PINHEIRO DO VALE
Em boca fechada não entra mosca. A presidente afastada Dilma Rousseff está para lá de cautelosa.
Está evitando, com todas as desculpas, encontros com parlamentares, temendo que alguém deles possa estar com um gravador escondido e pinçar uma frase descontextualizada para comprometê-la, por conseguinte, livrar-se de alguma maldade dos promotores de Curitiba.
Ela está escolada desde as gravações dos telefonemas para Lula nos tempos do convite para a Casa Civil.
Isto tem razão de ser. Com raríssimas exceções, todos os políticos que participaram as últimas eleições seriam suspeitos, pois receberam contribuições para suas campanhas por doações de empresas.
Captar dinheiro com empresas não era ilegal. No entanto, todos são suspeitos até provarem que não fizeram Caixa 2. Em segundo lugar, precisam demonstrar que os doadores não tiveram nenhum contrato ou benefício dos órgãos públicos, federais, estaduais ou municipais.
Melhor evitar situações confusas. Em tempo de eleição todo o cuidado é pouco e outubro está aí na frente.
Por isto Dilma botou as bochechas de molho. Com isto, procura se resguardar de cascas de banana. Depois do que Sérgio Machado fez com seus amigos do peito, boca fechada é a regra.
Apesar do pessimismo na sua base, Dilma não se entrega. Sempre pode advir um fato novo que mude o rumo dos acontecimentos.
Até o momento ela contabiliza uma votação insuficiente. A bancada golpista alardeia ter 60 senadores na gaveta. No entanto, faltam poucos votos para os 28 e barrar o impeachment.
Na comissão especial não se espera novidades. A bancada legalista, embora aguerrida, não está conseguindo avançar. O relatório do senador Antônio Anastasia já está escrito.
Dilma terá de derrubar o processo no plenário. Por suas ações, admite-se que ela pretende reverter o quadro com a pressão das ruas, pois quase não tem realizado nenhuma ofensiva junto às bancadas adversárias para reverter posições hostis.
Em contraposição, o presidente interino Michel Temer age intensamente nos parlamentos. No último domingo conversou com 18 líderes de bancadas, só na hora do almoço. Faz o que o governo provisório chama de semiparlamentarismo. Dilma usa outras armas.
Categoria: ANÁLISE&OPINIÃO
Dilma está na moita
Se cai o Cunha, quem vai cair com ele?
P.C. DE Lester
Eduardo Cunha, o presidente afastado da Câmara Federal, é quase uma unanimidade nacional: as pesquisas de opinião registram que mais de 90% dos brasileiros o consideram que ele deve ser cassado por corrupto.
Mas na Comissão de Ética da Câmara ele perdeu por apenas dois votos. Onze votaram pela cassação, seguindo o parecer do relator, que examinou as provas e concluiu que não há dúvidas quanto às contas no exterior. Nove defenderam Cunha.
Uma derrota, mas tudo indica que Cunha mantém sua estratégia de ganhar tempo – e ele já ganhou quase oito meses.
A surpresa foi a deputada Tia Eron, aliada de Cunha, que votou pela cassação.
Mas pode ser uma estratégia. Em vez de expor um quadro importante como Tia Eron, sob forte pressão das bases, Cunha liberou seu voto, o que lhe confere independência para a batalha no plenário que será decisiva.
Nessa batalha, Cunha vai cobrar fidelidade da bancada majoritária que sustenta o governo Temer, que, na saua avaliação, só é governo porque ele botou para andar o processo de impeachment de Dilma Rousseff.
Os noticiários tem registrado, escassamente, algumas declarações de Cunha. Ele diz que não cairá sózinho.
Então, a pergunta que fica no ar é esta: Cai o Cunha? E mais esta: Quem vai cair com ele?
Dilma abre proposta de consulta popular
PINHEIRO DO VALE
A presidente afastada Dilma Rousseff em pouco tempo deverá ser a última estrela de primeira grandeza do firmamento nacional que não foi tragada pelo buraco negro da Operação Lava Jato. Com isto, acrescenta-se uma nova possibilidade para seu retorno à chefia do executivo.
Os últimos acontecimentos que estão envolvendo os grandes caciques do PMDB que foram, na última eleição, fatores decisivos para a vitória da presidente no Norte-Nordeste, expõem os últimos redutos da conspiração que levou Michel Temer ao poder.
Ainda vão aparecer outros nomes. Estes vindos de todos os lados, desde a esquerda partidária até a direta fisiológica. Parte deles já presos e condenados, deixam à presidente como a estrela solitária, uma vez que nada substantivo apareceu envolvendo sua pessoa física.
Pedir apoio não é crime. Mais legal ainda quando o captador apresenta-se dentro da lei vigente. Seria este o caso apontado nos vazamentos da delação de Marcelo Odebrecht.
O jovem empresário baiano teria dito que a candidata Dilma pediu-lhe certa quantia para financiar sua campanha eleitoral.
O fato em si revela apenas o ativismo da candidata, principalmente se os valores solicitados estivessem dentro dos limites estabelecidos pelo TSE para os níveis de resultado da empresa abordada, o que, de resto, não diz respeito à captadora, mas ao doador, que deve saber até quanto pode ir.
A distorção que se aponta na Lava Jato é que esses valores captados tiveram uma parcela desviada para contas pessoais dos acusados no exterior, não declaradas nem tributadas.
Este é o crime criminoso a que depois os promotores penduraram uma série de agravantes decorrentes, como sua origem e seu destino.
Definitivamente: essa acusação é de fato anterior à data da posse.
Daí a importância do bordão brandido por Dilma afirmando não ter contas no exterior. Não têm por onde pegá-la. Se sua chapa for cassada, não será por improbidade pessoal da candidata, mas pela gestão de suas contas operadas por funcionários e dirigentes partidários.
Nem isto foi comprovado nem apresentado como acusação na Lava Jato nem no processo de impeachment, por inépcia de tais denúncias.
É nesse contexto da Lava Jato que o procurador Rodrigo Janot pediu a prisão dos caciques do PMDB nordestino. Sérgio Machado, o delator, teria dito que essas pessoas seriam donas de quotas de fundos administrados por seus filhos no Exterior.
Entretanto, argumenta-se que tais fundos não estariam em nome dos acusados, depositados em confiança. Negando a titularidade, perdem-se os depósitos e se vai a garantia do fio de bigode.
Então, sendo verdadeiras as denúncias, para se verem livres as pessoas teriam de assistir impassíveis aquelas fortunas entrarem pelo ralo esvaindo-se sem dó nem piedade.
Melhor negar, se for verdade, o que não se comprova e os acusados negam de pés juntos.
Dilma está fora desta embrulhada. Diz que não sabia e com certeza ignorava tais tramoias. A esta altura, se alguém tivesse um menor indício a apresentar em sua defesa envolvendo à presidente afastada, já teria posto as cartas na mesa, tal como o delator Sérgio Machado.
Estes fatos projetam a cada dia o ausência da presidente nesses fatos que estão explodindo as lideranças de todos os matizes e implodindo o sistema partidário da Nova República.
Na entrevista a Luís Nassif, que foi ao ar quinta-feira pela TV Brasil, a presidente afastada põe na mesa uma proposta de profunda reforma política. Isto saiu numa frase curta, mas que ainda está retumbando em Brasília.
Nesta entrevista aparece uma Dilma segura e cordata. Analisa as causas da derrocada que levou à crise econômica com segurança acadêmica. Apresenta o processo político como uma manobra exitosa do PMDB para tomar-lhe o poder, valendo-se do enfraquecimento de suas bases parlamentares.
Citou poucos adversários, destacando-se seu arqui-inimigo, o presidente da Câmara Eduardo Cunha. Também emitiu palavras duras a seus adversários nas duas eleições, José Serra e Aécio Neves, e queixas ferozes contra os caciques paulistas, o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer, o presidente interino.
Na formulação política, defende o presidencialismo como melhor modelo político para liderar as reformas. Disse que isto é comprovado pela História, pois ao longo de todo o período republicano o executivo sempre foi mais avançado que o legislativo.
Ela diz que os presidentes chegam ao poder com proposta concretas, enquanto os congressos se perdem diluídos por interesses variados, impossíveis de serem conciliados para grandes consensos.
Ela não se referiu a nenhuma grande reforma, mas deixou implícito de que foram os presidentes que sempre estiveram à frente dos grandes passos à frente no Brasil.
Com isto ela chegou a um apelo às urnas. Não deixou claro, mas deu a entender que poderia ser um plebiscito, uma constituinte, algum outro mecanismo originário de uma consulta popular que produzisse os efeitos necessários à reorganização institucional do País.
Neste caso, sua legitimidade como chefe do executivo seria essencial para arbitrar e conduzir o processo eleitoral nessa consulta.
Dilma não mencionou os embates no Senado Federal em torno do impeachment.
Ali se produz um confronto de personalidades jogando numa mesa de cartas marcadas.
Transmitidos ao vivo pela televisão, os debates empacaram num diálogo de surdos. Cada lado parece ter uma agenda própria, no caso a exposição de futuros candidatos aos governos estaduais em 2018.
A bancada legalista apresenta seus nomes: Lindemberg Farias, Vanessa Grazziotin, Gleise Hoffmann, Telmário Motta, Humberto Costa, Fátima Bezerra; na bancada golpista despontam Aloysio Nunes Ferreira, Ronaldo Caiado, Simone Tebet, Ana Amélia de Lemos, Antônio Anastasia.
Nessa arena parlamentar, também se pode esperar novos momentos. Em caso de afastamento do presidente Renan Calheiros, assume o primeiro vice-presidente, senador Jorge Viana, do PT do Acre.
Caracterizado como um parlamentar sereno nos momentos em que assume o comando do plenário da Câmara Alta, Jorge Viana, em caso de afastamento do presidente Renan Calheiros, poderá ser a antítese de seu par da Câmara dos Deputados, o vice-presidente em exercício Waldyr Maranhão. Este manipulou o regimento e usou seu poder para atropelar o andamento da Comissão de Ética que julga o comportamento do presidente afastado Eduardo Cunha.
O respeitado senador acreano poderá fazer cumprir estritamente o regimento interno da Casa e os preceitos da Constituição e do Código de Processo Penal apagando o motor da patrola da bancada golpista majoritária, dando as garantias para os reclamos da bancada legalista, impugnando manobras e procedimentos da mesa da comissão do impeachment.
Uma varredura dessa tramitação poderia levar o processo à extinção por falta de provas e de objeto.Num país perplexo com a corrupção, Cunha vai em frente
P.C. DE LESTER
Os fatos dos últimos dias em Brasilia demonstram que o politico mais poderoso do pais, no torvelinho desta crise, é o deputado Eduardo Cunha, presidente afastado da Câmara de Deputados.
Até o fato negativo – o pedido de sua prisão pelo procurador Janot – revelou-se positivo na medida em que seu nome figurou numa lista entre os maiores caciques da República – Romero Jucá, ex-ministro, líder do governo no Senado; Renan Calheiros, presidente do Senado e José Sarney, senador ex-presidente.
Ou seja, seu julgamento, agora, confunde-se com o julgamento de toda uma classe política. Ou seja, seu caso de ostensiva corrupção, ganha as tintas de um caso político, como ele sempre sustentou.
Depois, teve a sessão na Comissão de Ética. Ao contrário das ruas, onde as pesquisas colhem que 92% querem sua cassação por corrupto, a comissão está dividida. Sua tropa de choque, sem qualquer escrúpulos, manobras as sessões e está a ponto de absolvê-lo.
A batata quente está na mão da deputada Tia Eron, uma aliada sua, que faz um jogo de cena para fazer crer que vota com independência.
Se ele for absolvido (ou punido brandamente) na Comissão de Ética, mediante manobras e ameaças… quem acredita que o ministro Teori Zavaski, vai mandar prender Cunha? Lembre-se que há poucos dias, um filho do ministro denunciou nas redes sociais que sua familia se sentia ameaçada, sem dizer por quem.
Articula-se um novo governo
PINHEIRO DO VALE
A presidente afastada Dilma Rousseff está quase convencida de que precisa dar um novo rumo à sua campanha para voltar ao Palácio do Planalto.
Seus assessores da ala pacifista estimam que o projeto belicoso em curso não alcance oobjetivo de interromper o processo de impeachment e nem mesmo de barrar a condenação no plenário do Senado.
A proposta em estudo é deixar para trás o simples retorno ao mais do mesmo reivindicado no bordão ”Volta Dilma” e entrar com uma outra proposta para o País, com novo formato político, de forma a romper o atual impasse em que nem ela nem seu vice, atual presidente interino Michel Temer, têm solução.
O grande cacife é a legitimidade da eleição direta vencida pela presidente. A manobra criativa seria Dilma ressurgir com uma nova proposta de salvação nacional, compondo todas as forças políticas sem hegemonias. Neste caso, o PT seria apenas mais um partido da sua base, tal como o PMDB e outros integrantes do centrão.
Os partidos de oposição voltariam para seus lugares, mas haveria um entendimento para conter a derrocada da economia e do quadro fiscal. A decisão final seria adiada para 2018, quando essas forças irão se medir nas urnas.
A solução política para formar um governo estável seria a mesma do impasse anterior de 2005, quando a governabilidade se esvaiu engolfada pelo impasse das forças no Congresso abrindo espaço para o domínio do baixo clero, representado pelo então presidente da Câmara Severino Cavalcanti.
Esta situação repetiu-se com a eleição de Eduardo Cunha. O deputado carioca é um político bem mais dotado que Severino, mas sua fonte de poder tem a mesma origem. E o resultado se repete.
A diferença é que na década passada o então presidente Lula (que chegou a usar a seu favor o esdrúxulo Severino), rapidamente deu uma guinada e compôs uma solução salomônica, como a foi a eleição do deputado do PCdoB Aldo Rebelo para a presidência da Câmara, compondo uma mesa de transição que levou a nau dos insensatos a bom porto.
Dilma já está consciente do impasse e ouve sem gritos os cenários desses conselheiros. Terá de dar uma guinada e se apresentar às forças políticas com nova proposta. Sua força é a legitimidade, Sua fraqueza sua incapacidade política.
Neste caso, deve chamar para “primeiro-ministro” desse semiparlamentarismo ad hoc uma liderança com credibilidade e trânsito em todas as forças políticas.
A hipótese anterior, fracassada, seria levar Lula para o comando do governo. Entretanto, com o ex-presidente tão abalado pelas vicissitudes da crise, seu nome não seria uma saída para a pacificação.
Procura-sem outro nome com grande trânsito e credibilidade para, uma vez mais, recompor a imagem estilhaçada.
O futuro ministro líder deveria preencher as necessidades do momento: vir de im partido de fora do circuito PT, PSDB ou PMDB. O ideal seria ver é de uma agremiação de cunho programático, isento das supeitas de motivação fisiológica.
Coisa rara no quadro partidário brasileiro.
Com isto é possível, acredita-se (e dizem que Dilma já quase concorda) que colocando o objetivo nacional à frente pode-se recuperar a confiança.
Este é o ponto de inflexão, pois se a base da economia, os pequenos, entenderem que não vão falir, reabrindo suas oficinas, suas lojas, seus institutos de beleza, chamando de volta empregados dispensados no turbilhão do medo, a economia rapidamente readquire condições de se reerguer.
A pequena fábrica, a oficina, a loja, o salão, reabertos; o trabalhador, o mecânico, o caixeiro, a cabeleireira de volta o comércio se reaviva, a arrecadação aumenta, os pedidos se ampliam.
Restaura-se o que os economistas chamam de “consumo das famílias”, que é o verdadeiro motor da sociedade de consumo.
Fora isto, a situação macroeconômica ainda não apresenta sinais de desastre total, com câmbio estável, balança comercial positiva, sistema bancário saudável, que são alguns dos espaços positivos para retomar a construção civil, as estradas, os portos e assim por diante.
O País está na UTI, mas ainda respira sem aparelhos. É o que dizem os otimistas.
Um novo governo. Um novo projeto. Passar a borracha e andar em frente. O mundo observa o Brasil. Uma solução de altíssimo nível e a modernização de suas instituições seria um sinal decisivo para manter o Brasil na sua posição de grande potência, de onde parece despencar neste momento.
Uma posição que o País não pode perder. A História não poupará.
Quanto a Dilma, do alto de sua legitimidade poderá ser o (ou a) árbitro (a?) das grandes reformas. Uma delas é da própria Presidência.
Dilma, largue o Zé!
andres vince*
Desde sempre tive o péssimo hábito de acompanhar a vida política do país. Tudo começou quando eu tinha uns sete anos e enquanto administrava o trânsito da minha gigantesca frota de carros miniaturizados escutei o presidente falar na TV sobre sua preferência ao odor de um estábulo ao cheiro do povo. Não eram essas as palavras literais, mas, o sentido, como eu constatei na prática, até uma criança percebia.
Até uma criança entendia o general Figueiredo
É o primeiro pensamento do tipo “mas que porra é essa?” o qual tenho lembrança. Muitos outros vieram depois desse. Talvez milhares. Tanto o Executivo, como o Legislativo, e mais recentemente o Judiciário (atraído pela luz dos holofotes), alimentam com fartura esse pensamento. Desde que o então presidente general João Figueiredo proferiu aquela infeliz declaração, muita coisa absurda já aconteceu e já foi dita neste país.
Porém, nunca uma figura pública me chamou tanto a atenção pela incapacidade de produzir algum resultado concreto como o atual advogado de defesa da presidenta eleita Dilma Rousseff. Nunca vi alguém primar tanto pela neutralidade, ineficiência e teatralidade.
Seu desempenho como ministro da Justiça foi abaixo da linha do medíocre. É inexplicável como se manteve no cargo por tanto tempo. Se um ministério pudesse ser comparado a uma equipe de futebol, ele seria aquele jogador aipim, que fica plantado esperando os outros jogar a bola pra ele. Só que quando alguém passava a bola, ele devolvia. O passe era bonito e refinado, mas, inútil.
Fez um golaço de bicicleta quando estava no cargo. Só que foi contra. Como pôde não cair depois de ser flagrado num grampo afagando um governador que foi preso pela PF por porte ilegal de arma durante uma operação de busca e apreensão por suspeita de corrupção? Só conseguiu manter-se no time porque o jogador da equipe adversária, ministro Gilmar Mendes, também fez o mesmo golaço contra. “Que loucura!”, afirmaram os dois ministros no grampo onde eles referiram-se ao fato de o governador ter sido preso depois de sua casa ser vasculhada. Pois é, que loucura mesmo ministros, que loucura. Toda a preocupação que o Zé não teve com a Justiça, ele teve com a “injustiça” praticada naquele episódio. Pobre governador.
Quando a sua inutilidade foi reclamada até pela oposição, foi retirado do cargo de ministro indo parar na AGU. Com o novo cargo, uma nítida transformação ocorreu. De jogador aipim da equipe ele foi promovido à categoria de raivoso Poddle Toy da Dilma. Sabe aquele cachorro que late do quinto andar quando alguém abre a porta do prédio no térreo? Sabe aquele cachorro que todo mundo odeia, menos a dona? Essa foi a imagem do Zé Cardozo como advogado geral da União. Só serviu pra irritar as pessoas, enquanto a dona achava tudo muito lindo.
Agora como defensor pessoal da presidenta não poderia ser diferente. A mesma linda e rebuscada ineficiência de sempre. Não me entendam mal, não acho que ele seja uma pessoa inepta. Que pessoa seria capaz de citar o senador romano Cícero enquanto um pitbull morde suas partes pudendas? Pois nesta quinta (02/06), durante a defesa de Dilma na comissão do especial do impeachment no Senado, ele foi capaz disso. Fantasticamente incrível. E inútil.
“Tchau, querido”: Sob forte ataque do senador Moka, o Zé disse não ser Catilina
É o que os especialistas poderiam chamar de reação desproporcional, só que ao contrário. Enquanto sofria o ataque desrespeitoso do senador Waldemir Moka, foi um perfeito gentleman, porém, quando o trator passou por cima e enfiou goela abaixo o parecer “isento” do relator senador Anastasia, aprovando e desaprovando os requerimentos de acusação e defesa como bem entendeu, ele não foi capaz de nenhuma reação. Deixou o trator passar por cima sem nem sair da frente. Patético.
Os senadores, da agora oposição, tiveram que praticamente arrancá-lo da mesa, de onde retirou-se com muitas vênias, sem nem ao menos chamar o senador Moka lá fora, onde poderiam resolver as diferenças sem ferir o decoro da casa, saindo sob gritos debochados de “tchau querido!”. Duplamente patético.
Desculpem pelo sexismo, mas a senadora Vanessa Grazziotin teve mais hombridade que ele, indo bater na mesa do presidente da comissão, senador Raimundo Lira, depois de tão descarada manobra processual. Atitude também inútil, mas, já que é teatro, vamos quebrar uns vasos pelo menos, pra deixar a peça mais dramática.
E a Dilma não abre mão dele. Isto me lembra muito a cena epíloga do filme Titanic, certamente a maior geradora de lágrimas em cascata da história do cinema: quando a mocinha acorda segurando a mão do mocinho, nessas alturas já transformado num picolé.
Paradoxo de Dilma: “largar ou não largar o Zé?, eis a questão!”
Esse deve ser o paradoxo de Dilma que, com certeza, nutre algum afeto por ele: “largar ou não largar o Zé?, eis a questão!”. Só tem essa explicação. Nem vou julgar se esse sentimento é maternal ou não. Sei que muitas mulheres têm apreço por ele. Outras tantas também têm pelo DiCaprio. Só que o Zé já cumpriu o seu papel no filme. Já colocou a mocinha sobre a tábua de salvação e ficou ali segurando na mão dela, congelando, muito embora, há suspeitas que os dois cabiam na tábua. Agora a Dilma está lá, sozinha, no meio dos destroços, esperando resgate. Viu como até comparado ao filme, o Zé não se sai bem? E ele lá, que nem um picolé de DiCaprio, segurando a mão de Dilma, esperando pra ir direto pro fundo.
Então, por tudo isso, se desse o acaso de eu esbarrar com a presidenta eleita na esquina democrática, sexta-feira passada, eu só iria conseguir dizer: “Dilma, largue o Zé!”.Estupros: desde 1964, na linha reta do tempo
RAUL ELLWANGER
Uma jovem brasileira foi estuprada por mais de duas dezenas de homens cidadãos, em maio de 2016. Foi vitima de tortura, mais especificamente, de tortura sexual.
O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi condenado por ofender a colega gaúcha Maria do Rosário (PT) no plenário da Câmara em 2014:
— Há poucos dias você me chamou de estuprador e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece — disse o deputado durante uma sessão.
Em que consiste a ofensa ? Na ameaça de estupro ? No livre arbitro do deputado em estuprar ou não ?
Tortura consiste em submeter outrem a dor violenta, com objeto de extrair confissão ou informação, ou sem este objeto. A tortura policial ou política tem uma finalidade, é funcional, seu objetivo é destruir o outro.
A tortura sem finalidade aponta apenas para a doença mental do seviciador. A que serve este tormento ? Para o gozo do perpetrador ? Há prazer em fazer sofrer ?
Estupro é submeter outrem pela força à perda do domínio e da privacidade de seu corpo, através de relações de tipo sexual, sejam genitais ou não.
É de sua natureza orgânica um brutal constrangimento moral, dada a auto-estima que toda pessoa tem, convicções religiosas, associação com maternidade, conceitos de hombridade, tradição cultural.
Qual o objeto do estupro?
A repressão policial e politica com frequência combina tortura com violência sexual, assim se fala em tortura sexual. Por experiência, o repressor sabe que a força de ‘demolição’ do tormento material e moral sobre o torturado se incrementa quando tem conotação sexual.
Isto é denotado pelas ofensas verbais, carregadas de sexismo supostamente ofensivo, assim como pela minucia com que se devassa e mortifica cada parte do corpo vitimado.
O mesmo deputado em reiteradas ocasiões tem feito o elogio de torturadores do regime militar, assim definidos oficialmente pelo Estado Brasileiro no Relatório da Comissão Nacional da Verdade de 2014.
Na prática da vida real, o mais importante na situação atual é a impunidade de cerca de 400 criminosos listados, tendo à frente generais e ditadores.
Quando dezenas de homens violam uma moça, estão praticando tortura e tortura sexual. Não buscam informações ou destruição de um ‘inimigo’ (o subversivo, o ladrão), pois o martírio que realizam não tem objetivo.
Tampouco se pode supor a fruição de prazer e deleite. Estaremos diante de enfermos, de psicopatas ? Fizeram o que fizeram por pura diversão ?
Ligando a fala do parlamentar com a violação múltipla, temos que o elogio atual do torturador do passado estimula a violência do estuprador do presente. A fala daquele torna natural, comum, banal e aceitável a violação.
Quando o falador diz que depende dele torturar sexualmente a deputada ou não faze-lo, está dizendo que a tortura é corriqueira, vulgar, que ele opta por ela ou não segundo seu critério.
Ademais, fala disso aos gritos em pleno Congresso Nacional. Os homens que arrasaram a jovem seguem a mesma lógica, de praticar a violência sem respeitar a outra pessoa nem as barreiras morais e legais criadas pela sociedade.
Para tais criminosos, vale apenas seu arbítrio, a imposição da força bruta sobre uma mulher indefesa, como fizeram os Ustra, Fleury, Malhães, Seelig, Cerqueira, Curió, Correia Lima, Audir, Dulele e demais ícones de Bolsonaro sobre cidadãs e cidadãos sequestrados nos DOI-CODI.
No terreno da moral, da lei e da política, o nostálgico Bolsonaro estimula e é cúmplice da violação atual.
Na falta de ‘subversivos’, dispara sua baixeza contra a colega parlamentar e mulher. Imaginemos o que faria contra uma jovem simples do povo, não parlamentar. Imaginemos o que faria contra uma raptada oculta de 1971, na penumbra e solidão de um quartel remoto.
Há algo comum entre os violadores de hoje, o deputado militar e os torturadores de 1964: a idéia da banalidade. Esses rapazes acreditam que se com aqueles grandes criminosos seriais nada acontece, se até mesmo um parlamentar diz que torturar é banal e vulgar, então estuprar uma mulher é fato corrente e comum.
Como nem os agentes de 1964 nem o parlamentar são punidos, se divulga a idéia de que nada acontecerá, que ficarão impunes seus crimes como milhares de outros seguem sem punição desde mais de 50 anos.
Se os atormentadores da ditadura tinham um motivo ou pretexto para torturar e violar sequestradas e sequestrados, os estupradores de hoje não dispõem (segundo as noticias atuais) de alguma justificativa ou explicação para seu ato. Nem motivo passional, nem vingança, nem roubo, nem acerto de contas, nem disputa de território. Nem podemos supor perguntados pelo motivo de tão hediondo crime, dirão que o praticaram… qualquer ressaibo de prazer. Entre a impunidade e a banalidade, porque sim.Combinando com os russos
PINHEIRO DO VALE
A antecipação dos prazos, pela comissão do impeachment no Senado, vai acelerar o início da segunda fase da campanha de Dilma para recuperar o seu mandato: seus estrategistas vão antecipar o corpo a corpo com senadores, previstos para o começo de julho.
A segunda fase, que se inicia com o comício da Esquina Democrática, nesta sexta-feira, em Porto Alegre, inclui os protestos contra o golpe se ampliam e tendem a crescer e se espalhar pelo país.
Para isto, conta-se com a crescente impopularidade do Governo Provisório do presidente interino Michel Temer.
Sem soluções para o desemprego crescente e a inflação de preços, o descontentamento tende a passar dos espaços militantes para generalidade das ruas.
Somente a partir dessa fase será prudente a própria presidente Dilma assumir a linha de frente das negociações com os parlamentares eleitores do Senado Federal.
Uma proposta de movimento tático é reproduzir, em parte, a experiência grega.
O primeiro ministro Aléxis Tsipras, cargo com eleição direta, venceu a situação conservadora em janeiro e 2015 com um programa de aumento dos gastos públicos, ampliação de benefícios sociais e moratória da dívida externa.
O projeto não funcionou devido à resistência do sistema financeiro europeu de alargar prazos de pagamento. Ameaçado de exclusão da Zona do Euro o novo governo entrou em semi-colapso. Era queda iminente, nos moldes do sistema político local.
Tsipras deu um lance de grande coragem política: foi para as ruas com um mea culpa, assumiu que seu programa era inexequível e propôs uma nova política econômica diametralmente oposta. Ninguém esperava que ele fizesse isto.
Com a mesma votação de janeiro, reforçando sua legitimidade, venceu novamente em 20 de setembro e deu a guinada que, pouco a pouco, vai tirando a Grécia do buraco.
Também no Brasil a presidente afastada pode usar seu respaldo de legitimidade para propor um novo pacto com seu eleitorado.
Para isto Dilma precisa mudar, pelo menos, oito votos no plenário do Senado, dando, desde já, como perdida a batalha na comissão especial, esmagadoramente favorável ao impeachment.
Seu argumento principal seria a possibilidade real de com ela encontrar uma saída para a crise econômica e abrir espaço para negociações políticas consequentes. Sua força real é a legitimidade dos 54 milhões de votos. Isto é inegável. Tsipras é uma prova palpável.
Em segundo, ela viria com uma nova política econômica que, respeitando a austeridade, aproveitando-se, também, dos avanços no legislativo de propostas que ela apresentou, mas foram rejeitadas.
Apresentaria alguns fatos novos. Primeiro: Lula assumiria ostensivamente o comando político.
Com o ex-presidente dando fiança, a antiga base aliada poderia voltar, aceitando como efetivos os acertos políticos. Esta seria uma queixa removida.
Neste sentido, também com apoio de Lula poderia manter a equipe de Henrique Meirelles, com as bênçãos do ex-presidente. Seria a base de credibilidade para descongelar a atividade econômica.
Tal demonstração de flexibilidade seria o aval para a retomada da confiança para investidores, interna e externa.
Nesse projeto de retomada do crescimento, tendo ênfase as concessões de infraestrutura e joint ventures nas estatais, seriam um elemento poderoso para robustecer o mercado de trabalho nos empreendimentos de engenharia pesada.
Também seriam tomadas medidas para reativar a economia no varejo e serviços, encorajando pequenas indústrias e lojistas a abrirem suas portas, chamarem de volta empregados dispensados e assim dar um sofre no no desemprego.
Não é descartada a proposta de um lance ousado, como convocação de eleições em curto prazo ou de uma constituinte exclusiva para a reforma política. Também nesses casos o estado estaria sob Dilma, pois ela confere a legitimidade.
Tanto no País como no Exterior, a volta da presidente afastada seria um sinal poderoso de normalidade constitucional, algo importante para recuperar a imagem externa abalada pelas tropelias do golpe e a confiança interna de segurança jurídica para a retomada dos negócios.
O projeto de ação com um desenho nesse quadro está sendo examinado.
O desafio a Dilma será recompor seu relacionamento com os parlamentares, incluindo, neste caso, uma modus vivendi com o presidente interino Michel Temer e seu PMDB. Sem o centrão seria impossível governar.
Ela teria de, com esses movimento, comprovar que pode oferecer governabilidade. Esse é o ponto central, pois Temer tampouco está conseguindo domar as forças centrífugas que arrebentam o pacto da coalisão.
Até chegar a uma reforma política, o Executivo terá de se conformar com o multipartidarismo em vigor.
A percepção é que se as ruas não votam no Senado, elas podem ajudar a mover votos contrários. Afinal, a última pesquisa já apontou Dilma com 33% de apoio, um crescimento significativo, pois quando levou o golpe não tinha mais de 11 por cento.
Enquanto isto, Temer está parado nos oito por cento, ou seja, 92 por cento de impopularidade. É um bom desenho, no entender dos estrategistas. O desafio para a presidente afastada é conseguir combinar com os russos.Nos tempos da barbárie é que era bom
Andres vince
Nos bons e velhos tempos da barbárie, a violência fazia parte do cotidiano. Naqueles tempos, tudo se resolvia na base da melhor espada, do maior machado, do melhor preparo para o combate. Havia algum equilíbrio nisso.
Nos bons e velhos tempos da barbárie, não existiam os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, protagonizando ações, ou até inações, que fariam os bárbaros sentir vergonha alheia.
Nos bons e velhos tempos da barbárie, não havia um grupo especial e treinado para reprimir manifestações de pensamento.
Nos bons e velhos tempos da barbárie, um líder não iria durar muito no posto se fosse pego de braço erguido gritando: “eu não vou cortar”, ao mesmo tempo em que segura com a outra mão uma tesoura escondida nas costas.
Nos bons e velhos tempos da barbárie, um líder não mandava tirar a moradia de quem está em piores condições de lutar.
Nos bons e velhos tempos da barbárie, alguma cabeça rolaria se alguém declarasse que iria proteger as mulheres, logo depois de ter feito tudo pra menospreza-las e diminuí-las.
Nos bons e velhos tempos da barbárie, se uma mulher fosse pega brincando com armas que fazem parte do seu ambiente, isso não serviria de justificativa para estuprá-la. Muito menos se ela estivesse drogada. E muito menos ainda, o pessoal sairia por aí contando isso pra todo mundo.
Nos bons e velhos tempos da barbárie, gorilas não davam pitaco na educação das crianças, mesmo que esse gorila falasse.
Nos bons e velhos tempos da barbárie, se um garoto conspirasse contra um líder, conclamando um motim espontâneo, livre e independente e fosse apanhado com a mão no pote dos adversários do líder, bom, nesse caso, acho que o garoto seria anistiado, visto que a própria desmoralização já seria suficiente.
Por essas e outras que acho uma injustiça dizerem por aí que vivemos em tempos de barbárie. Nos tempos da barbárie é que era bom.
Mas, aos saudosos dos bons e velhos tempos da barbárie, ainda resta alguma esperança. Existe um grupo empenhado em revogar o Estatuto do Desarmamento, devolvendo a todos os nobres cidadãos o direito de portar uma arma de fogo.
Aí sim, teremos de volta os bons e velhos tempos da barbárie, quando poderemos consertar o para-choque do carro com dois tiros no peito do motorista que causou o amassado.
Ah, os bons e velhos tempos da barbárie.
A Globo e o golpe
Em 1964 também diziam que não era golpe. Era “intervenção preventiva”.
O jornal o Globo (a Rede ainda não existia) saudou a “Democracia restaurada” quando o senado declarou vaga a presidência e empossou Rainieri Mazzilli, presidente da Câmara, no lugar João Goulart, o “presidente afastado”.
Um governo de salvação nacional seria instalado, eleições seriam convocadas, a normalidade democrática seria restabelecida.
O Globo era o porta voz desse discurso. A crise militar se seguiu, a linha dura se impôs, a ditadura mostrou a sua cara. A Globo se cevou à sombra desse descaminho. Foi a rede oficial do regime, enaltecendo-lhe os feitos, mascarando os mal feitos.
É o papel que assume hoje em relação ao impeachment e ao governo Temer. Até agora parece bem sucedida e é clara sua aposta no governo Temer para voltar a florescer à sombra do oficialismo.
O problema é que estamos em 2016. E, segundo dizem alguns, a história só se repete como farsa.



