Autor: Geraldo Hasse

  • Salgado Filho e as leis trabalhistas

    Certo dia, no ano de 1934, andando no centro do Rio, o ministro do Trabalho, Joaquim Pedro Salgado Filho, viu um vendedor ambulante sendo esbulhado por um fiscal municipal, que supunha cumprir seu dever em prol da regularidade do comércio.
    O pobre pediu clemência, pois estava tentando levar algum dinheiro para casa, mulher e filhos. Não teve indulgência.
    Após assistir à cena, o ministro voltou ao seu gabinete e iniciou as providências para regulamentar o comércio de ambulantes. Coisa que fez nos dias seguintes, emendada em medidas que estabeleceram no Brasil as bases da legislação trabalhista – jornada de oito horas, regulamentação do trabalho feminino, entre outras – que seriam reunidas, em 1943, na Consolidação das Leis do Trabalho, cuja reforma está em discussão no Senado Federal.
    Impossível não lembrar o papel histórico de Salgado Filho nesse momento em que 15 milhões de desempregados e outros tantos milhões de subempregados, biscateiros e pingentes lutam pela sobrevivência no país varrido por escândalos de corrupção nas altas esferas do poder. Recordemos, pois.
    Gaúcho de Porto Alegre, onde nasceu em 1888, Salgado Filho era formado em Direito. Além de substituir Lindolfo Collor no Ministério do Trabalho entre 1932 e 1934, foi senador e o primeiro ministro da Aeronáutica, nomeado em 1941, quando passou a negociar – principalmente com o aliado norte-americano — as bases da instalação da indústria de aviões no Brasil.
    Em julho de 1950, candidato a governador do Rio Grande do Sul, morreu num acidente aéreo em São Francisco de Assis, quando viajava para um encontro com seu amigo Getulio Vargas, na Fazenda Itu, em São Borja. Há suspeitas de que o acidente não foi exatamente acidental.

  • Dilma vê luz no fim do túnel, em 2018

    Geraldo Hasse
    A ex-presidente Dilma Rousseff deu um looooongo depoimento à revista Esquerda Petista em que, surpreendentemente, se declara otimista quanto à possibilidade de recuperar as prioridades do estado social a partir das eleições de 2018, desde que haja um debate autêntico sobre o que aconteceu no Brasil nos últimos anos. “Não interessa quem ganhe, mas haverá um processo político, de dimensão nacional, em que se discutirá. Vai ser uma discussão, dura, crítica, mas vai ter. Por isso a coisa mais grave é não ter eleição em 2018”, disse a ex-presidente, que dedicou a maior parte do depoimento à análise da situação econômica mundial e, no final, explicou porque o PT não ousou apresentar o projeto de controle dos oligopólios de mídia.
    Para a economista Dilma, a chave da crise vigente é a “financeirização”, fenômeno global mais ou menos recente cuja principal característica é o predomínio do capital financeiro sobre todas as demais atividades econômicas convencionais – indústria, comércio, transportes, agricultura, governo. Na opinião da ex-presidente, o objetivo da financeirização, mais do que estabelecer o “estado mínimo” e destruir os mecanismos do bem-estar social, é pagar menos impostos, o que acaba gerando como resultado final o aumento brutal da desigualdade econômica e social — obra em andamento no Brasil nas mãos do vice-presidente Michel Temer.
    Nem tudo está perdido, acredita Dilma. Por exemplo, ela afirma que, apesar da privatização feita pelo PSDB, o Brasil conserva uma estrutura estatal muito forte: Caixa Econômica, Banco do Brasil, BNDES, Petrobras e Eletrobras. São cinco pernas que permitem gerar investimentos em atividades produtivas, mas até mesmo essas empresas estatais caíram no vício da financeirização. Falando das grandes empresas atuantes no Brasil, ela diz que “todas têm uma variante bancária chamada tesouraria, na qual a parte financeira é, progressivamente, mais significativa que a parte produtiva”.
    No Brasil, segundo Dilma, a financeirização é mais intensa porque as grandes empresas, a começar pelos bancos, tornaram-se “sócias da rolagem da dívida pública”, ou seja, “se você depositar no Banco Central, ele te paga a taxa da Selic, entendeu?” Não são apenas os bancos que fazem esse jogo. “A Petrobras também quer a mesma coisa, está endividada em dólar e quer o real ultravalorizado”, diz ela.
    Além disso, o empresariado em geral tem uma boa lucratividade no mercado interno de rolagem da dívida. Eis o suprassumo da finaceirização, que a economista e ex-auditora fiscal Maria Lucia Fatorelli quer lancetar por meio de uma auditoria da dívida pública no Congresso – não no atual, natualmente, mas em algum momento no futuro.
    Mídia 
    Em outra grande vertente do seu depoimento à revista Esquerda Petista, a ex-presidente Dilma reconheceu que faltou força (e coragem e percepção) aos governos petistas para estabelecer o controle sobre os meios de comunicação social.
    Em princípio, lá no começo (2003), os governos petistas achavam que a mídia precisava ser controlada economicamente para que não se torne monopólio ou oligopólio, como ocorre com qualquer ramo de negócio. “Isso não é só contra a economia popular”, afirma Dilma, “é contra a democracia”. Ou, seja, “você não pode deixar que se formem conglomerados de jornal, televisão, rádio e revista e qualquer outro”. O órgão existente no governo, o CADE – Conselho Administrativo de Defesa Econômica, nunca fez nada para alterar esse quadro.
    Segundo Dilma, ao invés de criar uma lei antimonopólio, o que o primeiro governo petista Lula fez foi  ajudar os principais grupos de mídia a sair de suas crises de sobrevivência advindas da revolução tecnológica (internet). Ingenuidade, bom mocismo e falta de visão de futuro, já que no primeiro momento ninguém do governo petista tinha uma proposta de lei de meios de comunicação, que acabou sendo formulada tardiamente, no fim do segundo governo Lula. O autor, ministro Franklin Martins, jornalista com profunda vivência dentro da TV Globo, acabou ficando fora do governo Dilma, acuado pelo argumento malicioso de que o PT queria controlar o conteúdo dos meios de comunicação, conspirando contra “um dos fundamentos da democracia”.
    Dilma admite: “Nós não soubemos colocar bem essa discussão. E fomos ingênuos em relação aos meios. Eles não têm nem princípios democráticos, nem republicanos. Com eles não dá para fazer ‘senta que o leão é manso’. O leão não é manso. Come sua mão, sua perna e sua alma”.
    No transição de Lula para Dilma, o governo foi ficando sem força política para sequer propor regular a mídia, . A situação ficou pior com a ascensão de Eduardo Cunha à presidência da Câmara.
    Em seu depoimento, a ex-presidente conta que o deputado carioca foi à cúpula da Rede Globo e prometeu barrar a regulação da mídia pretendida pelo governo. Não só barrou todos os projetos petistas como comandou o impeachment presidencial, consumado entre abril e agosto de 2016.

  • Cancro da macieira causa prejuízos nos pomares de toda a região Sul do Brasil

    Geraldo Hasse
    Os secretários da Agricultura dos três estados do Sul, que concentram a quase totalidade da produção brasileira de maçã (1 milhão de toneladas por ano), formalizaram na terça-feira passada (13) a criação de um comitê de prevenção a doenças das pomáceas. No encontro de autoridades e técnicos em São Joaquim (SC), o assunto principal era o cancro europeu, doença fúngica que ataca as partes lenhosas das macieiras.
    As notícias são preocupantes. Em Santa Catarina, os técnicos estimam que o cancro esteja presente em 6,5% dos pomares existentes em pouco mais de 3 mil  pequenas propriedades. No Rio Grande do Sul, onde a maçã é produzida principalmente em grandes propriedades, não há estatísticas mas, segundo Silvio Meirelles, da Embrapa de Vacaria, a doença está mais disseminada do que em Santa Catarina, porém causaria menos preocupação, pelo menos da boca para fora. “Por aqui se diz que, se a maçã se tornar inviável para os produtores gaúchos, eles podem passar sem problemas para o plantio de soja, pois a topografia é mais favorável”, diz Meirelles.
    Em Santa Catarina, onde a maçã encontrou um bom habitat em pequenas propriedades de topografia acidentada, não há alternativas imediatas fora da fruticultura. Daí a preocupação dos técnicos catarinenses em encontrar saídas por meio do equilíbrio sanitário dos pomares, antes que a erradicação das plantas doentes acabe inviabilizando a atividade.
    A maçã brasileira alcançou dimensão comercial a partir de 1970. O cancro foi detectado em 2002 num viveiro de mudas de Vacaria. Por ordem do Ministério da Agricultura, foram incineradas as 500 mil mudas de macieiras (de origem européia, daí o nome da doença) estocadas no viveiro.
    Apesar dos cuidados, o fungo sobreviveu e foi detectado novamente em 2012, quando se formou um grupo de trabalho que reúne especialistas dos órgãos técnicos dos três estados do Sul e do Ministério da Agricultura. A doença não chega a atingir os consumidores, mas afeta principalmente o bolso dos produtores.
    O combate ao cancro europeu é caro: deve-se fazer o corte das partes afetadas e a incineração posterior de todo o material cortado. Segundo Moisés de Albuquerque, diretor executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Maçã, os produtores gaúchos estão gastando R$ 2 mil por hectare na erradicação do cancro. “Isso não é pouco”, diz ele, lembrando que a união técnica dos três estados sulinos é um dado novo na história da maçã, que ocupa 34 mil hectares e gera negócios de R$ 6 bilhões por ano.
    1001 predadores
    A fruticultura atrai toda espécie de predador, desde fungos, vírus, bactérias, insetos e pássaros até diversos parasitas situados ao longo da cadeia produtiva. Uva, banana, figo, manga: toda fruta é alvo, mas nenhuma supera a história da laranja no século XX. Após progredir nos anos, no vácuo da crise do café, a citricultura sofreu um surto devastador de “tristeza” (vírus) nos anos 1940 e um ataque violento do cancro cítrico (bactéria) a partir de 1957, obrigando os produtores a erradicar/incinerar os pomares afetados. Mas já nos anos 1980 a citricultura paulista estava de pé outra vez, tanto que se tornou campeã mundial na produção e exportação de sucos concentrados.  A produção de cítricos ocupa 700 mil hectares no Brasil (25 mil ha no RS).

  • Breviário da roubalheira eleitoral

    Geraldo Hasse
    Paraibano de Catolé da Rocha, com parentesco distante com os Maia da Paraíba, o ministro Herman Benjamin brilhou no TSE como relator da ação de impugnação da chapa Dilma-Temer nas eleições presidenciais de 2014.
    Restou provado, como soem dizer os causídicos, que nas eleições presidenciais de 2014 houve abuso de poder econômico, especialmente com recursos da Construtora Odebrecht, a principal empreiteira contratada pela Petrobras. Mas a maioria dos sete ministros ignorou as provas e absolveu a chapa. Quatro a três.
    Estressado por horas e horas de argumentação oral, Benjamin deixou muito mal na parada o matogrossense Gilmar Mendes, presidente do tribunal, que preferiu desempatar o jogo em favor do presidente Temer, beneficiário do golpe parlamentar contra a titular da chapa.
    Ao absolver a chapa Temer(Dilma), o TSE deu aval ao golpe e aliviou a barra dos partidos e dos dirigentes partidários. Antes definidos como agências eleitorais disponíveis a quaisquer aventureiros, os partidos foram qualificados por Benjamin como “entrepostos de recolhimento de propinas”.
    A interminável sessão de julgamento da ação proposta pelo candidato derrotado Aécio Neves, cuja chapa presidencial poderia ser acusada das mesmas faltas, vale temporariamente como um réquiem da democracia brasileira. Espera-se que ali adiante haja uma correção de rumos, sob pena de continuarmos vivendo num permanente valetudo político.
    A decisão do TSE vai gerar um acórdão que servirá de referência para novos julgamentos. Pode ser que alguém recorra junto ao STF, mas até uma nova decisão – da qual fará parte o sagaz ministro Gilmar Mendes, que sabe de onde sopram os ventos – muita água suja haverá de passar por baixo dessa ponte.
    Ora,  não se pode negar que foi desvendado um dos esquemas mais comuns da vida política brasileira. Ninguém mais se espanta ao saber que a Odebrecht distribuía dinheiro a todos os políticos que podiam lhe prestar ajuda nos meandros do poder. Não deu só para a chapa Dilma-Temer, mas para as outras, especialmente para a liderada por Aecio Neves. Só em 2014?
    Não sejamos ingênuos diante da histórica falcatruagem político-eleitoral. Onde e quando não houve abuso de poder econômico em alguma eleição na história deste país? Qual estatal não caiu na rede de corrupção manejada por fornecedores? Qual político não contou com dinheiro de caixa dois? Quanto mais alto o cargo, maior o volume de dinheiro.
    Admitamos que um percentual dos políticos prima pela lisura, não aceita dinheiro sujo e presta contas certinho para os órgãos responsáveis. Que os (e)leitores façam suas avaliações: são 10%? Um terço? Metade? Como melhorar esse percentual, a ponto de excluir da vida política os manipuladores?
    Pela Operação Lava Jato e outras investigações ficamos sabendo que um ou outro receptor de dinheiro desviam uma parte para si mesmo, colocando-a num paraíso fiscal ou comprando imóveis ou joias. As mulheres dos cariocas Cabral e Cunha fizeram farras em lojas de Paris. Uma delas alegou não saber a origem do dinheiro e foi absolvida.
    Mas não há dúvida de que a maior parte das verbas de campanha eleitoral é usada para pagar serviços de assessores, consultores, redatores, cinegrafistas, fotógrafos, motoristas, cantores sertanejos, secretárias, scort girls, cabos eleitorais, portadores de bandeiras em esquinas democráticas e até eleitores sequiosos de presentinhos eleitorais.
    Nas altas esferas das campanhas, há um jogo de favores e interesses se entrecruzando, tendo como denominador cargos aqui e acolá. Os mais escolados agem no sentido de garantir uma boquinha no governo eleito. Enquanto isso, nas baixas esferas, a senhora que faz o café e cuida da faxina no comitê de campanha recebe promessas singelas e depois fica penando meses para receber o que lhe devem.
    Esse é um jogo conhecido por qualquer brasileiro. Todo mundo tem um conhecido que ganhou algum (ou recebeu mil promessas) numa campanha política.
    Os marqueteiros-chefes manipulam milhares, milhões de reais, ficando em condições de comprar sítios, carros e depositar dinheiro no exterior.
    Um bom redator de campanha ganha em quatro meses mais do que um editor de revista num ano de serviço.
    Um fotógrafo diligente fica em condições de comprar um carro novo à vista no final da temporada eleitoral. A verdade é que trabalha-se intensamente nos períodos eleitorais.
    Nos comitês de campanha, porém, a verdade é que ninguém pergunta de onde veio o dinheiro. O acerto de contas fica para depois e “seja o que Deus quiser”…e o Diabo sugerir, pois dinheiro de campanha escoa pelo ralo. Acumulam-se dívidas.
    Nesse aspecto e nesse sentido, o relatório do ministro Herman Benjamin ao egrégio, colendo e superior tribunal eleitoral é uma peça histórica que haverá de expor eternamente as ambiguidades e contradições do Judiciário brasileiro.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “O governo mudou, mas eu não mudo. Fico com o governo”
    Manuel Inacio, coronel do sertão pernambucano (in Faoro, Raymundo, “Os Donos do Poder”
     

  • Grande audiência do senador Paim na TV Senado

    Geraldo Hasse
    Em contraposição à atuação dos outros dois senadores gaúchos, ambos atrelados ao status quo golpista,  o senador Paulo Paim (PT) está em campanha aberta e franca contra as reformas previdenciária e trabalhista, usando para isso o espaço livre nas manhãs da TV Senado. “Nossa audiência se aproxima de 3 milhões de pessoas”, disse ele, dias atrás, num comentário en passant.
    Com o apoio da senadora Regina Silva, presidente da comissão de direitos humanos e legislação participativa, ele vem comandando sessões matutinas de uma audiência pública sobre o impacto da reforma trabalhista na vida do trabalhador rural. Nesta segunda-feira (5), Paim mandou passar no telão da CDH uma apresentação do cantor nativista Dante Ledesma, que defendia a previdência para o homem do campo. A canção foi aplaudida pelo público presente à audiência.
    Raramente se vê em qualquer TV pública e privada um desfile de depoentes tão pertinentes e qualificados. São representantes de entidades como a Contag e a Via Campesina, Unafisco e Comissão de Justiça, Caridade e Paz da CNBB, entre outras, todas reclamando do caráter maligno dos projetos governamentais de reforma da legislação trabalhista e do sistema previdenciário.
    O trabalho de Paim na CDH do Senado é um thriller do que pode rolar na CPI da Previdência recém-aprovada pelo Congresso. Se forem chamados à CPI alguns dos depoentes que vêm falando nas manhãs da TV Senado, certamente ficará demonstrada “a farsa das reformas”, como as denomina o senador gaúcho.

  • Um programa para equalizar o bem-estar

     Geraldo Hasse

    O ministro Henrique Meirelles do Mercado tem afirmado que a economia brasileira está começando a arribar… e não faltam empresários, executivos e comentaristas para dizer que é isso mesmo, e que ninguém ouse interpor-se ao bom andamento das reformas reacionárias…
    Convenhamos, o dado positivo apontado pelos otimistas é a inflação reduzida a 4% ao ano. É um sucesso, sem dúvida, mas os animadores de auditório esquecem que os preços deixam naturalmente de subir e até caem quando a maioria está com os cintos apertados por falta de dinheiro.
    A demanda está reprimida porque as pessoas estão ganhando menos. E há o desemprego…
    É uma ilusão achar que a economia vai sair do buraco com 14 milhões de desempregados nas costas.
    Em cinco anos esse número cresceu nove milhões. Na média, foram quase dois milhões de demissões por ano. Cerca de 150 mil desempregados por mês. Uma calamidade.
    Se somarmos todos os desempregados, considerando solteiros e casados e calculando uma média de três dependentes por cabeça cortada, temos aí mais de 40 milhões de pessoas na rua da amargura.
    Não era de 40 milhões o número de pessoas elevadas ao mercado de consumo pelos governos petistas? Pois então: em resumo, as conquistas sociais recentes foram praticamente anuladas pelo processo de recessão, iniciado no governo Dilma e agravado pelo governo Temer, que está gastando seus últimos cartuchos para obter do Congresso a aprovação dos retrocessos nas leis trabalhistas e da Previdência. Mais do que uma calamidade, é uma catástrofe lamentável.
    Com essas reformas, a economia não vai arribar. Pode ter um refresco aqui ou ali, como ocorre no setor agrícola, mas a corrente está se rompendo nos elos mais fracos — o trabalho, o consumo elementar…
    É natural que os indicadores econômicos de 2017 sejam melhores do que os de 2016, pois estes estavam no fundo do poço. E a melhora registrada no desempenho econômico foi de apenas 1%.
    Isso aí é como achar que está indo bem na segunda divisão aquele time que acaba de cair da primeira divisão.
    Já que adotamos uma metáfora futebolística, o fato é esse: o Brasil, que pretendia ser do I Mundo, caiu do II para o III. E quer voltar ao topo jogando segundo a tática superada do neoliberalismo, que se orienta por parâmetros excludentes e só aumentou as desigualdades onde foi adotado.
    O Brasil nunca será da primeira divisão da economia mundial se continuar anulando ou reduzindo conquistas sociais da maioria trabalhadora.
    Agora, a crise do capitalismo pode ser amenizada ou até dirimida por meio de um programa de equalização do bem-estar.
    O que vem a ser isso — equalizar o bem-estar?
    Ora, comida na mesa de todos, moradia decente para cada família, transporte barato, energia a preços módicos, saúde, escola, roupa, lazer…
    Um programa comunista tocado pela iniciativa privada, eis a chave do progresso.
    A construção civil se mobilizaria para construir casas, escolas, postos de saúde, estradas.
    Comendo bem, morando legal, a população trabalharia mais feliz e demandaria menos remédios, recorreria menos a postos de saúde e hospitais e laboratórios. E como é muito grande a distância entre os integrantes do topo e da base da pirâmide social, seria preciso manter esse programa de governo por décadas e décadas até a equalização desejada por todos e prometida pelos políticos.
  • Bóias-frias

    Geraldo Hasse

    Pela vontade da maioria da Câmara dos Deputados, que aprovou a toque de caixa a reforma da legislação trabalhista, a maioria dos trabalhadores brasileiros será bóia-fria – menos, claro, os senhores deputados, os senhores de engenho e os empreendedores bem representados pelo prefeito paulistano João Dória, a mais recente piada da cidade que inventou Paulo Maluf e Janio Quadros.

    Não se compreende como um governo, um partido e um congresso queiram ferrar o povo desta maneira.
    Ainda bem que a reforma está em discussão no Senado, onde há menos pressa e mais resistência ao projeto que mexe em mais de 200 itens da legislação trabalhista.
    Audiências públicas estão sendo realizadas no Senado para discutir o assunto.
    Na terceira audiência, o advogado Jorge Souto Jr., que leciona na USP, disse que o projeto é antidemocrático e antisocial, pois atenta contra os interesses da maioria.
    A palavra reforma, que sempre teve uma conotação de mudança para melhor, está sendo aplicada a um retrocesso.
    A lei vai valer menos do que um acordo entre empregados e patrões.
    A Justiça do Trabalho será um arquivo morto.
    Qualquer empresário poderá achincalhar os juízes trabalhistas e os fiscais das DRTs.
    Esculhambação geral. Terra arrasada. Mas não nos enganemos: os parlamentares são apenas instrumentos daqueles que os financiam.
    Os empresários são os maiores interessados na derrubada da legislação protetora da parte mais fraca da relação de trabalho. No fundo, as reformas serão ruins para os empregadores, pois tenderão a desorganizar a economia ao gerar um clima de vale-tudo nas relações entre patrões e empregados. Quem viver, verá.
    Combinada à reforma da Previdência, a reforma trabalhista é um prenúncio do caos social.
  • Os 60 anos das abelhas africanizadas

    Passou em branco o aniversário de batismo das abelhas africanizadas, “criadas” há 60 anos pelo agrônomo paulista Warwick Kerr. Nascido em 1922 em Santana do Parnaíba, pequena e velha cidade às margens do rio Tietê, perto de São Paulo, o cientista havia sido autorizado em 1956 pelo Ministério da Agricultura a importar da África uma centena de abelhas-rainha da espécie Apis mellifera scutellata.
    A pesquisa sobre a possibilidade de miscigenação com as abelhas criadas no Brasil tinha por base o horto florestal de Rio Claro, onde a Cia Paulista de Estradas de Ferro mantinha desde 1915 uma portentosa plantação de eucaliptos. Num fim de semana de abril de 1957, algumas abelhas-rainha escaparam do espaço onde estavam confinadas.
    Tudo não teria passado de um episódio curioso se as africanas livres não tivessem se revelado muito mais agressivas do que as abelhas europeias (Apis mellifera mellifera) trazidas ao país pelos imigrantes alemães no século XIX.
    Foi um terror. As abelhas africanas picaram animais e pessoas, provocando algumas mortes. A imprensa as chamou de “assassinas”. Warwick Kerr foi responsabilizado pelo acidente, nunca devidamente esclarecido. As abelhas não teriam escapado e, sim, ganho a liberdade, já que dentro do espaço da pesquisa pareciam normais.
    Na realidade, Kerr estava encantado com as africanas, pois elas eram mais sadias e produtivas do que as abelhas europeias, que adoeciam facilmente e produziam bem menos.
    Na natureza, revelou-se o fato promissor: as africanas cruzaram com as europeias, gerando um híbrido mais produtivo e mais resistente à varroa, a principal doença da Apis mellifera mellifera. Além disso, o cruzamento genético permitiu o desenvolvimento de um híbrido mais manso do que as agressivas africanas.
    O resultado genético apareceu logo, pois as abelhas vivem apenas 45 dias. Em apenas dois ou três anos, a apicultura brasileira estava renovada.
    A progressão geográfica da nova espécie também foi rápida. Já nos anos 1960, as abelhas africanizadas estavam chegando a Misiones, na Argentina. Nos anos 1980, estavam em toda a América Latina. Em 1990, com a chegada à Florida e à Califórnia, o governo americano mandou armar barreiras que se revelaram inúteis. Nesse ano, Kerr foi o primeiro brasileiro a ser acolhido pela Academia de Ciências dos Estados Unidos.
    As abelhas africanizadas se tornaram uma espécie de troféu vivo de Kerr, que também estudou profundamente as abelhas nativas, como a jataí e a mandaçaia. Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência de 1969 a 1973, ele lecionou e pesquisou nos Estados Unidos, em Rio Claro, Ribeirão Preto, Manaus, São Luiz do Maranhão e Uberlândia, onde deu aulas até 2012. Em 2016, todo seu material pessoal de pesquisa foi doado à biblioteca da Universidade Federal de Uberlândia.

  • Feira orgânica da Auxiliadora completou um ano de sucesso

    A feira orgânica do bairro Auxiliadora completou um ano em abril. Funciona nas manhãs de terça-feira na Passagem Lanceiros Negros, que liga as ruas Coronel Bordini e Mata Bacelar. Em apenas um quarteirão, reúne 16 bancas que vendem frutas, legumes, verduras, tubérculos, flores, sucos, molhos, mel e pães. Os feirantes vêm da região metropolitana, do litoral e a Serra. Alguns participam de outras feiras (ver a lista abaixo).
    Há bancas que às 10 horas da manhã ficam sem mercadoria. É o caso do produtor de ovos Luiz Ernesto Dable, estabelecido no Sítio Querência em Itapuã, município de Viamão. A partir daquele horário, ele se limita a anotar os pedidos da semana seguinte, mas só desarma a banca no horário determinado para todos, uma da tarde.
    Os produtores-feirantes praticam preços pouco acima dos supermercados vizinhos. O público, 80%  mulheres, parece satisfeito. Como a passagem é exclusiva para pedestres e possui uma longa bancada para descanso, a feira semanal está se tornando também um ponto de encontro de moradores dos bairros Auxiliadora, Floresta e Moinhos.
    Segundo José Carlos Winck, agricultor que vem de Santa Rita, onde possui área em assentamento da reforma agrária, inicialmente o desejo dos feirantes era fazer a feira aos sábados, mas nesse dia, um ano atrás, a Passagem dos Lanceiros Negros estava reservada para uma feira de brechó que deixou de ser realizada por falta de público, especialmente no verão, quando parte da população do bairro vai para o litoral.
     
    FEIRAS ORGÂNICAS DE PORTO ALEGRE
    Terça-feira:
    AUXILIADORA – das 7 às 13h
    Travessa Lanceiros Negros (passagem de pedestres entre as ruas Mata Bacelar e a Coronel Bordini)

    Quarta – feira:

    MENINO DEUS – das 13 às 19h
    Avenida. Getúlio Vargas (no pátio da Secretaria Estadual da Agricultura)
    PETRÓPOLIS – das 13 às 18h
    Rua General Tibúrcio, parte lateral da praça Ruy Teixeira.
    Sábado:
    BOM FIM – das 7 às 13h
    Avenida  José Bonifácio , 675
    MENINO DEUS – 7 às 12h30
    Avenida. Getúlio Vargas (no pátio da Secretaria Estadual da Agricultura)
    PETRÓPOLIS – das 7 às 13 horas
    Rua Rômulo Telles Pessoa, ao lado da praça André Forster
    TRISTEZA – das 7 às 12h30
    Avenida Otto Niemeyer esquina com a anenida Wenceslau Escobar
    TRÊS FIGUEIRAS – das 8 às 13h
    Rua Cel. Armando Assis, ao lado da praça Desembargador La Hire Guerra
     

  • Comitesinos acompanha elaboração do zoneamento ecológico do Estado

    O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos, com sede em São Leopoldo, teve casa cheia na quinta-feira (11) à tarde para saber a quantas anda o projeto do Zoneamento Ecológico e Econômico (ZEE-RS) que está sendo montado pela Secretaria de Estado do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável.
    Presente do início ao fim do evento que durou quase três horas, a secretária Ana Pellini fez várias intervenções para esclarecer detalhes da apresentação em power point feita por técnicos do consórcio Codex, contratado para executar o trabalho, que se articula nacionalmente com o de outros estados.
    A apresentação do estágio atual do ZEE-RS foi uma prévia requerida pelo Comitesinos, o mais antigo do país, criado em 1988. Dado o silêncio da SEMA, temia-se que estivesse sendo preparado um prato feito sem possibilidade de contradição.
    Ao constatar que o trabalho ainda está longe do fim — o prazo para conclusão acaba em junho de 2018 –, a secretária executiva do comitê, arquiteta Viviane Nabinger, limitou-se a recomendar que o zoneamento tenha como referência básica as bacias hidrográficas. O presidente do comitê, Afonso Klein, também fez questão de marcar a posição da instituição responsável pela bacia do Sinos.
    Preocupada em provar que o ZEE é técnico e não tem nada a ver com a extinção de instituições ambientais como a Fundação Zoobotânica e a Fepagro, a SEMA programou para a próxima quarta-feira (17) no auditório Dante Barone, na Assembleia Legislativa, um seminário mais amplo sobre o projeto, que está um pouco atrasado em relação ao cronograma inicial.
    O seminário, que vai se estender por todo o dia, será aberto por Ana Pellini e Edegar Pretto, presidente da ALERGS.

    Sala lotada para acompanhar o zoneamento ecológico econômico / Foto Castor Becker Junior/Comitesinos