Categoria: ANÁLISE&OPINIÃO

  • Tanto denunciar, tanto delatar

    Luiz Recena
    Jornalista
    Tanto denunciar, tanto delatar
    Tanto aceitar, tanto mar, tanto mar
    Um fantasma português ronda o Supremo Tribunal Federal: é o fantasma de Gil Vicente, o criador do teatro lusitano e autor, entre outras obras primas, do auto Todo Mundo e Ninguém.
    Os inquilinos atuais das togas superiores, que parecem às vezes brincar de reunião de condomínio, ou não leram ou faltaram à reunião que discutiu a importância do teatro português na formação da nossa cultura, tema sempre presente nos seminários que o instituto do superior togado Gilmar Mendes costuma realizar, com patrocínios, em terras dantes visitadas pela elite nacional, desde os tempos do imenso Portugal.
    O auto foi levado à cena por vez primeira por ocasião do nascimento do príncipe, filho de dom João III, em 1532. Gil tinha para permissão matar, digo, permissão real para alguma crítica. E não a deixou passar. Todo Mundo é um rico mercador, primeiro a entrar em cena, procurando oportunidades e fortuna. Ninguém é um pobre a fazer perguntas e pensar na vida. Belzebu e o auxiliar Dinato espiam e comentam.
    Ninguém: Que andas tu aí buscando?
    Todo o mundo: Mil cousas ando a buscar :
    delas não posso achar,
    porém ando porfiano /por quão bom é porfiar.
    Ninguém: Como hás nome, cavalheiro?
    Todo o Mundo: Eu hei nome Todo Mundo
    e meu tempo todo inteiro
    sempre é buscar dinheiro
    e sempre nisto me fundo
    Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
    e busco a consciência
    Belzebu: Esta é boa experiência:
    Dinato, escreve isto bem.
    Dinato: Que escreverei , companheiro?
    Belzebu: Que ninguém busca consciência,
    e todo mundo dinheiro.
    Ninguém: E agora que buscas lá?
    Todo o mundo: Busco honra muito grande.
    Ninguém: E eu virtude, que Deus mande
    que tope com ela já.
    Belzebu: Outra adição  nos acude:
    escreve logo aí, a fundo
    que busca honra todo mundo
    e ninguém busca virtude.
    Ninguém: Buscas outro mor bem qu’esse?
    Todo o mundo: Busco mais que me louvasse
    tudo quanto eu fizesse.
    Ninguém: E eu quem me repreendesse
    em cada cousa que errasse.
    Belzebu: Escreve mais.
    Dinato: Que tens sabido?
    Belzebu: Que quer em extremo grado
    todo o mundo ser louvado,
    e ninguém ser repreendido.
    Ninguém: Buscas mais, amigo meu ?
    Todo o mundo: busco a vida a quem ma dê.
    Ninguém: A vida não sei o que é,
    a morte conheço eu.
    Belzebu: Escreve lá outra sorte.
    Dinato: Que sorte?
    Belzebu: Muito garrida:
    Todo o Mundo busca a vida
    e ninguém conhece a morte.
    Todo o Mundo: E mais queria o paraíso,
    sem mo ninguém estorvar.
    Ninguém: E eu ponho-me a pagar
    quanto devo para isso.
    Belzebu: Escreve com muito aviso.
    Dinato: Que escreverei ?
    Belzebu: Escreve
    que todo o mundo quer o paraiso
    e ninguém paga o que deve.
    Todo o Mundo: Folgo muito d’enganar,
    e mentir nasceu comigo.
    Ninguém: Eu sempre verdade digo
    sem nunca me desviar
    Belzebu: Ora escreve lá, compadre,
    não não sejas tu preguiçoso.
    Dinato: Quê?
    Belzebu: Que todo o mundo é mentiroso,
    E ninguém diz a verdade.
    Ninguém: Que mais buscas?
    Todo Mundo: Lisonjear.
    Ninguém: Eu sou todo desengano.
    Belzebu: Escreve, ande lá mano.
    Dinato : Que me mandas assentar?
    Belzebu: Põe aí mui declarado,
    Não te fique no tinteiro:
    Todo o mundo é lisonjeiro,
    e ninguém desenganado.
    STF e o togado Fachin completam:
    Todo Mundo é culpado/ Ninguém deve ser maltratado.
     
  • E a imprensa não viu nada!

    P.C.de Lester
    A parte mais importante da delação de Emílio Odebrecht é omitida nos grandes jornais e respectivos portais.
    É o trecho em que ele pergunta: “Mas por que só agora e por que essa hipocrisia? Era assim há  30 anos e todo o mundo sabia, inclusive a imprensa”.
    Ele não diz mas fica subentendido: a imprensa que também levou o “seu” para não enxergar o que estava acontecendo.
    É possível que uma corrupção assim generalizada e escancarada ocorresse por tanto tempo sem chegar às redações dos grandes jornais?
    Assim como as propinas aos políticos eram dadas na forma de contribuição a campanhas, o cala-boca da mídia saía em forma de anúncios, de patrocínios, de campanhas. Quem vai delatar essa parte?
    Paulo Francis no estúdio de TVPaulo Francis denunciou a corrupção na Petrobras nos anos 80. Ficou sozinho, quando a máquina jurídica da estatal foi para cima dele com processo nos Estados Unidos. Os campeões da liberdade de imprensa ficaram calados. A Petrobras patrocinava tudo, da Fórmula 1 pra baixo.
    Condenado a pagar uma indenização milionária à estatal, Francis foi levado à morte pelas agruras que enfrentou.
    Os fatos hoje lhe dão inteira razão. E aqueles que acobertaram o que ele queria revelar, hoje exaltam os “furos” extraídos de delações.
    As delações que, como diz Emílio Odebrecht, revelam aquilo “que todo mundo sabia”.
    Menos a imprensa que, por conveniência, só está sabendo agora.
     
     
     
     

  • Somos todos campeões na modalidade corrupção

    Geraldo Hasse
    Mesmo com suas distorções de fundo político-ideológico, a Operação Lava Jato tem sido bastante pedagógica no sentido de revelar a extensão e a profundidade dos arranjos feitos pelos malandros profissionais para fazer a máquina dos negócios funcionar em harmonia com as engrenagens do poder em benefício da chamada turma dos camarotes.
    Eles montaram o crime quase perfeito. Funcionou por décadas, do primeiro ao último Cabral. Se foram descobertos é porque alguns protagonistas se refestelaram tanto na sacanagem que deixaram os rabinhos de fora, como nas parábolas sobre os sete pecados capitais.
    Quem ainda se lembra deles? Originalmente, segundo a igreja católica, eram sete: avareza, gula, inveja, ira, luxúria, preguiça, soberba. Atire a primeira pedra quem nunca andou por uma das sete casas.
    Hoje em dia há outros pecados, como a cobiça, exercida indiscriminadamente por empresários, executivos, atletas, políticos e pastores religiosos, entre outros.
    Ademais, mereceriam enquadrar-se como pecados capitais a desfaçatez dos ladrões do dinheiro público e a hipocrisia de tantos mentirosos de ofício e de ocasião. Como diz o slogan da SporTV, da Rede Globo, “somos todos campeões”.
    Entre esses, poderíamos apontar o maior dos corruptos: é o achacador, que se prevalece de posições de mando para angariar vantagens para si e para seus amigos. Na cadeia, impedido de achacar pessoalmente, ameaça alcaguetar ex-companheiros. Mau caráter integral.
    Todos os dias os jornais trazem indicadores notórios de que não há lugar para a ética no mundo moderno, pois quase todas as personagens citadas no noticiário estão invariavelmente mais preocupadas com os aspectos materiais da vida do que com os valores morais.
    De fato, nada pesa mais no jogo do poder do que a força do dinheiro.  Pesa tanto que se tornou o leit motif (motivo condutor) da maioria dos crimes. Se não é o motivador, está presente no cenário como pano de fundo. Por isso, para a maioria das pessoas, a palavra “negócio” traz implícita a ideia de “sujeira”. Dizendo de outro jeito: não há jogada limpa no mundo dos negócios. Por extensão, a política é um jogo essencialmente sujo.
    Propina, graxa, mutreta, bola, maracutaia, pixuleco: seja qual for seu apelido, a corrupção não se restringe aos empresários e executivos ou aos políticos e funcionários de ministérios e partidos políticos.
    Estamos mais do que cientes de que a corrupção é generalizada: começa na base da cidadania onde eleitores vendem seus votos, passa pelos políticos que prometem mundos e manipulam fundos doados por picaretas empresariais, e chega aos togados que julgam contas de campanhas, absolvendo camaradas e condenando adversários.
    Por artes de uma espécie intangível de corrupção, salva-se quem tiver as costas quentes ou desfrutar de foro privilegiado, uma espécie de asilo procurado por bandidos que se protegem com o voto popular – uma modalidade de corrupção que parece estar com os dias contados.
    A partir de 11 de abril, com o amplo acolhimento pelo ministro Facchin, do STF, das delações de executivos da Odebrecht, pode ser que as coisas tomem um novo rumo no âmbito dos supremos poderes, onde o jogo se concentra em apenas 11 cabeças cansadas da guerra política.
    PROVÉRBIO DE OCASIÃO
    “De barriga de mulher, de urna eleitoral e de cabeça de juiz, ninguém sabe o que pode sair”.

  • Para que a palavra guerra provoque náusea

     
    Lourenço Cazarré
    A menina Svetlana Aleksiévitch, nascida em 1948 na Ucrânia, não gostava de livros de guerra, numerosos em sua casa, mas na escola – na Bielo-Rússia, onde cresceu – era obrigada a lê-los. “Estivemos sempre a combater ou a preparar-nos para a guerra… Na escola, ensinavam-nos a amar a morte”. Ao seu redor, todos liam. Afinal, eles, os soviéticos, haviam sido os vencedores do conflito recente contra os alemães.
    “Depois da guerra, a aldeia da minha infância era feminina… Não me lembro de vozes masculinas”, escreve Svetlana na abertura de A guerra não tem rosto de mulher (Companhia das Letras, 2016, 392 páginas). Os homens eram poucos porque milhões deles morreram na Grande Guerra Patriótica (assim chamada pelos soviéticos). A Bielo-Rússia teve dizimado um terço de sua população. A Rússia perdeu cerca de 22 milhões de pessoas.
    Svetlana formou-se em jornalismo em 1972. No final daquela década, resolveu escrever um livro sobre os seres humanos na guerra. “Não escrevo a história da guerra, mas a história dos sentimentos. Sou historiadora da alma”. Passou a colher depoimentos de mulheres que haviam atuado no Exército Vermelho. Surgiria então um estilo (literário, jornalístico?) que décadas depois seria consagrado com o Nobel de Literatura (2015).
    O efetivo feminino das forças soviéticas chegou a um milhão. Svetlana parou de contar suas entrevistadas quando elas ultrapassaram 500. Gravou longas conversas com lavadeiras, cozinheiras e enfermeiras, mas também com franco-atiradoras, pilotos de aviões de caça e comandantes de artilharia. Entre elas encontrou “narradoras espantosas”.
    Das confissões dessas mulheres Svetlana pinçou os trechos mais impactantes ou tocantes. Quase sempre devastadores. E com eles montou um livro-mosaico que foi recusado por muitas editoras antes de chegar ao prelo, em 1985, já nos estertores do comunismo. A obra vendeu dois milhões de exemplares nos primeiros cinco anos.
    Escritos polifônicos
    Com a técnica de traçar vastos painéis a partir de incontáveis narrativas de pessoas comuns, Svetlana produziu outros escritos polifônicos sobre sofrimento e coragem. Entre seus livros publicados, destacam-se Rapazes de zinco (sobre os jovens russos que, sem saber o motivo, lutaram no Afeganistão); O fim do homem soviético (sobre a desilusão dos que cresceram durante os anos em que o comunismo garantia emprego a todos os que não abrissem o bico para criticar o regime); e Vozes de Tchernóbil (relatos dos que sobreviveram à grande catástrofe nuclear).
    Desmontando mentiras
    Ao contrário dos livros sobre a guerra escritos por (e para) homens, a obra de Svetlana não apresenta heróis nem proezas incríveis, não descreve batalhas nem gaba armamentos. Mostra apenas “as pessoas ocupadas na sua atividade humana e simultaneamente desumana”. Dor, fome, frio, desespero, infestação por piolhos e mutilados, muitos mutilados, estão em cada uma das páginas.
    Svetlana confessa que, com este livro, pretendia desmontar todas as mentiras tramadas em torno das guerras, de modo que a palavra guerra passasse a provocar náusea e que a simples ideia de que pudesse existir fosse repugnante. Desejava, enfim, que seu trabalho “faça vomitar os próprios generais…”
    A obra é dividida em 17 capítulos. Nos primeiros vemos o entusiasmo das moças que faziam de tudo a fim de serem convocadas para enfrentar os nazistas, que haviam invadido a Rússia e que logo chegaram à periferia de Moscou. Mas também fica clara a resistência dos chefes militares que não desejavam ter garotas na frente de combate.
    A primeira versão de A guerra não tem rosto de mulher sofreu vários cortes impostos pelos censores. A versão mais recente traz alguns dos trechos eliminados. Num deles, num dos poucos depoimentos masculinos, um soldado fala sobre o avanço pela Alemanha derrotada no final de guerra: “Somos jovens. Fortes. Há quatro anos sem mulher. Apanhávamos garotas alemãs e… Dez homens violavam uma. Apanhávamos meninas… Doze treze anos… Se chorassem batíamos, metíamos qualquer coisa na boca… A única coisa que temíamos era que nossas colegas descobrissem…”
    O bebê debaixo da água
    Uma aviadora que se recusou a ser entrevistada disse a Svetlana por telefone: “Durante três anos não me senti mulher. O meu corpo adormeceu. Fiquei sem menstruação, quase sem desejo feminino”.
    Uma mulher fala do que uma de suas amigas fez para sobreviver na época da grande fome na Ucrânia: “Morreram o pai, a mãe e os irmãos mais pequenos, e ela só se salvou porque de noite roubava estrume de cavalo para comer”.
    Uma enfermeira para diante de um jovem capitão que agoniza e pergunta em que pode ajudar. Ele sorri. “Desabotoe a blusa. Mostre-me seu peito”. Desconcertada, ela corre. Uma hora depois ela volta. O capitão está morto.
    Membros da resistência russa estão num pântano cercados por alemães. Uma das mulheres tem um bebê recém-nascido no colo. A criança chora de fome porque a mãe, desnutrida, não tem leite. Sem que alguém fale, a mulher compreende que só há uma solução para não serem descobertos. “Mete o embrulho com o bebê debaixo da água e o mantém ali durante muito tempo”.
    Uma das mulheres regressa da guerra. A mãe permite que descanse em casa por três dias. Depois lhe dá uma trouxa e manda que se vá: “Tens duas irmãs mais novas. Quem é que vai desposá-las? Sabem todos que estiveste na guerra quatro anos com os homens”.
    Outra fala de sua desilusão ao fim dos combates. “Pensávamos que tudo ia mudar… Stálin acreditaria no seu povo… Foram presos os que caíram prisioneiros, os que sobreviveram aos campos de concentração, os que foram levados pelos alemães para trabalhar, todos os que tinham ido à Europa e podiam contar como o povo vivia lá”.
    O potrinho
    Depoimento de uma franco-atiradora: “Confesso que tinha medo de agarrar no fuzil… Aprendemos a desmontar a arma de olhos fechados, a determinar a velocidade do vento, o movimento do alvo, a distância até o alvo… Regressei da guerra grisalha. Com vinte um anos, já estava toda branquinha… Passamos três dias comendo só pão seco, as línguas ficaram tão ásperas que mal as podíamos mover… De repente vemos um potrinho na faixa neutra… Nem tive tempo de pensar, com a força do hábito, apontei e disparei. As pernas do potro dobraram-se e ele caiu para o lado… À noite trazem o jantar. Os cozinheiros dizem: “Muito bem, atiradora. Hoje temos carne na panela”… Desatei a chorar e corri do abrigo… As colegas correram atrás de mim e me consolaram… Pegaram nas marmitas e começaram a comer… Ele vê o meu uniforme, as condecorações e pergunta: ‘Quantos alemães mataste?’. Respondo: setenta e cinco…”
    Uma enfermeira aproxima-se de um soldado ferido que tem o braço quase arrancado, seguro apenas por tendões. Procura faca ou tesoura para cortá-lo. Não as encontra na bolsa. “O que fazer? Pus-me a cortar aquela carne com os dentes…”
    Uma instrutora da companhia de fuzileiros: “Durante a marcha caminhávamos três pessoas de mãos dadas, e a do meio dorme uma hora ou duas. Depois trocamos. Cheguei até Berlim. Escrevi na parede do Reichstag: Eu, Sofia Kuntsévitch, cheguei aqui para matar a guerra”.
    Uma agente de saúde conta que, para se livrar do assédio, ligou-se ao comandante do batalhão: “Era boa pessoa, mas não o amei… Poucos meses depois entrei no abrigo que ele ocupava. Que saída tínhamos? Vivíamos rodeadas por homens, pelo que era preferível viver só com um do que com medo de todos…”
    “Como é que a Pátria nos recebeu?”, indaga uma franco-atiradora. E ela mesma responde: “Os homens não diziam nada, mas as mulheres… Gritavam conosco: ‘Sabemos o que vocês fizeram por lá… Seduziram nossos homens… Putas da frente… Galinhas das trincheiras…’”
    Uma mulher da resistência regressa à Minsk e descobre que seu marido está na prisão por ter sido prisioneiro dos alemães. Ali, partiram-lhe as costelas. “Antes, na prisão fascista, esmagaram-lhe a cabeça e quebraram-lhe o braço… Em 1945 o NKVD acabou por torná-lo inválido”.
    Uma telefonista fala sobre a entrada dos russos na Alemanha vencida: “Escrevem pouco sobre isso, mas é a lei da guerra. Os homens passaram tantos anos sem mulher, além disso há ódio. Entramos numa vila ou aldeia. Os primeiros três dias são para saquear… Apareceram cinco mocinhas alemãs para falar com o comandante do nosso batalhão… Choravam… Foram vistas por um ginecologista… Tinham feridas. Feridas rasgadas…. Mandaram formar o batalhão… Disseram a essas moças que apontassem os culpados… Mas elas choravam e não se mexiam… Não queriam mais sangue…”
    Sangue e água
    Relata uma oficial de comunicações: “Estamos em marcha.. Umas duzentas mulheres, seguidas por uns duzentos homens. Está calor. É uma marcha de ataque.: trinta quilômetros…. Marchamos deixando marcas vermelhas na areia… E essas coisas.. As nossas… Não dá para disfarçar nesta situação. Os soldados marcham atrás de nós e fingem não reparar em nada… Não olham para o chão… As calças secavam em nós , tornavam-se como de vidro, machucavam a pele.  Faziam feridas, o cheiro de sangue era constante…  Pois não nos distribuíam nada… Apareceu roupa interior de mulher talvez só dois anos mais tarde… Mal chegamos à passagem, os alemães começam a bombardear. Os homens correm para se esconder. Gritam nos chamando… Não ouvimos o bombardeio, não nos importa o bombardeiro, nós nos lançamos ao rio… Água! Aquela foi, provavelmente, a primeira vez que desejei ser homem…”
    (*) Os trechos transcritos foram adaptados da tradução para o português de Portugal.

  • As privatizações e os direitos da maioria

    Geraldo Hasse
    A crise econômica instalada no país tornou mais aguda a disputa por espaços em todas as atividades, da política à economia.
    Vem desse contexto a sensação de que os responsáveis pelo governo não se pautam pela ética senão na aparência. Prevalece o egoísmo, conforme o provérbio: “Farinha pouca, meu pirão primeiro.”
    Por isso, ao acompanhar o debate sobre as reformas disso e daquilo, já sabemos que não chegaremos a um bom termo porque falta legitimidade aos detentores do Poder. Eles sabem que precisam fazer o serviço rapidamente pois dispõem de pouco tempo.
    Muitos ocupantes de cargos públicos, por voto ou concurso, negligenciam a obrigação moral de agir com lisura, como se esquecessem que estão numa vitrine não vitalícia.
    Em função pública, quem não agir direito deve pagar muito mais caro do que um particular. Essa é uma máxima da vida republicana que precisa prevalecer. Se não for assim, como vai se construir uma cidadania consciente?
    O interesse público tem sido solapado diariamente por atos e medidas em prol de interesses privados.
    Os direitos da maioria trabalhadora (100 milhões de brasileiros, entre os quais 13,5 milhões de desempregados) estão para ser retalhados pela terceirização ampla dos contratos de trabalho.
    Ao aprovar essa medida, a Câmara dos Deputados deu um salvo-conduto para os famosos “gatos” (intermediários) que atuam no mercado de trabalho no campo e na cidade.
    A reforma da Previdência, pior ainda: em nome de uma modernização marota, arma-se um grave retrocesso numa área em que o Brasil progrediu bastante na luta para garantir assistência aos idosos e aos desvalidos em geral.
    Não se pode esquecer que a previdência social precisa ser pública, isenta das taxas de administração e lucratividade que caracterizam os fundos privados.
    A previdência, a saúde, a educação, a segurança e o transporte devem ser obrigações do Estado, que só deixará à iniciativa privada um espaço complementar, nunca o principal.
    Está provado, na prática, que o viés privatista mutila os direitos comunitários.
    É o que vemos no modo como a iniciativa privada trata o meio ambiente, os recursos naturais, os trabalhadores e até o patrimônio histórico.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “A contradição é a fonte de toda a vida. Só na medida em que encerra em si uma contradição é que uma coisa se move, tem vida e atividade. Só o choque entre o positivo e o negativo permite o processo de desenvolvimento e o eleva a uma fase mais elevada. Quando faltam forças para a desenvolvimento e para o agravamento da contradição, a ideia ou a coisa morrem em virtude dessa contradição, sem nada de novo engendrar.”
    Hegel (1770-1831), o pai da dialética moderna
  • Os golpes e as mentiras da Globo

    P.C. DE LESTER
    No dia 2 de abril de 1964, o presidente da República, João Goulart, ainda estava em território brasileiro.
    Havia desembarcado às 3h15 minutos da madrugada no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para decidir se resistiria ou não à quartelada que se iniciara contra seu governo.
    Nas primeiras horas da manhã, o presidente estava reunido com o comandante do então III Exército e os comandantes de todas as unidades da região Sul, mais líderes políticos como Leonel Brizola e outros.
    Naquela manhã, o jornal o Globo circulava no Rio de Janeiro com a seguinte manchete no alto da página: “Jango Fugiu: A Democracia Está Restabelecida” e abaixo em letras garrafais: “EMPOSSADO MAZZILLI NA PRESIDÊNCIA”.
    O Globo mentiu para encobrir um atentado à Constituição, que se praticou com a posse forjada de Rainieri Mazzilli, o presidente da Câmara, quando o presidente da República ainda estava em território nacional.
    Na calada da noite, o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, numa sessão de três minutos, declarou vaga a Presidência da República e elegeu Mazzilli para o cargo. Naquela época, Roberto Marinho tinha apenas o jornal e a rádio Globo.
    A TV que daria origem à Rede Globo, entrou no ar um ano depois, não por acaso.
    No dia 1º de setembro  de 1969, estreou o Jornal Nacional, “o primeiro noticioso em rede nacional de televisão” no Brasil.
    A principal notícia foi a doença do presidente Costa e Silva, há quatro dias com uma “crise circulatória”. O locutor Hilton Gomes disse que o presidente “passou bem à noite e está em recuperação”.
    O presidente, na verdade, tivera uma isquemia cerebral. Estava prostrado na cama, semi-paralítico e mudo. Os três ministros militares já haviam empalmado o poder, descartando o vice-presidente, Pedro Aleixo.
    O Jornal Nacional mentiu, encobrindo o chamado “golpe dentro do golpe”.
    Portanto, quando William Bonner diz que os jornalistas da Globo não criam fatos, mas apenas os divulgam e que “sempre foi e vai continuar sendo assim”… é bom botar o pé atrás.
    Agora, toda a Globo está empenhada em dizer que o impeachment contra Dilma não é golpe. Não estará ela, novamente, tentando encobrir outro golpe?
    (Publicado originalmente em 30 de março de 2016, com o título: “A Globo e o Golpe: nas duas vezes anteriores, ela mentiu”)
  • Cem anos de revolução no Sul da América

    Lourenço Cazarré
    Leitor entusiasmado dos historiadores que narraram as incontáveis guerras, revoluções, revoltas, insurreições, quarteladas e rebeliões que sacudiram o Cone Sul entre os séculos 18 e 19, o jornalista gaúcho José Antônio Severo devorou também as negligenciadas obras publicadas em pequenas editoras por autores de final de semana. Para conferir, visitou os locais que foram palco das maiores batalhas travadas naquele período. E juntou a tudo isso conversas que, quando menino, escutava de seus ancestrais, participantes desses entreveros. Para amarrar o pacote, inventou um fio literário – a vida de um dos maiores militares brasileiros, o general Manuel Luís Osório, o marquês do Herval.
    Com uma carreira jornalística de mais de meio século, vivida em algumas das principais redações do país, José Antônio Severo escreveu em cerca de 10 meses 100 anos de guerra no continente americano, obra de dimensões pampianas, com um total de 1.089 páginas, que foi dividida em dois volumes pela editora Record: Rios de Sangue (1) e Cinzas do Sul (2).
    Talvez se possa dizer que o grande mérito deste livro, além, claro, de sistematizar toda uma vasta e dispersa bibliografia, é a presença de um jornalista em uma seara quase sempre restrita a excessivamente contidos, ou por vezes derramados, historiadores. Com um texto ágil, claro e direto, despido dos conhecidos rococós retóricos característicos da América latina, Severo esboça diante de seus leitores um quadro amplo e detalhado das lutas que acabaram por moldar quatro dos países do extremo sul da América Latina.
    Repórter acima de tudo, o autor comparece com um grande número de informações pouco ventiladas que surpreendem até mesmo ratos de biblioteca razoavelmente versados nesse tipo de literatura. Severo entremeia sua narrativa com causos miúdos que, na linguagem simplificadora das redações, seriam chamados de “historinhas”. Assim, na leitura, nos defrontamos com centenas de historinhas curiosas, surpreendentes, esclarecedoras e por vezes verdadeiramente significativas.
    As ações guerreiras começam em 1.777 quando o recém nomeado primeiro vice-rei do Prata, Pedro de Ceballos, a caminho de Buenos Aires, ataca à atual ilha de Santa Catarina para tomar posse de uma terra que julgava pertencer à Espanha. Ao retratar essa luta remota, Severo demonstra uma de suas principais virtudes que é a de descrever com minúcia e abrangência escaramuças e batalhas. Surgem então pontos conhecidos hoje dos muitos turistas que visitam a badalada Florianópolis: Santo Antônio de Lisboa, ilha de Anhatomirim, Jurerê, Canasvieiras e São José da Terra Firme.
    Já naquela época, antecipando a quebradeira em que a nação vive hoje, a defesa da cidade estava à míngua: “por falta de verba, apenas dez dos 40 canhões estavam em condições”. O pânico espalhou-se pela ilha e as pessoas fugiram para o continente levando o que podiam. Os que não lograram escapar sofreram na mão dos invasores. “Os homens foram separados e encerrados, depois obrigados a trabalhar, quando não eram simplesmente mortos… As mulheres foram entregues às tropas. Oficiais e graduados tiveram preferência na escolha, mas a maioria ficou à mercê da soldadesca, na base de dez homens para cada uma. Meninas, mulheres de meia-idade e velhas, não escapou nenhuma”. Os que conseguiram fugir para o continente foram recepcionados pelas flechas e lanças dos índios carijós, cuja ferocidade nada ficava a dever à dos espanhóis.
    Anos depois, Pedro Luís Borges esclareceria a seu filho, Manuel Luís Borges, que viria a ser pai do futuro general Osório, que, naquela invasão, ele estivera bem seguro na barriga de sua mãe, porque, como as demais grávidas, ela havia sido protegida pelos padres.
    Em 1793, aos 16 anos, Manuel Luis Borges alistou-se como voluntário no Exército português. Em 1796 passou a furriel, posto equivalente ao de sargento. Certo dia, injustamente condenado ao açoite, teve a ousadia de aparar uma pranchada regulamentar que lhe foi desferida por um oficial. Foi preso e, antes de receber a inevitável condenação à morte, fugiu em direção ao Sul. Sua jornada em direção à Província de São Pedro pelo meio do mato acabou fazendo com que desse com o costado em Nossa Senhora da Conceição do Arroio (atual Osório). Ali acabou casando com Anna Joaquina Osório, cujo nome de família adotaria para sua descendência. Anos depois, livre da pecha de desertor, o mané Manuel Luís foi reincorporado ao Exército português
    Rios de sangue estende-se até o final da guerra da Cisplatina, que durou de 1825 a 1829, com direito a incontáveis batalhas. O melhor momento do primeiro volume sem dúvida é a descrição dos preparativos para a decisiva batalha de Passo do Rosário/Ituzaingó. Homens excepcionais lideravam os dois lados: as tropas do Império eram comandadas por Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira Horta, o Marquês de Barbacena, e os argentinos e uruguaios eram chefiados por Carlos Maria de Alvear.
    “É impressionante a simetria entre os dois generais”, escreve Severo. Ambos nascidos na América, filhos de nobres, cursaram academias militares da metrópole. Felisberto Brant nascera em Mariana (MG); Alvear era de Santo Angel, atual Santo Ângelo (RS).
    A Batalha do Passo do Rosário, vencida por Alvear, pois Barbacena abandonou o terreno, mesmo ainda tendo possibilidade de lutar, determinou a criação do Uruguai, nação-tampão entre dois gigantes brigões. Uma das curiosidades da Guerra da Cisplatina é que dom Pedro I chegou a viajar ao Rio Grande do Sul para comandar as tropas do Império, mas mal botou o pé por lá recebeu a notícia do falecimento de sua esposa, Leopoldina, e teve que retornar ao Rio de Janeiro.
    Em Cinzas do Sul temos relatos esclarecedores sobre a demorada Guerra dos Farrapos e a devastadora Guerra do Paraguai. Entre elas, a Guerra do Prata que levou à derrota de Manuel Oribe, caudilho uruguaio, e à deposição de Juan Manuel Rosas, ditador em Buenos Aires por 17 anos.
    Todos esses conflitos sangrentos foram causados por divergências incessantes, às vezes ridículas, entre os grupos políticos que tentavam tomar o poder nas nações em formação. Severo assim resume essa pendenga: “Ideologicamente, a linha de identidade entre os países do Prata, descontadas as lutas internas entre os caudilhos que disputavam o poder, corria em linha reta: unitários argentinos/blancos uruguaios/liberais moderados do Rio Grande do Sul de um lado e do outro federales argentinos/colorados uruguaios e liberais exaltados rio-grandenses”. Os primeiros eram republicanos que aceitavam uma monarquia apartidária e a escravidão. O outro agrupamento defendia a abolição e a criação de um estado unitário integrado por províncias autônomas.
    O jornalista gaúcho apresenta um número incrível de informações em geral desprezadas pelos praticantes da historiografia ortodoxa: fala da introdução da alfafa em uma terra onde os pangarés só comiam grama rala; das carretas de bois que necessitavam de doze juntas para arrastar 80 arrobas; que o custo de um escravo era cinco vezes maior do que o de um imigrante europeu; conta que os caudilhos argentinos Rosas e Urquiza eram os dois homens mais ricos daquele país; que cada soldado de cavalaria arrastava consigo três rocins mal nutridos; que os fortíssimos cavalos de batalha, ferrados e alimentados a milho, só eram usados nas cargas; que os cavaleiros minuanos e charruas levavam um homem na garupa para lançá-lo dentro da linha de defesa dos brancos; descreve a tomada de Porto Alegre pelos guerreiros farroupilhas e de como eles a perderam depois de um porre geral e homérico; informa que dom Pedro II já era a favor da abolição em 1845 e que lamentava que ela não fosse aprovada no Parlamento por oposição das bancadas de Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo; esmiúça a profunda ligação de Caxias com o Rio Grande do Sul por 20 anos (foi governador e senador pelo Estado); informa que para viajar a Mato Grosso a rota mais cômoda era a marítimo-fluvial, passando por Montevidéu e seguindo por rios interiores; que o Paraguai antes da guerra não tinha moeda, mas havia implantado a primeira linha da América do Sul; que Solano Lopez em sua fuga final conduzia sua mãe e sua irmã, prisioneiras, em uma jaula; que o espião do Paraguai em Montevidéu era o embaixador português; e lamenta os imensos prejuízos trazidos por esses conflitos sempre acompanhados de saques e violações.
    Falando de Osório, o lendário general, Severo relata que nas grandes cidades por onde ele passava o povo costumava desatrelar os cavalos da carroça em que viajava a fim de rebocar pelas ruas, com a força dos braços, o herói da Guerra do Paraguai.
    Por fim, ficamos sabendo que a Argentina – sacrificada por incontáveis carnificinas, só unificada mais de 60 anos após a libertação da Espanha – conseguiu, após o fim dos conflitos, atrair o excedente de mão de obra de uma Europa tomada pela industrialização para transformar-se, já na virada para o século 20, na quarta nação mais rica do mundo.

  • As fontes renováveis e a segurança energética

    Fernando Zancan
    Associação Brasileira de Carvão Mineral
    Heiner Flassbeck, ex-secretário do ministério de Finanças da Alemanha, afirmou que a Alemanha não poderá confiar somente na energia renovável, por mais que invista na capacidade destas fontes, para sua segurança energética. No último inverno europeu, houve pouco sol com uma alta pressão e intenso fog (nevoeiro intenso), afetando também as usinas eólicas. Durante várias semanas a Alemanha sofreu com a falta de sol e vento.
    Para Heiner, não é viável que a Alemanha desative sua base de energia (nuclear e carvão) sem afetar a sua segurança de suprimento. As lições da experiência alemã, nos mostram que será necessário a energia despachável, que independe dos humores de São Pedro. As fontes despacháveis fornecem eletricidade 24hs/dia, sete dias por semana, só dependendo do fornecimento do combustível e da disponibilidade das máquinas, que operam mais de 90 % do tempo.
    As mesmas conclusões foram tiradas do seminário realizado em julho de 2015 em Cambridge, Massachusetts/USA, onde especialistas do setor de energia discutiram a operação de sistemas com mais de 50% de renováveis na geração de energia elétrica em um mundo de baixo carbono. Concluíram também que a nova matriz de geração deverá levar em consideração uma transição que não privilegie tecnologias específicas, mas sim um portfólio de fontes intermitentes e despacháveis. Essas fontes de base aliam despachabilidade e inércia ao sistema como um todo, gerando qualidade de energia e segurança.
    No Brasil, um recente relatório do Instituto Acende Brasil, conclui que no país onde cerca de 80% da geração de energia elétrica é renovável, meta que a Alemanha pretende chegar em 2050, será necessário o uso de térmicas despacháveis para manter a segurança energética. Como dependemos das usinas hidráulicas para gerar energia com a finalidade de complementar as usinas eólicas, a baixa hidraulicidade e a construção de usinas a fio d’agua, tornam cada vez mais imprescindíveis as usinas despacháveis de gás e carvão, principalmente carvão que é abundante e de baixo custo.
    Portanto, será cada vez mais importante a discussão das tecnologias de baixo carbono e implantação de políticas públicas de baixo carbono, iniciando com a substituição das usinas térmicas antigas, por máquinas mais modernas com menor emissão de CO2/KWh gerado, e avançando com tecnologias de combinação de carvão e biomassa e por último o desenvolvimento da Captura e do Armazenamento do Carbono (CCS).
     

  • O regime dos caciques

    O voto em lista não tem pai nem mãe. Mas a criatura virá para o centro do palco e pode arrebatar a cena. Financiamento público de campanha puro é sinônimo de voto em lista partidária.
    A luta pelo voto sai das ruas e vai para as convenções partidárias.
    Lista é o modelo europeu e que funciona na maior parte das chamadas democracias avançadas da Europa e Ásia. Monarquias ou repúblicas. Socialistas ou neoliberais.
    É o regime dos caciques, banindo dos plenários os comunicadores, bigbrothers, atletas e palhaços profissionais. Salvo alguns tropeços para confirmar a exceção da regra, como a estrela pornô Cicciolina, na Itália.
    No escurinho dos conluios começa a briga de foice pelo lugar na lista. Normalmente o líder (como se diz na Europa) entra em primeiro. Mas isto no parlamentarismo. Aqui deve ser diferente.
    Vão se esmurrar caciques, corporações, minorias, religiosos, puxadores de voto leigos ou ateus e assim por diante. E os majoritários, presidente e vice, governadores, senadores?
    O objetivo imediato é tirar o “centrão” do jogo, em nome da governabilidade. Haveria um objetivo secundário que seria dar chapa a políticos acusados de corrupção. Pode ser que se crie também uma cota para indiciados.
    O fundamental é que com a proibição de uso de dinheiro próprio ou de terceiros por candidatos individuais, não haverá forma de ratear os recursos do Fundo Partidário. Terá de ser tudo canalizado para as listas.
    Mesmo as contribuições legais, individuais de pessoas físicas controladas pelo CPF do doador, não podem ser usadas por candidatos individuais. Entra no caixa do partido e vai para o rateio.
    Este é o problema. Ninguém quer falar disso, mas todos sabem que no fim do túnel a chamada “classe política” vai se justificar com a necessidade inexorável de entregar aos partidos a administração dos recursos.
    Então a lista é a única forma de fazer uma eleição igualitária, dirão.
    Porque isto? A Justiça Eleitoral, apoiada nas polícias, vai vigiar e controlar todos os gastos legais e descobrir os ilegais. Ninguém terá coragem de burlar a Lei, pois a mão da moça de olhos vendados será pesada.
    Contra a força não há resistência, dizia-se no Rio Grande nos tempos das revoluções. O ditado político volta a assombrar partidos e candidatos, só que desta vez são os grampos da Polícia Federal e não mais os mosquetões do Provisórioss do Dr. Borges de Medeiros.
    A percepção dos profissionais do ramo (dirigentes, burocratas de partidos e marqueteiros eleitorais) é que não vai dar para gastar nem um centavo por baixo do pano nem falar bobagem ao telefone.
    Também não vai ser possível fazer encontros fortuitos, nem receber pacotes suspeitos, nem pagar contas em dinheiro.
    Cuidado com o que os dedos teclam nos e-mails, tweeter, face book, redes sociais.
    Também estão expostas aos hackers as movimentações financeiras. Cuidados com palavras ditas ao vento: quem estiver militando em campanhas deve falar sempre com a mão na boca.
    Quem estiver metido em política que ande sempre com as mãos à mostra, os bolsos para fora das calças, tudo bem à mostra porque não há como escapar da vigilância fina. Qualquer passo em falso pode gerar uma impugnação.
    Tudo em nome do aperfeiçoamento da democracia, da verdade eleitoral e da lisura do pleito. Dinheiro só do Fundo Partidário. Financiamento púbico de campanha. Sair desses limites é um risco para lá de arriscado.
    É inesgotável estoque de grampos, infinito o número de câmaras e microfones. A parafernália eletrônica aposentou os antigos “ratões” dos tempos da ditadura. É de fazer inveja aos abelhudos do SNI dos tempos do Presidente Médici.
    A jovem democracia brasileira parece que levou a extremos inimagináveis o velho lema da antiga UDN: “O preço da Liberdade é a Eterna Vigilância”. Bota vigilância nisto.
    Sonho de uma noite de verão? Quem viver verá, dizia o velho Acácio.

  • Porto Alegre merece mais

    às vésperas de completar cem dias no cargo, o prefeito Nelson Marchezan Junior ainda está devendo um plano de governo aos portoalegrenses.
    Ele já descobriu que o caixa da prefeitura está raspado. Já paralisou obras por falta de recursos, suspendeu contratos de prestadores de serviços e até anunciou que pode atrasar os salários dos funcionários públicos.
    Tudo isso é compreensível, diante do quadro de crise que se vive no país. Nada disso, porém, justifica  que o prefeito, a estas alturas, não tenha sequer completado sua equipe de governo.
    Mesmo a grande novidade apresentada pela nova gestão, a criação de um “banco de talentos”, para escapar das pressões partidárias por cargos, permanece sendo uma incógnita. Pouco se sabe dessa instituição que até agora parece apenas uma cortina de fumaça para encobrir a velha prática de troca de cargos por apoio político.
    Porto Alegre merece mais e certamente foi esperando outra atitude que a população rompeu com o continuísmo e elegeu um jovem político, com perfil de administrador.