A decisão mais corajosa de Fábio Koff, como dirigente do Grêmio, foi praticamente ignorada nos longos e merecidos panegíricos que os jornais lhe dedicaram nesta quinta-feira 10 de maio, quando ocorreu sua morte.
Refiro-me à denúncia do escabroso contrato firmado com a OAS para a construção da Arena do Grêmio, assunto ainda hoje envolto em brumas. O fato espelha o espírito público e a firmeza de caráter de Fábio Koff.
Mereceu cinco linhas no Gaúchazh:
“(…)Uma semana antes de assumir, Koff havia polemizado ao afirmar em entrevista a Zero Hora que a Arena não era do Grêmio. Durante os dois anos de seu mandato, o ex-dirigente ocupou-se em renegociar o contrato com a OAS, em bases que não comprometessem tanto as finanças do clube. Morreu sem conseguir concluir a missão (…).
Duas no Correio do Povo:
Fora do ambiente político do Grêmio por alguns anos, Fábio Koff retornou para vencer uma pesada eleição contra Paulo Odone em 2012 e assumiu no biênio 2013/2014. (…)
Categoria: ANÁLISE&OPINIÃO
Fábio Koff
A cinco meses das urnas
Geraldo Hasse
Em vez de esperar um enganoso salvador da pátria o povo precisa construir partidos confiáveis.
Os petistas dizem que eleição sem Lula é fraude, mas mantê-lo como candidato configura uma espécie de blefe. A esta altura do jogo, parece não haver chance de que ele seja libertado antes da eleição do novo presidente, dentro de cinco meses.
Sobram os outros candidatos. Algum deles – Alckmin? Barbosa? Bolsonaro? Ciro? Maia? Marina? – tem cara de que pode corresponder às aspirações da maioria da população?
Não precisa ser o salvador da pátria nem o redentor dos pobres. Bastaria que fosse uma síntese do que de melhor fizeram Getúlio e Lula nos seus respectivos mandatos.
Quem parece mais próximo desse perfil é Ciro Gomes, candidato pelo PDT, o partido de Brizola. Se estivesse vivo, Tio Briza abençoaria o boquirroto do Ceará?
Temos muitas dúvidas e poucas certezas. Uma delas é que a saída para tamanho impasse não virá de agentes do Executivo, do Legislativo ou do Judiciário.
Os três famosos poderes da República hospedam um funcionalismo que se acredita depositário de direitos supremos. Tragédia.
Talvez apenas os agentes das bases, nos postos de saúde e repartições de ensino do interior, possam ser isentados da pecha de parasitas da nação. São 4,8 milhões de funcionários públicos federais, estaduais e municipais.
Quanto mais altos os cargos, maiores os salários e as mordomias, espelhando dentro da burocracia estatal a desigualdade existente na sociedade em geral. Dupla tragédia.
Mesmo assim, é preciso acreditar que as distorções do poder econômico e político possam ser corrigidas. Pobre esperança. No Supremo Tribunal Federal, os ministros ficam fazendo média uns com os outros, aparentemente perturbados pelas luzes das câmeras de televisão e temerosos de tomar decisões que só a eles compete tomar.
Parecem contemporizadores de ofício.Há quem acredite que eles julgarão melhor sem TV.
Mais corajosos parecem ser os militares, a quem compete garantir a ordem interna e manter as fronteiras livres, mas esses servidores públicos, que se caracterizam pela disciplina, também têm medo de avançar além de pronunciamentos verbais ou por escrito – ações só dentro dos regulamentos, ainda bem e benza-os Deus.
O candidato Bolsonaro, felizmente, só representa a parcela mais desvairada desse segmento do serviço público.
Então volta a pergunta: quem vai colocar o(s) guizo(s) no rabo do(s) gato(s)?
Evidentemente, com Lula fora do baralho, o próprio povo terá de buscar uma saída para o impasse vigente. Que a Globo se sujeite, não há solução fora da democracia.
Em 7 de outubro, temos a obrigação de eleger deputados decentes, senadores dignos, governadores corretos e uma chapa presidencial confiável.
CONSOLO DE CRISTÃO
Apenas uma parcela da riqueza acumulada nas mãos das elites é suficiente para redimir a pobreza espalhada pelos bolsões onde proliferam as doenças, a fome e a raiva.
Imprensa livre, sempre
Vilson Antonio Romero (*)
Lamentável que tenhamos que prantear mais vítimas neste 3 de maio, Dia Internacional da Liberdade de Imprensa.
Apesar de a data celebrar o direito de todos os profissionais da mídia de investigar e publicar informações de forma livre e isenta, os cenários nacional e internacional seguem extremamente preocupantes.
A edição deste ano do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, da ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), deixa evidente que há um recrudescimento do ódio ao jornalismo e aos jornalistas, num atentado claro à democracia e à Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Declaração esta que reza, em seu artigo XIX, que: “Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”.
Os recentes atentados do final de abril no Afeganistão são a demonstração mais terrível do quão penosa e mortífera é a atividade dos profissionais da comunicação.
Dez jornalistas e fotógrafos foram assassinados em ataques coletivos e individuais, num único dia na capital Cabul e em localidades afegãs.
Mesmo assim, não podemos nem devemos esmorecer.
Temos que seguir na luta constante em defesa do bem informar, tentando cada vez mais aproximar o Brasil e o mundo daquilo que representam hoje Noruega, Suécia e Holanda que ponteiam a classificação mundial da liberdade do trabalho da imprensa, como países modelares do bem informar e da atuação livre dos jornalistas.
Entre 180 países analisados estamos muito longe da metade do caminho. O Brasil avançou em 2018 uma posição, passando para 102ª. posição, sendo enquadrado como um país com “ambiente de trabalho cada vez mais instável”.
A RSF realça que “a ausência de um mecanismo nacional de proteção para os repórteres em perigo e o clima de impunidade – alimentado por uma corrupção onipresente – tornam a tarefa dos jornalistas ainda mais difícil no Brasil.
Em um contexto de forte instabilidade política, ilustrado pela destituição de uma presidente em 2016 e pela incerteza que envolve a corrida presidencial de 2018, a liberdade de informação está longe de ser uma prioridade para os poderes públicos”.
A organização se vale também do levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) que registrou 99 casos de violência contra profissionais da comunicação em 2017.
Ainda há muito a ser feito, mas a sociedade deve permanecer atenta, com os poderes constituídos e organizações sociais articuladas e vigilantes, pois o que está em jogo é o seu direito de ser bem informada sobre o que ocorre no país e no mundo. Imprensa livre sempre!
(*) Jornalista, diretor de Direitos Sociais da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) – imprensalivre@ari.org.br
Tchernóbil
O acidente nuclear que matou um milhão de pessoas reduziu a longevidade dos bielorrussos
No dia 26 de abril de 1986, uma explosão seguida de incêndio derreteu o coração da usina nuclear de Tchernóbil, situada no norte da Ucrânia, perto da Bielorrússia, dois países naquele tempo integrantes da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Foi um acidente causado por erros humanos numa instalação construída às pressas em plena guerra fria entre URSS-EUA, as potências mundiais que se ameaçavam mutuamente de destruição com bombas atômicas.
Entre o dever de socorrer a população regional e a necessidade de salvar a própria imagem, o governo Gorbatchov, mentor da perestroika (abertura), gerou um sentimento de ambiguidade que ajudou a acelerar o colapso da URSS, consumado em 1989 com a queda do Muro de Berlim.
A ordem inicial foi de enviar soldados e técnicos com a missão de evacuar a população ameaçada pela radiação (estrôncio, césio e outros minerais radiativos), que se propagou para outros países da Europa, provocando terror em milhões de pessoas (a Alemanha desativou suas usinas nucleares e passou a investir em energia eólica e solar).
Em cidades e vilas da Ucrânia e da Bielorrússia milhares de famílias foram obrigadas a deixar suas casas e seus pertences, sendo alojadas em acampamentos distantes, como refugiados de uma guerra louca. Algumas pessoas voltavam clandestinamente às suas origens para buscar algum objeto mas muitos, principalmente agricultores, continuaram a tocar sua vida em cantos remotos do território contaminado e ali ficaram correndo risco de morte por leucemia e outras doenças.
Morreu muita gente, muitos ficaram inválidos e o que de mais sólido se tem hoje em dia é “Vozes de Tchernóbil”, livro de 384 páginas com depoimentos organizados pela jornalista ucraniana Svetlana Aleksiévitch, que por esse trabalho ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2015.
O livro recupera de forma pungente o impacto causado pelo acidente nuclear. Apresenta uma centena de depoimentos em que cada pessoa conta como se sentiu e se comportou diante da explosão. Há casos singelos de donas de casa que não compreenderam a profundidade da tragédia e, também, depoimentos indignados de cientistas acusando o governo de imperícia e muitas pessoas de inconsciência e irresponsabilidade.
O povo russo se orgulha de viver vitoriosamente diante de adversidades como o inverno gelado e as guerras, mas o desastre de Tchernóbil minou a autoestima da maioria dos russos.
A população não sabia de nada e recebeu a notícia primeiro com incredulidade, depois com raiva, perdendo enfim a confiança nas autoridades, que se acusavam mutuamente. O acidente arruinou o sentimento comunitário e estimulou o ressurgimento do individualismo, abrindo espaço para a implantação do liberalismo em sua versão mais ferrenhamente egoista.
Um dos destaques do livro é o depoimento de Viktor Latun, torneiro mecânico que foi para Tchernóbil como soldado e, usando a máquina fotográfica para registrar o que via com espanto, acabou se tornando uma testemunha fundamental da história.
“Por que me tornei fotógrafo? Porque me faltavam palavras”, ele explicou, com simplicidade. Mesmo assim, o depoimento verbal de Latun é espantoso. Um trecho da página 296:
“Temíamos a bomba, o cogumelo atômico, e olhe o que se passou. Hiroshima foi algo pavoroso, mas compreensível. Já isso…Sabemos como uma casa se incendeia por causa de um fósforo ou de um projétil, mas isso não se parecia com nada. Chegavam rumores de que era um fogo extraterrestre, que nem era fogo, mas uma luz. Uma reverberação. Uma aurora. Não de um azul qualquer, mas de um azulado celestial. E que a fumaça não era fumaça. Os cientistas, que antes ocupavam o trono dos deuses, agora haviam se convertido em anjos caídos. Em demônios. E a natureza humana seguia sendo tal qual no passado, um mistério para eles. (…) A casa camponesa bielorrussa! Para nós, da cidade, não é mais do que uma casa, uma construção para se viver. Mas para eles era todo o seu mundo. O seu cosmos. Você atravessa as aldeias vazias e te dá um desejo tão grande de ver um ser humano… Vimos uma igreja arruinada, entramos nela. Aroma de cera. Dava vontade de rezar. Eu queria recordar tudo isso e me pus a fotografar. Essa é a minha história.”
LEMBRETE DE OCASIÃO
“A Secretaria de Turismo de Kiev oferece viagens turísticas a Tchernóbil. Foi elaborado um itinerário que tem início na cidade morta de Prípiat. Lá os turistas podem observar os altos prédios abandonados… Da cidade de Prípiat, a expedição prossegue até as aldeias mortas, onde lobos e javalis selvagens, que se reproduziram aos milhares, correm soltos entre as casas… O ponto alto da viagem é a visita ao Abrigo, nomeado mais apropriadamente de sarcófago. Construído às pressas sobre os escombros do quarto bloco energético explodido, o sarcófago está há tempos juncado de fendas através das quais ‘supura’ o seu conteúdo mortal, os restos do combustível nuclear…“
Extraído de jornais bielorussos de 2005 e publicado como posfácio do livro Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch (Cia das Letras, 2015)Há 54 anos… A mais longeva ditadura de nossa história
O clima de hoje lembra o vivido nas vésperas do golpe de 1964, que dividiu o país e abriu espaço para a violência. Antes da ruptura, a conflagração
Completaram-se, no último 1º de abril, 54 anos da implantação da mais longeva ditadura de nossa história, com todo o seu acervo de tragédias sociais e individuais, e profundo atraso político. Suas consequências ainda se fazem sentir, pois estão na raiz dos dramas de nossos dias, cujo desfecho não podemos divisar: em alguns momentos a ‘luz no fim do túnel’ nos enche de esperanças; noutros sugere um trem na contramão.
Lamentavelmente, os regimes autoritários e as ditaduras não são fenômenos estranhos à República, marcada por insurreições militares e golpes de Estado, manifestações exacerbadas de um autoritarismo larvar cujas fontes remontam à Colônia e ao escravismo de séculos, construtor da ideologia da casa-grande, profundamente presente em nossa vida política e em nossa vida social, e mesmo nas relações interpessoais.
A própria República é obra de um golpe de Estado construído na caserna, e sua consolidação fez-se dependente de outro golpe, sustentado pela espada de Floriano Peixoto. Assim se firmou a República oligárquico-agrária, sem povo e sem eleitores, que sobreviveria até a ‘revolução de 1930’. Antes, porém, viveria o país a insurreição de 1922 (Levante do Forte de Copacabana), e os dois 5 de julho que desembocariam na Coluna Prestes (1924).
E, na sequência de 1930, o levante paulista de 1932, o levante comunista de 1935, a implantação da ditadura do ‘Estado Novo’, o putsch integralista de 1938 e, fechando o ciclo, o golpe que detonou a ditadura e levou Vargas para seu exílio na estância Santos Reis em 1945.
É a história do ‘tenentismo’ que se estende até o regime de 1964, quando seus líderes já eram generais, almirantes e brigadeiros. No seu currículo constam ainda a deposição e suicídio de Vargas em 1954, o golpe e contragolpe de 1955, a crise de 1961 e a implantação casuística do Parlamentarismo, de vida breve. A história da República tem sido a história da preeminência dos militares sobre a política e a vida institucional.
O clima de hoje muito lembra aqueles vividos nas vésperas do golpe de 1964, dividindo o país e abrindo espaço para a violência. É sempre assim. Antes da ruptura propriamente dita, a conflagração. Os conflitos exacerbados em 1963 foram a preparação ideológica da ditadura militar.
Os anos difíceis que se instalam com as jornadas de 2013, de que se apropriou a direita com seu aparato midiático, abrem as rotas que levariam ao golpe de 2016 e à instauração do regime de exceção jurídica que não sabemos se será declarado perempto com as eleições de 2018. O precedente histórico não é animador.
Esse viés autoritário, cultivado pela casa-grande desde a Colônia, é servido à população pelos aparelhos ideológicos do Estado a serviço dos interesses de nossas elites perversas. Nesta faina destaca-se o papel dos meios de comunicação de massa, a quem se pode tributar, hoje, a maior responsabilidade pelo clima de violência que pervade a política.
Em 1964 os militares e seus associados – na política e no ‘mercado’– encerraram o ciclo da Constituição democrática de 1946, enquanto a consolidação do impeachment de 2016 declarou perempto o ciclo iniciado com a ‘Constituição cidadã’ de Ulisses Guimarães, que culminara com a ascensão e queda do lulismo.
Talvez sejam os dias correntes a boa oportunidade para tentarmos antecipar o que podem ser os tempos vindouros. As lições colhidas dos fatos que não se repetem podem orientar estratégias e corrigir táticas, principalmente quando o distanciamento histórico favorece a análise fria.
Naqueles anos hoje distantes, os anos do pré-golpe e do golpe de 1º de abril, poucos viram para além da superfície, e assim muitos ignoraram a conspiração que se desenvolvia nos subterrâneos da caserna em interlocução com a ordem econômica, o Congresso e os meios de comunicação, para logo estampar-se à luz do dia.
De outra parte, uma vez mais, a continuidade e segurança do governo popular se havia deslocado das ruas para os acordos políticos de cúpula. O povo continuava percebido como elemento tático numa estratégia que se resolveria fora das ruas.
Não obstante os elementos fornecidos pela realidade palpável, não eram poucos, então, os que transferiam da mobilização popular para o ‘dispositivo militar do general Assis Brasil’, chefe da Casa Militar de Jango, a defesa do governo, das ‘reformas de base’ e da ascensão das massas.
Nesta linha pontificava o antigo capitão Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro.
No dia 17 de março de 1964, para uma plateia que lotava o auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), o antigo Cavaleiro da Esperança, após dissertar sobre ‘a formação popular do Exército brasileiro’, anunciou, com o respaldo de sua biografia, a impossibilidade de um golpe militar no Brasil. E quando este se efetivou, muitos o viram como ‘apenas mais uma quartelada’, como as outras que haviam pontuado a República de 46. Passaria logo.
A história que se segue é conhecida.
Do golpe de 1964 muito se pode afirmar, menos a surpresa, defendido que foi abertamente pela grande imprensa, preparando sua recepção e animando as manifestações dos adversários do governo e de suas teses.
O pretenso combate à corrupção de 2013-2016 era, em 1963-1964, a denúncia de suposta corrupção e de infiltração comunista no governo João Goulart, dando conta das conspirações de toda ordem, militares e civis igualmente conjurados, e, hoje documentalmente comprovada, a arquitetura do Departamento de Estado dos EUA, para quem Goulart, se não era comunista, estava a serviço do comunismo, o que dava no mesmo, segundo Washington. Vivíamos o auge da Guerra Fria e poucos meses nos separavam da crise dos mísseis estocados em Cuba pela União Soviética, incidente que por muito pouco não nos levou ao suicídio nuclear.
A conspiração, aliás, já se iniciara e era visível desde a posse de Goulart, como em suas memórias registra sem peias o Marechal Denis, líder da trinca militar que em agosto de 1961 tentara impedir a posse do vice-presidente constitucional, chamado ao posto pela renúncia do presidente Jânio Quadros.
Hoje também já se sabe que a articulação que culminou com a deposição de Dilma Rousseff já era maquinada nos idos de 2013, a onda preparadora do levante de 2015, com sua inédita carga de violência, deixando para trás os piores momentos de 1963.
Nas duas oportunidades os golpes foram precedidos de grandes mobilizações populares e, ainda em ambos, o leitmotiv unificador da conspiração era, fundamentalmente, a resistência da casa-grande à ascensão político-econômica das grandes massas, naquela altura representada pelo varguismo, em nossos dias pelo lulismo.
Os golpes de 1964 e de 2016 guardam parentesco que precisa ser posto de manifesto. Ambos foram precedidos de mobilizações populares carregadas de atos de violência que expunham a genealogia fascista. Em 1964 importava aos seus verdadeiros formuladores algo muito além da mera deposição de Jango e esse seu caráter profundo só ficou claro aos analistas em 1965, com o Ato Institucional n. 2, baixado pelo presidente que havia jurado a Constituição e prometido defender a democracia.
O significado de 2013 não foi compreendido em seu primeiro momento, e os sismógrafos dos especialistas não perceberam o real significado do impeachment, aquele que se revelaria pelo governo que a ele se segue..
O difícil não está na identificação dos fatos expostos e vividos, mas na arte ou ciência da prospecção social, aquela que revela a realidade ainda em gestação, ou seja, a serpente ainda no ovo.
Em 1964 muitos não lograram antever o significado e os objetivos da ditadura, nem seu largo e profundo mando de 21 anos. Carlos Lacerda, sua principal voz civil, e Juscelino Kubitschek, que votaria no marechal Castello Branco, primeiro ditador, apostaram, olhando para trás, na transitoriedade do novo regime, e logo engrossariam a lista de suas vítimas.
Se não nos foi possível antever a gestação da irrupção popular de 2013, também faltou clareza à esquerda quanto a deposição da presidente Dilma Rousseff, apenas o passo necessário para defenestrar o lulismo, a grande operação de nossos dias.
O ovo da serpente, este é o título da obra-prima de Ingmar Bergman. Quem já assistiu, assista de novo. Quem ainda não o viu, corra para ver. Está no YouTube.
Roberto Amaral
______________Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia
Faísca atrasada e oportunismo
GERALDO HASSE
Faz dois anos que o governo Temer mudou a direção da Petrobras e uma das primeiras medidas do novo presidente Pedro Parente foi cancelar encomendas de plataformas navais a estaleiros nativos como o de Rio Grande.
Nenhuma voz se ergueu contra a medida absurda que, sob o argumento falacioso de que é mais barato comprar as plataformas no exterior, joga no lixo uma década de investimentos públicos pesados e um projeto que representava a redenção de uma região empobrecida.
Nenhuma voz se ergueu no governo e as poucas vozes da oposição que tentaram reagir foram silenciadas. Não renderam sequer nota em jornal.
Agora que a “Noiva do Mar” está à míngua, com 24 mil demitidos e a Ecovix devendo R$ 7,5 bi, o governo Sartori resolve “lutar pela reabertura do polo naval”.
Tudo porque a RBS, que à época também calou sobre o desmonte anunciado por Pedro Parente, decidiu agora fazer uma campanha de “jornalismo construtivo” e discutir saídas para a dramática situação de Rio Grande.
Então, o governador, que pela omissão apoiou o desmonte do polo naval, aproveita o barulho midiático e pega uma carona, de olho na reeleição.
Eis aí a mais explícita confissão de incompetência, faísca atrasada e oportunismo eleitoral.
Primeiro poder
Chegamos a um ponto em que grupos de mídia detentores de concessões públicas de canais de rádio e televisão, operando em rede, com veículos impressos e digitais adquiriram o poder maior sobre o país.
De um lado, monopolizam as verbas, baseados no alcance que as concessões de rádio e tevê lhes garantem. Ampliam seu alcance e eliminam concorrentes.
De outro, se arvoram reformadores sociais. Investigam, julgam, condenam e, quando necessário, constrangem juízes, policiais, deputados, senadores, governadores, que ousam discordar de seus julgamentos apressados e moralistas.
No Brasil tudo está em crise: a política, a polícia, a justiça, a economia, as empreiteiras, tudo isso está nas manchetes.
Mas a crise da mídia, que talvez seja a maior de todas, não está na pauta daqueles grupos que têm os meios para chegar à grande massa dos brasileiros. Não rende um rodapé.
Como pode uma mídia ter receita para a crise de todos, se não consegue olhar para a sua própria crise, que talvez seja a primeira de todas?
Uma mídia que há três anos se alimenta de vazamentos ilegais, tem a dizer o quê sobre corrupção?
Será descabido pensar que o “primeiro problema” da nação está exatamente nesse “primeiro poder” de pés de barro?
É enredo que vem de longe, Brizola denunciou e, na campanha de 1989, num arroubo prometeu cassar a concessão da Globo. Foi derrotado na eleição.
Lula, quando eleito, fez que não viu o problema e achou, talvez, que poderia cooptar os barões da mídia para um governo popular.
Engavetou todos os projetos para estimular a diversidade na mídia, conformou-se aos cinco ou seis grupos dominantes… Hoje eles são os seus algozes, êmulos de seus algozes.
Retaliar, hostilizando os jornalistas da Globo, por exemplo, como sugerem algumas lideranças populares, é um equívoco.
A imprensa só vai mudar quando aparecer uma outra imprensa chamando seus leitores para uma outra pauta…
Enquanto as alternativas se limitarem a manter um “fogo de barragem” ao bombardeio diário da grande mídia, a situação não se altera no ritmo que a democracia precisa.
Sangria
De tempos em tempos o subgoverno tampão do vice-presidente Michel Temer libera alguns bilhões de reais à população trabalhadora – foi assim com o FGTS de contas inativas e com parcelas do PIS – mas o que ele dá com uma mão, tira com a outra em muito maior volume.
É uma prática criminosa deliberadamente cínica porque vem acompanhada de argumentos mentirosos.
Agora, por exemplo, no afã de reativar a indústria de construção civil, a Caixa Econômica Federal foi autorizada a baixar as taxas de juros e a aumentou para 70% o índice de financiamento de imóveis para as famílias que ganham até três salários mínimos.
Tal medida foi apresentada dias atrás como uma dádiva extraordinária, mas na realidade é um embuste que o governo apronta em cima das baixas taxas de inflação.
Se há dois anos, com a inflação a 7% ao ano, a CEF emprestava a 11%, agora que a inflação está abaixo de 3% ela poderia emprestar a 7% e manteria seus ganhos (e até os ampliaria porque emprestaria maiores volumes).
No entanto, o que faz a CEF, o “banco social” da república? Baixa a sua taxa para “apenas” 9,5%, anunciando-a como um benefício.
Ora, o que aconteceu é que a diferença entre a taxa de juros e a inflação, que era de 4 pontos, subiu para 6,50 pontos. Ou, seja, a Caixa vai ganhar mais do que já vem ganhando. No exercício de 2017, segundo o balanço publicado dias atrás, ela registrou um lucro de R$ 12 bilhões.
Jogada semelhante foi praticada com o salário mínimo, reajustado no limite da inflação passada, sem repor as perdas cumulativas do poder aquisitivo dos trabalhadores que têm nesse valor uma referência de remuneração.
A pergunta que fica no ar é: como o governo quer que a economia cresça se a população perdeu poder aquisitivo? A massa salarial caiu, a capacidade de consumo minguou até nas classes médias.
Quanto a isso, é preciso compreender que a medida governamental mais perversa — aprovada pelo Congresso, que se preocupou prioritariamente em atender aos anseios dos empresários, ignorando os interesses dos trabalhadores –, foi a reforma da legislação trabalhista, que retirou direitos e garantias dos empregados, minando profundamente os fundos de desemprego (FGTS) e da Previdência (INSS).
Tudo isso está comprovado pelo relatório divulgado na sexta (20) pelo Ministério do Trabalho, que “comemorou” os resultados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do país. Segundo esses dados, em março passado o mercado formal de trabalho registrou 1340 mil admissões e 1284 mil demissões, do que resultou um saldo positivo de 56 mil postos de trabalho.
Pelos números, parece que vai tudo bem no mercado. Na realidade, parte desse saldo positivo vem de contratações sob regime de trabalho intermitente ou parcial, de menor remuneração e proteção.
Além disso, o salário de quem é contratado continua sendo menor do que a remuneração daqueles que são dispensados, uma prática que se tornou sistemática.
A remuneração média dos que foram demitidos em março era de R$ 1.650,88, enquanto o ganho médio dos contratados foi de R$ 1.496,58 – diferença, para menos, de 9,3%.
A “modernização da legislação trabalhista” prevê ainda desligamentos de pessoal mediante acordo, em que o empregado abre mão de parte de seus direitos. No mês passado, foram realizados 13.522 desses acordos em 9.775 estabelecimentos.
Enquanto isso, permanece intocado o fluxo de recursos para o pagamento de juros e amortização da dívida pública, que absorve 51% do Orçamento da república.
Num balanço sumário, se pode dizer que o governo trabalha para dar aos bancos o que vem tirando dos trabalhadores, aos quais oferece em compensação um saque no FGTS aqui ou um empréstimo habitacional ali – como o cafezinho ou o copo d’água que os laboratórios de análises clínicas ofertam após coletar o sangue dos pacientes que precisam se apresentar ali em jejum, depois de levantar cedinho.
A nefasta sangria financeira praticada pelo governo acaba aparecendo nos índices de desemprego, que se mantém na faixa de 13%; reflete-se no aumento do número dos caídos abaixo da linha da pobreza (1,4 milhões de pessoas em dois anos); e se reflete na estagnação da economia, que não reage aos “estímulos” da equipe econômica do governo.
Paul Singer e o PT
GERALDO HASSE
Com a morte do professor de economia Paul Singer (1932-2018), apaga-se mais uma das pontas da estrela do PT, o partido que ele ajudou a fundar em 1980, ao lado de outros intelectuais da USP.
Singer foi uma das grandes cabeças que se mantiveram fieis ao partido criado no vácuo político dos 21 anos de ditadura militar.
Ele se preocupou principalmente com o mundo dos trabalhadores e ajudou a plantar no governo brasileiro a ideia da economia solidária, na qual as mulheres têm um grande protagonismo.
Relembrando, a primeira grande baixa foi a do sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995). Também ficou pelo caminho o pedagogo Paulo Freire (1921-1997).
E houve os que se retiraram por dissentir da direção partidária. Da USP os mais notórios dissidentes foram o cientista político Francisco Weffort (1937) e o economista Chico de Oliveira (1934).
Se as mortes são inevitáveis e as dissidências lamentadas, cabe recordar que continuam ativas diversas boas cabeças no PT. Uma delas, em São Paulo, é a do jornalista André Singer, filho de Paul Singer.
Sobre Tiões e Marielles na Presidência da República
MARÍLIA VERÍSSIMO VERONESE
Na quarta-feira que antecedeu o feriado de Páscoa, recebi por e-mail uma mensagem do reitor da universidade onde trabalho, padre jesuíta, enviada para toda a comunidade universitária. Ela me aqueceu o coração, me empoderou de um modo muito especial, tanto que a partir dela decidi promover uma versão do evento “Luzes para Marielle e Anderson”[1], no campus da Unisinos, onde eu estaria na segunda-feira, dia 2 de abril de 2018.
Alguns colegas (negligenciando o que nos ensina a antropologia sobre a articulação entre religião, afetos, cultura e subjetividade), talvez me achem “ingênua” ou “igrejeira”, na melhor das hipóteses (Risos). O fato é que fui criada numa família católica. O amor/devoção que toda a criança sente por seus pais, na minha infância, foi mediado pela cruz, pelo terço que rezavam todas as noites, pela missa de domingo, pelos quadros das madonas que minha tia pintava, pelos fachos de luz que saiam da cabeça de Jesus Cristo nos vitrais da igreja. Recordo sobretudo da luz pelos vitrais coloridos, do sol matinal, dos afetos muitos.
Acontece que toda a rejeição que os adolescentes sentem por seus pais e a autoridade que representam também veio para mim, junto com a recusa de seguir frequentando a missa de domingo, aos 14 anos, para desespero deles. Nessa época, estudava no Colégio de Aplicação, tendo acesso a formação laica e crítica. Mixando tudo isso no liquidificador da subjetividade, fiquei com a teologia da libertação e o senso profundo de liberdade, igualdade na diferença, pluralidade e solidariedade. Todos esses valores convergiram para um só, o de JUSTIÇA. Não é à toa que tenho essa palavra tatuada na pele.
Mas vamos à mensagem do padre Marcelo (figura querida e respeitada na instituição por suas qualidades, que incluem a afetividade)[2]:
Mensagem de Páscoa
Nossa comunidade universitária se faz peregrina como os Discípulos de Emaús, perguntando-se pelo sentido de tanto sofrimento no mundo de hoje.
A morte do justo e do inocente nos toca no mais íntimo de nosso coração.
Como os discípulos, comentamos entre nós os episódios de intolerância religiosa, política, étnico-racial, de gênero e em relação à comunidade LGBT. E nos dizemos: “Não ardia em nós o nosso coração quando ele nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lucas 24, 32).
Nessa Páscoa de 2018, vamos construir pontes de diálogo e de afeição recíproca, pois somos todos membros da mesma família humana.
Feliz e abençoada Páscoa da Ressurreição.
Pe. Marcelo de Aquino, S. J.
Reitor da Unisinos
Não houve dúvida sobre quem eram os inocentes e justos a quem Marcelo referiu-se. Participamos do evento #LuzesParaMarielleEAnderson e fizemos dentro do campus de São Leopoldo uma roda de conversa, acendemos velas, bradamos que Marielle e Anderson estavam presentes; cada uma e cada um dos alunos, professores e funcionários ali reunidos puderam se manifestar. Compartilhamos o que estava em nossos corações, o medo do presente de violência e intolerância, o horror de viver no país que mais mata ativistas de direitos humanos[3]. Teve gente próxima a nós que passou com ar de deboche, e convidada a participar, negou-se. Os motivos? Difícil dizer. Provavelmente uma incompreensão sobre a razão pela qual estávamos ali: negros e negras, pobres e favelados, indígenas expropriados de terra, cultura e dignidade; demais ativistas de direitos humanos assassinados (Chico Mendes, Irmã Dorothy e tantos mais), moradores de rua, presos políticos como Rafael Braga e tantos outros, LGBTs, todos e todas que anseiam a justiça e a dignidade que lhes são negadas… Não estávamos ali somente por duas pessoas, mas sim por Merielle ser tão representativa de milhares de outras. A maioria dos casos registrados de assassinatos de ativistas entre janeiro e agosto de 2017 envolve indígenas, trabalhadores rurais e pessoas envolvidas com disputas de terra, território e luta pelo meio ambiente. Muitos e muitas tombam lutando pela justiça, enquanto a bancada ruralista no congresso nacional trata de proteger os assassinos, muitas vezes grileiros de terras, eles sim os verdadeiros bandidos. Era por todos e todas que estávamos ali. Pena que algumas pessoas não compreenderam.
Lembro do meu professor de filosofia no mestrado, Carlos Roberto Cirne Lima, nos explicando o conceito de dialética, “o uno está no todo e o todo está no uno”. Todas as coisas do mundo podem ser sintetizadas no uno; a “substância única de Espinoza” frente ao “Eu livre de Kant”, em interação dialética permamente. Edgar Morin refere-se à recursividade, utilizando também noções da filosofia dialética. Toda a ânsia de justiça do mundo estava representada ali naquele ato por Marielle e Anderson, figuras emblemáticas, naquele momento, de tantos outros e outras. É a filosofia, meus caros e caras (e não “estúpidos”!).
A filosofia está na base de tudo. Por isso acompanho com muito interesse o trabalho de filósofas feministas como a Marcia Tiburi, que saiu da Unisinos mais ou menos na época em que entrei, há 13 anos atrás. Cada uma das ciências sociais desenvolve e leva adiante distintos aspectos da experiência humana; que é temporal e relativa, e também limitada e ampla, ao mesmo tempo. Porque os opostos não somente se atraem, eles se constituem; tudo é relativo, “é absoluto que tudo seja relativo”, nos dizia o professor Cirne Lima, amigo pessoal de Jürgen Habermas, com quem estudou em Frankfurt, tendo ambos sido alunos de T. Adorno e M. Horkheimer, nos anos 1950. E aí cabem as contradições, as ambiguidades e as ambivalências que são a nossa marca, a nossa realidade mais primeva. Essa é uma das poucas coisas inexoráveis do nosso processo histórico de evolução, como homo sapiens sapiens. Essa atração pelo “tiro no pé”, pela dissonância cognitiva, pelo quanto nos auto boicotamos, ao mesmo tempo em que queremos evoluir no processo civilizatório. Quantos embates esse processo tem nos colocado, quantas lutas, quantas divisões, quanto sofrimento.
Contemporaneamente, tenho percebido que, em meio a todas essas lutas, por diferentes causas, pela justiça em suas diversas manifestações, as vezes companheir@s que deveriam se somar se desencontram dolorosamente. Se deparam com suas diferenças, reais e imaginadas, e lembro sempre nessas ocasiões do que disse meu irmão de alma Eduardo Marinho[4]: se a gente não se questiona internamente, não faz um trabalho de auto lapidação, a luta não vai para frente. Portanto, tenho tentado não achar feio o que não é espelho. Dentro de limites que respeitem a dignidade humana básica, claro. Porque quando eles são ultrapassados, aí a feiura impõe-se sobre o mundo de forma intolerável e é caso de combatê-la, sempre tendo inspiração na beleza da ética humanista que nos propôs o padre Marcelo.
Para não deixar dúvidas sobre a relação entre o que já mencionei no texto até aqui e o que mencionarei na sequência, gostaria de pontuar alguns de meus pressupostos. Não é a mesma coisa e definitivamente não quero comparar o caso Marielle e o caso Lula. Embora Lula também sofra racismo por ser nordestino, é algo muito diferente e já escrevi bastante sobre tudo isso.
Depois do horror do atentado que vitimou Marielle, fechei os olhos e sonhei acordada com ela eleita PRESIDENTA DA REPÚBLICA: nem sei dizer da alegria que seria, ver aquela pessoa linda e honesta, batalhadora e comprometida com as melhores causas, vestir a faixa presidencial. Estávamos construindo um caminho que, lentamente – mas quem sabe ainda no meu tempo de vida?! – nos permitiria sonhar com isso. Já tínhamos uma primeira mulher eleita duas vezes.
Mas aí veio esse golpe hediondo e misógino, no qual corruptos de carteirinha sacaram o mandato de uma mulher honesta, que jamais se envolveu em corrupção. Fazia um segundo governo sofrível, cometeu vários equívocos, incluindo o neoliberal incompetente que nomeou para gerir a política econômica; mas isso não é motivo de impedimento! Governo que não está bom, numa democracia séria, a gente tira nas urnas! O que aconteceu foi uma vergonha, capaz de colocar o Brasil como uma republiqueta bananeira da pior qualidade, capaz da pior das ignomínias! Jamais, nem nos meus piores pesadelos, pensei em ver o que vem acontecendo desde abril de 2016. Afinal, em 1964 eu não havia nascido. Não presenciei a parcela do empresariado e da classe média que comemorou a chegada de uma ditadura sangrenta que torturou, estuprou, assassinou e ocultou os cadáveres. Até hoje há famílias que sequer puderam enterrar seus mortos. O deputado Engenheiro Rubens Paiva, por exemplo: o cadáver nunca apareceu. Stuart Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel (também assassinada pela ditadura), idem. Perguntem ao escritor Marcelo Rubens Paiva e à jornalista Hildegard Angel o que eles acham de terem pai e irmão desaparecidos para sempre, seus corpos se desintegrando alhures, num cemitério clandestino qualquer!? E são tão valentes que conseguem seguir suas vidas, apesar dessa injustiça acachapante.
Portanto, desde esse contexto, é preciso entender que, assim como na época da ditadura, FHC, Lula, Brizola, Ulysses, Sobral Pinto, Tancredo Neves e outros tão diferentes entre si dividiam o mesmo palanque, agora considero imperativo seguir essa ideia de “frente ampla”, porque o que está em jogo é o arremedo incompleto de democracia que tínhamos, as conquistas – tão importantes – que a Constituição Federal de 1988 nos legou, e até isso estamos vendo se esvair pelo ralo do enxovalho do golpe. Se não reagirmos, eles vão tirar tudo dos brasileiros: políticas de saúde universal, educação básica, direitos trabalhistas, previdência pública etc.
Então, eu reforço: o nordestino que foi boia-fria na infância ter chegado à presidência da república pavimentou o caminho para que outros e outras com a sua origem de classe pudessem sonhar a chegar também; é uma questão simbólica, antes de tudo!
Sim, meus amigos críticos, vocês têm algumas razões; o “petê” cometeu erros lamentáveis, como por exemplo o de nomear um STF execrável, loteando-o como um ministério ao PP (ah, a terrível “governabilidade”!); e agora sofre as consequências, quando poderia ter nomeado gente qualificada como Lênio Luiz Streck, Maria Lucia Karam, Vera Regina Pereira de Andrade ou Rubens Casara e teríamos uma suprema corte séria, que não permitiria esse patético convescote dos podres poderes. Não pretendo ser exaustiva pois não sou jurista, mas lendo e navegando nas redes sociais de alguns juristas renomados, consigo referências e perspectivas interessantes. A postagem do Salah H. Khaled Jr. me inspirou nessas sugestões[5]. Em diálogo virtual com Salah, jurista e professor na Universidade Federal do Rio Grande, conclui-se que as vagas destinadas ao Supremo foram decididas com base nos mesmos critérios que muitos ministérios, na era petista. Se muitas vezes os ministros foram escolhidos apenas para contemplar/agradar a base aliada, e não por qualidades pessoais que os recomendassem para aquelas funções específicas, no Supremo Tribunal Federal não foi diferente. O PT subestimou o quanto o STF poderia ser decisivo para o país e não houve preocupação em escolher aqueles que, de fato, seriam os melhores ministros, ou seja, os melhores juristas do país, capazes de julgar com ética e isenção. As escolhas em grande maioria contemplaram quem construiu um caminho político para chegar lá. O resultado “é um desastre de longo prazo para o país”, me dizia o colega da área do direito, a quem agradeço pelos insumos que vieram a contribuir para a reflexão neste texto.
Temos de admitir, os erros pesaram: ridículas e imorais “leis antiterrorismo” foram promulgadas sob gestão petista; o povo negro continuou morrendo nas favelas e periferias Brasil afora, sem Estado de direito algum para habitar e no âmbito do qual se formar cidadão/ã. Os indígenas e ribeirinhos seguiram sendo trucidados em benefício do agronegócio e para dar lugar ao “crescimento econômico” em Belo Monte.
Mas acontece, meus caros e caras, que isso é assim desde o ano da (des)graça de 1500, e o que se estava tentando fazer ao apostar em Lula e na sequencia Dilma, era reverter pelo menos em parte tudo isso. Políticas sociais compensatórias minimizaram a fome a miséria, aliviando o sofrimento de milhões. Estudantes pobres e negros tiveram acesso à universidade, a eles negado por séculos; a luz e a água chegaram para quem não as tinha, no nordeste profundo (o programa das cisternas é uma das coisas mais lindas desse governo).
Depois do PT, sonhávamos nós, poderíamos pautar e lutar por um governo ainda mais avançado em termos de combate às desigualdades, incluindo as imateriais. Em vez disso (continuarmos avançando aos poucos), retrocedemos 50 anos em 2, após o golpe mais que óbvio (para todos que não se pautam pelos jornais da Globo e afins, ou fakes que chegam pelo WhatsApp). E é essa a razão que me faz, apesar da abissal diferença, me manifestar contra uma prisão cheia de ilegalidades judiciárias, cujo mandato foi emitido por um psicopata de voz fina que é um sintoma da doença do poder judiciário em nosso país, assim como me manifestei veementemente contra o assassinato da mulher negra, favelada e feminista. Não comparo o assassinato físico de Marielle, levado a cabo por milícias mafiosas com braços no Estado, ao assassinato da reputação de Lula, construído por uma mídia nojenta e manipuladora e um judiciário viciado e corrompido. São acontecimentos de ordens muito distintas, envolvendo injustiças incomparáveis e incomensuráveis. O fato é que as vivemos ao mesmo tempo, em termos cronológicos.
Os avanços que sonhávamos não se dariam em linearidade cronológica, mas sim em idas e vindas, avanços e retrocessos. Começamos pela urgência maior: minimizar a indignidade da fome, que tem pressa, como dizia o sociólogo Herbert de Souza. Tirar o Brasil do mapa da fome do mundo[6] só não é relevante para quem tem de sobra o que comer e é insensível e egoísta ao extremo (serviu o chapéu? Não se ofenda: reflita. Esse mal-estar pode ser o início da sua transformação). Coisa que abunda por aí, infelizmente. Quem se julga “gente de bem”, mas não move uma palha contra abusos e injustiças, contra violências sem explicação como criança passando fome.
Outra crítica recorrente (geralmente à esquerda, as únicas que comento, porque as feitas à direita são muito desqualificadas) é que durante os governos do PT muitas faculdades privadas, sem uma estrutura adequada ou tradição em ensino, pesquisa e extensão, ganharam dinheiro a rodo com os estudantes do ProUni e do FIES. Essa expansão das faculdades consideradas “caça-níquel”, que reforçam a precarização de seus funcionários e a massificação da educação privada, se deveu em grande medida aos programas governamentais, que uma vez minguados na era pós-golpe causaram grandes problemas às instituições, funcionários e estudantes. Embora haja muitos pontos positivos e eu mesma tenha presenciado lindos relatos de alunos/as que não poderiam estar nos bancos universitários sem as políticas como ProUni- sou totalmente a favor! -, penso que os critérios deveriam ter sido mais vinculados a benefícios sustentáveis para as futuras gerações de estudantes de baixa renda.
Finalmente, gostaria de ponderar algumas questões e citar algumas manifestações sintéticas que vi recentemente publicadas. A perspectiva – a meu ver falsa -, que li em análise de um intelectual – considero-o respeitável e acompanho suas pesquisas – de que haveria apenas três lados: os fanáticos petistas, os fanáticos anti-petistas e os abnegados seres que tentam ser independentes, mas são trucidados por ambos os lados, não se sustenta quando se vê tanta gente pensante (para tanto basta ser medianamente inteligente), que sabe que não se trata de defender “santidade” alguma de lado nenhum. É óbvio e sabido que os altos cargos do poder executivo sempre envolveram, em algum nível, benesses de grandes empreiteiras, ganhos secundários etc. (vide o apartamento parisiense de FHC e tantas outras coisas, antes e depois dessa, que sumiram rapidamente dos noticiários). O que se reprova em relação a essa absurda e inconstitucional prisão do ex-presidente Lula, é o ÓBVIO uso de “dois pesos e duas medidas”, é a perseguição clara e explicita, é a diferença no tratamento de casos onde crimes até bem piores e mais comprovados por evidências concretas, saem impunes ou se arrastam por anos e mesmo décadas de embargos, em casos de condenados em segunda instância, como Eduardo Azeredo (PSDB). Trata-se aqui da exigência básica de manter um Estado de direito e um sistema judiciário que garanta os direitos individuais quando os outros poderes falham.
Recorro ao texto do professor Fábio W. Reys, professor emérito da UFMG, um cientista político de mais de 80 anos, que afirma que a prisão de Lula, nas circunstâncias em que aconteceu e com o processo judicial que se viu, é clara indicação de que a lei NÃO vale para todos. O primeiro presidente de origem autenticamente popular, e, portanto, da casta “errada”, é também o primeiro presidente a ser condenado e preso por crime comum. E isso acontece “num país marcado pela estrutura de castas, construída nos séculos de nossa longuíssima escravidão, cujos efeitos estão pesadamente ainda conosco na enorme desigualdade, na patologia social com ela ligada e, de maneira especialmente visível, na ruindade espantosamente duradoura de nossas políticas educacionais como fator de incorporação social (derrotadas fragorosamente, como mostram estudos sérios, até em comparação com a África do Sul do apartheid) ”.
Sim, o ódio ao Lula, professor Fábio, é mesmo o ódio de classe que o senhor menciona em seu texto. Nem Temer, nem Aécio, nem Moreira Franco, nem Romero Jucá, nem nenhum corrupto notório desperta esse ódio. A instituição que funda o Brasil é a escravidão, e somos todos herdeiros subjetivos dessa chaga aberta. Sem nem percebermos. A desigualdade está entranhada e é naturalizada. E é essa desigualdade enraizada nas células que faz com que as pessoas temam e/ou odeiem os pobres e desvalidos. Até parece que é “lei natural”, existem “castas” que determinam quem é confiável e quem não é.
Eu passei várias vezes em aula, nos cursos da graduação da saúde e da economia, o filme “Lixo Extraordinário”[7], que mostra o artista Vik Muniz e sua parceria com os catadores/as da Acamjg Jardim Gramacho (Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho, Duque de Caxias-RJ). Indicado ao Oscar, o filme fez bela carreira. A história é incrível, a qualidade humana dos personagens -reais, de carne e osso e como eles próprios-, é admirável. Discutíamos em aula várias questões relativas à saúde e sociedade e aos empreendimentos econômicos solidários. As cenas finais do documentário mostram o presidente da Acamjg, Tião Santos, liderança importante da comunidade e que foi à Inglaterra leiloar o trabalho artístico do grupo. Lá nos idos de 2011, seus companheiros acreditavam que TIÃO PODERIA VIR A SER PRESIDENTE DO BRASIL (a figura ilustra o filme, para quem não viu). E vocês sabem por que eles acreditavam nisso, não?! Exatamente: porque um nordestino boia-fria, operário que foi mutilado na indústria automobilística, conseguiu a façanha um dia. E é justamente essa esperança que estão encarcerando junto com o Lula. É isso que as “elites” corruptas e execráveis no Brasil, com seus eternos interesses escusos, ódio de classe e vilania profunda, não podem admitir. Não podem aceitar que o povo simples brasileiro sonhe com essa possibilidade, como algo concreto. É preciso matar esse sonho. Enxovalhá-lo e matá-lo simbolicamente (se conseguirem matar concretamente, não hesitarão), arrancar a possibilidade desse sonho florescer.
Há quem use o argumento do “foro privilegiado” para justificar a perseguição a Lula. Não se trataria de perseguição, os outros não vão presos porque o têm. Ora, que não sejam cínicos, ou vou ter de achar feio o que não é espelho pois não atende ao critério de dignidade básica… Aécio já foi a julgamento no STF e sua cara foi livrada, mesmo com gravação contra ele autenticada e tudo. Voltou ao senado, numa palhaçada homérica. Sacrificam uns bois de piranha de vez em quando, para disfarçar; tipo o Cunha (e sempre depois que fazem o serviço sujo, aí os “milhões de Cunhas” do MBL desaparecem das ruas, assobiando e olhando para cima!). Ou o idoso Maluf, que viveu seus 87 anos sem ser incomodado pela polícia, eternamente listado na página da Interpol como “procurado”, mas que agora é espetacularmente preso apenas para simular alguma simetria e “preparar” a prisão de Lula, ainda tentando criar simetria entre elas. Bobagem, gentes, só os idiotas natos ou consentidos caem nessa.
Jean Wyllys disse em alto e bom som, dando nome aos bois, sobre quem hoje protagoniza a farsa: “Moro, o TRF4, o STF, as organizações Globo, os plutocratas e cleptocratas do mercado financeiro e do PSDB e a parte fascista, ignorante e invejosa da classe média que quer continuar tratando empregada doméstica e motorista como escravo e o Nordeste do país como seu balneário! ” Diz Boaventura de Sousa Santos que “o princípio da independência dos tribunais constitui um dos princípios básicos do constitucionalismo moderno, como garantia do direito dos cidadãos a uma justiça livre de pressões e de interferências, quer do poder político quer de poderes fácticos, nacionais ou internacionais”[8].
Juremir Machado da Silva acusou, lembrando Zola[9]: “Cento e vinte anos depois do grito de Emile Zola, eu acuso o juiz Sérgio Moro de encarniçamento contra Lula em nome de um projeto de brilho pessoal. Eu acuso Moro de querer aparecer e de forçar instituições a partir de uma visão ideológica seletiva. Eu o acuso de, contrariando o princípio de distanciamento do julgador, ter formado equipe com o Ministério Público e a Polícia Federal, apoiado por parte da mídia, para desequilibrar o jogo político brasileiro. Eu acuso o judiciário, numa das suas diversas ramificações, de parcialidade, subjetivismo e tendenciosidade, tendo, como prova dessa seletividade, deixado até hoje livre, sem ter mais foro privilegiado, por fatos ocorridos há 20 anos, condenado em segunda instância, no conveniente aguardo de demorado julgamento de embargos, o tucano Eduardo Azeredo, pai dos mensalões e ex-governador de Minas Gerais. Só no próximo dia 24 de abril, pressionado pelos acontecimentos atuais, acontecerá o julgamento do recurso de Azeredo. Será preso ou esperará em liberdade o exame dos embargos dos embargos que deverá interpor? Eu acuso o Supremo Tribunal Federal de ter descumprido clamorosamente a Constituição Federal, que prevê no inciso XVII do seu artigo 5º a culpabilidade só depois do trânsito em julgado. Eu acuso o judiciário de condenar sem provas, com base em construções claudicantes como a “teoria do domínio do fato” e a teoria da cegueira deliberada, em nome de um punitivismo messiânico. Eu acuso o messiânico procurador Deltan Dallagnol de confundir ilações com fatos e de comportar-se como um “iluminado salvador de consciências” [E eu Marilia acrescento: de misturar Estado e religião, coisa típica da idade média! ]. Eu acuso o Senado de manter Aécio Neves nos seus quadros apesar da fartura de provas contra ele, que, além de tudo, quebrou de todas as formas o decoro. Eu o acuso o STF de dois pesos e duas medidas, tendo afastado Eduardo Cunha do cargo só depois de ele ter convenientemente conduzido o impeachment da presidente Dilma Rousseff, e não ter sustentado a mesma posição em relação a Renan Calheiros e Aécio Neves. Eu acuso o STF de permitir a prisão de um homem a partir de provas sobre as quais pairam dúvidas e de manter como senador um homem sobre o qual pesam provas robustas. Eu acuso o STF de ambiguidade, hipocrisia, conveniência e seletividade ideológica. Se podia afastar Eduardo Cunha, sem autorização parlamentar, podia fazer e manter o mesmo quanto a Aécio. Eu acuso a ministra Carmen Lúcia, presidente do STF, de ter se acovardado no caso de Calheiros, soltado Aécio e atropelado a ordem jurídica para apressar a prisão de Lula. Eu acuso todas as instâncias de jamais terem querido levar adiante investigações sobre as denúncias de compra da emenda constitucional que permitiu a reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Eu acuso o STF de deixar convenientemente prescrever ações contra Romero Jucá e outros que tais. Eu acuso Michel Temer de ter usado emendas parlamentares para cabalar votos capazes de mantê-lo no poder. Eu acuso o TRF-4 de celeridade ideológica, tendo apressado o julgamento de Lula e a autorização em tempo recorde da sua prisão não por virtude, mas por paixão e ideologia. Eu acuso parte da sociedade brasileira de fomentar o ódio ideológico [E eu, Marilia, acrescento: compartilhar fakes e hoax por WhatsApp é fomentar ódio ideológico baseado em mentiras! Acuso várias pessoas do meu conhecimento desse ato indigno]. Eu acuso especialistas de dissimularem suas preferências ideológicas como discursos de autoridade, vomitando subjetividade com palavrório enganoso. Eu acuso parte do Brasil de promover uma vingança contra o intruso, o “quatro dedos”, o retirante, o “analfabeto”, o operário que governou, em muitos aspectos, melhor que os bacharéis, tendo produzido, apesar da limitação dos seus feitos, das contradições, dos delitos no seu entorno, um dos melhores, ou menos piores, períodos para a parte menos aquinhoada deste país de canibais. Eu acuso as instituições do dispositivo policial-judicial de consagrarem um novo ditado: mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um grande tucano ser preso. Logo haverá uma exceção para confirmar a regra. Eu acuso parte da mídia, sempre tão falsamente sensata, de querer tirar de Lula até o direito de se sentir injustiçado. Eu acuso os paneleiros de seletividade ideológica e indiferença à corrupção. ”
Achei tão brilhante a acusação do Juremir que tive de reproduzir aqui! O texto está público e referencio a fonte. Ataco, agora para terminar mesmo, de Emile Zola e também me uno ao grito de Juremir: EU ACUSO TODOS ELES! Mas saibam, seus sabujos: nós jamais deixaremos de lutar por justiça, igualdade na diferença, solidariedade e paz social com voz para tod@s. Isso vocês jamais vão conseguir. Não iremos nunca nos igualar a vocês, aos medíocres, à escória que acha que dinheiro e poder são o mais importante da vida, não importa se obtidos às custas da miséria do povo. Queremos mais é ver MARIELLES E TIÕES NA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA e haveremos de conseguir, nem que demore décadas ou séculos! Podemos morrer, ou sermos encarcerados, mas isso não termina a luta; com o líder aymara Túpac Katari, afirmamos: “A mi solo me matan, pero volveré y seré millones! ”
REFERÊNCIAS
[1] http://www.mariellefranco.com.br/luzes
[2] http://www.bibliaonline.com.br/acf/lc/24 (Texto bíblico do qual ele retira o trecho).
[3] http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2017-12/brasil-e-um-dos-pa%C3%ADses-mais-perigosos-para-ativistas-diz-Anistia-Internacional
[4] http://observareabsorver.blogspot.com.br/
[5] http://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=1742378152514007&id=100002255189111
[6] http://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/07/23/Como-o-Brasil-saiu-do-Mapa-da-Fome.-E-por-que-ele-pode-voltar
[7] http://www.youtube.com/watch?v=COpmp8PizBc
[8] Fonte do texto de Boaventura: http://www.publico.pt/2018/04/09/mundo/opiniao/lula-da-silva-os-tribunais-o-condenam-a-historia-o-absolvera-1809552
[9] Fonte da publicação do jornalista Juremir Machado da Silva: http://www.facebook.com/juremir.machadodasilva/posts/2268560726504038

Acontece que toda a rejeição que os adolescentes sentem por seus pais e a autoridade que representam também veio para mim, junto com a recusa de seguir frequentando a missa de domingo, aos 14 anos, para desespero deles. Nessa época, estudava no Colégio de Aplicação, tendo acesso a formação laica e crítica. Mixando tudo isso no liquidificador da subjetividade, fiquei com a teologia da libertação e o senso profundo de liberdade, igualdade na diferença, pluralidade e solidariedade. Todos esses valores convergiram para um só, o de JUSTIÇA. Não é à toa que tenho essa palavra tatuada na pele.