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  • Livro sobre candomblé é lançado no Bom Fim


    Ababadiba e Abiaxé abriram o lançamento do livro na Palavraria (Fotos: Carla Ruas/Jornal Já)

    Carla Ruas

    A Organização de Mulheres Negras Maria Mulher promoveu quarta-feira, no Bom Fim, o lançamento do livro O Caminho das Matriarcas, de autoria de Maria do Rosário Carvalho dos Santos. A obra é composta por relatos de quatro mulheres negras, as maiores autoridades dos terreiros de São Luiz, no Maranhão. Através do diálogo com estas Mães de Santo, a autora aborda temas como racismo, escravismo, valores espirituais e sistemas de pensamentos africanos.

    O evento, que ocorreu na Livraria Palavraria, contou com a presença de representantes de ONGs, e interessados no Candomblé. A noite começou com uma saudação a Exu, com um canto realizado por Ababadiba e Abiaxé. Logo, a historiadora e diretora do Instituto Kuanza, Cidinha da Silva, falou sobre a importância desta publicação para promover o conhecimento de uma religião de matriz negra.


    A historiadora Cidinha da Silva falou sobre a importância de manter viva a cultura negra

    “As entrevistadas do livro são as mulheres que iniciaram os cultos na casas de tambor de mina e de nagô, específicas do Maranhão”, conta Cidinha. Os 50 anos de prática no Candomblé as levam a ter um conhecimento profundo, raramente divulgado para quem não é iniciado. “O livro aborda aspectos pouco conhecidos, como a prática religiosa, a vida social e a sabedoria popular”, afirma.

    Para ela, outro mérito desta obra está na autora, uma pesquisadora negra, que realizou as pesquisas entre 1973 e 1998. “Maria do Rosário merece ter um reconhecimento pelo seu trabalho de pesquisa. Ela foi a primeira pesquisadora recebida pelas Mães de Santo desde a década de 70”, relata.

    A autora, hoje com 70 anos, está doente, e por isso não pôde comparecer ao lançamento. “Mas nós vamos para São Luiz em janeiro, para divulgar o livro com uma grande festa”, garante Cidinha.

    A publicação só foi possível graças ao projeto Imprensa Social, uma parceria de várias ONGs com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Entre as organizações que participam, estão: o Instituto Kuanza, a Ação Educativa, a 5 elementos e o CENPEC. O objetivo do projeto é divulgar temas e autores que tenham trabalhos importantes sobre os Movimentos Sociais do país.

    A organização Maria Mulher foi a responsável por trazer este lançamento para Porto Alegre. “Nós temos como missão divulgar a cultura africana e a história das mulheres negras, construtoras da história do Brasil”, afirma Maria Conceição Lopes Fontoura, uma das diretoras do grupo. Ela conta que o Maria Mulher realiza parceria com várias ONGs que tratam desta temática. Nesta ocasião, o encontro é ainda mais especial, já que a organização será destaque da oitava edição do Prêmio Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, no dia 10.

    Maria Conceição lembra, ainda, que o livro se enquadra na Lei 10.639/03, que obriga o ensino da história da África e cultura afro-brasileira nos currículos escolares. “Ele pode ser bem utilizado neste sentido, para disseminar a cultura dos negros, que são maioria no país”.

  • Quilombo Silva passa a ser área de interesse cultural

    O vereador Calos Comassetto (PT), autor do projeto, com representantes do movimento negro (Divulgação/JÁ)

    Helen Lopes

    A vice-presidente da Associação Comunitária Remanescente do Quilombo Família Silva, Rita de Cássia da Silva, comemora a aprovação nesta quinta-feira (8/12) do projeto que institui o Quilombo Silva, no bairro Três Figueiras, como área de interesse cultural na Câmara de Vereadores.  Ela explica que agora será  possível ao Município dotar a área de infra-estrutura proporcionando à comunidade redes de água, esgoto e energia elétrica. “Além da melhoria das condições de vida, significa a continuidade da cultura negra”, disse ela. A área reconhecida tem 6.500 mil metros quadrados.

    O Quilombo Silva está localizado no bairro Três Figueiras, entre as ruas João Caetano, Portulaca, Ewaldo Campos, Lobélia e a Avenida Luiz Manoel Gonzaga. Como o local tem o metro quadrado mais caro da Capital, os quilombolas alegam que há pressão econômica e política para o não reconhecimento da área. O membro do Movimento Negro Unificado e advogado, Onir de Araújo, explica que “do ponto de vista jurídico não há nenhum impedimento”. “È  uma questão política”, completa ele.

    Araújo mostra os pareceres favoráveis do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) – que foi publicado em junho no Diário Oficial delimitando a área – e diz que os quilombolas têm também o referendo da Associação Brasileira de Antropologia, que legitima a origem da família Silva na área.  Atualmente, 12 famílias, o que representa cerca de 50 pessoas, residem no local. Remanescentes da família Silva, eles vivem lá há 64 anos.

    A comunidade está ameaçada por uma ação de despejo movida por supostos proprietários da terra. Araújo afirma que nunca houve interesse pela área e aposta em especulação imobiliária e preconceito. No entanto, os supostos proprietários apresentaram um parecer do historiador Sergio Costa Franco validando a propriedade à eles.

    O vereador Calos Comassetto (PT), autor do projeto, argumenta que é uma disputa de propriedade. Ele diz que o laudo dos supostos proprietários é viciado, pois foi feito por encomenda, já os pareceres do Incra têm legitimidade por ser um órgão federal. O vereador explica ainda que se aprovado, o projeto retira o valor comercial da área, impossibilitando a especulação imobiliária.

    A criação de áreas de interesses culturais já está regulamentada na Lei Municipal. Estabelece os bens tangíveis (território) e os intangíveis (valor culturais das etnias). Mesmo assim, nenhum quilombo foi “gravado” – isto é delimitada a área efetiva da comunidade. Com a aprovação da Câmara, o Quilombo Silva é o primeiro quilombo urbano do País.

  • Especialistas apresentam posições divergentes sobre incineração

    Incineração de lixo é condenada pela maioria (Foto Aline Gonçalves/PMPA/JÁ)

    Patrícia Benvenuti
    O 1º Simpósio Brasileiro de Incineração, que se realiza em Porto Alegre até quarta-feira (7/12), trouxe, já em seu primeiro dia (05/12), uma série de polêmicas a respeito do processo. As formas de se lidar com a poluição e as novas tecnologias empregadas em tais processos foram temas centrais dos painéis.
    “A poluição ambiental atmosférica pode ser considerada a menos conhecida das pessoas”, afirmou o professor e engenheiro agrônomo da UFRGS, Darci Campani. Ele acredita que os poluentes da água e do solo lideram as pesquisas dos especialistas. Em contrapartida, sobre o ar não se tem o mesmo conhecimento, o que gera a necessidade de discussões.
    Campani adotou um discurso filosófico, em sua própria definição, para resumir os malefícios da incineração. Ele explica que o ciclo do carbono é um sistema fechado, diferente da radiação solar, que permite troca de massa e energia com outros sistemas. “O princípio da vida, pois, é o ciclo de carbono, que faz com que os átomos permaneçam unidos e dêem forma às coisas. Largando essas partículas na atmosfera por meio dos incineradores, estamos quebrando esse ciclo. O resultado é o efeito estufa e o aquecimento global, que acabam com qualquer chance de sustentabilidade.”
    Perigos da incineração para a saúde
    O geneticista Flávio Lewgoy, por sua vez, apresentou dados da ecogenética – ciência que trata da predisposição genética aos fármacos, alimentos e agentes ambientais em geral – para mostrar os perigos da incineração sobre a saúde. “Meio ambiente e saúde pública estão interligados, e a escolha das tecnologias interfere na vida das pessoas e causa custos sociais”, salienta o médico, que também é sócio fundador da Agapan (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural).
    A relação entre os fatores foi demonstrada por meio de um dos princípios da ecogenética, a fragilidade . “A grosso modo, existem três tipos de pessoas: as geneticamente suscetíveis, as normais e as congenitamente resistentes”, explica. Os suscetíveis abrangem os idosos, as crianças e os que nascem com problemas respiratórios, cardíacos ou circulatórios, na maior parte das vezes, correspondendo a cerca de 15% da população.
    Já os normais equivalem a uma média de 85%, e ganham o nome simplesmente por estarem entre o grupo anterior e o próximo, o dos congenitamente resistentes – aproximadamente 0,17% –, que têm uma estrutura genética mais forte. “O panorama mostra que, quando uma tecnologia é implantada, os seres humanos reagem de forma diferente às influências. Quem está no grupo de risco , por exemplo, sofre mais com os resultados da poluição”, observa. Nesse chamado grupo de risco , o especialista coloca também as camadas mais pobres, que vivem em condições precárias de habitação e saneamento.
    Lewgoy afirma conhecer os novos métodos empregados nos incineradores e destaca que são justamente esses recursos que tornam os equipamentos modernos ainda mais prejudiciais. “Os incineradores atuais transformam os resíduos em grãos de uma dimensão minúscula, praticamente os abate. Isso facilita a inalação dessas partículas”, esclarece. Uma vez dentro do corpo humano, podem atingir os pulmões, o coração e outros órgãos vitais.
    Nos últimos 50 anos, mais de 800 mil produtos químicos entraram no mercado, e cerca de mil são adicionados a cada ano. “Essas estatísticas se referem aos Estados Unidos, mas sabemos que logo eles chegam ao Brasil”, salientou o ambientalista. O assombroso número demonstra, segundo ele, a quantidade de produtos químicos que circulam no ambiente hoje, pondo em risco a saúde pública. “A incineração faz com que substâncias tóxicas sejam levadas para a atmosfera em um primeiro momento e depois para os próprios alimentos que consumimos”, completa.
    Consumismo na raiz dos problemas
    A posição de Lewgoy foi reiterada pelo químico e diretor-presidente da ACPO (Associação de Combate aos Poluentes), Márcio Mariano. “Se formos a um lixão, teremos a convicção de que não sabemos bem o que entra em um incinerador, quanto mais o que pode sair dele”, destaca. De acordo com o palestrante, no interior das máquinas os elementos químicos recombinam-se, podendo dar origem até mesmo a ácidos corrosivos e dioxinas – formadas pela combinação de moléculas de cloro e matéria orgânica em altas temperaturas. “Muitos têm a certeza do resultado desse processo de combustão, mas é impossível prever-, assegura.”
    O químico enumerou uma série de efeitos nocivos da queima de combustíveis fósseis, como a dispersão de metais pesados, a formação de compostos oxidados, a recombinação de hidrocarbonetos, a emissão de particulados impregnados e cloretos que podem favorecer a formação de organoclorados, compostos que se caracterizam por persistência ambiental, bioacumulação e alta toxicidade. Somente as dioxinas são responsáveis por tumores, redução da fertilidade e transtornos hormonais.
    Um dado preocupante, ressalta, é a conscientização da Europa sobre os impactos da incineração. Embora pareça não haver razão para o temor, o técnico considera possível que o Brasil se torne um importador de lixo para ser destruído . “O país, aliás, está se tornando um quebrador de protocolos internacionais”, em uma alusão ao Tratado de Kyoto, que prevê a redução das emissões de carbono na atmosfera.
    A solução mais racional nesse momento, segundo Mariano, seria a redução dos resíduos e um novo padrão de consumo. “O mundo não suporta mais a quantidade de lixo produzida e o consumismo atual. Precisamos pensar em outras formas de combate a esse problema, como a reciclagem. A incineração só agrava os problemas”, conclui.
    Professor apresenta outra visão
    Contrariando todos os argumentos até então expostos, o engenheiro químico e professor da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro Abraham Zakon fez questão de mostrar os aspectos positivos da incineração. Baseado em estudos da instituição carioca, o especialista destacou que o grande obstáculo a ser superado hoje é o preconceito relativo ao processo de termodestruição, expressão utilizada para esse tipo de combustão. “Se fosse pela poluição, todas as fábricas, até mesmo as pizzarias que tivessem uma chaminé seriam fechadas”, alega.
    A segurança da termodestruição, conforme o professor, é viabilizada por meio dos atuais recursos da engenharia química, as chamadas novas tecnologias . Os resíduos industriais e hospitalares – os mais perigosos – seriam incinerados de forma adequada, tomando-se o cuidado necessário.
    Boa parte de sua explanação resumiu-se a mostrar as deficiências dos lixões e aterros sanitários como destino final do lixo, bem como a dificuldade de manter um aterro com as normas estabelecidas – existência de células para resíduos e monitoramentos ambiental, topográfico e geotécnico. Além desses requisitos, também há risco para os materiais que formam as camadas de disposição, frágeis demais na visão do especialista para evitar a contaminação do meio ambiente. A maior restrição, contudo, encontra-se na demanda por grandes áreas operacionais, que acabam gerando um alto custo econômico.
    Ao contrário dos palestrantes anteriores, Zakon declarou que o CO2 e as cinzas são passíveis de aproveitamento industrial, e que produtos preocupantes como o enxofre, proveniente das queimas, podem ser tratados para diminuir seus malefícios à atmosfera. Entre outros pontos defendidos estão a geração de energia elétrica – termoeletricidade – e a produção de cerâmica a partir de cinzas, hipótese comprovada pela UFRJ.
    O professor ainda destacou a incineração como forma de eliminar seres vivos patogênicos e evitar a propagação de doenças. Acrescentou que os aterros e lixões sofrem combustão e oxidação espontânea, liberando CH4 e CO2, e as usinas de compostagem, embora bem recebidas pela sociedade, causam odores desagradáveis. “Estou convicto de que a incineração polui menos e é uma excelente alternativa, mas precisamos acabar com os preconceitos que a cercam”, finaliza.

  • A Bienal do Asfalto ocupa o Brique da Redenção


    A obra de Magaça Brandão tem como conceito as possíveis sensações causadas pelo desamparo
    (Fotos: Carla Ruas/Já)

    Carla Ruas

    A Bienal também está no Brique da Redenção. Neste final-de-semana, encerrou o projeto “Bienal do Asfalto”, que promoveu a exposição de obras de arte contemporânea no corredor do Brique. A organização foi do setor Arte na Praça, composto por expositores de arte da feira, em conjunto com a Secretaria Municipal da Indústria e Comércio.

    As obras foram compostas por 13 artistas da Redenção e quatro convidados, inclusive um de Santa Catarina. “A idéia era que cada um dos artistas montasse uma obra de arte contemporânea, para fazer um paralelo com a Bienal”, conta Tina Felice, da comissão organizadora. “Era a nossa grande brincadeira, e acabou sendo um sucesso”, comemora.

    A Prefeitura de Porto Alegre apoiou o projeto. Idenir Cecchim, secretário da SMIC, lembra do valor que o local tem para os porto-alegrenses. “O Brique é muito rico e único no contexto da cidade. A proposta de integrá-lo à Bienal é oportuna e engrandece a cultura local”, afirma.  Tina conta ainda que esta é uma tentativa de ocupar o espaço central da feira para promover a arte: “Queremos ocupar a avenida de uma maneira mais efetiva”. Para ela, muitos músicos e outros artistas ocupam o espaço, tirando a atenção dos visitantes para as artes plásticas expostas naquela parte da feira.
    Zupo, que trabalha no Brique há 14 anos, diz que a exposição também tem a finalidade de sensibilizar o grande público para a arte. “Muitos não freqüentam museus e não têm a possibilidade de ver obras de arte”. Ele é autor do Ocamóvel, projeto que surpreendeu os observadores. “O fato deles se questionarem significa que mexeu com os sentidos”, conta.

    Ele expressa o valor das artes, uma das manifestações que mais mobiliza os cinco sentidos do ser humano: “Sem comida, uma pessoa vive dez dias. Sem respirar, 3 minutos. Mas sem os seus sentidos, está morta”, conclui.

    Esta foi a primeira edição do evento, e teve a participação dos expositores: Ana Diniz, Magaça Brandão, Mano Alvim, Juan Corvalan e Zupo, entre outros. As obras já tinham sido expostas nos dias 24 e 25 de novembro.

  • Comunidade quer a Descentralização da Cultura


    A 6ª edição da conferência teve como tema Cultura, Educação e Desenvolvimento (Fotos: Carla Ruas/Já)

    Carla Ruas

    Durante a 6ª Conferência Municipal da Cultura, realizada na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, os participantes pediram mais ênfase na descentralização de eventos culturais. Este foi o tema predominante das reuniões, que têm como objetivo criar um canal de comunicação entre a sociedade e o poder público.
    Nos dias de conferência – sexta-feira (2/12) e sábado (3/12) -, representantes de entidades e bairros de Porto Alegre discutiram   e votaram propostas que serão encaminhadas à Secretaria Municipal da Cultura. “Neste ano, ficou marcada a vontade pela manutenção e ampliação do projeto da Prefeitura de descentralização, que ficou um pouco esquecido durante esta gestão”, afirma a presidente do Conselho Municipal de Cultura, Viviane Soares da Silva.

    Este projeto visa levar espetáculos, oficinas e apresentações culturais para os bairros da periferia da cidade. “A comunidade quer mais empenho neste sentido e que contemple um número maior de pessoas”, conta.
    Outra questão que ganhou força nesta conferência é a criação de centros regionais de cultura nas diversas regiões do Orçamento Participativo. Os locais serviriam como uma estrutura referencial para o desenvolvimento de atividades culturais. Viviane acredita que esta demanda cresceu na medida em que a comunidade tomou conhecimento do seu direito à cultura: “No inicio as igrejas e as praças serviam como espaços culturais, mas hoje os cidadãos exigem mais atenção do poder público para a cultura”.


    As propostas são votadas pela comunidade e encaminhadas à Prefeitura

    Vilma dos Santos é representante da Região Leste e presidente da Associação dos moradores da Vila Brasília (Asmobrás). Ela reafirma o desejo dos moradores desta área de terem um centro cultural: “A Zona Leste precisa de espaço para a prática de capoeira, música e teatro, e as associações não tem esta infra-estrutura”.
    As Conferências Municipais de Cultura ocorrem desde 1997, em caráter bienal, e são promovidas pelo Conselho Municipal de Cultura. Neste ano, o conselho também promoveu a votação e encaminhou propostas que serão levadas à Conferência Nacional de Cultura, que ocorre de 13 a 16 de dezembro em Brasília.

  • Bens Confiscados, um drama na praia de Cidreira

    Betty Faria e Werner Schünemann em Bens Confiscados (Foto: Divulgação/JÁ)

    Naira Hofmeister

    Um vento minuano soprou na noite de quarta-feira (30) em plena primavera de Porto Alegre, mas ao invés de afastar, agregou muita gente. Um vento que permeou muitas histórias, de amor, de cumplicidade, e, principalmente de prisões e alforrias. Na parede da sala de cinema, enfileiravam-se os cartazes, anunciando o mais recente longa metragem de Carlos Reichenbach: Bens Confiscados, filmado no outono na praia de Cidreira, no litoral gaúcho. Além da direção, Reichenbach assina também o argumento, roteirização (ao lado de Daniel Chaia) e produção, junto com Betty Faria e Sara Silveira.

    Centenas de nativos de Cidreira compareceram à sessão de pré-estréia, no Unibanco Arteplex, em Porto Alegre, para contemplar as belas imagens da praia gaúcha  onde se desenrola a trama principal. Teve até gente sentada nas escadarias, tamanha a lotação do cinema. “Senta no chão mesmo, gente! Só não deixem de prestigiar o cinema brasileiro”, agradecia, empolgada a produtora Sara Silveira.

    Bens Confiscados ganhou o prêmio de Melhor Filme de Ficção, no Cine PE – Festival do Audiovisual. O filme começa com o suicídio da renomada estilista Isabela Siqueira, testemunhado por seu filho de 16 anos, Luís Roberto. Isabela foi amante do senador Américo Baldani, que é pai de Luís. Seu gesto foi conseqüência da relação complicada com Américo, que mal conhece o filho, e das denúncias de tráfico de influência e corrupção feitas por Valquíria Baldani, esposa do senador, contra o marido. O escândalo vira assunto em toda a mídia. Paulo Hermes, assessor e braço direito do senador, leva Luís à força para o sul, para escondê-lo da imprensa e dos adversários políticos do senador, e sobretudo concretizar o sonho do senador, que é recuperar seu único filho varão, a despeito do ódio que este sente por ele.

    A sinopse do filme leva o espectador a imaginar uma história de poder e corrupção, mas a narrativa de Reichenbach traz elementos para muito além do Planalto Central do País e seu cotidiano. Todo o óbvio ficou de fora, Reichenbach levou para a tela, o obtuso, ou como ele mesmo classifica: “O filme não tem nada a ver com poder… mostra a situação do País visto da porta da cozinha”.

    A partir da personagem Serena (Betty Faria), o diretor traça um paralelo entre a política e a relação que ela pode ter na vida privada. Serena, enfermeira-chefe de um hospital público no Rio de Janeiro, é convencida por Paulo Hermes a ir para o Sul. Ela também foi amante do senador, numa relação nunca formalmente encerrada. Serena chega ao sul, e é levada até a cidade litorânea de Cidreira.

    Serena e Luis, em cenas outonais, acabam participando de realidades distintas das suas próprias, numa busca pelo encontro com seu destino. Uma bela historia de uma mulher independente, mas menos auto-suficente do que imagina. De um garoto que não teve possibilidade de escolher, se vendo obrigado a aceitar – não sem peleia – a vida que se impunha a ele. Um ambiente poético, digno de dramas existenciais, com atuações acima da média e bela fotografia.

    No elenco, além de Betty Faria, Werner Schünemann, Antônio Grassi, Eduardo Dusek, Renan Augusto e Marina Person. Música de Ivan Lins.

    Vale a dica do elenco:  venham ao cinema, de preferência nas primeiras semanas. “Cinema brasileiro, se não emplaca um público mínimo, logo sai da programação”, lembraram. A pré-estreia foi uma homenagem ao amigo “mitológico” de Reichenbach: Bira Valdez.

    Para Reichenbach, cinema tem que refletir a realidade (Foto: Naira Hofmeister/JÁ)

    O cinema social de Reichenbach

    O premiado realizador gaúcho Carlos Reichenbach,  com 21 filmes realizados, é tido com um dos poucos diretores autorais no Brasil. Faz cinema desde os anos 60, vivendo períodos bastante distintos da produção audiovisual nacional. Underground, Cinema Novo, Chanchada… Reichenbach transitou em muitas escolas e estilos. Em 1985 lança Filme Demência, que o consagra.

    Olhando o cinema brasileiro sob a perspectiva de quem sempre esteve à margem do mercado cultural, mas nunca perdeu seu espaço, Reichenbach fala com conhecimento de causa sobre a sétima arte: “Tem que parar com esse negócio de glamourizar o cinema. Não é um bom negócio, definitivamente”. Ele condena a oscarização do cinema nacional, a indústria da bilheteria e a imitação de novelas à que a produção brasileira têm se rendido ultimamente.

    “Esse cinema de novela das oito, não é cinema. É um arremedo. A gente tem um compromisso muito maior com certas coisas. Temos que fazer um tipo de cinema que reflita a realidade que estamos vivendo”, acredita. E exemplifica com um recente sucesso brasileiro nas telonas: “Estamos vendendo uma ilusão, pois cinema hoje é um mau negócio, é um péssimo negócio. Não dá… não se paga na bilheteria. Pode fazer 10 milhões de reais, como Carandiru, que não se pagou até hoje, nem vai se pagar”.

    O cinema comercial, segundo o diretor, feito para ganhar Oscar, tende a ser esquecido. “Cinema que faz história, permanece”. É essa via alternativa, de cunho social e realista, que aposta na linguagem, que ele acredita ser a direção a tomar. “Tem que entender que só há uma forma de resistir a isso, fazendo cultura de ponta. Tem que ter uma função social”, reflete.

  • Papai Noel chega fazendo Rapel


    Milhares de pessoas esperavam o bom velhinho no shopping
    (Fotos: Carla Ruas/Já)

    Carla Ruas

    Cerca de 15 mil pessoas assistiram, ontem, a chegada do Papai Noel no Shopping Total. A principal atração da noite foi a sua descida de rapel pela chaminé de 84 metros da antiga fábrica da Brahma. O evento que encantou a platéia, também contou com jogos de luzes e fogos de artifícios.

    O show de natal começou quando o velhinho chegou de helicóptero, e desceu escalando a torre, para o delírio do público. “Adorei o Papai Noel atlético”, comenta Lori Rosin. Para ela, a festa não era só para as crianças: “A gente tem o dia-a-dia tão tumultuado, que é bom dar uma animada como esta, de vez em quando”, afirma.

    O responsável pela alegria dos espectadores foi Ânderson Hubner, alpinista profissional, que se vestiu do personagem natalino para o evento. “O pessoal adorou mesmo esta novidade, e eu gostei de ser um Papai Noel alpinista”,  assegura ele, que cumpriu esta missão pela primeira vez.

    Após o rapel, Noel foi para um palco montado no estacionamento, onde assistiu a apresentação do Coral da Ulbra, cantando canções natalinas. De lá, foi escoltado para dentro do shopping, no meio de uma multidão.

    “A noite foi tranqüila, apesar de terem comparecido um número maior de pessoas do que era esperado”, diz Silvia Rechewsky, gerente de marketing do Shopping Total. Ela afirma que tinha uma ambulância e um carro de bombeiros, a disposição para qualquer emergência.


    Muitos não conseguiram chegar perto do Papai Noel

    O bom velhinho era a celebridade da noite: milhares de famílias se apertaram para vê-lo de perto. Mas para muitos, esta tentativa foi frustrada. Eduardo Viana, junto com seu filho e dois sobrinhos, não conseguiram chegar próximo. “Eu queria muito mostrar o Papai Noel para as crianças, mas estava muito lotado e não deu. Outro dia eu volto para fazer umas fotos”.

    Alessandra Feijó levou sua filha Giovana, de 4 anos, para o shopping. “Ela acredita que a fantasia é verdadeira, e o olhinho dela brilha”, conta. O encontro com o velhinho ocorreu no estacionamento, por coincidência. “Saímos para tomar um ar e lá estava ele. Demos sorte”, relata.

    Sílvia afirma que esta foi a primeira grande cerimônia natalina do Shopping Total: “Resgatamos a tradição da chegada do Papai Noel em Porto Alegre, e vamos continuar com este evento para os próximos anos”.

  • Governo Municipal inicia mapeamento da violência

    Naira Hofmeister

    Se, por um lado, a polícia tem a obrigação de coibir a criminalidade, por outro, o cidadão parece estar se conscientizando de sua função de vigilante social dentro do processo de combate à violência. Com esse espírito, a Secretaria Municipal de Saúde e Segurança Urbana começa a por em prática um plano para mapear as mais diversas formas de violência na capital, que tem como fundamento a participação comunitária.

    Trata-se do Rinav – Relatório Individual de Notificação de Agravos Decorrentes de Violência -, que já está sendo implantado em 10 hospitais – públicos e privados – e em toda a rede de saúde municipal, em Porto Alegre. Esse universo é apenas a primeira fase do projeto, que vai abranger também a Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), a rede escolar e outras instituições, inclusive não governamentais, para obter dados precisos e aprofundados sobre violência em Porto Alegre.
    “Não há como enfrentar esse problema sem a união de toda a sociedade”,
    pontua Gehysa Guimarães Alves, coordenadora da Equipe de Informação da Coordenadoria Geral de Vigilância em Saúde do município. Na prática, o Rinav vai significar um novo olhar sobre as vítimas de violência, mais cuidadoso e profundo por parte do estado e mais ativo e preocupado para a sociedade.
    Objetivamente, trata-se de um formulário, que, por enquanto apenas as
    instituições de saúde deverão preencher, a partir da detecção de sintomas de violência no atendimento público. Ou seja marcas físicas, transtornos psicológicos ou qualquer outra manifestação de possível envolvimento com violência deverá ser imediatamente comunicado à Secretaria de Saúde e Segurança Urbana. “Mesmo sem a confirmação por parte da vítima, esse relatório será encaminhado aos órgãos responsáveis, para dar início à uma investigação”, lembra Gehysa.
    A aplicação do Rinav, sua conseqüente verificação e posterior análise vão clarear os números apresentados pela Coordenadoria Geral de Vigilância em Saúde (CGVS). Segundo Denise Aerts, as chamadas causas externas’ ocupam o 4º lugar em óbitos gerais em Porto Alegre e lideram esse ranking dentro do universo infanto-juvenil. O que a CGVS chama de causas externas é o que provoca imprecisão no levantamento.
    As causas externas abrangem todos os tipos de mortes violentas, incluindo aí acidentes de trânsito, afogamentos e suicídio, além das agressões diretas. O papel do Rinav é esclarecer e pontuar quais as situações mais críticas, determinando suas causas e incidências, para, a partir daí, elaborar ações sociais para combatê-las.
    Outra constatação apresentada por Denise recorta um pouco mais esse universo: em Porto Alegre, 75% das mortes violentas tem como fator determinante as injúrias, intencionais ou não. Ou seja, há grande possibilidade de a agressão verbal transformar-se em agressão física.
    Já a partir de março do próximo ano, o Rinav amplia seu espectro de atuação, passando a circular em toda a rede de saúde de Porto Alegre e dentro de outras instituições. Uma das principais frentes de coleta de dados devem ser as escolas municipais: “A gente sabe que um professor tem, às vezes, muito mais condições de detectar transtornos causados por violência doméstica do que um funcionário da saúde”, explica Denise.
    Outros setores da sociedade civil estão sendo convocados para se unir à esse trabalho: “Precisamos de todos para fazer a diferença para vítima da violência”, concluiu a coordenadora. Para se unir ao projeto, basta entrar em contato com a CGSV.

  • Repórter do JÁ é Jornalista do Ano

    Renan Antunes de Oliveira foi o maior vencedor e também a grande surpresa do Prêmio Press de Jornalismo entregue na noite desta terça-feira, 22 de novembro, em cerimônia no auditório Dante Barone da Assembléia Legislativa do Estado.

    Nosso repórter, que curte momentos de “isolamento” nos EUA, foi agraciado como Jornalista do Ano, superando pesos-pesados da grande imprensa. Fato que não é inédito na sua conturbada carreira de jornalista independente como gosta de ser classificado. Assim também foi em 2004 quando recebeu no Rio de Janeiro o Prêmio Esso de Reportagem.

    Renan concorreu com Farid Germano Filho, da Rádio Farroupilha, Giovani Grizotti, da Rádio Gaúcha, Luiz Fernando Veríssimo, de Zero Hora e Ribeiro Neto, da Rádio Band AM.

    Na sua ausência, foi representado pela mamãe, dona Edith que, bastante emocionada, rasgou elogios ao filho. “O jornalismo sempre esteve presente na minha vida”, disse, ao lembrar seu outro bebê, também jornalista, Paulo Gerson Antunes de Oliveira. “Tenho orgulho do meu filho porque ele sempre escreve a verdade e mereceu muito ganhar esse prêmio”, afirmou num tom provocativo.

    Ao total foram 90 mil votos pela internet, o que incluiu voto popular e de profissionais da imprensa gaúcha. Só no voto popular foram 86 mil indicações totalizando 320 nomes diferentes nas 16 categorias do prêmio.

    O Jornal JÁ ainda esteve entre os finalistas na categoria “Chargista/Gragista” com Fraga e com o mesmo Renan em “Repórter de Jornal/Revista”.

    Os demais ganhadores

    Repórter de Rádio- Camila Ferro (Rádio Pampa)
    Repórter de TV- Eduarda Streb (RBS)
    Repórter de Jornal/Revista- Flávio Pereira (O Sul) e Humberto Trezzi (Zero Hora)
    Colunista de Jornal- Paulo Sant’Anna e Rosane de Oliveira (Zero Hora)
    Comentarista de Televisão – Ana Amélia Lemos (RBS)
    Apresentador de Televisão – Felipe Vieira (Band TV)
    Apresentador de Rádio – Nando Gross (Rádio Gaúcha)
    Jornalista de WEB – Diego Casagrande ( www.opiniaolivre.com.br )
    Chargista/ grafista – Iotti (Zero Hora)
    Repórter Fotográfico – Diego Vara (Correio do Povo)
    Narrador esportivo – Marco Antônio Pereira (Rádio Gaúcha)
    Plantão esportivo – Rogério Boelcke (Rádio Guaíba)
    Destaque do Interior – Vinicius Schil (Rádio Soledade)
    Prêmios Especiais
    Troféu Ruy Carlos Ostermann de Comentarista de Rádio- João Garcia (Rádio Guaíba)
    Troféu Milton Ferreti Jung de Locutor/Apresentador de Notícias – André Machado (Rádio Gaúcha)

  • Maestri diz que pesquisadores precisam pôr o negro na história do RS

    Geraldo Hasse, especial para o JÁ

    O historiador Mario Maestri disse em Osório na abertura do I Simpósio Internacional do Litoral Norte sobre História e Cultura Negra que os pesquisadores gaúchos têm o dever de reestudar a história rio-grandense no século 19 para recuperar algo que a historiografia oficial escondeu: a presença do negro na economia e na cultura do estado. “O escravismo foi dominante na sociedade do Rio Grande do Sul”, disse Maestri, que leciona na Universidade de Passo Fundo.
    No período de um século que marca o início da indústria do charque (1780) e o fim da escravidão (1888), a economia gaúcha foi tocada pelo braço escravo. “Os fazendeiros criaram no Rio Grande do Sul e no Uruguai núcleos estáveis de cativos campeiros aos quais se agregavam os gaúchos livres nas épocas de maior trabalho”, afirma Maestri,  especializado na pesquisa sobre a escravidão no pampa.
    Segundo Maestri, falta estudar diversos aspectos da vida econômica rio-grandense no século 19. Por exemplo, a valorização do trabalho escravo em meados do século 19, graças à expansão da cafeicultura em São Paulo, fez do Rio Grande do Sul um estado temporariamente exportador de mão-de-obra cativa. De 1874 a 1884, o RS embarcou mais de 14 mil escravos para São Paulo.

    Outro fator de expulsão de mão-de-obra cativa foi o cercamento das fazendas com arame, a partir de 1880, intensificando a contratação de mão-de-obra assalariada — os peões, que seriam predominantemente descendentes de índios. “Ainda hoje é forte a presença de afro-descendentes na peonada das fazendas”, diz Maestri, lembrando que sem estudar esses fatos — esquecidos pela historiografia oficial — não será possível compreender a atual realidade do Rio Grande.
    Maestri lamentou a não publicação como livro da tese de mestrado “Pelotas: Escravidão e Charqueadas”, de Jorge Euzébio Assunção, produzida em 1995 para a PUC de Porto Alegre. Para Maestri, trata-se do mais completo estudo já realizado sobre o trabalho nas charqueadas. Segundo Assunção, que leciona em Osório, a decantada prosperidade pelotense no século 19 deveu-se à grande concentração de trabalhadores escravos na sua indústria de carnes salgadas. Em 1853, havia 38 charqueadas no município, que liderava a exportação do estado.