A prisão do ex-presidente Lula com base nas acusações do Ministério Público do Paraná é muito improvável: o acusado não tem contas no exterior nem está envolvido nos negócios explícitos que levam empreiteiros, lobistas e tesoureiros para trás das grades.
Até essa ação drástica, a Justiça ainda terá de juntar provas muito bem provadas, e não apenas convicções de detetives ensandecidos. Além disso, o motivo das preventivas (ou temporárias, como hoje se chamam) é a possibilidade concreta de fuga.
Dizer que Lula pode se exilar num país amigo é muito pouco. Seria necessário demonstrar que ele teria meios de se esconder fora do País. Daí o agravante das contas em bancos estrangeiros. Isto ele não tem. Portanto, por enquanto é só fumaça.
O que parece concreto é a implosão do sistema de presidencialismo de coalizão. Já tem gente dizendo que está na hora de invocar o espírito do falecido deputado Raul Pilla para trazer de volta sua emenda parlamentarista.
Há uma hipocrisia circulante, fazer democracia de massa sem dinheiro. A tal lei moralizadora em vigor, proibindo o financiamento de campanha por pessoas jurídicas, já está causando horror em certos círculos moralistas: na periferia das megacidades estão aparecendo denúncias de fundos de campanha nutridos por fontes do crime organizado.
A escolha de Sofia: empreiteiras corruptas ou criminosos profissionais? Assim é a política eleitoral. Por isto as propostas de votos distritais, eleições por listas e outros sistemas que vigoram com grande êxito nos países avançados estão ganhando corpo.
Em resumo: o ataque a Lula desencadeia uma avalancha que pode levar consigo todo o sistema em vigor. E só o que seus adversários queriam era evitar sua candidatura em 2018, criando um empecilho ao registro de sua candidatura.
Parecer ser este o objetivo dos templários de Curitiba: inviabilizar na justiça uma candidatura que, eleitoralmente, seria muito forte, talvez imbatível.
Assim como acreditavam que o impeachment de Dilma repetiria o passeio que foi o impeachment de Collor, pensavam que botar Lula ao alcance da ficha limpa sairia tão barato quanto barrar prefeitos e candidatos suspeitos do baixo clero.
Categoria: ANÁLISE&OPINIÃO
Lula na mira do Ministério Público
É mais do que hora de resistir
BENEDITO TADEU CÉSAR15 de Setembro de 2016 – Estou em viagem fora do Brasil, acompanhando de longe os acontecimentos de ontem.Não posso dizer que estou surpreso com a denúncia contra Lula, seus familiares e companheiros de partido e governo, pois eu já esperava que ela acontecesse, porque faz parte do teatro montado e do grande esquema para impedir que Lula (ou qualquer liderança que defenda seus mesmos princípios) se candidate em 2018.Não obstante minha expectativa, fiquei estarrecido com o primarismo das denúncias e com a desfaçatez com que dois integrantes do Ministério Público ocupam o proscênio para destruir não apenas a reputação de pessoas honestas, mas também da própria instituição da qual fazem parte e o fazem com os holofotes da grande mídia sem que nenhum superior hierárquico ou qualquer ministro do STF os enquadrem.Venho há mais de um ano afirmando em todos os cantos que o golpe em curso envolve a justiça e o ministério público brasileiros como instituição (já que não há reação articulada em seu interior), além, é claro, do parlamento e da grande mídia, todos irmanados no esforço de apagar as conquistas obtidas durante os governos petistas de Lula e Dilma para emancipar o país e promover a inserção social e cultural dos imensos segmentos sociais historicamente excluídos no Brasil.Haverá ainda parcelas imparciais e que honrem os preceitos internacionais de Justiça no poder judiciário e no ministério público brasileiros?Se há, por que não agem?Se não agem, estão coonestando a ação de seus pares midiáticos ensandecidos pela caça ao petismo e às suas conquistas.Se não agem, a população deve agir.Desde John Lock, parlamentar e filósofo inglês do século XVII e que, por sinal, lançou as bases filosóficas (pasmem) do liberalismo, está consagrado internacionalmente o direito dos povos à insurgência civil.É mais do que hora de resistir.Sócio da Al-Qaeda comprou armas em Porto Alegre
Seria uma manchete, mas está na ZH desta quarta, encoberta por um título em que a indústria de armas Taurus se explica. A passagem por Porto Alegre de Fares Mohamed Mana-á, um dos nomes do terrorismo internacional.
Fares Mohamed Mana-á tem um verbete como político e traficante de armas na Wikipédia desde 2011, mas a Taurus, que exporta armas há décadas, não sabia nada que o desabonasse.
Vendeu-lhe oito mil revólveres e pistolas em 2013 e, em 2015, vendeu um novo lote de três mil no total de dois milhões de dólares. E trouxe-o a Porto Alegre como convidado especialíssimo.
A notícia não esclarece se a visita de Fares Mohamed Mana’a foi antes ou depois do negócio fechado.
Com todas as despesas pagas, ele veio conhecer a fábrica de onde sairam as armas que ele estava comprando. Tudo numa reserva tamanha que nem os “colunistas bem informados” ficaram sabendo. Quem soube não publicou.
A explicação da Taurus, que usurpou a manchete, é que nada sabia e, quando soube que se tratava de uma organização que tem parceria com a Al-Qaeda, interceptou o lote de armas que já estava a caminho.
O assunto foi levantado pela agência de notícias Reuters, a partir de uma investigação internacional.
Safra de boas notícias está começando
A capa da nossa gorda e patusca ZH desta quarta-feira é exemplar: o otimismo está em alta. Começa pela manchete: “Concessões devem atrair mais capital estrangeiro”, tentando tirar leite de uma vaca magra como é o requentado pacote de concessões do ministro Padilha (fonte infalível em ZH).
Segue com outro primor: “PIB gaúcho cai, mas em menor ritmo”, minimizando o fato de ser o quarto semestre consecutivo de queda e que ainda é de 3,1%. E para não dizer que o governo não faz nada: “BM mata três assaltantes após ataque de loja”.
Sobrepondo-se a tudo, uma majestosa foto aérea da avenida Ipiranga, com a manchete, sobre fundo amarelo: “Em breve, com faixa exclusiva”. Um velho projeto de pintar de azul uma faixa de algumas avenidas para facilitar o tráfego dos coletivos nos horários de pico, prometido para o próximo dezembro.
Como dizia o finado Buonocuore: “Há que se aguentar com os novos tempos”Imprensa: Cinquenta tons de marrom
Incrível como a imprensa nacional transitou da oposição para a situação, sem nem tropeçar no degrau, que, por acaso, é grande.
Os jornais nacionais da vida se transformaram numa descarada assessoria de imprensa do governo. O pessoal dá uma cabeçada de manhã, logo mais à noite já está tudo oficialmente esclarecido.
Com a nova linha editorial, pipocada virou “realinhamento de discurso”. A palavra “recuo” não passa nem perto da boca do apresentador. Afinal, as pipocadas já viraram rotina mesmo.
Estourar a meta de inflação? Tudo bem, já estava previsto pelos especialistas. Até o fim do ano passado parecia que as portas do inferno iam ser abertas se a inflação ficasse acima da meta. E olha que a inflação vai a caminho de ficar dois pontos acima da “meta”.
E a demissão do AGU? E a denúncia de conhecida revista que até pouco tempo saía da gráfica direto pra tela do noticiário? Nada. Só o registro burocrático pra não ficar chato. Ninguém quis saber o por quê. Alguns até disseram que “já era pedra cantada”. Pausa para risos.
O governo Temerildo se apresenta frágil, mas não um frágil que inspira cuidados, como um cristal, por exemplo. É um frágil de débil, de esquálido, de fraco, suavemente repugnante.
O governo da Dilma pode ser acusado de qualquer coisa, menos de frágil, apesar do Zé Cardozo. Segurou o bombardeio de peito aberto. Ela como líder, transmitia total confiança e firmeza, muitas vezes confundida com intolerância e estupidez. Mas, vivia cercada de patifes. Temerildo incluído. Porém, a Dilma é tipo da pessoa que eu entregaria a chave do carro, se eu tivesse um. Pro Temerildo? Nem pra estacionar.
É triste ver a imprensa tentando convencer o povo brasileiro que o Temerildo é confiável. Um cara que tem um índice de rejeição ainda maior que a da presidenta golpeada. Ainda tentam fazer a conta do pato parecer mais digerível: “Não vamos mexer nos direitos trabalhistas”, repetem sem parar. Mas, então pra que a reforma? Como que não é mexer no direito do trabalhador passar a idade de aposentadoria para 65 anos? Tanto pro homem como pra mulher? Só falta dizer que estão implementando políticas de igualdade de gênero com essa medida. Não duvido.
Outra pergunta: economizar na Previdência pra gastar aonde, se os gastos com saúde e educação vão ser congelados por 20 anos?
É certo que a imprensa conseguiu convencer a população que Dilma era incapaz de governar o país, mas, como diz o ditado: “É mais fácil destruir do que construir”. Quero ver a imprensa conseguir construir a imagem de um estadista sólido com essa matéria prima gelatinosa que está aí.
Dilma fica em Porto Alegre
Pinheiro do Vale
As fontes bem informadas de Brasília garantem que que a presidente Dilma Rousseff esteja de mudança para o Rio de Janeiro.
Ela vai continuar morando na Vila Assunção.
O avião da FAB carregado com seus pertences pessoais decola para o Salgado Filho. Esta é a rota.
O projeto da presidente deposta, neste momento, é cuidar de sua mãe, vovó Dilminha, que aos 93 anos requer atenção da filha mulher, que até então vivia muito ocupada com os negócios públicos de Porto Alegre, do Rio Grande, do governo Lula e, por fim, da própria República Federativa do Brasil.
O que a imprensa golpista do centro país insinua, para intrigar a presidente com os gaúchos, é que estaria de mudança para seu apartamento no Rio de Janeiro. Entretanto o que ela planeja é fazer o que muita gente de certa idade faz, no Rio Grande, para escapar dos invernos. Para isto, não é incomum ter um tugúrio na Cidade Maravilhosa.
Os cuidados com sua mãe demandam uma certa movimentação, pois dona Dilminha resolveu passar mais tempo próxima ao filho homem, Igor, recluso em Passa Tempo, pequena cidade do interior mineiro. Com isto a mãe pretende ficar com base em seu apartamento carioca, meio do caminho entre os dois filhos. Esta é a última versão.
Entretanto, fontes políticas garantem que a ex-presidente vai ocupar cadeiras nas duas grandes bases do PDT, Rio e Porto Alegre, para capitanear a reviravolta que se está articulando para uma retomada da esquerda abalada pela débacle do PT.
O verdadeiro efeito dessa crise sobre o partido de Lula será avaliado depois das eleições de outubro. Entretanto as próprias lideranças petistas estimam que a agremiação vai perder pelo menos 50% de suas bases municipais, ou seja, de prefeituras controladas pelo PT.
Voltando ao PDT. Dilma poderia ser o catalizador para aglutinar o partido em torno de sua vertente esquerdista, enfraquecida nos últimos episódios, onde a bancada dos três senadores do partido desobedeceu à direção nacional, e votou pelo impeachment.
Enquanto Lula é o bastião quer resiste ao esfacelamento do PT, Dilma teria o mesmo papel nas antigas forças brizolistas.
Embora o presidente de fato, Carlos Luppi, esteja à frente das negociações com o PT para a formação de uma nova frente, nos moldes da Frente Ampla do Uruguai, Dilma assumiria o comando tão logo arrefeçam os embates em torno do seu impeachment.
Dilma não é uma neófita em organização política. Esteve ligada à burocracia do PDT desde a fundação do partido, quando uma vertente da esquerda revolucionária se aliou a Leonel Brizola. Mais tarde, esse grupo mudou-se para o PT, acabando por conquistar a Presidência da República.
Por enquanto o projeto do grupo é fortalecer a candidatura a presidente do ex-governador do Ceará, Ciro Gomes. Neste momento, este nome aparece como o de Dilma em 2008, quando Lula a lançou como “gerentona”. Luppi tirou Ciro da manga.
Distante dos processos, Ciro acomoda uma luta interna inevitável e fraticida na esquerda. Isto até Lula livrar-se das garras do juiz Sérgio Moro. Depois, lá para frente, o candidato petista reassume o protagonismo eleitoral. Tal como o planejado antigamente: Dilma estaria guardando a cadeira para Antônio Palocci. No entanto o ex-ministro e candidato in pectore não se recuperou a tempo. É a esperança do ex-governador do Ceará.
O dia seguinte
O ex-presidente Lula devolveu Dilma Rousseff ao Rio Grande do Sul tal qual a recebeu, ou seja, livre e desimpedida.
Mesmo com os problemas que teve para chegar à uma solução para o impasse, conseguiu selar o “acordão” e aí está a ex-presidente afastada incólume para seguir o caminho político que desejar.
Fora do cenário nacional de seu partido, daqui para frente, Dilma é um problema para o PT gaúcho resolver. Sua anunciada candidatura ao Senado, em 2018, bate de frente com a do senador Paulo Paim, que se julga no direito à vaga.
Outra alternativa seria o PT concorrer com uma chapa puro sangue, o que dificultaria muito formar uma coligação. Qualquer partido que tenha algo a oferecer no complexo eleitoral (tempo de TV ou votos) dificilmente trocará seu cacife por nada.
Outra alternativa seria lançar Dilma para o governo do Estado, faturando em cima de seu recall de ex-presidente e de vítima de um golpe. Nesse caso a dificuldade é convencer à direção petista gaúcha a dar uma carona nos que estão na fila de candidatos naturais.
Como a reeleição de governador é um estigma ainda invencível, mesmo em baixa o PT acredita que pode disputar com grandes chances o Palácio Piratini.
O problema que ficou foi o “acordão” um tanto mambembe que expôs o acerto entre Lula e Renan Calheiros de forma inconveniente. O plano seria Dilma renunciar no limite e derrubar o impeachment no plenário, com esse resultado que apareceu na votação do Destaque.
Entretanto, Dilma bateu pé, disse que não daria o gostinho da renúncia a Eduardo Cunha e seus aliados do baixo clero (além de tucanos e a direita convencional).
Com isto tiveram, os aliados tiveram de negociar esta saída encontrada, expondo demasiadamente não só os dois partidos (PT e PMDB), como deixaram o presidente doSupremo, Ricardo Lewandowski vulnerável.
No fim das contas, a manobra deu certo: os partidos de oposição desistiram de contestar a decisão na Justiça, pois a vitória certa da inconstitucionalidade seria um tiro pela culatra: derrubada a anistia a Dilma, cairia o impeachment. Com isto ela voltaria ao governo até que nova sessão fosse realizada. Seria muito arriscado. Melhor deixar como está.
Negativo é o cheiro de pizza que se espalhou pelo país. Mas nada que os bons ventos não afastem, mudando o formato das nuvens, como se diz na metáfora política.
E o “Fora Temer”, como fica? Este é outro problema, pois o partido do novo presidente é aliado do PT, como se viu na manobra parlamentar. Além disso, Michel Temer não é candidato à reeleição, o que lhe tira da linha de fogo. Vai começar a pacificação.
Agora será necessário juntar os cacos do desastre e recompor a aliança vencedora nas últimas eleições nacionais. Na verdade, ninguém melhor do que Lula e Temer, dois craques da negociação, para levantar um muro que impeça a volta do tucanato triunfante ao terceiro andar do palácio do Planalto.
Quem viver verá…O dia da vergonha nacional
Benedito Tadeu César – Cientista Político e professor universitário
Erramos todos. Tenho repetido esta frase em cada encontro de cientistas políticos nos quais tenho participado desde o início do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff e em cada fala que tenho feito nas diversas manifestações públicas contra o golpe de que tenho participado nos últimos meses.
Erramos todos, porque acreditamos que as instituições públicas brasileiras estavam se consolidando no rumo da concretização da democracia no país. A farsa que se desenrolou durante cinco meses diante dos nossos olhos, desde abril deste ano, e que teve seu epílogo no último dia de agosto, foi urdida, construída, mantida e perpetrada no interior das instituições públicas brasileiras e foi desfechada por muitos dos que têm a obrigação legal de preservar a democracia.
Foi a ação conjunta do vice-presidente da República, da maioria esmagadora do Congresso Nacional, de amplos setores do Ministério Público, capitaneados pelo Procurador Geral da República, de muitos integrantes do Poder Judiciário e de uma maioria expressiva do Supremo Tribunal de Justiça (STF), todos defensores jurados da Constituição Federal de 1988, que tornou possível que a farsa da deposição “legal” de uma presidenta da República, eleita por mais de 54 milhões de votos, fosse encenada.
São as instituições públicas brasileiras que estão podres e corrompidas ou, pelo menos, boa parte dos seus integrantes, a começar por aqueles que detêm maior responsabilidade em cada uma delas. Contaram para corrompê-las com os inestimáveis serviços da grande mídia corporativa, controlada por apenas cinco famílias milionárias. Não fosse assim, a democracia teria sido preservada e a vontade expressa pelo voto de milhões não seria afrontada pela ação de uma minoria quatro vezes derrotada eleitoralmente – em 2002, em 2006, em 2010 e em 2014.
Vivemos em um país presidencialista onde, diferentemente dos países parlamentaristas, só o voto popular tem o poder constitucional de eleger e de destituir um presidente da República, por meio de sua não reeleição. Fora disto, só a caracterização expressa e irrefutável do cometimento de um “crime de responsabilidade no exercício da Presidência da República” pode justificar o afastamento do governante.
Destituir uma presidenta da República “pelo conjunto da obra”, como o fizeram os deputados federais e senadores brasileiros, afronta a Constituição vigente no país. A perda da maioria no Parlamento só justifica a retirada e/ou a troca do chefe do Executivo nos regimes parlamentaristas, nos quais os dirigentes são eleitos indiretamente, por indicação do poder Legislativo.
Não basta o cumprimento do ritual jurídico, para justificar e dar roupagem legal e constitucional ao processo fraudulento da destituição de Dilma Rousseff. O mundo todo sabe disto e sua denúncia tem sido expressa por jornalistas independentes e por editoriais dos maiores e mais respeitados veículos de comunicação internacionais. Um julgamento não é lícito apenas pelo cumprimento das regras formais de seu funcionamento. Um julgamento só é lícito quando os argumentos da defesa e da ré são levados em consideração.
Quando os julgadores declaram, antes de ouvir a ré e seus defensores e antes mesmo de conhecer o processo, que condenarão a acusada, esses julgadores devem ser impugnados e o julgamento anulado. Este é o procedimento adotado em qualquer tribunal de justiça honesto, como se espera existir em qualquer país democrático.
Não foi o que se viu no Brasil. Aqui, o presidente do STF, com sua presença e atuação na condução do processo de impeachment, coonestou o golpe e a afronta à democracia, no mínimo, quando admitiu que julgadores que haviam declarado seus votos condenatórios antes de encerrado o processo participassem do processo e condenassem a ré, tal como haviam antecipado que o fariam.
Mais uma vez, as elites políticas e econômicas brasileiras, que controlam as instituições públicas do país, interrompem, por meio de atos ilegais – como o fizeram em 1954, quando Getúlio Vargas foi levado ao suicídio, e em 1964, quando se uniram aos militares para instalar a ditadura que se arrastou até 1985 – o frágil processo de democratização e de construção de instituições e de procedimentos democráticos e de inclusão social neste país.
Encerrou-se hoje, com a conivência ativa de parcelas expressivas de integrantes das instituições públicas brasileiras, o mais longo período democrático durante a história republicana deste país. Encerram-se hoje 31 anos de democracia, construída a duras penas, no Brasil.
Hoje, somos alvo da chacota internacional.
No futuro, a história registrará o dia 31 de agosto de 2016 como o Dia da Vergonha Nacional.Vamos jogar a Dilma no lixo seco da História?
Certa passagem bíblica conta que o rei Salomão, ao deparar-se com um litígio entre duas mulheres ocasionado por um bebê, não teve dúvidas em mandar reparti-lo. Não seria o justo, mas, seria o possível, para satisfazer ambas as partes.
Mas eis que uma das alegadas mães abre mão do seu direito de posse, para preservar a vida do bebê. Não seria o justo, mas, seria o necessário. Porém, através desse gesto, o rei Salomão reconheceu ali a mãe verdadeira, e, assim, ele devolveu a criança intacta à mãe de direito.
Porém, nos tempos atuais, parece que todos estão dispostos a ver a criança ser repartida.
Assim que o Temerildo assumiu a interinidade, os grandes jornais aboliram expressões como “apesar da crise” e “o pior desempenho desde mil novecentos e lá vai pedrinha”. Aliás, a “crise” vem sendo cada vez menos lembrada nas reportagens. Agora, tudo se resume em esperança, otimismo e novos horizontes. “Saímos do purgatório em direção ao paraíso”, dizem os economistas amestrados, sob o jubilo tosco de sorridentes apresentadores.
A esquerda brasileira está nas cordas e não para de apanhar. A direita está tão à vontade que uma senadora destes pagos sobe na tribuna pra acusar o PT de ter destruído a Petrobras, fingindo ignorar que o sujeito que foi preso e que delatou todo mundo foi indicado pelo partido dela, o que valeu à agremiação da senadora o alto do pódio no ranking dos partidos mais citados na Lava Jato. Haja creme Hipocrisol, senadora.
E, sob esse cenário, a criança vai sendo posta na tábua para ser repartida.
Mas, então, surge a mãe verdadeira. Ela sobe ao Senado e faz uma defesa irretocável do seu rebento. Rebate todas as acusações, uma a uma. Uma, duas, três, dez vezes. Sem perder a linha, sem perder o tom. Às vezes, atrapalhada sim com as palavras, mas, no caso concreto, ela poderia usar a linguagem de sinais que todos entenderiam. Dilma é inocente, só não entendeu isso, quem não quis entender.
Alguns dizem que isso não vai mudar nada. Que é jogo jogado, apesar da margem para aprovação ser bem apertada.
Logo saberemos se Dilma será jogada no lixo seco da História, condenada a ficar 8 anos longe da vida pública, decretando assim, sua morte política.
Portanto, logo saberemos se a criança será repartida. “Não será o justo, mas será o possível”, dizem à boca pequena alguns senadores. Levando em conta quem está atualmente no papel de Salomão, imagino que será cogitado o esquartejamento do bebê para angariar um número maior de aliados.
E nós como sociedade? Vamos esperar pela sabedoria do rei Salomão que está aí ou ficaremos contentes com a metade que vai sobrar da Democracia?
Na lanterna dos afogados
Seja qual for o desfecho do processo de impedimento da presidenta Dilma no Senado – estamos em agosto, mês de cachorro louco –, faz sentido realizar um balanço em torno das realizações do petismo. Afinal, em praticamente a metade dos últimos 28 anos – período entre a entrada em vigor da Constituição de 1988 e o afastamento da presidenta Dilma –, o governo federal esteve nas mãos do PT com Lula (oito anos) e Dilma (cinco anos e cinco meses).Nos outros 14 anos a Presidência foi ocupada por oito anos pelo PSDB (com FH Cardoso); por dois anos pelo corisco carioca-alagoano Fernando Collor (PRN, atual PTC); no tempo restante, o comando ficou nas mãos de três vices do PMDB (José Sarney, dois meses, contado apenas o tempo decorrido após a promulgação da Constituição); Itamar Franco, dois anos; e Michel Temer, três meses).Todos sabem do legado petista: manteve o principal da política econômica do governo FHC (era o que interessava aos ricos, que vivem do principal e dos juros), mas iniciou uma série de programas voltados para os pobres, que sempre viveram mais de promessas do que de benesses.Para fazer essa “revolução social”, o partido de Lula contou com o apoio do ex-partido de oposição consentida à ditadura militar (MDB, hoje PMDB), que atuou como o fiel da balança entre as aspirações da esquerda e os temores da direita. E também obteve a adesão de outros partidos viciados no toma lá-dá cá, pagando sabe-se lá que preços. Deu no que deu, mas muita gente ainda não entendeu o espírito da coisa.Todos se lembram da “marolinha”, palavra usada por Lula para qualificar a crise financeira global iniciada em 2008. O Brasil surfava então nas ondas das commodities supervalorizadas, do pleno emprego, da inflação baixa e dos juros relativamente reduzidos do endividamento público.A equação econômica brasileira ia tão bem que Lula viabilizou como sucessora na presidência a economista Dilma Rousseff, uma técnica que nunca havia disputado uma eleição. E tudo foi relativamente bem até começar a desandar em protestos de rua no primeiro semestre de 2013.Camisas amarelas nas ruas e bateção de panelas nas varandas, mais as manchetes sobre as propinas nos contratos da Petrobras, infernizaram o segundo mandato de Dilma, iniciado com a substituição do longevo ministro da Fazenda petista Guido Mantega, desenvolvimentista pragmático, pelo economista Joaquim Levy, monetarista ortodoxo “indicado” pelo Bradesco. Em um ano de trabalho, Levy não conseguiu fazer a lição de casa, que seria “enxugar”, fazer o ajuste fiscal, promessa do atual ministro Henrique Meirelles, que presidiu o Banco Central do Brasil nos governos Lula.Em meia dúzia de anos, a “marolinha” de Lula virou um tsunami que elevou a inflação, turbinou os juros e fez subir as taxas de desemprego. Enquanto o país entrava em recessão, a Operação Lava Jato punha gasolina na fogueira, diariamente, mediante “vazamentos” à mídia, sob o olhar tolerante do Supremo Tribunal Federal, cujos ministros se esforçam para parecer neutros, como Pilatos na antiguidade romana.Diante do esgotamento político e econômico do governo Dilma, quem apareceu no comando do processo de impedimento presidencial? O carioca Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Câmara, que abriu caminho para a posse do vice Michel Temer (PMDB), que se fez assessorar por Eliseu Padilha (PMDB), José Serra (PSDB) e Moreira Franco (PMDB), contando ainda com a ajuda luxuosa de Renan Calheiros (PMDB), presidente do Senado. Ajudaram na missa Aécio Neves (PSDB) e Aloysio Nunes Ferreira (PMDB), componentes da chapa presidencial derrotada em 2014.Nesse jogo sedicioso, para o qual muito contribuiu o comportamento ambíguo da presidenta Dilma, que se fez cercar por uma heterogênea equipe de assessores e ministros “cada um por si” – de Aloisio Mercadante a Katia Abreu e Jacques Wagner –, a cúpula do PMDB, toda ela ardentemente fisiológica, foi apoiada pelos principais partidos de oposição ao PT, especialmente o PSDB e o DEM, que manobram para conquistar posições visando futuras eleições.Sem dúvida, a jogada parlamentar em prol do impedimento da presidenta sujou a barra da maioria dos políticos, cujo conceito oscila entre “chantagistas”, “sabotadores” e “venais”, mas há um saldo positivo desses últimos dois anos: não dá mais para esconder que todos os partidos estão contaminados por distorções históricas do sistema político brasileiro, cujos elos se conectam direta ou indiretamente com as principais empresas brasileiras. É aí que mora o perigo. Perigo global. Há mouros na costa à espreita do petróleo do fundo do mar.As principais empresas envolvidas são as grandes empreiteiras de obras públicas, que “ajudaram” parlamentares a tocar em frente suas campanhas eleitorais. Por conta de denúncias de réus confessos da Operação Lava Jato, foi afastado da presidência da Câmara o deputado Eduardo Cunha, capitão do processo de impeachment da presidenta Dilma. Várias denúncias o incriminam, mas ele não é processado, como se contasse com um “sursis”. Supõe-se que tenha informações importantes sobre dinheiro de campanha e outras contravenções. O potencial destrutivo de Cunha paralisa não apenas o partido, mas inibe o governo interino e constrange até o Poder Judiciário.Por aí fica bastante claro que o PMDB, como as outras agremiações partidárias eleitoralmente mais fortes, não tem coesão sequer como detentor do poder. O presidente interino Michel Temer, por exemplo, oscila sob pressões variadas de interesses diversos. O veneno que paralisou o PT intoxica o PMDB e os outros partidos.Aqui e ali ouvem-se vozes dissonantes. A mais audível é a que Roberto Requião, ex-governador do Paraná. Temos assim um jogo. Comparado a um carteado, vemos os parceiros jogando à mesa cartas menores enquanto vão ao monte em busca de um ás, uma figura ou um coringa. Se a comparação for com uma partida de futebol, o que se vê é uma quantidade enorme de passes laterais e o jogo embolado no meio de campo, como faz a maioria dos times brasileiros.É consenso mais ou menos geral que o alvo principal da “campanha” antiPT é o ex-presidente Lula, que teria se tornado inconveniente para os grandes “players” do mundo globalizado por sua ideia fixa em “ajudar os pobres”.Tenha ou não condições políticas de concorrer em 2018, Lula provavelmente não deixará um sucessor. Teria sido Zé Dirceu, não fosse o Mensalão. Poderia ter sido Tarso Genro, mas o chefe do PT apostou em Dilma, que dificilmente voltará à tona. O prefeito paulistano Haddad virou alvo também.Com tudo isso, Lula se assemelha a Brizola, que não conseguiu fazer do PDT um partido de massas. E agora quem vai herdar o espólio do PT? Quem comandará a sigla, se ela sobreviver?O melhor elenco de petistas está no Rio Grande do Sul. Olivio Dutra é uma reserva moral. Tarso Genro, um intelectual formulador. Raul Pont, um professor com cacife para eleger-se novamente prefeito de Porto Alegre, onde é candidato. Em nenhum estado brasileiro o PT encontra quadros desse quilate.Talvez caiba aos gaúchos o papel de reabilitadores e reconstrutores do PT. Mas somente as urnas dirão se o partido ainda tem um bom quinhão da confiança popular. Antes do fenômeno Lula, que explodiu em 2002, o PT nunca havia passado de 14% do eleitorado. Para chegar lá, precisou fazer acordos, alianças e parcerias com outros partidos. Para ficar no jogo, teve de fazer concessões. Deu no que deu.(publicado originalmente no www.seculodiario.com)LEMBRETE DE OCASIÃO“Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”Ditado popular brasileiroDilma rejeita "acordão"
Pinheiro do Vale
A presidente afastada Dilma Rousseff prepara-se para a última batalha. Nos bastidores trava-se um esforço derradeiro para o “acordão” que daria por encerrado o episódio político, distribuindo-se fatias de pizza a todos os famintos por poder. Falta o acerto final da teoria de Garrincha: combinar com os russos.
O plano fantasioso para dar por concluído o golpe está em gestação. O principal interlocutor, falando pelo PMDB, seria om presidente do Senado, Renan Calheiros. Como seria?
No seu pronunciamento de segunda-feira, diante do plenário do Senado, de viva voz, Dilma renunciaria à presidência, encaminhando a carta-renúncia irrecorrível. No dia seguinte, posta a votação, o Senado não completaria os 54 votos necessários à cassação.
Com isto o jogo ficaria empatado: Dilma não seria cassada, mas já teria renunciado. Portanto, o vice-presidente da República assumiria por vacância do cargo, e não por deposição da mandatária.
Em contrapartida lhe seria oferecida uma candidatura ao Senado em 2018.
Esta possibilidade já estaria negociada com o PDT, pois dificilmente o PT concordaria com a participação da, já aí, ex-presidente em sua chapa.
A volta de Dilma ao PDT seria necessária por dois motivos: 1) – ela seria candidata numa coligação com o PMDB. Isto seria uma manobra necessária, pois é impensável, neste momento, PT e PMDB marcharem juntos no Rio Grande do Sul; 2) – uma candidatura puro-sangue no PT no Estado seria derrota certa.
Uma outra saída alternativa: Dilma transferir seu domicílio eleitoral e ser candidata em outro estado onde um acordo envolvendo o PT, PMDB e outros inteigrantes da antiga Base Aliada pudesse ser efetivado. É bom lembrar que ex-presidentes que concorreram ao legislativo foram por outros estados que não os seus: José Sarney no Amapá, Juscelino Kubitschek por Goiás. Sem contar que Getúlio apresentou-se em vários estados, como era permitido em 1945 (tomou posse pelo Rio Grande, mas também foi eleito por São Paulo).
Dilma, porém, não concordou. Segundo pessoas próximas, ela nem quis considerar a hipótese. Em primeiro lugar porque está firme no propósito de enfrentar seus algozes até o último tiro.
Em segundo porque não acredita nas garantias de que será retirado o quórum para sua cassação. Ou seja, se renunciar estará se entregando e depois, tal como aconteceu com Fernando Collor, o Senado rejeita a renúncia por inepta e vota a interrupção do mandato.
Assim, não ganha nada: perde os direitos políticos e se desmoraliza ao apresentar a renúncia.
Assim e por tudo isto Dilma rejeitou o “acordão”.
Entretanto, como dizia a velha raposa mineira José Magalhães Pinto, a política é como as nuvens do céu, que conforme os ventos tomam uma forma. Até segunda feira muita água pode passar por debaixo da ponte.
Se nada acontecer, Dilma vai limitar sua participação às primeiras 10 perguntas. Depois então pedirá desculpas, agradecerá, e vai ser retirar. Para isto a senadora Vanessa Grazziotin negociou um acordo para elaborar uma lista prioritária de perguntadores para evitar tumultos e grosserias provocados pela bancada golpista.

Assim que o Temerildo assumiu a interinidade, os grandes jornais aboliram expressões como “apesar da crise” e “o pior desempenho desde mil novecentos e lá vai pedrinha”. Aliás, a “crise” vem sendo cada vez menos lembrada nas reportagens. Agora, tudo se resume em esperança, otimismo e novos horizontes. “Saímos do purgatório em direção ao paraíso”, dizem os economistas amestrados, sob o jubilo tosco de sorridentes apresentadores.
Logo saberemos se Dilma será jogada no lixo seco da História, condenada a ficar 8 anos longe da vida pública, decretando assim, sua morte política.