Categoria: ANÁLISE&OPINIÃO

  • Skaf, o homem do pato, recebeu R$ 6 milhões da Odebrecht

    Lembra daquele enorme pato amarelo que a Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo)  colocou na Avenida Paulista durante as manifestações e que foi um símbolo da campanha contra o governo Dilma?
    Pois é, agora se fica sabendo quem realmente “pagou o pato”.
    Em seu depoimento nesta quarta-feira, o empresário Marcelo Odebrecht, presidente da empreiteira que está no centro do esquema de corrupção política que assola o país, declarou que R$ 6 milhões (de um total de 10 milhões doados pela empresa via caixa 2 ) foram destinados a Paulo Skaf, atual presidente da Fiesp, que foi candidato do PMDB ao governo de São Paulo em 2014.
    A informação, claro, não mereceu maior destaque nos grandes jornais.

    Skaf hoje é um dos maiores defensores do governo Temer e defende entusiasticamente a “flexibilização” das leis trabalhistas. “No futuro, uma das grandes crises a ser enfrentada é a do desemprego. Nesse sentido, é fundamental a reforma trabalhista”, declarou ele em palestra recente.
    “O presidente da Fiesp e do Ciesp disse estar confiante quanto às reformas em curso. Skaf também tratou da expectativa de queda mais acentuada dos juros nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom)”.

    Reunião do Cort com a participação de Paulo Skaf. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

    Reunião do Conselho Superior de Relações do Trabalho da Fiesp com a participação de Paulo Skaf. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

     
     
     

  • Os novos pobres

    Geraldo Hasse
    Saiu no jornal O Globo do Rio um relatório do Banco Mundial sobre o recrudescimento da pobreza do Brasil.
    O revés recomeçou em 2015, intensificou-se em 2016 e deve manter-se em 2017 e nos próximos anos, caso não sejam adotadas medidas que levem à recuperação da economia, sem o que não se abrirão novamente as portas dos mercados de trabalho.
    Segundo o estudo, que na realidade se baseia em dados da Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios (PNAD 2015), do IBGE, o número de pessoas vivendo na pobreza no Brasil aumentará entre 2,5 milhões e 3,6 milhões até o fim deste ano.
    A diferença de 1,1 milhão entre as duas estimativas depende do comportamento da economia.
    Se a recessão continuar, o número de pobres chegará a 20,9 milhões, sendo 9,4 milhões em estado de miséria. Se a economia der uma arribada, os pobres ficarão em 19,8 milhões (8,5 milhões de miseráveis).
    Os “novos pobres”, assim chamados porque estavam acima da linha da pobreza em 2015 e já caíram ou cairão abaixo dela neste ano, são na maioria adultos jovens, habitantes (90%) de áreas urbanas e 58,8% deles estavam formalmente empregados até 2015.
    É uma situação que se configura como tragédia num país marcado historicamente por gritantes desigualdades sociais e regionais.
    O perfil dos “novos pobres” é bastante diferenciado dos “estruturalmente pobres”, aqueles que já viviam em condição de pobreza em 2015 e continuam nessa situação, no conceito formulado pelo Banco Mundial.
    A parcela dos “pobres estruturais” é 10% mais velha (média de 41 anos de idade entre os chefes de família), menos escolarizada (17,5% com ensino médio ou mais, contra 37% dos novos pobres), e tem presença importante na área rural (36%), onde as atividades agrícolas vêm mantendo as pessoas empregadas.
    Entretanto, graças ao seu perfil (destaque para o melhor nível educacional), os “novos pobres” podem ser mais facilmente alcançados por políticas de geração de renda, acredita o Banco Mundial, que se alia ao Fundo Monetário Internacional no combate às desigualdades econômicas.
    Se quiser reduzir a pobreza extrema aos níveis de 2015, base mais recente de dados oficiais sobre renda, o governo terá que aumentar o orçamento do Bolsa Família este ano para R$ 30,4 bilhões no cenário econômico mais otimista e para R$ 31 bilhões no quadro mais pessimista, segundo o relatório do Banco Mundial.
    Para 2017, o BF dispõe de R$ 29,8 bilhões, consolidando uma redução de 10% nos últimos dois anos (a última cifra sobre o BF no final de 2014 era de R$ 33 bilhões).
    Se o programa não for ampliado, a proporção de brasileiros em situação de miséria subirá para 4,2% este ano no cenário otimista e para 4,6% no pessimista.
    Em resumo, o número de miseráveis no Brasil está perto nove milhões de pessoas – o mesmo que a população do Estado de Pernambuco.
    Conclusão: enquanto o Brasil vive o primeiro aumento da pobreza após uma década de ascensão generalizada da renda das camadas mais baixas da população, nem o governo nem a sociedade se deram conta de que a crise social se tornou mais aguda nos últimos dois anos.
    E tudo indica que a situação vai continuar se agravando, como se a miséria fosse um mal necessário e inerente à história da humanidade. Pelo que se vê nas ruas, as pessoas se comovem mais com um cãozinho sendo maltratado do que com ser humano passando fome, frio ou sede.
    Por isso é bom lembrar que aos pobres não falta só comida. Eles não têm habitação decente e carecem das condições mínimas da cidadania: acesso ao mercado de trabalho, a uma instrução melhor, a transporte coletivo de qualidade e bom atendimento de saúde pública. Roupa nova, esporte, lazer e viagens de turismo são fantasias irrealizáveis a curto ou médio prazo.
    Se não quiserem catar lixo ou pedir esmola, talvez lhes reste recorrer às drogas, um caminho praticamente sem volta.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “Nunca conheci ninguém podre de rico. Mas já vi milhares de pessoas podres de pobre.”
    Millor Fernandes (1923-2012)

  • O fim das polícias militares

    A Brigada Militar pode ser levada de roldão para a vala comum das rebeliões das polícias militares.
    Embora seja uma instituição que mantém intactos os princípios do militarismo, a força armada gaúcha pode entrar pelo ralo no desmonte do princípio que justificou, no passado, a manutenção de uma polícia militarizada.
    O objetivo, então, era manter as tais forças da ordem infensas às mobilizações corporativas das policias civis.
    No momento em que se esvai o princípio da autoridade e da hierarquia, perde sentido o princípio que sustenta essas forças estaduais. A polícia militar deixa de ser militar.
    Vira uma polícia civil, como no resto do mundo.
    Como se recorda, as atuais PMs eram as antigas forças públicas, ou seja, exércitos estaduais. Depois do golpe de 1964 foram reconvertidos em polícias, com o objetivo de constituírem-se em garantias da ordem própria desse modelo.
    Com as recentes rebeliões das mulheres dos soldados, os oficiais perderam sua autoridade e a hierarquia derreteu-se. Não são mais forças militares.
    Com isto, perde-se o sentido de ter tais polícias. Fica para a sociedade só o ônus dos defeitos do militarismo para as atividades civis, sem as tais vantagens da disciplina cega. Com isto, deve ser desmontado o sistema inteiro.
    Algumas corporações que tenham se escapado da deterioração serão levadas por diante, pois a regra terá de ser geral para o País.
    A verdade é que mesmo no Rio Grande do Sul, com sua Brigada Militar considerada a melhor e mais disciplinada dessas forças, até pouco tempo comparada à célebre Legião Estrangeira da França, com nova lei extinguindo as polícias militares também chegará ao fim seu modelo de exército e se recomporá como uma polícia civil de alto nível.

  • A organização ou a morte

    WALMARO PAZ
    No ano de 2015 acompanhei o processo eleitoral do Haiti pessoalmente durante três meses. Tive a graça de conhecer a cultura riquíssima daquele povo e a erudição de diversas de suas lideranças.
    Quem mais me impressionou foi o lider do Mouvement Paysan Papaye, Chavanes Jean Baptiste, que coordena as atividades de 60 mil famílias de camponeses na região do Platô Central.
    Suas lutas vão desde a briga pela terra que ocupam, passando pela pesquisa aplicada em agroecologia, até a educação das crianças assumida pelo movimento que constrói e mantêm escolas.
    Ao analisar a conjuntura em sua primeira entrevista Chavanes confessou não acreditar no processo eleitoral, para ele uma farsa ( une mascarade), mas que participaria da campanha para denunciar exatamente isso. “Estamos passando por um processo de recolonização que deverá se estender por toda a América Latina”.
    Ele me fez entender a política neoliberal em sua experiência mais radical. No Haiti tudo foi privatizado, até a água potável e suas praias. Um trabalhador haitiano recebe cerca de 4 dólares por dia de trabalho e se for comprar água tratada gastara cerca de um dólar por litro.
    No ensino publico se um pai não tiver 500 dólares não consegue matricular seu filho. Nos postos de saúde para se ter uma consulta médica é necessário dar ao médico plantonista cerca de 40 dólares.
    A previdência social praticamente inexiste. Conheci uma pedagoga, diretora de escola aposentada que depois de 45 anos de trabalho vive da caridade de seus amigos e vizinhos e quase morreu de inanição depois do terremoto.
    Conversei com ela, amarga, mas ao mesmo tempo com esperança nas lutas da juventude, Bobol, este é o seu apelido vive seus últimos dias num cortiço no meio de cabritos e porcos em Delmas, Porto Príncipe.
    A energia elétrica é privada e a mesma empresa que gera e fornece energia durante cerca de dez horas na capital, vende geradores para quem tiver a necessidade de usá-la permanentemente.
    São fatos que deixaram claro para mim, onde iremos com este processo. Mas porque estou falando nessa vivência? É simples, porque o processo de recolonização chegou ao Brasil e está sendo alavancado pelos golpistas de plantão.
    Querem aprovar com rapidez medidas que terminarão com a previdência social trocando-a por uma privada sem a menor garantia; querem derrocar a CLT, colocando o contratado acima do legislado; já começaram a privatizar a água no Estado do Rio de Janeiro; já privatizaram a energia elétrica e estão entregando o que restou para as transnacionais abrindo o Pré-sal.

    No Rio Grande do Sul entregarão o carvão mineral, o gás resultante de seu aproveitamento e o que restou da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE). O Banrisul está sendo negociado e não demora serão a CORSAN ( Companhia Riograndense de Saneamento) e o DMAE ( Departamento Municipal de Águas e esgotos).

    Isso me assusta, por isso , no início lembrei-me do Haiti e da previsão de seu líder camponês para o restante da América Latina. Mas resta a esperança que também vem da Pérola das Antilhas: a resistência de seu povo, sua organização em movimentos populares e camponeses. Por isso gostaria de lembrar o lema do MPP: “Loganization ou lamort” ( A Organização ou a morte).

  • A frase da ministra e a ousadia dos canalhas

    PC DE LESTER
    “Temos que ter a ousadia dos canalhas.”
    Recupero de memória a frase da ministra Cármen Lúcia que encheu de esperanças os brasileiros, como eu, que ainda acreditam na justiça. Terá sido em meados de 2016.
    Desde então os canalhas avançaram e hoje vai ficando claro que sua ousadia não tem limites.
    Teori Zavaski, o duro relator da Lava Jato, morreu na queda do avião que o conduzia a um fim de semana em Parati, no Rio.
    O avião estava em plenas condições, o dono e passageiro do voo era obcecado por segurança, o piloto era experiente, teria feito mais de uma centena de pousos naquela pista, as condições climática não eram incomuns na região.
    O gravador de voz, recuperado dos destroços do avião, revelou uma situação tranquila, o piloto em pleno domínio do vôo, fazendo um tempo para aterrissar em condições seguras.
    Mas eis que, nos instantes decisivos do pouso, o gravador para de funcionar e aí não é possível saber o que aconteceu. “Uma desorientação espacial do piloto” aventaram os peritos que analisaram o gravador,  cujo nome ou rosto não foi mostrado.
    A partir daí, o noticiário sempre criterioso da Rede Globo e enfileiradas, passou a usar um bordão: o ministro que morreu “numa queda de avião, cujas causa estão sendo investigadas”.
    Do restante das investigações ninguém sabe, ninguém viu, correm em segredo de justiça. Mas, para que teorias conspiratórias, se a Globo já adiantou as conclusões: foi um acidente, cujas causas estão sendo investigadas?.
    Enquanto isso, Temer recompensa  a diligência de Alexandre Moraes, ao resolver em tempo recorde o caso do racker que tentou achacar a primeira dama, nomeando-o ministro da Justiça.
    Em seguida, nomeia Moreira Franco ministro para que ele tenha foro privilegiado.
    O STF  dança um minueto e acaba concluindo que está  tudo certo (Ah, vai a plenário, para mais uma contradança…)
    O chefe da Casa Civil, diz em palestra que é assim mesmo: o governo compra votos.
    E Jucá, talvez o mais ousado dos canalhas, apresenta um projeto para blindar o presidente da Câmara e do Senado das acusações na Lava Jato.
    Terei omitido detalhes. Mas a conclusão é uma só: os canalhas continuam mais ousados do que nunca…E a frase da ministra Cármen Lúcia… fica sendo só mais uma frase.
     
     

  • Lula vai mudar o discurso

    PINHEIRO DO VALE
    A novidade política desta semana é que o ex-presidente Lula mandou parar com o bordão “Fora Temer” e retirar as expressões “golpe” e “golpismo” do discurso de seu partido.
    Este novo posicionamento significaria, na prática, remeter a ex-presidente Dilma para o passado.
    São passos de Lula para a retomada de sua iniciativa política, sacudindo a poeira da tragédia pessoal e do comando de seu partido com vistas ao grande desafio de 2018.
    Um primeiro passo é recompor o discurso com palavras de ordens propositivas. O que passou, passou.
    O passo seguinte será recompor alianças consequentes ao centro. Um dos alvos é o irrequieto PMDB, que também está sem candidato.
    O último lance do PT pós impeachment foi a desobediência da bancada federal às ordens estratégicas de Lula.
    O PT ficou chupando o dedo. Esta seria a imagem mais aproximada do resultado da atuação da bancada de deputados federais do PT nesse episódio tragicômico em que se converteu a atuação do partido na eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados.
    Tamanha barbeiragem está sendo atribuída a uma consequência colateral da tragédia do derrame e morte de Dona Mariza Letícia.
    Atucanado com o colapso da mulher, Lula abandonou a bancada à própria sorte e não pode evitar o desastre.
    Uma parte significativa da bancada rebelou-se contra a ordem do presidente Lula de se compor com os grandes partidos e votou contra o deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ).
    Sem resultado e o PT da Câmara Baixa ficou chupando o dedo, a reboque do Centrão.

  • Missão temerária

    GERALDO HASSE
    Ao se apossar do poder com um apetite de jejunos e uma imensurável falta de espírito público, o grupo predador da democracia em ação no Planalto não demorou a colocar na agenda uma série de projetos que atingem em cheio a maioria da população brasileira, agora e no futuro.
    Os dois primeiros projetos estão quarando ao sol de Brasília e aguardam o momento de entrar em pauta diante de deputados e senadores:
    >·        A reforma da Previdência Social está em discussão a toque de caixa no Congresso; fala-se que o governo quer a aprovação em março
    >·        A flexibilização da legislação trabalhista, em discussão há anos, já tem maioria de votos parlamentares
    Os outros dois projetos malignos rolam nos bastidores e configuram o que outrora se chamava entreguismo e atualmente se considera “integração na modernidade global”:
    >·        Alienação da independência energética mediante a venda sem licitação de áreas da maior descoberta da Petrobras: o Pré-Sal
    >        Esvaziamento do BNDES, do Banco do Brasil e a da Caixa Econômica Federal, abrindo espaço para a atividade de grupos financeiros privados nacionais e internacionais
    Restam dúvidas sobre o que Michel Temer e seus ministros pretendem fazer com os fundos de pensão de empresas estatais e com o FGTS; tudo somado, temos aí um ativo de mais de R$ 1 trilhão.
    Para o mal ou para o bem, há ameaças de que intervenha nessa área o Ministério Público Federal, como parte da Operação Lava Jato, que há três anos assombra executivos estatais, políticos e empresários com as investigações sobre propinas em contratos de prestação de serviços.
    Somando todos os projetos explícitos e os enviesados, fica claro que o governo Temer está na coordenação do maior esforço jamais feito no Brasil para a alienação da soberania nacional.
    Se tiver sucesso, a missão temerária poderá coroar-se com a adoção do dólar como moeda brasileira e a colocação de listras horizontais ianques na bandeira nacional.
    Se buscarmos o denominador comum dos projetos adotados como seus pelo governo Temer, veremos que eles atendem a interesses globais associados a organizações empresariais brasileiras, especialmente bancos, federações patronais e redes de comunicação alinhadas com o conceito do estado mínimo – alinhamento mais oportunista do que ideológico, é bom lembrar; enquanto a economia ia bem em anos recentes, as cadeias de mídia estavam alinhadas com o desenvolvimentismo, a inclusão social e outras “bondades” governamentais.
    Agora jornais, revistas, emissoras de rádio e TV apóiam medidas antiaposentados, antitrabalhadores e antinacionais que buscam a extinção de direitos consagrados internacionalmente.
    Espanta, por outro lado, a falta de reação popular via centrais sindicais, universidades, igrejas e a cidadania em geral.
    Também chama a atenção o amplo conformismo do Congresso.
    Ameaçada pela Operação Lava Jato, boa parte dos parlamentares adotou como tática de sobrevivência a saída antidemocrática: queima as pontes com seus eleitores, mas salva os próprios  patrimônios fazendo uma aliança estratégica com os financiadores de suas campanhas.
    Enquanto isso, a reforma política fica em segundo plano.
    Diante desse conjunto de circunstâncias negativas, restaria aos cidadãos o recurso à Justiça, mas que esperança: enredada numa teia de leis contraditórias, a senhora J. é frequentemente forçada a adotar saídas ditadas por conveniências políticas.
    Na instância suprema, uma das saídas mais comuns é omitir-se e/ou postergar as decisões. Dessa forma, em último caso, o julgador acaba sendo o Tempo, que vai liquidando inexoravelmente juízes e réus, sem discriminação nem preferências.
    O que está acontecendo que ninguém se mexe?
    Vai para quatro anos que começou (junho de 2013) a explosão social contra o aumento de R$ 0,20 nas passagens de ônibus urbanos. As manifestações de revolta foram manipuladas por grupos políticos que acabaram criando o caldo de cultura favorável ao impeachment da presidenta eleita, afastada definitivamente em 31 de agosto passado.
    De 2013 para cá, mais do que dobrou o número de desempregados formais no Brasil. São agora 12,3 milhões numa população economicamente ativa de 100 milhões. Esse número (12,3 milhões de trabalhadores) não diz tudo, já que contabiliza apenas as pessoas que, segundo a pesquisa do IBGE, procuraram emprego nos últimos 30 dias.
    Estão fora da estatísticas os milhares, milhões que não procuram vagas pois já cansaram ou perderam a esperança e se conformam em fazer bicos no mercado informal de trabalho ou se encostaram em algum membro da família.
    Há notícias de que no Nordeste aposentados rurais “ajudam” total ou parcialmente uma dezena de parentes, entre adultos e crianças. Nesse sentido, a reforma da Previdência proposta pelo governo significa uma tragédia em dois atos.
    Primeiro, vai diluir os benefícios dos que se valem da previdência pública para sobreviver quando já lhes faltam forças para trabalhar.
    Segundo, vai privilegiar a previdência privada, fazendo com que a segurança dos aposentados se torne um negócio lucrativo para alguns e arriscadíssimo para milhões.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    Desde a falência da Varig, causada por uma mistura de má administração privada e leniência governamental, estão na chuva dez mil contribuintes do Aerus, fundo previdenciário dos aeronautas, que brigam na Justiça para receber seus benefícios

  • Recado do Espírito Santo: "Eu sou você amanhã"

    ELMAR BONES
    O Espírito Santo tem menos de 4 milhões de habitantes, 2% da população brasileira, 0,5% do território nacional.
    O que ocorre lá há uma semana é, em escala piloto, o que pode ocorrer em todo o país, se a crise política e econômica continuar se aprofundando.
    O atraso nos salários e as más condições de trabalho que levaram os policiais militares à greve…a onda da violência que se desencadeou na região metropolitana da capital, Vitória, com a falta de policiamento nas ruas…
    São ingredientes de uma situação latente em todas as capitais brasileiras, em muitas delas, o Rio, por exemplo, com potencial explosivo ainda maior.
    O saldo neste sábado à tarde era de 138 mortos, 300 casas comerciais arrombadas, 200 carros roubados, saques a lojas e supermercados na periferia de Vitória.
    Uma relativa normalidade era garantida por cerca de 3.200 homens do Exército, que desde a quarta-feira patrulham as áreas mais movimentadas da capital e cidades do entorno.
    Como num laboratório social, no Espírito Santo misturou-se a falência do poder público, que não consegue garantir nem o básico policiamento das ruas, o esfacelamento da cidadania, desamparada e ameaçada pelo desemprego e a pobreza, o crime organizado cada vez mais armado e poderoso…
    O resultado é uma situação explosiva que leva sempre à mesma solução: intervenção das Forças Armadas.
    Como naquela propaganda, o recado que o Espírito Santo parece mandar ao Brasil é esse: “Eu sou você amanhã”.
     

  • Com o País jogado ao caos, a Esquina Democrática foi profanada

    ANDRES VINCE
    Rebelião nos presídios do Norte que se espalham pelo País. Rio de Janeiro e Espírito Santo completamente fora de controle. RS e RJ sob intervenção federal branca. Enquanto isso, Temerildo nomeia um comparsa como ministro para ele escapar dos ferozes juízes de primeira instância. Mas foi pouco, não contente, Temerildo indica outro comparsa, de carreira jurídica questionável e suspeito de enriquecimento ilícito, para a mais alta corte do País, de onde poderá dar mais uma mãozinha para outros comparsas da gangue.
    O caos se espalha rapidamente pelo País, sem encontrar nenhuma resistência, pois, quem deveria estar no comando, está mais preocupado em salvar a própria pele, não sem antes agradar ao empresariado, aprovando “reformas” que só tiram direitos do cidadão, cada vez mais desprotegido e entregue à própria sorte.
    Pois ontem (9), esse avanço vertiginoso da deterioração da democracia atingiu seu ápice aqui na cidade de Porto Alegre. Não que surpreenda a violência e a truculência nas ações da BM, já incorporada ao velho “é assim mesmo”. O que surpreende é o simbolismo do local escolhido para efetuar uma prisão completamente sem motivos, porém com um objetivo bem específico: baixar a moral dos manifestantes. E, assim, com esse objetivo torpe, a esquina democrática foi profanada no que tem de mais sagrado: um local historicamente de resistência e de lutas.

    DIA09022017b
    Prisão sem motivos: manifestante foi detido por ajudar os feridos pela BM. Até em guerras os socorristas são preservados, mas, não aqui

    Se quem deveria representar a lei, age ilegalmente sob a desculpa de manter a ordem, o que está faltando pra ser caracterizada a ditadura? O rapaz que foi detido era um socorrista, devidamente identificado através da placa/escudo que carregava e outros acessórios que não deixavam dúvidas das intenções do manifestante. Teve todo seu equipamento apreendido e teve que assinar um termo circunstanciado por, alegadamente, impedir o avanço do ônibus do batalhão de choque. Nem ao menos fizeram uma alegação decente.
    É claro que muitos são contra os atos de depredação, não poderia ser diferente, afinal já estão todos condicionados a se posicionarem contra tudo que coloque em risco “a ordem” estabelecida pelas autoridades.
    Também, é claro que esse mesmo pessoal não ligue tanto para o fato que no interior do estado, os bandidos estão explodindo agências bancarias todo santo dia, usando a população como escudo humano e sambando na cara das autoridades. Até viatura da polícia foi incendiada. Contra isso não há nenhuma repressão, nenhuma operação de guerra é montada com o deslocamento de grandes efetivos, nem ao menos há PMs disponíveis pra policiar as ruas.
    Mas, isso não tem problema, contra isso ninguém se revolta, afinal, os assaltos a bancos estão acontecendo bem longe do nosso umbigo.
    A criminalidade já está fora de controle há tempos e a BM continua sendo usada como ferramenta política, para abafar protestos legítimos.
    Se há depredação, que concentrem as ações para coibir esse tipo de atitude. Mas, usam isso como desculpa pra encerrar os protestos na base do gás e bala de borracha. Imagine que haja um grande evento. Alguém dá queixa que teve ser celular furtado. O que a polícia faz? Manda gás no meio de todo mundo e acaba com o evento pra pegar o ladrão ou vai pegar a descrição do sujeito que roubou e tentar localiza-lo? É óbvio que seria a segunda opção, mas por que agem diferente quando é um protesto político? O secretário de segurança disse aos jornais que não iria tolerar via trancada (como se isso fosse algum crime), mas não mandou a polícia baixar o cacete quando trancaram a avenida Goethe, bem diferente do que ocorreu em outras manifestações. Alguma dúvida do uso político da BM?
    Por aqui o governador nada de braçadas na maré do golpe. Já conseguiu a Força Nacional, que não disse a que veio até agora. Conseguiu oxigênio com o não pagamento da dívida federal, que não vai resolver coisa nenhuma, só empurrar pro próximo. Conseguiu extinguir fundações importantes para o funcionamento do Estado, economizando pouco mais que o dobro do que gasta em propaganda pra anunciar a crise financeira.
    Porém, aos poucos, as consequências vão aparecendo.
    O pessoal de cima pensou que ia dar o golpe e que tudo ia ficar por isso mesmo? A população reage a sua maneira, afinal, que mal tem pegar uma TV de LED ali na loja saqueada se os políticos de Brasília removeram uma presidente eleita honesta só pra salvar os seus próprios rabos e estancar a sangria? Já diziam nossas avós: “o exemplo vem de cima”.
     

  • "Saneamento" neoliberal e o desmonte do funcionalismo público

    Andre Forastieri
    “O Espírito Santo fez o dever de casa. O governador Paulo Hartung saneou o Estado. Equilibrou as contas públicas. É exemplo a ser seguido pelos outros Estados”. No ano passado esse era o discurso dos jornalistas, dos economistas, dos experts. Silenciaram nos últimos dias. Silenciaram também 87 pessoas, assassinadas desde a última sexta-feira.
    A violência no Espírito Santo está diretamente ligada aos planos de austeridade impostos pelo governo estadual nos últimos anos. Como o crescimento da violência no Brasil – e do desemprego e do desespero – está diretamente ligada aos planos de austeridade impostos pelo governo federal desde 2014. Quando os arrochos nacional e local se somam, as vítimas se multiplicam.
    O que os 10.300 policiais militares do Espírito Santo querem? É a PM com o mais baixo piso salarial do país, R$ 2460,00. A média do Brasil é R$ 3980,00. Eles não têm aumento há sete anos, e há três anos o governo estadual nem repõe as perdas da inflação. Os PMs também reivindicam a renovação da frota de veículos, a melhora das condições do hospital da polícia, e a compra de coletes à prova de bala, que estariam em falta.
    É fácil de argumentar que não devia existir Polícia Militar, só civil. Mas vamos deixar isso para lá no momento, e reconhecer que o que os PMs do Espírito Santo pedem não é muito. É muito pouco: salário mais próximo da média nacional e condições mínimas para fazer seu trabalho, que é bem perigoso.
    Em vez de negociar com a polícia militar, o governador pediu ao governo tropas do exército. Chegaram lá e tomaram tiros dos bandidos. Vitória segue paralisada, comércio e escolas fechadas, ônibus não circulam. Os turistas fogem das praias capixabas. Os corpos se acumulam no departamento médico legal, que não dá conta de tanta morte. A Polícia Civil está avaliando se adere à greve. E as esposas dos PMs seguem protestando nas portas dos quartéis.
    Qual a proposta concreta do governo do Espírito Santo para a PM? Nenhuma. A questão é que se o governador cede aos PMs, terá que ceder aos policiais civis. E depois ao resto do funcionalismo.
    O governador Paulo Hartung, do PMDB, começou essa política de arrocho já em 2015. Mesmo tendo os custos com funcionalismo bem abaixo do limite da Lei de Responsabilidade Fiscal. Naturalmente não faltou dinheiro para outras atividades do governo – desonerações a grandes empresas, obras eleitoreiras etc. Foi louvado, e até considerado um bom candidato à presidência da República.
    Tem outra questão. Se o governo começa a ceder às demandas dos funcionários do Estado, daqui a pouco vai ter que ceder às demandas da população que é atendida pelo Estado. Do povão em geral, que precisa de giz na sala de aula e merenda no intervalo, vaga e leito no hospital, paz para ir e voltar do trabalho, e outras coisas simples assim. E isso é exatamente o que os administradores do país, dos estados e das cidades se recusam a nos dar. Não que nada disso seria “dado”, porque que a gente já paga bem caro por isso tudo.
    Nos últimos tempos ouvimos muito o argumento de que “o Brasil está quebrado” – o país, os estados, as cidades – o que exigiria medidas duras. “Herança Maldita” que exige cortar na carne, no osso. Nos salários, aposentadorias, direitos.
    Na verdade, a conta é outra. O Brasil não está quebrado. O que o Brasil não pode mais se permitir é ter 99% dos brasileiros pagando muitos impostos, e o 1% dos brasileiros mais ricos pagando quase nada de impostos. Nossos milionários pagam pouco imposto de renda como pessoa física, pagam pouco imposto de herança, e como pessoa jurídica pagam também pouquíssimo imposto. Além disso as grandes empresas têm toda espécie de benefícios do Tesouro Nacional. Empréstimos de pai para filho do BNDES e BB, dívidas perdoadas, “desonerações” etc.
    Ontem o Espírito Santo já contava 75 assassinatos, depois de três dias de greve da PM. Ontem o Itaú, o maior banco do Brasil, publicou o seu balanço. No ano de 2016, com a maior recessão que o país já viveu, o Itaú lucrou R$ 22 bilhões. Se esse lucro fosse taxado em 50%, ainda assim seria um belíssimo lucro. O que dá para fazer com R$ 11 bilhões? Escola, estrada, esgoto.
    Esse é só um de muitos exemplos possíveis. Se o Brasil não der um presente bilionário às empresas de telecomunicações, como quer o governo, também teremos um bom dinheiro para pagar policiais, professores, enfermeiras. É a Lei Geral das Telecomunicações, que está para ser aprovada, e transfere para Oi e outras teles um valor tão grande, que nem se sabe exatamente quanto é. O governo diz que é R$ 17 bilhões, o Tribunal de Contas da União diz que é R$ 105 bilhões…
    E por aí vai.
    Ainda podemos botar na conta o tanto que se desvia na corrupção, que sabemos não é pouco. E o que se sonega, que sabemos que é muito. Segundo a Procuradoria da Fazenda Nacional, a sonegação de impostos no Brasil pode chegar a R$ 500 bilhões por ano. Para você comparar: o Bolsa-Família custa R$ 27 bilhões por ano.
    A próxima vítima será o Rio de Janeiro. O estado está para assinar um acordo com o governo federal que inclui um pacotão de arrocho para cima dos funcionários públicos do estado, inclusive policiais. Uma das exigências do governo é a privatização da Cedae, a companhia estadual de águas e esgotos, o que será feita por Pezão, vice de Sérgio Cabral…
    As políticas de “austeridade” no mundo todo deram errado e estão dando muito errado aqui também. Em 2017 o Brasil não vai crescer nada. O que o poder público nos oferece são serviços públicos cada vez piores, chegando à insanidade de termos 87 mortos em quatro dias no Espírito Santo.
    Na prática, os brasileiros pobres e da classe média sustentam as benesses dos brasileiros super ricos, a mamata dos sonegadores e a sujeira da corrupção. Então falta dinheiro para cobrir as necessidades básicas da população. Se a gente parar de sustentar os ricos, o Brasil equilibra as contas rápido.
    E se além disso os ricos passarem a pagar a sua parte, o Brasil rapidamente vai ser tornar… rico.
    Vamos encarar a realidade: tem dinheiro de sobra para o Brasil ser um país melhor para todos. Esta é a única pauta que importa, a pauta que precisamos impôr a cada dia, e também a cada nova eleição. Basta cobrar mais imposto de quem pode pagar mais, o que nunca aconteceu. Bater forte na sonegação e nos sonegadores, o que nunca aconteceu. E bater forte na corrupção e nos corruptores, o que começou a acontecer – mas só começou e agora, pelo jeito, parou.
    Na prática, o que está sendo feito pelos nossos governantes, e apoiado pelos economistas, colunistas, especialistas, é o contrário do que precisa ser feito. O Espírito Santo de hoje é o Brasil de amanhã. E a próxima vítima é você”.