Geraldo Hasse*
A cada livro – a conta já passou de 15 –, o repórter-historiador Rafael
Guimaraens vai se aperfeiçoando como ficcionista escolado, mas sem se
afastar da trilha segura da pesquisa histórica em cima de episódios do
mundo policial. Em seu último livro, 1935 (Libretos, 336 páginas), lançado
na última feira do livro (virtual) de Porto Alegre, ele mescla reportagem
policial com invenção literária e, numa trama extremamente hábil, produz
uma estupenda novela de costumes em que se entrecruzam policiais,
jornalistas, políticos, prostitutas, gigolôs, advogados e contrabandistas.
A personagem central da história é Paulo Koetz, repórter policial-narrador
que se envolve em diversas ocorrências do ano em que o governo gaúcho
monta uma grande festa-exposição para comemorar o centenário da
revolução farroupilha (1835-1845). Enquanto cobre acontecimentos em
Porto Alegre, ele se envolve com uma bailarina “francesa” explorada por
uma organização mafiosa e frequenta escritórios de profissionais liberais
esquerdistas vigiados pelo governo de Flores da Cunha, o caudilho
provinciano que mira o lugar de Getúlio Vargas na Presidência da
República. É uma narrativa praticamente pronta para virar roteiro de
cinema.
Paulo Koetz é uma personagem ficcional baseada em fatos reais. Esse
nome consta dos bastidores da história d’A Dama da Lagoa, livro de
Rafael Guimaraens que explora o caso do assassinato de uma jovem de
Porto Alegre cujo corpo foi jogado na Lagoa dos Barros, em Santo Antonio
da Patrulha, no início da década de 1040. Em 1935, Koetz aparece como
ex-estudante de direito, tem 24 anos, trabalha como repórter do Correio
do Povo e sonha ser chamado pela Revista do Globo, onde seu primo, o
artista plástico Edgar Koetz (1914-1969), trabalha como ilustrador sob a
direção de Erico Verissimo nos primórdios da carreira literária.
Esses vínculos entre a realidade e a fantasia constituem um dos charmes
do livro, que explora com eficácia e lucidez fatos e vivências de uma
cidade em franca transformação. O repórter conhece o psiquiatra e
escritor Dyonelio Machado, preso como agitador comunista e visitado na cadeia por ninguém menos do que o cronista Rubem Braga, um dos
jornalistas brasileiros convidados para a inauguração da exposição no dia
20 de setembro de 1935. Koetz vai junto e contracena com os dois
escritores rebeldes.
A novela cresce à medida que o repórter-narrador mergulha nos
subterrâneos da vida político-policial portoalegrense. Vai de trem a
Taquara a fim de desvendar o crime do sapatinho vermelho – uma jovem
é degolada por um veterano da revolução de 1893. Embora seja um
aprendiz do ofício, troca informações com o patrão Breno Caldas, herdeiro
do Correio do Povo, sobre frequentadores do Jockey Clube suspeitos de
bandalheiras internacionais. Assiste ao Gre-Nal do Centenário, destacando
a figura de Lara, o goleiro que sai de campo para o hospital e, pouco
depois, morre tuberculoso.
Mais de uma vez tenta mas não consegue uma mesa no restaurante Gambrinus, sempre lotado, no Mercado Público. Esforça-se por ajudar o advogado Apparicio Cora de Almeida a desvendaro mistério do assassinato de Waldemar Ripoll, morto a machadadas em1934 por pregar um golpe contra o governador Flores da Cunha (Cora de
Almeida morre com um tiro atrás da orelha direita, tendo prevalecido a
versão policial de que ele cometeu suicídio involuntário).
A trama narrada na primeira pessoa tem o máximo rendimento quando o
repórter Koetz, operando como investigador autônomo, furta documentos
do escritório de um contrabandista judeu, abrindo caminho para que a
polícia capture uma quadrilha internacional especializada na extorsão de
“escravas brancas” européias, especialmente as “polaquinhas” obrigadas
a trabalhar como prostitutas. Tudo isso é bastante verossimel numa cidade coalhada de alemães ou descendentes em que o maior empresário local, o industrial do vestuário A. J. Renner, usa um bigode semelhante ao de Adolf Hitler, líder do nazismo na Alemanha. Claro que o repórter só ganha tanta coragem para salvar a vida da sua querida namorada Juliette, aliás Agniezka, originária da Polônia. Com seu 1935, afinal de contas, Rafael Guimaraens avança como mestre num tipo de narrativa que mistura jornalismo, literatura e política, explorando habilmente fatos e costumes de uma época em que a provinciana Porto Alegre adquire ares de metrópole e entroniza Erico Verissimo como um dos maiores romancistas do Brasil.
Nascido em 1956 em Porto Alegre, filho do jornalista Carlos Guimaraens e
neto do poeta Eduardo idem, Rafael sempre trabalhou com a escrita.
Formado em jornalismo na PUCRS, começou como repórter e foi dirigente
da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (Coojornal), que existiu de
1974 a 1982. Desde a segunda metade dos anos 70, fez parte do núcleo de
jornalismo histórico da Coojornal, cujos integrantes selecionavam temas
passíveis de pesquisa para publicação em forma de reportagens mais
alentadas. De certa forma, Rafael se manteve nessa trilha histórica,
tornando-se um escritor especialista em reportagens aptas a virar livros
–essa mesma vertente tem sido explorada por outros ex-membros da
cooperativa atuantes em Porto Alegre: Elmar Bones (jornal Já), por
exemplo, explora histórias dos poderosos da política; já Jorge Polydoro
(revista Amanhã) focaliza os poderosos do mundo empresarial.
Em mais de uma dezena de livros, todos editados pela Libretos, fundada
em 1997 por Clo Barcellos, jornalista especializada em design editorial,
Rafael passou a limpo diversas histórias de Porto Alegre, entre elas a
famosa enchente de 1941. Um dos pontos altos de sua trajetória é O
Sargento, o Marechal e o Faquir (Libretos, 2016), que reconta a história da
prisão, tortura e morte do sargento Raimundo Soares, tristemente célebre
como protagonista-vítima do Caso das Mãos Amarradas, de 1966, nos
primeiros anos da ditadura militar.
Com experiência em assessoria de imprensa de políticos petistas – Olivio
Dutra e Flavio Koutzii –, Rafael nunca trabalhou fora de Porto Alegre,
embora tenha recebido propostas para trabalhar em grandes veículos no
Rio, em São Paulo e Brasília. Há dois anos aposentou-se, com o que passou
a dispor de mais tempo para pesquisar e escrever.
Embora tenha passado a fazer parte do primeiro time dos escritores
gaúchos, ele não tira o próprio sustento da venda dos seus livros —
importantes, porém, para a sustentabilidade da Editora Libretos, para a
qual trabalha exclusivamente desde 2006.
- Jornalista, pesquisador e escritor.