As podas radicais feitas nas árvores da capital pela CEEE, por delegação da Prefeitura, estão ferindo o sentimento dos portoalegrenses afeiçoados ao paisagismo estabelecido em avenidas e ruas da cidade desde os festejos da Revolução Farroupilha (1935), quando as autoridades municipais mandaram plantar diversas mudas (então pequeninas, como todas as plantas jovens) de espécies vegetais de grande porte.
Uma das marcas daqueles tempos festivos são as majestosas palmeiras plantadas nos canteiros centrais de algumas avenidas. Outra, as tipuanas que sombreiam ruas inteiras como a Marquês de Pombal e a Gonçalo de Carvalho. Isso para não falar dos alfeneiros, cinamomos, jacarandás e plátanos espalhados por alguns bairros mais antigos, onde os voluntários da arborização se esmeraram na ocupação dos espaços disponíveis com mudas que, por gosto ou acaso, lhes caíam nas mãos.
Para o bem e para o mal, as árvores crescem, suas raízes levantam calçadas, seus troncos elevam galhos acima dos telhados, folhas e frutos “sujam” os passeios, eventualmente algum galho tomba sobre alguém distraído e a população se divide entre a condenação do mundo vegetal e a piedade sobre os infelizes humanos acidentados.
Deu no que aí está: sem um plano diretor de arborização ou paisagismo, a prefeitura entregou a gestão do acervo arborial à concessionária de energia, que naturalmente encara as árvores como estorvos à normalidade do serviço e fontes de prejuízos.
Os cortes executados pela CEEE atingem todos os espécimes que ousam colocar acima de cinco metros de altura. São mutilações que concorrem para acelerar o fim de abacateiros, angicos, espatódias, flamboyants, grevíleas, guapuruvus, ipês, mangueiras, paineiras, plátanos, paus ferro, pinheiros e sibipirunas — árvores efetivamente mais apropriadas para parques e jardins do que para calçadas ou canteiros.
A poda deveria ser uma ação humana inteligente, a favor da vegetação. Aqui e ali cabem intervenções para corrigir distorções ou evitar acidentes. Na maior parte dos casos, as próprias árvores se desfazem de galhos que não lhes servem. Além disso, as árvores, como os animais, têm limite etário. Raras espécies frutíferas ou ornamentais atingem 100 anos. Aos poucos, vão se deixando aniquilar pelas intempéries. Nessa fase senil, são mais perigosas porque seus galhos são muitos pesados. Se apodrecem ou são derrubados pelo vento, os galhos podem causar danos graves em que estiver por perto. Por isso, é fundamental que os responsáveis pelo paisagismo urbano providenciem a paulatina substituição de árvores-gigantes por espécies cuja altura não exceda seis metros de altura. Se o prefeito Fortunati jogou a toalha, talvez Marchesan chegue com ânimo para mudar o panorama paisagístico da capital. Em quatro anos, com sensibilidade e bom senso, dá para iniciar a reciclagem do verde em Porto Alegre.
Nas calçadas sem postes de fiação, é possível manter por longo prazo espécies vegetais de grande porte. Nos passeios com postes, é recomendável que sejam plantadas, com um adensamento capaz de prover o sombreamento das calçadas, sem risco de acidentes graves com os pedestres, as seguintes árvores: acácia, araçazeiro, bico-de-papagaio, cafeeiro, camelieira, cocão, pata de vaca, bergamoteira, extremosa, hibisco, jasmineiro do Havaí, laranjeira, leiteirinho, leucena, limoeiro, primavera, pitangueira e quaresmeira.
Com essas e outras espécies de pequeno porte, ficará claro que a arborização e a fiação são compatíveis, desde que se tenha critério na adoção de um programa de fomento ao paisagismo consciente.
Já ficou suficientemente provado que ninguém está disposto a enterrar os cabos de transmissão de eletricidade e sinais, como manda uma lei aprovada anos atrás pelos vereadores. Além de incorrer em custos elevados, a troca da fiação aérea por dutos subterrâneos provavelmente acirraria as disputas por espaços entre os concessionários de serviços. Além das tradicionais tubulações de água e esgotos do DMAE, a cidade está recebendo os dutos da Sulgás. Em algumas áreas, há cabos telefônicos mantidos por herdeiros da CRT, que também alugam postes da CEEE para atender usuários de telefone e TV a cabo. Isso sem falar dos sinais de trânsito da EPTC.
Numa cidade à beira de um lago e sujeita a cheias, enterrar toda a fiação aérea seria transferir para baixo da terra a parafernália que se vê nos postes de luz. Melhor deixar como está e as árvores que se adaptem ou saiam do caminho.
Categoria: ANÁLISE&OPINIÃO
Porto Alegre precisa de um plano diretor de arborização
O golpe encalacrou-se
Pinheiro do Vale
“Fica Temer” é o novo bordão das forças progressistas. O repetido “Fora Temer” do passado distante agora é o lema da direita golpista. Não há política mais dinâmica que em nosso País.
O presidente ilegítimo começa a cair enredado pela política econômica e propostas de arrocho de seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, antiga tábua de salvação rejeitada em boa hora pela presidente Dilma Rousseff.
Abraçado pelo governo golpista, Meirelles revelou-se o fracasso antevisto por Dilma, que o rejeitou.
No campo político, as chamadas forças consistentes do Congresso se uniram em torno do nome do atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para patrolar o Centrão. Outro golpe errado da base de apoio de Michel Temer.
O Centrão, invicto, já derrubou o nome tucano Antônio Imbassahy, para a coordenação política do governo, e parece que vai varrer do Palácio do Planalto os últimos peemedebistas do chamado núcleo duro. Temer fica sozinho.
Ruim com ele, pior sem ele. Eleição direta e solteira já é uma assombração que ressurge com o fantasma de Marina Silva; eleição indireta é o caminho mais curto para a ditadura. É o que dizem.
No caso da indireta, as chamadas forças políticas já detectaram que não há remota possibilidade de botar no Planalto um nome de consenso, nem mesmo entre a direita.
Os mais afoitos apresentam o gaúcho Nelson Jobim, ex-político com algum trânsito em várias correntes, pois serviu a todos os governos, inclusive no primeiro mandato de Dilma. Não passa no Centrão nem nas extremidades da esquerda ou, até, da direita hidrófoba.
A direita saudosista vocaliza o nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Há muito tempo ele ainda poderia ser chamado, tal como o velhinho da montanha. Atualmente, está tão envolvido no governo Temer que já não compõe unanimidade entre as forças golpistas.
A solução seria uma não-pessoa, um ser institucional. Vingava a ideia de ressuscitar a fórmula de 1945, entregando o Executivo para uma transição capitaneada pelo Supremo Tribunal Federal.
A ministra Cármen Lúcia era o nome ideal: solteira, antiga adepta da Tradicional Família Mineira, jurista de escol e intransigente. Entretanto, ela pisou na casca de banana Renan Calheiros, colocada à sua frente pelo ministro Marco Aurélio de Mello. Salvou a República, mas caiu de nádegas.
Esgotadas todas as alternativas, restaria a velha e clássica fórmula que vem desde Dom Sebastião e entrou no dito popular: chame o bispo.
Solução difícil. Ficando apenas no catolicismo também, há dúvidas: seria o cardeal primaz do Brasil, Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, arcebispo de Salvador? Ou o prelado que tem o comando efetivo, o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odílio Pedro Scherer? Como tertius poderiam chamar o cardeal do santuário nacional, Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis, que fez quase toda sua carreira eclesiástica em Brasília? Há divergências entre o clero.
Isto para não falar do leque de opções luteranas e pentecostais, na área cristã, antes de chegar a outras confissões reconhecidas oficialmente de seitas afro-brasileiras, judaicas ou islamistas. Também não dá.
Talvez a solução fosse buscar Dom Pedro em Petrópolis. O novo herdeiro é brasileiro nato (seu pai nascera na França), foi simpatizante da VPR nos anos 60, quando era estudante de Agronomia em Piracicaba (na Luiz de Queiroz), apoiou publicamente a República no Plebiscito, graduado engenheiro florestal e ecologista militante.
O golpe encalacrou-se. Como dizia o Conselheiro Acácio: “As consequências vêm depois”.Meu amigo Ferreira Gullar
ERIC NEPOMUCENO
Foi numa noite de 1975. Não lembro o mês. Foi em Buenos Aires. Tempos de exílio, tempos sombrios. Lembro que Eduardo Galeano ligou dizendo que encontraríamos um desconhecido que, diziam, era um grande poeta. Lembro de ter dito a ele que era, sim, um grande poeta.Lembro que estava meu amigo Augusto Boal, com sua Cecilia. Lembro que havia mais argentinos: afinal, estávamos em Buenos Aires.Lembro que era um apartamento modesto, na distante rua Hipólito Pueyrredón, não na elegante avenida Pueyrredón, que ficava perto de minha casa. Lembro que por isso me enganei de endereço. Lembro que por esse engano, Eduardo e eu chegamos tarde.Mas o que mais me lembro, a imagem mais permanente na memória, é a de um homem triste. Naqueles meus anos jovens, eu nunca tinha visto alguém tão triste. Mais triste que Ferreira Gullar.
Tinha cabelos negros que caíam como um véu sombrio sobre seu rosto. Falava numa voz baixa e grave. De repente, ria um riso estranho. Um riso nervoso.
Ele vinha de muitos exílios, muitas derrotas. Vinha do Chile de Salvador Allende. Vinha do golpe traidor de Augusto Pinochet, vinha da morte de Allende. Vinha de sonhos frustrados, roubados. E perguntava, perguntava coisas, queria saber. Era como alguém que queria respirar vida.
Anos depois, muitos, voltamos a nos encontrar, no Brasil. E o que agora lembro eram nossos almoços na casa de Vera e Zelito Vianna, ou de quando ele vinha à minha casa, e eu cozinhava e ele gostava, ele e Claudia.
Ferreira Gullar, meu amigo que foi o ser vivo mais triste que vi na vida quando éramos jovens, quando vivíamos os anos jovens, foi também o último grande poeta do idioma que falamos no Brasil.
Era uma espécie de Juan Gelman em português, capaz de em uma ou duas ou três frases fazer desatar temporais de emoção, de vida.
Lembro da noite em que ele, com aquele ar mais triste e mais raivoso do mundo, leu:
Turvo, turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
Menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menor que fosso e muro: menos que furo
escuro
Era o começo do Poema sujo. Era só uma casa, um apartamento modesto na Buenos Aires dos nossos anos jovens. Era a vida, era o mundo.
Sim, sim, voltamos a nos encontrar, anos depois, no Brasil, neste Rio de todos os janeiros. E nos vimos um sem fim de vezes, na minha casa, na casa dele, na casa de Vera e Zelito Vianna.
Uma vez, ouvi dele uma frase definitiva. Gullar falava da poesia, da arte. E disse: “Por que a poesia, a arte? Porque a vida, só, não basta”.
Outra vez, com meu filho Felipe, ouvi outra frase: “Ontem, tive uma discussão com a Claudia”, que era sua derradeira e permanente namorada. “E ela foi embora, e num primeiro momento me senti cheio de razão. E aí cheguei à conclusão: eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz. E liguei para ela”.
Foi talvez o último grande poeta não só do Brasil, mas do idioma português. Um dos últimos grandes poetas dessas comarcas que chamamos de América Latina.
Agora que ele se foi, dirão essas louvações, e muito mais.
Eu fico aqui lembrando sua figura esquis, seu corpo frágil, sua magreza quase mística, seus olhos faiscantes.
Fico lembrando daquela figura triste, triste, de um mês qualquer de 1975, numa Buenos Aires perdida para sempre. E que era capaz de escrever coisas assim:
Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Outra parte de mim
é multidão:
outra parte, estranheza
e solidão
A última vez que ele e Cláudia vieram em casa, faz um bom tempo, preparei camarões. E depois dessa vez, quando nos víamos, ele dizia: “Cadê aqueles camarões?”.
Essa, eu fiquei devendo.
Mas ele ficou me devendo muito mais. Ficou devendo aquela parte dele que era multidão.Temo pela democracia
RAUL ELLWANGER
Temo pela Democracia. Estamos na beirinha de uma paralisia institucional. Facções da casta predadora estão engalfinhadas em luta feroz pelo governo-poder. Usam seus já nada ocultos operadores no Legislativo, Executivo, Judiciário, MPF e especialmente na ditadura atual de uma só família sobre a opinião pública brasileira.
Os interesses e os operadores se cruzam e confundem de tal modo, que fica difícil entender a situação. Uma iniciativa simpática é motorizada por gente do pior calão. Uma iniciativa perversa é apoiada por gente boa.
Temo pela república – a desordem e o choque de interesses disfarçados atrás de cada um dos poderes estão quase transbordando as taças. A casta rica e predadora está arrastando o país, sua jovem democracia, ao fundo do poço.
A casta (e seus sub ramos) se lançou em uma aventura , a partir de derrota de Aécio, que inaugurou uma etapa de solavancos e tsunamis, Agora pilota um barco incontrolável, sem presidência legitima, sem legislativo prestigiado, sem judiciário confiável.
O Poder está sem poder, ele liquidificou o poder moral que tinha ante a nação, levando ao descrédito generalizado. A república é um consenso, em que os cidadãos se colocam de acordo num projeto e plasmam isso numa Constituição. A nossa está em frangalhos.
A casta é aventureira e irresponsável, inclusive quanto a seus próprios interesses. Está mostrando seu fracasso e sua fraqueza. Não sabe oferecer ao país um projeto pelo menos aceitável, não o tem. Ela mesma não se aceita, e arrasta o Brasil para o precipício.
Em 1870, o povo simples de Paris pulverizou o império. No Brasil de 2016, os bem vestidos, bem togados, os bens remunerados, empreiteiros, financistas e sua coorte de interessados, estão pulverizando a República. O povo assiste imóvel.
Depois ? Depois temos Heidrichs, Mussolinis, Hitlers, Videlas, Garrastazús, Francos, Salazares: toda a fauna treinada para fazer o serviço sujo e pesado, se a casta não tiver outra saída. Temo pela Democracia.A ponte Chapecó-Medellín
O gosto pelo futebol me levou recentemente a acompanhar os jogos da Chapecoense, clube que se apegou com garra ao lugar recém-conquistado entre os 20 integrantes da Série A do Campeonato Brasileiro. Com pouco mais de 40 anos de existência (fundado em 1973), o time ganhou cinco campeonatos catarinenses e no Brasileirão fez o suficiente para disputar a Copa Sul-Americana. Estava a caminho da primeira partida final em Medellínquando o avião em que viajava caiu a cinco minutos do aeroporto local. O jogo foi cancelado. Em seu lugar, a população das duas cidades lotou os estádios de Chapecó e Medellín, formando uma inédita ponte de solidariedade na noite em que a partida seria jogada.Nunca se viu tamanha corrente de paz e amor.Chapecó, a capital das carnes brancas e um dos principais polos brasileiros de cooperativismo.Medellín, o primeiro centro difusor da teologia da libertação cristã (em 1968, na conferência episcopal latino-americana).Pelo retrospecto, a Chape levaria uma surra do Atlético Nacional, o time mais competitivo do continente, no momento, tanto que é o atual campeão da Taça Libertadores da América. Mas, se perdesse por pouco em Medellín, a Chape poderia reverter o placar no Brasil. Já estava certo que a segunda partida final não poderia ser realizada na Arena Condá, onde só cabem, apertadas, 20 mil pessoas. A disputa fora marcada para o estádio do Coritiba por influência do técnico Caio, paranaense de Cascavel que fazia sucesso em Chapecó depois de ter treinado clubes do Rio, São Paulo, Porto Alegre e do Oriente Médio.Caio e mais 19 jogadores, além de jornalistas, dirigentes e torcedores, tiveram a carreira liquidada pela queda do avião da LaMia, fretado por 140 mil dólares, mais do que o dobro do orçamento mensal do time de Chapecó, onde se misturavam veteranos e novatos irmanados por um espírito de grande depreendimento, algo que acontece frequentemente na prática dos esportes, sejam pequenas ou grandes as agremiações. Aí está o Brasil de Pelotas dando a volta por cima após um grave acidente de ônibus, anos atrás. O Juventude de Caxias ganhou uma Copa Brasil. O XV de Novembro de Campo Bom andou aprontando numa temporada mais ou menos recente. É o futebol. O esporte. A energia inexplicável dos coletivos.A ascensão e queda da Chapecoense traz à lembrança o episódio do ano passado, quando a Ponte Preta só caiu na semifinal da Copa Sulamericana. Fundada em 1900 em Campinas, a Ponte nunca ganhou nada mas é um dos clubes mais queridos do Brasil. Possui uma aura popular que se traduz na bandeira alvinegra e no símbolo do seu estandarte – uma macaca brincalhona que vive de dar susto nos times mais representativos das capitais. Já ganhou vários vice-campeonatos, como o paulista de 1977, quando quase montou uma zebra sobre o Corinthians.Aqui abro um parágrafo para lembrar que o escritor paulista Renato Pompeu (1941-2014) escreveu um romance – A Saída do Primeiro Tempo (Alfa Omega, 1978) – cujo protagonista central é “o espectro da Ponte Preta”. Difícil explicar um livro tão genial. Melhor dar a palavra ao próprio romancista, que abre sua narrativa nos seguintes termos – primeiro parágrafo:“Noite alta, quase madrugada (…) é a hora em que o espectro da Ponte Preta começa a rondar Campinas. Trata-se de grande mãe preta velha gorda, de saia e blusa branca e manto bordado de seda negra, que sobrevoa como mancha leitosa os prédios e ruas. Está sempre à noite pelos ares da cidade, flutuando como fiapo de algodão. (…) Quando não há ninguém atento, entretanto, o espectro da Ponte Preta paira no ar e penetra pelos cômodos das casas, roçando as testas das pessoas adormecidas e causando mudanças pequenas mas definitivas nos seus sonhos.”No parágrafo seguinte, um delegado sonha que virou mulher de olhos verdes momentos antes de discursar numa reunião política da burguesia de Campinas, a cidade que serve como cenário do romance em que diversos personagens — professores, executivos, operários, aposentados, moças, senhoras – são afetados pelo toque mágico da negra velha, naturalmente identificada com a alma popular da Associação Atlética Ponte Preta.
Ao longo de 182 páginas, o escritor zomba sutilmente da soberba campineira e desenvolve uma série de episódios mais ou menos hilários, como narrar o Jogo Zero ou discutir a expressão “a bola é nossa”. Ele gasta 70 páginas do livro para elaborar o que chama de “crítica da economia política do futebol”. No final conclui, citando nominalmente a Ponte Preta, seu rival Guarany e outros clubes, que “os times de futebol constituem as bandeiras da consciência do povo brasileiro”.Recordando esse gol de placa do grande Renatão, eis o que temos no momento: a bandeira da hora é verde-e-branca e pertence à Associação Chapecoense de Futebol, que encontra na solidariedade internacional um forte motivo para retomar sua caminhada.
Segundo a língua caigangue, Chapecó significa “lugar de onde se avista o caminho da roça”.Temer e Geddel: tudo a ver
PC de Lester
Os donos da mídia concordaram com FHC. “Temer é ruim, mas é o que temos”. É o que explica o esfriamento do caso Geddel nos meios tonitroantes. Até a foto de um Temer sorridente foi providenciada para minimizar o caso.
O caso é assombroso. Temer chamou seu ministro da Cultura ao palácio para pedir que parasse de atrapalhar um negócio imobiliário de seu ministro especial e “fraterno amigo”, Geddel Vieira Lima, em Salvador.
O presidente da República disse ao ministro da Cultura que estava tendo “dificuldades operacionais” com Geddel por causa dessa pendência.
Recomendou que passasse o caso para a Advocacia Geral da União, que saberia “construir uma solução”.
Solução seria liberar a construção do prédio, no qual Geddel tem um apartamento, que está embargado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, órgão subordinado ao ministério da Cultura.
Segundo O Globo, o edifício de 51 andares é um de uma série de espigões irregulares em construção na capital baiana.
Temer ainda consolou o neófito Marcelo Calero: “A política tem dessas coisas”. No dia seguinte, Calero pediu demissão e denunciou as pressões.
Prestou depoimento à Policia Federal e anexou as gravações que fez de conversas com Temer, Geddel e Eliseu Padilha, o todo poderoso ministro chefe da Casa Civil.
O caso está a caminho do Supremo Tribunal Federal e da Procuradoria Geral da República e ministros serão chamados a dar explicações na Câmara. Mas os senhores da palavra decretaram que tudo isso é marolinha.
Vamos ver se os fatos e a opinião pública concordam…
Protesto não é micareta, nem vandalismo, é um direito constitucional
ANDRES VINCE
Parece cristalizada a ideia, tanto na mídia corporativa como na alternativa, que os atos de resistência protagonizados por alguns pequenos grupos são atos de vandalismo.
Os comunicadores recorrem a vários expedientes para justificar esse pensamento, que, assim, vem ganhando força junto à população, que já aplaude o uso do aparato que falta no combate ao crime, na repressão de um ato garantido pela Constituição.
Um dos argumentos prediletos e mais bem aceito é o de que trancar via é impedir o direito de ir e vir das pessoas. Argumento falso como uma nota de três reais. Trancar via impede o direito de ir e vir dos veículos, não das pessoas. E, por mais que se procure na Constituição, não será encontrado nada que refira ou garanta o direito de ir e vir dos veículos automotores.
Assim sendo, em casos de via trancada, o órgão público responsável é a EPTC, não o batalhão de choque da BM. Alguns dirão que a polícia está lá por causa das depredações. Excelente argumento, não fosse o caso da polícia ter atacado antes, sem nenhum aviso, manifestações onde não ocorreu nenhuma depredação. As depredações vieram depois que a polícia atacou e prendeu violentamente alguns manifestantes. Portanto, causa e consequência.
Esse mesmo pessoal que condena a via trancada por manifestações é o mesmo que apoia e divulga o trancamento de uma via para montar um toboágua para um evento comercial, num bairro nobre de Porto Alegre. Claro que, nesse caso, está tudo bem, pois, usa-se todo um aparato público pra dar cobertura a um interesse privado. Portanto, cinismo puro.
Outro argumento bem aceito é o de que os manifestantes estão mascarados. Os comunicadores transmitem a ideia que o uso da máscara torna o elemento automaticamente num delinquente pronto a incendiar toda a cidade. Isso parece causar um medo histérico coletivo nas pessoas tão violento, que elas nem percebem que a polícia de choque também está mascarada. Portanto, não há o que dizer nesse caso.
Sempre prontos em enaltecer tudo que vem de fora, os comunicadores amestrados esquecem ou preferem ignorar o que acontece em protestos na Europa, por exemplo. Os conflitos que ocorreram na França foram extremamente violentos. Nem por isso, os franceses foram chamados de vagabundos, desocupados ou vândalos.
Parece óbvio que será dito que o uso da violência está sendo defendido aqui. Simplificação barata, como todas as simplificações são, pois, estão calcadas nesses falsos argumentos citados neste artigo. Quem usa a violência e causa desordem é a próprio poder público que coloca a BM pra reprimir manifestações legítimas, levando medo à população e desmobilizando as pessoas. Isso sim que é violência, e, como tal, gera um direito legítimo de defesa. Defesa do direito constitucional de livre manifestação.
Quando um direito constitucional é atacado abertamente, não existe mais espaço para manifestações simbólicas e artísticas. Dancinhas e enterros simbólicos não vão sensibilizar ninguém, muito menos os políticos, que estão se sentindo bem à vontade depois que deram um golpe parlamentar e nada aconteceu. Nada.
O País foi tomado por uma corja que é comprovadamente mais pilantra do que alegadamente eram os que foram removidos do poder, e, nada aconteceu. Nada.
O Congresso já está a ponto de anistiar seus próprios crimes e parece que ninguém entendeu direito o que está acontecendo. Só essa meia dúzia que resiste a opressão que se instalou no país. Meia dúzia que será rapidamente criminalizada por aqueles que esperam que a democracia vá reflorescer espontaneamente nesse jardim imundo que se tornou a política nacional com a volta do toma lá da cá. Esperem sentados que cansa menos.
Um raro livro sobre a prática do fotojornalismo
Se me fosse dada a chance de escrever um livro sobre minha vida de jornalista, eu tomaria como referência A Força do Tempo (Libretos, 184 páginas), de Ricardo Chaves, repórter-fotográfico que atuou a partir de 1970 no polígono Porto Alegre-Rio-São Paulo-Brasília, voltando em 1992 ao ponto de origem – o diário Zero Hora -, onde segue na labuta como editor do Almanaque Gaúcho, seção que lhe permite ir e voltar ao passado a bordo de fotografias antigas, e praticando com perícia a escrita.
É claro que, no tal livro imaginário, eu teria de me contentar em escrever textos mais ou menos saudosistas, e até recordaria ter feito uma ou reportagem com alguns dos melhores fotógrafos brasileiros – Assis Hoffmann, Leonid Streliaev, Marcelo Curia, Tânia Meinerz, Carlinhos Rodrigues e o próprio Kadão Chaves, entre os gaúchos -, mas me faltaria a matéria-prima fotográfica que, no caso de Kadão, constitui a essência deste livro sem precedentes no panorama jornalístico brasileiro. É muito bom que tenha surgido uma obra desta dimensão no momento em que, atrapalhado por uma convergência de novas mídias sem sustentabilidade econômica, o ofício de jornalista atravessa uma baita crise existencial. Kadão é precisamente um dos últimos moicanos a operar – como PJ, não mais como CLT – num veículo sem perspectiva de sucesso, como a maioria dos newspapers.
Nesse livro editado com maestria por Pedro Haase (Quati Produções) e Clô Barcellos (Libretos), o sessentão Kadão esbanja categoria como fotógrafo e se revela um redator preciso e sensível – uma surpresa para todos aqueles que se acostumaram a ver a maioria dos chamados retratistas limitando-se a ler apenas títulos e legendas, sem paciência para atravessar as colunas cinzentas dos textos, porque lhes bastavam as imagens. Na realidade, se ficasse só com as imagens e suas respectivas legendas, o fotojornalista já formaria uma obra respeitável. Com os textos, dá de relho na concorrência.
Ao lembrar os melhores momentos de sua carreira, sem ter esquecido sequer o nome dos motoristas que o levavam às metas, Kadão Chaves se equilibra bem como autor e personagem de um raro documento sobre a história da reportagem fotográfica no Brasil e no mundo. Tamanho comedimento, sem falsa modéstia, pode ser de extrema utilidade como matéria de estudo em escolas de jornalismo. Kadão Chaves fotografou grandes figuras do século XX – Fidel Castro, o Papa, Pelé, Atahualpa Yupanqui, Erico Verissimo e Chico Mendes, entre outros – mas não perdeu a capacidade de refletir sobre as pequenas grandezas e as grandes misérias deste mundo velho sem porteira. Da capa que mostra a fachada de uma relojoaria desativada de Montevideo à contracapa com a cara do próprio photo worker, A Força do Tempo não desperdiça imagens nem palavras.Extinguir a FEE é uma agressão ao povo gaúcho
Há 25 anos, tive a honra de assumir a Presidência da Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser, a FEE, cargo que ocupei por dois anos. Vivíamos um momento difícil para o sistema de estatística nacional, pois o então Presidente Fernando Collor havia decidido, com o objetivo de reduzir gastos da União, promover cortes expressivos no orçamento e no quadro funcional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Pesquisadores e gestores públicos que viveram aquele período conhecem bem os estragos resultantes, sendo a não realização do Censo Demográfico em 1990 um dos mais eloquentes.
Em 21 de novembro de 2016, o governador Ivo Sartori, em uma repetição trágica e tão equivocada quanto aquelas decisões do Governo Collor, anunciou a extinção da FEE, no âmbito de um pacote de privatização de fundações e empresas no Estado do Rio Grande do Sul. Essa decisão causará uma irreversível destruição do sistema de estatísticas gaúcho, e terá um impacto irrelevante sobre as contas públicas pois a FEE custa menos de 0,08% do orçamento do Estado.
Por 43 anos, a FEE tem produzido estatísticas e indicadores metodologicamente consistentes e socialmente confiáveis, atributos fundamentais a um instituto público de pesquisa. Se hoje o Rio Grande do Sul dispõe de uma matriz insumo-produto, de indicadores sobre o agronegócio, de estimativas do PIB, de índices de vendas no Comércio e na Indústria, que permitem conhecer a estrutura produtiva do Estado e direcionar as políticas de estímulo à produção, é porque a FEE os produz. Se dispomos de estimativas municipais de população, que propiciam conhecer a demanda por serviços públicos pelos gaúchos, para atendê-los mais adequadamente, é porque a FEE as organizou. Se temos o retrato do mercado de trabalho metropolitano, é porque a FEE o constrói, mensalmente.
Para produzir todos esses indicadores, a FEE estabeleceu parcerias com instituições e órgãos governamentais, além de órgãos de representação setorial, gaúchos e nacionais. Destaco essas parcerias porque elas são expressão do respeito que a FEE construiu junto à comunidade científica e estatística, aos gestores públicos e à sociedade gaúcha ao longo de sua história, além de mostrarem o empenho do corpo técnico da instituição para dialogar e construir indicadores capazes de retratar, da forma mais adequada possível, a realidade que os atores envolvidos querem e precisam conhecer.
A proposta de extinção da FEE é, por todos os ângulos que analisemos, um enorme equívoco. Mais que um equívoco é um grave dano ao Estado e à sociedade gaúchos. Séries históricas se perderão, informações necessárias ao planejamento das ações públicas deixarão de existir, o conhecimento sobre a realidade produtiva e social do Estado escasseará. Quando o governo ou a sociedade quiser planejar suas ações, fará o que? Contratará empresas de consultoria privadas, que cobrarão pelos serviços que antes eram prestados, com autonomia e qualidade, pela FEE?
Cabe perguntar por que a extinção da FEE? Por que esse verdadeiro atentado ao patrimônio dos gaúchos já que a extinção da FEE não contribui para a melhoria das contas públicas? Será a dificuldade de lidar com a transparência que os dados trazem?
Infelizmente, a conjuntura recente tem se mostrado pródiga em pontes e caminhos que prometem o futuro, mas nos conduzem a um passado que o Rio Grande do Sul e o Brasil não merecem reviver.
Como gaúcha por adoção e como parte do corpo técnico dessa brilhante instituição, me somo a todos que, neste momento, bradam contra a extinção da FEE. Devemos nos opor, mobilizar a sociedade e nossos representantes na Assembleia Legislativa, para evitar que, em nome de uma economia pífia de recursos, comprometamos o conhecimento da realidade do Rio Grande do Sul. É hora de mostrar “valor, constância, nesta ímpia, injusta guerra”.
(Publicado originalmente no Sul21)50 Tons de Rosa, referência para jornalistas do mundo todo
José Antonio Severo
Segunda metade dos anos 70. O Brasil ferve com a “abertura lenta, gradual e segura” da dupla gauchesca Geisel/Golbery. A juventude esperneia e vai empurrando a censura. A imprensa alternativa atinge seu auge. Jornaizinhos críticos, mal-humorados ou satíricos dão dor de cabeça ao governo. Dentre todos, o nanico mais surpreendente não saiu do Rio ou São Paulo, foi mais arrojado que o celebrado Pato Macho, de Porto Alegre: assim era o improvável “Triz”, escrito e editado em Pelotas em outubro de 1976.
Triz até hoje é um espanto e uma referência. Ribombou em todo o País: foi matéria de página inteira na Veja. Esse jornal foi o epicentro de um vulcão cultural que jorrou uma geração de brasileiros notáveis.
É isto que mostra o livro recém-lançado com um título desafiante: 50 Tons de Rosa. Pelotas no tempo da ditadura.
Entretanto, não é uma obra saudosista. Pelo contrário: compõe uma coletânea de relatos vivos de uma geração. Seus autores são as próprias personagens.
Centrado na cidade de Pelotas, nas vidas e vivências de um grupo de jovens, 50 Tons é um trabalho de alcance nacional. Ali está o Brasil daqueles tempos, emergindo de uma mocidade bem-humorada e confiante.
Apesar do que sugeriria o título, recupera tempos inesquecíveis, memórias joviais, tempos de irreverência, de otimismo, de confiança no futuro.
Seus autores-personagens trazem de volta aqueles tempos com recordações bem-humoradas, sem mágoas. As páginas transbordam com a jovialidade, com as peripécias dessa rapaziada que enfrentava os costumes e as repressões inúteis daqueles tempos de chumbo. Chumbo dourado.
A maior parte dos autores-personagens converteram-se em referências nacionais em suas áreas de atuação, a maior parte, evidentemente, na imprensa. Nos velhos tempos eram estudantes universitários das universidades locais, Federal e Católica.
Os primeiros passos dos que vieram do jornalismo foram na redação do vetusto Diário Popular, naqueles tempos comandado por uma figura fascinante, seu chefe de redação e professor do curso de Jornalismo da UCPel, Joaquim Salvador Coelho Pinho.
Pinho, como era chamado por seus alunos e funcionários, é uma figura emblemática da imprensa daquela fase em que a imprensa se renovava sob a batuta de grandes condottieres: Mino Carta em São Paulo, Alberto Dines no Rio, a famosa reportagem da Folha da Tarde dos estagiários do Walter Galvani. Pinho foi um desses reformadores da imprensa, tão carismático, renovador e valente como seus colegas dos chamados grandes centros, conforme o relato.
Esses testemunhos são valiosos e críveis, devido à projeção que a turminha da gurizada de Pelotas veio ter nas diversas áreas em que atuaram dali por diante, nos grandes centros brasileiros. Embora a maior parte fossem jornalistas, outros saíram por outros caminhos e foram profissionais de grande destaque nos seus mercados.
Não seria justo destacar nenhum dos autores, por ser injustiça com os demais. Neste espaço exíguo de um veículo de internet não se pode alongar. Citamos apenas o organizador (e autor de várias partes do livro), Lourenço Cazarré. Entretanto, não se pode omitir seus nomes. Portanto, por ordem de entrada em campo: Lourenço Cazarré, Vitor Minas, Rubens amador Filho, Geraldo Hasse, Luiz Lanzetta, Ayrton Centeno, Ênio Squeff, Carlos Morais, Marcius Cortez, Lúcio Vaz, Kledir Ramil, José de Abreu, José Cruz, Marcos Macedo e, um autor oculto, pois sua presença emana do livro, Laerte Mário Pedrosa.
É muita gente boa. Pelotas deve tremer na base até hoje, pois não é fácil para uma comunidade ter uma galera destas em campo ao mesmo tempo.
O livro tem de tudo. É a história de um grupo de rapazes, é a reportagem sobre uma cidade nos tempos da ditadura, é o Rio Grande e, além de tudo, um quadro do Brasil, com pinceladas de arte, racismo, ditadura, imprensa, vida acadêmica, frescura e todos os temas que se possa imaginar.
A vontade é escrever sem parar, pois a leitura é veloz devido ao texto escorreito dessa turma. O livro é lindo, uma obra de arte gráfica. A capa é de um dos redatores, Ênio Squeff. 50 Tons de Rosa é um livro de referência para jornalistas de todo o mundo, uma obra imperdível para brasileiros, essencial para gaúchos e uma ameaça aos pelotenses.
Belo livro, em todos os sentidos. Leitura obrigatória.
