Categoria: ANÁLISE&OPINIÃO

  • As causas do aumento da tarifa de ônibus em Porto Alegre

    André Coutinho Augustin
    Recentemente, a Prefeitura Municipal de Porto Alegre anunciou que a passagem de ônibus na cidade passaria a custar R$ 4,05, uma das tarifas mais altas do País. Esse reajuste só reafirmou a tendência que já se verifica há algum tempo: desde a implantação do Plano Real (julho/1994), a passagem já aumentou mais de 1.200%, enquanto a inflação do mesmo período, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi de cerca de 420%.
    Na maioria das grandes cidades do mundo, há subsídios para o transporte público. Isso ocorre tanto por motivos sociais — já que a população de menor renda é a que mais depende do transporte público para se deslocar — quanto por seus impactos no trânsito, pois o incentivo ao transporte coletivo diminui o número de carros circulando na cidade. Consequentemente, há menos engarrafamentos e uma redução do tempo médio de deslocamento, da emissão de gases poluentes e do número de acidentes. No Brasil, entretanto, costuma acontecer o contrário, e a maioria dos subsídios existentes são para o transporte individual, enquanto o transporte público é pouco subsidiado e precisa cobrir os seus custos com a receita tarifária. Assim sendo, a passagem é calculada dividindo-se os custos das empresas de ônibus pelo número de passageiros pagantes. Para entender a evolução da tarifa, portanto, há que se que olhar para essas duas variáveis.
    Em relação aos custos, a Prefeitura e os empresários costumam enfatizar o salário dos rodoviários, que é o principal item de despesa das empresas de ônibus. Embora seja verdade que os rodoviários de Porto Alegre recebem uma das maiores remunerações da categoria no Brasil, esse salário não teve aumentos significativos recentemente. Depois de um breve período de recuperação salarial após o Plano Real, os rodoviários estão com o salário praticamente constante desde agosto de 1997 (tiveram um aumento real de 7,7% nesses quase 20 anos, contra um incremento de cerca de 130% do salário mínimo).
    Mais do que a variação dos salários ou do preço dos insumos, o que tem impactado no aumento do custo estimado do sistema de ônibus de Porto Alegre são as mudanças na forma de cálculo desse custo. Essas mudanças levaram o Ministério Público de Contas a ingressar, em março deste ano, com uma representação junto ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) para que fosse verificada uma possível “elevação indevida da tarifa”. Após essa representação, o TCE decidiu abrir uma inspeção especial para verificar os critérios de reajuste da tarifa. Ao contrário do que havia anunciado inicialmente, a Prefeitura optou por não esperar o parecer final do TCE para aumentar a passagem. A representação, que foi baseada em estudos realizados pela Fundação de Economia e Estatística, analisou os seguintes aspectos da composição tarifária:

    1. até 2014, a cotação do preço do óleo diesel era feita a partir da pesquisa de preços da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Em 2015, a Prefeitura determinou que as próprias empresas deveriam informar a cotação, e, desde então, elas indicam preços acima do valor de mercado do óleo diesel;

    2. as receitas extratarifárias previstas no edital da licitação dos ônibus, com destaque para os rendimentos líquidos da aplicação fi nanceira advindos da comercialização de créditos antecipados, deveriam ir para uma conta da Prefeitura e ser revertidas em modicidade tarifária. Hoje, vão para a Associação dos Transportadores de Passageiros (ATP);

    3. o cálculo da tarifa, após a licitação de 2015, deveria ser feito com base na média dos custos apresentados pelos diferentes consórcios que venceram a licitação. Ao alterar a forma de cálculo da média prevista no edital, a Prefeitura chegou a um custo total do sistema de ônibus que é maior do que a soma dos custos de cada empresa;

    4. não se considera, na planilha de custos, a redução na frequência dos ônibus que ocorre todo ano durante o verão, implicando uma estimativa equivocada do fator de utilização de pessoal;

    5. houve aumento na estimativa de consumo de combustível por quilômetro para a maioria dos modelos de ônibus, sem apresentação de explicações técnicas, chegando, em alguns casos, a um incremento de mais de 80% em apenas dois anos;

    6. houve redução na estimativa de vida útil dos pneus.

    Entretanto, se todos os fatores acima mencionados podem ter levado a um aumento artificial dos custos, eles, sozinhos, não explicam a elevação da tarifa: o principal motivo do aumento nas últimas duas décadas foi a queda do número de passageiros pagantes. Segundo a Prefeitura, essa queda ocorreu devido às isenções previstas em lei. O percentual de isentos realmente vem aumentando, mas isso não se dá devido ao crescimento dos passageiros isentos, mas à redução dos outros passageiros. Para justificar uma possível redução das isenções, a Prefeitura divulgou estimativas de quanto a passagem poderia ser diminuída se elas fossem extintas. Essas estimativas, entretanto, supõem que um passageiro que hoje é isento continuaria fazendo exatamente o mesmo número de viagens se precisasse pagar por elas, um pressuposto que não condiz com a realidade nem com a teoria econômica.
    Na verdade, a queda do número de passageiros pode ser explicada principalmente por dois fatores, um conjuntural e outro mais estrutural. O primeiro é o aumento do desemprego causado pela crise econômica. De 2014 a 2016, a taxa de desemprego no Município de Porto Alegre passou de 4,9% para 9,1%, de acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre (PED-RMPA). Como o deslocamento de casa para o trabalho é o principal motivo de viagens na cidade, uma redução no emprego diminui o número de passageiros de ônibus. O surgimento de aplicativos como o Uber no mesmo período pode ter contribuído para essa queda, embora não existam dados disponíveis para medir tal impacto.
    O segundo fator é a substituição que está ocorrendo, nas últimas décadas, do transporte público pelo transporte individual. Como dito anteriormente, isso é incentivado por políticas públicas nos três níveis de governo, através, por exemplo, de isenções fiscais e de construção de novas vias. Contrariando a tendência mundial de restringir o uso do carro nas grandes cidades, principalmente nas áreas centrais, Porto Alegre abre cada vez mais espaço para o automóvel. Exemplos disso são a abertura da rua José Montaury para o tráfego de veículos e o projeto de “revitalização” do Cais Mauá, que prevê a demolição de armazéns históricos para a construção de mais de 4.000 vagas de estacionamento no Centro da cidade.
    Enquanto a política de mobilidade urbana no Brasil for a redução dos direitos dos usuários do transporte coletivo (caso da restrição à segunda viagem gratuita, como proposto recentemente pela Prefeitura) e o aumento do espaço para os carros, o número de passageiros de ônibus vai continuar caindo. Com isso, o sistema poderá entrar em colapso, prejudicando principalmente a população mais pobre, que não tem outras alternativas de transporte.

    Publicado originalmente da edição: Ano 26 nº 5 – 2017 da Carta de Conjuntura da FEE

  • O fator Cunha, outra vez

    Eduardo Cunha, como presidente da Câmara, foi o artífice do golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff.
    E agora, com a delação dos homens da JBS,  fica claro que o golpe precisa (va) do silêncio de Cunha para se sustentar. (Ou os nossos sempre abalizados colunistas e analistas políticos continuarão a dizer que não foi golpe?)
    Fica claro também que Temer é um presidente ilegítimo, que a mídia corporativa vinha sustentando (e faturando alto com as verbas generosas).
    “Deixem o homem trabalhar” foi o título da coluna de Ricardo Noblat, no Globo,  quando Temer completou um ano na presidência.
    As cenas da colunista Eliane Cantanhêde, do Estadão, na entrevista com ele, chegam a ser comoventes!
    Toda a mídia ensaiava um mutirão de apoio ao seu mandato e às suas “reformas”, com manchetes sobre a retomada da economia, a redução do desemprego e outros quetais.
    Mas eis que o mesmo Eduardo Cunha, hoje trancado numa cela da Polícia Federal,  leva Temer à lona.
    Foi por medo de que ele abrisse o bico que Temer tratou com o empresário Joesley  Batista da mesada de R$ 500 mil : “Isso tem que ser mantido, viu?”
    A Globo pediu desculpas por ter apoiado o golpe militar de 1964. E agora? E os demais, que nem isso fizeram?
    Continuarão a se apresentar como os certificadores da informação, a salvaguarda do leitor contra as noticias falsas que inundam a internet?
    Provavelmente, estarão na primeira linha apoiando o golpe dentro do golpe, que já se desenha com uma eleição indireta. E, como sempre, dizendo que não é golpe.
     
     
     
     
     
     
     

  • O diabólico desmanche do amparo social

    Geraldo Hasse

    O desmanche da legislação trabalhista e a reforma da Previdência Social são dois aríetes com que o trio de gladiadores Meirelles-Padilha-Temer pretende abrir para o sistema financeiro o mercado das aposentadorias e pensões, que se configura como uma espécie de filé mignon do neoliberalismo à moda brasileira.
    Rola nesse terreno uma grana monumental. Basta lembrar que, em abril de 2016, os 250 fundos de pensões ativos no Brasil tinham um patrimônio total de R$ 721 bilhões, ou 12,6% do PIB nacional.  Os maiores fundos pertencem a empresas estatais (BB, CEF, Furnas, Petrobras, Correios etc) e tiveram grande crescimento no século XXI.
    No caso do Funcef, da Caixa, o patrimônio saltou de R$ 9,7 bilhões em 2002 para R$ 44 bilhões em 2010, fruto de uma boa gestão dentro de um quadro de crescimento econômico. Outros fundos também tiveram grande valorização.
    Foram justamente esses grandes fundos estatais que, trabalhando em conjunto com o BNDES e outras instituições financeiras públicas e privadas, se tornaram potentes investidores em projetos de infraestrutura (usinas, portos, ferrovias e rodovias).
    Entretanto, mesmo com o aprimoramento da legislação, os fundos de pensão brasileiros não assumiram a dimensão alcançada pelos similares de países mais desenvolvidos, onde eles operam em parceria/aliança com os chamados “venture capital”, que investem em empresas novas (startups) especializadas em inovação tecnológica.
    Além disso, ocorreram escândalos em alguns fundos que sofreram interferências políticas ou deram margem a gestões duvidosas. O caso mais grave deu-se com o Aerus, que deixou na chuva milhares de aeronautas da Varig. No momento, há algumas acusações mais ou menos vagas e interesseiras contra o Funcef.
    Para complicar a situação, a crise de 2008 desvalorizou barbaramente os ativos em que os fundos tinham aplicações, provocando perdas consideráveis.
     No caso brasileiro, em abril de 2016 o déficit total era de R$ 55,3 bilhões, com 93 fundos com resultados negativos e 133 com superávits.
    Nos EUA, em 2015, já com a crise relativamente amainada, o total de ativos dos fundos públicos correspondia a apenas 69% do total de suas obrigações.
    Nesse quadro de crise, o viés liberal do governo pós-Dilma se impôs nos últimos meses, configurando uma mudança radical no panorama dos investimentos públicos e privados.
    Não se sabe exatamente o que será proposto, mas tudo indica que os fundos públicos não terão horizonte para crescer, pois o objetivo do ministro Henrique Meirelles (que se comporta como um soberano ajudado por Eliseu Padilha) é abrir espaço para a atuação da iniciativa privada onde quer que haja demandas reprimidas, mal atendidas ou desatendidas.
    E aqui podemos ver o tamanho da jogada.
    Somando o que movimentam o INSS, os fundos de pensão estatais, os fundos privados de capitalização, as poupanças particulares e o sistema de saúde/seguridade social, temos um giro de R$ 1,5 trilhão a R$ 2 trilhões por ano ou, seja, de 25% a 40% do PIB.
    Boa parte dessa grana gigantesca já roda no sistema financeiro privado, que está se lambendo para engolir o prato especial servido pelo governo plantado em Brasília.
    Com as mudanças em curso na previdência pública e na legislação trabalhista, só falta mesmo entregar as poupanças dos trabalhadores estatais e particulares.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “O governo, no melhor dos casos, nada mais do que um artifício conveniente; mas a maioria dos governos é por vezes uma inconveniência,e todo governo algum dia acaba sendo inconveniente”
    Henry Thoreau (1817-1862), filósofo norte-americano
  • Perdão, leitores

    Em 1964 também se dizia que não era golpe. Era uma intervenção temporária para extirpar corruptos e comunistas. Depois quando o golpe mostrou sua cara foi proibido publicar que era golpe. Era a Revolução Redentora de 31 de Março.
    A verdade só pode ser conhecida em 1981, quando a editora Vozes publicou a monumental pesquisa do professor René Armand Dreifuss. Ali foi revelado o aparato ideológico-midiático que escondeu a conspiração e tornou possível o assalto à opinião pública.
    Lembro disso e me pergunto: como ficarão daqui alguns anos esses comunicadores, que como outros tantos antes, tem certeza de que não foi golpe a tomada do poder por Michel Temer? Quando uma pesquisa trouxer os documentos mostrando o que realmente aconteceu, dirão o que a seus ouvintes e leitores?
     

  • Ciência Extraordinária – Os ativos intangíveis da Cientec

    Geraldo Mario Rohde *
    Ao contestar a postura simplória e reducionista usada para justificar a extinção da Cientec, de que ela faria tão-somente análises, testes e ensaios, commodities  disponíveis e pesquisas igualmente substituíveis pelo mercado, é necessário colocar uma visão histórica que, na qual nos seus mais de 70 anos de atividades, a Cientec sempre se pautou por produzir conhecimento aplicável a questões estratégicas de Estado, como a criação e implantação do Polo Petroquímico, a instalação do Complexo Termelétrico de Candiota e na duplicação da Refinaria Alberto Pasqualini.
    Já atuando modernamente no tema dos bens públicos ambientais, participou decisivamente da criação dos comitês de bacias hidrográficas e a Lei das Águas estadual, na criação da Lei dos Resíduos Sólidos estadual e no próprio Código Estadual do Meio Ambiente, atuando nas comissões da Assembleia Legislativa, praticando a issue driven science, ciência e tecnologia aplicada às questões ambientais e sociais.
    A verdadeira função da Cientec no Estado sempre foi focada pelo uso de sua inteligência concentrada nas mais importantes questões gaúchas que podem perfeitamente ser observadas, do  ponto de vista econômico, como ativos intangíveis. Este aspecto fundamental de sua atuação está ligado às tecnologias de uso energético da imensa jazida de carvão mineral gaúcha e de suas decorrentes cinzas, a tecnologia inovadora do arroz parboilizado, a prova da inexistência da periculosidade no carvão vegetal produzido no RS e a tecnologia de restauro do patrimônio arquitetônico, incluindo o próprio Palácio Farroupilha. Estes verdadeiros ativos intangíveis, perfazendo milhões de reais nas cadeias produtivas gaúchas, têm exemplo recentíssimo em 2015, em estudo sobre a falsificação de adubos, com um impacto equivalente a 600 milhões de reais para o Estado.
    Para mais além, os pesquisadores da Cientec dão assistência ao Ministério Público e à SEMA-Fepam na área ambiental no RS, melhoram a qualidade dos alimentos e da merenda escolar, exportam tecnologias de  aproveitamento de cinzas de carvão para o Ceará e o Maranhão, contribuem de forma notável para a questão estratégica da tecnologia de eletrônica embarcada, e dão consultorias internacionais na Índia e nos Emirados Árabes sobre inspeção e auditorias em tubos de ferro.
    Desta forma, desconhecer o imenso patrimônio tecnológico acumulado na forma de laboratórios especiais e equipamentos e o inestimável patrimônio imaterial contido nos seus pesquisadores, mostra que a tentativa de destruir nossa Cientec é um atestado cabal de absoluto desconhecimento do próprio Estado e verdadeiro atentado contra a sustentabilidade tecnológica, estratégica e informacional do futuro do Estado do Rio Grande do Sul.
    * Geólogo, doutor em Ciências Ambientais, pesquisador da Fundação de Ciênia e Tecnologia (Cientec)

  • A imprensa, como ela diz que é

    P.C. de Lester
    Num anúncio da página inteira da Zero Hora li o seguinte: “Sociedade melhor precisa de jornalismo livre”. Concordei e pensei: olhaí, algo está mudando.
    Meu otimismo durou o tempo de virar a página.
    No mesmo espaço, na página ímpar, com o mesmo grafismo e letra cursiva, o texto começava assim: “Há pouco tempo, nossa luta foi contra a censura”.
    Epa! Quando foi que a Zero  Hora lutou contra a censura? No governo Lula? No governo Dilma? Ou no tempo da ditadura? Que ditadura?
    Se for a de 1964, me perdoem. Os relatórios do SNI da época estão disponíveis.
    A postura pessoal de Maurício Sirotski Sobrinho é uma coisa. Ele sempre foi claro na sua  inconformidade com a censura e, mesmo sob ameaças,  deu guarida a  muitos jornalista perseguidos, sou testemunha. Mas a linha de seu jornal sempre foi pragmática, governista.
    A tal ponto que seu editor chefe, no momento da censura mais braba,  tornou-se porta voz da presidência, no governo Médici. E, depois de cumprida a missão, retornou ao posto.
    Carlos Fehlberg  foi um dos mais importantes jornalistas que o Rio Grande produziu. Repórter político inigualável, editor sensibilíssimo. A ponto de fazer um jornal competente sem afrontar a orientação oficialista da empresa.
    A Zero Hora, sem  duvida, tem grandes serviços prestados ao Rio Grande do Sul e ao Brasil.
    Agora, dizer que lutou contra a censura… Tenha dó.  Aos 53 anos, fica feio.

  • Braskem: as perguntas que não calam

    Geraldo Hasse
    Já que está em curso uma devassa sobre executivos, parceiros e sócios da Petrobras,  bem que o Ministério Público poderia investigar como, em poucos anos, o onipresente grupo Odebrecht colocou no topo da petroquímica brasileira sua subsidiária Braskem, cujo nome, aliás, foi criado para sinalizar suas pretensões internacionais.
    O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), que diz amém a quase tudo, poderia ajudar explicando porque avalizou a concentração da petroquímica em uma única empresa.
    Não se discute a competência técnica do grupo econômico baiano, mas para todos os efeitos (econômicos, históricos e políticos) seria conveniente esclarecer:
    A – Como a Braskem conseguiu assumir o controle da central petroquímica de Triunfo, implantada em 1980 no Rio Grande do Sul pela Petrobras, o grupo Ipiranga e alguns sócios menores, com ajuda do BNDES?
    A Braskem havia entrado na Copesul por último, como minoritária, depois de ter-se agigantado ao assumir o controle da central de Camaçari na Bahia (também implantada pela Petrobras) e de tornar-se hegemônica na Petroquímica União, fundada em Capuava (Santo André, SP) pelas famílias Geyer e Soares Sampaio.
    Em 2007, correu um boato de que a Braskem “ganhou” a Copesul em retribuição a doações às campanhas do presidente Lula. O fato é que a minoritária Braskem, com 27% das ações, assumiu o controle da Copesul ao comprar os 27% da Ipiranga por US$ 4 bilhões.
    A Petrobras ficou com 18%, o que sugere uma nova indagação:
    B – Por que a Petrobras abriu mão do controle desse segmento estratégico da indústria brasileira, dando origem a um monopólio nacional privado?
    E a pergunta que não pode ser sufocada:
    C – Até que ponto a corrupção sistêmica descoberta pela Operação Lava Jato no âmbito da Petrobras atuou para transformar o braço petroquímico da empreiteira Odebrecht em “global player” dos negócios petroquímicos?
    Todas essas perguntas fazem sentido, já que está bastante difundida na opinião pública brasileira a noção de que o país está sendo submetido a um processo deliberado de internacionalização de sua economia graças a um entreguismo sem freios em setores estratégicos como a construção pesada, a indústria naval, os segmentos de insumos agropecuários, o transporte aéreo, as telecomunicações e outros como especialmente o setor de petróleo-petroquímica.
    Daí emanam novas e inquietantes questões:
    1 – Até que ponto a Braskem representa de fato o poder empresarial privado brasileiro num setor historicamente disputado por multinacionais como Basf, Dow Chemical, Imperial Chemical Industries, Rhodia, Shell, Standard Oil e Union Carbide, entre outras?
    2 – Com a recente fragilização do grupo Odebrecht após as escabrosas revelações da Lava Jato, a Braskem se manterá de pé ou precisará negociar seus ativos em Camaçari, Capuava e Triunfo? Há candidatos à compra dessas centrais?
    3 – Ou será que, colocada a ferver na bacia das almas, a Odebrecht venderá ativos no exterior para tentar manter-se na posse de sua trinca de centrais petroquímicas no Brasil?
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “O lobby é um iceberg com apenas 1% à mostra. Na verdade é um governo invisível”
    Millor Fernandes
     

  • A privatização da Carris

    O prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Junior, tem repetido que se a Companhia Carris, a empresa municipal de transporte coletivo, continuar dando prejuízo, vai ser privatizada.
    Ainda não tinha dado prazo. Mas, na sua última manifestação, num vídeo que gravou para verberar a greve geral, chegou a dizer que “se até o fim do ano” não houver uma mudança nos rumos da empresa, ela será vendida.
    A Carris, empresa centenária do transporte público em Porto Alegre, já foi um caso exemplar no Brasil, merecendo inclusive prêmios internacionais. Desde 2011, por razões que nunca ficaram claras, vem operando no vermelho. No ano passado deu um prejuízo de R$ 50 milhões.
    É correta a preocupação do prefeito. Mas antes de pensar em desfazer-se dela, deveria mostrar à população, aos contribuintes que pagam a conta, o que vem acontecendo com a empresa de históricos serviços prestados à cidade.
    Ele mesmo nomeou em março um novo presidente, um jovem com espírito empreendedor, selecionado pelo Banco de Talentos que sua gestão adotou para escolher os assessores mais qualificados.
    O novo presidente, que assumiu com um discurso animado, renunciou ao cargo menos de um mês depois, alegando “motivos pessoais”. Motivos pessoais que não o impediram de continuar na diretoria da empresa.
    A nova presidente, também extraída do Banco de Talentos, tomou posse há menos de um mês. Só há poucos dias compareceu à Câmara Municipal para falar de seus planos e quase nada disse, além do pouco que já se sabe.
    Restam sete meses para o fim do ano. Será possível reverter a situação da empresa em tão pouco tempo? Ou o prefeito quer mesmo é privatizar e só está procurando um pretexto?
     
     
     

  • Inter x Noia, a final da década

    Geraldo Hasse
    Vi-o jogar uma única vez, ao vivo, num sábado à tarde de setembro de 1958, no Estádio dos Eucaliptos. Jogavam Internacional x Floriano, de Novo Hamburgo, e fomos em comitiva, um grupinho do curso de admissão ao ginásio do Roque de Cachoeira. Era nossa primeira viagem à capital e quem nos ciceroneava era um irmão-professor colorado.
    A partida terminou em 6 x 1 e o artilheiro colorado marcou cinco gols, municiado por um alemãozinho driblador chamado Sapiranga. Esse ponteiro-direito de cabelo amarelo trabalhava furiosamente no espaço que lhe cabia e, quando se aproximava da pequena área, ouvia o berro impositivo (“Dá!”) do centro-avante postado de frente para o gol. Inesquecível para um guri de 11 anos.
    Mais de 50 anos depois, o antigo craque passa por mim na rua e o identifico. Impossível não reconhecê-lo. Magrão, o topete grisalho arrumado na testa e a ginga de ex-atleta. Puxei assunto, disse que gostaria de entrevistá-lo, que achava sua história muito interessante. Ele esboçou um sorriso resignado, mas não mostrou entusiasmo: “Minha história é pública, não há novidades a meu respeito”.
    Não era esnobação. Afinal, Larry Pinto de Faria não fora apenas um atleta vencedor, festejado onde quer que andasse. Depois de marcar quase 200 gols pelo colorado, ele fez uma carreira como mandatário do povo junto às altas esferas do poder. Foi vereador, deputado, secretário municipal. Se no futebol jogava pelo centro, na política atuou pela direita. Começou na UDN, terminou na Arena. Uma figura pública que, no entanto, podia passear livremente pelas ruas.
    Usando abrigo de esportista, ele caminhava diariamente de casa até o Parcão, reduto triarborizado que sequer existia quando ele chegou a Porto Alegre, emprestado pelo Fluminense, em meados de 1954. No lugar do atual parque, funcionava o Hipódromo dos Moinhos de Vento, ao qual se podia chegar de bonde, subindo do centro pela Independência e a Mostardeiro. Naquele tempo Larry não frequentava o prado porque, nos dias de corrida dos cavalos (em pista areia), ele também tinha de correr no (gramado do) Estádio dos Eucaliptos, sede do SC Internacional.
    Correr é modo de dizer. Larry não corria atrás da bola. Ele a chamava e ela vinha. Era impressionante como se adonava dos espaços do campo para exercer a rara arte de fazer gols. Dava a impressão de que era fácil colocar a bola dentro dos três paus. Por isso levou muita pancada dos zagueiros adversários, especialmente de Airton e Ortunho, do Grêmio.
    No seu primeiro Gre-Nal, em 1954, marcou quatro na vitória por 6 x 2. Em 1956, fez parte da Seleção Gaúcha que representou o Brasil no Pan Americano. Naquele que foi um dos melhores ataques do Inter, teve ao seu lado Luizinho, Bodinho, Chinesinho e Canhotinho. Eram cinco no ataque, mas só dois recuavam para ajudar o volante, outrora chamado de centro-médio.
    Dada sua “escassa movimentação” (expressão do “professor” Ruy Carlos Ostermann, que marcou época como comentarista de futebol), Larry foi chamado de “O Cerebral”. Nascido em Nova Friburgo, afeiçoou-se ao clube gaúcho, arranjou namorada na cidade, casou e ficou para sempre em Porto Alegre.
    Agora que o Estádio dos Eucaliptos não existe mais e o prado dos Moinhos de Vento há mais de 50 anos se mudou para o Cristal, um cronista mundano diria que o maior centroavante da história do Inter nunca perdeu o aplomb nem depois que parou de jogar bola.
    E sempre foi fiel ao Internacional. Nos anos 60, quando o time viveu um jejum de títulos enquanto o clube construía o BeiraRio, Larry chegou a trabalhar de graça por algumas semanas como uma espécie de consultor técnico. Desistiu porque, mais do que recursos financeiros, faltava harmonia. “Ninguém se entendia”, ele me disse.
    Naquela década perdida o time colorado permitiu que o Grêmio fosse heptacampeão, mas nunca correu o risco de cair para a segunda divisão, como acabou acontecendo em 2016 — coisa que Larry não chegou a ver. Ele faleceu em abril de 2016, com 80 e poucos anos.
    Se Larry tivesse sobrevivido à pneumonia que o atacou pelas costas, talvez viesse a ver o ex-Floriano ser o campeão gaúcho de 2017. Com seu bom-humor, certamente diria: “O título ficou em boas mãos”. É difícil, mas o Noia merece.

  • O despudor dos marqueteiros do poder

    “Nossas contradições constroem nossas armadilhas”, disse o marqueteiro João Santana, num trecho filosófico de seu depoimento à Operação Lava Jato.
    Com essa capciosa afirmação, ele admitiu ser “cúmplice” do esquema de corrupção que permeia as eleições no Brasil. Só não disse quem criou tamanho esquemão, mas isso é desnecessário porque estamos cansados de saber: quem criou o conchavão foi o despudor do “puder”, como dizem os cabras-da-peste do Nordeste ao se referir ao poder.
    É um fenômeno que veio de Portugal com as capitanias hereditárias e foi se aprimorando com a ajuda dos ingleses (no século XIX) e dos americanos do Norte (desde o século XX).
    Hoje a coisa tem diversas características próprias, sendo uma delas a figura relevante do marqueteiro.
    A quem não está familiarizado com o termo, “marqueteiro” é a denominação dada aos profissionais que coordenam campanhas eleitorais.
    Misto de publicitário e jornalista, eles concentram tanta informação que chegam a obrigar candidatos a dizer coisas em que não acreditam. Eles são o resultado de uma deformação da sociedade. Não é exclusividade brasileira. Marquetagem é prática global.
    Em resumo, salvo uma ou outra exceção, o marqueteiro é um empulhador profissional. Simpático. Sorridente. Geralmente bom contador de causos. Bom vivant. Conhecedor de vinhos. Viajado. Gastador de dinheiro.
    Não é de ostentar nem de gritar “sabe com quem está falando?”, pois sabe que tem o poder de orientar seus “clientes”, encomendar pesquisas de opinião viciadas ou não e determinar os temas de campanha.
    Alguns têm hábitos relativamente simples como frequentar rinhas de galo ou apostar em corridas de cavalo. Mas sua “cachaça” é o jogo do poder.
    Nunca trabalhei em campanhas eleitorais, mas o exercício do jornalismo me colocou a par de uma série de informações sobre os ganhos de pessoas contratadas para trabalhar em comitês eleitorais.
    Nas maiores redações dos principais centros do país, alguns repórteres e/ou editores se demitiam para “fazer campanha”. Durante quatro ou cinco meses, trabalhava feito um cavalo para ganhar nesse período o equivalente ao que ganharia em um ou dois anos no emprego desprezado. Era um jogo.
    Se a campanha fosse vitoriosa, ele ficava no direito de trabalhar por quatro anos no gabinete do candidato eleito, após o que devia camelar mais uns meses numa nova campanha eleitoral estressante. E assim por diante. Ou não.
    Se o candidato não fosse eleito, o profissional tinha de voltar ao ex-emprego (se o aceitassem, o que não era comum) ou caitituar um novo cargo em outra empresa bem capaz de valorizar sua experiência, sua penetração e seus contatos no mundo político.
    Uma saída bastante comum era passar a operar numa agência de propaganda que tivesse um departamento de marketing político. Das grandes agências, a maioria fazia o jogo para ter acesso a verbas de campanhas publicitárias oficiais.
    Quem não gostaria de ter a conta da Petrobras? Do Banco do Brasil? Da Caixa? Dos Ministérios da Saúde ou da Educação? São rios de verbas publicitárias.
    Foi nessa batida que alguns profissionais do marketing político criaram seus próprios escritórios de propaganda eleitoral. Casos de Duda Mendonça e João Santana, para citar os mais notórios. Mas havia nesse metiê figuras pouco visíveis como Luiz Gonzalez e Chico Santa Rita, ambos bem-sucedidos nos bastidores das campanhas eleitorais.
    Eles formaram equipes, nas quais afloraram novas cabeças que passaram a trabalhar por conta própria em campanhas estaduais, metropolitanas e até em países vizinhos, onde eram aplicados os mesmos métodos em espanhol.
    Esses cobrões habituaram-se, e treinaram pessoas, a encarar candidatos como produtos que poderiam ser manipulados como mercadorias. Merchandising de políticos. Marquetagem. Manipulation, o que inclui a realização de lobbies junto aos grandes veículos de comunicação, cujos dirigentes não são alheios ao jogo do poder.
    Até a ditadura militar tinha seus marqueteiros, pois não bastava dispor da força das armas. Mas a especialidade marqueteira – antigamente denominada genericamente como “relações públicas”, com uma derivação modernizante para as “relações governamentais” e/ou “institucionais”, como chegou a constar no expediente de grandes editoras — evoluiu de tal modo que já desde os anos 1970 se concluiu que sem TV um candidato não ganha eleição. Daí então…
    Se bem usada, a máquina televisiva coloca na Presidência da República quem ela quer. Foi assim com Collor, para citar um caso exemplar. E pode abarrotar o Congresso Nacional com dezenas de nulidades bem-falantes ou devidamente embaladas pelo marketing eleitoral e regadas por verbas de campanha.
    Loucura total: entre abril e outubro, candidatos, marqueteiros e os trabalhadores do comitê correm atrás de dinheiro e de eleitores. Como diz o ditado popular, verba volan, o dinheiro voa. Se entra fácil, sai fácil.
    Acontecem desvios mas, ao contrário do que pensa o vulgo, os recursos captados junto a cidadãos e empresários não são automaticamente embolsados pelos candidatos, pois há controles nas cúpulas partidárias e é necessário prestar contas aos tribunais eleitorais, que podem ser tão rigorosos quanto os fiscais da Receita Federal, se o quiserem.
    Mas toda campanha é voraz ao exigir dinheiro vivo – além de crédito — para bancar despesas com equipes de filmagem, redação, edição e impressão de material de propaganda. E verbas para o transporte do candidato e equipe. Para alimentação. Hospedagem. Em alguns casos, como os de comícios, é preciso contratar “duplas sertanejas” e o séquito que as acompanha para o mal e para o bem.
    E mais: há cabos eleitorais que vendem no atacado os votos do seu curral. Muitos exigem dinheiro e depois cobram recompensas — empregos para seus protegidos. É assim que os poderes executivos e legislativos deste país ficam cheios de pessoas despreparadas, que só ocupam cargos comissionados (os famosos CC) porque algum doutor as nomeou.
    Agora vem a pergunta final: como o marqueteiro João Santana e sua sócia Monica Moura puderam pagar à Justiça uma multa de 30 milhões de reais? Certamente não precisaram pedir emprestado a um cliente porque, durante os 20 anos em que trabalharam com marketing político, puderam fazer uma boa poupança.
    Seria ingenuidade esperar que o sujeito que fez a vitoriosa campanha de Lula à Presidência tenha resistido à tentação de acumular. O marqueteiro vitorioso fica com o direito de dizer onde devem ser aplicadas certas verbas de publicidade do governo. Há veículos e grupos editoriais que dão bônus a agências que lhes propiciam altos volumes de verbas – é a famosa BV (bonificação por volume), uma forma refinada de tráfico de plim-plim.
    Tavez o marqueteiro esteja caindo em desgraça por força do lavajato, mas até agora ele tem sido um semideus da política. Ficou tão poderoso que acabou se tornando vulnerável. E acabou caindo nas armadilhas do excesso de poder. Para o bem ou para o mal, aí está uma bela lição de marketing.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “Mais cedo ou mais tarde todo político corresponde aos que não confiam nele”. (Millôr Fernandes)