Categoria: ANÁLISE&OPINIÃO

  • O poeta Nei Duclós retorna ao “crime” de 1976

    “Este é o poeta Nei Duclós”, me disse Jorge Escosteguy (Scotch), indicando um sorridente magrão de olhos azuis e cabelos compridos. Posso estar enganado quanto à data — final de 1976, acredito – mas não quanto ao local: foi no corredor de acesso às baias da redação da revista Veja, onde fazíamos parte da colônia gaúcha, ao lado de JA Dias Lopes, Valdir Zwetsch e Vitor Hugo Sperb — tínhamos ainda como uma espécie de gaúcha honorária a Dorrit Harazim, cidadã do mundo nascida casualmente em Iraí.
    Como sempre, o santanense Scotch estava apressado e praticamente rebocava o amigo uruguaianense, que não escondia a timidez (ou seria constrangimento?), para a editoria de artes&espetáculos, onde o editor José Márcio Penido, mineiro cordial, lhe daria alguns trabalhos avulsos. Resenhas de livros, que dariam ao novato gaúcho (“noviço rebelde”, quase escrevi) um duplo prazer: ler livros recém-lançados e tirar disso seu ganha-pão.
    Eram tempos difíceis, politicamente, mas não faltava trabalho razoavelmente bem remunerado: bastava um frila por semana numa das revistas da Abril ou em outras editoras de São Paulo ou do Rio para um jovem repórter sustentar-se. Caras criativos e competentes como Nei Duclós nadavam de braçada no mercado editorial do auge da Ditadura Militar.

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    Foto de Juarez Fonseca, na Ufrgs

    Aos 28 anos, já tarimbado como jornalista, Nei era festejado como o poeta que se revelara excepcional logo no primeiro livro, Outubro, lançado em 1976 em Porto Alegre. Nos anos seguintes ele lançaria outros, como No Meio da Rua (1979), mas acabaria deixando a poesia mais ou menos de lado para lutar pela sobrevivência na Paulicéia áspera e cruel. Ele e Scotch trabalhavam juntos na IstoÉ e até na revista da Fiesp nos anos 1990,  quando o santanense sucumbiu a um infarto, 20 anos atrás.
    Agora, 40 anos depois da memorável estréia literária do poeta Nei Duclós, ei-lo de volta com o mesmo Outubro numa edição comemorativa recheada de aportes, considerações e elogios de amigos e admiradores, entre eles Claudio Levitan, Dilan Camargo, Juarez Fonseca e Luiz Carlos Merten, gaúchos que afirmam ver nesse livro uma espécie de “manifesto de uma geração”.  De fato, Outubro mantém acesa a chama da juventude poética dos terríveis anos 70.
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    Nei Duclós fotografado por Nana Monteiro/ND

    Morando num ermo recôndito em Florianópolis depois de trabalhar por duas ou três décadas em São Paulo, sempre entremeando jornalismo, crônica ,conto, assessoria de imprensa e poesia, Nei Duclós não conserva da fisionomia da juventude senão os profundos olhos azuis. A cabeleira hippie deu lugar a um corte convencional de barbearia e a magreza poética transformou-se numa opulenta obesidade. Nada de novo nas fronteiras da vida: muitos magros viraram gordos enquanto alguns se tornaram praticamente irreconhecíveis à medida que o tempo lhes alterava a estampa, mas nem todos renunciaram à humanidade. Embora castigado pelos transes da vida, Nei Duclós não perdeu o peculiar senso de humor e se manteve fiel ao seu passado poético. Mais do que isso, ele continua escrevendo e publicando artigos, crônicas, contos e poemas em seus endereços digitais, como se pode conferir no site www.consciencia.org/neiduclos, no seu blogoutubro.blogspot.com, no Facebook e no Twitter, tudo isso indicado no Google.
    nei-outubroVisto em perspectiva, Outubro de 1976 lembra o trabalho de poetas armados de graça e raiva como Thiago de Mello, Vinicius de Moraes antes de aderir à MPB, Drummond, João Cabral de Melo Neto, Affonso Romano de Santana e Armando de Freitas Filho, entre outros. Diferente da maioria dos acima citados, o que mais caracteriza a poesia de Nei Duclós é a economia de palavras e até de sinais gráficos como ponto e vírgula.
    Em poucos versos ele liquida o assunto: “Sempre que vejo um rio/parece que do outro lado/está a Argentina” (Lição de Travessia, poema em que ele fala “d’as balsas carregadas da infância”). Para encurtar esta resenha, vejam o poema que ele escreveu sobre Mario Quintana:
    “Olhem o antípoda
    olhem o animal da palavra
    É um dinossauro na cidade de vidro
    Borboleta branca na floresta queimada
     
    Respeitem seu andar
    e desconfiem com temor
    de sua conversa fiada
     
    Ele é o flagelo do Senhor
    e vocês não sabem”
     

  • Raul Seixas, o “Monstro Sist” e o conformismo

    O sistema – enquanto engenharia social montada para submeter os menos conscientes aos ímpetos dos poderosos – produz seres previsíveis e infelizes, porém conformados: pessoas que praguejam por não gozarem do melhor emprego, por não ganharem os melhores salários, por não comprarem os melhores carros, pelas injustiças… mas é só chegar o final de semana – e seus goles de esquecimento – que tudo fica “globeleza”. Insatisfeitos mas obedientes, aceitam manter o “silencioso desespero” de suas vidas, como dizia Thoreau.
    A Arte é um dos presentes dos Céus para chacoalhar as estruturas da sociedade quando seus integrantes se encontram alheios às infinitas possibilidades que a vida proporciona. Raul Seixas (28/07/45 a 21/08/89) foi um desses artistas que fizeram da arte uma espada para combater a hipocrisia e transmitir os valores de liberdade e coragem, que nortearam sua passagem por este planeta.
    Com temas irreverentes e profundos e uma ousadia rítmica que unia vertentes distantes como Xaxado e Rock and Roll, a música de Raulzito, como também era chamado, seduziu milhões de fãs pelo “som” e o conteúdo originais. Mais do que palavras bem colocadas, suas letras inspiravam as pessoas a questionarem a ordem estabelecida e a buscarem um caminho alternativo às conveniências do sistema, ou o “Monstro Sist”, como tratava.
    A canção “Ouro de Tolo” é uma das obras que condensam o espírito contestador do “Maluco Beleza”.  Versos como “Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar” e “Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado” são um tapa na nuca dos reféns da mesmice cotidiana.
    O mais impactante para o paradigma vigente, porém, ele deixa para o final: convicto da existência de seres inteligentes provenientes de outros planetas, termina a letra da música com uma provocação inquietante para os que preservam pelo menos um pouco da curiosidade dos grandes homens: “Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais, no cume calmo do meu olho que vê, assenta a sombra sonora de um disco voador”.
    Com todos os seus erros humanos, o baiano Raul Seixas foi um desses raros exemplos de artistas que conseguiram fazer do próprio ofício um instrumento para alertar os que, apesar de todo sofrimento, persistem “bravamente” na zona de conforto. (Na maioria das vezes, é o próprio sistema que se vale da influência da arte para propagar a programação mental que mais lhe convém.) É urgente o surgimento de artistas com a coragem e o talento de Raul Quem sabe assim o algo mais substantivo possa ser feito contra o “Monstro Sist”.

  • Um “thriller” do que a ditadura faria nos anos seguintes

    Lançado em agosto e repicado agora na 62ª Feira do Livro de Porto Alegre, “O Sargento, o Marechal e o Faquir” (272 páginas, Libretos), de Rafael Guimaraens, recebeu uma carrada de comentários favoráveis em jornais, revistas e blogs, mas nenhuma resenha ousou dizer que se trata da mais completa e precisa reconstituição da história trágica do sargento nacionalista Manoel Raymundo Soares, protagonista central – como vítima — do “Caso das Mãos Amarradas”, que veio à tona em agosto de 1966 na margem esquerda do Rio Jacuí, em águas da capital gaúcha.
    Seus algozes, identificados como integrantes do DOPS e do Exército, não foram punidos por um rol de crimes que começa com a prisão sem mandado judicial, segue com a tortura por uma semana em dependências militares e policiais, agrava-se com o encarceramento por cinco meses sem processo na Ilha do Presídio, no Lago Guaíba, e termina com a morte por afogamento durante uma sessão de “caldo” em que o preso foi obrigado a ingerir uma bebida alcoólica, fosse para aguentar o frio de agosto, fosse para “abrir o bico”.
    Na sua última viagem, à noite, nas águas do lago-rio que banha Porto Alegre, Manoel tinha as mãos amarradas às costas com tiras de sua própria camisa, item que ajudaria na sua identificação, pois a “volta-ao-mundo”, fácil de lavar e que não precisava ser passada a ferro, era sua roupa de todo dia na prisão.
    O “Caso das Mãos Amarradas” passou das páginas policiais para o noticiário político, pois gerou uma CPI (comissão parlamentar de inquérito) na Assembleia Legislativa do Rio do Grande do Sul, afrontando as autoridades militares e o próprio governador Ildo Meneghetti, obrigado a lavar as mãos como o títere romano Pôncio Pilates no caso de Jesus Cristo, segundo o Novo Testamento.
    Salvo descuido histórico, Manoel Raymundo Soares foi a primeira vítima da tortura política praticada à sombra da ditadura militar então comandada pelo marechal Castello Branco.
    No livro, o sargento nacionalista, admirador de Leonel Brizola, desertor do Exército, brilha como herói por não entregar os companheiros dissidentes da ditadura, com quem andava a tecer planos revolucionários — findas as sessões de tortura, isolado em sua cela, ele punha-se a cantar o Hino Nacional Brasileiro, como recordaram alguns companheiros de cárcere ao repórter-historiador de Porto Alegre. No fundo, era um sonhador que foi se isolando no radicalismo político, como aconteceria com algumas centenas de dissidentes nos anos seguintes.
    Já o marechal Castello Branco, pivô da prisão do sargento, consta no livro como o chefe fraco que não ousou enfrentar os militares adeptos do endurecimento do regime, sacrificando seus supostos sentimentos democráticos à disciplina da caserna.
    Por fim, num achado digno dos melhores romances policiais, Rafael Guimaraens põe na história um “tertius” até agora esquecido por narradores e acadêmicos que se debruçaram sobre o Caso das Mãos Amarradas: o faquir fracassado Edu Rodrigues, pintor de letreiros e fazedor de bicos que entra em cena para “ajudar” o solitário sargento na colagem de panfletos antiditadura no centro de Porto Alegre e acaba se revelando um “cachorrinho” do Serviço Nacional de Informações (SNI).
    Narrada em takes que se sucedem como um pré-roteiro cinematográfico, a história não se limita às três personagens do título. Nela aparecem também investigadores policiais sem medo, advogados conscientes de seu papel profissional e parlamentares corajosos diante de autoridades civis e militares armadas de evasivas, mentiras e omissões. O próprio general-presidente Castello Branco não obtém resposta para um memorando em que pede informações sobre o “Caso das Mãos Amarradas”. Entre os estudantes que se movimentam na cena, aparece até Tarso Genro, então com 16 anos, disputando vaga na liderança da entidade nacional dos secundaristas.
    Em seu relatório-denúncia, o promotor Paulo Tovo conclui que os principais responsáveis pela morte do ex-sargento são o delegado do DOPS José Morsch e o major do Exército Menna Barreto. Nada acontece, exceto que Tovo ficou marcando passo em sua carreira no Judiciário gaúcho. Uma injustiça profissional, sem dúvida.
    Cinquenta anos depois, o crime de Porto Alegre permanece impune. Afora a leveza e precisão da narrativa, o maior mérito do livro de Rafael Guimaraens é provar que o “Caso das Mãos Amarradas” foi  um “thriller” do que a ditadura militar faria nos anos seguintes, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, que se destacaram como centros de caça, aprisionamento e tortura de dissidentes políticos.
    Porto Alegre não abdicou de seu papel como coadjuvante da repressão, como se viu no sequestro dos uruguaios Universindo Diaz e Lilian Celiberti, episódio de novembro de 1978 cujos autores não foram punidos, embora estivessem a serviço da Operação Condor, uma das maiores organizações criminosas da história da América Latina (ver a propósito o livro “Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios” (464 páginas, L&PM Editores, 2008), do repórter-historiador gaúcho Luiz Claudio Cunha.
    Autor de vários livros-reportagem, entre os quais se destacam “A Enchente de 1941” e “A Dama da Lagoa”, Rafael Guimaraens construiu com “O Sargento, o Marechal e o Faquir” sua maior obra. Entretanto, trata-se de apenas um tijolo a mais na reconstrução da história brasileira que se enfileira ao lado de outros livros como “Os Vencedores” (Geração Editorial, 2013), do gaúcho Ayrton Centeno, que usam a ferramenta da investigação jornalística para fazer aflorar verdades e mentiras, das quais se valem os cidadãos conscientes para fazer a justiça possível no momento oportuno.
    Foi assim no episódio de dois anos atrás, quando a Câmara dos Vereadores de Porto Alegre rebatizou como Avenida da Legalidade e da Democracia a principal via de acesso a Porto Alegre, até então denominada Marechal Castello Branco.

  • Instituições adultas estão doentes

    Fazia muito tempo que instituições previstas para cuidar e bem educar crianças e adolescentes não se prestavam a espetáculos tão grotescos como os que temos assistido no Brasil nos últimos meses.
    Frente a ocupação de mais de 1.300 escolas estaduais e federais, faculdades e universidades, em cerca de dois terços dos estados brasileiros, por estudantes secundaristas e do ensino superior contrários aos anunciados efeitos nocivos da PEC 241 (55), contrários a Medida Provisória que permite o sucateamento da Educação Básica e às propostas de Lei, intituladas Escola Sem Partido, o Ministério da Educação falta às suas obrigações constitucionais.
    Mais que isso, o MEC ameaça, busca que escolas e instituições de ensino superior entreguem os nomes de quem está ocupando para tomar ‘medidas cabíveis’. Com a proximidade do Exame Nacional do Ensino Médio, ao invés de negociar com os movimentos, dá ultimato: saiam ou não haverá o ENEM.
    Ministério da Educação assume, com a postura do ministro de um governo antidemocrático, ares do governo civil-militar pós 1964. No caso do ENEM, jogam estudantes contra estudantes, povo contra povo. Alega o MEC questões técnicas e de custo. Absoluta inverdade.
    Com maiores problemas e prazo mais exíguo, a Justiça Eleitoral determinou a mudança dos locais de votação em escolas ocupadas, no segundo turno, para mais de 700 mil eleitores dos estados do Espirito Santo, Goiás, Pernambuco e Paraná. Já o órgão que deveria ser o gestor nacional da política pública de educação deixou 191 mil estudantes sem ENEM por motivo ideológico. Por repulsa à democracia, apostando no caos social, esquivando-se de debates com os estudantes.
    Por outro lado, no Distrito Federal, um juiz determina tortura contra estudantes ocupantes, posição rapidamente seguida em outros estados, com corte de água, luz, comida e entrada de familiares em escolas ocupadas. Um promotor de justiça do Paraná diz que estudantes que ocupam escolas são piores que adolescentes que estão aliciados pelo tráfico de drogas e que cometem atos infracionais.
    Adultos impregnados de autoritarismo, deseducando. Jovens praticando atos de desobediência civil, de coragem e de esperança.

  • "Moro num país desigual…"

    Geraldo Hasse
    Para um pobre mortal situado na base da pirâmide social, é afrontoso ver os senhores magistrados aceitarem o benefício do auxílio-moradia alegando que é legal e que uma recusa, ostensiva ou discreta, seria mal vista pela categoria. Nisso, ao contrário da lenda, a magistratura não foi lerda. Até onde se sabe, nenhum juiz teve coragem de recusar o auxílio- moradia, o mais recente privilégio da categoria funcional mais bem remunerada do país.
    A mordomia habitacional dos magistrados é acintosa quando se pensa que essa casta é protegida constitucionalmente por três invejáveis garantias: indemissilidade, inamovilidade e irredutibilidade dos salários.
    Essa trinca de “ades” foi institucionalizada para que os magistrados fiquem teoricamente livres de perseguições políticas e de tentações corruptivas, podendo assim se dedicar à administração da justiça e à busca do bem comum. Entretanto, bem remunerados e com a carreira garantida, muitos deles se deixam seduzir pelo brilho fácil das entrevistas e palestras.
    No momento, os mais picados pela mosca azul do poder são o juiz Sergio Moro, o ministro Gilmar Mendes e a nova presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Carmen Lúcia.
    Por mais meritocrático que seja, o sistema do Judiciário abriga e cultiva  privilégios incompatíveis com o estágio de (sub)desenvolvimento do Brasil.
    Seria muito mais justo se o dinheiro do auxilio-moradia fosse aplicado em favor da segurança do patrimônio público — escolas, creches e postos de saúde – frequentemente depredado por gente sem noção de direitos e deveres sociais. Mas quem vai dizer – “Eu passo, não vou aceitar”?
    Como estão no topo da escala salarial do funcionalismo, eles poderiam dispensar benesses que afrontem o espírito democrático. Seriam aplaudidos pela população. No entanto, o que se vê é a maioria dos magistrados fazendo força para entrar para o clube da elite pensante, aquela que só pensa em si.
    Além de não ter coragem de corrigir distorções como as férias de 60 dias, que agridem a cidadania, a maioria dos magistrados adota como seu o estilo de vida da classe dominante, ignorando o fato de que a maioria dos brasileiros está digerindo o trauma do impedimento presidencial e o triste espetáculo da Operação Lava Jato.
    Na vida pública, o exemplo ético é fundamental. Sem ele, não se constrói um país equilibrado e feliz.

  • Treme o governo Temer

    Pinheiro do Vale 
    O governo Temer treme. Na semana que vem, um dia depois de Finados, o governo ilegítimo do PMDB poderá ver assinada sua sentença de morte e iniciar sua derrocada afundando-se na ingovernabilidade e acabar expulso do Palácio do Planalto pelo improvável Gilmar Mendes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Quem diria?
    O primeiro choque virá do julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), um dispositivo que impede a pessoas acusadas na Justiça de ocupar cargos de vice-presidente da República, presidente da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal.
    Por isto que o então presidente da Câmara, o então deputado Eduardo Cunha, foi impedido de exercer o cargo. Não cassado nem deposto, apenas foi afastado para que o País não corresse o risco de ser governado por uma pessoa acusada de ter cometido crimes.
    Se bastou para Cunha, vale para Renan. Ele é o segundo na linha de sucessão. O STF não vai cassar seu mandato; apenas transfere o poder para seu vice-presidente, senador Jorge Viana, do PT do Acre, ex-governador de seu estado e eminência da Oposição. É aí que a porca torce o rabo.
    A se manter esta agenda, a ADPF entrará em plenário, no Supremo, dia 3 de novembro. Se Renan cair, Viana assume a Presidência do Senado. Então desaba todo o programa econômico de Temer, pois ficará na mão do petista a tramitação da PEC 241. É um tiro no coração.
    A PEC da Morte não é apenas um programa de arrocho orçamentário. Vai além. No curto prazo seu valor é demonstrativo para o Brasil e o mundo do poder real do governo ilegítimo. Veja o que a aprovação da PEC diz: Dilma caiu porque não conseguia aprovar sequer um tema por maioria simples; Temer entra, faz passar toda a agenda (dezenas de MPs e vetos) contida e ainda altera a Constituição à hora e como bem quiser.
    É muita força política, diz a todos, desprezando os números catastróficos da popularidade (aprovação na linguagem do IBOPE) e as manifestações das ruas e ocupações de mais de mil escolas em todo o País gritando “Fora Temer” e “abaixo a PEC 241”.
    A questão é que sem Renan, leia-se a confraria do PMDB/PSDB, a casa cai. Viana e a aguerrida bancada oposicionista poderão, mesmo minoritários do plenário, retardar, embaraçar, obstaculizar e, por fim, derrubar a ratificação da PEC aprovada na Câmara. A derrota da PEC é a pá de cal na cova do golpismo.
    Caindo a 241, zerada ‘ “reforma”, vem baixo a “equipeconômica” do ministro Henrique Meirelles, o fiador do governo ilegítimo junto ao sistema financeiro. Dólar nas alturas, disparada da dívida, credibilidade no chão. Um quadro desestabilizador irrefutável.
    Entretanto, enquanto tudo isto não acontece, Michel Temer tem uma maioria confortável no Senado. Quanto poderá fazer um presidente hostil? Esta é a questão. Na Câmara a arapuca que Cunha deixou armada não funcionou. E no Senado? Estabelece-se o clima de horror na aliança golpista.
    No Senado será diferente. Na Câmara, ao montar sua chapa rebelde, Cunha olhou para o outro lado da rua na Praça dos Três Poderes e viu que perigo corria a presidente Dilma Rousseff, que tinha uma raposa à espreita no seu galinheiro. Com as barbas de molho, escolheu para vice-presidente a figura esdruxula do histriônico deputado Waldir Maranhão (PP/MA).
    Entretanto, não deu certo. Nem mesmo o baixo clero engoliu Maranhão e tomaram o poder na mesa deixando o sucessor legítimo de fora. Golpe dentro do golpe.
    Isto não se reproduz com Jorge Viana, um ex-governador reeleito e aprovado nos dois mandatos em seu estado (fez o sucessor). Na Mesa Diretora, uma figura irrepreensível, respeitado por todas as correntes, isento quando dirige os trabalhos. Um verdadeiro estadista. Não dá para comparar com Maranhão.
    Viana, contudo, estará em minoria, apoiado numa bancada aguerrida, mas com suas lideranças bastante agastadas por debates ríspidos com as bancadas golpistas.
    Por outro lado, o senador acreano não pode ser removido simplesmente. Embora afastado, Renan Calheiros ainda será o presidente, tal qual foi Cunha no seu ocaso. Viana só pode ser substituído se o titular renunciar à Presidência.
    No caso de renúncia, haveria nova eleição, pois cai a Mesa. Entretanto, ninguém espera que o senador alagoano abra mão de suas prerrogativas antes de esgotar todos recursos. Nesse cenário, Renan fica até fevereiro de 2017, quando se extingue seu mandato. Ou seja: o tempo vai correr contra o governo.
    A verdade é que ninguém esperava por esta peça incluída no enredo pela presidente do Supremo, ministra Cármen Lúcia. Esta ação estava lá há tempos, dormindo.
    Soterrada a PEC 241, Meirelles pede as contas, Temer treme. Sua “base” ancorada na poderosa e numerosa ala fisiológica dos minipartidos da direita, que já demonstrou sua perfídia quando abandonou a base aliada do governo Dilma cooptada por tucanos e peemedebistas, é um castelo de cartas. Os rastros da traição ainda estão bem visíveis no gramado do Palácio do Planalto.
    Temer terá que se arrastar até 31 de dezembro. Virado o ano, muda o processo eleitoral: na falta de um vice, a eleição para o Executivo será indireta, no Congresso. Nenhuma força, nem mesmo a oposição, quer ir para as ruas pedir votos agora. A direita tem medo que o repúdio ao governo seja um tiro pela culatra; a oposição ainda tem o lombo doendo pela sova que levou nas eleições municipais. Melhor um acordão.
    Já na virada do ano, poderá desabar sobre o presidente ilegítimo a impugnação da chapa vencedora em 2014. No TSE os procuradores estão assoprando as cinzas e reacendendo as brasas. Logo-logo volta a labareda.
    Caso Renan seja torrado, será necessário encontrar um nome que preencha as pré-condições para uma situação tão delicada. Deve ser uma pessoa que responda a uma reputação ilibada, notório saber, acima de todas as controvérsias. Não é difícil supor que poderiam repetir a fórmula da 1945, quando o poder foi depositado no colo do presidente de Supremo, ministro José Linhares. Deve ser uma pessoa que se sustente não só pelas qualidades individuais, mas também respaldada pela representatividade institucional. Quem seria? Vamos ver.

  • As eleições do desencanto com a política e da ilusão com os “não políticos”

    Benedito Tadeu César
    Cientista político e professor da UFRGS
    Diferentemente do que noticiou a grande imprensa corporativa e do que tentam nos fazer crer alguns analistas oficiais, o resultado do 1º Turno das eleições municipais de 2016 não representou a vitória das forças políticas que depuseram Dilma Rousseff e que se dedicaram ao aniquilamento do PT e de seu projeto de governo e de país.
    O resultado expressou, em primeiro lugar, o desencanto com as instituições políticas e, ainda, o crescimento de candidaturas apresentadas como “antipolíticas” ou “novas” na política.
    O somatório das abstenções (não comparecimento), dos votos brancos e dos nulos, que em ciência política é denominado de alienação eleitoral (com o significado de que o eleitor abre mão de sua capacidade de interferir no resultado do processo eleitoral) registrou, em 2016, um aumento expressivo frente às eleições anteriores.
    Tomando-se os exemplos das capitais dos estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul, verifica-se, de acordo com os dados do TSE, que a alienação eleitoral praticamente dobrou durante o período das cinco eleições municipais realizadas de 2000 até 2016.
    Como se pode verificar nos gráficos e tabelas abaixo, a alienação eleitoral para a Prefeitura de São Paulo saltou de 22,60% em 2000 para 34,70% em 2016, enquanto praticamente dobrou em Porto Alegre em igual período, passando de 19,04% em 2000 para 38,40% em 2016.
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    Os gráficos e as tabelas acima e abaixo permitem observar que, se ocorreu um salto brusco do crescimento da alienação eleitoral na eleição do corrente ano nas duas capitais em questão, este salto foi mais intenso em Porto Alegre. Nesta capital, além disso, os votos nulos praticamente dobraram entre 2012 e 2016, saindo de 4,82% para atingir 8,88%. Fenômeno similar foi observado também com relação à votação para a Câmara Municipal, mas que não será aqui analisado.
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    O crescimento significativo da alienação eleitoral ocorreu em todo o país. A análise dos resultados eleitorais de 2016, realizada a partir dos dados fornecidos pelo TSE, permite constatar que, em 11 das 26 capitais onde foram realizadas eleições municipais neste ano, a alienação eleitoral foi superior à votação do candidato mais votado no 1º turno. O caso de São Paulo é emblemático, pois o candidato eleito já no 1º turno obteve votação inferior à alienação eleitoral.
    Mais grave do que este fato, em três capitais, a saber, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a alienação eleitoral superou o somatório dos votos conferidos aos dois primeiros colocados, ou seja, o total de “não voto” foi superior aos votos totais obtidos pelos dois candidatos mais votados e que disputarão o 2º turno, como se pode constatar no quadro abaixo.
    Cumpre alertar que, neste quadro, os percentuais de votos dos candidatos apresentados diferem daqueles fornecidos pelo TSE, uma vez que o TSE calcula os percentuais eleitorais tomando por base apenas os votos válidos, ou seja, excluindo as abstenções e os votos nulos e brancos, enquanto os dados apresentados no quadro foram calculados sobre o total do eleitorado apto a votar, única maneira de se trabalhar com a mesma base numérica para o cálculo da alienação eleitoral e dos votos em cada candidato.
    Alienação eleitoral e votação dos candidatos melhor colocados nas capitais no 1º turno em 2016

    CapitalAlienação Eleitoral1º candidato mais votado no 1º Turno2º candidato mais votado no 1º turnoTotal dos dois candidatos mais votados no 1º turno
    Porto Alegre38,40%19,45%16,90%36,35%
    Florianópolis22,86%31,70%19,25%50,95%
    Curitiba30,22%27,66%17,04%44,71%
    São Paulo38,48%34,72%10,88%45,60%
    Rio de Janeiro42,54%17,19%11,30%28,49%
    Vitória21,44%34,93%28,16%63,08%
    Belo Horizonte43,14%20,54%16,33%36,88%
    Campo Grande30,35%24,82%19,11%43,93%
    Goiânia30,48%28,95%22,77%51,72%
    Cuiabá33,55%23,62%19,64%43,26%
    Salvador34,72%50,42%9,91%60,33%
    Aracajú38,94%25,13%24,69%49,82%
    Maceió29,56%33,99%17,94%51,93%
    Recife23,32%38,51%18,54%57,05%
    João Pessoa25,27%45,54%25,59%71,13%
    Natal36,78%42,23%8,90%51,13%
    Fortaleza25,42%37,70%23,68%61,37%
    Teresina20,09%41,37%32,17%73,53%
    São Luís21,48%36,34%16,98%53,32%
    Palmas25,51%39,82%23,90%63,72%
    Belém26,98%23,12%21,98%45,10%
    Macapá24,50%34,26%20,26%54,52%
    Boa Vista26,71%59,51%7,06%66,57%
    Manaus18,40%28,99%20,50%49,49%
    Porto Velho36,78%18,11%17,40%35,51%
    Rio Branco22,16%43,25%25,24%68,48%

    Como se pode observar, não se tratam de resultados eleitorais que legitimem fortemente os eleitos e/ou os candidatos que chegaram ao 2º turno e, muito menos, que impliquem ampla aprovação popular e eleitoral aos projetos de governo que eles representam.
    A análise da geografia eleitoral nas capitais brasileiras, isto é, da distribuição espacial dos votos segundo as zonas eleitorais e os bairros, evidencia que foram nas regiões com eleitores de mais baixa renda onde se observou as maiores incidências de alienação eleitoral, ou seja, de “não votos”. Estas áreas, normalmente localizadas nas periferias das grandes cidades e capitais, são áreas onde o PT detinha a preferência da maioria do eleitorado.
    O caso de São Paulo é, novamente, emblemático, uma vez que não apenas o candidato petista perdeu grande parte do eleitorado das regiões de menor poder aquisitivo e que havia votado nele em 2012, como foi também nessas regiões onde ocorreu o maior percentual de alienação eleitoral ou de “não votos”.
    É expressivo, além disso, o fato de Porto Alegre e Belo Horizonte terem sido administradas pelo PT durante longos anos e serem duas das três capitais onde a alienação eleitoral suplantou o somatório dos votos obtidos pelos dois candidatos que chegaram ao 2º turno, conforme referido acima.
    O desencanto com o PT e, mais do que isto, o desencanto com a política de modo geral, provocou o crescimento do “não voto” e fez com que candidatos “alternativos”, que se apresentaram como “novidade” e/ou como “não políticos”, obtivessem a maioria dos votos válidos. Maioria obtida em grande parte das capitais apenas porque parcela expressiva do eleitorado (média de 29,54% e mediana de 28,27%) se alienou do processo, deixando de votar em qualquer dos candidatos concorrentes.
    Em relação aos candidatos “alternativos” vencedores no 1º turno ou levados ao 2º turno eleitoral nas capitais analisadas, vejam-se os exemplos da vitória de João Dória Jr, em São Paulo, um empresário que se apresenta como “não político”, e a ida ao 2º turno de Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro, senador e antes de tudo pastor evangélico, e, ainda, de Nelson Marchezan Jr., em Porto Alegre, deputado federal, filho do líder do governo Figueiredo (o último da ditadura civil-militar de 1964/85) e apoiado pelas forças políticas tradicionais mais conservadoras no estado, o qual  se apresenta como um “novo político”.
    Se o PT foi o partido que mais perdeu postos e eleitores nestas eleições e o PSDB o que obteve o maior crescimento percentual, enquanto o PMDB manteve-se ainda como o partido detentor do maior número de Prefeituras e o segundo em eleitorado, isto se deveu muito mais ao desencanto do eleitorado com a política, em geral, e com o PT em particular, do que ao encantamento com as propostas e/ou os candidatos peessedebistas e/ou peemedebistas.
    Considerando-se os resultados eleitorais nacionais registrados em 2012 e em 2016, verifica-se que o PT perdeu 60,1% do eleitorado total que havia conquistado na eleição municipal anterior e passou da primeira para a quinta posição nestas eleições, enquanto o PSDB teve um crescimento eleitoral total de 25,1% e passou a ocupar a primeira posição.
    O bom desempenho eleitoral do PSDB pode ser atribuído ao fato de ele ser o partido que tradicionalmente polarizou com o PT, caracterizando-se como o seu antípoda ideológico, e, talvez, principalmente pelo fato de as denúncias envolvendo muitas de suas principais lideranças não terem sido investigadas judicial e criminalmente e nem terem sido exploradas pela grande imprensa, como ocorreu principalmente com o PT e suas lideranças e, secundariamente, com o PMDB.
    Tão significativo quanto a diminuição eleitoral do PT e o crescimento do PSDB, foi o decréscimo registrado na votação nacional de boa parte dos partidos tradicionais, aqui considerados como os partidos com presença histórica nas disputas eleitorais e/ou que já haviam obtido resultados eleitorais expressivos em eleições municipais anteriores. Neste grupo de partidos, apenas o PDT, o PPS e o DEM cresceram eleitoralmente e, mesmo assim, o fizeram de modo débil: o primeiro cresceu 2%, o segundo 4,4% e o último 6,3%.
    Todos os demais partidos aqui considerados como tradicionais, incluindo-se neste grupo também os partidos de esquerda, exceto o PT e o PPL (que cresceu 8,2%, mas que passou de apenas 146.686 para 158.650 votos), sofreram uma diminuição eleitoral total de 27% frente aos votos que haviam conquistado em 2012. Entre estes partidos, o campeão de perdas foi o PMDB, que teve uma redução de 12,5% em seu eleitorado, o que representa quase a metade do decréscimo eleitoral deste conjunto de partidos.
    Votação por partido em 2012 e 2016

    Partido20122016Diferença
    PSDB14.074.12117.612.60625,1%
    PMDB17.007.75514.877.621-12,5%
    PSB8.760.5468.304.485-5,2%
    PSD6.064.4648.005.87832,0%
    PT17.448.8016.822.964-60,9%
    PDT6.265.1986.388.8982,0%
    PP5.675.4055.667.418-0,1%
    DEM4.596.1124.886.8176,3%
    PR3.818.3744.388.09514,9%
    PRB2.615.5533.882.49448,4%
    PTB4.102.4703.555.638-13,3%
    PPS2.509.9082.621.5414,4%
    PSOL2.400.8922.097.623-12,6%
    PC do B1.882.5261.767.051-6,1%
    PSC1.695.6431.761.6883,9%
    PV2.165.0781.691.752-21,9%
    SD1.469.099
    REDE995.447
    PHS319.572945.782196,0%
    PMM570.684797.44939,7%
    PTN354.028697.62797,1%
    PROS689.958
    PSL324.604487.59250,2%
    PMB288.893
    PEN286.493
    PRP385.586280.645-27,2%
    PTC412.783268.155-35,0%
    PT do B301.338267.680-11,2%
    PSDC240.480211.648-12,0%
    PRTB328.750162.215-50,7%
    PPL146.686158.6508,2%
    PSTU178.60777.952-56,4%
    NOVO38.512
    PCB46.10724.501-46,9%
    Fonte: G1, com base em dados do TSE

    Na verdade, os grandes vencedores do 1º turno das eleições municipais deste ano, considerando-se os resultados obtidos nacionalmente, foram os partidos de orientação religiosa ou de defesa de interesses clientelísticos. O PR obteve um crescimento eleitoral de 14,9%, o PSD de 32%, o PRB de 48,4%, o PSL de 50,2%, o PTN de 97,1% e o PHS de 196%.
    Somados, os votos obtidos pelo PR, PMM, PRB, PSL, PTN e PHS representam 19.204.917 eleitores, o equivalente a 13% dos votos válidos consignados em todo o país. Isto faz com que o eleitorado deste conjunto de partidos se torne numericamente mais expressivo do que o do PMDB ou do PSDB tomados isoladamente, já que o primeiro obteve 14.877.621 ou 10% dos votos válidos e o segundo 17.612.606 ou 12% desses votos nacionalmente.
    A tendência é, portanto, o aumento do poder de pressão e de chantagem política desse conjunto de partidos e, a se repetir o mesmo fenômeno nas eleições nacionais de 2018, o revigoramento do chamado “presidencialismo de coalizão” brasileiro, reforçado em suas práticas de barganha.
    Afastado dos partidos e dos candidatos que anteriormente mereciam a sua preferência, o eleitorado se dividiu. Cerca de 1/3 dos eleitores das capitais decidiu-se pela alienação eleitoral, abdicando de seu direito de interferir no resultado eleitoral, enquanto cerca de 1/4 do total dos eleitores do país decidiu votar em partidos alternativos, ou seja, em partidos que não tinham obtido expressão nas eleições anteriores.
    Verifica-se, deste modo, que uma parcela importante do eleitorado total do país não votou nos candidatos e/ou os partidos que tiveram maior responsabilidade nos governos anteriores ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff, nem votou nos candidatos e/ou partidos que interferiram diretamente na sua derrubada e que dão sustentação política ao atual governo federal.
    Assim, mais do que uma eleição que legitime os atuais governantes em nível federal e que autorize seu projeto de governo, o 1º turno das eleições municipais de 2016 revela a existência de um eleitorado à deriva, a ser disputado pelos diferentes partidos, e que está sendo ganho, até aqui, em grande parte, pelos partidos que defendem não projetos políticos para o país,  mas interesses de parcelas restritas da sociedade e que, por este motivo, encontram-se, quase sempre, distantes dos interesses públicos.
    Fica claro, além disso, que todo o esforço para a desconstrução do PT e de seus políticos não foi suficiente para liquidá-los. Não obstante a perda significativa de seu eleitorado e do número de Prefeituras sob o seu comando, o PT manteve-se entre os maiores partidos nacionais, como o 5º maior partido brasileiro em termos eleitorais, o que lhe reserva, ainda, um grande potencial de crescimento.
    Nas eleições municipais de 2016, foram a criminalização da política e o desencanto do eleitorado, na verdade, os grandes vencedores do 1º turno. Um resultado altamente preocupante, porque contribui para que lideranças oportunistas possam se apossar do poder de Estado e se manter nele por meio de ações ilegítimas, ainda que travestidas pelos ritos legais.

  • Assim acabam elegendo Lula

    P.C. DE LESTER
    Elio Gaspari escreveu  n`O Globo que “assim acabam absolvendo o Lula”.
    (globo.com/opinião/assim acabam absolvendo lula. com)
    Refere-se aos últimos vazamentos incriminando o ex-presidente, que beiram o ridículo.
    Um deles foi a pré-delação de Emílio Odebrecht (estão  vazando até “pré-delação”!) que teria dito à Federal que o estádio do Corinthians, o Itaquerão, foi presente da empreiteira ao Lula.
    O outro, uma planilha de propinas em que o termo “amigo” foi atribuído ao ex-presidente, por simples dedução.
    Essa do Itaquerão, um “furo” da Folha de São Paulo, foi cômica.
    Manchete da Folha, na segunda feira, foi reproduzida em todos os portais dos jornalões.
    Ao meio dia, depois que o presidente do Corinthians divulgou uma nota jocosa, caiu a ficha e todos tiraram do ar a “manchete”.
    O “Itaquerão”, informou o presidente do Corinthias, custou quase um bilhão ao clube, que paga religiosamente as prestações mensais de 900 mil. Lula nunca foi sequer assistir a um jogo no estádio.
    Só a Folha sustentou o ridículo até o fim da tarde. No dia seguinte, deu lugar à tal planílha, em que o “amigo” é identificado com Lula.
    Gaspari, por astúcia não disse, mas assim eles acabam é elegendo o Lula em 2018.
     

  • Os desafios do sindicalismo na conjuntura atual

    O desafio, portanto, é redobrado. Ou o movimento social e sindical forma gente, se comunica melhor e combina a resistência com alternativas, ou ser apenas contra e reivindicar não dará conta de impedir os retrocessos. Mãos à obra.
    Antônio Augusto de Queiroz
    Jornalista, analista político e diretor de Documentação do Diap
    Os movimentos sociais e sindicais têm três desafios pela frente, em curto e médio prazos: 1) promover formação política, 2) melhorar sua comunicação institucional e interpessoal, e 3) ter sempre alternativa ao que critica ou se opõe.
    O primeiro desafio é o de qualificar os militantes, ativistas e dirigentes para o enfrentamento da agenda do Consenso de Washington, que esteve suspensa no Brasil durante os 12 anos de governos do PT.
    O passo inicial nessa direção é conscientizar os cidadãos-trabalhadores, mediante cursos, seminários e oficinas, sobre o papel de cada um dos três setores do sistema social: o Estado, como primeiro setor; o mercado, como segundo setor, e a sociedade, como terceiro setor.
    As cartilhas editadas pelo DIAP sobre “Noções de Cidadania no Brasil”, “Análise de Conjuntura”, “Relações Institucionais e governamentais” e “Políticas Públicas e Ciclo Orçamentário” dão uma boa base para entender esses processos.
    O segundo desafio diz respeito à forma de comunicação. As forças neoliberais desenvolveram uma tecnologia que força o disparo do “gatilho mental” dos cidadãos contra determinadas ideias, especialmente se elas conflitarem com os interesses do mercado e dos rentistas.
    A comunicação política no Brasil passou para a fase da pós-verdade, em que o fato e a verdade ficam em segundo plano e são explorados os comportamentos e reações, com o objetivo de dizer ao cidadão “sobre o que pensar” e não “sobre como pensar”.
    A tática é simples. Criminaliza-se os defensores dessas ideias, associando-os a desvios de conduta (corrupção, ilegalidade, irregularidade, etc) ou a agressão a valores (familiares, religiosos, etc) e as pessoas automaticamente deixam de analisar as ideias e passam a condenar seus autores. Isso tem sido feito com partidos e também será feito com os movimentos sindical e estudantil ou qualquer outro que seja visto como de esquerda.
    Nesse particular, os movimentos sociais, em geral, e o sindical, em particular, precisam se qualificar e — sem abrir mão um milímetro sequer em relação as suas convicções e visão política e ideológica — focar o debate no conteúdo do que propõe ou rechaça, de tal modo que as pessoas possam perceber o que de fato está acontecendo.
    Evitar o esquema “petralhas” versus “coxinhas” é a melhor alternativa, porque desinterdita o diálogo. Por exemplo: muitos dos que foram a favor do impeachment de Dilma são contrários às reformas em bases neoliberais de Michel Temer. Entretanto, se insistirmos na tese de que todos são “golpistas”, isso interdita o debate e o diálogo.
    Se as lideranças dos movimentos sociais não tiverem tolerância, capacidade e disposição para persuadir, pelo conhecimento, pelos argumentos e fatos, mostrando os malefícios de parte dessas reformas, vai persistir a polarização e muitos que são aliados potenciais, e poderiam cooperar nessa batalha de resistência à supressão de direitos, permanecerão impermeáveis ao diálogo.
    O terceiro desafio consistirá em montar equipes e assessorias para formular e propor, com a agilidade que os novos tempos exigem, alternativas às propostas patronais e governamentais.
    O movimento sindical, no período pós-64, passou por duas fases que foram muito eficazes: a de ser contra, em plena ditadura militar, e a de reivindicar, após a derrota da ditadura. E ingressou na terceira fase em que não basta ser contra nem reivindicar: é preciso formular, ter alternativas.
    Esta terceira fase, que coincide com a chegada ao Brasil da agenda neoliberal, não estava suficientemente clara para o movimento sindical por ocasião dos governos Collor e FHC, quando houve alguns importantes retrocessos, exatamente porque o movimento insistiu nas táticas anteriores: apenas ser contra e reivindicar.
    A investida em bases neoliberais — que esteve suspensa no Brasil, pelo menos por parte do Poder Executivo, nos 12 anos do governo do PT — agora volta com força total e sob a liderança de um governo cuja sobrevivência depende de sua implementação.
    O desafio, portanto, é redobrado. Ou o movimento social e sindical forma gente, se comunica melhor e combina a resistência com alternativas, ou ser apenas contra e reivindicar não dará conta de impedir os retrocessos. Mãos à obra.

  • A prisão de Cunha não ameaça Lula

    Pinheiro do Vale 
    A prisão de Lula pela Operação Lava Jato ainda é improvável, pelo menos até este momento, desde que seja seguida a regra principal do juiz Sérgio Moro para encarcerar suspeitos.
    O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi levado a Curitiba porque havia possibilidade concreta de fuga para o Exterior: contas em bancos estrangeiros e, mais ainda, um passaporte italiano que lhe daria imunidade no Velho Mundo.
    Até ser definitivamente condenado, Cunha estaria protegido, tal como o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizolato, condenado no processo do Mensalão e que se encontrava exilado na Itália protegido por sua dupla nacionalidade. Confirmada a sentença, o governo de Roma mandou-o de volta para a Penitenciária da Papuda. Em Brasília.
    Isto invalida o diz-que-diz-que de que Cunha está lá para abrir a porta da cadeia ao ex-presidente.
    Lula não perfaz nenhuma dessas ameaças a um eventual processo (até o momento ele foi apenas indiciado). Não tem contas no Exterior e só é brasileiro puro.
    O ex-presidente não se cansa de desmentir que vai pedir asilo neste ou naquele país. Isto é importante pois quem espalha esses boatos são seus próprios correligionários, achando que, com isto, estão protegendo Lula. Ledo engano: a acenarem com essa possibilidade estão chamando os agentes da Polícia Federal com mandado da Justiça por ameaça de fuga do País. Gol contra dos “companheiros”. Mui amigos.
    Lula também não se cansa de dizer que seus bens são os declarados e que o dinheiro de que dispõe vem de seus salários como deputado federal e presidente da República, além de doações e ajudas de custo do partido.
    Nada errado: o ex-presidente nunca escondeu que fora político profissional, sustentado pelo PT, com doações de seus militantes. Não se esqueçam que os petistas que ocupavam cargos públicos tinham o compromisso de doar parte de seus subsídios ao partido.
    Nos últimos tempos, já como cidadão comum, sustentava-se com seu salário de ex-presidente e cachês por conferências, aparições públicas e outros tipos de remuneração de celebridades. Cobrava caro, pois ninguém discorda que era uma das maiores personalidades mundiais, quase tão famoso quanto Pelé. Portanto, tudo explicadinho.
    A suspeita de que Lula tenha fundos no Exterior atira no ar a calúnia de que seu dinheiro estaria em Angola e Cuba, países fora dos controles do sistema financeiro internacional, com regimes ditatoriais que não permitem intrusos nas suas contas públicas ou privadas.
    Neste caso, se não fosse uma calúnia rasteira, tais fundos estariam nos grandes bancos, mas triangulados com Cuba ou Angola, em nome de laranjas desconhecidos. Isto não é possível, tanto que nada apareceu. Só calúnias.
    De ter fundos secretos em Cuba nem se deve dar ouvidos, pois se houvesse alguma coisa já teria surgido na imprensa internacional: o país de Fidel Castro até muito pouco tempo estava na lista de estados terroristas do FBI, portanto estreitamente vigiado. Não faltaria um bom vazamento.
    Quanto a Angola, dizem que Lula investiu seu dinheiro em operações acobertadas pela filha do presidente José Eduardo Santos, a empresária Isabel Santos, atualmente apontada pela revista Forbes como a maior fortuna pessoal do continente africano.
    É uma grande maldade acolherar Lula com Isabel. Ela é uma pessoa soterrada por suspeitas, considerada pela Transparência Internacional como a sexta pessoa mais corrupta do mundo. Sua fortuna não está apenas em Angola. Ela é grande acionista de vários bancos europeus e tem investimentos em mais de uma dezena de megaempresas na União Europeia e, especialmente, em Portugal. Seria uma laranja invulnerável.
    Na verdade, as suspeitas lançadas sobre Isabel Santos é que ela seria não uma laranja, mas um pomar inteiro, e que Angola seria o estado reciclador dos caixas dois de uma dezena de potentados do antigo mundo soviético, dentre eles Vladimir Putin. De fato, tamanha fortuna seria de muitos donos e seu pai, o presidente Santos, teria infiltrado Lula e alguns outros amigos brasileiros. Uma blindagem impenetrável.
    Isabel não é uma figura grosseira de uma ditadura africana. Pelo contrário. Nasceu em Baku, na então República Socialista Soviética do Azerbaijão, onde seu pai estava exilado e atuava como um dos chefes da guerrilha angolana, o MPLA, no posto de general revolucionário.
    Sua mãe, Tatiana Kukanova, é azerbaijana de etnia russa, alta funcionária do PCUS. Isabel nasceu em 1973. Teve uma educação esmerada mesmo para os padrões europeus: fez sua formação básica na escola para moças da nobreza britânica, a Saint Paul Girls School, e graduou-se em Engenharia Eletrônica pelo Kings College de Londres. Também se casou com um homem refinado, o conhecido colecionador de arte Sindika Dokolo, natural da República Democrática do Congo.
    Quando voltou a seu país, nos anos 1990, chegou a trabalhar como engenheira, mas logo deslocou-se para o mundo dos negócios, onde triunfou a ponto de se converter numa das 100 mulheres mais poderosas do mundo. Seu pai trabalha sua candidatura a presidente de Angola.
    Ela seria a sócia de Lula, segundo seus detratores. Não há como provar essa ligação nem minimamente. Tampouco há qualquer indício de algum investimento do ex-presidente em negócios comandados pela angolana.
    Nem mesmo fazendo os mais sinuosos contorcionismos legais o arrojado juiz Sérgio Moro pode invocar seja o que for para sugerir que Lula não fala a verdade quando diz que não quer nem tem como fugir do País.
    O que se fala em Brasília relativamente às possíveis denúncias de Eduardo Cunha é que podem apontar corruptos em outras plagas, tanto no ninho tucano como na toca das raposas do PMDB. Não seria por nada que o presidente ilegítimo Michel Temer pegou o avião e voltou voando para o Brasil tão logo soube que seu correligionário cassado estava atrás das grades.
    Na verdade, não é Lula, mas Temer que deve botar as barbas de molho.