Categoria: ANÁLISE&OPINIÃO

  • Sempre a dúvida

    WALMARO PAZ
    Foi acidente ou foi sabotagem para queima do maior arquivo vivo da cena política brasileira? A Globo e todo o restante da grande imprensa tem repetido que “tudo leva a crer que foi um acidente”. Já as dúvidas foram levantadas pela família da mais importante das vítimas e possível alvo de atentado.
    O filho do ministro Teori, Francisco Zavascki, foi o primeiro. Quer uma investigação profunda sobre a morte do pai. “ Não quero ser órfão de um ministro assassinado”, expressou claramente.
    Sua tia, a irmã do ministro morto, em entrevista ao Estadão, afirmou “ deve haver coisa grande por trás disso”. Ela lembrou que ele sempre tranquilizava a família afirmando estar sempre cercado de seguranças. A pergunta que ela deixa no ar é: “ onde estavam os seguranças do ministro Zavascki quando ele embarcou naquele avião?
    Outra questão que ninguém levanta: a quem serviu a morte de Teori? Quantos indiciados pelas delações da lava jato ganharão mais tempo, como disse o ministro Eliseu Padilha. Alguém já especulou: “ este avião caiu que nem uma luva”.
    Creio, sem sombra de dúvida, que esta morte e suas investigações terão o mesmo destino de outras que a antecederam. O acidente do avião que matou o marechal Castello Branco, no Ceará; o acidente de automóvel de Juscelino Kubistchek; a morte em acidente de carro  de Zuzu Angel durante da ditadura; a morte súbita de Carlos Lacerda; a morte de João Goulart; a queda do helicóptero com Ulysses Guimarães, também em Parati…
    Enfim são várias dúvidas que permanecem em um curto espaço de tempo na história política deste Brasil. Sem falar com as de centenas de desaparecidos menos ilustres durante a ditadura que até hoje suas famílias andam atrás dos corpos.

  • Tom Jobim tinha razão: "O Brasil não é para amadores"

    P.C. DE LESTER
    Tom Jobim, o grande maestro, que completaria noventa anos por esses dias e que conhecia a alma brasileira como poucos, cunhou a frase genial: “O Brasil não é para amadores”.
    Aí está a morte do ministro Teori Zavascki que não o deixa mentir.
    A sensação, neste início de ano,  é de que o país está nas mãos de duas categorias de criminosos que em algum ponto se tocam – o crime organizado nos porões das cadeias, que corta cabeças e posta no face e o crime do colarinho branco, engendrado em altos gabinetes, capaz de eliminar seus desafetos sem deixar pegadas.
    Sem dúvida, não é para amadores…
    Em todo caso, resta esperança nas palavras da ministra Carmen Lúcia:
    “O crime não vencerá a Justiça. Aviso aos navegantes dessas águas turvas de corrupção e das iniquidades: criminosos não passarão a navalha da desfaçatez e da confusão entre imunidade, impunidade e corrupção. Não passarão sobre os juízes e as juízas do Brasil. Não passarão sobre novas esperanças do povo brasileiro, porque a decepção não pode estancar a vontade de acertar no espaço público. Não passarão sobre a Constituição do Brasil.”
     
     

  • A chefa da Justiça manda recado. É pra valer?

    GERALDO HASSE
    Até que enfim a ministra Cármen Lúcia, atual chefa do Supremo, pediu aos membros do Judiciário que se empenhem no esvaziamento das prisões, lotadas por 600 mil presos, 40% dos quais trancafiados sem processo em consequência de três fatores principais: o crescimento da criminalidade, a diligência do aparato policial e a morosidade do sistema judicial.
    À combinação dessas causas aliam-se outros ingredientes explosivos como a crise econômica, a corrupção no interior das penitenciárias e a influência do tráfico de drogas ilegais em todas as instâncias do poder. Tudo isso, junto, gera uma mixórdia dos diabos, aquecendo o caldeirão que se põe a ferver aqui e ali, ora nas ruas, ora num presídio, ora num palácio governamental.
    Eis que vem a suprema juíza e lança ao seu exército o desafio: vamos acelerar os processos de modo a reduzir o volume de presos quase pela metade. Será possível? Vamos pagar para ver como se comportarão os milhares de juízes espalhados por todo o território nacional. O fato é que, se cada um deles tirar de cana um preso por dia, no final do ano a população carcerária terá caído pela metade. Na prática, pode não ser tão simples assim.
    A libertação de presos que já cumpriram pena é um dever ético dos juízes. Soltar os presos provisórios ou temporários/preventivos também é obrigação da Justiça. Isso vale para pobres e ricos. E aqui vem um senão: talvez o apelo de Cármen Lúcia caia no vazio, pois o Judiciário não é lerdo à toa. Independentemente dos vícios corporativos, ele administra um sistema cheio de idas e vindas, cursos e recursos, avanços e recuos, tudo de acordo com uma infinidade de leis criadas em nome do Direito – e em nome do Direito não se faz Justiça.
    Não é por acaso que há juízes se unindo a procuradores no afã de prender sem provas e condenar sem culpa comprovada nos altos escalões da economia e do governo. É exatamente por isso que o sistema judicial, junto com as redes policiais e o esquema penitenciário, desfruta de pouca credibilidade junto à sociedade, que não se conforma ao ver tantos militantes da Justiça enredados numa teia que se confunde com as redes mantidas pela Corrupção ou, seja, o Dinheiro.
    É animador ver a juíza suprema cutucar o sistema, incitando-o a exercer seus deveres e prerrogativas, mas devemos admitir que esse é apenas o primeiro passo no caminho de uma Justiça realmente redentora.
    Sabemos que grande parte dos crimes que abarrotam as cadeias é cometida sob efeito de drogas e/ou tendo por motivação disputas por pontos de venda ou áreas de distribuição disso ou daquilo.
    Daí se entra num mundo absolutamente surreal: afinal, se as drogas alteram a percepção das pessoas, levando-as a cometer infrações à lei, onde está o problema: nas leis, nas pessoas ou nas drogas? Ou será a busca insana do Dinheiro que transtorna todos?
    É de duvidar que Cármen Lúcia ou qualquer um dos seus 10 colegas do Supremo, os desembargadores dos estados e os juízes em geral tenham uma avaliação desse problema ou se disponham a se aprofundar no tema em busca de uma saída planejada.
    Até agora, com raras exceções, os togados preferiram manter-se acomodados sob o manto das leis. A maioria não passa dos discursos bem intencionados. Todo início de ano as faculdades de direito convidam sumidades jurídicas para aulas magnas que não mudam uma vírgula sequer nas decisões judiciais. Na própria hierarquia do Judiciário se encontram procuradores e juízes e até funcionários com sensibilidade e disposição para mudar a rotina do Mal, mas a maioria se mantém inerme por medo ou preguiça, só fazendo o feijão-com-arroz de sempre.
    Nos poderes executivos, a maior compreensão do problema está mais nos profissionais da saúde do que nos setores policiais ou penitenciários, onde uma parcela dos funcionários faz vista grossa diante do poder do tráfico.
    No Legislativo, um ou outro galo sobe na tribuna para cantar, mas já nos acostumamos com as bancadas ágeis na defesa de interesses corporativos e lerdas no aprofundamento de questões cruciais – a maior delas é a saúde física e mental da população, item que depende do nível da educação e por aí vamos até trombar com a desigualdade social, mãe da miséria e da violência. Ou, seja, está tudo junto, sendo as drogas – do álcool ao crack – o denominador comum de grande parte das situações que levam às cadeias e aos hospitais, ao absenteísmo no trabalho e à evasão escolar. .
    Assim chegamos à conclusão irrecorrível como uma sentença do STF: não adianta combater o tráfico de drogas, pois quem o sustenta é a demanda dos consumidores. O uso de drogas legais ou ilegais, leves ou pesadas, é questão de saúde, não caso de polícia. Estamos a enxugar gelo.
    Após o primeiro lance da ministra Cármen Lúcia, quem terá coragem de encarar o Dragão?
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “O dinheiro fala. Mas bom mesmo é o dólar, que fala todas as línguas.”
    Millor Fernandes

  • Caça às bruxas favorece o Centrão

    pinheiro do vale
    A caça às bruxas já começou. Embora o presidente ilegítimo Michel Temer tenha dado garantias de que não passaria o rodo sobre os remanescentes do governo da presidentedeposta Dilma Rousseff, os dedos-duros estão apontando petistas que permanecem nos cargos depois do golpe.
    Nesta semana as denúncias começaram a se explicitar. O colunista Cláudio Humberto, jornalista bem informado sobre os bastidores de Brasília está dando nomes e cargos dos remanescentes do antigo regime que ainda não foram afastados, cobrando providências aos degoladores de cargos do Palácio do Planalto.
    Os observadores do que estaria ocorrendo nestas águas turvas sugerem que pode ser uma manobra do “centrão” para aumentar a animosidade entre petistas e peemedebistas com a finalidade de torpedear o “acordão” entre os dois maiores partidos no Congresso para a partilha dos principais cargos nas duas casas do parlamento.
    Os dois antigos aliados, compostos com o PSDB, haviam  chegado a uma fórmula para a divisão do mando no Poder Legislativo. Com isto, deixariam o volúvel “centrão” de fora, extinguindo essa fonte de instabilidades, como se viu na gestão do defenestrado Eduardo Cunha.
    A montagem dos grandes partidos é a seguinte: no Senado, PMDB fica com a presidência com o senador Eunício Oliveira, do Ceará, representante do esquema sarneysista, com apoio de Renan Calheiros; a vice-presidência, cargo importante, mas sem poder de gestão, com o senador Paulo Bauer, do PSDB de Santa Catarina, contemplando o Sul. Ao PT caberia a secretaria geral.
    Na Câmara, algo parecido: na presidência o deputado carioca Rodrigo Maia, do DEM (ex-PFL), partido satélite do PSDB, algo semelhante ao PCdoB na sua aliança eterna com o PT. O vice   poderia caber ao PMDB e a secretaria geral também ao PT. Ao “centrão”, nas duas casas,caberiam as posições periféricas nas mesas diretoras.
    Essa partilha de poder é coerente, pois ao PT, partido de oposição, cabe os cargos mais importantes para a administração das duas Casas, enquanto os governistas ficam com o
    comando das pautas de votações. Como disse um senador: “A Secretaria Geral é a prefeitura do Congresso”. Ou seja, os secretários gerais administram uma população de mais de 25 mil funcionários, um númer  equivalente ao efetivo da Marinha de Guerra ou do tamanho da força de trabalho da Volkswagen. Sem falar do orçamento, maior que de muitas capitais de estados.
    Tudo certinho: só faltou “combinar com os russos”. Uma fração do PT não está engolindo o “acordão” da cúpula e ameaça somar-se ao “centrão”, só para complicar a vida do governo, que se veria diante de uma direção incontrolável no Legislativo, tal qual Dilma.
    Isto explica a dúvida especulada na abertura desta matéria. Caçando as bruxas petistas o governo estaria criando uma área de atrito que poderia desaguar na implosão do “acordão”, favorecendo o “centrão” e enfraquecendo a esquerda orgânica.
    O “centrão”, é bom lembrar, origina-se numa anomalia recente na história política do Brasil. No passado, o poder central já se defrontou com a fragmentação em partidos estaduais, que formavam frentes nacionais, tal como hoje é o PMDB. Este novo bloco, entretanto, deriva de partidos municipais.
    As tais legendas de aluguel nascem nos municípios para compor alianças para prefeituras ou abrir espaço para candidaturas avulsas. Quando se apresentam em nível estadual já se transformam num ente esdrúxulo. No âmbito federal, os partidecos se convertem em balcões de negócios, imprimindo um fisiologismo até então desconhecido.
    Estas forças, o chamado “centrão”, são insensíveis e impermeáveis ao chamado interesse nacional. Por isto os grandes partidos se propuseram a desidratá-lo e, com a reforma partidária já aprovada no Senado, extinguir de vez.
    Nessa reforma não seria difícil acomodar parlamentares despartidarizados nas grandes legendas sobreviventes. Assim como seus partidos de aluguel, também os parlamentares serão sensíveis a convites apetitosos.
    O grande problema, aí, não é na direita, mas na esquerda. Como absorver os pequenos partidos ideológicos e históricos?
    São históricos porque têm divergências ideológicas de muitas décadas. É uma questão tão grave que já se propôs uma lei especial para eles. Mas se um dispositivo salva um pequeno partido da esquerda, a legislação valeria para a direita. Com isto, a reforma vai por águas abaixo.
    Aí está um problema insolúvel. Traz de volta a sentença vocalizada e nunca escrita por Gaspar Silveira Martins: “Ideias não são metais, que se fundem” ou “ Ideias não são metais que se fundem”. Persiste a dúvida da vírgula.

  • «Grândola Vila Morena»: o hino da contestação portuguesa

    A partida de Mário Soares – um dos principais líderes do campo democrático português –, no último dia 7 de janeiro, entristece a todos os democratas. Co-fundador do Partido Socialista português, sua oposição ao ditador Salazar lhe valeu o exílio em São Tomé e, depois, na França, de onde voltou três dias após a Revolução dos Cravos, em abril de 1974. Ocupou o cargo de primeiro-ministro por três mandatos e o de presidente por duas vezes.
    O texto que segue, escrito pela professora Maria-Noëlle Ciccia, da Universidade Paul-Valéry, resgata a história e a significação da canção-símbolo da Revolução dos Cravos – Grândola Morena – e presta uma homenagem a este grande personagem da história de Portugal.

    Patrícia Reuillard

    Maria-Noëlle Ciccia
    Em Fevereiro de 2013, no momento em que o Primeiro Ministro português Passos Coelho se preparava para pronunciar um discurso sobre o orçamento diante da Assembleia Nacional, um grupo de manifestantes conseguiu interromper o debate parlamentar durante longos minutos, entoando  a canção  « Grândola Vila Morena » nas galerias do Parlamento (vídeo). A escolha desta canção de José Afonso não se  fez ao acaso. Faz hoje parte do património cultural da democracia portuguesa, sacralizada como hino da contestação, embora não tenha sido concebida com tal objetivo. A letra (poema escrito em 1964 em homenagem à Sociedade Musical Grandolense na ocasião da festa da « Fraternidade Operária de Grândola ») e o caminho percorrido graças à transmissão por agentes ligados à dissidência, deram-lhe o caráter subversivo que ela não aparentava inicialmente.
    Posta em música pelo próprio Zeca Afonso em 1971, a canção permaneceu clandestina até que foi escolhida como senha pelos capitães da Revolução dos Cravos do 25 de Abril de 1974. Esse destino sacralizou-a enquanto canção política que faz hoje parte do imaginário da nação portuguesa. Esse imaginário é a utopia de uma revolução militar que derrubou a ditadura salazarista, prometendo futuro melhor ao povo. Mesmo que hoje não se tenham concretizado totalmente os ideais revolucionários da altura, a canção continua divulgando as esperanças de mudança política e social em Portugal.
    Existem dois tipos de canções políticas, as que foram escritas com conteúdo expressamente político (como por exemplo, « A Internacional »), e as que são recebidas como políticas sem terem sido concebidas nesse intuito (por exemplo « Lili Marleen »). Por razões diversas, elas tornam-se indissociáveis de um momento intenso da vida coletiva.  Assim é « Grândola Vila morena », cuja letra inclui palavras politicamente conotadas quando inseridas no contexto e época em que foram escritas.
    A própria música, um cante alentejano de tipo tradicional, remete para um canto popular mas também para um canto litúrgico cantado a capella, por grupos de homens, em comunião, dando-lhe um aspeto sagrado. A rítmica dada pelo barulho das botas dos homens a caminho do trabalho na roça « etniciza »  o conjunto e remete para o inconsciente coletivo da população rural, pobre, sofrendo condições de vida difíceis (ver o exemplo neste vídeo ). Assim, Zeca produziu uma canção que, embora fosse criação nova, inseriu-se sem dificuldades no património cultural no seu país porque « falava » ao povo. A transmissão oral das canções populares e tradicionais funcionou também aqui para a reapropriação popular da canção. A performância artística dobrou-se de um forte poder integrador, ligando todas as camadas populacionais à volta de uma canção-património que estabeleceu uma ponte entre a tradição e o momento pré-revolucionário e revolucionário. O vínculo entre música e nacionalismo  é muito forte pois a música junta os homens, acompanha as manifestações de massa e difunde o sentimento de pertença. Atua mais no afeto do que na razão das pessoas ; daí, o seu impacto mais forte e durável. Ainda por cima, o cante alentejano acompanha-se do movimento unido do grupo de cantores que se move num ritmo binário (balanço de uma perna sobre a outra), dando potência maior às vozes : esse movimento único remete para a imagem de uma união que parece indestrutível. Assim a canção tornou-se canto mobilizador graças às suas qualidade musicais, capazes de despertar um sentimento de pertença e de união popular.
    Mas não se pode esquecer o valor da letra que faz de Grândola, cidadezinha do Alentejo, a metonímia feminizada (« morena ») de um país que confraterniza (« terra da fraternidade ») na união da terra e do povo. O verso « O povo é quem mais ordena » lembra o ideal social das terras alentejanas tradicionalmente comunistas. Mas, além do povo na sua globalidade, cada grandolense também é considerado por si só e como amigo de todos os outros. A letra exprime uma alternância entre individualidde e coletividade que permite a cada um de encontrar o seu lugar numa sociedade em que os valores mais importantes são a fraternidade, a igualdade e a vontade, valores humanos e humanistas que lembram o combate iluminista pela revolução e a democracia.
    Grândola, vila morena
    Terra da fraternidade
    O povo é quem mais ordena
    Dentro de ti, ó cidade
    Dentro de ti, ó cidade
    O povo é quem mais ordena
    Terra da fraternidade
    Grândola, vila morena
    Em cada esquina um amigo
    Em cada rosto igualdade
    Grândola, vila morena
    Terra da fraternidade
    Terra da fraternidade
    Grândola, vila morena
    Em cada rosto igualdade
    O povo é quem mais ordena
    À sombra duma azinheira
    Que já não sabia a idade
    Jurei ter por companheira
    Grândola a tua vontade
    Grândola a tua vontade
    Jurei ter por companheira
    À sombra duma azinheira
    Que já não sabia a idade
    Dez dias depois do golpe falhado de 19 de março de 1974, Zeca cantou « Grândola » no Coliseu dos Recreios, a grande sala de espetáculos de Lisboa, no Primeiro Encontro da Canção Portuguesa. Curiosamente os censores da PIDE/DGS deixaram-no cantar como também deixaram os outros cantores entoarem a canção no palco. Esse momento de união foi imediatamente sentido como ato militante pelos espetadores ali presentes que a descodificaram logo como canção comprometida. Receberam-no como uma « proposta política », enquanto a canção apenas evocava a condição do povo em termos gerais e simples, sem convite preciso para a luta. Foi o contexto político que levou a tal fenómeno de compromissão e fez da canção uma tribuna política.

    Em Abril de 1974, o processo revolucionário dos militares está lançado. Sendo os meios de comunicação insuficientes, eles decidem usar a Rádio Renascença para difundir a senha da marcha sore Lisboa, a canção « Grândola Vila Morena », às 0 h 20 na madrugada do 25 de Abril. A partir desse momento, a canção torna-se definitivamente subversiva e ainda hoje  ao contrário da maioria das canções que dificilmente resistem ao envelhecimento, « Grândola », pela sua aura e força simbólica, continua a gozar de prestígio.
    revolucao-dos-cravos
    Nos momentos de descontentamento social e político, a canção sai à rua. Assim, em Fevereiro de 2013, começou uma onda de grandoladas (substantivo derivado do neologismo grandolar, que significa vaiar uma personalidade cantando « Grandola » para a impedir de falar). A população portuguesa, exausta pelas medidas de restrição impostas pelo governo de Passos Coelho, manifestou o seu descontentamento repetidas vezes. Para tal, não usou o hino oficial português mas, sim, « Grândola » como hino de união nacional. Também nos cartazes dos manifestantes nas ruas, pôde-se ler na altura « Que se lixe a Troika [o FMI, o BCE e a União Europeia]. O povo é quem mais ordena ». « Grândola », ficou hino da revolta, da reivindicação social, institucionalizado numa tradição em Portugal. Pacificamente, a canção tem-se tornado arma de combate para a maior parte da população. Exerce um efeito  igualizador, suprimindo a diferença entre as camadas populacionais. O intérprete da canção já não é Zeca Afonso mas o povo português. Arma perfeita porque não violenta, ela consegue mandar calar os homens políticos, reivindicando os valores de uma democracia  de que eles próprios se declaram partidários : só podem calar e sorrir. Assim conclui Leonete Botelho : « Como se controlam manifestações avulsas, espontâneas e desenquadradas politicamente ? Não se controlam. Evitam-se. Não fechando as portas dos palácios, porque elas não serão suficientes para conter a indignação. Nem evitando os contactos com as pessoas, porque a sua voz virá sempre pelas ondas hertzianas e electrónicas ».

  • Os verdadeiros black blocs estão usando terno

    ANDRES VINCE
    Quando o oficial da Brigada anunciou numa entrevista de rádio que os grupos de “black blocs” estavam todos identificados, por um décimo de segundo, deu pra imaginar que a depredação do Estado ia ter fim.
    Mas, infelizmente, o comandante não se referia aos que dilapidam o patrimônio do Estado e jogam no desemprego milhares de técnicos qualificados, com a desculpa de que vendendo os móveis é que vamos salvar a casa.
    O alto comando da Brigada não se referia ao grupo formado pelo governador e a esmagadora maioria dos deputados que passou como um trator por cima de estruturas administrativas que levaram anos para se consolidar, e, que não tem equivalentes no setor privado. Uma verdadeira destruição.
    A Brigada tem sido usada como marionete do poder Executivo e, agora, do Legislativo, pois até hoje, ninguém achou a tal requisição para o isolamento da AL pela BM, que deveria ter sido aprovada pela mesa diretora, ao menos, pelo pouco que se sabe.
    Ministério Público quieto que nem guri cagado (atualizado a pedido dos nativistas, pois a expressão que usei estava equivocada), como dizem por esses pagos. Soube-se depois que representantes do Judiciário transitavam livremente fazendo lobby pela AL, enquanto o povo tomava bomba lá na porta. “Democracia” no seu estado puro, porque agora protestar virou crime e coisa de vagabundo, então “pau neles” cantam em coro os acéfalos de plantão.
    vince20170109bOs primeiros confrontos com a Brigada foram todos creditados a presença de grupos que usam  táticas black bloc. Isso foi dito pela própria Brigada e reverberado como verdade absoluta por todos os veículos de comunicação e abraçado como a origem de todo mal pelo funcionalismo público concentrado na praça. Correram os “black blocs”. E, continuaram apanhando, mas, agora sem a proteção dos famigerados “black blocs” que ficam sempre na linha de frente com o que dá pra se defender na mão. Resultado: um servidor da Susepe não ficou cego por um detalhe. Outro detalhe: quem atira bala de borracha na altura da cabeça não está tentando conter ninguém, quer causar dano mesmo.
    Os deputados “black blocs” votaram a favor de tudo que era contra o funcionalismo, mas, quando a água bateu na bunda com o projeto dos duodécimos… Aí não João! Rapidamente o grupinho de vândalos se dissolveu e então todos queriam debater, não muito depois de terem “acusado” a oposição por estar tentando fazer exatamente isso.
    Existem estruturas inchadas e instituições desnecessárias ao funcionamento do Estado? É claro que existem. Não há dúvida nenhuma. Mas como vamos falar em austeridade quando o Executivo ainda assina jornais em papel, usa publicidade e torto e a direito e gasta milhares de reais em estruturas de repressão (até helicóptero) contra protestos? Isso, sem falar na verdadeira orgia com dinheiro público que acontece no Legislativo e no Judiciário.
    Se a massa soubesse o nível de privilégios que realmente reina por esses dois setores, iriam canonizar o Eduardo Cunha.
    O que dizer da destruição da FEE, Fundação Piratini e outras autarquias? Austeridade? Piada pronta. Austeridade é quando a empresa começa a controlar o copo do cafezinho. Fechar departamentos e demitir em qualquer empresa é arrocho. Tem nada de austeridade aí.
    O povo vai ver a austeridade quando o Estado economizar no copo de cafezinho, não quando ele vender a cafeteira dizendo que é pra salvar o café, enquanto distribuí açúcar apenas para os amigos.

  • Fiocruz, um exemplo de resistência ao golpismo

    Geraldo Hasse

    As listas tríplices de nomes para cargos públicos são formadas pelo voto democrático, daí a tradição de que o primeiro nome seja sempre respeitado pelos governos.
    No caso da Fundação Oswaldo Cruz, o ministro da Saúde só não fraudou a ordem da indicação graças à revolta da maioria dos funcionários da centenária instituição de pesquisa do Rio.
    Colocada em primeiro lugar na lista tríplice com 60% dos votos, a socióloga Nísia Trindade Lima foi confirmada na presidência.
    Funcionária de carreira com obra respeitada por sua abrangência e profundidade, Nísia Trindade Lima é autora do livro UM SERTÃO CHAMADO BRASIL (Revan, 1999), que faz uma brilhante releitura das relações históricas entre o litoral urbanizado e os vazios populacionais do interior do Brasil. É um livro que analisa e interpreta as obras de grandes autores nacionais como Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Hollanda, Antonio Candido e Darci Ribeiro, entre outros. No entanto, é trabalho pouco conhecido que merece ser difundido para conhecimento de estudantes, jornalistas, sociólogos, historiadores e economistas.
    O texto que segue, intitulado A Conquista do Sertão, é um dos capítulos de um livro inédito sobre a ocupação agrícola do cerrado, bioma que representa 22% do território nacional, no qual vem se dando o mais recente choque entre a chamada civilização litorânea e a dita cultura caipira- primitiva-rural. Publico-o em homenagem à nova presidente da Fiocruz.
    A Conquista do Sertão
    Para os primeiros habitantes do Brasil, estabelecidos principalmente no litoral do nordeste e do sudeste do país, avançar rumo ao oeste sempre foi a suprema aventura. Caminhar “para dentro” significava desafiar o perigo, correr riscos, sujeitar-se a doenças desconhecidas e…criar um país. Nessa caminhada constante para o interior, os brasileiros tomaram efetivamente posse de um novo território. Quinhentos anos depois, a aventura ainda parece longe do fim. “O deserto é o senhor da colônia”, escreveu o historiador Frederick J. Turner, tentando explicar a corrida dos pioneiros para o oeste norte-americano. 
    Os aventureiros modernos contam com máquinas sofisticadíssimas, mas a conquista definitiva ainda está por se fazer. No miolo do Brasil abrem-se novos caminhos e inauguram-se novas cidades – tudo numa velocidade sem precedentes na história da humanidade. Uma das atividades mais primitivas dos seres humanos, a derrubada de matas para a implantação de lavouras é documentada via satélite por organismos internacionais, sob protestos veementes dos ambientalistas, apavorados com a devastação do planeta. Os brasileiros, financiados por consumidores de outros países, são os protagonistas centrais de uma das últimas e decisivas aventuras da humanidade na conquista de espaço para sobreviver e produzir alimentos.
    O Brasil contém hoje a maior reserva de terras agricultáveis do planeta. Ela fica no cerrado, a última fronteira virgem antes da amazônia, pulmão da Terra. Juntos, esses dois imensos ecossistemas constituem as maiores reservas de água doce do mundo. Manejando o fogo, tratores, sementes transgênicas, computadores e satélites, os brasileiros jogam aqui não apenas o seu futuro, como povo, mas o futuro da humanidade, talvez.
    Não é apenas o oeste geográfico que está em jogo. No imaginário brasileiro há todo um oeste mítico desenhado como metáfora ao longo dos séculos. Repete-se aqui o fascínio ianque pelo oeste como espaço para a grande corrida da sobrevivência. O cerrado, ex-sertão, ora temido, ora ignorado, é o território do contraditório: na busca da realização individual, milhões de pessoas esmeram-se na prática das mesmas técnicas agrícolas e mercantis, sujeitando-se aos ditames do Mercado, o verdadeiro senhor das colônias modernas.
    Ao confundir-se com um horizonte ilimitado, o ex-sertão do Brasil Central representa hoje um espaço livre que precisa ser ocupado de qualquer maneira, a qualquer preço, não importando muito a qualidade da ocupação ou a sustentabilidade do modelo adotado. Estimulada pela demanda mundial, essa corrida cega, sem freios, transformou-se num movimento coletivo que se realimenta incessantemente da falta de perspectivas no litoral e das tradicionais promessas do sertão. Aqui o sucesso pessoal é medido por sinais externos como a extensão das fazendas, a capacidade de armazenagem dos galpões ou a largura dos pneus das camionetas. O que será dos brasileiros se fracassarem nessa aventura?   
    BANDEIRISMO
    Um dos mitos fundadores do Brasil, a conquista do sertão está presente no imaginário brasileiro desde as primeiras lutas pela independência, no final do século XVIII, quando os mineiros liderados por Tiradentes tentaram articular a revolta popular contra a exploração portuguesa. Não admira que o esforço para conhecer o país e dominar o território tenha contribuído para o surgimento de uma consciência nacional.
    Diversos pensadores estudaram a contradição litoral x interior, mas ninguém foi mais fundo nessa investigação do que a socióloga carioca Nísia Trindade Lima. Em “Um Sertão Chamado Brasil” (Revan, Rio, 1999), ela afirma que a consciência de que havia uma distinção entre os dois espaços apareceu no início do século XIX. Não se tratava de uma simples diferenciação geográfica. Desde suas origens mais remotas, a dicotomia litoral x sertão tinha conteúdo crítico, pois já se percebia a distância cultural entre ambos.
    No litoral, sob influência da imigração peninsular, houve desde o início uma civilização conservadora, “de empréstimo”, segundo Euclides da Cunha; nos sertões, ao contrário, formou-se uma civilização mais aberta e original, conservadora também, mas portadora de uma cultura genuinamente americana, fruto do embate direto com a natureza. No interior e não no litoral estaria o cerne da nação brasileira. Daí a busca incessante da integração, ou de um encontro-resgate.
    Os principais agentes dessa fusão cultural teriam sido os bandeirantes, líderes de históricas incursões aos sertões ignotos. No início eles agiam por encomenda do império português, depois moveram-se também por iniciativa própria e sempre demonstraram um peculiar espírito de pioneirismo. Na busca de ouro e pedras preciosas, percorreram vastos espaços, mas não os ocuparam realmente. Vilas e cidades construídas para apoiar o garimpo e a mineração não lograram a auto-suficiência senão após o fim da febre do ouro, quando parte da população se convenceu de que precisava buscar a saída na agricultura e na pecuária. Esse processo de colonização, bastante lento, foi executado pela pata do boi e as tropas de burros. Definitivamente, a partir de 1800, o antigo papel dos caçadores de esmeraldas passou a ser exercido por agricultores, criadores de gado e tropeiros.  
    No entanto, a inteligência brasileira demorou a dar-se conta da contribuição dos bandeirantes em geral para a criação de uma consciência nacional. Por muito tempo os intelectuais nativos tatearam no escuro, construindo ídolos de barro. Por exemplo, em certo momento do século XIX, quando esteve em voga a poesia indigenista de Gonçalves Dias, tentou-se entronizar o índio como símbolo da nacionalidade, mas esse apelo nativista esgotou-se com o sucesso dos Guarani – o romance de José Alencar e a ópera de Carlos Gomes. Mais tarde, registrou-se a tentativa de idolatrar o caboclo sertanejo, mas o tiro saiu pela culatra, resultando num estereótipo negativo — o Jeca Tatu, de Monteiro Lobato. Quanto aos modernistas promotores da Semana de Arte de 1922 em São Paulo, até hoje não se sabe muito bem o que queriam — fora aparecer, exibir-se, protestar.
    No trabalho dos intelectuais brasileiros, lembra Nísia Trindade Lima, a valorização do bandeirante como elemento-chave na formação da identidade nacional tornou-se recorrente a partir da pregação de Vicente Licínio Cardoso (1890-1931), sociólogo e engenheiro que procurou desconstruir a idéia (colonial, na sua opinião) de que a história do Brasil transcorrera toda ela na costa, como reflexo da tradicional relação com Portugal e a Europa.
    É verdade que tanto no Rio como em outras cidades costeiras boa parte da população vivia de frente para o mar, à espera do que vinha de Europa, mas uma parcela minoritária do povo encarava a incorporação dos sertões como indispensável à formação da identidade nacional. Nasceu assim uma tensão que estaria viva até hoje, transparecendo, por exemplo, na forma como os nacionalistas brasileiros vêem a conquista/preservação da amazônia e do cerrado — o que resta do sertão. 
    Em seu estudo sobre a dicotomia litoral/sertão, Nísia Trindade Lima destaca a importância dos livros de viagens e dos relatórios de missões científicas para a descoberta do país e a consequente formação de uma consciência nacional. Depois do ciclo das bandeiras tradicionais, essa corrida ao interior intensificou-se no início do século XIX com a chegada de cientistas europeus como Spix, Martius e Saint-Hilaire, cujos relatos se tornaram famosos. Entretanto, antes e depois dos pesquisadores ambulantes, diversos estudiosos brasileiros ou identificados com a causa brasileira promoveram uma busca instintiva de razões e pretextos que permitissem ao país sobreviver sem vínculos de dependência a um padrão/patrão europeu. Paralelamente a esses esforços de pesquisa científica, realizava-se uma corrida espontânea por parte dos exploradores dos recursos naturais do território. 
    Até hoje não se alcançou a autonomia desejada mas, à medida que se interiorizou, a identidade brasileira, originalmente “carangueja”, foi mudando de feição, num processo que se renova ao sabor das trocas entre esses dois pólos da geografia econômica nacional: enquanto a cultura urbana vai impondo seus valores às populações rurais e suburbanas, a cultura sertaneja deixa sua marca no comportamento dos habitantes das cidades. Tanto tempo depois, prevalece hoje o consenso de que a brasilidade não está nesse ou naquele tipo isolado, mas na mistura, na miscigenação. Nesse sentido, a fusão do litoral com o sertão seria fundamental para dar origem a um Brasil organicamente americano, autônomo e feliz.
    NACIONALISMO
    Os autores mais identificados com a idéia do sertão como cerne da nacionalidade foram principalmente Euclides da Cunha, Alberto Torres, Monteiro Lobato e Roquette Pinto. Eles se situam no eixo central de um nacionalismo que serviu de estímulo e inspiração a iniciativas governamentais como a campanha pelo saneamento rural nos anos 1910, a Marcha para o Oeste na década de 1930 e a construção de Brasília nos anos 1950, sem contar expedições mais ou menos avulsas – como a Coluna Prestes, nos anos 1920; ou a Missão Rondon, desde o início do século XX — organizadas para conhecer a realidade do interior remoto.
     
    A conquista do sertão brasileiro teve vários impulsos e um dos mais fortes esteve associado à construção de estradas de ferro entre 1870 e 1920. A morte de milhares de trabalhadores na abertura dessas estradas despertou os cientistas brasileiros para a necessidade de tratar de doenças endêmicas como a malária, o mal de Chagas e a esquistossomose. Por isso Nísia Trindade Lima chega ao ponto de situar os higienistas liderados por Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Belisário Penna como uma espécie de novos bandeirantes – dispostos não a escravizar índios e capturar escravos fugidos, mas a libertar brasileiros da doença, da fome e da miséria. Ela lembra especialmente a viagem do médico Julio Paternostro ao vale do Tocantins no período 1934/38: seu relatório causou um choque ao comparar a vida das comunidades rurais tocantinenses à de populações de séculos passados.  
     
    É claro que as medidas oficiais em prol das populações do centro do país não correspondiam apenas a impulsos de fora para dentro; algumas dessas iniciativas eram também uma resposta a pressões originárias do próprio litoral superpovoado, onde muita gente via no interior desabitado uma saída para as periódicas crises nacionais. Além disso, procurava-se atender às brutais carências dos habitantes dos sertões, isolados pelas longas distâncias.
     
    Embora desde o início do século XX os bandeirantes já tivessem sido apontados como líderes intrépidos da conquista do território nacional, a construção de seu mito ganhou impulso no final dos anos 1930, durante a ditadura de Getulio Vargas. Os intelectuais franceses que fundaram a escola de sociologia de São Paulo encorajaram o estudo do bandeirismo, ao atribuir-lhe um papel de vanguarda. Com isso não só agradaram a seus patrões, membros da elite paulista, mas deram um mote à ditadura estadonovista, carente de heróis.
     
    Um dos que melhor souberam cantar o bandeirante como líder nacional foi o poeta paulista Cassiano Ricardo, geralmente identificado como direitista. Mais à esquerda, o sociólogo paulista Antonio Candido, em seu clássico Os Parceiros do Rio Bonito, reconhece que o caipira herdou do bandeirante o laconismo, a rusticidade, o nomadismo e a capacidade de adaptação ao meio sobrevivendo com o mínimo. 
     
    Graças a esses e outros estudos, tornou-se mais ou menos consensual atribuir ao ímpeto bandeirante a extensão das fronteiras do Brasil além da linha imaginária traçada em 1494 pelo Tratado de Tordesilhas, pelo qual os reis de Espanha e Portugal dividiram entre si a América do Sul. Nesses vastos territórios situados no miolo do Brasil plantou-se paulatinamente uma réplica do modelo econômico institucionalizado no litoral sob o governo luso (até a independência), por influência inglesa (até a república) e mediante o patrocínio ianque (na maior parte do século XX).
     
    EMPREENDEDORISMO
     
    Não importa sob a tutela de quem se realizou, o avanço sobre os espaços virgens do interior teve desde sempre um caráter missionário, como se a exploração das florestas e a posse da terra contivessem uma promessa de libertação. Ao confundir-se com um horizonte ilimitado, o Brasil Central sempre prometeu redenção aos aventureiros que ousaram adentrá-lo, perseguindo o mito do enriquecimento. Como um determinismo histórico, parece estar disseminado no inconsciente coletivo brasileiro que é preciso levar adiante a ferro e fogo o trabalho pioneiro de desmonte ambiental e conquista territorial iniciado pelos bandeirantes.
     
    O mito do heroísmo bandeirante continua presente no imaginário brasileiro moderno e se reproduz no elogio constante aos empreendedores que desafiam os riscos mais primitivos e transformam os ambientes naturais, gerando progresso e implantando os valores da civilização capitalista nos meios mais distantes – hoje no cerrado e na amazônia. Não é por acaso que entre os tipos mais admirados do Brasil contemporâneo se destacam os derrubadores de florestas, os abridores de estradas, os construtores de barragens, os criadores de cidades e os campeões da agricultura. Não raro, esses tipos se tornam ministros ou disputam cargos legislativos ou executivos. Fazem parte da história recente do país o dirigente industrial Antono Ermirio de Moraes, líder do grupo Votorantim, e o agrônomo-fazendeiro paulista Roberto Rodrigues, lider do cooperativismo brasileiro.
     
    Também não foi por simples coincidência que na virada do século XX ganhou destaque a figura do sojicultor Blairo Maggi, um migrante que trocou o Sul minufundiário pelas terras sem fim do Mato Grosso. Já em meados da década de 1990 ele foi apontado como o rei da soja em lugar do empreiteiro-banqueiro Olacyr de Moraes. Festejado pelos políticos, Maggi tornou-se suplente de senador antes de eleger-se governador do Estado do Mato Grosso em 2002. Consciente de que a deficiência logística é o calcanhar de Aquiles do cerrado, ele fez da construção de estradas uma prioridade e chegou a candidatar-se à presidência da República como profeta de um Brasil neoliberal. Não chegou lá, mas há seis meses se tornou ministro da Agricultura de um governo que não teme desmantelar conquistas democráticas em favor de um modelo malogrado de capitalismo selvagem. De alguma forma o banditismo bandeirante continua vivo no espírito empreendedor de alguns brasileiros dispostos a favorecer o enriquecimento de poucos em prejuizo de muitos.

    LEMBRETE DE OCASIÃO

    “De todo modo, não me parece superada a ideia de uma ciência que se dedique a pensar o Brasil. Esta sociedade de fronteiras móveis, de homens fronteiros, onde talvez seja possível aproximar litoral e sertão.”
    Nísia Trindade Lima, no último parágrafo do livro “Um Sertão Chamado Brasil”
  • Atentado de Berlim confirma a verdade de Goebbels

    atentado-em-berlim
    O tablóide sensacionalista BZ condenou Anis Amri antes mesmo da polícia

    O atentado de Berlim, às vésperas do Natal, reafirma a tese consagrada pelos nazistas. Ela diz que uma mentira contada uma vez continua sendo uma mentira mas, contada mil vezes a mentira se torna verdade.
    Seu autor foi o ministro da Propaganda do III Reich, Joseph Goebbels, um pioneiro da manipulacão da mídia de massa. Olhando com calma para os detalhes do ataque recente é inevitável ver na narrativa da imprensa um desafio à verossimilhanca e uma prova da maleabilidade da verdade factual.
    Na reportagem “ao vivo via Internet” no Jornal Nacional (http://www.youtube.com/watch?v=U-4x7PDuUAg) fica clara que a intencão de “vender a notícia” se sobrepoe à precária atividade de apuracão dos fatos.
    O jornalista da Globo se esmera em construir sua estória com pouquíssimas informacões, dando espaco a “rumores”, entre eles o de que “o Estado Islâmico” teria assumido” a autoria do atentado. Até hoje essa informacão só foi confirmada por páginas de neo-nazistas em redes sociais.
    A cobertura oficial da mídia alemã nao ousa tanto, mas quem acompanhou o notíciário desde os primeiros momentos pôde perceber a manipulacão. A primeira delas relacionada à dúvida de que se tratava de um acidente. Nas primeiras 24 horas depois da tragédia nenhum político alemão se atrevia a falar em atentado. Por que?
    O caminhão entrou por uma avenida altamente movimentada que desemboca em um cruzamento de outras avenidas importantes e cortou apenas uma pequena ponta do mercado de Natal, parando no meio de uma outra avenida transversal.
    Se tivesse realmente a intencão de matar o maior número possível de pessoas, como terroristas normalmente fazem, poderia ter cortado o mercado de fora a fora, aumentando em dezenas de vezes o número de vítimas.
    O quase acidente foi uma questão de poucos segundos. Os primeiros policiais que chegaram ao caminhão encontraram o banco do motorista vazio. No banco do passageiro estava um homem sem documentos morto com um tiro na cabeça.
    Nas primeiras horas, ninguém sabia de quem era o corpo encontrado, e nem mesmo a causa da morte, visto que ao invadir o mercado o caminhão teve o parabrisa estilhaçado. Tudo eram suposicoes. Uma das poucas certezas era a de que quem conduziu o veículo por cima do público havia fugido sem deixar vestígios.
    Ao lado do mercado de natal fica uma das mais importantes estacoes de trens, metrôs e ônibus da cidade, a Zoologischer Garten. Curiosmente a polícia assumiu que o suspeito tinha fugido a pé. Deu o alarme geral e prendeu nas primeiras horas um refugiado paquistanês nas imediacoes do parque Tiergarten, a poucos quilômetros de distância do local do ataque.
    Por 24 horas o gaiato do Paquistao foi troféu da eficiência policial berlinense. Depois de apanhar durante o interrogatório (http://www.zeit.de/gesellschaft/zeitgeschehen/2016-12/anschlag-berlin-vorwuerfe-polizei-dementi) ele foi solto por ter provas e várias testemunhas de que nao estava nas proximidades quando ocorreu o crime.
    Assim que a notícia da liberacao do primeiro suspeito circulou, “novos indícios” sobre o autor do atentado surgiram pela mao da polícia federal do país. Os fatos apresentados em seguida parecem tirados de um filme de James Bond e semelhancas com outros casos de terrorismo nao parecem ser mera coincidência.
    A essa altura, dois dias depois do atentado, já sabendo que o corpo encontrado dentro da Scania era o do verdadeiro motorista, as autoridades apresentaram a identidade do terrorista. Um jovem Tunisiano, Anis Amri. Ele estava na Europa como refugiado desde 2011. Acusado de arruaça e pequenos crimes ficou preso na Italia por quase três anos, onde continuava procurado por seu envolvimento com islamistas. O argumento é de que ele tinha se radicalizado na prisao.
    No primeiro semestre de 2016, Amri fez seu pedido de asilo em Berlin. Em Julho o pedido foi negado, e desde setembro ele estava desaparecido. Anis Amri completaria 25 anos três dias depois do atentado.
    Todas essas informacoes sao oficiais (http://www.zeit.de/gesellschaft/zeitgeschehen/2016-12/berlin-breitscheidplatz-gedaechtniskirche-weihnachtsmarkt). Como eles chegaram à identidade do Tunisiano? Óbvio, durante a eficiente acao terrorista ele deixou cair dentro do caminhao a carta do governo alemao com o pedido de asilo negado. Parece mentira, mas é essa a versao oficial.
    Ou seja, o terrorista nao esqueceu de dar fim na identidade do verdadeiro motorista da carreta executado, visando dificultar a investigaçao do caso, mas lembrou de esquecer um pedaco de papel para lhe incriminar. Amri foi morto pela polícia em Milao, na Italia, exatamente na data do seu aniversário, e um dia depois do seu retrato circular pelos tablóides sensacionalistas da Alemanha. Caso encerrado.
    Mais interessante ainda sao os desdobramentos da história. Na Alemanha, o atentado botou lenha na fogueira do debate sobre os refugiados. A primeira ministra Angela Merkel (CDU), ja anunciou medidas para acelerar ainda mais a deportacao de refugiados que tenham seu pedido de asilo negado. O ministro do Interior, Thomas De Maizière (CDU), aproveitou para propor uma reestruturacao do aparato policial do país, visando dar mais poder e agilidade ao governo federal. Até o prefeito de Berlim, Thomas Müller (SPD), saiu defendendo um maior controle através de câmeras de seguranca em locais públicos. Tudo muito conveniente para o ressurgente discurso nacionalista.
    Vale lembrar, que a área onde o ataque aconteceu, é cercada por centros de compras, cafés, restaurantes, lojas de grife, cinemas e hotéis. Cada estabelecimento ali já tem sua própria câmera de seguranca. É estranho que nenhum dos equipamentos já instalados nessa área tenha pego o momento do atentado. Sem falar que, com ou sem câmeras, ninguém poderia prever ou evitar o ocorrido.
    Mas a propaganda da imprensa vai em outra direcao. Parecem seguir deliberadamente uma cartilha política  onde refugiados sao quase sinônimo de criminosos. O jornal sensacionalista “BZ” estampava em sua capa do dia 22 de dezembro a cara de Anis Amri com a manchete: “Eles conheciam ele e nao fizeram nada”. A frase cabe como uma luva no fato de muitos refugiados continuarem na Alemanha ilegalmente depois de terem o pedido de asilo negado.
     
    A centenas de metros da praca onde estava montada a feira de Natal existe um alojamento coletivo onde estao concentrados cerca de 1.300 refugiados de diversas origens. Ali moram homens, mulheres e criancas desprovidos de conforto, seguranca e privacidade. Logo depois do caminhao atropelar 12 pessoas na praca, o alojamento foi invadido pela polícia de Berlim em busca de suspeitos. Como a polícia concluiu que lá poderia estar algum suspeito do atentado continua sendo um mistério.
     
  • Quatro refeições por dia

    A redução de benefícios sociais tende a alimentar a revolta dos desvalidos
    Nesta véspera de Natal, voltou-me à memória uma frase de Lula: ”Eu gostaria que cada brasileiro tivesse o direito de fazer quatro refeições por dia”.
    Foi promessa de campanha e virou meta de governo atingida parcialmente com o Bolsa-Família, um programa tão generoso que começou com um nome negativo – Fome Zero.
    Ambicioso socialmente e modesto financeiramente, em 2015 o BF consumiu R$ 33 bilhões ou, seja, 5% das despesas com a dívida pública, mas a ninguém do governo ocorre a hipótese de congelar o pagamento de juros e amortizações aos credores.
    Ao contrário, segundo a óptica elitista que domina as ações oficiais desde o Brasil- colônia, é preciso enxugar o que se gasta na base para que não faltem recursos nas altas esferas.
    Índios fora, escravos esquecidos, imigrantes ludibriados, pobres sem chance de ascensão ou resgate: assim tem sido o Brasil na maior parte do tempo.
    Recentemente, bastaram alguns anos de concessões às bases carentes da população para se iniciar um temerário processo antissocial que busca reduzir o papel do Estado na sociedade. Como se o Mercado ou a iniciativa privada fossem assumir as tarefas que nem os governos fazem direito.
    O Bolsa Família tem um lado assistencial – o dinheirinho entregue mensalmente às famílias cadastradas; mas seu aspecto mais importante é o vínculo educacional obrigatório de 16 milhões de jovens matriculados em creches e escolas públicas.
    Pela primeira vez no Brasil se criou uma fórmula de resgate da miséria pela via escolar. Mesmo com defeitos e problemas, o BF acena com uma saída ao lembrar aos pobres que a única forma de escapar da degradação moral provocada pela miséria é através da aquisição de instrução e saber.
    Ajudar os pobres: essa é uma fantasia que não se realiza porque as elites brasileiras não cortam seus privilégios em favor da justiça social.
    A gente até entende quando um cidadão isolado se incomoda diante de um pobre que vasculha o lixo ou pede uma ajudazinha pelo amor de Deus. O responsável por uma instituição pública, porém, tem o dever constitucional, não apenas moral e humano, de ajudar os desvalidos.
    O Bolsa-Família não é uma esmola, mas uma ajuda cristã em favor de quem está sob risco de perder a autoestima por falta de amparo civil. Sem falar que a merreca do BF se transforma integralmente em consumo, contribuindo para ativar a economia.
    A visão egocêntrica das elites está difusa no comportamento da maioria dos empresários, dos políticos e dos integrantes das instituições de governo, especialmente no Judiciário, o mais bem aquinhoado em salários e benefícios indiretos.
    Até agora a ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, não traduziu em fatos concretos sua preocupação com a situação dos presídios brasileiros.
    Se Carmen Lúcia quer mesmo fazer alguma coisa concreta, que comece por transferir para os encarcerados o auxílio-moradia dos magistrados, que não precisam dessa mordomia, pois têm os melhores salários do serviço público.
    São 14 000 magistrados que recebem, cada um, R$ 50 mil por ano a título de auxílio-moradia. Seriam R$ 700 milhões a beneficiar 600 mil presidiários, dando o empurrão inicial a um processo de resgate de uma parcela dos cidadãos brasileiros que perderam não apenas a liberdade, mas alguns dos direitos mais elementares, entre eles quatro refeições por dia.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “A quem o pouco não basta, nada basta”
    Epicuro, filósofo grego (341-271 a.C.)

  • PDT: sonhos de uma noite de verão

    Pinheiro do Vale
    O presidente nacional do PDT, Carlos Luppi, entrou na primeira noite do verão de 2016/17 sonhando arrebatar a bandeira da esquerda das mãos do ex-presidente Lula, aproveitando-se que o fundador do PT está meio combalido pelo cerco implacável à sua pessoa e seu partido ainda lambe as feridas do desastre eleitoral do último pleito municipal.
    Passo a passo, o político carioca vai pavimentando seu caminho. De início fechou questão com a resistência ao golpe, mas com ressalvas: não impôs posição partidária à bancada, pois poderia cair do cavalo. Deixou a bola passar pelo meio das pernas: os três senadores do PDT votaram contra Dilma no impeachment. Luppi engoliu em seco.
    Nesse mesmo tempo lançou um candidato presidencial para enfrentar ou, conforme o caso, tomar o lugar do PT na cabeça de chapa para 2018, o ex-governador do Ceará Ciro Gomes.
    Nesta virada de ano, quando se inicia a formação das candidaturas presidenciais, Luppi aumenta o tom de suas advertências aos dissidentes, ameaçando-os de expulsão, em pronunciamentos públicos, mas sem admoestar nenhum deles oficialmente.
    Não há um papel do partido traçando limites ou orientando seus parlamentares nas votações.
    O passo seguinte virá neste verão: limpar a área de nomes incômodos para receber as adesões da esquerda parlamentar.
    No Senado o PDT já se livrou de quatro cadeiras incômodas: as duas do Distrito Federal, Cristovam Buarque (foi para o PPS) e José Reguffe (sem partido), e o mineiro Zezé Perrela, que pousou seu helicóptero no PTB. Nesta quarta-feira, o gaúcho Lasier Martins se antecipou às ameaças de Lupi e pediu sua desfiliação.
    Faltam dois: Telmário Motta, que acusa o PT de Roraima de traição ameaçando romper a aliança estadual e Acyr Gurgacz, estrategicamente em licença. Os dois também apoiaram o golpe na cassação da presidente Dilma Rousseff.
    O sonho de Luppi é estar com seu cavalo cearense na ponta dos cascos, no partidor, quando a candidatura do ex-presidente Lula sucumbir ao cerco de ameaças de forças hostis combinadas para torná-lo inelegível.
    Há, entretanto, uma pedra no caminho do chefão pedetista: em seu próprio estado, o Rio de Janeiro, está o chefe da resistência parlamentar e líder inconteste da oposição ao governo ilegítimo, o senador Lindbergh Farias. Livre concorrência.
    Luppi e Lindbergh procuram avançar um sobre o terreno do outro. Luppi tem uma bancada que vai da direita à esquerda, busca colher frutos no petismo envergonhado; Lindbergh propõe uma frente de “salvação nacional” encabeçada pela esquerda, procurando aliança no “centrão” decepcionado. É uma briga de foice no escuro.
    Tudo isto vai se mostrar as claras assim que sair a tal reforma política, que extinguirá, na prática, os pequenos partidos. PDT e PT serão legendas de tradição esquerdista sobreviventes e devem estar prontas a receber minipartidos, ditos de aluguel, que estão à procura de um pouso.
    A grande dúvida é se Luppi conseguirá abocanhar os quadros do PT e seus aliados tradicionais. O chefe pedetista está de olho na inelegibilidade de Lula. Entretanto, o ex-presidente ainda não mostrou suas cartas. Ele é um dos políticos mais hábeis da História do Brasil.
    Lula não joga para a torcida. No último episódio crucial, o impedimento judicial do presidente do Senado, Renan Calheiros, o ex-presidente manobrou no sentido de evitar a desestabilização precipitada do governo de Michel Temer. No quadro atual, melhor deixar o presidente ilegítimo sangrar.
    Enquanto se esvai, Temer leva consigo o PSDB para a vale de lágrimas. Cada dia seu governo fica mais tucano e menos peemedebista. Parece uma jogada maquiavélica, pois isto poderia reconfigurar uma futura aliança eleitoral do PMDB com o PT, a fórmula vencedora das últimas três eleições presidenciais. Não se subestime a capacidade de manobra de Lula. Tampouco se esqueça do nome de Henrique Meirelles.
    Luppi é ingênuo ou arrojado? Ingênuo se acreditar que pode engolir o PT; arrojado se acredita que Ciro Gomes poderá empolgar a esquerda, atraída no vácuo da inelegibilidade de Lula?
    A verdade é que as cartas não estão embaralhadas, como se pensa a olho nu. Como diz o velho conselheiro Acácio: “Quem ver verá”