Categoria: ANÁLISE&OPINIÃO

  • Borges: não gostava de futebol nem reclamava da ditadura

    Por Enio Squeff
    Apesar da satisfação por sua obra – é ela quem faz o artista respirar e justificar a própria existência – Jorge Luis Borges deve ter experimentado não poucos momentos de angústia com seu país, a Argentina.
    Sua visão política, ele mesmo dizia, limitava-se à ética individual: reclamava dos peronistas que, quando Perón assumiu como ditador, o perseguiram de todas as maneiras.
    Mas se omitiu quando do assassínio em massa de seus compatriotas por uma das piores ditaduras militares que se instalaram na América Latina nos últimos anos.
    Os genocidas argentinos diziam-se, claramente, anti-peronistas e é previsível que isso os tornasse menos criminosos para Borges: várias vidas por uma reabilitação pública, depois da execração peronista – seria isso?
    Se Borges continuou a ser admirado por muitos intelectuais, inclusive na Argentina, não se safou do juízo de seus compatriotas: o que Borges reclamava dos argentinos – de serem individualistas e omissos perante a própria comunidade – ele mesmo parece ter incorporado como um procedimento normal.
    Fugiu do presente como um nefelibata que sonha com as nuvens douradas de um passado glorioso e que criou um mundo paralelo, simplesmente genial, mas que nem por isso o livrou da acusação de ter dado as costas a seus compatriotas.
    Fosse na Alemanha pós guerra, talvez Borges não se livrasse de uma citação em Nürenberg – o que, para seus admiradores, seria também uma tragédia.
    Num de seus inúmeros diálogos com vários intelectuais, Borges disse que tinha dificuldade de partilhar da opinião de Schopenhauer, que não acreditava na história como um fim.
    Achava que, mesmo que a história não interferisse na obra de arte e vice-versa, seria inadmissível que pudesse não ter algum sentido. Sob o ponto de vista ético, por exemplo, ele defendia que ela, a história, haveria de ter uma resposta convincente.
    Foi, exatamente na ética individual, entretanto, que ele falhou. Não se posicionou, clara e inequivocamente, contra o massacre perpetrado pelos militares argentinos.
    E isso não lhe deve ter sido compensador, pelo menos ao saber que muitos, principalmente os parentes e conhecidos dos assassinados ( mais de trinta mil), passaram a abominá-lo desde então.
    Digamos, com todo o exagero possível, “uma glória feita de sangue”.
    No entanto, parecer impossível contar a história da literatura ocidental sem uma menção especial ao grande escritor argentino.
    LER E RESPIRAR
    Borges deve ter conhecido o livro “Auto-de-Fé” ( tradução do ‘gaúcho’ Herbert Caro) de Elias Canetti. É uma obra que lhe diz respeito em boa parte.
    Conta a história de um bibliófilo encerrado em sua biblioteca que se mete, involuntariamente, em confusões de todo o tipo e que, ao cabo de muitas aventuras que o aproximam de um Dom Quixote mais trágico do que satírico, deixa-se queimar com seus mais de vinte mil livros.

    Elias Canetti
    Elias Canetti

    O título português “Auto-de-Fé”, diz bem do livro. É uma fábula que, provavelmente, agradasse ao grande escritor.
    Mas vestiria a carapuça? Talvez não, alegadamente pelo diferencial de não ser um leitor passivo, como Kien, o personagem sinólogo de Elias Canetti: Borges transformou sua obsessão pelos livros numa criatividade em que cabe sempre a palavra “maravilhoso”. Criou histórias e poemas, baseado em livros. Sua ficção são ensaios sobre a ficção.
    Foi o mestre que encarnou a realidade de nosso mundo em que o ler é uma outra forma de respirar. Borges descobriu uma característica do nosso mundo, mais que de outros tempos, quem sabe.
    ARQUETIPOS DE LIVROS
    São Jerônimo, tido como o maior leitor de seu tempo, lá pelos anos 300 D.C., não imaginaria jamais em se jactar por devorar livros. Borges não fez isso evidentemente. E não foi um Kien. Talvez se pensasse uma criatura de biblioteca – uma espécie de traça ou cupim pensante e, mais que tudo, um produtor de livros a partir de livros.
    são  jeronimo 2
    Borges pensa como os livros e pelos livros, como os arquétipos de livros. E fez de sua obra uma bíblia no sentido etimológico, onde os personagens são muitas vezes os livros dos livros, mas sempre também os seus personagens.
    Mesmo seus heróis míticos – gaúchos analfabetos – são sempre referências literárias. Há um ou mais livros a espreitá-los. São sempre referenciais dentro da literatura.
    Aproximá-lo de Gustav Mahler, talvez só o desagradasse pela sua indiferença em face da história da música. Borges sempre apreciou tangos e milongas, mas confessava uma real ignorância em relação à música maiúscula – a que, afinal, tem a ver com grande cultura de que ele, Borges, foi um dos maiores protagonistas em nosso tempo.
    TRIBUTO OU CRÍTICA
    Mahler, como Borges, também se notabilizou como um criador historicista: toda a sua criação viceja em meio à produção musical de seus antecessores. Foi um compositor que se expressou em torno da própria música, da sua história. Suas referências, mesmo quando cantadas, com poemas, alguns de sua própria autoria, não são fora do estrito campo da música.
    Gustav Mahler 2
    Difícil, entretanto, que como judeu ( Borges encontrava judeus na gênese do seu nome), Mahler se alienasse das tragédias de seu tempo. E ele não se alienou: o referencial das quatro notas da quinta, em dó menor de Beethoven, que ele acrescenta à sua quinta são, é certo, uma “hommage” a Beeethoven, como diz Leonard Bernstein – mas ele as usa menos como tributo do que como crítica.
    É audível que fez da história o tema para a sua música e que, ao se referir a Beethoven, o trágico sobressai no que se sucede às quatro notas conhecidas: o drama que põe em xeque a própria música, como que esplende na impossibilidade do prosseguimento da história, já que, em Beethoven, a música é um protesto com plena ressonância na história, enquanto que, em Mahler é uma dolorosa interrogação que tende a não admitir respostas.
    Se fizesse o mesmo, Borges talvez tivesse de se endereçar compulsoriamente à trágica contemporaneidade de seu país nos últimos anos. Mas teria de reavaliar também sua própria trajetória e pensar as feridas ocasionadas pelo peronismo – para ele um período recheado de vulgaridades que o atingiram justamente por seu intelectualismo, seu onipresente respeito à cultura, à grande cultura.
    Assim, o que em Mahler é a previsão da hecatombe, inclusive o nazismo – um processo cultural que desembocaria necessariamente na rejeição da tradição em forma de progresso, em Borges se faz como um afastamento parcial do presente. Não houve nada do que ele não quis ver, mas que aconteceu.
    DOM QUIXOTE
    É tudo, na verdade, muito paradoxal. Se tivesse atentado para o historicismo que marca a cultura ocidental, sua admiração por Cervantes e especialmente por seu Dom Quixote, seria um caminho, quem sabe, que o levaria a superar as feridas da perseguição que sofreu sob o peronismo. E a sua radical rejeição à questão política, da forma que assumiu na Argentina nos últimos anos.
    Cervantes 3
    Não se pode esquecer que seu admirado Dom Quixote sofre o diabo, mas persiste em seu ideal maluco e santo, de esperar muito dos homens apesar de tudo. Borges não o fez e não o fez conscientemente, aliás. São numerosos seus argumentos em favor da valentia individual do gaúcho, estribado na sua cultura, na sua tradição.
    Fica a pergunta se não era, afinal, o mesmo povo ao qual ele não voltou seus olhos mortos; e que contemporaneamente não mereceram dele senão um profundo desprezo – justamente por sua aproximação com o peronismo. É a eles que Borges reserva sua indiferença, enquanto os trata como meras expressões da vulgaridade manobrada.
    Pode, enfim, ser apressada a conclusão de que se explicam duas de sua ojerizas. A primeira, pela música de Astor Piazzola. Borges nunca entendeu a sua música – se é que alguma vez entendeu dos tangos mais que as letras. E condenou explicitamente o futebol. Para ele era a expressão da vulgaridade do povo. Fica a outra questão, se alguma vez se inquiriu sobre qualquer coisa que, afinal, seus olhos nunca viram. E que seu intelecto genial jamais abarcaria, justamente por não constar dos livros, de seus amados livros.
     

  • Mídia: Ariano bom é Ariano morto

    Morreu Ariano Suassuna e foi uma justa comoção nacional.
    Menino órfão que venceu as cruezas do sertão, grande escritor, pensador, agitador, um gênio.
    Faltou dizer que enquanto vivo, o gênio e o espírito de Suassuna foram incômodos.
    Ele pregava contra a massificação, contra o lixo cultural que nos impingem os grandes esquemas midiáticos, questionava a globalização que avassala as identidades.
    Os meios massivos queriam sua obra de artista embebida na cultura popular, mas não queriam seu discurso de ativista defensor da diversidade e da identidade nacional.
    Tratado como passadista, tinha pouco espaço na grande mídia.
    Um caso exemplar:
    Em 2008, a Camara Riograndense do Livro escolheu Pernambuco como o Estado a ser homenageado na tradicional Feira do Livro de Porto Alegre. Suassuna era secretário de cultura do governo pernambucano, compareceu à Feira, acompanhado de 22 editores e escritores pernambucanos.
    Não mereceram a mínima atenção da mídia local.
    Na noite do dia 1 de  novembro, ele deu uma  magistral aula-espetáculo  no cais do Porto. Confessou sua admiração pelo Rio Grande do Sul,  sua dívida para com Simões Lopes Neto, contou causos, apresentou grupos de dança e música. Foi aplaudido entusiasticamente  por mais de mil pessoas.
    Cobertura mínima, para registrar o fato.
    Como retribuição, Suassuna escolheu o Rio Grande do Sul como  Estado homenageado na feira do livro do Recife, no ano seguinte.
    O governo do Estado embromou até a última hora, quando disse que não mandaria ninguém por falta de verbas. Foram três representantes da Câmara do Livro livrar a cara dos gaúchos…
    Viva Suassuna!
    (E.B.)
     
     

  • Uma imprensa que defende as empresas

    É inacreditável a cobertura que a imprensa de Porto Alegre dá aos dois temas mais importantes em discussão no Rio Grande do Sul neste momento: o aumento das tarifas do transporte coletivo na Capital e a questão dos pedágios. Nos dois casos ela tem uma posição inequívoca: a favor das empresas.
    No caso do transporte coletivo de Porto Alegre, há uma omissão reiterada, que este ano não foi diferente. Se não fosse o jornal Metro, diário gratuito, que deu em manchete o pedido de aumento de 14% das empresa de ônibus, o assunto estaria fora de discussão, pois nenhum dos diários da cidade se ocupou dele nesta quarta-feira.
    Ninguém também questionou essa coincidência de estarem os trabalhadores das empresas de transporte coletivo ameaçando greve por aumento no exato momento em que as empresa pressionam a prefeitura por um reajuste muito acima da inflação.
    No ano passado, as empresas de transporte já obtiveram um aumento de 11%, quase o dobro do índice inflacionário. E no ano anterior também.
    O impacto do transporte coletivo repercute em toda a cadeia econômica. Quando um jornal como a Zero Hora deixa de dar importância a isso, alegando que é um assunto que só interessa ao povão (mas o Diário Gaúcho, o jornal da Casa destinado ao povão, também não deu nada), coloca sua ignorância na vitrine. A tarifa do transporte público tem influência em toda a economia, nas empresas inclusive.
    O caso dos pedágios chega a ser cômico. Os contratos de concessão de 1.800 quilômetros de rodovias feitas no governo Britto a empresas privadas (na verdade, consórcios de empreiteiras constituídos com essa finalidade) já foi definido como “o caso mais negro do Rio Grande do Sul” pelo ex-ministro dos Transportes, Cloraldino Severo, um técnico, estudioso do assunto e pessoa ideologicamente insuspeita.
    A cobertura, no entanto, é toda favorável às concessionárias, mesmo quando isso exige omissão ou manipulações das informações. A esse respeito é didática a matéria publicada na ZH (18/01), na verdade um “press release” esquentado.
    Antes, é didático ler o press release distribuído pela assessoria do palácio Piratini, a respeito do assunto:
    “Em reunião com os representantes do consórcio Univias, que administra os polos de pedágios da região Metropolitana, de Lajeado e Caxias do Sul, o coordenador da Assessoria Superior do Governador, João Victor Domingues, reafirmou nesta terça-feira (17), no Palácio Piratini, a disposição do Executivo em reduzir as tarifas cobradas pela empresa. Além de diminuir o valor do pedágio, o Estado propõe a manutenção dos investimentos previstos.
    Mais do que rechaçar a continuidade do modelo atual de cobrança, João Victor afirmou que o Governo do Estado mantém a exigência de acabar com a praça de Farroupilha, adotar um modelo mais transparente e criar um conselho de usuários. “Não queremos a continuidade de um modelo que não prevê uma prestação de serviço de qualidade por parte das concessionárias”, garantiu.
    Uma consultoria deve ser contratada pelo Governo do Estado até maio para apontar um diagnóstico sobre um possível desequilíbrio nas tarifas. Em 90 dias, a consultoria apresentará os resultados dos estudos.
    Vários fatores podem ser levados em consideração para a diminuição das cobranças. João Victor explica que existe a possibilidade de testar uma cobrança regionalizada das tarifas, a partir da realidade de cada região diminuir. “A proposta que nos trouxeram é de R$ 4,40, e nós achamos que podemos reduzir para R$ 3,80, R$ 4, mas sem prejuízo do volume de investimentos sinalizados de R$ 1bilhão. Isto tudo influencia, inclusive na elaboração de um novo modelo e mesmo na forma de licitação”, acrescentou.
    Conforme João Victor, a primeira alternativa do Estado é a constituição de um novo modelo por licitação. “O ambiente de conversação ajuda, inclusive para que não tenhamos uma batalha judicial que inviabilize a alteração do modelo”, disse.
    Advogado do Univias, Ricardo Breier afirmou que a empresa vai repensar critérios técnicos e avaliar os valores cobrados pela empresa. “Os contratos preveem alguns indicativos importantes e mexer nisso agora pode também mudar o índice e aumentar os índices de desequilíbrio”, frisou.
    Agora compare a matéria de ZH ( 18/01, pg. 6):
    Política: Pedágios em Jogo.
    “Em negociação, Piratini sugere tarifa de Cr$ 3,80. Contraproposta do governo Tarso faz parte da discussão em torno da renovação dos atuais contratos”.
    “Em reunião com representantes do Consórcio Univias, no fim da tarde em Porto Alegre, o  governo Tarso Genro pediu a redução de tarifa às concessionárias. Antes de dar mais um passo à possível prorrogação dos contratos até 2014, o executivo  quer  garantir que o valor cobrado pelas empresas  em caso de renovação fique entre R$ 3,80 e R$ 4,00, no máximo.
    A retomada das negociações, iniciadas em novembro, estendeu-se por uma hora no Salão dos Banquetes do Palácio Piratini. A portas fechadas, o único representante do governo, o coordenador executivo da Assessoria Superior do governador, João Vitor Domingues sugeriu a redução nos preços e fez um segundo pedido: que as empresas também apresentem tarifas regionalizadas – por entender que nas praças de maior movimento a possibilidade de cortes é maior.
    “Acreditamos que ainda há margem de negociação. As tarifas poderiam ficar em R$ 3,80 e R$ 4,00, sem prejuízo às demais propostas apresentadas – disse Domingues.
    Em novembro, além de se comprometer a baixar as tarifas de R$ 6,70 para R$ 4,40, as concessionárias prometeram fechar a praça de Farroupilha, na Serra, e investir em obras.
    Ao final do encontro, os três representantes da Univias – o advogado Ricardo Breier, e os diretores Mário Baltar e Radamés Cassab, do grupo Equipav, acionista do consórcio, deram sinais de que o acordo é possível. “Vamos dar início a um estudo e avaliar o que pode ser feito. Nosso interesse é fazer isso o mais rápido possível”, afirmou Breier.
    Embora João Vitor tenha se preocupado em  assegurar que não existe uma definição por parte do Executivo, o avanço nas tratativas é alvo de críticas dentro do próprio PT. Ontem o deputado Raul Pont, presidente do partido no Estado, disse  ser contrário às negociações.
    A postura irritou Domingues: “O que ele sugere. Eu rompa com as empresas e entre numa disputa judicial sem fim? – questionou. Em agosto, o coordenador espera ter em mãos o diagnóstico do setor que será elaborado por uma consultoria, que ainda será contratada”.
    Uma  foto de quatro pessoas numa mesa, ocupando quase ¼ da página traz a seguinte legenda: “Representantes do Consórcio Univias ouviram a proposta feita por João Vitor, assessor de Tarso”.
    Síntese: o jornal insiste que o governo está negociando a prorrogação dos contratos, quando o governo diz claramente que o atual modelo é improrrogável.

  • Jardins sem alma

    Quem mora em cidades facilmente repara que as empresas contemporâneas que oferecem “serviços de jardinagem” se parecem cada vez mais com uma brigada paramilitar. São pessoas, em geral, com pouca habilidade em jardinagem propriamente dita, prontas para intervir em jardins, com todo o tipo de coisa que a tecnologia que favorece o menor esforço deu conta de criar, e que, ao que tudo indica, continuará criando
    Para um ano tão pesado de lutas desiguais e truculentas em busca da proteção do patrimônio natural brasileiro, a abordagem de um tema fora do contexto rural pode ajudar a recarregar as baterias para um 2012 que também reserva muitas pressões. O que ocorre no entorno de nossas casas incrustadas no meio urbano também tem sua relevância e muitos desafios.
    jardinsQuem mora em cidades facilmente repara que as empresas contemporâneas que oferecem “serviços de jardinagem” se parecem cada vez mais com uma brigada paramilitar. São pessoas, em geral, com pouca habilidade em jardinagem propriamente dita, prontas para intervir em jardins, com todo o tipo de coisa que a tecnologia que favorece o menor esforço deu conta de criar, e que, ao que tudo indica, continuará criando.
    Aparelhos, na maioria das vezes, movidos a gasolina, que cortam grama, serram troncos de árvores, podam cercas vivas e até fazem vento, contaminando o ambiente com um barulho típico da modernidade. Haja paciência para suportar tanta perturbação pública calcada na pressa e na superficialidade de um trabalho que está deixando cada vez mais a desejar.
    Pior do que a parafernália que torna este tipo de serviço uma atividade considerada especializada é que ficam totalmente para trás os preceitos mais simples de uma jardinagem equilibrada e que tenha por essência “cuidar” do jardim e não realizar uma ação que mais parece uma “lavagem rápida” com vistas a tirar a “sujeira grossa”.
    Ser um bom jardineiro não requer só conhecimento prático, mas teórico e técnico, embora quem os contrate se considere o dono da verdade, impondo orientações estapafúrdias que consolidam o mau manejo dessas áreas.
    Sem respostas…
    Saber quais são espécies invasoras que devem ser evitadas, quais as nativas regionais disponíveis para uma introdução e como estabelecer um conjunto diverso de plantas para atrair mais espécies da fauna nativa são parte de uma ampla gama de perguntas que estes profissionais deveriam saber responder de pronto.
    O maquinário de supérfluos avançou no já pouco elaborado serviço de jardins que é ofertado no mercado e corrobora com o varrer até a terra aflorar, atear fogo ou retirar toda a matéria verde, considerada lixo, para fora do terreno e obrigar o serviço público a transportá-la para “fora da cidade”.
    Sequer considerando a existência de mudas nativas que possam ter nascido a partir de algum processo de dispersão natural de sementes, usam-se pesticidas para “matar o mato” e as formigas, em conjunto com o que mais estiver por perto.
    Um jardim pode ser uma obra de arte que é construída pouco a pouco ao longo dos anos. Essas áreas são, em geral, muito simplificadas se comparadas com uma área natural bem protegida e fora do perímetro das cidades, mas não por isso são isentas de surpresas e de possibilidades. E, no caso de Curitiba, pode gerar ainda redução do IPTU e, com a criação de Reservas Naturais, possibilitar a venda do potencial construtivo das áreas a terceiros.
    Faz tempo que já concluí que jardineiro sem qualificação técnica e armado de parafernália e proprietário do século passado, que acha que folha é lixo, se merecem na sua totalidade. E deveria um pagar a conta do outro, na condição de não conseguirem ver o que realmente pode ser feito da natureza potencial de um jardim.
    Não fosse o prejuízo que esses cidadãos tão numerosos causam para toda a sociedade, ao ignorarem que suas visões são retrógradas e profundamente limitadas, que empobrecem um bem comum que poderíamos dispor em uma cidade mais civilizada, deveriam ser ignorados e abandonados à própria sorte.
    Mesmo com a relutância categórica da maioria em acatar uma lógica menos rudimentar do que o que se faz atualmente na maioria das propriedades, públicas e privadas, de nossas cidades, deveria existir um confronto das más práticas com novas leis, que punam os que degradam, mesmo sem saber o que fazem.
    Esse é o corretivo mais educativo ainda disponível no mercado, queiramos ou não. E limitem excessos que geram poluição sonora e emissões desnecessárias de gases de efeito estufa, que só trazem como resultado a perpetuação de uma condição duramente limitada pela certeza desses atores de que não existe outra forma de agir.
    *Texto em homenagem a Ademar Brasileiro, o único jardineiro de verdade que conheço.
    Clóvis Borges é diretor-executivo da ONG Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS).

  • O local e o global

    Com o teto colocado, a reforma do auditório Araújo Viana não depende mais do tempo para estar concluída no prazo – março de 2012, e ser solenemente reinaugurado na Semana de Porto Alegre. Um presente para o prefeito José Fortunati, candidato a reeleição e favorito nas pesquisas até o momento.
    Agora, o que está emperrando os trabalhos é a falta de mão de obra qualificada, o que se tornou nacional nos últimos anos, por conta de muitos fatores – o crescimento da economia, os pesados investimentos do governo federal e das obras para a Copa de 2014, em 12 capitais brasileiras.
    A construção civil é, obviamente, o setor mais aquecido e um dos poucos que ainda não viu sinal da recessão mundial. Por enquanto, a tendência é que a mão de obra continue escassa por aqui. Nada que comprometa o prazo das obras.
    O Araújo Viana, que nasceu como espaço público, está concedido a uma empresa privada, a Opus Produções, e será uma das maiores casas de espetáculos do Estado, com três mil poltronas, palco ampliado, ar condicionado e acústica de alta qualidade. A empresa vai bancar a reforma, estimada em R$ 15 milhões, e vai explorar o local por 25 anos. A prefeitura terá 25% das datas para realizar seus eventos. O calendário já está sendo feito.Sem recursos para a reforma, a prefeitura optou por transferi-lo à iniciativa privada, em 2002, na primeira gestão do prefeito José Fogaça.
    Previu-se inicialmente que em 18 meses estaria funcionando. Resistências políticas à “privatização”, questões ambientais, entraves burocráticos, problemas estruturais do prédio – uma série de fatores retardou em uma década a reforma. O atraso vai beneficiar o atual prefeito José Fortunati, candidato a reeleição em 2012, que poderá reinaugurá-lo com grande pompa e circunstância. Sem o ônus de ter que explicar a “privatização”, será uma das grandes obras de sua administração, a primeira de uma série previstas na expectativa da Copa. (E.B.)

  • O grito da democracia contra a corrupção

    A XXI Conferência Nacional de Advogados, realizada pela OAB, em Curitiba, tem por tema “Liberdade, Democracia e Meio Ambiente”. Mas a luta contra a corrupção deu o tom das discussões, que se desenvolvem desde a última segunda-feira (21) e reúne 200 palestrantes, entre eles as maiores expressões do mundo jurídico nacional.
    Oxalá a semente lançada esta semana na capital paranaense frutifique e torne-se o benfazejo clamor nacional pela moralidade política e administrativa. Que as regionais e seccionais da OAB aproveitem o empuxo da conferência nacional e também chamem seus membros e respectivas comunidades a realizarem localmente o movimento anticorrupção.
    Busquem outros parceiros na sociedade civil e, com isso, criem a massa crítica capaz de conduzir o país às mudanças de comportamento, ao cumprimento da ética e à penalização daqueles que insistirem em continuar praticando a corrupção nas suas mais variadas formas.
    É do interesse da sociedade civil mobilizar a população pela lisura e bons costumes tanto na administração pública quanto na vida comercial e pessoal. É lamentável que, em face de corrupção, corporativismo, impunidade e outros males que recheiam os arraiais políticos e administrativos, a população torne-se apática e se contente com apenas odiar os políticos.
    È preciso chamar a atenção do cidadão para a realidade de que, se apenas odiar a nada fizer, os malfeitores continuarão em suas práticas e nada mudará. A sociedade, através de suas entidades representativas e respeitáveis, como a OAB e diversas outras que não cabe aqui nominar, devem mobilizar o povo e exigir providências e punições contra todos os indivíduos que, de alguma forma, meterem a mão no cofre público. Têm de ser exemplarmente punidos autoridades e funcionários que não cumprem com suas obrigações, cobram propinas, permitem que fornecedores descumpram contratos ou fazem qualquer outro tipo de falcatrua.
    Todo recurso que sair da aplicação lícita para a ilícita faltará para os serviços de interesse do povo. Essa deve ser a tônica.
    Temos de deixar de ser o país do “jeitinho” e do corporativismo. Todas as irregularidades denunciadas ou pressentidas por funcionários e órgãos encarregados do controle têm de ser devidamente apuradas e levada aos tribunais. Nada pode ser varrido para baixo do tapete. Só dessa forma é que conseguiremos legar um país melhor para as novas e futuras gerações.
    Texto do Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)
    aspomilpm@terra.com.br

  • Imprensa: sempre lerda na hora de corrigir

    Por Luiz Cláudio Cunha
    A imprensa sempre critica, sob aplausos gerais, a lentidão da Justiça. Mas merece vaias quando posterga decisões justas que poderiam melhorar a qualidade da informação no país. Juristas e jornalistas se reuniram em outubro, em Porto Alegre, num seminário para discutir o vácuo jurídico criado pela revogação em 2009 da Lei de Imprensa, um entulho produzido em 1967 pela ditadura e removido sem deixar saudades.
    Como sempre, houve divisão quanto à recriação de uma nova lei. Os jornalistas continuam contra, enquanto os juízes defendem uma legislação específica para regular a mídia. O principal foco da discordância é o direito de resposta, que os veículos só concedem por instância final da Justiça, sempre mais tolerante com o direito do outro lado ser ouvido, sem demora.
    O próprio consultor jurídico da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Alexandre Jobim, admite: “Ainda se percebe uma falta de iniciativa dos meios de comunicação em relação ao direito de resposta”. É uma opinião relevante, já que a ANJ reúne 155 dos mais importantes jornais brasileiros, responsáveis por 90% da circulação de jornais pagos no país, que chegam a 4,3 milhões de exemplares diários.
    O jornalista e deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ) dá a receita mais simples e direta: “O melhor que pode acontecer é o jornal aceitar o pedido de resposta por livre e espontânea vontade, porque ali também há informação. O recurso à Justiça só deve ser feito em último caso”. O vice-presidente da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris), Benedito Felipe Rauen Filho, ecoa: “O direito de resposta deve ser imediato, atendido logo após ser solicitado, para que cumpra seu papel”.
    As chicanas jurídicas que retardam a resposta de quem se acha atingido pela mídia acabam desgastando os próprios veículos de comunicação, que passam ao público uma imagem de intolerância e prepotência que desconsidera a liberdade de expressão de quem também consome a informação. E, como todos sabem, a imprensa precisa dar e o leitor merece receber a informação mais precisa e verdadeira — sempre.
    Capricho sem desculpa
    O viés autoritário ainda é forte no país. Respondendo a uma pergunta do jornal Zero Hora sobre a eventual proibição prévia de publicação de matérias, o juiz Teori Zavascki, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e professor de Direito da UnB, conseguiu vacilar: “É difícil responder.
    A regra óbvia é que não deve haver proibição prévia. Mas há situações-limite em que pode ser necessário, como num caso reiterado de racismo e discriminação”. O deputado Miro Teixeira ensina: “É censura deslavada. Primeiro, se publica a matéria. Depois, se for necessário, se postula direito de resposta e indenização”.
    Apesar de tanto bom senso, a ANJ concedeu um ano de prazo para os jornais aderirem a um programa de autorregulamentação. É um capricho indesculpável. Basta copiar agora, já, o CONAR que rege a publicidade brasileira, aplicando imediatamente a regulação que protege a informação, os veículos e seus leitores.
    A imprensa não demanda tanto tempo, tanta hesitação, para corrigir seus erros.
    Uma imprensa que se respeite deve cobrar de si mesma a imediata, inadiável correção que exige dos outros.
    O distinto público só terá a agradecer.

  • Quem derrubou Orlando Silva

    O ministro Orlando Silva é ou não é ladrão? Que informações e que razões políticas levaram a presidente Dilma a demití-lo?
    Estas serão as perguntas e elas levarão a uma discussão sobre o que é secundário, o que na verdade já não tem mais importância diante do que realmente aconteceu. E o que aconteceu foi o julgamento e a condenação de um ministro sem qualquer prova! Não é a primeira vez que isso acontece, mas agora temos um caso limite.
    A presidente parece ter seguido seu saudável princípio de que ministro suspeito é ex-ministro, mas no caso de Orlando Silva há uma situação muito peculiar – o que existe contra ele é a denúncia de um ex-policial, que esteve preso exatamente por ter desviado dinheiro dos programas do Ministério do Esporte. Só isso.
    “Reportagem investigativa”
    O que deu consistência a essa denúncia foi a sua publicação, como “reportagem investigativa” pela revista Veja, e sua total aceitação e difusão pelos demais veículos de comunicação filiados à ANJ. O que se acrescentou foi supérfluo.
    Um aluno do primeiro ano do curso de jornalismo aprende que não se pode publicar uma denúncia, ainda mais de uma fonte interessada, sem primeiro checar todas as informações recebidas.
    A Veja apostou que o ex-policial João Dias tinha as provas. Deu capa, repercussão nacional. Uma semana depois, quando ele disse que não as tinha, o que aconteceu? Como naquela piada do gaúcho, a mídia “bancou o peido da moça”.
    No Jornal Nacional daquela noite, o destaque foi o senador Magalhães Neto, num discurso estudado, batendo em Orlando Silva. “O senhor envergonha a nação, a população quer ver o senhor fora do ministério!”. Na Zero Hora do dia seguinte, a manchete decretava: “STF EMPAREDA ORLANDO SILVA”.
    Quem emparedou Orlando Silva foi a mídia. Sem informações, só com o troar de seus canhões. Nunca é demais lembrar que essa mídia, que na época se chamava imprensa, foi uma engrenagem decisiva na gênese e na vitória do golpe militar de 1964. Para prestar esse serviço, distorceu fato e omitiu informações.
    O nome disso que praticaram e estão praticando agora não é jornalismo. É lacerdismo. A pergunta que fica é a seguinte: a serviço de quem eles estão agora?

  • As relações ambíguas do governo com a mídia

    Artigo do jornalista Gilberto Maringoni traz visão lúcida e bem informada sobre as relações entre a mídia e o governo.
    Enquanto seus apoiadores acusam a mídia de ser golpista, governo prestigia e destina farta publicidade aos grandes meios de comunicação. Uma única edição de Veja recebe cerca de R$ 1,5 milhão em anúncios oficiais. É preciso regular e democratizar as comunicações. Mas também é necessário deixar mais claro os interesses de cada setor nessa disputa.

    Enquanto seus apoiadores acusam a mídia de ser golpista, governo prestigia e destina farta publicidade aos grandes meios de comunicação. Uma única edição de Veja recebe cerca de R$ 1,5 milhão em anúncios oficiais. É preciso regular e democratizar as comunicações. Mas também é necessário deixar mais claro os interesses de cada setor nessa disputa.
    Nesta semana, a revista Veja fez mais uma denúncia de corrupção contra um Ministro de Estado. É difícil saber o que há de verdade ali, pois a reportagem vale-se apenas do depoimento de uma testemunha. A matéria pautou os principais veículos de comunicação, com destaque para o Jornal Nacional, da Rede Globo.
    O Ministro, por sua vez, sai atirando. Responde ao acusador no mesmo calibre. “Bandido” é a palavra que ricocheteia em todas as páginas e telas. O caso é nebuloso. A relação promíscua do Estado com ONGs e “entidades sem fins lucrativos” precisa sempre ser examinada com lupa potente. É um dos legados da privatização esperta dos anos 1990, feita através de terceirizações de serviços que deveriam ser públicos.
    Aliados do governo tentam desqualificar não apenas a denúncia, mas o veiculo que a difunde. Volta o debate de que estaríamos diante de uma imprensa golpista, que não se conforma com a mudança de rumos operada no país desde 2003, que quer inviabilizar o governo etc. etc. A grande imprensa, por sua vez viciou-se em acusar todos os que discordam de seus métodos de clamarem pela volta da censura. Há muita fumaça e pouco fogo nisso tudo, mas faz parte do show. Disputa política é assim mesmo.
    Maniqueísmo
    É preciso colocar racionalidade no debate sobre os meios de comunicação no país, para que não deslizemos para maniqueísmos estéreis. Vamos antes enunciar um pressuposto.
    A grande imprensa brasileira está concentrada em poucas mãos. Oito empresas – Globo, Bandeirantes, Record, SBT, Abril, Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Rede Brasil Sul (RBS) – produzem e distribuem a maior parte da informação consumida no Brasil. O espectro vai se abrir um pouco nos próximos anos, para que as gigantes da telefonia mundial se incorporem ao time, através da produção de conteúdos para a TV a cabo. Mas o conjunto seguirá como um dos clubes mais fechados do mundo.
    As empresas existentes há cinco décadas – Globo, Estado, Folha e Abril – apoiaram abertamente o golpe de 1964. Até hoje não explicaram à sociedade brasileira como realizam a proeza de falar em democracia tendo este feito em sua história.
    Entre todos os meios, a revista Veja se sobressai como o produto mais truculento e parcial da imprensa brasileira.
    Sobre golpismo, é bom ser claro. As classes dominantes brasileiras não se pautam pelas boas maneiras na defesa de seus interesses. Sempre que precisaram, acabaram com o regime democrático. Usaram para isso, à farta, seus meios de comunicação.
    A imprensa é golpista?
    No entanto, até agora não se sabe ao certo porque esta mídia daria um golpe nos dias que correm. O sistema financeiro colhe aqui lucros exorbitantes. A reforma agrária emperrou. Grandes empresários têm assento em postos proeminentes do Estado – caso de Jorge Gerdau Johannpeter – ou têm seus interesses mantidos intocados.
    Algumas peças não se encaixam na acusação de golpismo da mídia. Voltemos à revista Veja. Os apoiadores do governo precisam explicar porque a administração pública forra a publicação com vultosas verbas publicitárias, além de sempre prestigiarem suas iniciativas. Vamos conferir, pois está tudo na internet.
    Veja tem uma tiragem de 1.198.884 exemplares (http://www.publiabril.com.br/tabelas-gerais/revistas/circulacao-geral), auditados pelo IVC. Alega ter um total de 8.669.000 leitores. Por conta disso, os preços de seus espaços publicitários são os mais altos entre a imprensa escrita. Veicular um reclame em uma página determinada sai por R$ 330.460. Já em uma página indeterminada, a dolorosa fica por R$ 242.200 (http://www.publiabril.com.br/marcas/veja/revista/precos).
    Quem anuncia em Veja? Bancos, a indústria automobilística, gigantes da informática, monopólios do varejo e… o governo federal. Peguemos um exemplar recente para verificar isso.
    Na edição de 12 de outubro – que noticiou a morte de Steve Jobs – havia cinco inserções do governo federal. Os anúncios eram do Banco do Brasil (página dupla), do BNDES, do Ministério da Justiça, da Agência Nacional de Saúde e da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Supondo-se que as propagandas não foram destinadas a páginas determinadas, teremos, de acordo com a tabela, um total de R$ 1.525.200.
    Exato: em uma semana apenas, o governo federal destinou R$ 1,5 milhão ao semanário dos Civita, a quem seus aliados chamam de “golpista”.
    Prestígio político
    Há também o prestígio político que o governo confere ao informativo. Prova disso foi o comparecimento maciço de ministros de Estado e parlamentares governistas à festa de quarenta anos de Veja, em setembro de 2008. Nas comemorações, estiveram presentes o então vice-presidente da República, José Alencar, o ex-presidente do BC, Henrique Meirelles, o presidente do BNDES,
    Luciano Coutinho, a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, o ex-ministro do meio ambiente, Carlos Minc, o ex-ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, o ministro da Educação, Fernando Haddad e a senadora Marta Suplicy (confiram em http://veja.abril.com.br/veja_40anos/40anos.html).
    E entre julho de 2010 e julho de 2011, nada menos que seis integrantes dos altos escalões governamentais concederam entrevista às páginas amarelas da revista. São eles: Dilma Rousseff, Aldo Rebelo, Cândido Vaccarezza, Antonio Patriota, General Enzo Petri e Luciano Coutinho.
    Nenhum demonstrou o desprendimento e a sensatez do assessor especial da presidência, Marco Aurélio Garcia (então presidente interino do PT). Ao ser convidado para conceder uma entrevista a Diogo Mainardi, em novembro de 2006, deu a seguinte resposta: “Sr. Diogo Mainardi, há alguns anos – da data não me lembro – o senhor dedicou-me uma coluna com fortes críticas.
    Minha resposta não foi publicada pela Veja, mas sim, a sua resposta à minha resposta, que, aliás, foi republicada em um de seus livros. Desde então decidi não falar com a sua revista. Seu sintomático compromisso em não cortar minhas declarações não é confiável. Meu infinito apreço pela liberdade de imprensa não vai ao ponto de conceder-lhe uma entrevista”.
    RBS, Olívio e Lula
    As relações ambíguas do governo e dos partidos da chamada base aliada com a grande mídia não se restringem à Veja.
    Entraram para a história a campanha de denúncias e desgaste sistemático que os veículos da RBS moveram contra o governo de Olívio Dutra (1999-2003), do PT, no Rio Grande do Sul. Ataques sem provas, calúnias, mentiras e todo tipo de baixaria foi utilizada para inviabilizar uma gestão que buscou inverter prioridades administrativas.
    No auge dos ataques, em 2000, o jornal Zero Hora, do grupo, fez um ousado lance de marketing. Convidou Luís Inácio Lula da Silva para ser colunista regular. Até a campanha de 2002, o futuro presidente da República escreveu semanalmente no jornal, como se não tivesse relação com as ocorrências locais.
    Quando abriu mão da colaboração, Lula afirmou que o jornal prejudicava seu companheiro gaúcho (http://noticias.terra.com.br/imprime/0,85198,OI38721-EI342,00.html). O jornal ganhou muito mais que o ex-metalúrgico nessa parceria. Ficou com a imagem de um veículo plural e tolerante.
    No mesmo ano, o ex-Ministro José Dirceu foi entrevistado pelo Pasquim 21, jornal lançado pelo cartunista Ziraldo. Naqueles tempos, as empresas de mídia enfrentavam aguda crise, por terem se endividado em dólares nos anos 1990. Com a quebra do real no final da década, os débitos ficaram impagáveis. Lá pelas tantas, Dirceu afirmou que salvar a Globo seria uma “questão de segurança nacional”.
    Comemorando juntos
    As boas relações com a grande mídia se mantiveram ainda nas comemorações dos 90 anos da Folha de S. Paulo, em janeiro deste ano. Estiveram presentes à festa (http://www1.folha.uol.com.br/folha90anos/879061-politicos-e-personalidades-defendem-a-liberdade-de-imprensa.shtml) a presidente Dilma Rousseff – convidada de honra, que proferiu discurso recheado de elogios ao jornal – a senadora Marta Suplicy, colunista do mesmo, Candido Vaccarezza, líder do governo na Câmara, os ex-Ministros José Dirceu e Marcio Thomaz Bastos e o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho. A Folha também recebe farta publicidade governamental, do Banco do Brasil, da Petrobrás, da Caixa Econômica federal, entre outras.
    Nos momentos de dificuldade, dirigentes do governo procuram sempre a grande imprensa para exporem suas idéias. Foi o caso de Antonio Pallocci, em 3 de junho último. Acossado por denúncias de enriquecimento ilícito, o ex-Chefe da Casa Civil convocou o Jornal Nacional, para dar suas explicações ao público (http://www.youtube.com/watch?v=Y5m_wyahXjY).
    O mesmo Antonio Palocci – colunista da Folha de S. Paulo entre 2009 e 2010 – dividiu mesas com Roberto Civita, Reinaldo Azevedo, Demetrio Magnoli, Arnaldo Jabor, Otavio Frias Filho e outros, em palestra no afamado Instituto Millenium, em março de 2010 (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16432). A entidade congrega empresários do ramo e seus funcionários e se opõe a qualquer tipo de regulação em suas atividades.
    Os casos de proximidade do governo e seus partidos com a imprensa são extensos. Uma das balizas dessas relações é o bolo da publicidade oficial. Segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) [veja aqui], a receita publicitária oficial em 2010 foi de R$ 1.628.920.472,60. Incluem-se aí os custos de produção e veiculação de campanhas, tanto da administração direta quanto indireta. Ressalte-se aqui um ponto: é legítimo o governo federal valer-se da publicidade para se comunicar com a população. A maior parte do bolo vai para os grandes grupos do setor.
    No caso das compras de livros didáticos feitos pelo MEC, para as escolas públicas, o grande beneficiário é o Grupo Abril, que edita Veja (http://www.horadopovo.com.br/2010/dezembro/2921-08-12-2010/P4/pag4a.htm).
    Reclamação e democratização
    Apesar do PT, partido do governo, ter feito uma moção sobre a democratização das comunicações em seu último Congresso e do ex-ministro José Dirceu ter sido injustamente atacado recentemente pela Veja, é difícil saber exatamente que tipo de relação governo e partidos aliados desejam manter com os meios de comunicação. De um lado, como se vê, acusam a mídia de ser golpista. De outro, lhe dão todo o apoio.
    Pode ser que tenham medo da imprensa. Mas o que não se pode é ter um duplo comportamento no caso. Diante da opinião pública falam uma coisa, enquanto agem de forma distinta na prática.
    O ex-presidente Lula reclamou muito da imprensa em seu último ano de mandato. No entanto, “Não houve qualquer alteração fundamental no quadro de concentração da propriedade da mídia no Brasil entre 2003 e 2010”. Essa constatação é feita pelo professor Venício Lima em brilhante artigo, publicado no final de 2010 (http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4902).
    As resoluções da Conferência Nacional de Comunicação, realizada em 2009, mofam em algum escaninho do Ministério das Comunicações. O Plano Nacional de Banda Larga, que deveria fazer frente ao monopólio das operadoras privadas, acabou incorporando todas as demandas empresariais. O projeto de regulação da mídia elaborado pelo ex-ministro Franklin Martins desapareceu da agenda.
    Como se pode ver, o governo e seus partidos de sustentação convivem muito bem com a mídia como ela é. Têm muita proximidade e pontos de contato, apesar de existirem vozes isoladas dentro deles, que não compactuam com a visão majoritária.
    Nenhum dos lados tem moral para reclamar do outro…

  • O novo Baltimore – Um caso exemplar

    A mudança no projeto para o terreno do antigo cinema Baltimore, na avenida Osvaldo Aranha, é um caso exemplar. Mostra como os bairros se transformam sem que os moradores sequer percebam.
    O prédio do Baltimore era, originalmente, um centro cultural – com espaço para bailes e festas judaícas, além das salas de cinema, no térreo. Entrou em decadência, resumiu-se às salas de cinema no térreo, acabou interditado. Foi demolido em 2003 sob protesto de urbanista do porte da professora Célia Ferraz.
    O primeiro projeto para o terreno, da Telhagua Arquitetura e Construções, levava  em  conta a história  e a cultura do local. O autor, arquiteto José Antônio Jacovas, partia dessa identidade original e tinha o propósito de revitalizar aquela área do bairro,  já em degradação.
    Concebeu um prédio residencial, com 108 apartamentos de um dormitório – voltados para o público jovem e solteiro – e um centro comercial com 22 lojas, praça de alimentação, três salas de cinema e três andares de estacionamento subterrâneo. Essa preocupação com a “identidade cultural” do bairro era de certa forma uma resposta às críticas dos que defendiam a preservação do prédio histórico.
    Mas o projeto da Telhagua não foi adiante. Primeiro pela burocracia, depois por uma pendência judicial. Ao demolir o prédio foi atingida a estrutura de um casarão ao lado, onde funcionava o Bar João, e a obra foi interditada. Não se falou mais no assunto.
    Surge, então, a Melnick Even, construtora paulista, com um projeto de características bem diferentes para o local.  Agora aponta numa outra direção: aposta na expansão comercial  e na transformação do bairro numa extensão do Centro.
    Não se pode dizer que foi uma opção errada, se a lógica é a dos negócios. Mas será que são opções inconciliáveis? Um grande prédio comercial não pode contemplar uma grande área de cultura e lazer?
    (Elmar Bones)