenas ao autoabastecimento (da fábrica de massas Isabela) ou atenderá também o mercado regional de farinha ou, seja, vai disputar clientes com a indústria moageira já instalada no Estado?
- Vai moer apenas o trigo gaúcho/sulino ou está buscando posição geoestratégica para beneficiar trigo importado, explorando a proximidade com a Argentina e o Uruguai, países em que já possui escritórios comerciais?
- Além dos incentivos fiscais obtidos do governo do RS, o projeto do grupo no Estado visa usufruir de alguma vantagem decorrente da proximidade com o Mercosul?
ghasse@th.com.br
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Votar nulo é um protesto vazio
GERALDO HASSE
Alguns radicais opositores da Ditadura Militar, gente que em 1980 ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, afirmam que agora, no segundo turno, vão votar nulo porque “o PT nem partido reformista é”.
No primeiro turno, eles votaram num dos micropartidos de esquerda. Agora, repudiam as candidaturas de Dilma e Aécio por considerá-las comprometidas com a burguesia e divorciadas dos reais interesses populares.
O PSol, que recebeu 1,5% dos votos presidenciais de primeiro turno, saiu pela tangente com um “Aécio não”, mas nada disse sobre Dilma. Ou, seja, sugeriu o voto nulo ou em branco.
De acordo com os esquerdistas ortodoxos, que ainda se orientam pelo viés marxista-leninista vitorioso na Rússia em 1917, na China em 1949 e em Cuba em 1959, o PT não merece mais apoio porque fez ensaios e promessas à esquerda mas na síntese dos seus 12 anos de governo trabalhou essencialmente pela manutenção do status quo, garantindo lucros extraordinários para os rentistas enquanto distribuía migalhas para a maioria pobre.
É verdade mas, por insuficiente que seja, o processo de inclusão social praticado nos últimos anos pelos governos petistas reconectou o país com as políticas trabalhistas iniciadas por Getúlio Vargas nos anos 1930/40 e bloqueadas pelo golpe militar de 1964.
Depois de duas décadas de governos autocráticos, a Constituição de 1988 recolocou o trem do Brasil nos trilhos da democracia.
Por mais insatisfatórios que tenham sido os avanços dos últimos 25 anos, não há dúvida de que tivemos dois grandes ciclos governamentais.
No primeiro, que começa com Collor e vai até o fim dos governos FHC, houve a abertura comercial para o mundo, a estabilização monetária, as privatizações de ativos estatais, com o respectivo fortalecimento de grupos privados nacionais e internacionais atuantes na economia brasileira.
Quase todos concordam que foi um processo positivo que modernizou a economia, embora tenha deixado à margem dos trilhos milhões de pessoas sem eira nem beira.
Em seguida, como parte de um processo dialético, tivemos um segundo tempo com Lula e Dilma que levou o país a resgatar milhões de pessoas da degradação socioeconômica, ao mesmo tempo em que se multiplicavam investimentos e se obtinham bons resultados na agricultura, na indústria, no comércio, no turismo, na logística, na mineração, na educação, na saúde, na habitação.
No momento, como decorrência da crise financeira internacional e de contradições internas, a economia brasileira está num impasse. E agora?
Mesmo com distorções, a democracia está implantada, tanto que está chegando ao fim mais um período eleitoral.
Nada melhor do que o voto popular para passar o país a limpo.
Agora, no dia 26 de outubro, os brasileiros precisam decidir se prorrogam o tempo do PT e seus aliados “comunistas” ou se dão uma nova chance ao PSDB e seus amigos “neoliberais”. (Os rótulos entre aspas têm conotação pejorativa porque refletem ideias, formulações, esforços, tentativas e desgastes inerentes a dois modelos de gestão governamental).
Para o bem e para o mal, o “comunismo” e o “neoliberalismo” estão superados porque tentam se afirmar dogmaticamente como “pensamento único”, sem consideração pelo outro lado.
Mas o confronto eleitoral se tornou inevitável não apenas no âmbito nacional, mas também nos estados cujo governador deve ser eleito em segundo turno.
Caso do Rio Grande do Sul com Tarso x Sartori, cuja disputa reflete a polarização existente na disputa nacional.
Com um adicional geográfico: enquanto Sartori se apresenta como o gringo da Serra, Tarso é o filho da Campanha que venceu na capital com uma exuberante retórica internacional.
Neste momento, o Brasil não tem como fugir da escolha entre os dois modelos de desenvolvimento representados por Dilma e Aécio. E o RS também encara a dicotomia Tarso x Sartori. É a velha luta, no plano eleitoral, do trabalho x capital, esquerda x direita, distribuir x concentrar. O filme mais antigo da história do mundo.
Quanto a Dilma, ninguém parece ter dúvida de que, sendo reeleita, ela vai dar continuidade ao Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, Pronatec, Prouni, Pronaf e outros projetos e programas de alcance popular. .
Quanto ao tucaninho mineiro, há indícios de que vai colocar em prática, novamente, o modelo de gestão monetarista, naturalmente concentrador de renda. Em nome da eficiência empresarial, podemos ter um novo surto de privatização envolvendo o Banco do Brasil, BNDES, BNB e CEF, Correios.e até a Petrobras.
Nesse contexto, não se compreende que os antigos adeptos da revolução proletária prefiram anular o voto. Afinal, entre Aécio e Dilma, quem está mais próximo de atender às necessidades e aos interesses dos trabalhadores, dos pobres, dos carentes?
Ambos de origem mineira, os dois candidatos presidenciais têm ligações históricas com o trabalhismo, Aécio pelo avô Tancredo Neves, Dilma por sua militância no PDT e no PT. Quem chegar lá, que saiba honrar a História.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Getúlio Vargas sempre acreditou, ao contrário dos marxistas, que o Estado existe para conciliar interesses e não para representar interesses de uma classe. Sempre foi um nacionalista, um progressista convicto”. (José Honório Rodrigues, historiador)
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Opinião: Depois do ciclone vem a tempestade
Está difícil entender o que disseram as urnas de 5/10, pois elas emitiram mensagens contraditórias, mas vem aí o segundo turno para dirimir (ou intensificar) eventuais dúvidas.
O que parece claro é que, diante de sinais de que o PT ficou velho, o povo está a fim de algo novo, ainda que este venha com cara de meninão mimado nascido em berço de ouro. Por isso precisamos tentar fazer uma releitura das coisas.
Fora os episódios Luiza Fontenelle em Fortaleza em 1982 e Erundina em Sampa em 1988, faz apenas 20 anos que a maré petista subiu em dois pequenos redutos eleitorais com Christovam Buarque no DF e Vitor Buaiz no ES.
Só depois a estrela vermelha brilhou em outros lugares. Lula só ascendeu em 2002 e, após três mandatos segurando o violino com a mão esquerda e tocando com a direita, o partido dá sinais de fadiga. É isso mesmo? Quem tem certeza de alguma coisa enquanto grassa um ciclone extratropical?
Fazendo o possível para distribuir renda por meio do aumento do salário mínimo, da criação de empregos, da expansão do serviço público em educação e saúde e de programas de inclusão social, o PT praticou o desenvolvimentismo à moda brasileira, fazendo concessões fiscais a setores estratégicos, financiando campeões do capitalismo e mantendo os privilégios das elites financeiras. Foi bom enquanto durou, a economia está batendo pino, precisando de novos aditivos. Quem terá a receita para recolocar o carro nos trilhos?
É duvidoso que a classe média e a base da pirâmide social tenham uma percepção exata do que aconteceu, justo elas que foram beneficiadas pela gestão dos últimos anos, mas um dos sintomas do desgaste do petismo é que as duas prefeitas precursoras e os dois ex-governadores pioneiros foram parar em outros partidos.
Fora espasmos e explosões, o Brasil é um país essencialmente conservador cujos impulsos de mudança ocorrem menos através do voto em figuras revolucionárias e mais pela votação em figuras como Tiririca, personificação de um protesto anárquico e sem futuro. Mas o que fazer se uma parte dos eleitores não reconhece no voto um instrumento de aperfeiçoamento da democracia? Só a educação nos salvará, o que demanda longuíssimo prazo.
No máximo, o que se pode concluir, por ora, é que as urnas sinalizaram um desejo de mudança, mesmo em lugares supostamente politizados como o Rio Grande do Sul, onde Tarso Genro, um dos melhores quadros do PT, com um bom governo e aptidão para concorrer à Presidência da República, levou 4X3 de um PMDB dividido. Tão dividido que o senador Pedro Simon apoiou Marina.
Agora quem lidera o bloco peemedebista em apoio a Dilma no segundo turno é o peemedebista Eliseu Padilha, que foi ministro dos Transportes do tucano FHC, padrinho da candidatura de Aécio Neves. Não é para entender.
Nocaute em Suplicy
Outros sinais da queda da estrela petista foram o nocaute sofrido pelo senador Suplicy diante do tucano José Serra em São Paulo, o afundamento das candidaturas bancadas por Lula em Sampa e no Rio e as derrotas de Dilma em cidades dirigidas pelo PT.
A eleição do petista Fernando Pimentel pelos mineiros talvez seja a exceção que confirma o declínio da estrela, mas só não vê sinais de desagregação no PT quem estiver com a vista turva ou a cabeça inchada. Na gangorra PT-PSDB, condenada por Marina Silva, o polo tucano subiu e o petista caiu. O desgaste é natural, pois já se passaram vários anos de presença no poder, mas falta avaliar o quanto pesou a contribuição de petistas imbuídos de uma arrogância capaz de esfolar a ética, um dos valores originais do partido.
“O PT tem uns problemas a resolver”, disse o ex-governador gaúcho Olívio Dutra, após reconhecer a própria derrota por apenas dois pontos percentuais para o jornalista de rádio e TV Lasier Martins, estreante que conquistou a vaga ao Senado. Olívio não disse, mas todo mundo sabe que se referia à necessidade de lavar a roupa suja e promover uma depuração no partido. Não é o que desejam os dirigentes mergulhados no corporativismo e/ou no fisiologismo.
Ambos septuagenários, Olívio e Lasier pregaram reformas, mas nenhum deles representava mudança. O eleitorado deu um passo atrás e escolheu o mais novo representante do conservadorismo. Eleito pelo PDT, que recebeu apenas 4% dos votos para governador, Lasier nunca teve vínculos partidários enquanto atuou como apresentador de rádio e TV.
Fora a lembrança do pai como eleitor de Getúlio Vargas, seu único liame com o trabalhismo é seu suplente Christopher Goulart, neto do ex-presidente Jango, que nasceu no exílio em 1976, em plena ditadura militar. Já Juliana Brizola, neta do velho Briza, não conseguiu se reeleger deputada estadual. Não é para entender.
Esses lances do jogo eleitoral confirmam que o Brasil é um país complexo que prima pela contradição. As eleições deviam servir para acomodar as diferenças e levar o país para a frente, mas as urnas do primeiro turno parecem indicar uma volta ao passado recente. Estarão os brasileiros com saudade do neoliberalismo, das privatizações e de uma governança financeira mais fortemente calcada na taxa de juros da dívida federal?
Resposta no final do mês, quando das urnas sairá a colcha de retalhos com que vamos ter de nos cobrir nos próximos anos, faça seca ou temporal.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“O principal problema ético-político do país é que a oposição é incapaz de reconhecer a honestidade dos governantes e estes são incapazes de demonstrá-la”.
(Millôr Fernandes) -
Auxílio-moradia a quem precisa
A auto-outorga de auxílio-moradia de R$ 4,3 mil mensais aos juízes brasileiros, dádiva do ministro Luiz Fux, do STF, é a gota que faltava para uma revolta popular contra as mordomias do andar de cima.
Não por acaso as notícias dos jornais sobre o assunto vêm carregadas de sarcasmo destilado pela raiva dos redatores, nenhum dos quais ganha R$ 4,3 mil de salário por mês. Como resistir ao ímpeto de denunciar o desplante de que já recebe proventos de cinco dígitos, mais benefícios como uma côrte de assessores?
Como os oficiais residentes em vilas militares ou os gerentes do BB na época em que nenhum bancário pensaria em fazer greve por uma diferença de 5% no reajuste salarial, os juízes passam a desfrutar agora de uma ajuda que só se justificaria temporariamente em casos de chegada a uma cidade nova.
O auxílio-moradia mensal dos juízes – são 14 mil no Brasil – equivale a seis salários mínimos, remuneração que representa o dobro da média salarial dos trabalhadores brasileiros. A verba total chegará a R$ 60 milhões por mês ou R$ 720 milhões por ano.
Mordomia habitacional
É justo que uma autoridade ganhe o suficiente para ficar livre de pressões dos ricos e poderosos, mas quem ganha mais de R$ 20 mil mensais (como é o caso dos juízes) num país desigual como o Brasil, devia por a mão na consciência e agradecer por desfrutar de uma posição de relevo na sociedade. Autoregalar-se com uma mordomia habitacional é uma ofensa ao esforço de milhões de pessoas que lutam honestamente para viver com conforto e dignidade.
Do jeito que as coisas foram colocadas pelo ministro Luiz Fux e depois “isonomizadas” pelos seus pares, qualquer brasileiro está no direito de protestar veementemente contra uma das medidas mais escandalosas da história do Brasil. Medida irrecorrível pois o Judiciário é o único poder que se mete na vida dos outros e cujas decisões não podem ser reformadas. O que nos resta, cidadãos comuns?
Resta-nos pôr a boca no trombone, como fizeram os manifestantes de junho de 2013. Mas ninguém estranhará se alguém situado na ampla faixa de pobreza chutar o traseiro dos chefes, esvaziar os pneus dos carros dos bacanas, furtar os supermercados ou apedrejar as vidraças dos bancos, símbolos qualificados do abuso de poder dos ricos sobre os pobres.
A esta altura da desfaçatez das classes superiores, entre as quais se refestelam ministros, procuradores, desembargadores, promotores e juizes, somente a desobediência civil poderá restabelecer a decência, tal como recomendam a ética e o bom senso.
LEMBRETE
“O Minha Casa Minha Vida é um programa de governo que tem transformado o sonho da casa própria em realidade para muitas famílias brasileiras. Em geral, o Programa acontece em parceria com estados, municípios, empresas e entidades sem fins lucrativos. Se você tem renda bruta de até R$ 5.000,00, o Programa oferece algumas facilidades, como, por exemplo, descontos, subsídios e redução do valor de seguros habitacionais”. (Texto do site da Caixa Econômica Federal sobre o Minha Casa Minha Vida) -
Independência do Banco Central, uma polêmica viciada
GERALDO HASSE
Um dos temas fundamentais da atual campanha presidencial é a independência do Banco do Central. No fundo, discute-se se os tecnocratas de plantão na guarita do Tesouro Nacional devem ter mais autonomia do que os verdadeiros poderes centrais da República – a Presidência, o Congresso e o Judiciário.
Convenhamos, é uma polêmica viciada. A estabilidade da moeda é decisiva para a sustentação da economia e a sobrevivência da democracia, mas no Brasil a suposta independência do Banco Central tem sido mais um disfarce para atuar em defesa do Mercado, marca-fantasia do Capital. O mesmo acontece nos países ricos.
Quando se diz Mercado, deve-se entender a atuação em bloco de Bancos, Indústrias, Grandes Redes de Comércio e Logística, Fundos de Investimentos e Multinacionais, entre elas empresas estatais de atuação global, como a Telefónica espanhola, bastante ativa entre nós.
Desconsideremos aqui o lado passivo do Mercado, representado pelos consumidores e pelas pequenas e micro empresas, cuja voz é praticamente inaudível em meio ao megatilintar monetário. Os mais antigos devem ter lembrança do poder do Over Night, que assombrou diversos ministros da Fazenda nas últimas décadas do século XX. A verdadeira identidade do Sr. Over Night estava diluída entre milhares de capitalistas denominados investidores, especuladores e insiders. Eles apostavam de dia para ganhar na manhã seguinte. A maioria se locupletou enquanto os trabalhadores não tinham defesa contra a corrosão salarial. São uma minoria numérica que continua ativa.
“Hoje em dia, o BC está capturado pelo mercado. Não há a menor preocupação com impactos fiscais e cambiais da política monetária”, escreveu o jornalista Luis Nassif, que tem formação de economista e encara o Dinheiro como um ser vivo, assim mesmo, com D maiúsculo. Quando se assusta, o Dinheiro atua como manada. Nos países capitalistas modernos, com juros baixos, inflação controlada e moedas conversíveis, os bancos centrais desfrutam de prerrogativas especiais:
1) Poder de definir metas e objetivos monetários
2) Liberdade operacional para definir como atuar em função do item 1
3) Irreversibilidade das decisões (nos EUA, nem o presidente nem a Suprema Corte podem anular decisões do BC).
4) Garantia de indemissibilidade dos diretores pelo chefe da nação
Em resumo, nas condições atuais, concordemos ou não, a independência do Banco Central significa que o verdadeiro poder está com o Mercado ou que outro nome tenha o Capital.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Há momentos em que a política do Banco Central precisa enfrentar e até confrontar o mercado”. (Alan Blinder, economista norte-americano)
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O fator PRCosta paira no ar. Até quando?
Se a atual campanha presidencial pudesse ser comparada a uma luta de boxe em 12 assaltos, como são as disputas por título mundial, diríamos que entramos no décimo round sem que nada esteja ainda decidido.
As pesquisas de intenção de voto falam de empate técnico entre as duas candidaturas mais salientes, mas há quem diga que até o dia 5/10 o ringue pode virar um valetudo, sob influência de forças interessadas em ver o circo pegar fogo
Por ora, paira no ar o fator PRCosta, gerado pelo depoimento do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, que resolveu colaborar com as investigações sobre maracutaias na empresa controlada pelo governo federal.
O cara está falando para aliviar sua própria pena, mas pelo vazamento inicial o conteúdo pode pesar tanto no primeiro turno como no segundo, quando as duas candidaturas mais votadas estarão sujeitas aos seguintes fatores:
1 – a credibilidade pessoal de cada concorrente
2 – os respectivos índices de rejeição
3 – as alianças partidárias de ocasião
4 – os conchavos políticos de última hora
5 – o poder econômico latu sensu, no que se inclui até a compra de pesquisas
6 – a fadiga de material do PT após 12 anos de governo
7 – a força dos bolsões eleitorais formados pelas políticas de inclusão social
8 – o anseio difuso pela renovação
9 – o peso do chamado “voto evangélico”
10 – as peripécias de campanha, entre as quais avulta o comportamento da Mídia
(Geraldo Hasse)
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Procuradores querem frear terceirização de contratos de trabalho
Mais um round da briga judicial em torno da terceirização de atividades-meio e atividades-fim no mercado de trabalho: no último dia 10 de setembro, a Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT) interveio contra a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 324, apresentada em 25 de agosto junto ao Supremo Tribunal Federal pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).
Alegando que o preceito constitucional da livre iniciativa empresarial não pode ser tolhido pela Justiça do Trabalho, a ABAG pede a suspensão de quaisquer processos em andamento sobre o tema terceirização de contratos de trabalho. Quer inclusive a suspensão dos efeitos de decisões já proferidas, o que equivale a escancarar a porteira para a passagem das tropas do capitalismo neoliberal.
Representada por Roberto Caldas e mais seis advogados atuantes no Distrito Federal, a associação dos procuradores do Trabalho argumenta que “a medida (da ABAG) preconiza um liberalismo anacrônico e selvagem, escorado numa delirante noção de livre iniciativa sem limites, flagrantemente contrária ao horizonte normativo, ideológico e principio lógico da Carta de 1988, de forte inspiração social e democrática, que preconiza um Estado dotado de necessário papel regulador dos abusos do poder econômico”.
Apelo ao agronegócio
Em sua intervenção, que entrou a tempo de ser analisada pelo ministro Luiz Roberto Barroso, a ANPT argumenta que a ABAG não tem legitimidade para se intrometer no tema da terceirização, objeto de um ousado recurso da Cenibra, que recorreu ao STF para não pagar R$ 2 milhões de multa trabalhista em processo por terceirização de mão-de-obra no leste de Minas/noroeste do Espírito Santo.
Talvez por se sentir acuada na briga, a Cenibra (associação da Vale com capitais japoneses) pediu ajuda da entidade do Agronegócio, que tem um grande peso político e econômico. Em outras palavras, a ABAG late mais alto e seu ‘au-au’ pode ecoar até nos eucaliptais do Sul.
Na prática, o que o empresariado está querendo é podar a Justiça do Trabalho, que cumprem uma missão constitucional no sentido de evitar fraudes no mercado de trabalho. Se o STF der guarida à Cenibra, estará liberando a terceirização, que já ocupa 25% dos trabalhadores do Brasil. O bom senso indica que o pleito da ABAG e da Cenibra não pode passar, mas nessas horas todo mundo pensa no velho ditado: de barriga de mulher, cabeça de juiz e urna eleitoral, pode-se esperar qualquer coisa.
