Até alguns anos atrás, pareceria estranho promover uma palestra sobre os campos nativos do Pampa no auditório da Livraria Cultura do Bourbon Shopping, um espaço típico da vida urbana de Porto Alegre. Mas a Fundação Gaia bancou a noitada na terça-feira, 9, ao convidar o agrônomo Carlos Nabinger, da UFRGS, para falar sobre as possibilidades de se praticar uma pecuária sustentável no Pampa, o bioma que a cada ano cede 300 mil hectares às lavouras de grãos e às pastagens artificiais.
O evento em horário nobre juntou mais de meia centena de cabeças. Entre estudantes e agrônomos maduros, lá estava Marcelo Fett Pinto, representante no Rio Grande do Sul da Alianza del Pastizal, instituição criada no Pampa argentino e uruguaio para defender a produção de carne bovina em pastos naturais.
Professor do Departamento de Plantas Forrageiras da Faculdade de Agronomia, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Nabinger esclareceu que não é contra nenhuma lavoura, mas lamenta que a pecuária gaúcha, salvo algumas exceções consagradas na Expointer e em exposições e leilões pelo interior, continua restrita a métodos primitivos que a impedem de produzir mais do que 60 a 70 quilos de carne por hectare/ano, quando se sabe que há tecnologia suficiente para multiplicar esses índices por dois, três e até 10 ou 12 vezes.
Entretanto, ele admitiu francamente que não faz sentido “os sabichões da academia” promoverem palestras ou dias de campo para ditar fórmulas técnicas aos homens do campo. “Os produtores agem como agem por uma série de razões ambientais, culturais, econômicas e familiares”, disse o professor, lembrando que a única forma de sair desse impasse é “promover a educação ambiental desde a escola primária”. Uma tarefa para décadas.
Trabalhando na pesquisa do melhoramento da pecuária, Nabinger recomenda que, antes de se atirar na aplicação de insumos modernos oferecidos pelos fabricantes de máquinas e produtos químicos, os produtores devem dar prioridade à “gestão dos processos” para o aproveitamento dos pastos nativos, que vêm sendo castigados pelo excesso de pastoreio. Um diagnóstico feito em 2006 mostrou que os campos naturais do Pampa estavam sobrecarregados por uma carga de 1,1 unidade animal por hectare. “É uma carga muito alta!”, segundo Nabinger.
Arrendamento
Com tamanho índice de ocupação, os campos não se recuperam do pastejo, a vegetação não chega a florescer ou dar sementes, as raízes não se desenvolvem, o excesso de pastoreio provoca a proliferação de plantas impróprias para o consumo animal (alecrim, chirca, caraguatá etc) e o solo fica desprotegido contra chuvas fortes, sofrendo com a erosão. No afã de produzir mais carne, o produtor enche o campo de gado magro que demora a engordar. No final das contas, com a descapitalização e a desvalorização do seu patrimônio, o proprietário opta pelo arrendamento para o plantio de soja. Ou acaba vendendo a terra. Um enredo cada vez mais comum no Pampa.
A alternativa sustentável, permanecendo na pecuária, é reduzir a carga animal para melhorar a condição da pastagem, que crescerá mais, tornando-se mais saudável e nutritiva, apenas pela fotossíntese. “Sem por a mão no bolso”, ou seja, sem investir um tostão, essa simples medida denominada diferimento –“um processso tecnológico”, afirma Nabinger – resulta numa produção anual de 236 kg de carne por hectare. Foi o que se alcançou em experimentos na Depressão Central (vale do Jacuí).
Aplicando outros métodos como a fertilização, a sobressemeadura de pastagens de inverno e de verão, a limpeza do campo (com roçadeira) e irrigação, pode-se chegar até 1000 kg de carne por hectare/ano. Em termos econômicos, isso significa que “gado de corte dá dinheiro como soja”, mas com menor custo e menos risco.
Além disso, a manutenção do campo nativo é um bom negócio para o país, que pode exportar carnes apreciadas em países que destruíram suas coberturas vegetais primitivas. Se é tudo tão simples, como parece, por que não se caminha naturalmente para a pecuária sustentável e rentável?
“É preciso organizar a bagunça”, concluiu Nabinger, lembrando que a educação ambiental é uma via de mão dupla: não basta que o agricultor aprenda o que se ensina nas escolas urbanas sobre ecologia, também os habitantes das cidades precisam se reconectar com a vida no campo.
Autor: Geraldo Hasse
-
Prof. Nabinger: no Pampa, gado é mais seguro do que soja
-
Tríplice aliança contra as fraudes no leite
Os três Estados do Sul do Brasil formalizaram nesta terça-feira (2/9) na Expointer um inédito pacto sanitário em defesa da imagem de qualidade do leite, comprometida por fraudes no transporte do produto dos sítios para as indústrias lácteas.
A cúpula da agropecuária sulina perfilou-se no auditório do Parque Assis Brasil diante de três de dezenas de jornalistas sedentos por leite bom, “livre de porcarias adicionadas no caminho”, como disse o secretário da Agricultura do Paraná, Norberto Ortigara, natural de Frederico Westphalen, RS.
O secretário da Agricultura de Santa Catarina, Airton Spies, que fez mestrado na Nova Zelândia e doutorado na Austrália, países que lideram a exportação mundial de lácteos, disse que o Brasil tem melhores condições naturais do que esses países de assumir uma posição de liderança no mercado internacional.
Basta que cuide da sanidade do rebanho leiteiro e zele pela qualidade do transporte até as indústrias de laticínios. Esses são os objetivos imediatos da Aliança Láctea Sul Brasileira para eliminar a desconfiança reinante no mercado consumidor de leite. “Formamos no Sul um bloco técnico-político-econômico para liquidar esse crise para sempre”, disse aos repórteres o secretário da Agricultura do RS, Claudio Fioreze.
Por conta de “adulterações bizarras” com “substâncias hediondas” como formol, ureia, água oxigenada e soda cáustica, sete pessoas já estão cumprindo penas que variam de dois a 18 anos de reclusão. Mais de 40 caminhões foram apreendidos e três indústrias obrigadas a fechar por falta de matéria-prima.
Outras condenações estão a caminho. As fraudes foram investigadas pelo Ministério Público Federal, a partir de denúncias do Ministério da Agricultura, que “cansou de combater sozinho”, como disse Roberto Schroeder, representante do MAPA no RS.
Envolvendo 300 mil propriedades rurais, a maior parte de pequenas ou médias dimensões e tocadas por famílias, a cadeia produtiva do leite é a mais extensa do Sul do Brasil, superando a de calçados, têxteis e a construção civil como geradora de empregos. Em vias de superar o Sudeste, o Sul produz atualmente 11 bilhões de litros de leite por ano (o mesmo volume da Argentina) e projeta chegar a 19 bilhões em 2020, quando o Brasil estará produzindo 45 bilhões de litros por ano. -
Agrifam, a face oculta do agronegócio gaúcho
Nunca a diversidade da agropecuária gaúcha esteve tão bem representada como na 37ª Expointer, que vai até o dia 7 de setembro no Parque Assis Brasil, em Esteio. Ali estão os animais, as máquinas, os técnicos em agronomia, veterinária e cooperativismo, os grandes fazendeiros e os agricultores familiares, todos amparados por órgãos de governo (MDA, Seapa, SDR, IRGA), apoiados por entidades privadas (Farsul, Federacite) e prestigiados pelo sistema bancário, que se reveza na oferta do crédito rural oficial. “Faça chuva ou faça sol, a cada dia a Expointer mobiliza 30 mil pessoas”, afirma o veterinário Honório Franco, chefe do serviço de feiras e exposições da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
Nessa “cidade” remontada a cada ano dentro do Parque de Esteio, os espaços mais amplos e vistosos pertencem à indústria de máquinas e implementos agrícolas, em cujos estandes se encontram pelotões de recepcionistas e vendedores uniformizados, todos aptos a manipular aparelhos de vídeo, chá e café.
Nas cocheiras e baias, move-se um exército de peões cuidando da alimentação e do asseio dos 5 mil animais inscritos para disputar algum troféu. Andam todos por ruas e becos numa rotina que reproduz boa parte da vida nas fazendas de onde vieram para esta temporada de tensão e festa nas vizinhanças da capital do Estado.
Para alimentar tanta gente, o parque oferece uma enorme variedade de comida: desde filés recheados nos restaurantes das associações de raças animais até churrasquinhos e churros em treilers licenciados para matar ou morrer por clientes despilchados. Há também diversos restaurantes que oferecem bufê ou pratos feitos. Este ano, embora não estejam expostos para concorrer, os suínos e os peixes estão presentes em recintos gastronômicos especializados. Até nisso a Expointer é internacional.
AGROINDÚSTRIA FAMILIAR
Já nos espaços mais exíguos se acotovelam os representantes da agroindústria familiar, com seus estandes de 3 x 2 metros cheios de doces, pães, cucas, embutidos, queijos, sucos, cachaças, mel e produtos artesanais, desde cuias até roupas.
É nesse espaço que se pode receber folhetos sobre o trabalho de órgãos públicos como a Emater-RS, comprar por R$ 5 o boné do MST ou conversar com os representantes da Via Campesina, entidades que trabalham pelo resgate da base social em que já atuam órgãos sindicais oficiais como a Fetag e a Fetraf, esta comprometida com a agricultura familiar, aquela com os trabalhadores rurais. Ambas oferecem hospedagem e alimentação para os expositores da agroindústria familiar durante os dias da feira.
Admitida na Expointer a partir de 1999, a agricultura familiar (que já merece uma sigla como agrifam) está em Esteio com pouco mais de 200 estandes e caminha para dispor de estandes maiores, se na próxima exposição lhe for oferecido um segundo pavilhão de igual tamanho, ao lado do atual.
O pavilhão 2 da agrifam, orçado em R$ 2,5 milhões, ficou no alicerce por conta uma divergência burocrática entre a direção do Parque Assis Brasil e a empreiteira contratada no primeiro semestre. Pelo cronograma inicial, deveria ser entregue no início de outubro deste ano. Até 2015 deve ficar pronto.
Além de crescer por conta própria, a agrifam conta com o crescente apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), da Seapa e da Secretaria do Desenvolvimento Agrário, do Cooperativismo e da Pesca, esta criada em 2011 pelo governador Tarso Genro, que não perde ocasião para citar a inclusão social e a produção agrícola dos assentamentos rurais do RS – em 2011, além de 13 mil famílias assentadas, havia 14 mil índios e 3 900 quilombolas.
METAMORFOSE
Das 400 mil propriedades rurais estimadas pelo Censo Agropecuário de 2006 para o Rio Grande do Sul, apenas 8 mil informaram que transformavam e comercializavam sua própria produção agropecuária. Fora 560 agroindústrias legalizadas, a grande maioria dessas empresas caseiras estava na informalidade, podendo ser alvo de interdição por motivos ambientais ou sanitários. Foi nesse meio que começou a atuar em 2011 a SDR, entregue ao comando do deputado federal Ivar Pavan, originário de uma pequena propriedade rural de Aratiba, no norte do RS.
Numa palestra a estudantes e professores da Faculdade de Economia da UFRGS, na noite de 24 de agosto de 2011 (véspera da 34ªExpointer), o secretário Pavan fez um relato assustador sobre a realidade do agro sulino. Começou lembrando que 54% dos rapazes e 74% das moças do Sul não queriam ficar na roça, o que vem criando um problema socioeconômico: quem vai tocar os sítios e fazendas do futuro se a sucessão familiar for desfalcada pela evasão dos jovens rurais? Na última década antes do último censo, 287 mil pessoas deixaram o campo, onde vivem apenas 1,6 milhão de habitantes.
No momento daquela palestra, três anos atrás, havia 135 mil famílias rurais gaúchas cadastradas no Bolsa Família, sintoma da precariedade da vida nas roças. Uma crise, enfim. Era preciso começar trabalhando para elevar a qualidade de vida das famílias rurais, recuperar sua autoestima e inseri-las no mercado de consumo e nas cadeias de produção por meio da qualificação tecnológica.
Um dos estímulos mais fortes se concentrou na produção de leite. Por experiência própria o secretário da SDR sabia que a pecuária leiteira (não só do RS, mas do Brasil) estava aquém das exigências sanitárias estabelecidas em 2002 pela Instrução Normativa nº 62, do Ministério da Agricultura. Era preciso priorizar a melhoria das condições sanitárias dos sítios produtores, muitos deles sem instalações elétricas adequadas para conservar o produto antes da chegada dos caminhões de leite.
O que não se esperava é que, à revelia dos agricultores, algumas cargas estivessem sendo adulteradas por transportadores mancomunados com algumas indústrias lácteas, como comprovaria em 2013 o Ministério Público Federal.
PRONAF, 20 ANOS
Não nasceu com os governos do PT a convicção de que a agricultura familiar precisa do apoio oficial, sem o qual não tem condições de sobreviver ao confronto com o Mercado. Criado em 1994, o Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf) vem ajudando milhares de famílias a modernizar seus processos e estruturas de produção. Os financiamentos via Pronaf, que começaram em 1994 com juros de 12% ao ano, hoje operam com índice médio de 2%.
A indústria de tratores lançou vários modelos voltados para as atividades das pequenas propriedades. Enquanto a agricultura empresarial mobiliza R$ 160 bilhões por ano, o Pronaf gira R$ 16 bi. Melhorou muito, mas só crédito não basta. Para os dirigentes de entidades como a Fetraf, a questão central para a animação da agrifam é a assistência técnica com foco na sustentabilidade ambiental, social e econômica.
Para compreender esse conceito, é interessante procurar na 37 ª Expointer a área reservada á Emater-RS, numa das extremidades da banda oeste do parque de Esteio.
É um reduto rústico e acolhedor, com cabanas de madeira e caminhos forrados de cavaco de eucalipto (no ano passado, esse local foi inundado pela cheia de um afluente do rio dos Sinos), onde os técnicos da antiga associação, depois empresa de assistência técnica e extensão rural, dão mostras da existência de um movimento de resistência ecológica contra o furor do agronegócio. Ali tem até um apiário de abelhas nativas.
Numa das cabanas, eles exibem (e vendem) amostras de sementes crioulas de feijão, milho e outras espécies vegetais. São frutos de um esforço de conservação biológica realizado por agricultores jovens e velhos identificados como “guardiães de sementes”. Eles preservam material genético rejeitado pela indústria de sementes híbridas, modificadas e patenteadas.
Pacífica, meio acanhada, é uma resistência que se nutre da convicção de que é preciso preservar a biodiversidade diante dos excessos do agronegócio no uso de processos mecânicos e químicos. Enquanto a agricultura empresarial aposta nos agrotóxicos e nos transgênicos, a agrifam é naturalmente mais cautelosa e amiga da natureza, daí sua maior habilidade e disposição para produzir alimentos orgânicos, isentos de substâncias potencialmente nocivas à saúde humana e animal.

No estande da Emater, é possível perceber também a diferença entre as agriculturas empresarial e familiar. Enquanto esta (em áreas pequenas e médias de até 200/300 hectares) se caracteriza pela busca da subsistência a partir de diversas práticas agrícolas, inclusive trabalhando como prestadora de serviços avulsos à vizinhança – e morando no campo –, a outra (em áreas mais extensas que configuram os latifúndios e as monoculturas) tem como objetivo principal tirar renda da agricultura mediante o emprego das técnicas mais avançadas oferecidas pelo mercado, desde o crédito rural até os vínculos mais ou menos estreitos com fornecedores de insumos e compradores da produção agrícola.
No Rio Grande do Sul, a produção rural incluída “dentro da porteira” representa 10% do Produto Interno Bruto. A soma disso com a “porteira afora”, que abrange o transporte, a armazenagem, o beneficiamento e o comércio, inclusive a exportação, dos produtos agrícolas, pesa de 30% a 40% do PIB. Aí está a força do agronegócio, que a maioria das pessoas identifica com a agricultura empresarial, mais voltada para a exportação.
Na realidade, porém, um agrifam pode ser moderno e não é incomum que um agricultor aparentemente empresarial esteja mergulhado no atraso técnico e praticando violações ao meio ambiente. Na realidade, desde os anos 1970, cerca de metade da produção agrícola brasileira sai da agrifam, que também gera excedentes exportáveis, embora em quantidades pequenas. Por isso ela vem merecendo atenção especial dos governos federal e estadual.
COOPERATIVISMO
Como a metade das propriedades rurais não recebia assistência técnica regular, em 2011 a SDR contratou duas centenas de técnicos da Emater que passaram a trabalhar ancorados em comunidades rurais (antes, a Emater esteve em vias de extinção). Sete equipes de sete especialistas (administrador, advogado, agrônomo, contador, veterinário, sociólogo e mais um técnico) viajam pelo Estado para ajudar na organização e assistência de 200 cooperativas que possuem 46 mil sócios ligados à agrifam.
Algumas cooperativas nasceram há pouco, outras eram antigas com problemas operacionais, mas o trabalho de assistência técnica e promoção social da SDR resgatou o espírito das pioneiras Ascar, cuja história foi mantida a pau e corda pelas Emater. O sistema cooperativo tem mostrado condições de ser uma ponte organizacional entre as bases rurais, os órgãos públicos e as diversas instâncias do mercado. No Rio Grande do Sul, o cooperativismo soma 2,5 milhões de associados.
FLORICULTURA
Não é apenas no pavilhão da agroindústria familiar da Expointer que se pode tomar conhecimento da capacidade de inclusão social da agrifam. Faça-se uma visita ao pavilhão da floricultura e se verá que por trás de tantos vasos e floreiras está uma atividade capaz de empregar oito pessoas por hectare, um índice só alcançado por raras atividades agropecuárias – a olericultura, por exemplo.
Com uma produção de R$ 2 bilhões por ano, a floricultura emprega cerca de 250 mil pessoas no Brasil. O maior produtor é o Estado de São Paulo. Segundo a Associação de Floricultores do Estado, o Rio Grande do Sul é o segundo maior mercado de consumo per capita de flores, superado apenas pelo Distrito Federal. -
Brasil pode colher a maior safra de trigo este ano
Fim de agosto e os técnicos já anunciam a possibilidade de o Brasil colher este ano a maior safra de trigo da história. Ainda faltando três ou quatro semanas para o início da colheita no Paraná, onde o cereal é plantado mais cedo, as estimativas falam de 7,5 milhões de toneladas, uns 40% acima do ano passado.
A confirmar-se a boa safra, que se estende normalmente até novembro no Rio Grande do Sul, que planta mais tarde, o Brasil vai precisar importar “apenas” cerca de 4,5 milhões de toneladas de trigo para atender as necessidades nacionais de consumo de farinha, pão, biscoitos, massas e rações.
A queda das importações também é boa notícia, ainda mais num ano em que a Argentina, tradicional fornecedora de trigo, decidiu racionar as exportações para ajudar no combate à inflação interna. Em 2013, o Brasil importou 7,3 milhões de toneladas, pagando 332 dólares por tonelada, a média mais alta dos últimos cinco anos (a mais baixa foi em 2009, quando o Brasil importou 5,4 milhões de toneladas a 221 dólares a tonelada).
O que poderia ser motivo de festa – garantia de pão barato para a população num ano em que o circo foi derrubado pelo furacão alemão – começa a se tornar uma dor de cabeça para os produtores, que vêem os preços caírem abaixo do valor mínimo garantido pelo governo. A Expointer 2014, a partir de sábado (30/8), pode se tornar o muro de lamentações dos triticultores, pois as cenas se repetem.
Um levantamento da Fecoagro/RS reproduzido no volume Radiografia da Agropecuária Gaúcha, publicado pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, mostra que entre 1997 e 2012, apenas em duas safras – 2001/2002 e 2009/2010, os preços mínimos superaram os custos de produção do trigo nacional, cuja cotação segue os valores internacionais, historicamente baixos.
Com o sucesso do trigo, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aumentou para 193,5 milhões de toneladas a estimativa da produção nacional de grãos na safra 2013/14. Também um recorde. -
Indústria de máquinas vai investir R$ 15 milhões no parque
Por Geraldo Hasse |
Em plena fase final de montagem dos estandes para a 37ª Expointer, que começa neste sábado, circulou ontem no Parque Assis Brasil, em Esteio, uma informação animadora: nos próximos dois anos, a indústria de máquinas agrícolas vai investir R$ 15 milhões em obras de infraestrutura e construções, dentro do acordo de parceria público-privada com a Secretaria da Agricultura.
O dado foi recebido pela direção do parque como sinal de que caminha muito bem o projeto de mudança na forma de gestão do principal espaço de eventos agropecuários do Estado. Este ano, o Sindicato da Indústria de Máquinas (Simers) paga à Expointer R$ 40 por metro quadrado usado para exposição de tratores e implementos agrícolas. A partir do próximo ano, os valores do negócio serão diferentes, mas “bons para as duas partes”, ressalva Adeli Sell, o administrador do espaço.
Além da notícia acima, há outros sinais no ar. Ainda que no lançamento da Expointer 2014, em 5 de agosto, os dirigentes do setor de máquinas agrícolas tenham manifestado grande cautela quanto à possibilidade de se repetir o recorde de 2013, quando foram encaminhados negócios de R$ 3,2 bilhões, este ano a área de exposição é maior do que no ano passado. Além disso, há vários lançamentos de tratores para a agricultura familiar, de plantadeiras e de colheitadeiras de grãos.
São máquinas que podem ser compradas pelo sistema de crédito rural a juros abaixo da inflação, com carência para o início do pagamento em até dez anos. Como este ano as safras foram boas e os preços satisfatórios em praticamente todos os ramos agropecuários, os produtores podem ir além das expectativas iniciais. Sem tirar os pés do chão, alguns são bem capazes de “fazer uma loucura” diante de um trator novo com sua esteira de implementos.
NEW HOLLAND
Uma das “loucuras” da Expointer vem de Contagem, MG: a New Holland Construction anuncia uma operação especial para vender em Esteio a retroescavadeira B90B pelo sistema de consórcio. Pode emplacar: estimativas feitas em 2013 indicam que, no caso da aquisição de um carro popular, o consórcio é 30% mais barato do que os financiamentos vigentes no mercado bancário.

Retroescavadeira em campo / Foto Divulgação
Capaz de fazer açudes, curvas de nível e valas de drenagem, a B90B é a máquina mais vendida da New Holland mineira, que vem encontrando no setor rural do Rio Grande do Sul um mercado bastante ativo. Daí a decisão de abrir um plano de consórcio para que os agricultores possam comprar a retro em 72 meses pagando R$ 2 036,77 mensais, sem entrada nem juros, como é praxe no sistema de consórcio, no qual o objeto de desejo pode ser obtido por sorteio mensal ou por lance em dinheiro.
A NHConstruction marcou para 9 de setembro a primeira assembléia do consórcio da retro. Se o plano de vendas for realizado, serão sorteados 20 máquinas por mês, totalizando 100 até o final do ano. O que parece uma liquidação de estoque poderá ser tomado também como um indicador da liquidez dos agricultores gaúchos.
Outra retroescavadeira na Expointer será a CASE, presente em Esteio pelo sétimo ano consecutivo, em parceria com a concessionária J. Malucelli. Um release da empresa (pertencente ao grupo New Holland) informa que a participação do agronegócio nas vendas das máquinas de construção da CASE subiu para 70% do total desde que, nos últimos dois anos, se desaceleraram as compras de empresas de construção civil e infraestrutura. As retroescavadeiras são muito usadas em lavouras de arroz irrigado. -
Carne de cordeiro reanima a ovinocultura
Por Geraldo Hasse
Ainda é possível avistar placas rústicas anunciando “Temos Ovelha” na entrada de sítios e chácaras perto de cidades do interior gaúcho, mas o que era (e não deixou de ser, em muitas regiões) uma oferta mais ligada ao Natal está passando por uma mudança mercadológica visível até em anúncios na Internet, onde o reclame antigo vai sendo substituído por outro bem mais preciso e atemporal: CARNE DE CORDEIRO.
Talvez se possa conferir a intensidade da mudança nos restaurantes da Expointer 2014.
Dependendo da região do Estado, os preços da carne de cordeiro vivo oscilam entre R$ 4 e R$ 4,80 por quilo. Há cinco anos, esse valor girava em torno de R$ 3.
Um cordeiro-mamão de três a quatro meses pesa de 30 a 40 quilos; o rendimento da carcaça vai de 42% a 50%. Nos açougues, uma paleta de cordeiro sai por R$ 10 o quilo. Nos supermercados de Porto Alegre, até poucos anos, só se encontrava carne ovina congelada do Uruguai. E não era barata. Ultimamente, o consumidor encontra carne de frigoríficos do interior. Este mês, na rede Zaffari, estiveram em oferta – por R$ 30 o quilo – cortes congelados de cordeiros abatidos em Pântano Grande pelo ComeSul. Sabe-se de abatedouros de ovinos ativos em Caçapava do Sul, Encruzilhada do Sul e Lavras do Sul, mas a oferta ainda não parece suficientemente organizada para atender a um mercado em expansão.
Iguaria antes reservada aos patrões das fazendas e/ou oferecida em finais de churrascadas para agradar autoridades e visitas importantes, a carne de cordeiro está construindo um nicho especial no mercado de carnes vermelhas, embora talvez esteja por merecer uma classificação diferente, pois se trata de uma carne mais rosada, pouco picante e até levemente adocicada.
E, eis a grande diferença, sem o excesso de sebo que fez a fama negativa da carne de ovelha ou carneiro (animais com mais de um ano), tradicionalmente consumida nas fazendas pelos peões e descartada em açougues de periferia ou quartéis da fronteira. Quanto à carne ovina, eram esses os costumes na época em que as grandes fazendas de gado mantinham milhares de ovinos para a produção de lã, mercadoria que, segundo a lenda centenária, pagava todo o custeio das fazendas de gado.
Com a ascensão das fibras sintéticas, feitas de nafta, os fios naturais como a seda e a lã se desvalorizaram. Em consequência, o rebanho ovino gaúcho caiu de 12 milhões de cabeças em 1980 para 4 milhões atualmente. Se está se levantando, uma das alavancas é a carne de cordeiro. A lã deu uma melhorada, mas continua sendo um negócio encardido, cheio de altos e baixos determinados por importadores europeus que contam com intermediários plantados no Uruguai e com livre circulação no pampa riograndense.
Quem mais vem se beneficiando dessa metamorfose são os pecuaristas familiares, estabelecidos em pequenas propriedades e que operam avulsos ou organizados em associações comunitárias, como ocorre há sete anos no terço superior da bacia do rio Camaquã, no pampa de maior altitude, na Serra do Sudeste. Nos 800 mil hectares dessa região dominada pelos chamados campos sujos, que se caracterizam pela existência de pastos entremeados de matos e rochas, vive uma população campeira (40 mil habitantes) que foi praticamente deixada de lado pela agricultura moderna, intensamente mecanizada e dependente de insumos químicos.
Não por acaso os técnicos da Embrapa Pecuária Sul, de Bagé, viram nesse “atraso” a oportunidade para executar um projeto de produção de alimentos ecológicos, pois 70% da vegetação nativa (campos ou matos) nunca foram mexidos. O coordenador do projeto é o pesquisador Marcos Borba, que não esconde o orgulho pelos resultados já alcançados.
Segundo o último levantamento, o Projeto de Desenvolvimento Sustentável do Alto Camaquã reúne 413 famílias organizadas em 21 diferentes associações comunitárias em oito municípios: Bagé, Caçapava, Lavras, Piratini, Pinheiro Machado, Santana da Boa Vista, Encruzilhada do Sul e Canguçu.
Nas propriedades rurais que variam de 25 hectares a 300 hectares, como não há espaço para a agricultura de larga escala nem para a pecuária extensiva, o que parece ser mais sustentável é uma mescla de atividades que tem a carne de cordeiro como o carro-chefe mas inclui outros produtos como o leite/queijo, o mel, o artesanato de lã e couro, frutas, pães, bolos e geléias. Ou, seja, o projeto envolve os familiares dos produtores. Até o turismo rústico começa a ser incentivado nessa região tipicamente serrana.

Mais do que lã o que mais se espera das ovelhas são cordeiros / foto Divulgação
REMÉDIO CONTRA O ABIGEATO
Criar carneiros e ovelhas ao redor de casa nas pequenas propriedades familiares é o melhor remédio contra o abigeato, a mais antiga e resistente praga da ovinocultura gaúcha. Em busca de carne boa para abastecer festas familiares, os ladrões sempre contaram com a escuridão da noite e o isolamento dos animais longe das casas para fazer sua faina.
Para evitar furtos, a regra agora é manter os lanudos à vista dos donos e ficar de olho em movimentos noturnos estranhos. Esse é mais um dos motivos do aquerenciamento da ovinocultura em pequenas e médias propriedades do da Serra do Sudeste, onde se concentram atualmente pelo menos 20% do rebanho gaúcho, segundo o pesquisador Marcos Borba, da Embrapa de Bagé.
O abate furtivo de animais é um problema tão grande quanto as doenças mais graves da ovinocultura, como a verminose e a clostridiose. Ainda sem remédio ou vacina, o abigeato exaspera e desanima os criadores porque supera de longe as chamadas perdas naturais, provocadas por gaviões, lobos campestres e cães vadios de cidades ou fazendas.
Esses predadores, reforçados recentemente pelos temíveis javalis, fazem uma espécie de limpeza ecológica, pois geralmente abatem os cordeirinhos doentes ou mais fracos. Os abigeatários não: mesmo operando no escuro, só pegam os animais mais saudáveis.
As denúncias à Brigada Militar desencadeiam operações que reduzem temporariamente as ocorrências, mas o relaxamento da vigilância logo resulta em novos desfalques nos rebanhos. Por isso a última moda em fazendas mais organizadas é a contratação de serviços de vigilância eletrônica e de patrulhas privadas que a horas incertas percorrem a propriedade duas ou três vezes por jornada noturna.
Ao contrário do que se supõe, o abigeato não se esgota em si mesmo. Por estar intimamente ligado aos abates clandestinos e ao comércio informal de carne de ovelha, ele impede que o mercado se organize. Em anos passados, matadouros tradicionais pararam de abater ovinos e frigoríficos planejados não operam senão esporadicamente suas linhas de ovinos por falta de regularidade na oferta de animais. Talvez porque os criadores se contentem em fazer vendas avulsas para atender a consumidores que preferem fazer encomendas diretamente na fonte, o mercado formal de carne de cordeiro demora a deslanchar.
No início do século XX, chamou a atenção um ensaio de organização feito por pecuaristas de Herval do Sul. Eles criaram o Herval Premium. Em Caçapava do Sul um grupo de criadores lançou o Cordeiros da Província. Recentemente, inspirada nesses exemplos, a associação dos agricultores familiares do Alto Camaquã criou um selo para identificar seus próprios produtos.
O cordeiro continua sendo seu alvo preferencial. Para sustentar o contrato para garantir 40 cordeiros por mês ao Shopping da Carne, de Porto Alegre, os criadores do Alto Camaquã compraram um caminhão-boiadeiro e um caminhão-frigorífico com financiamento favorecido pelo governo do Estado, que tem um apreço especial pela agricultura familiar.
TOSQUIA MODERNA
Dentro de um mês começa em algumas fazendas do interior a produção precoce de lã, que em alguns casos pode estender-se até o final do verão. Mas já se foi o tempo em que a tosquia quebrava a rotina das fazendas, quando um grupo de alegres forasteiros suava o topete para tirar a lã dos animais com as chamadas tesouras-martelo. Eram os tosquiadores ou esquiladores organizados em comparsas.
“As tesouras cortam em um só compasso/enrijecendo o braço do esquilador”, diz o clássico Esquilador, de Telmo de Lima Freiras, vencedor da 9ª Califórnia da Canção Nativa, de 1979, em Uruguaiana, o município onde se concentravam os maiores rebanhos, com até 20 mil ovelhas numa única fazenda.
Hoje em dia, mesmo em pequenas propriedades rurais, a tosquia é feita predominantemente com máquinas elétricas. Órgãos técnicos como o Serviço Nacional de Aprendizado Rural (Senar) disseminam a tosquia australiana (Tally Hi), introduzida no Brasil em 1972. Não é preciso manear o animal, como no método tradicional.
Sem precisar de ajuda, o tosador coloca o animal sentado sobre os quartos e o segura pela queixada contra as próprias pernas. A esquila moderna acaba em menos de cinco minutos. Além de não ferir os bichos e exigir menos esforço do esquilador, facilita a classificação da lã. Pena que a produção esteja reduzida a um terço do que já foi.

Cobertores e ponchos mostardeiros ofertados na beira de estradas do Pampa / foto Divulgação
MOSTARDEIROS NO PAMPA
Enquanto a região do Alto Camaquã luta para regularizar a oferta de carne de cordeiro especialmente no mercado de Porto Alegre, a região costeira que vai de Torres a São José do Norte pela costa leste da Laguna dos Patos desfruta de uma demanda que se aquece especialmente no verão. Quem a sustenta são os milhares de veranistas que não passam a temporada sem degustar os decantados cordeiros-mamões em rituais quase sagrados.
Como sobra dessa safra de verão, os criadores litorâneos, que contam com pouco pasto e muito vento, ficam com os pelegos e a grossa lã ovina menos valorizada por conter areia e sal da maresia, mas habilmente transformada em ponchos e cobertores mostardeiros, típicos de Mostardas, a cidade povoada por descendentes de açorianos. Há cerca de duas décadas, essa região exportou artesãos para pequenas cidades do interior, onde eles trabalham com o restolho da pura lã do pampa. Seus artigos aparecem em oferta na beira das rodovias e nas lojas de artigos gauchescos.
CRENÇAS COM VALIDADE VENCIDA
Ainda há quem acredite que, segundo pregavam técnicos em pecuária ovina, seja altamente recomendável criar ovelhas junto com bois, porque os ovinos assimilam e reciclam os vermes dos bovinos. Hoje em dia na Faculdade Veterinária da UFRGS se aprende que os ovinos precisam ficar sozinhos para dar conta das próprias verminoses.
Outra lenda em fase de revisão é que as ovelhas podiam viver misturadas aos bois porque se contentariam com a “rapa” dos pastos comidos pelos bovinos. Na realidade, isso acontece em campos pobres em alimentação. Onde há comida à vontade, a ovelha só consome a pontinha dos filés das pastagens.
Também é falsa a idéia de que, quanto mais retardada a esquila, maior será a produção de lã. A lã cortada no fim do verão pesará mais, mas renderá menos dinheiro. Na classificação final, a lã do tarde perde valor por causa do excesso de cera acumulada durante o auge do calor. -
Quanto custa exibir um animal na Expointer
Por Geraldo Hasse
Nesta segunda-feira (25/8) serão abertos os portões do parque Assis Brasil em Esteio para a entrada dos quase 5 mil animais inscritos este ano para a 37ª Expointer, o mais tradicional encontro da agropecuária gaúcha. A redução de 10% em relação ao número de animais inscritos em 2013(ver a tabela abaixo) indica que uma parcela dos produtores decidiu fazer economia. O custo de expositor não é baixo porque exige ficar fora de casa por pelo menos 15 dias.
Entre transporte, ração, hospedagem e diárias dos proprietários e cuidadores dos animais, uma fazenda não gasta menos de R$ 1 mil por cada animal de grande porte exposto durante os nove dias do evento, que este ano vai de 30 de agosto a 7 de setembro. E nunca se leva somente um animal, é sempre uma tropilha. Todos disputam medalhas e títulos, o que valorizará os seus descendentes, mas alguns bichos são tratados como estrelas.
Os animais de argola de raças bovinas europeias, por exemplo, são preparados com meses de antecedência, o que inclui alimentação exclusiva, banho diário, escovação e cuidados especiais, dos cascos aos cílios. Ganhando um prêmio, o animal pode se pagar nos leilões que se realizam durante e depois da Expointer.
O custo corrente da participação começa a ser definido no mês de maio, quando cada associação de criadores estabelece uma taxa de inscrição que este ano vai de R$ 10 por cada pássaro até R$ 300 reais para algumas raças bovinas e equinas. Cavalo vai de R$ 90ª R$ 300. “Vaca holandesa, por exemplo, paga 100 pilas para se inscrever”, informa o veterinário Honório Franco, do setor de feiras e exposições da Secretaria da Agricultura, mas a associação dos criadores dessa raça só fica com o valor se o animal inscrito não for apresentado; aos produtores que confirmam a inscrição, o valor é devolvido.
Em alguns casos, não faltam apoiadores ou patrocinadores. A Cooperativa Santa Clara, de Bom Princípio, que possui 3 mil leiteiros associados, banca a ração das vacas expostas em Esteio e recolhe diariamente sua produção de leite, atenuando as despesas dos expositores. No caso do leite, qualquer ajuda é importante porque 80% da produção leiteira do Rio Grande do Sul – mais de 10 milhões de litros por dia – sai de pequenas propriedades familiares tocadas pelo agricultor, a mulher e os filhos. Por aí se vê porque, para muitos produtores, participar da Expointer é um misto de honra e glória.
Mesmo passando por estresse pela mudança de ambiente, os produtores acreditam que a Expointer não é despesa, mas investimento, uma oportunidade para mostrar seus animais, trocar ideias com os amigos e conhecer as inovações apresentadas por técnicos do serviço público e de empresas particulares em todos os setores de atividades rurais. O mesmo vale para os criadores de outros animais e raças.
Estrelas da 37ª Expointer
Espécie animal Inscritos
(Ano) 2013 2014
Bovinos de corte 730 661
Bovinos de leite 573 488
Bovinos mistos 220 172
Equinos 1 200 1 139
Zebuínos 157 142
Ovinos 890 762
Caprinos 57 62
Aves 926 783
Pássaros 391 467
Chinchila 31 25
Coelhos 414 214
TOTAL 5 625 4 932
*Os suínos estão há três anos fora da Expointer
por causa da gripe suína
Fonte: Seapa/RS -
Freio de Ouro, a Fórmula 1 dos cavalos crioulos
Para muita gente, o evento mais marcante da Expointer é o Freio de Ouro, competição que reúne no primeiro fim de semana da exposição (este ano, os dias 30 e 31 de agosto, sábado e domingo) os melhores cavalos e éguas da raça crioula, a favorita dos gaúchos, presente na grande maioria das fazendas pobres ou ricas do Rio Grande do Sul.
Fruto de uma “peneira” anual pela qual passam mais de 1 500 animais (dos quais saem os 96 finalistas que se encontram em Esteio), o Freio de Ouro premia o animal que conseguir a maior pontuação em oito exames: morfologia, figura e andadura; volta sobre patas, freadas; aparte de gado; pechada; paleteada – esta, a mais espetacular, na qual dois cavaleiros prensam um novilho em disparada, fazendo-o retroceder.
É nessa prova acompanhada ao vivo por milhares de pessoas, inclusive pela TV, que os fotógrafos se esbaldam.
Algumas provas são monótonas, quase burocráticas. A andadura mais valiosa é o trote (peso 8), que vale o dobro do galope (peso 4), o qual pontua mais do que o tranco (passo), que pesa apenas 3 pontos. Essa contagem de pontos faz sentido numa raça equina mais procurada para o serviço cotidiano junto ao gado do que para passeios ou corridas.
O que pouca gente sabe é que o regulamento do Freio de Ouro, com 144 artigos e centenas de parágrafos, manda eliminar da prova de andadura o cavalo marchador, “por não ser a marcha uma andadura própria da raça crioula” (parágrafo único do artigo 49). Os jurados não costumam perdoar: crioulo marchador não só é retirado da competição como tem cassado o registro definitivo na Associação Brasileira dos Criadores de Cavalos Crioulos (ABCCC). Para os técnicos no assunto, o cavalo marchador é defeituoso por trotar de patas trocadas, de tal forma que sua andadura rende menos no serviço campeiro. Além disso, o animal marchador se atrapalha ao saltar um obstáculo, daí ser tradicionalmente descartado pelo Exército, um dos principais interessados na criação de um cavalo de qualidade. Evidentemente, os criadores de mangalarga marchador discordam desses critérios.
GINETES
O Freio do Ouro, ensaiado em provas rústicas no interior gaúcho no final dos anos 1970 e introduzido oficialmente em 1982 no parque da Expointer, criou um sólido mercado de trabalho para profissionais da equinocultura – veterinários, zootecnistas, transportadores, guasqueiros, ferrageadores, treinadores e cavalariços. Os mais cotados são os treinadores-ginetes, que preparam e montam os candidatos ao FO. Para eles, chegar às finais já é uma conquista. Uma vitória na grande prova pode triplicar o valor dos animais, enquanto os seus condutores ganham projeção como treinadores. Alguns têm torcida fiel nas arquibancadas.
Nos bastidores do crioulismo, fala-se que um treinador “top” ganha pelo menos R$ 20 mil por mês para treinar a cavalhada mais promissora das cabanhas mais ricas. Além de receber honorários mensais para preparar os animais, os treinadores-ginetes têm direito a bônus por troféus conquistados. Mas, como os jogadores de futebol, eles não competem por muito tempo. No fundo, no fundo, a profissão de ginete-treinador é doída e arriscada.
Dentre a dezena de ginetes mais em evidência no Freio de Ouro, um dos mais cotados é Zeca Macedo, de 34 anos. Ganhador de vários troféus do FO, ele mantém um concorrido centro de treinamento em Rio Grande, com 30 cocheiras ocupadas a maior parte do ano. Para treiná-los, Macedo emprega uma dezena de ajudantes, mas somente ele monta os animais confiados a seu treinamento. A técnica de preparo dos animais é muito pessoal, sem manual e cercada por certa mística.
Já enquanto estão competindo alguns ginetes se tornam criadores de cavalos e de gado, mas é o adestramento de crioulos que lhes dá mais renda. Para Guto Freire, 31 anos, com dez animais classificados para as finais deste ano, não tem sobrado tempo para exercer seu oficio de médico-veterinário. Ele passa o dia seu tempo no centro de treinamento que mantém em Santo Antonio da Patrulha, a 80 quilômetros de Porto Alegre, de onde só sai para competir ou fazer uma visita técnica.
O SERVIÇAL DO CAMPO
O preparo de crioulos não dispensa os tradicionais domadores e envolve todo o pessoal que trabalha por salário ou diária nos centros de treinamento, nos locais de prova e nas fazendas, onde o cavalo ainda é o mais eficiente veículo de serviço com o gado.
Um passeio pelo recinto do Parque de Esteio confirma o quanto o trabalho campeiro gira em torno do cavalo. A ABCCC tem o maior número de cocheiras, o maior número de animais inscritos e as instalações mais bem preparadas para suas provas.
Durante a Expointer, com ou sem crise na pecuária, o restaurante da raça crioula mantém um permanente clima de festa. E nas ruas do parque há inúmeros quiosques vendendo apetrechos de montaria fabricados por guasqueiros (artesãos de laços, rédeas e afins) que trabalham boa parte do ano apenas para suprir a demanda associada à Expointer e à Semana Farroupilha.
Para gerir um rebanho de mil cabeças de boi, é preciso revezar pelo menos 25 equinos. No Rio Grande do Sul, há 14 milhões de bovinos. E 4 milhões de ovinos. É no campo, em serviço, que se encontra o maior número de cavalos crioulos. Eles somam pelo menos um milhão de animais no Brasil ou cerca de 20% do rebanho equino nacional, estimado em 4,6 milhões de cabeças.
A poderosa ABCCC, fundada em 1932 em Pelotas, possui apenas 2 500 sócios efetivos, mas tem registrados cerca de 250 mil cavalos (vivos) pertencentes a 20 mil proprietários.
No Brasil o registro do crioulo só perde para o mangalarga e o mangalarga marchador, que somariam, cada um, cerca de 400 mil animais registrados, segundo estimativas mais ou menos confiáveis.
Em seguida vêm o quarto-de-milha, o árabe e o campolina.
Um cavalo/égua enobrecido(a) pelo registro na ABCCC e pelas medalhas em competições pode valer até R$ 500 mil. Desde a criação do Freio de Ouro, o crioulo se tornou um negócio, mais até do que um hobby de ricos proprietários de terras.
Foi um salto espetacular que, paradoxalmente, não atinge o interior remoto, onde um bom crioulo de serviço, castrado e domado, pode ser comprado por R$ 1 000.
Considerando que uma doma não sai por menos de R$ 500, pode-se concluir que um cavalo comum vale pouco mais que nada. Como nas canções, quem mais o valoriza é seu próprio dono.
RAÍZES ARGENTINAS
A história do crioulo, como raça definida, é pouco anterior à ABCCC. Descendente dos cavalos trazidos da Europa pelos colonizadores espanhóis e portugueses, esse cavalo típico das fazendas do Sul da América teve seu padrão estabelecido nos anos 1920 pelo veterinário argentino Emilio Solanet (1887-1979), que foi buscar os biótipos iniciais nas manadas dos índios da província de Chubut, junto aos Andes do sul da Argentina.
Para Solanet, que escrevia artigos em La Nación, o maior jornal de Buenos Aires, as principais qualidades do cavalo crioulo eram a rusticidade, a funcionalidade, a longevidade, a habilidade no trato com o gado, a docilidade e a inteligência.
Para prová-lo, ele teve uma ideia aparentemente maluca: mandou um cavaleiro chamado Aimé Tschiffely (nativo da Suíça) viajar de Buenos Aires a Nova York com dois crioulos, Gato e Mancha.
Se fueran. Por aqueles dias de abril de 1925, o ás do tango Carlos Gardel fazia sua primeira tounée pela Europa. A viagem de 20 mil quilômetros por desertos e geleiras consumiu três anos e cinco meses. Como nas migrações indígenas, era preciso parar para descansos que se prolongavam por causa do clima. De tempos em tempos a viagem era noticiada por La Nación.
A entrada triunfal do gaúcho em NY, montado no pingo Gato, a 20 de setembro de 1928, foi consagrada pelo Congresso argentino, que fixou a data como El Dia Nacional del Caballo – criollo, por supuesto.
Pioneira lição de “marketing equino”, a proeza argentina entrou para a história como um atestado de resistência desses animais que durante décadas foram selecionados no Cone Sul por criadores anônimos para manejar o gado, transportar cargas e deslocar exércitos em lutas por territórios ou poder. Nos tempos de paz, quando o contrabando era livre, o vaivém de tropas facilitava o intercâmbio de cavalhadas. Assim se criou no Pampa o mito do centauro, metade homem, metade cavalo. Em cima, o gaúcho; em baixo, o crioulo. Não por acaso o melhor pintor da simbiose homem-cavalo no Pampa foi o argentino Molina Campos (1891-1959), cuja obra foi largamente difundida em calendários rurais no Cone Sul.
No início dos anos 1950, a mística do crioulo argentino pairava sobre a fronteira, tanto que o recém-formado veterinário Flávio Bastos Tellechea foi passar um tempo no interior da Argentina, para estudar in loco. Seu objetivo primordial era aprimorar o gado da Fazenda Paineiras, herança do pai, João Francisco Tellechea, um dos fundadores da Ipiranga, a primeira refinaria nacional de petróleo, criada em 1937. Somente no início da década de 1960 ele e o irmão Roberto Bastos Tellechea (diretor da Ipiranga) enveredaram para a criação de crioulos. Já encontraram então na própria Paineiras boas matrizes que seriam do tempo do primeiro Tellechea, um basco chamado Domingos, que se estabeleceu em Uruguaiana em 1865, no começo da guerra do Brasil com o Paraguai.
No início, os irmãos BT cruzaram crioulos gaúchos, argentinos e uruguaios. Como criador, cavaleiro e juiz de exposições equinas, Flávio concluiu que os melhores cavalos para os serviços campeiros eram aqueles de bons aprumos dianteiros, pescoço mais leve e quartos profundos — combinação nem sempre encontrada em crioulos importados da Argentina e do Uruguai, onde os criadores davam mais atenção à morfologia do que à funcionalidade.
UMA LENDA CHAMADA HORNERO
Em meados dos anos 1970, em busca de sangue novo, os cabeças do crioulismo gaúcho começaram a comprar garanhões de La Invernada, estância chilena que viera expor em Esteio, num raro movimento de integração em plena efervescência das ditaduras militares do Cone Sul. Foi quando os Tellechea compraram o chileno Hornero, marco de uma revolução genética que chegou a despertar o interesse do general de cavalaria João Figueiredo, presidente da República (1979-1985), durante uma visita dele a Jaguarão, berço das provas que formatariam o Freio de Ouro.
Não há como negar que, em pouco mais de 30 anos, o FO transformou a criação do crioulo num dos ramos mais florescentes da pecuária gaúcha. Antigamente, na economia das fazendas, o cavalo ocupava o último lugar, perdendo para os ovinos, que garantiam o custeio, e os bovinos, que traziam os lucros. “Hoje em dia, em muitas fazendas, o cavalo é o maior negócio, o gado segue em segundo e os ovinos estão sumindo na poeira”, diz o veterinário Wilson Aguiar, com mais de 30 anos trabalhando na ABCCC.

Tordilho Hornero / Foto Divulgação
No início, quando o único patrocinador do FO era a Ipiranga, os próprios irmãos Flavio e Roberto Tellechea participavam das provas pioneiras; hoje, sobram patrocínios e até as 12 provas seletivas regionais são transmitidas pelo Canal Rural, a partir de fevereiro. Os comentaristas de TV conhecem o esporte, que reproduz em raias demarcadas os trabalhos elementares – e brutais – com o gado.
Espetáculo rural levado ao público predominantemente urbano (e indisfarçavelmente saudoso da vida campeira) de Esteio, o FO não é a única competição dos cavalos crioulos. A ABCCC mantém hoje uma média de 400 eventos por ano pelo interior. As provas de tiro de laço mobilizam cerca de 10 mil laçadores por ano. O Crioulaço, cuja final se realiza em janeiro, lota o parque de exposições de Esteio. Desde 1971 disputa-se a marcha de resistência, na qual os animais precisam percorrer 750 quilômetros em 15 dias – uma réplica das tropeadas de outrora. Os cavalos crioulos também estão sendo levados a disputar provas de enduro e de rédeas, que envolvem outras raças, principalmente o quarto-de-milha. Além disso, nas comunidades rurais do interior, onde pouco se liga para a genealogia dos animais, persistem ainda as corridas de cancha reta, costume campeiro que ignora a decadência dos jóqueis clubes, dominados pelo puro-sangue inglês e sustentados por apostas.
Por trás de tantas disputas, agita-se um grande mercado de compra e venda de potros, potrancas, matrizes e reprodutores. Ao longo do ano, as cabanhas mais ricas competem na organização de eventos. São festas para quem tem dinheiro – ou, pelo menos, dispõe de crédito para pagar suas compras em até 50 parcelas. Atualmente, as transações em hastas públicas envolvendo crioulos giram pelo menos R$ 100 milhões por ano, dez vezes mais do que há dez anos. Nos leilões da Expointer, o crioulo gira 70% do dinheiro aplicado na compra de animais em geral. Uma potranca de boa filiação não sai por menos de R$ 30 mil nas noitadas das cabanhas mais prestigiosas. A cobertura de um ganhador do Freio de Ouro custa tanto quanto uma moto. Como um garanhão pode cobrir 100 éguas por ano, a conquista do FO dá ao proprietário e ao criador do campeão um largo horizonte para trotear tranquilo na senda da fortuna.
O crioulismo está recheado de criadores emergentes, que entram no negócio para aplicar dinheiro amealhado em atividades urbanas – como, aliás, aconteceu com os Tellechea,.que aplicaram na pecuária parte do que ganhavam com o refino de petróleo e a venda de gasolina nos postos Ipiranga. Uma das cabanhas mais em evidência é a La Passión, sociedade entre Chico Bastos Tellechea e Jayme Monjardim, diretor de cinema e TV.
Em meio à espiral festiva do crioulismo, a Cabanha Paineiras continua viva em Uruguaiana. Desde a morte de Flavio Bastos Tellechea, em 1990, a empresa é gerida por mulheres. No começo, ficou sob controle de Lila, a viúva. Hoje está nas mãos da primogênita Maria da Glória Tellechea Cairoli, que cuida da “porteira afora”, e da caçula Mariana Franco Tellechea, veterinária responsável pela “porteira adentro”.
Para se manter na liderança do mercado, a Paineiras promove três leilões por ano para colocar a maior parte de sua produção, também vendida avulsamente, para criadores mais chegados à família. Há sete anos, numa noitada cujas vendas ultrapassaram R$ 3 milhões, a Paineiras vendeu por R$ 675 mil a campeã BT Doriana, 16 anos, uma das últimas filhas de Hornero, imprimiu seu DNA em 70% dos ganhadores do Freio de Ouro.
Uma das histórias mais incríveis do Freio de Ouro é que Hornero, um lindo tordilho, foi desclassificado na prova de morfologia por apresentar um sobreosso na canela — na época, considerado defeito fisiológico. Não para os Bastos Tellechea, que colocaram no animal sua marca BT. Morto em 1997, Hornero deixou mais de 1,3 mil filhos no Brasil, tornando-se a lenda recontada por todos os que viram nascer o Freio de Ouro. Não é de estranhar, portanto, que os cavalos crioulos sejam cantados em prosa e verso pelos chamados cantores nativistas, que dominam os shows das agrofestas sulinas.
Joca Martins tem dois CDs cujo tema central é o cavalo crioulo. Com letras de Rodrigo Bauer, ele canta rancheiras, milongas, chacareras e chamamés enaltecendo cabanhas, cavalos, estâncias e ginetes. Os versos têm rimas bizarras e suas metáforas lembram os sambas-enredo do carnaval carioca. Em Rodopio de São Pedro, canção em homenagem ao tordilho ganhador do Freio de Ouro 2008, a dupla Bauer-Martins descreve as principais aptidões exigidas dos animais:
“É o Rodopio de São Pedro, tordilho alma de touro;
Pingo que sabe o segredo pra ganhar o freio de ouro;
Função e morfologia, raça, coragem e ‘brio’;
A noite parece o dia quando chega o rodopio…
Aparta, pecha e esbarra, galopa, trota e tranqueia;
Quem busca o freio com garra, não teme a volta feia;
Corre o bovino sobrando, retoma e não vira o fio;
Levanta terra girando, que afinal é um rodopio…” -
"Brasil pode dobrar produção sem tocar na Amazônia"
Entrevista com Luiz Fernando Cirne Lima
POR Geraldo Hasse
Dificilmente se encontra no Brasil de hoje uma autoridade técnica tão qualificada quanto o ex-ministro Luiz Fernando Cirne Lima para falar sobre o cruzamento da agricultura de grãos com a criação de gado, um dos assuntos do momento no mundo dos negócios rurais.
Aos 81 anos, ele já doou a fazenda em Dom Pedrito (RS) para os filhos, mas continua trabalhando como consultor e palestrante em zootecnia – sua maior especialidade, desenvolvida desde meados dos anos 1950 como livre docente da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, primeiro cargo de uma carreira brilhante.
Com pouco mais de 30 anos, Cirne Lima foi o primeiro brasileiro a julgar bovinos de raça na Inglaterra, berço da genética que deu impulso à pecuária do sul da América.
Era presidente da poderosa Farsul em 1968 quando a Secretaria da Agricultura decidiu fazer a primeira Expointer em Esteio, abandonando o parque do Menino Deus, no centro de Porto Alegre, onde desde o início do século XX se realizavam as exposições da pecuária gaúcha.
Como ministro da Agricultura no período 1969/1973, assinou a lei da fundação da Embrapa, um dos vetores do boom da soja no Brasil.
Neste depoimento, Cirne Lima fala não apenas da história da Expointer, mas do futuro do agronegócio brasileiro. “Podemos dobrar nossa produção sem tocar na Amazônia”, diz ele, sintetizando a confiança no desempenho dos agricultores brasileiros.
“A EXPOINTER ESTÁ NUMA ENCRUZILHADA”
O senhor se lembra do início da Expointer?
CIRNE LIMA – A Expointer nasceu no fim da década de 60, quando as exposições estaduais do Rio Grande do Sul, que eram apenas feiras de gado, tornaram-se praticamente inviáveis diante das limitações do parque de exposições do bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Havia ali quatro hectares da Secretaria da Agricultura. Era um parque muito bonito, muito bem conservado pelo governo do Estado. Os criadores faziam uma exposição de bom nível técnico em termos regionais, mas muito limitada em termos nacionais e diante dos países vizinhos, que historicamente nos forneciam reprodutores.
Como se deu a mudança?
CIRNE LIMA – A mudança ocorre depois que o primeiro brasileiro é convidado a julgar na Inglaterra e um grupo de criadores o acompanha para visitar a Royal Show…
Quem foi esse brasileiro?
CIRNE LIMA – Eu.
Quantos criadores gaúchos visitaram a exposição inglesa?
CIRNE LIMA – Uns 10 ou 12. Na volta ao Brasil, já havia um pensamento dominante: “Temos de sair do parque do Menino Deus e procurar um outro local”. O secretário da Agricultura era Luciano Machado, um bacharel em direito que havia sido um brilhante deputado federal. Ele era muito identificado com o setor agropecuário e acatou a mensagem trazida pelos visitantes da Royal Show. Isso significava uma mudança na própria concepção da exposição.
O que significa “mudança na concepção”?
CIRNE LIMA – No parque de Porto Alegre não se podia fazer mais do que uma exposição de animais. A Royal Show era uma feira de 55 hectares em que a pecuária ocupava apenas um segmento dessa enorme exposição, no centro geográfico da Inglaterra, perto da cidade natal de Shakespeare. A maior parte da área era para exposição de máquinas agrícolas e demonstração de tecnologias pecuárias e agrícolas.
O secretário Luciano Machado e uma comissão de produtores, uns três ou quatro, entre eles Dorval Ribeiro e Lauro Macedo, começaram a procurar um local e logo se fixaram numa propriedade da família Kroeff, em Esteio, junto à BR-116, defronte à refinaria Alberto Pasqualini, da Petrobras. Como era amigo da família Kroeff, não participei da negociação. Mas o parque de Esteio, com 141 hectares, é fruto do trabalho de Luciano Machado e do veterinário-sanitarista Evelino Arteche, então diretor de produção animal da Secretaria da Agricultura.
É verdade que muita gente foi contra a transferência da feira de Porto Alegre para Esteio?
CIRNE LIMA – A realização da primeira Expointer foi muito polêmica porque algumas pessoas consideravam que a mudança fora precipitada. Naquela época se achava que Esteio era longe demais. Alguns criadores se negaram a expor seus animais. É verdade que faltava concluir caminhos dentro do parque e havia pistas de exposição em situação precária, mas desde a primeira vez se fez ali uma exposição diferente, com muitas máquinas e estandes de tecnologia agrícola. E o fato é que a Expointer se transformou num grande sucesso, é uma das maiores do mundo, sem dúvida a maior da América do Sul, em amplitude. Se existem hoje no mundo cinco grandes centros de negócios agrícolas, a Expointer é uma delas. A Royal Show, que foi modelo, não se realiza mais no mesmo local por causa dos custos. Hoje na Inglaterra se realizam exposições menores no interior.
No momento o parque de Esteio está em crise existencial: ser ou não ser um grande recinto de exposições…
CIRNE LIMA – Hoje o parque de Esteio precisa encontrar um modelo para administrar esse espaço que, fora a Expointer, é pouco utilizado ao longo do ano. A Expointer dura dois fins de semana. Os outros eventos do correr do ano não utilizam toda a potencialidade do parque, que se tornou um patrimônio público pouco aproveitado.
Fala-se muito em parceria público-privada.
CIRNE LIMA – Não tem outro caminho senão esse. Tem que se achar uma vocação a fim de dinamizar o parque. Hoje já existem umas tentativas. Muitas associações de criadores têm sede ali durante o ano, mas isso é pouco para o tamanho da área, a infraestrutura de energia elétrica e fornecimento de água.
É uma “cidade” que fica vazia a maior parte do ano.
CIRNE LIMA – Tem-se que achar um modelo de gestão. A Associação dos Criadores de Cavalos Crioulos está fazendo um projeto de ter lá dentro uma pista coberta para utilizar mais vezes durante o ano. É um desafio. Até agora Esteio cumpriu largamente sua missão como difusor de tecnologia, mas está numa encruzilhada.
Apesar da crise existencial do parque, a Expointer continua batendo recordes todos os anos.
CIRNE LIMA – A Expointer é muito representativa do momento que vive o agronegócio como um todo. A exposição de máquinas agrícolas de Esteio é um verdadeiro “salão do automóvel” da maquinaria agrícola do Brasil. Ainda que tenhamos em Não-Me-Toque uma exposição excepcional de tecnologia e de máquinas agrícolas, a Expointer é a grande feira brasileira de lançamentos de máquinas, novos modelos etc.
O fato de estar dentro da Grande Porto Alegre é uma vantagem?
CIRNE LIMA – Historicamente, para o então chamado setor produtivo, a Expointer tinha um objetivo subliminar – servir como um ponto de encontro cidade-campo. Em 1970, a população brasileira estava distribuída meio a meio no campo e nas cidades, mas não havia uma integração, principalmente no aspecto psicológico. O citadino enxergava o rural como um elemento menos qualificado, menos educado etc.
JUNTO COM A EXPOINTER, OCORREU A ASCENSÃO DA SOJA
O senhor acha que houve uma integração cidade-campo?
CIRNE LIMA – O objetivo subliminar foi alcançado. No início a Expointer era visitada apenas pelas populações próximas de Esteio. Em seguida ela passou a ser visitada pela população de todo o Rio Grande. Hoje vêm ônibus de regiões longínquas que viajam 500 quilômetros para passar um dia no parque de Esteio. Num sábado ou domingo de sol entram na Expointer 150 mil pessoas. A Expointer contribuiu para uma melhor compreensão entre esses dois segmentos sociais. Hoje a população que trabalha na terra é altamente minoritária, mas a aproximação se fez de maneira mais fácil e, sentimentalmente, mais favorável, mais simpática. Hoje se pode dizer que o citadino brasileiro é simpático ao homem rural. No máximo é indiferente, mas antagonismo ou antipatia…não vejo mais. Há 50 anos não era bem assim. A própria literatura tratava o homem rural pejorativamente.
Por coincidência, no início do parque de Esteio, a soja ensaiava sua expansão no Rio Grande do Sul.
CIRNE LIMA – No início dos anos 1950, quando me formei agrônomo, a soja era uma mera curiosidade para os estudantes. Naquela época a população consumia gordura animal. Havia um pouco de óleos vegetais – o linho incentivado pela indústria Renner e um pouco de girassol na região de São Borja e Itaqui, no oeste gaúcho. A substituição da gordura animal pelos óleos vegetais provocou uma revolução na suinocultura, que derivou para o porco-carne. Em 1970, a soja mal alcançava uma produção anual de um milhão e meio de toneladas, a maior parte no Rio Grande do Sul, mas já começava a se tornar uma lavoura industrial que se expandiria do sul do Brasil até o extremo norte. Aliás, dentro dessa revolução temos de colocar como geradora de tecnologia a Embrapa, fundada em 25 de abril de 1973.
Este ano a produção de soja chegou a quase 90 milhões de toneladas. Qual pode ser o teto para a expansão dessa lavoura?
CIRNE LIMA – Eu tenho dito que a soja está constituindo para o Brasil o mesmo que o milho foi para os Estados Unidos, mas a lavoura de soja não deve ser encarada isoladamente. Hoje é importante considerá-la ao lado do milho e do algodão como parte da integração lavoura-pecuária, que é a coisa mais importante hoje no agronegócio brasileiro.
Por que a integração lavoura-pecuária é tão importante?
CIRNE LIMA – Nós temos um rebanho bovino estimado em 190 milhões de cabeça e que utiliza uma área de 190 milhões de hectares, mas nossa pecuária não precisa dessa área toda. Talvez com a metade disso podemos manter nosso rebanho de forma produtiva. Naturalmente, a área dispensada pela pecuária poderá ser usada pela agricultura, que está concentrada em 72 milhões de hectares – 55 milhões de hectares de culturas anuais e 17 milhões de hectares de culturas permanentes. Os quase 90 milhões de toneladas de soja saem dessa área de lavouras anuais. Fora isso, ainda falta incorporar ao processo produtivo 70 milhões de hectares não utilizados nem para pastos nem para lavouras. São áreas espalhadas por todo o país e com problemas de uso, como encostas etc., mas parte disso pode virar produtiva. Hoje o incremento da produção de soja, milho e algodão está ocorrendo em áreas de pastagens degradadas. Dos 190 milhões de hectares de pastagens, 30 milhões são degradadas. A implantação de lavouras é barata, basta usar fertilizantes. É assim que podemos dobrar a produção do nosso agronegócio.
Sem tocar na Amazônia?
CIRNE LIMA – Na Amazônia tem 400 milhões de hectares que não precisam ser tocados. A ideia do desmatamento zero não é unânime no meio rural, mas tende a se tornar dominante.
Mas na Amazônia temos uma pecuária implantada com incentivos fiscais do governo…
CIRNE LIMA – O que aconteceu na Amazônia nos anos 60 e 70 tem que ser pensado de acordo com o pensamento de Ortega Y Gasset – “o homem e sua circunstância”. Naquele tempo, havia uma campanha para transformar a Amazônia em território internacional, patrimônio da humanidade… A reação brasileira foi grande, nasceu o projeto militar de estabelecer uma mínima ocupação humana da região e uma série de outras coisas, inclusive o Projeto Radam, que descobriu campos de aviação clandestinos etc. Nessa esteira foi feito um desmatamento irregular, nocivo e lamentável. A pecuária na Amazônia foi implantada de forma desordenada, mas do ponto de vista de política pública era impossível fazer diferente.

Cirne Lima no parque de exposições / Foto Divulgação ABCD
No cerrado a ocupação agrícola também foi feita de maneira predatória.
CIRNE LIMA – Na floresta amazônica houve abusos e os solos foram degradados porque os projetos eram menos tecnificados. No cerrado, os solos foram melhorados pela agricultura. A integração gado-soja é tremendamente importante. A soja faz uma rotação extraordinária.
O senhor considera positiva a entrada da soja em áreas de arroz do Rio Grande do Sul?
CIRNE LIMA – Eu como agrônomo não tenho vergonha de dizer que ainda não sei plantar soja. Na minha fazenda, que já passei para os filhos, produzimos 40 a 50 sacas de soja por hectare em terras de coxilha. Em terras baixas ainda não temos a tecnologia adequada, mas a Embrapa de Pelotas está mergulhada nisso. A gente precisa escolher a variedade certa, plantar na época correta, corrigir o solo… Há pouco fui dar uma palestra para agricultores em Santa Rosa, o berço da soja no Brasil. Na conversa depois do almoço, perguntei qual a expectativa deles para o rendimento da soja. Um produtor disse que um agrônomo que produza menos de 70 sacas por hectare baixa a cabeça pra não passar vergonha. Esse mesmo produtor disse que a meta em Santa Rosa é chegar a 100 sacas por hectare ou, seja, 6 mil quilos.
Isso é o dobro da média regional.
CIRNE LIMA – No oeste do Mato Grosso, onde chove muito bem, estão colhendo 60 sacas por hectare, o que é mais do que se produz em Illinois e Iowa. Mas não podemos esquecer que os Estados Unidos produzem 330 milhões de toneladas de milho. Ou, seja, só de milho produzem quase o dobro do que o Brasil produz de grãos. E um terço do milho americano é usado para fazer etanol. Enfim, o Brasil se consolida como a segunda maior produção do mundo e tem áreas a incorporar ao processo produtivo. Todo isso sem tocar no bioma amazônico.
O Brasil não se tornou por demais dependente da soja?
CIRNE LIMA – De 180 milhões de toneladas de grãos que produzimos, 90 milhões são de soja. Sim, mais de 50% do valor é soja. Mas não vejo riscos. A mesma coisa acontece nos EUA, com o milho. A China, nosso grande mercado para soja, tem optado por produzir mais milho do que soja. Todos os programas de governo da China seguem anunciando compras de 10, 20, 30 milhões de toneladas por ano de soja. Os chineses não querem ficar dependentes dos EUA em milho. Em relação à China, acho que o Brasil tem 10 a 20 anos de tranquilidade. Se você considerar que todo ano 30 milhões de chineses entram no mercado consumidor, não há dúvida de que a soja brasileira vai continuar sendo comprada.
O Brasil vai continuar avançando na exportação de carne?
CIRNE LIMA – O Brasil é o maior exportador do mundo. Vende para 130 países. Conquistamos mercado vendendo carne barata mas estamos nos preparando para exportar carne mais cara. Em 1970 o rebanho brasileiro era de 80/90 milhões de cabeças. Chegamos a 190 milhões de cabeças graças a três elementos. Primeiro, a capacidade desbravadora do criador brasileiro. Segundo, os capins do gênero brachiaria tremendamente adaptados a quase todas as latitudes brasileiras. Terceiro, a raça bovina nelore, que se adaptou ao clima brasileiro e cruzou bem com todas as raças existentes no Brasil. O gado pé duro do Brasil Central ao norte, cruzado com o nelore, em duas gerações passou a produzir carne de boa qualidade.
Nesse contexto, qual o papel da pecuária do Sul?
CIRNE LIMA – O Rio Grande do Sul é uma região subtemperada dentro de um país tropical e se especializou em produzir uma carne diferenciada. Trabalhar sob extremos climáticos oferece dificuldades, mas o produtor gaúcho tem conseguido desenvolver coisas próprias como o trigo, a maçã, carnes, laticínios e a integração lavoura-pecuária, que começou no Rio Grande e virou um modelo para todo o Brasil. A experiência do Rio Grande do Sul mostra o quanto é importante a diversidade genética para produzir carne de boa qualidade. Veja o que aconteceu com as galinhas. Nos aviários industriais não se cria mais uma raça definida e, sim, o resultado de cruzamentos genéticos altamente sofisticados. Hoje você importa ovos de avós dos elementos produtivos. Nesses cruzamentos entram raças como a nossa carijó, nome nacional de uma raça inglesa chamado Plymouth Rock Barrach. A carijó tem alguns gens que fazem parte de um segredo comercial da avicultura. Quando a Embrapa foi fundada, um frango comia 4,5 quilos de ração para engordar um quilo. Hoje tem frango que come 1,1 kg para engordar um quilo. O progresso que houve nisso é uma coisa extraordinária. Nas raças bovinas é a mesma coisa.
PELA PRIMEIRA VEZ O ANGUS VENDEU MAIS SÊMEN DO QUE O NELORE
Mas como se explica o recente sucesso comercial da raça angus?
CIRNE LIMA – A explicação para o sucesso da raça aberdeen angus está no esforço brasileiro para deixar de vender carne barata e vender carne mais cara. No ano passado pela primeira vez no Brasil o angus passou o nelore em venda de sêmen. É quase inacreditável. Há dez anos atrás ninguém seria capaz de imaginar isso. As raças angus, devon e hereford predominam nos cruzamentos que buscam carne mais macia. Mas, das raças inglesas, o angus é especializado em produção de carne de alta qualidade. Ele não tem o tamanho do hereford, a conformação perfeita do shortorn, não tem a velocidade de crescimento do charolês. Mas a qualidade de carcaça é o apanágio do angus, que levou 100 anos para chegar nisso.
Há quem diga que é mais um fenômeno de marketing.
CIRNE LIMA – Os pioneiros do angus pareciam visionários há 50 ou 60 anos, quando eu comecei minha vida profissional. Eles diziam que um dia o angus teria qualidade de carne e ia vender bem. Hoje já existem preços diferenciados para essas carcaças – cruza angus, cruza devon, cruza hereford.
O que aconteceu no Brasil com aquela beleza – o shortHorn?
CIRNE LIMA – É o mais perfeito, na conformação, mas é pouco rústico, acumula muita gordura, não tem a fertilidade dos outros…
E por que o charolês saiu de moda?
CIRNE LIMA – O charolês tem velocidade de crescimento e peso vivo. Não acumula gordura. Sua carne seca não dá bom assado de grelha ou de fritura. A carne de charolês é boa pra caçarola, especialidade da cozinha francesa.
Mas o charolês esteve na moda no Rio Grande do Sul…
CIRNE LIMA – Houve um momento em que o charolês vendia mais do que o angus para cruzar com o nelore. Na década de 70, sem dúvida. Naquela ocasião se queria carne e tamanho. Hoje se quer qualidade de carne para vender por preço melhor. O charolês está esquecido, mas vamos matar tudo que é gado branco? Nada disso, é uma genética para dar tamanho que, amanhã ou depois, pode ser útil.
É verdade que a vaca charolesa tem maior dificuldade para parir?
CIRNE LIMA – Sim, por causa do tamanho dos filhotes, por isso é preciso selecionar animais de cabeça pequena para não dar problema de parto. No Mato Grosso do norte, aquelas criações de 10 mil vacas no pasto…Imagine ter de atender vaca, puxar bezerro. Impossível. Aqui no Rio Grande do Sul, numa fazenda de 30 vacas, o proprietário vai lá e puxa o bezerro, mas lá em cima morrem a vaca e a cria, não é? Como zootecnista, digo que o charolês tem que ser conservado porque pode ser necessário. Porque décadas atrás o angus estava numa situação muito pior do que o charolês hoje. Muito pior. O angus parecia um deleite de meia dúzia de fazendeiros ricos que criavam aqueles animais apostando que um dia haveria remuneração por qualidade de carne. E houve.
LEMBRETE HISTÓRICO
LF Cirne Lima
“A pecuária brasileira começa em 1532 com a introdução por Martim Afonso de Souza das primeiras cabeças de gado trazidas de Portugal para a capitania de São Vicente, de onde Álvaro Nunez Cabeza de Vaca difunde o gado para o interior do continente. No Rio Grande do Sul a pecuária começa com os jesuítas em 1632. Os padres Cristóvão Jacques e Pedro Mendonça atravessam gado vicentino da Argentina para as Missões. A pecuária se expande graças às boas condições mesológicas da metade sul do Rio Grande do Sul e se espalha por esse território que vai até as margens do Prata, hoje o Uruguai. As lutas fronteiriças tinham por objetivo o gado, que era o alimento para as tropas. Daí a noção de que muitos dos nossos guerreiros eram ladrões de gado. Na verdade o gado era o grande produto econômico da região. E os cavalos eram armas de guerra, máquinas vivas. Cavalos e gado são os móveis da Expointer.” -
Debate na FEE mostra que os juros são o problema
Retomando suas tardes de debates, a Fundação de Estatísticas e Estudos (FEE) apresentou à inteligência portoalegrense, na terça-feira (12/8), o economista Mark Setterfield, do Centro de Pesquisa Social de Nova York. Barbudinho de pouco mais de 30 anos, ele leciona no Trinity College, de Hartford, EUA, e é bolsista de uma fundação financiada pelo megaespeculador global George Soros.
Seu objeto de estudo é a relação entre consumo, endividamento e desigualdade de renda na sociedade norte-americana, onde “os trabalhadores se endividam para tentar imitar o consumo dos ricos” (que ele chama de rentistas). Outra lição dele que se encaixa na realidade brasileira: “Quanto maior a desigualdade de renda, maior o consumo por emulação dos ricos”.
Setterfield vem pesquisando como o processo maluco de endividamento das famílias americanas desembocou na crise financeira de 2008, cujo desfecho foi o aumento das desigualdades entre famílias e rentistas, isto é, entre a base social e o topo da pirâmide de renda, enfim, entre pobres e ricos. Quando se estabelece, o endividamento popular contribui para o crescimento econômico, mas ninguém garante a sustentabilidade do processo, que Setterfield comparou à construção de pirâmides à base do chicote sobre escravos. Foi a única vez que a platéia de 60 pessoas riu.
Pode ser que Setterfield nem seja o cara, mas ficou claro que a direção da FEE está procurando subsídios para tirar o Brasil do atual impasse da economia brasileira, cujo crescimento baseado no consumo da população de baixa renda estaria se esgotando, segundo conclusão de vários economistas.
Como interface do americano nos debates, a FEE colocou o economista da casa Bruno Paim, que exibiu uma tabela mostrando que desde 2004 o consumo tem sido o principal ingrediente do crescimento econômico brasileiro, o qual está em declínio, mas ainda acima do crescimento vegetativo da população. Mas há algo positivo no cenário brasileiro: o saldo das operações de crédito das pessoas físicas é de seis a sete vezes mais baixo do que nos EUA, e o prazo médio de endividamento também é dos mais baixos da América Latina. “O problema são os juros elevados demais”, diz Paim, salientando que entre 2004 e 2013 o percentual dedicado pelas famílias à amortização das dívidas aumentou de 30% para 40%.
Assim, as situações vividas pelo Brasil e os EUA não são comparáveis, até mesmo porque, ao contrário do ocorrido na sociedade americana, o endividamento dos brasileiros não teve como consequência um aumento da desigualdade e sim uma diminuição. Isso tudo com os bancos batendo recordes de lucros a cada trimestre. Daí a conclusão de Setterfield: “Dado o peso dos juros no Brasil e a tendência de aumento dos juros nos EUA, a economia brasileira pode sair prejudicada no futuro…”.
