MARÍLIA VERÍSSIMO VERONESE
Hoje fiquei sabendo que uma colega, professora e pesquisadora da UFMG, vai participar do BBB2018. Nunca assisti ao programa Big Brother Brasil. Quando tentei, por interesse etnográfico, não consegui: achei que eram pessoas muito desinteressantes, muito chatas; muito enfadonho era seu cotidiano. Não passei de 5 minutos de TV ligada.
Nem sequer sei qual foi o ano que o atual deputado federal Jean Wyllys participou do programa, porque não assistia. Depois que conheci a linda pessoa que é o jornalista e professor (que está deputado), lamentei; gostaria de ter visto sua atuação, pelo menos alguma vez, durante o programa. Ele é frequentemente desqualificado, por conservadores, pela participação no BBB. Uma boa maneira de disfarçarem seu conservadorismo e homofobia, posando de “intelectuais” diante de Jean, um leitor voraz de literatura de qualidade (volta e meia comenta nas redes sociais suas leituras e aprendizados) e professor universitário.
Como não assisto TV aberta, salvo casos excepcionais, nos últimos anos eu normalmente sabia que ia começar um novo BBB porque via nas redes sociais as ridículas postagens de um HOAX, um texto atribuído ao Luis Fernando Verissimo desancando o programa[1]. Eu e minha prima Mariana Verissimo (filha de Luis Fernando) corríamos a postar que era falso, que não era dele, que ele jamais escreveria aquela bobagem (texto simplório e mal escrito) e que ele pensa que as pessoas devem assistir ao que elas bem entenderem na televisão. Até que cansamos. São muitos anos dessa joça de programa, é todo o ano o mesmo fake, a mesma gente que não conhece a escrita do LFV e mesmo assim o “cita”, através de conteúdos primários e limitados, que ele jamais produziria daquela forma.
Quando conheci o Jean Wyllys, seu trabalho, sua história e suas ideias, tive um insight muito importante: é pré-conceito meu achar que só tem gente besta no B(esta)B(obo)B(iltre), ou em qualquer outro contexto. Bom, talvez no MBL a afirmação se justifique… (risos). Sabem como é, se tudo é relativo, até a própria relativização é relativa! Como dizia meu professor de filosofia Carlos Roberto Cirne Lima, “é absoluto que tudo seja relativo”. Mas não sou filósofa e paro por aqui com esse tema!
Para o meu despertar, contribuiu a minha formação em ciências sociais, claro: ter cuidado com as certezas, saber que as mídias são espaços contraditórios, que não existe BEM de um lado e MAL do outro (nisso acreditam os fascistas e os intelectualmente toscos). As categorias da contradição, da ambivalência e da ambiguidade são as que melhor descrevem esse negócio chamado “cerumanu” e a sua criação chamada sociedade. Pronto. Estava, então, pronta para tentar entender sem julgar tão definitivamente. Pode (embora muito raramente!) ter gente crítica, fina, inteligente e sincera no BBB. Pode ter dúvida – ou equívoco -, na minha concepção de mundo. Uau! Que m., hein: Mundo que não vem pronto, ordenado, classificado, definitivo, absoluto e que ainda me obriga a abrir mão das minhas convicções!
Tendo participado por sete anos do grupo de pesquisa “Ideologia, comunicação e representações sociais”, coordenado pelo Prof. Dr. Pedrinho Guareschi (não conheço ninguém mais crítico à mídia corporativa do que ele[2]); tendo feito um doutorado sanduíche sob orientação prof. Dr. Boaventura de Sousa Santos no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e defendido um doutorado em psicologia social, penso que tenho alguma credencial para avaliar criticamente a mídia no Brasil. Claro que sempre há quem desconsidere a formação da gente, diminua, insinue que somos tontas a dizer asneiras, especialmente se somos mulheres. Isso faz parte dos (mal)entendidos, que são a nossa realidade na maior parte do tempo, na esfera comunicacional.
A mídia hegemônica no Brasil é dominada por umas poucas famílias (ou indivíduos) riquíssimas que defendem seus interesses, isso é fato notório e sabido. As leis são frouxas, antidemocráticas, permitem propriedade cruzada, o que é proibido até na terra dos ianques. A Rede Globo recebeu uma concessão eterna por bons serviços prestados a uma ditadura militar que torturou, assassinou, oculta até hoje cadáveres jamais entregues às famílias dos mortos e desaparecidos, distorcendo conteúdos, tergiversando a realidade ou mentindo deliberadamente, às vezes. O modelo adotado legitima monopólios, persegue a diversidade, criminaliza movimentos sociais e justifica as injustiças.
Apesar de tudo isso, há que considerar, também, que bons profissionais atuam nesses veículos (as pessoas têm de trabalhar pra viver, não é?) e eventualmente produzem bom conteúdo. Exemplo gaúcho: Jorge Furtado, cineasta crítico e posicionado politicamente à esquerda, que assina minisséries e outros programas da TV Globo. Jorge também produziu o excelente documentário “O mercado de notícias”[3], que mostra jornalistas de diferentes posicionamentos discutindo e criticando a mídia da qual fazem parte. Super recomendo, é sensacional. Outro exemplo é o próprio LFV, que foi roteirista de programas como TV pirata, engraçado pra caramba; Dias Gomes, grande escritor, que deu origem a telenovelas memoráveis. Jânio de Freitas, Juremir Machado da Silva e Eliane Brum são outros exemplos de colunistas da “grande mídia” impressa e/ou eletrônica com posicionamento plural.
Meu argumento é: sejamos críticos, mas não taxativos. Moisés Mendes, jornalista que trabalhou muitos anos na Zero Hora (jornal que eu não compro, nunca, e do qual sou muito crítica!) me convidou para escrever em sua coluna, durante a Campanha “Agora é Que São Elas”[4], em 2015, na qual jornalistas e blogueiros homens convidaram mulheres para se expressarem em seu lugar por um dia. Pois bem, eu escrevi e o texto saiu no jornalão de maior circulação no RS, famoso por suas posições conservadoras, mas que tinha em suas fileiras de empregados muita gente inteligente, a exemplo do próprio LFV e do Moisés[5]. Fui atacada por um familiar, que disse que eu era incoerente e desonesta por publicar em ZH, já que criticava o jornal. O mimimi tinha fortes doses de misoginia e machismo (pegava mal esculachar diretamente o conteúdo do meu texto, o que eu acho que era o caso! Então teve que esculachar a autora), mas de qualquer modo o pensamento binário – “é isso OU aquilo” – é bastante limitado, pois eu acho que devemos, sim, ocupar todos os espaços possíveis para comunicar visões de mundo plurais. Do mesmo modo que penso que as mídias convencionais guardam alguma diversidade, em alguns (poucos, é verdade) casos. São espaços contraditórios; eu os critico fortemente, mas não os demonizo automaticamente.
A mídia “alternativa”, na internet, tem sido o meu modo predominante de informação cotidiana e participação comunicativa. Mas aproveitar possíveis brechas na mídia “hegemônica” (uso aqui o termo sem muita precisão sociológica, perdoem-me) em todos os espaços disponíveis e acessíveis, pode ser uma boa oportunidade de pluralizar o debate. Jamais perderia a chance de atingir tanta gente com um texto que expressasse ideias diversas das que geralmente circulam nos espaços midiáticos convencionais, de massa, tipo “jornalões” de grande circulação ou semanários. E se surgir outra, vou aproveitar, podem ir preparando o mimimi!
Mas voltemos ao caso da professora universitária que, surpreendentemente, anunciou essa semana que estará na próxima edição do Big Brother Brasil. Seu nome completo é Helcimara de Souza Telles, mas é conhecida como Mara Telles. Conheci a Mara nas redes sociais, por termos amigos em comum. É pesquisadora e professora de strictu sensu como eu, é mulher de meia idade e mãe de uma mulher jovem como eu, é de esquerda como eu, é crítica do instituído como eu. Me identifiquei com ela imediatamente.
Mas eu não sou é tão engraçada como a Mara: passei a segui-la nas redes sociais porque ela é divertidíssima, além de inteligente. As postagens sobre o “mozão Dallagnol”, nas quais ela inventa um romance com o “moço do power point” para criticar a Lava-Jato, eram sensacionais e hilárias, e seus textões de análise de conjuntura tinham sempre um tom irônico, sagaz e crítico. É pós-doutora em ciência política, já foi docente convidada em respeitáveis universidades no exterior. Mas agora, para alguns, ela é somente uma coisa e nada mais: a ridícula do BBB. Meu deus e minha deusa, como as pessoas são regidas pelos estereótipos automaticamente disparados. Impressionante como Mara foi imediatamente classificada como fútil, boba e oportunista, ao tomar a inesperada decisão de participar do odiado programa. Fiquei um tanto chocada com afirmações peremptórias que vi nesse sentido. Penso que ainda temos muito que refletir e construir, inclusive no campo do feminismo, da maternidade ativa, da sororidade e compreensão mútua entre nós, mulheres. Aprendi com isso que antes de gritar a gente se informa melhor e vou levar esse aprendizado para a militância política, que pode eventualmente fazer-nos menos reflexivas e mais impulsivas. O que também faz parte do processo, mas há que ser críticas de nós mesmas, como sempre alertou o Boaventura: uma perspectiva crítica que não é crítica de si mesma cai facilimamente numa rotina autoritária.
Quero, com este texto, dizer publicamente que admiro e apoio a Mara, mulher, mãe, professora e pesquisadora. Que matou vários leões por dia pra chegar lá nessa carreira tão masculina e machista, como eu própria e várias das minhas colegas. Não sei se vou ver o BBB, provavelmente não, mas tentarei ter acesso a alguma participação da Mara, via vídeos que deverão ser postados nas redes sociais, que pelo que entendi, serão alimentadas pela sua filha, Ana Luiza, jovem que apoia a mãe nessa aventura heterodoxa. Estou com elas duas. Boa sorte, querida Mara, e leva a tua inteligência, sagacidade e criticidade, na medida do possível, para aquele contexto que não tem essas características. Vamos ver se é possível, não deixa de ser uma experimentação, uma exploração de campo empírico… que, como qualquer empreendimento no mundo social, pode dar errado ou dar certo, contém seus riscos. Lembro-me de quando a brilhante atriz gaúcha Ilana Kaplan participou do programa “Sai de baixo”, na rede Globo. Não deu muito certo, embora a ideia fosse ótima e Ilana, talentosíssima. Ela ficou pouco tempo, não se adaptou àquela forma de humor. Torci por ela na ocasião, como agora torço pela Mara.
Assim como eu aproveitei a oportunidade de escrever na ZH, Mara, aproveita a tua de entrar diariamente na casa de gente que gosta do BBB. Quem sabe será uma chance de pluralizar um pouco as referências dessas pessoas, bagunçar seus esquemas cognitivos talvez limitados, portanto uma forma de educação, que é, ao fim e ao cabo, a área a qual nos dedicamos.
Currículo Lattes da Mara: Disponível em: http://lattes.cnpq.br/5854848038464290
Um pouco de suas considerações sobre a política: http://www.youtube.com/watch?v=DRTm38Mi9TQ
Vídeo da Mara analisando a crise política no inicio de 2017: http://www.youtube.com/watch?v=DRTm38Mi9TQ
Referências
[1] Aqui LFV comenta o caso: http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/2769967
[2] A título de exemplo, ver: Pedrinho A. Guareschi e Osvaldo Biz. Mídia e Democracia. Editora Evangraf, 2005.
[3] http://www.omercadodenoticias.com.br/
[4] http://coletivonisiafloresta.wordpress.com/2015/11/06/campanha-agora-e-que-sao-elas-um-primeiro-passo-e-preciso-mais/
[5] Disponível em: http://gauchazh.clicrbs.com.br/opiniao/noticia/2015/11/decapitadas-em-nome-das-luzes-4902500.html
Categoria: ANÁLISE&OPINIÃO
A mídia, o BBB e os nossos estereótipos: algumas reflexões possíveis
Porto Alegre sitiada
Miguel Idiart Gomes
Criado em 1924, o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), tinha a função de assegurar e disciplinar a ordem militar no país. Quase dez anos depois, em Brasília através de um decreto, formou-se a Delegacia de Segurança Pública e Social (DESPS). Tinha como objetivo coibir comportamentos políticos divergentes.
O DESPS era diretamente subordinada à Chefia de Polícia do Distrito Federal e possuía uma tropa de elite, a Polícia Especial. Suas atribuições eram examinar publicações nacionais e estrangeiras e manter dossiês de todas as organizações políticas e pessoas considerados suspeitas.
Foi em 1935, com avanço da Aliança Nacional Libertadora, uma frente de esquerda composta por setores de diversas organizações de caráter anti-imperialista, antifascista e anti-integralista, que foi promulgado a Lei de Segurança Nacional, definindo crimes contra a ordem política e social.
Em 1944, no Estado Novo, ocorreu a reforma do judiciário, na qual a DESPS, transformou-se em Departamento Federal de Segurança Pública (DFSP).
Na ditadura civil militar, foi que a polícia política intensificou a repressão. Perseguia, prendia, torturava e executava. Não tinha investigação séria, ou qualquer tipo de julgamento.
No poder judiciário, os Atos Institucionais suspendiam direitos constitucionais. O AI 2, em 1965, elevou o número de ministros do STF de 11 para 16, com o intuito de alterar os posicionamentos. O AI 5, em 1968, suspendeu os direitos e garantias individuais, iniciando as cassações. O AI 6, de 1969, excluiu da apreciação judicial uma série de atos. O AI 13, de 1969, dispôs sobre o banimento dos considerados nocivos à segurança nacional. O AI 14, em 1969, instituiu a pena de morte para os casos de guerra psicológica revolucionária ou subversiva.
Foi a Justiça Militar Federal a grande protagonista. O DL 314/67 e o DL 898, de 29 de setembro de 1969, regulavam os crimes e processos envolvendo a segurança nacional.
As estruturas das Polícias Militares brasileiras, como conhecemos hoje, são herança direta do regime militar. A lógica é compreender a população como inimiga e uma massa a ser controlada. O abuso de poder, a truculência, e os assassinatos cometidos pela Polícia Militar, se antes se sustentavam por um sistema de controle de informações e de segurança nacional, agora se sustenta num regime considerado democrático por alguns setores da sociedade.
As vésperas do julgamento do ex-presidente Lula no TRF4 em Porto Alegre, reascendeu uma a luz de alerta. A Brigada Militar que nas últimas décadas cumpre de forma repressora qualquer tipo de manifestação pública, reaparece com força total. Relatos chegam sem parar, policiais estão sitiando sindicatos, partidos políticos e claro, órgãos públicos. Além de abordagens nas pessoas no entorno sem nenhuma justificativa. Os índices de criminalidade em Porto Alegre, batem recordes. Enquanto a criminosos agem, os policias tem uma orientação nítida que vai na contramão dos crimes e de encontro a ativistas políticos.
Como diria Marx, “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.
*Estudante
Os vendilhões no comando
GERALDO HASSE
Os governos petistas deram mole aos Mercados, mas o MDB escancarou a prática do entreguismo
O arcebispo Jaime Spengler de Porto Alegre publicou artigo sugerindo que se crie um projeto de nação a partir de “um diálogo maduro” dos atores sociais, que seriam os políticos, os empresários, os professores, os advogados, os funcionários públicos, os estudantes…
Santa ingenuidade sugerir um pacto nacional no momento em que o governo está nas mãos de um grupo político disposto a entregar ativos e riquezas nacionais a estrangeiros movidos por interesses dissociados da realidade brasileira, na qual sobressaem dois grupos antagônicos:
I – De um lado, majoritário socialmente, temos um enorme contingente de pobres subjugados por carências históricas, falta de educação e saúde, deficiências da infraestrutura etc.
II – No outro lado, dominante economicamente, destaca-se uma ativa minoria disposta a explorar até o limite os recursos naturais – desde as pessoas até as jazidas minerais, o solo, a vegetação – com a conivência de agentes públicos e o apoio escandaloso dos meios de comunicação liderados pela televisão.
Não é preciso ser sábio nem vidente para perceber que no Brasil como no planeta caminhamos nitidamente para o colapso dos recursos naturais. O aquecimento da temperatura global é um dos sintomas mais elementares.
Também é nítido que as forças defensoras da sustentabilidade do meio ambiente são inferiores às forças que concorrem para a “exploração intensiva” dos recursos naturais. A legislação é mais fraca do que o poder desagregador das forças pró-Mercado, que entronizaram o Dinheiro como bem supremo.
O noticiário diário é pródigo em exemplos da mais descarada sujeição ao deus Mercado. Tome-se a decisão da direção da Petrobras de entregar US$ 2,95 bilhões a acionistas norte-americanos a título de indenização por supostos prejuízos. Não há precedentes na história da economia – uma empresa estatal se submeter previamente a uma ação ainda não julgada.
Essa pronta-entrega aos estrangeiros abre caminho para que acionistas do Brasil entrem na Justiça pedindo indenização semelhante. O interesse dos acionistas (que têm consciência dos riscos do mercado de ações, mas estão sendo estimulados a agir como “vítimas”) está sendo colocado na frente do interesse da empresa responsável pelo abastecimento estratégico de petróleo à população brasileira. Pode a maior empresa brasileira agir como o pato verde-amarelo? Aí tem.
O pai da grande jogada entreguista é Pedro Parente, economista que chefiou a Casa Civil do governo de Fernando Henrique Cardoso, responsável pela privatização parcial da Petrobras, no final do século XX. Executivo traquejado, Parente não age por conta própria: foi colocado em 2016 na presidência da Petrobras para presumivelmente livrá-la de uma série de prejuízos causados por investimentos mal feitos em plena era do pré-sal, descoberta tida como a redenção petrolífera do Brasil após mais de 60 anos de pesquisas em terra e no mar. Em vez de se fortalecer com a autossuficiência garantida pelo pré-sal, a Petrobras de Parente está sendo deliberadamente enfraquecida, num movimento que se coaduna com a lógica da submissão do governo Temer às exigências do Mercado.
Na realidade, o governo faz igual ou pior do que a Petrobras ao pagar sem desconto aos credores que recebem cerca de R$ 500 bilhões a R$ 600 bilhões anuais de juros e serviços pelo “financiamento” da dívida pública brasileira. Trata-se de uma sangria histórica que compromete todo o esforço brasileiro por um desenvolvimento econômico socialmente justo e ambientalmente saudável. E, pelo andar da carruagem, dias piores virão com novas “entregas” em outros segmentos da economia brasileira.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“O pólo de referência das esquerdas, em torno do qual precisam se unir, é somente um: os direitos dos pobres”
Frei Betto no livro A Mosca Azul (Rocco, 2006)
Consumidor em férias não deve descuidar de seus direitos
Marcelo Silveira de Almeida
É durante o mês de janeiro em curso e fevereiro que muitas pessoas aproveitam para viajar, pois é período que coincide com as férias escolares. Para que o passeio tão desejado não se torne um pesadelo, existem algumas precauções para quem pretende arrumar as malas em busca de diversão e descanso.
Não importa o destino, mas antes de fechar o pacote turístico o consumidor deve checar qual é a empresa que irá contratar. Para isso, é necessário sempre buscar referência da contratada. Deve ser observado também se ela possui cadastro na Associação Brasileira de Agências de Viagem e na Associação Brasileira das Operadoras de Turismo.
Quem optar em comprar a viagem via internet deve ficar atento a alguns detalhes. Procurar informações sobre o hotel, verificar se ele está registrado no Cadastro de pessoas físicas e jurídicas que atuam no setor de turismo e em qual a categoria. Ler com cuidado as cláusulas para saber quais são os serviços oferecidos que estão incluídos no pacote (alimentação, city tuor, hotel, entre outros). Caso o consumidor se arrependa, ele terá até sete dias para cancelar o contrato.
A passagem aérea é um contrato que estipula as obrigações e deveres da companhia e do passageiro. Ao adquirir seu bilhete, observe atentamente se a data, o horário, a validade e o número do voo estão corretos. Em caso de atraso por uma hora, a companhia aérea tem que facilitar a comunicação para o consumidor, tais como: telefone, internet. Com duas horas, alimentação e acomodação digna e a partir das 4 horas tem que fornecer hospedagem. É importante que o consumidor em caso de gastos sempre guarde os comprovantes, pois esses documentos são importantes em caso de reclamação.
Havendo o cancelamento do voo o passageiro tem direito a devolução da passagem ou acomodação em outro voo (mesmo que não seja da companhia contratante). Caso o atraso traga prejuízos financeiros, ele poderá ser indenizado, tanto por danos materiais quanto morais.
Outro cuidado que o consumidor deve ter é em relação ao peso da bagagem. Vale lembrar se o passageiro tiver algum dano na mala ele terá até sete dias para registrar a reclamação na companhia aérea, importante também comunicar o dano na ANAC, instalada nos aeroportos.
Em caso de extravio, o procedimento é realizar um registro ao desembarcar no aeroporto. Segundo as normas, a mala pode ficar extraviada até 30 dias. Depois deste período o consumidor é indenizado.
Boas Férias.
A prisão de Lula
A cada dia fica mais evidente que, como disse o delegado federal Maurício Grillo há exatamente um ano, “passou a hora de prender o Lula”.
A prisão, entenda-se, como motivo para alijá-lo da eleição de outubro.
Sua candidatura, a esta altura, é um fato político tão legitimado na opinião pública que uma decisão judicial, um fato jurídico, não pode desconhecer, sob risco de graves consequências.
Por isso, a expectativa é de que a sentença no julgamento do TRF4, no dia 24, não seja terminativa, deixando espaço para recursos que permitirão ao ex-presidente formalizar sua candidatura e, eventualmente, disputar o pleito, empurrando as questões de justiça para depois.
Se for assim, no campo da racionalidade restará aos que não aceitam a volta de Lula ao Planalto uma saída: enfrentá-lo e derrotá-lo nas urnas.
A Unidade como ponto de partida
Roberto Amaral
Sempre que o debate político – chamado pela realidade – se volta para a discussão sobre a unidade (como necessidade) das esquerdas, torna-se relevante, e até mesmo pedagógico, revisitar experiências como as de 1954 e 1955. Elas precisam ser lembradas como lições e advertências aos que desconhecem nossa história recente, e, ignorando-a, tendem a repetir os erros passados.
Em 1954 – primeira etapa do golpe que se consolidaria em 1964 com a ditadura militar – as esquerdas se deram ao luxo de se dividir na defesa x denúncia de Getúlio Vargas, envolvidas, lamentavelmente não pela última vez, pelo discurso moralista articulado pela direita para dar justificativa à deposição do presidente.
O Partido Comunista, liderado por Luís Carlos Prestes, então carente de visão estratégica, associou-se ao udenismo e ao lacerdismo, ao que havia de pior na imprensa brasileira (Diários Associados e O Globo) e às forças militares golpistas (nomeadamente Eduardo Gomes, Juarez Távora e Pena Boto) no pleito da renúncia do presidente.
Uma vez mais tomava-se a aparência pela realidade, e, em nome do combate a uma corrupção jamais demonstrada, os pecebistas associaram-se na operação de desmonte de um governo nacionalista, comprometido com o trabalhismo e o desenvolvimento nacional. Assim facilitaram o golpe que se consumaria na posse de Café Filho, e na ascensão, dentre outros, de Eugenio Gudin (que combatia a industrialização do país) ao Ministério da Fazenda, além de Raul Fernandes (que entendia que o Brasil deveria ser uma ‘província’ dos EUA), antecipando-se em tantas dezenas de anos ao atual chefe do Itamaraty.
No dia do suicídio de Vargas, sem lideranças, as grandes massas saíram às ruas para prantear o presidente morto, e, em sua rebeldia tardia, incendiaram viaturas de O Globo e depredaram as dependências da Voz Operária, jornal do PCB, que, na véspera, circulara encimado por uma manchete de letras garrafais acusando Getúlio Vargas de “lacaio do imperialismo”, imperialismo que sabidamente estava por atrás de todas as conjurações golpistas.
Nada mais simbólico, mas igualmente denotativo do fracasso de nossas lideranças.
Em 1955, as esquerdas, que já se haviam unificado no processo eleitoral, ampliam sua unidade e atraem setores liberais na frente ampla que defenderia a legalidade, e asseguraria a eleição de Juscelino Kubistcheck e João Goulart, e ainda desmontariam o segundo golpe da direita civil-militar, que visava a impedir sua posse.
Na primeira fila dos que conosco defendiam a legalidade (e por força dela a posse dos eleitos) estava, entre outros, o líder católico, conservador, Sobral Pinto, que voltaria aos nossos palanques quando, novamente unidos, construímos a Frente ampla pelas Diretas-jáque implodiria o colégio eleitoral montado pela ditadura para nomear seu delfim e, rebelado, elegeria Tancredo Neves.
Desaprendemos?
O 24 de janeiro que se aproxima para nós como um desafio é uma etapa, importantíssima, na luta das forças populares contra o governo entreguista e as ameaças crescentes ao processo eleitoral democrático. Por óbvio todos os democratas estarão envolvidos na mobilização popular que visa a expressar a vontade majoritária do povo brasileiro e impedir a usurpação anunciada.
Uma etapa, importantíssima, mas que não encerrará a luta toda. Pode ser, até, apenas um ponto de partida. Para enfrentar o farisaico julgamento político de Lula, quando três juízes podem ditar a sentence redigida pelas forças antipopulares, e as demais ameaças que já estão em laboratório, o primeiro passo é a unidade política das esquerdas, o que não implica necessariamente aliança eleitoral, mas compromissos estratégicos, conditio sine qua non para a formação de uma grande e ampla aliança nacional em defesa da democracia, do desenvolvimento e da soberania nacional.
A esquerdas desunidas fazem a festa da direita; unidas mas isoladas, não terão forças para derrogar o projeto da direita; unificadas em torno de objetivos concretos que não se limitam a eventuais alianças eleitorais, poderão ampliar suas forças para além de seu campo. O caminho óbvio é este: concertar o discurso, adotar um programa mínimo de ação claro e exequível, ampliar sua composição e suas perspectivas de lutas, de sorte a conquistar setores ainda refratários, dialogar com a classe média e liderar os trabalhadores. É preciso conquistar novas forças para vencer nossos adversaries, que jamais estiveram (nem mesmo em 1964) tão unidos como presentemente.
De novo o risco de tomar as aparências como a realidade: é uma extrema tolice confundir a proliferação (tática) de pré-candidaturas reacionárias como divisão da direita. Há algum cisma entre o capital financeiro nacional e internacional, a CNI e a Fiesp, o império midiático, a reação parlamentar, o poder judiciário, a Polícia Federal, o Ministério Público e seus salvacionistas?
Nada disso, porém, deve soar como convite à retomada da política de conciliação que limitou os avanços dos governos Lula e levou ao colapso do governo Dilma. A frente de agora tem um objetivo imediato e concreto: impedir o avanço do programado ataque à democracia.
A primeira tarefa é óbvia, a luta por assegurar eleições limpas e livres de golpes de mão, e a primeira condição é a presença de Lula na disputa. É inadmissível aceitar que três togas substituam o povo brasileiro, representado por um colégio de mais de 140 milhões de leitores. Isso é inadmissível, como é inaceitável qualquer alteração relativa às atribuições do Executivo e às competências do presidente da Republica.
“Presidencialismo mitigado” ou “parlamentarismo à Alemanha” seriam apenas mais um golpe contra as regras constitucionais e a vontade popular que em dois plebiscitos rejeitou o regime de gabinete. É preciso explicar às grandes massas que o enfrentamento ao golpe em processo continuado e ao seu projeto antipopular depende da força da democracia, e que as forças sociais é que são seu sustentáculo.
Vencida essa travessia, estará à nossa frente a via eleitoral e a exigência histórica de um candidato com força suficiente para estancar o desmonte da economia nacional, reconciliar a nação e retomar o desenvolvimento, o que implica, necessariamente, a revogação das principais medidas recessivas e antipopulares do regime ilegítimo.
Ou seja: nosso candidato precisará ganhar em condições de governar.
As forças não petistas, partidárias ou não, muito contribuirão para o avanço coletivo na medida em que entenderem, e não lhes resta muito tempo, que o que está em jogo, correndo risco de vida, não é nem o PT nem Lula, mas o processo democrático, sem o qual dificilmente avançarão os interesses populares, ou sobreviverá o movimento sindical, ou as forças populares e os movimentos sociais de um modo geral. E essa aglutinação de forças é que decidirá o rumo que tomará a História.
Nossas organizações e suas lideranças deverão entender que ninguém e nenhum força de nosso campo avançará sobre eventuais despojos do PT e de Lula, e que é ainda muito cedo, qualquer que seja o resultado do julgamento de 24 de janeiro, para falar no ‘pós-Lula’ (uma utopia dos ‘cientistas’ do sistema), pois sua liderança – e eis uma das poucas evidências que podemos colher do cenário de nossos dias — permanecerá ativa enquanto houver pobres e desamparados neste País.
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O guerreiro que se despede – Havendo dedicado sua vida à luta contra a tragédia social, Pedro Porfírio foi finalmente derrotado pela tragédia biológica, e deixa mais um grande vazio entre os lutadores pela democracia e o socialismo. Conheci-o ainda adolescente, mas já líder estudantil e de esquerda, nos idos dos anos 60, atuando em Fortaleza. Cedo, como muitos de sua geração, migrou para a cidade grande onde cumpriu uma longa carreira como jornalista e escritor e político, trabalhista à moda Pasqualini, e amigo de Leonel Brizola, com quem conviveu e cuja memória reverenciou.
Pelo PDT foi vereador do Rio de Janeiro. Jamais ensarilharia as armas. Quando não mais lhe foi permitido atuar nas redações (já doente, porém, ousou disputar eleições) transformou seu computador em sua arma de guerra e através de seu blog e em seu ‘exílio doméstico’, como chamava sua dacha em Vargem Grande, manteve-se na trincheira da luta, animando-nos, encorajando-nos, mantendo-nos de pé com seu exemplo edificante.
Há passos que passam e pegadas que ficam, como raízes fundas e firmes, diz-nos o Pe. Vieira em seu sermão da Primeira Dominga do Advento. As pegadas de Porfírio permanecerão.O ano que terminou antes
Elmar bones
Politicamente, 2017 terminou em outubro quando o Congresso rechaçou, pela segunda vez, a denúncia contra Temer.
Ali fixou-se um dos marcos que vão balizar as eleições gerais de 2018, quando apenas prefeitos e vereadores vão escapar ao crivo das urnas.
Ali ficou decidido que Temer vai conduzir o processo cuja meta central é a legitimação, pelas urnas, do golpe parlamentar comandado por Eduardo Cunha. Temer fará poses de árbitro, mas tem as cartas e joga de mão.
Tem contra si a impopularidade e a idade. Impopularidade reverte-se com propaganda e mídia a favor, já as crises renais podem surpreender mesmo os melhores médicos.
O outro fator que antecipou o 2018 político foi a campanha popular de Lula pelos Estados, como pré-candidato.
Com seis meses de antecedência ele se firmou como o único em condições de derrotar o golpe nas urnas.
Temer, apesar de todas as evidências, gravações, malas, imagens, só poderá ser investigado quando deixar o cargo.
Lula, com base em evidências questionáveis, já foi condenado e pode ser barrado por uma decisão de três juízes do Tribunal Federal da 4ª Região, em Porto Alegre.
As mobilizações de apoio a Lula prometem transformar Porto Alegre na capital política do Brasil neste janeiro.
Sempre vazia no “veraneio”, a cidade estará irreconhecível.
Este janeiro de 2018 em Porto Alegre, politicamente falando, já está lá em setembro, em plena campanha.
A solidariedade orgânica e o golpe no Brasil
MARÍLIA VERÍSSIMO VERONESE
O texto que segue foi publicado hoje à tarde, como postagem pessoal, no meu perfil da rede social Facebook, numa versão mais curta e mais crua. Procurei adaptá-lo para publicação na coluna do Jornal Já, dando segmento à reflexão do texto anterior, sobre a solidariedade micropolítica e os vínculos sociais que são próprios a nós, humanos organizados em sociedade. A visita que relato aconteceu hoje pela manhã, dia 28 de dezembro de 2017. Procuro ressaltar o aspecto racional de praticar a solidariedade, para além da questão ética e das escolhas morais que fazemos. Relato uma experiência pessoal e em seguida comento o que ela pode significar, em nível de sociedade e de economia – vida coletiva – interdependente.
Em Porto Alegre, quem costuma passar pela avenida Terceira Perimetral, entre a rua Furriel Luiz Antônio de Vargas e a Avenida Anita Garibaldi, já deve ter visto um “acampamento” fixo, de lona preta, na calçada do lado direito, no sentido zona norte; moradores de rua residem no local já há algum tempo, mesmo antes do expressivo aumento do número de moradores de rua em Porto Alegre, agravado em 2017 (efeitos do golpe parlamentar-midiático-judiciário ocorrido no Brasil em 2016, sobre o qual já escrevi anteriormente neste espaço). Sempre passo por lá para chegar no trabalho, em São Leopoldo, distante 30 km da capital. O acesso à saída da cidade dá-se pela avenida Perimetral e é meu caminho quase diário.
Graças ao recesso de final de ano e sua semana de folga, hoje tive tempo de fazer o que pretendia já há meses, ir visitar e conhecer aquelas pessoas e seu cãozinho preto, sempre deitado ali na calçada, preso na coleira. Sabia que eram catadores, por já ter visto o material empilhado ao lado deles.
Quem me atendeu foi o senhor Luiz, que prefere ser chamado de Luizinho. Profissão: catador de material reciclável urbano. Trabalha com seu parceiro, também morador do local, que optou por não se identificar. Já o convidaram para atuar numa cooperativa de reciclagem, mas ele acha melhor fazer seus próprios horários de trabalho, como catador individual, associado a um colega de profissão. O tema da reciclagem e seus desdobramentos sociais me é muito caro, já que como pesquisadora estive ao lado de catadores e catadoras de material reciclável urbano em pesquisas participativas, e também orientei teses e dissertações a respeito; parte desse trabalho pode ser conferido aqui:
Voltando ao Luizinho, que motivou esta reflexão no apagar das luzes de 2017, este me contou que já teve uma casa, mas foi obrigado a desfazer-se dela por deterioração da condição financeira. Ao ser perguntado se poderíamos fazer campanha para arrecadar alguma coisa para eles, consultou o colega, que disse: “Não precisamos de nada no momento”. Luizinho acrescentou: “Mas aceitamos material reciclável para que possamos vender maior quantidade. Não trabalhamos mais com pet, mas latas de alumínio serão muito bem-vindas[1].”
A cachorrinha preta, chamada Giana, é saudável, alegre, quer brincar, pula e lambe. Limpa e de excelente aspecto, ignorou a princípio os Biscrocs que levei para ela (ou seja, não tinha fome), dignando-se a comer um ou dois no final da visita. Estava mais interessada em brincar comigo. Luizinho disse que passeia com ela de manhã bem cedo antes de sair o sol, agora no verão, acrescentando que é castrada, vacinada e ele tem “os papéis que comprovam”.
Dentro da lona que se vê da rua, há dois velhos colchões, lado a lado, e os pertences dos moradores. São, como imaginei, gente boa, pacífica e que trabalha; a precariedade lamentável em que vivem é INACEITÁVEL. Não era para ser assim num país que transfere BILHÕES por dia[2], via mercado financeiro/juros da dívida pública, para uns poucos milionários e bilionários que já não têm mais onde enfiar dinheiro[3]. Segue abaixo o gráfico do orçamento público para 2017, elaborado com base em dados oficiais, disponíveis em sites do governo brasileiro. Metade do orçamento é transferido para credores da dívida brasileira, maioria composta de rentistas, banqueiros e especuladores:
Fonte: Palestra Comprometimento da Saúde e o privilégio do Sistema da Dívida – autoria de Maria Lucia Fattorelli – FIOCRUZ “SAÚDE SEM DÍVIDA E SEM MERCADO” – Saúde: Fontes de financiamento em disputa – Rio de Janeiro, 21 de junho de 2017. PPT disponível em: http://www.auditoriacidada.org.br/palestras-da-auditoria-cidada-2015/
Ou contribuímos para mudar esse país e torná-lo mais digno e justo, ou nos conformamos em sermos seres irracionais, indecentes e detestáveis. Neoliberais têm falado bastante, e já não é de hoje, em renda mínima[4]. Muito criticada, aliás, por algumas correntes da esquerda, mas quer saber? Que seja. Do jeito que as pessoas estão sofrendo hoje, vivendo vidas precárias, na rua, alimentando-se mal, morrendo cedo de doenças evitáveis ou por causa da violência, eu aceitaria uma renda mínima universal, bem como programas de transferência de renda, desde que acompanhados de políticas públicas de trabalho/emprego, moradia, saúde e educação, com PESADOS E CRESCENTES INVESTIMENTOS. Ou seja, o inverso do que hoje é o Brasil.
Mas para isso, temos de combater o golpe e suas políticas recessivas e antissociais. Ou vai piorar muito mais, como já vem piorando. “Ai, não seja moralista!”. Moralismo?! É só o bom e velho Durkheim, meu camarada: solidariedade orgânica. Nada poderia ser mais tradicional em sociologia! Trocas, necessidade do intercâmbio alteritário cotidiano, local e global, sistemas interacionados de trabalho, comércio, urbanidade, comunicação; dependência mútua, o fato social de que precisamos viver juntos num sistema social articulado. “Viver dentro de certa razoabilidade […] o avanço da divisão do trabalho é o que pode evitar a luta irracional pela sobrevivência, haja vista que cada indivíduo desenvolve uma função indispensável à sobrevivência da vida coletiva. ” (Vares, 2013)[5].
Não é uma escolha, para nós humanos. É nossa realidade inevitável, a não ser que queiramos nos tornar ermitões, morar em cima da montanha… e ainda assim, não escaparíamos! Como abastecer a casa, como consumir o mínimo necessário para a sobrevivência, fora da articulação sócio laboral?
Ou é isso, ou é a barbárie; a anomia toma conta e todo mundo se ferra. Neste final de 2017 e prenúncio de um 2018 difícil, um feliz ano novo; ou velho, a gente que escolhe. Tomem tento, cidadãos.

[1] Já de antemão, portanto, peço aos amig@s que lerem este texto: ao passar por ali, levem suas latas de cerveja/refrigerante para eles, o Luizinho é afável e receptivo; as festas de fim de ano devem gerar boa quantidade. Vira renda e um pouco mais de qualidade de vida para eles e para Giana.
[2] http://tomoeditorial.com.br/catalogo.php?id=733 (Cattani, A. e Oliveira, M. A sociedade Justa e seus Inimigos. Tomo Editorial, 2016).
[3] http://www.auditoriacidada.org.br/
[4] http://epocanegocios.globo.com/Revista/noticia/2017/07/bilionarios-do-setor-de-tecnologia-embarcam-no-movimento-da-renda-basica-universal.html
[5] VARES, Sidnei Ferreira de. Solidariedade mecânica e solidariedade orgânica em Émile Durkheim: dois conceitos e um dilema. Mediações – Revista de Ciências Sociais. v. 18, n. 2, Londrina, 2013. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/viewFile/17317/13807A solidariedade orgânica e o golpe no Brasil
MARÍLIA VERÍSSIMO VERONESE
O texto que segue foi publicado hoje à tarde, como postagem pessoal, no meu perfil da rede social Facebook, numa versão mais curta e mais crua. Procurei adaptá-lo para publicação na coluna do Jornal Já, dando segmento à reflexão do texto anterior, sobre a solidariedade micropolítica e os vínculos sociais que são próprios a nós, humanos organizados em sociedade. A visita que relato aconteceu hoje pela manhã, dia 28 de dezembro de 2017. Procuro ressaltar o aspecto racional de praticar a solidariedade, para além da questão ética e das escolhas morais que fazemos. Relato uma experiência pessoal e em seguida comento o que ela pode significar, em nível de sociedade e de economia – vida coletiva – interdependente.
Em Porto Alegre, quem costuma passar pela avenida Terceira Perimetral, entre a rua Furriel Luiz Antônio de Vargas e a Avenida Anita Garibaldi, já deve ter visto um “acampamento” fixo, de lona preta, na calçada do lado direito, no sentido zona norte; moradores de rua residem no local já há algum tempo, mesmo antes do expressivo aumento do número de moradores de rua em Porto Alegre, agravado em 2017 (efeitos do golpe parlamentar-midiático-judiciário ocorrido no Brasil em 2016, sobre o qual já escrevi anteriormente neste espaço). Sempre passo por lá para chegar no trabalho, em São Leopoldo, distante 30 km da capital. O acesso à saída da cidade dá-se pela avenida Perimetral e é meu caminho quase diário.
Graças ao recesso de final de ano e sua semana de folga, hoje tive tempo de fazer o que pretendia já há meses, ir visitar e conhecer aquelas pessoas e seu cãozinho preto, sempre deitado ali na calçada, preso na coleira. Sabia que eram catadores, por já ter visto o material empilhado ao lado deles.
Quem me atendeu foi o senhor Luiz, que prefere ser chamado de Luizinho. Profissão: catador de material reciclável urbano. Trabalha com seu parceiro, também morador do local, que optou por não se identificar. Já o convidaram para atuar numa cooperativa de reciclagem, mas ele acha melhor fazer seus próprios horários de trabalho, como catador individual, associado a um colega de profissão. O tema da reciclagem e seus desdobramentos sociais me é muito caro, já que como pesquisadora estive ao lado de catadores e catadoras de material reciclável urbano em pesquisas participativas, e também orientei teses e dissertações a respeito; parte desse trabalho pode ser conferido aqui:
Voltando ao Luizinho, que motivou esta reflexão no apagar das luzes de 2017, este me contou que já teve uma casa, mas foi obrigado a desfazer-se dela por deterioração da condição financeira. Ao ser perguntado se poderíamos fazer campanha para arrecadar alguma coisa para eles, consultou o colega, que disse: “Não precisamos de nada no momento”. Luizinho acrescentou: “Mas aceitamos material reciclável para que possamos vender maior quantidade. Não trabalhamos mais com pet, mas latas de alumínio serão muito bem-vindas[1].”
A cachorrinha preta, chamada Giana, é saudável, alegre, quer brincar, pula e lambe. Limpa e de excelente aspecto, ignorou a princípio os Biscrocs que levei para ela (ou seja, não tinha fome), dignando-se a comer um ou dois no final da visita. Estava mais interessada em brincar comigo. Luizinho disse que passeia com ela de manhã bem cedo antes de sair o sol, agora no verão, acrescentando que é castrada, vacinada e ele tem “os papéis que comprovam”.
Dentro da lona que se vê da rua, há dois velhos colchões, lado a lado, e os pertences dos moradores. São, como imaginei, gente boa, pacífica e que trabalha; a precariedade lamentável em que vivem é INACEITÁVEL. Não era para ser assim num país que transfere BILHÕES por dia[2], via mercado financeiro/juros da dívida pública, para uns poucos milionários e bilionários que já não têm mais onde enfiar dinheiro[3]. Segue abaixo o gráfico do orçamento público para 2017, elaborado com base em dados oficiais, disponíveis em sites do governo brasileiro. Metade do orçamento é transferido para credores da dívida brasileira, maioria composta de rentistas, banqueiros e especuladores:
Fonte: Palestra Comprometimento da Saúde e o privilégio do Sistema da Dívida – autoria de Maria Lucia Fattorelli – FIOCRUZ “SAÚDE SEM DÍVIDA E SEM MERCADO” – Saúde: Fontes de financiamento em disputa – Rio de Janeiro, 21 de junho de 2017. PPT disponível em: http://www.auditoriacidada.org.br/palestras-da-auditoria-cidada-2015/
Ou contribuímos para mudar esse país e torná-lo mais digno e justo, ou nos conformamos em sermos seres irracionais, indecentes e detestáveis. Neoliberais têm falado bastante, e já não é de hoje, em renda mínima[4]. Muito criticada, aliás, por algumas correntes da esquerda, mas quer saber? Que seja. Do jeito que as pessoas estão sofrendo hoje, vivendo vidas precárias, na rua, alimentando-se mal, morrendo cedo de doenças evitáveis ou por causa da violência, eu aceitaria uma renda mínima universal, bem como programas de transferência de renda, desde que acompanhados de políticas públicas de trabalho/emprego, moradia, saúde e educação, com PESADOS E CRESCENTES INVESTIMENTOS. Ou seja, o inverso do que hoje é o Brasil.
Mas para isso, temos de combater o golpe e suas políticas recessivas e antissociais. Ou vai piorar muito mais, como já vem piorando. “Ai, não seja moralista!”. Moralismo?! É só o bom e velho Durkheim, meu camarada: solidariedade orgânica. Nada poderia ser mais tradicional em sociologia! Trocas, necessidade do intercâmbio alteritário cotidiano, local e global, sistemas interacionados de trabalho, comércio, urbanidade, comunicação; dependência mútua, o fato social de que precisamos viver juntos num sistema social articulado. “Viver dentro de certa razoabilidade […] o avanço da divisão do trabalho é o que pode evitar a luta irracional pela sobrevivência, haja vista que cada indivíduo desenvolve uma função indispensável à sobrevivência da vida coletiva. ” (Vares, 2013)[5].
Não é uma escolha, para nós humanos. É nossa realidade inevitável, a não ser que queiramos nos tornar ermitões, morar em cima da montanha… e ainda assim, não escaparíamos! Como abastecer a casa, como consumir o mínimo necessário para a sobrevivência, fora da articulação sócio laboral?
Ou é isso, ou é a barbárie; a anomia toma conta e todo mundo se ferra. Neste final de 2017 e prenúncio de um 2018 difícil, um feliz ano novo; ou velho, a gente que escolhe. Tomem tento, cidadãos.

[1] Já de antemão, portanto, peço aos amig@s que lerem este texto: ao passar por ali, levem suas latas de cerveja/refrigerante para eles, o Luizinho é afável e receptivo; as festas de fim de ano devem gerar boa quantidade. Vira renda e um pouco mais de qualidade de vida para eles e para Giana.
[2] http://tomoeditorial.com.br/catalogo.php?id=733 (Cattani, A. e Oliveira, M. A sociedade Justa e seus Inimigos. Tomo Editorial, 2016).
[3] http://www.auditoriacidada.org.br/
[4] http://epocanegocios.globo.com/Revista/noticia/2017/07/bilionarios-do-setor-de-tecnologia-embarcam-no-movimento-da-renda-basica-universal.html
[5] VARES, Sidnei Ferreira de. Solidariedade mecânica e solidariedade orgânica em Émile Durkheim: dois conceitos e um dilema. Mediações – Revista de Ciências Sociais. v. 18, n. 2, Londrina, 2013. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/viewFile/17317/13807Tico-tico no radar da Águia
Geraldo Hasse
Toda vez que surge uma notícia como essa – “Boeing quer fazer acordo operacional com a Embraer” – vem à minha lembrança a frase de um empresário do interior paulista a propósito da abertura da economia brasileira aos capitais internacionais.
Por volta de 1982, quando eram fortíssimas as pressões para “entregar” ativos nacionais ao capital estrangeiro, aquele empresário disse: “Sou a favor da preservação das empresas brasileiras, mas o Brasil bem que pode seguir o caminho do Canadá, que adotou o dólar como moeda canadense e a bandeira dos Estados Unidos como símbolo nacional”.
Ele acreditava que o Canadá havia feito uma opção inteligente, tornando-se uma espécie de protetorado ianque com alto nível de vida – uma colônia moderna, por assim dizer, com muito mais peso econômico do que outros países anexados pelos EUA, como o Havaí e Porto Rico, para citar apenas territórios americanos. Além disso, o Canadá desfruta de alguns luxos, como a relativa autonomia da província francesa de Quebec. Com sua mania de bancar o independente, o governo canadense autorizou a indústria aeronáutica Bombardier a fazer uma aliança estratégica com a Airbus francobritânica. A Boeing não gostou e resolveu fazer uma proposta à Embraer, a grande concorrente da Bombardier no mercado de jatos comerciais de 100 a 150 assentos.
E daí?
Daí que não há muitos meios de escapar da voz de comando emitida por Washington. Mais de 30 anos atrás o mesmo empresário paulista dizia realisticamente que “tudo volta para Manhattan”, numa alusão direta ao poder do dólar não apenas sobre a economia mundial, mas sobre o poder político das nações, os movimentos ecológicos e todos os serviços (justiça, diplomacia, segurança, educação, saúde) tutelados pelo Império ianque com a cumplicidade de seus sócios em Bonn, Londres, Tóquio etc.
Infelizmente, já nos acostumamos com a ingerência ianque nos negócios internos de outros países como Afeganistão, Coreia do Sul, Cuba, Guatemala, Honduras, Iraque, México, Nicarágua, Síria, Turquia, Vietname etc. E a pergunta da hora é: nessa batida, onde vamos parar?
Estamos vendo agora que a governança norte-americana impõe seus valores (e interesses) até sobre o mundo da bola (FIFA), que sempre desfrutou de total liberdade.
Logicamente, faz parte do jogo enquadrar o Brasil, um dos dez maiores PIB do mundo e dono de uma das principais reservas de petróleo do planeta.
Assim, se a gigantesca Boeing deixou claro que está a fim de assenhorear-se da Embraer, a única coisa a estranhar é que o chefe de plantão no Palácio do Planalto tenha resolvido dar o contra.
Se o que caracteriza o governo-tampão presidido por Michel Temer é a submissão à vontade do(s) Mercado(s) – veja o que está acontecendo com a Embrapa, a Petrobras e a Eletrobras –, como se explica esse súbito NÃO?
Pode-se desconfiar que o NÃO dele seja um despiste ordinário para ganhar tempo — a clássica colocação de dificuldades para vender facilidades.
Mas há outra hipótese para a negativa presidencial: é que o meganegócio aeronáutico não agrada aos militares, já que a operação da Embraer tem a ver com a segurança nacional, ou seja, afeta de modo agudo a soberania nacional.
Em outras palavras, o negócio da Embraer foge à alçada do presidente em exercício.
Falta-lhe teto para esse voo.
Como na fábula célebre, o rei ficou nu.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Deveis ter sempre em vista que é loucura o esperar uma nação favores desinteressados de outra; e que tudo quanto uma nação recebe como favor terá de pagar mais tarde como uma parte da sua independência”.
George Washington, citado por Golbery de Couto e Silva na página 62 de seu livro “Geopolítica do Brasil” (Editora José Olympio, 3ª.edição, 1981)

Fonte: Palestra Comprometimento da Saúde e o privilégio do Sistema da Dívida – autoria de Maria Lucia Fattorelli – FIOCRUZ “SAÚDE SEM DÍVIDA E SEM MERCADO” – Saúde: Fontes de financiamento em disputa – Rio de Janeiro, 21 de junho de 2017. PPT disponível em: 