Geraldo Hasse
Não chegou a lotar o Auditório Araújo Vianna, mas foi um baita show para mais de 2.800 almas sequiosas por festejar o mito da “estirpe do gaúcho, forjado pela mescla de castelhanos, índios, portugueses e demais imigrantes”, conforme a síntese do apresentador Doroteo Fagundes de Abreu, sinuelo do 3º Encontro dos Músicos Gaúchos.
Produzido pelo “maluco beleza” Airton (Patinete) dos Anjos, a festa começou com a gaita de Renato Borghetti completamente abafada pelo volume de som da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e terminou com a dupla passofundense Osvaldir e Carlos Magrão cantando Querência Amada, o hino informal gaúcho composto por Teixeirinha.
Foram 16 canções populares ornamentadas com belos arranjos de componentes da OSPA, que está completando 65 anos e vive um momento ecumênico sob a regência do maestro Tiago Flores, adepto assumido da “mistura de timbres” visando diluir fronteiras entre as músicas popular e erudita. “A maioria das pessoas gosta de quebrar barreiras”, disse ele em depoimento ao programa Cantos do Sul da Terra, da Rádio FM Cultura de Porto Alegre.
Foi um grande programa que à primeira vista deveria promover uma romaria ao Parque da Redenção.
No entanto, nem a OSPA, nem os ingressos a R$ 30, nem o tempo ameno e nem algumas das maiores estrelas da canção gaudéria conseguiram lotar os 3200 lugares do auditório.
Pode-se atribuir as lacunas à crise econômica ou ao dia impróprio (terça-feira, fim de mês), mas foi uma noite memorável tanto pelo brilho coletivo da orquestra quanto pela aparição fugaz de grandes artistas sem direito a bis.
Bem que, na reta final do espetáculo, o público tentou segurar no palco o argentino Dante Ramon Ledesma, mas ele foi levado embora para não quebrar a norma do espetáculo.
O que teria acontecido se o bardo da canção de protesto da época das ditaduras do Cone Sul começasse a entoar uma cantiga “orellana?” Um revival nativista? Novembro, tempo de tosquia…
Não havia lugar para improvisos no programa, recheado por um repertório conservador, mas enriquecido por arranjos ricos em cordas.
No departamento das pilchas, o elenco da OSPA estava no traje civil convencional, todos enfatiotados, em preto. O elenco pop – todo pilchado, com bombacha, botas, chapéu, boina, pala e lenços no pescoço.

Confessando “a realização de um sonho: cantar com uma orquestra”, o cantor Delcio Tavares apareceu de botas pretas, calça branca e túnica militar azul, como um guerreiro do século XIX.
Na plateia, muita gente com os apetrechos do chimarrão.
No geral, prevaleceu um time de cantores-galo que colheram aplausos ardentes do público, enquanto o som de instrumentistas individuais sumia debaixo da alta voltagem colocada no ar pelos técnicos de som.
Pode-se argumentar que o público está viciado na sonzeira vigente em casas de show sob a ditadura da oversonoplastia, mas a acústica do Araújo Vianna dispensaria tamanho exagero. O casamento do clássico com o pop foi lesado pelo mau emprego da tecnologia.
A rigor, os gargantas de ouro João de Almeida Neto e Joca Martins nem precisariam de microfone para cantar em dueto a canção Definição do Grito, de Gildo de Freitas.
O mesmo se poderia dizer de Ernesto Fagundes e Neto Fagundes na versão de Última Lembrança, de Luiz Menezes.
O excelente Luiz Carlos Borges foi visivelmente massacrado pela carga voltaica ao cantar o pungente Vidro dos Olhos, de Aparício da Silva Rillo.
Um Tambo do Bando grisalho lutou bravamente contra as caixas de som para cantar o clássico Os Homens de Preto, de Paulo Ruschel.
Também pouco se ouviu do violão de Daniel Sá, que acompanhou Renato Borghetti e fez fundo para a suave apresentação de Berê (“A colina do meu ventre se fez montanha”), o único solo feminino da noite.
Sem gritar, só no gogó, Luiz Marenco deu-se bem ao cantar Saudade, Tempo e Distância, de Jayme Caetano Braun (“Quem vira mundo não pára, nem tampouco desanima”).
Sem dúvida, o público presente ao Araújo Vianna estava a fim de ouvir os donos dos vozeirões.
Os aplausos cresceram após a apresentação d’Os Serranos, que apresentaram Poncho Molhado, de José Hilário Retamozzo. Mas o conjunto mais aplaudido (de pé) foi o informal Trio Corpo Provisório formado pelo gaúcho Elton Saldanha, o uruguaio Daniel Torres e o argentino Dante Ramon Ledesma, que se apresentaram em companhia de duas “prendas” cantando Castelhana.
Na única piada da noite, o argentino, que se recupera de um AVC, acomodou-se numa banqueta, sorriu e saudou o público: “O Dante acaba de chegar, o Ramon vem daqui a pouco e o Ledesma…de madrugada”.
“No brete de saída desta gineteada musical”, o vaqueano Doroteo Fagundes de Abreu anunciou a dupla Osvaldir e Magrão para cantar Querência Amada, “de Vitor Mateus Teixeira”.
Ao final, a plateia levantou para aplaudir. Quando todos os músicos emergiram dos bastidores para o palco, Ernesto Fagundes puxou o coro Eu Sou Gaúcho, mas o público reagiu cantando o Hino Riograndense, sem acompanhamento.
De repente, uma parte da plateia puxou novamente Querência Amada, cuja melodia acabou se impondo na voz de todos.
O maestro Tiago Flores levantou os braços, pediu silêncio e convidou todos a cantar Querência Amada com a orquestra.
Aos 30 anos de sua morte (em 4 de dezembro de 1985), Vitor Mateus Teixeira, o Teixeirinha, foi o grande destaque no 3º Encontro dos Músicos Gaúchos, mas pode haver revanche no quarto encontro, anunciado para 2016.
Sem esquecer que, no dia 12 de dezembro, no CTG Jayme Caetano Braun, em Livramento, vai acontecer um Reencontro de alguns tauras da canção gaudéria, entre eles o gaiteiro Nelson Cardoso, na flor dos seus 73 anos.
Noite de Teixeirinha no Auditório Araújo Vianna
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Comentários
Uma resposta para “Noite de Teixeirinha no Auditório Araújo Vianna”
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Quem é você? Foi um show aplaudido de pé por mais de 2000 pessoas. Não precisa elogiar mas, não vale denegrir deste jeito. Foi um belíssimo espetáculo.

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