Categoria: ANÁLISE&OPINIÃO

  • A Globo e o golpe: nas duas vezes anteriores ela mentiu

    P.C. DE LESTER
    No dia 2 de abril de 1964, o presidente da República, João Goulart, ainda estava em território brasileiro.
    Havia desembarcado às 3h15 minutos da madrugada no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para decidir se resistia ou não à quartelada que se iniciara contra seu governo.
    Nas primeiras horas da manhã, o presidente estava reunido com o comandante do então III Exército e os comandantes de todas as unidades da região Sul, mais líderes políticos como Leonel Brizola e outros.
    Naquela manhã, o jornal o Globo circulava no Rio de Janeiro com a seguinte manchete no alto da página: “Jango Fugiu: A Democracia Está Restabelecida” e abaixo em letras garrafais: “EMPOSSADO MAZZILLI NA PRESIDÊNCIA”.
    O Globo mentiu para encobrir um atentado a Constituição, que foi a posse forjada de Rainieri Mazzilli, o presidente da Câmara, quando o presidente da República ainda estava em território nacional.
    Na calada da noite, o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, numa sessão de três minutos, declarou vaga a presidência da República e elegeu Mazzilli para o cargo.

    • No dia 1º de setembro  de 1969, estreou o Jornal Nacional, “o primeiro noticioso em rede nacional de televisão” no Brasil

    A principal notícia foi a doença do presidente Costa e Silva, há quatro dias com uma “crise circulatória”. O locutor Hilton Gomes disse que o presidente “passou bem à noite e está em recuperação”.
    O presidente, na verdade, tivera uma isquemia cerebral. Estava prostrado na cama, semi- paralítico e mudo.  Os três ministros militares já haviam empalmado o poder, descartando o vice-presidente Pedro Aleixo.
    O Jornal Nacional mentiu, encobrindo o chamado “golpe dentro do golpe”.
    Portanto, quando William Bonner diz que os jornalistas da Globo não criam fatos, mas apenas os divulgam e que “sempre foi e vai continuar sendo assim” é bom botar o pé atrás.
    Agora, toda a Globo está empenhada em dizer que o impeachment contra Dilma não é golpe. Não estará ela, novamente, tentando encobrir outro golpe?

  • Fiergs diz que impeachment pode ser a solução da crise política

    PC de Lester
    A crise politica do país é o tema da reunião do Conselho de Representantes da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul, hoje, terça, às 18 horas. É uma reunião extraordinária,  convocada pelo presidente,  Heitor José Müller.
    Segundo nota divulgada pela Federação, a “Economia não pode esperar”.
    Segundo Muller, “o Brasil chegou a um impasse político que precisa ser resolvido com urgência, respeitando as possibilidades legais, entre elas o processo de impeachment previsto na Constituição. Do equacionamento da crise política depende a retomada da economia, hoje em forte declínio”.
    Ou seja, para a Fiergs, o impeachment é pode ser a solução.
     

  • "O povo não é bobo": a Globo brinca com fogo

    PC DE LESTER
    Alvo preferencial das manifestações contra o impeachmet, a Rede Globo viu voltarem às ruas as velhas palavras de ordem contra ela, a começar pelo ‘O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo´”, Globo golpista e outras, que remontam às Diretas Já.
    O mais grave não está nas ruas, está nas redes sociais (as ruas talvez ecoem as redes sociais ou vice e versa).
    O que se vê é uma rejeição crescente. Agora, além da rejeição que leva a não ver nada da globo, surge uma proposta de não comprar produto ou serviço anunciados na Globo. Por enquanto, parece uma ideia voluntariosa.
    Mas quando uma revista como a Der Spiegl diz que a Globo está no centro de um “golpe frio’ que se arma no Brasil contra a democracia, se a democracia vencer, haverá lugar para a Globo?

  • Transporte público em Porto Alegre: os 21 centavos da discórdia

    PC de Lester
    Pedro Ruas e Luciana Genro, deputados do PSOL, entram com na Justiça com uma Ação Civil ´Pública buscando derrubar em definitivo o aumento da tarifa de ônibus na Capital.
    Em 24 de fevereiro, com uma ação cautelar preparatória, eles obtiveram liminar que suspendeu o aumento. Ganharam 30 dias para justificar e garantir a suspensão.
    O reajuste acima da inflação (15,3%) e a falta de aprovação do Conselho Municipal de Transporte Urbano (Comtu), são os argumentos principais da ação para anular o aumento.
    O Conselho, depois que o aumento foi suspenso, se reuniu, votou e aprovou por 12 votos a 4, a “metodologia do processo tarifário da primeira licitação do transporte coletivo da cidade”.
    Essa metodologia consistiu em buscar uma planilha que representasse um marco zero no calculo tarifário.
    A partir daí, o índice da inflação e do reajuste dos trabalhadores determinariam percentual do aumento da tarifa.
    O problema é que a planilha que seria o marco zero do cálculo da tarifa chegou ao valor de R$ 3,46 em julho de 2015, quando a tarifa praticada era R$ 3,25. Essa diferença de vinte e um centavos  é a origem do conflito.
    Quando foi autorizado o reajuste, em fevereiro de 2016, com a inflação e o reajuste dos trabalhadores, os R$ 3,46 originais chegaram aos R$3,75 agora questionados.
    Depois que o Conselho aprovou a metodologia do aumento, a prefeitura pediu ao Tribunal de Justiça a cassação da liminar do PSOL.
    O prefeito José Fortunati anunciou em entrevista que iria pessoalmente ao presidente do Tribunal de Justiça para fazer ver “a gravidade da situação que está se criando na cidade”.
    .Diante das negativas do Tribunal de Justiça (TJ), a prefeitura agora busca derrubar a liminar com recurso junto ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ), de acordo com a Procuradoria-Geral do Município (PGM).
    Para complicar ainda mais a situação, os consórcios que operam o sistema de transporte público de Porto Alegre ganharam liminar na Justiça:  a prefeitura terá que pagar os R$ 0,50 de diferença em cada passagem. Cerca de um milhão de reais por mês.
    Mas ainda não é tudo.
    Segundo Zero Hora, “entre sexta e esta segunda-feira, sete empresas de ônibus de Porto Alegre pagaram o adiantamento salarial sem o reajuste de 11,81%, aprovado em fevereiro. Na semana passada, cinco já haviam tomado a mesma decisão. A Carris, empresa pública, emitiu os contracheques com o reajuste”.
    Por enquanto, o sindicato dos rodoviários não fala em greve. Diz que está “estudando as medidas judiciais cabíveis”. Quer dizer, a greve é questão de tempo. Só a Carris não vai parar.
     

  • Dilma se compara a Vargas por ataques à familia

    Pinheiro do Vale
    Quando a presidente Dilma Rousseff se compara a Getúlio Vargas, como fez na visita à reunião da Executiva do PDT que fechou questão contra o impeachment, ela de fato não se refere à questão política na Câmara, mas aos ataques à sua família.
    Embora não tivesse falado de viva voz, ainda lhe repugnava a baixeza da reportagem de capa da revista Época em que uma equipe inteira procurou sem êxito encontrar alguma migalha que pudesse ligar seu ex-marido Carlos Araújo a algum malfeito, por menor que fosse.
    A matéria de Época é um vexame para o jornalismo brasileiro, que se mostra ridículo por produzir profissionais dessa categoria. Expõe sócios controladores cobrando resultados a qualquer preço, sem nenhum prurido ético; um diretor de redação desesperado por sua incompetência para manter-se no cargo; editores de texto medíocres distorcendo declarações e comprometendo descaradamente amigos da família com conteúdos contrários ao que disseram; repórteres tresloucados, errantes no deserto a procura de cavalos com chifres. Uma vergonha! Diria o velho Boris Casoy.
    Isto vem da sofreguidão para esconder o tamanho do fracasso, diminuir a distância de concorrentes. Uma ideia brilhante do gênio da redação de Época: “O ex-marido”. Deve ter pensado: como estes coleguinhas são burros, depois de tantos anos cavoucando não se deram conta que o ilibado Carlos Araújo seria o furo do ano. E lá se foram. Que equipe mais esperta…
    A matéria foi um espanto: a capa dramática e, lá dentro, nada. Nada vezes nada. Nem uma pista. Coitadas das “fontes” expostas só em negativas. Nem uma linha que levantasse a menor suspeita. Apenas má fé e falta de assunto. Pobre leitor! Esse número da revista dá direito ao comprador de reclamar no PROCON.
    Entre os profissionais de imprensa, Época expõe a fraude que se converteu esse tipo de jornalismo investigativo. Os velhos profissionais do ramo lembram-se dos tempos antigos, nos anos 70 e 80, quando o repórter precisava conquistar uma fonte antes de ter uma notícia. Era quase um ritual. Uma alta fonte contava um segredo (“não é para publicar”), deixava “descuidadamente” um papel sobre a mesa e pedia licença para dar um telefonema noutra sala. O repórter rapidamente lia e anotava. Chegando à redação era interrogado duramente pelo editor, tinha de ouvir o outro lado e, sempre, iniciava a matéria com a versão do acusado.
    Na fase seguinte já havia mais flexibilidade do editor, a fonte passava um “dossiê”. Vieram os tempos do “denuncismo”. Em meio a muitas verdades também havia as manipulações. Muitas reputações de repórteres furões se fizeram por aí. Pelo menos o jornalista precisava ter uma fonte que lhe passasse um dossiê. Dava algum trabalho.
    Agora é mais fácil. Tecnológico. Qualquer hacker passeia como se estivesse em casa nos arquivos dos órgãos públicos. É só plugar o pendrive e tem todo o vazamento em áudio e vídeo sem precisar se esforçar para encontrar uma fonte confiável para lhe passar o “vazamento”. Não precisa prática nem habilidade.
    É o caso dos “vazamentos seletivos” do Lava Jato. É melhor para a imagem da Política Federal deixar o público pensando que há uma “garganta profunda” irrigando uma multidão de repórteres do que reconhecer que seus computadores são uma peneira de tela tão grossa que passa tudo. E pior: os órgãos de segurança máxima do País não têm como se defender.
    Essa vulnerabilidade veio à tona quando os hackers do Wikileaks de Julian Assenge entraram nos escaninhos mais secretos da presidente Dilma Rousseff. Ela ficou quatro anos brigada com o presidente Barack Obama por causa disso, até o ministro José Eduardo Cardoso confessar que não podia fazer nada par impedir a invasão das delações. Quando um veículo diz que “teve acesso” está na verdade dizendo que invadiu um computador indefeso. Então ela fez as pazes com os norte-americanos.
    Por estas e por outras que o programa prioritário do Exército Brasileiro para defender a soberania nacional não fala de tanques e canhões, mas de Segurança Cibernética (a Aeronáutica cuida de segurança espacial e a Marinha de motor nuclear). Se nem os mais profundos segredos de estado estão resguardados, imagine como não estão vulneráveis as pobres máquinas do tempo do Onça da Polícia Federal e do sistema judiciário.
    Foi por isto aí que a “esperta” equipe da Época saiu a campo procurando escarafunchar a vida do irrepreensível e discreto Carlos Araújo. E é isto mesmo: tape o nariz e leia a matéria da Época e confirme que ele é irrepreensível e discreto.
    Certamente foi por causa dessa grosseria que a presidente Dilma invocou o exemplo de Getúlio Vargas. Ele também teve seus parentes na alça da mira, o irmão Benjamin e o filho Lutero. Com Dilma já tinham procurado o irmão Igor, mas em vez de um nababo encontraram um advogado aposentado com um fusquinha igual ao do presidente Mujica, do Uruguai. Agora foram atrás do Araújo. Encontraram um ex-político de primeira linha retirado e um advogado que tem de trabalhar, mesmo doente, para ganhar seu sustento. Fizeram a anti-matéria. Vergonha!
    Voltando a Getúlio, a imprensa ligou o pronunciamento de Dilma no PDT ao impeachment, pois a reunião fechava questão a seu favor e ela estava lá para isto. Entretanto, embora todos os presidentes de 1950 para cá tenham enfrentado pedidos de afastamento na Câmara (e só Collor perdeu), os casos são diferentes. Mas como os jornalistas não atinaram, ficou como se ela estivesse se comparando ao presidente suicida que se concluiu com um tiro no coração e a subsequente derrota eleitoral do candidato da oposição, general Juarez Távora, e eleição do candidato situacionista, Juscelino Kubitschek.
    Em todo o caso, naquele ambiente, comparar-se a Vargas foi uma boa tirada retórica, pois ali estavam reunidos os que se apresentam como herdeiros legítimos do legado getulista.

  • Outubro Rosa

    Alice Schuch*
    Ela pensa, procura, mas não sabe o que fazer. É bela, boa, é inteligente, tem tudo e, mesmo assim, às vezes experimenta esta particular insatisfação, falta-lhe alguma coisa, um vazio que não sabe como resolver. Cai em depressão e não consegue sair. Adoece.
    A depressão é a principal porta para as doenças e as mulheres são atingidas em peso por esse que é um mal do século. A causa é a falta do projeto de vida que deve ter cada uma, na sua individualidade, deveria ter e defender. Ter sonhos, ambição e independência expande uma força que tira a mulher deste vazio interior que muitas sentem. O resultado é a vitalidade.
    A vitalidade dificulta o desenvolvimento até de doenças graves. Pensemos nisso.
    A depressão alimenta uma alma doente, logo, reflete um corpo doente. Buscar a ajuda que for necessária, criar um projeto de vida, um objetivo de vida. Com isso, ganhar força e independência. Também pontuo atitudes consideradas historicamente masculinas e que, não sendo, devem ser desenvolvidas nas mulheres: a ação eficiente, formalizando o que se quer, movimentando-se, cumprindo e realizando com certo orgulho e praticidade. Assim é a origem feminina. Devemos retornar à nossa natureza, criando uma forma de agir feminina e eficiente, mudando, assim, a história.
    Corriqueiramente, a mulher cumpre regras feitas, passadas há muitas gerações. Vibra, sente a própria força, eleva ao máximo suas próprias pretensões. Pretende o belo, o poder, tem uma sensibilidade especial, uma força de inteligência, sabe que possui o poder de gerar a vida, mas no exato momento que a oportunidade real se mostra, entra uma imagem, uma informação contrária que fixa uma forma que dói dentro. Adoece.
    Surge um medo infundado e ela não colhe a oportunidade, retira-se do jogo. Perde o centro da ação vencedora, desiste. Rebela-se, culpa os outros, mas não compreende a causa da sua fraqueza.
    Todas as mulheres, principalmente as mais inteligentes, percebem a existência de um erro, mas não conseguem identificá-lo de fato. A diferente é considerada uma ameaça, principalmente se é uma líder. Sente-se combatida, agredida, impotente por fim, sente culpa de não ser igual as outras e desiste. Não conseguindo realizar o seu projeto, passa a considerá-lo impossível, não compreende.
    Deixa-se arrastar pela massa e, por sua vez, torna-se parte dela, baila no vazio. Mata a própria luz, em boa fé assassina o próprio núcleo individual. E segue adoecendo.
    *Palestrante, pesquisadora do universo feminino e autora do livro “Mulher: aonde vais? Convém?”

  • Uma trama contra a democracia

    Henrique Fontana
    A tentativa de retirar uma presidenta legitimamente eleita, com mandato conquistado nas urnas, antes de 2018, atenta contra a democracia. E não bastará aos organizadores dessa trama e aos defensores da quebra das normas constitucionais envolverem suas manobras para um golpe institucional num “verniz” legalista.
    As conspirações para o impeachment da presidenta Dilma, tramadas, especialmente, pelo presidente Eduardo Cunha e tucanos no Congresso, são frágeis e contraditórias. Desde a reeleição da presidenta, estes têm promovido diferentes ações, com pedidos de recontagem de votos, rejeição das contas de campanha, rejeição das contas do governo e diversos requerimentos de impeachment.
    Assim como a tese das supostas “pedaladas fiscais” nas contas do governo em 2014, procedimento contábil até hoje considerado legal pelo TCU, utilizado inclusive pelos governos de Fernando henrique e Lula, e aprovado pela Câmara, outra tese tenta dizer que as doações eleitorais das mesmas empreiteiras, em alguns casos em valores até maiores, para Aécio Neves seriam legais, e as feitas para a campanha de Dilma seriam ilegais e fruto de propinas, sendo que todas estão registradas dentro das regras eleitorais. Nenhuma justifica um impeachment.
    A política e a estabilidade das instituições democráticas não devem ser pautadas pelo revanchismo eleitoral ou humores do mercado. Buscar saídas para a crise econômica mundial, que também nos atinge, é tarefa do governo eleito, e mesmo diante de críticas de alguns setores, estas não são motivo para interromper um mandato.
    Respeitadas democraticamente todas as manifestações, é preciso dizer que o clima de “terceiro” turno eleitoral, que tem o objetivo de desestabilizar o governo, na verdade tem prejudicado nossa economia e atrasado a retomada do crescimento.
    É tarefa de toda sociedade, respeitada a pluralidade de opiniões, defender as instituições e a legalidade democrática duramente conquistada após mais de 20 anos de ditadura. A política não deve ser um jogo de vale-tudo, a maioria do povo não torce pelo “quanto pior, melhor”. Vamos sim reconhecer e corrigir erros, protegendo o que já conquistamos, enfrentando a corrupção e defendendo a democracia.
    *Deputado federal (PT/RS)

  • O jornalismo que não vê e se omite

    Luiz Cláudio Cunha
    O Brasil ficou chocado com os 84 segundos de imagens em preto e branco que assistiu nos principais telejornais do país na sexta-feira, 28 de agosto. Mostravam as cenas violentas de um assalto à luz do dia numa avenida movimentada de São Bernardo do Campo, SP, quando o ladrão esmurra o vidro de um carro, arranca a motorista que o dirigia, joga a mulher no chão e arranca com o veículo.
    (Reprodução de fotos ABCD Maior)
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    O ataque: aos 15 seg, o homem começa a esmurrar a porta da motorista.
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    O recuo: aos 21 seg, o carro branco atrás dá marcha a ré para se afastar do ataque.
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    A fuga: aos 25 seg, o carro de trás manobra pela direita e foge dali.
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    A omissão: aos 59 seg surge alguém para ajudar, enquanto os carros passam sem parar.
    Foram cenas captadas às 8h da manhã do sábado anterior, 22, pelo sistema de segurança da prefeitura, num trecho da avenida José Fornari, no bairro Ferrazópolis, e divulgadas pelo jornalABCD Maior. Repetida exaustivamente, a sequência impressiona pela brutalidade, que todo mundo vê. Os telejornais viram e reprisaram. Mas, o jornalismo fracassou em sua missão básica ao não ver, ali, o que devia ter visto, registrado e denunciado.
    Vamos rever a cena captada com neutralidade pela câmera da avenida e ecoada com insensibilidade pela imprensa brasileira – acessível o YouTube.
    Um homem de menos de 30 anos aproveita o trânsito parado, circunda por trás de um Honda Fit, como se fosse cruzar a avenida, e aos 10 segundos da gravação se volta de repente em direção à porta da motorista. Com inesperada violência, começa a esmurrar o vidro. O carro tenta arrancar. O primeiro murro acontece aos 15 seg. Aos 16 seg, um segundo murro. Aos 17, o terceiro. Ele força a abertura da porta aos 18, que se abre no segundo seguinte.
    Com violência, puxa para fora a motorista, uma senhora de 64 anos, e a joga sobre o canteiro central da avenida, aos 25 segundos. Ele toma o lugar da motorista e arranca com o carro. Outra mulher, que estava no banco de passageiro, consegue sair pela porta direita, pega uma bolsa caída na avenida e vai ao encontro da amiga, caída sobre o canteiro central. Aos 59 seg, enfim, um homem cruza a avenida ao encontro das duas mulheres, para prestar algum socorro.
    Na câmera e na consciência
    A motorista de 64 anos, a psicopedagoga Rosa Maria Costa, deslocou o tornozelo e sofreu quatro fraturas na perna direita. O ladrão acabou capotando o carro na Via Anchieta e, no acidente, ainda atropelou um homem de 65 anos. Um carro parou para socorrer, o motorista desceu e o ladrão roubou o outro carro, desaparecendo. Um fato nada estranho na Grande São Paulo, onde acontece um roubo ou furto de carro a cada quatro minutos. Entre janeiro e julho, na maior região metropolitana do país, 74.129 veículos foram surrupiados por bandidos.
    O que mais espantou na cena de violência em São Bernardo, que todo mundo viu, foi a cena que a imprensa não viu, não comentou ou desprezou. Ninguém da TV, rádio ou jornal, nenhum colunista, nenhum blogueiro, nenhum militante das ubíquas redes sociais destacou o vergonhoso espetáculo coletivo de acovardamento, omissão, negligência e falta de solidariedade que marcou o entorno da agressão na avenida.
    Está tudo lá, gravado para sempre na câmera da TV e na consciência envergonhada de quem tudo viu e nada fez. Ou fez errado. Como o motorista do carro branco, provavelmente um Corolla, parado imediatamente atrás do carro atacado pelo assaltante.
    Quando o agressor desferiu seu terceiro murro na porta, aos 17 seg, o motorista do Corolla começa a dar ré no carro. Se tivesse feito o contrário, acelerando em direção ao atacante, que não estava armada, ele teria frustrado a agressão e afugentado o agressor. Em vez disso, o carro branco recua uns dois ou três metros, lentamente. No momento em que Rosa Maria é jogada na avenida, o Corolla vira à sua direita e desaparece de cena atrás de uma van parada ao lado, com um motorista, também inerte, à direção. O carro roubado, o Corolla e a van arrancam quase ao mesmo tempo, enquanto a vítima rolava na avenida.
    No canto inferior direito da tela, três homens passam pela calçada, indiferentes ao drama das duas mulheres no canteiro central. Só aos 59 seg aparece um homem de jaqueta preta, que atravessa a avenida para socorrer as duas mulheres. Durante os 84 segundos que dura a cena gravada, o que se vê e ninguém comenta é um desfile pusilânime de indiferença, de gente que não se importa, que não vê, não olha, não para e não comete nenhum gesto de solidariedade. Além da van e do Corolla que fugiram da cena do crime, outros quatro carros, dois ônibus e um caminhão passaram pelo local, no sentido do carro assaltado. Do outro lado da avenida, no sentido inverso, passaram 21 carros neste curto espaço de tempo — e ninguém parou, nem por curiosidade.
    Nesta sociedade cada vez mais integrada por redes sociais, cada mais conectada por ferramentas como Facebook, Twitter e WhatsApp, cada vez mais interligada por geringonças eletrônicas que deixam todo mundo plugado em todos a todo momento, a cena brutal de São Bernardo escancara o chocante estágio de uma civilização cada vez mais desintegrada, mais desconectada, mais desintegrada. É uma humanidade apenas virtual, falsa, narcisista, cibernética, egoísta, que se decompõe em pixels e se desfaz na tela fria da vida cada vez mais distante e desimportante.
    Ninho da omissão
    A polícia, sempre fria e técnica, recomenda não reagir em casos de assalto, para evitar danos maiores. No episódio deprimente de Rosa Maria, tratava-se não de reagir, mas de defender uma vida, de proteger um ser humano, de cessar uma agressão, de impedir um abuso, obrigação que cabe a todos e a cada um de nós. A reação de um, um apenas, motivaria o auxílio de outro, e mais outro, numa sucessão de atos reflexivos de autodefesa em grupo que explicam a evolução do homem da caverna para o abrigo solidário da civilização.
    Ninguém fez isso — na hora certa, com a firmeza necessária, com a generosidade devida, com a presteza impreterível. Esse espetáculo coletivo de insensibilidade e de crua indiferença atropelou toda a imprensa, em suas várias plataformas. Naufragaram até mesmo os programas e apresentadores que vivem da violência explícita e cotidiana de nossas cidades, grandes ou pequenas, com seu festival interminável de ‘mundo cão’.
    Os programas das grandes redes de TV, que cruzam as manhãs e tardes do País com a tediosa banalidade de sangue, morte e violência do cotidiano, se refestelaram com a caso de São Bernardo, reprisando várias vezes a cena da avenida. Como sempre, no estilo furioso e mesmerizado de todos, despontou a tropa de elite da truculência na TV, sob o comando de José Luiz Datena (Band), Marcelo Rezende (Record) e Ratinho (SBT). Aos gritos, aos berros, no jeito gritado de um e de todos, ecoaram como de hábito a visão policial e teratológica da realidade, deixando de lado a preocupação social de uma segurança pública falida e desarvorada pelas balas perdidas da incompetência dos governantes.
    Só esqueceram do entorno, da cena explícita de covardia e indiferença das pessoas que testemunham, assistem, presenciam, mas não interferem, não intervêm, não reagem. Ninguém lembrou do exemplo de São Bernardo para denunciar esta falsa sociedade compartilhada, mais preocupada em seus interesses compartimentados, que nenhuma rede social humaniza ou aproxima, a não ser virtualmente.
    Um jornalismo que não vê o que é necessário, que não percebe o contexto além do texto, descumpre a sua missão. Esconde a realidade, ao invés de revelá-la. O repórter fiel ao seu ofício deve estar atento ao murro do assaltante no vidro do carro. Mas deve prestar atenção maior ao Corolla branco e aos carros que passam por ali, indiferentes ao que se vê e ao que acontece.
    O bom jornalismo sabe que é nesse ninho da omissão que cresce a violência e prospera o fascismo.

  • Relator da OEA defende novo marco regulatório para a comunicação no Brasil

    Bia Barbosa 
    Em visita ao país, Edison Lanza avaliou que o sistema de mídia brasileiro não garante a diversidade e o pluralismo político
    Na última semana, o Relator Especial para a Liberdade de Expressão da OEA (Organização dos Estados Americanos), o uruguaio Edison Lanza, esteve no Brasil. Além de participar de dois seminários promovidos por organizações da sociedade civil – entre elas o Intervozes –, Lanza teve uma importante agenda de reuniões com o governo federal e com os movimentos sociais. O objetivo: contribuir para destravar a agenda de construção de um novo marco regulatório para as comunicações no país.
    Em suas palestras e entrevistas, assim como nas audiências com os ministros Juca Ferreira (Cultura), Edinho Silva (Secretaria de Comunicação da Presidência da República) e Ricardo Berzoini (Comunicações – foto), Lanza reafirmou a necessidade dos Estados contarem com leis, mecanismos e órgãos independentes de regulação que sejam capazes de garantir a diversidade e o pluralismo nos meios de comunicações e o exercício da liberdade de expressão pelo conjunto da população.
    “O Brasil postergou a adoção de medidas concretas. Pelas denúncias que recebemos da sociedade civil, o País tem um sistema muito concentrado, sobretudo na TV aberta. Há muitas rádios controladas por políticos e o setor comunitário permanece excluído. A legislação para as rádios comunitárias é deficitária, pois impõe limites de alcance e restringe o financiamento pela publicidade”, declarou o relator à Carta Capital. Para Lanza, a concentração da propriedade dos meios no Brasil e na região, somada à ausência de sistemas públicos de comunicação fortalecidos, “tem implicações no processo democrático, pois um dos pressupostos da democracia é o pluralismo político, a diversidade de vozes. Há uma clara necessidade de incluir mais atores”, afirmou.
    Em seminário na Universidade de Brasília, Lanza destacou que o país perdeu algumas oportunidades para democratizar o setor. Ele relatou que, desde 1985, a Corte Interamericana de Direitos Humanos entende que os oligopólios atuam contra a liberdade de expressão. E que a Declaração de Princípios sobre o tema, aprovada pela Comissão, desde o ano 2000 afirma que os Estados tem obrigação de limitar a concentração dos meios. “Se isso tivesse sido aplicado, teríamos outro quadro”, disse.
    A relatoria aproveitou para lembrar, uma vez mais, que a liberdade de expressão é condição para o exercício de outros direitos; porém, não é um direito absoluto, que pode ser limitado pelo que está previsto no direito internacional. “Ter um sistema plural de comunicação no país é uma dessas previsões, assim como a proteção de crianças e adolescentes e a incitação ao ódio. É falso entender qualquer regulação como censura. A discussão depende de como se constrói a proposição de regulação e como se considera os padrões internacionais”, explicou.
    E acrescentou: “Este é um processo que deve ser feito com participação popular. Se o Brasil construiu de maneira tão exemplar o Marco Civil da Internet, por que não consegue fazer o mesmo para atualizar o marco da radiodifusão?”, questionou Edison Lanza.
    O retorno do governo 
    A pergunta acima foi feita, em formato de sugestão, ao governo federal. Com o ministro Edinho Silva, Lanza tratou da importância do fortalecimento dos meios públicos, de seu desenho institucional – que precisa ter autonomia em relação ao governo, incluindo a forma como são escolhidos os dirigentes das emissoras públicas de comunicação – e da necessidade das verbas públicas de publicidade serem distribuídas também com base em critérios de estímulo à diversidade e à pluralidade. Edinho se comprometeu a analisar um estudo da Unesco, indicado pelo relator, sobre padrões internacionais de sustentabilidade da mídia, além da lei sobre publicidade oficial recentemente aprovada pelo Uruguai, considerada um bom modelo.
    Do ministro Berzoini, Edison Lanza soube que o governo pretende trabalhar com uma articulação dos ministérios da Cultura, Comunicações, Secretaria de Comunicação Social e Secretaria Geral da Presidência da República para construir “a opinião” da gestão Dilma sobre “a questão da comunicação”. A proposta já havia sido feita ao ministro pelo FNDC (Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação), no início do ano. Incrivelmente, o governo como um todo parece não estar convencido de que parte significativa da crise que enfrenta é porque se acovardou, nos últimos 12 anos, a alterar a estrutura do sistema midiático brasileiro…
    Berzoini é um dos poucos que tem consciência sobre isso. Para ele, uma abordagem internacional, como a da Relatoria da OEA para a Liberdade de Expressão, pode ajudar o governo a fazer o debate sobre um novo marco regulatório para o setor no Brasil. O MiniCom está organizando, para novembro, um evento internacional para ouvir especialistas e experiências de outros países sobre regulação dos meios. Edison Lanza pode voltar ao país na ocasião.
    Até lá, espera um convite do governo brasileiro para uma missão oficial ao Brasil, o que lhe permitiria viajar pelo território durante alguns dias e elaborar um informe mais global sobre a garantia – ou não – da liberdade de expressão no país. Enquanto isso não acontece, as organizações da sociedade civil e movimentos que se reuniram com o relator se comprometeram a manter a Comissão Interamericana de Direitos Humanos bem informada sobre os desafios enfrentados por aqui. E eles não são poucos.
    * Bia Barbosa é jornalista, especialista em direitos humanos e integrante da Coordenação do Intervozes.

  • A segunda cassação de Jango

    ​Por Luiz Cláudio Cunha​
    O índice de boçalidade nacional cresceu assustadoramente na quarta-feira, 19, com a surpreendente decisão do governador socialista de Brasília, Rodrigo Rollemberg, declarando nula a cessão de um terreno no Eixo Monumental para a construção do Memorial da Liberdade e Democracia, dedicado ao presidente João Goulart.
    É o último projeto desenhado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e parecia caminhar bem, até trombar numa aliança hostil formada pelos ex-governadores Joaquim Roriz e José Roberto Arruda e pelo empreiteiro Paulo Octávio Pereira.
    Rollemberg atropelou um abaixo-assinado de 45 senadores que corre pelo Senado Federal contra a ‘segunda cassação’ de João Goulart.
    A paranoia sobrevive
    O governador de Brasília espana a responsabilidade com argumentos técnicos e difusos do Ministério Público, mas existem pressões militares que ele não tem coragem de revelar e que mostram a persistência da paranoia anticomunista.
    Dias atrás, a senadora Vanessa Graziottin (PCdoB-AM) teve a prova disso pela boca da maior autoridade militar do País: o general Eduardo Dias da Costa Villas Boas, comandante do Exército.
    — Este memorial não pode ser construído ao lado do Quartel-General. Isso é uma afronta ao Exército! — bufou o general, ao visitar com a senadora o terreno no Eixo Monumental reservado para o memorial, num espaço entre a Praça do Cruzeiro e o Memorial JK.
    A seta do susto
    O terreno fica a um quilômetro de distância, em linha reta, do QG do Exército onde trabalha o comandante Villas Boas e sua assustada tropa de generais.
    No final de 2014, pouco antes de deixar o Ministério da Defesa, na transição entre o primeiro e o segundo mandato de Dilma Rousseff, o então ministro Celso Amorim explicou ao perplexo filho de Jango, João Vicente Goulart, a razão da bronca militar contra o memorial:
    — Esta seta já provocou alguns problemas. Ela está apontada para o QG e seria melhor colocar do outro lado da avenida — apontou o ministro Amorim.
    A infiltração de Niemeyer
    A seta que incomoda os generais é uma cunha vermelha, com a ostensiva inscrição do ano de 1964, encravada na cúpula branca da construção ondulada de 1.200 metros quadrados.
    A paranoia dos militares, apesar da queda da ditadura há 30 anos, vai além do Memorial João Goulart.
    No passado, eles encrencaram com outros dois projetos ‘subversivos’ de Niemeyer, um comunista assumido: a torre de controle do aeroporto internacional Juscelino Kubitschek e o pórtico do Memorial JK, ambos na capital federal.
    Para os generais, antes e agora, tudo aquilo não passa d​e uma clara alusão à foice e ao martelo, símbolos do comunismo internacional que Niemeyer implantou no horizonte de Brasília. Um horror!