Autor: da Redação

  • Galeria Gravura abre as mostras “Muitos Mundos” e “Do Descarte à Superfície”

    Galeria Gravura abre as mostras “Muitos Mundos” e “Do Descarte à Superfície”

    A Gravura Galeria de Arte abre duas novas exposições na terça-feira, dia 7 de abril: “Muitos Mundos”, da artista visual Andréia Moll, e “Do Descarte à Superfície”, da artista Leonor Moura. As mostras têm curadoria de Letícia Lau.

    As inaugurações acontecem das 18h30 às 20h30. As obras de “Muitos Mundos” ocupam a sala Negra, e os trabalhos de “Do Descarte à Superfície”, a sala Branca da Gravura, dirigida pela galerista e arquiteta Regina Galbinski.

    Ambas as exposições são propostas por duas artistas visuais integrantes do VW Atelier Coletivo, com longa prática artística. Cada uma desenvolve investigações que atravessam seus posicionamentos diante da realidade e dos modos de habitar o mundo.

    Obra de Andréia Moll. Reprodução

    De acordo com a curadora, Muitos Mundos surge a partir de uma pergunta simples: O que é realidade? Pensando na teoria ontológica de realidades ramificadas, a artista busca pelo cerne, ou como ela afirma, o ‘mundo principal’, diante da pluralidade de universos singulares simbolizado por esferas evidenciadas em suas pinturas e monotipias.

    Referindo-se à mostra Do Descarte à Superfície, Lau  observa que “consumimos sem ver. Descartamos sem perceber. Aqui, tudo volta à superfície”.

    Obra de Leonor Moura. Reprodução

    Vivência diversificada

    Andréia Moll morou na Finlândia, Venezuela, México, Holanda e Estados Unidos. A pluralidade de ambientes impulsionou sua pesquisa, que se concentra nos fatores envolvidos na construção das visões de mundo individuais.

    Seus trabalhos, em desenho, pintura, fotografia e colagem, partem de uma pergunta “simples e vertiginosa”: em que mundo, afinal, vivemos?

    “Em um tempo marcado pela multiplicação de telas, notícias e experiências mediadas, a exposição propõe uma pausa reflexiva. Como estabelecemos conexões entre as diferentes “realidades” que nos chegam a cada contato humano, a cada manchete, a cada novo aplicativo? E, para além da fragmentação, existe uma realidade primeira — um fundamento ao qual valha a pena retornar?”, reflete ela.

    Ético e sustentável

    O trabalho de Leonor Moura envolve o uso de itens que a maioria das pessoas despreza: embalagem, papel de presente, enchimento de uma caixa de sapatos, etc.

    Mais do que uma escolha estética, essa prática carrega uma postura ética. Ao ressignificar resíduos do consumo cotidiano, Leonor acredita que insere em sua obra o conceito de sustentabilidade, não como tema declarado, mas como método vivido.

    A artista coleciona e arquiva esse material organizando-o por tipo, cor, textura e espessura. Na produção das pinturas, os fragmentos são dispostos sobre telas preparadas com tinta acrílica. Colados e agrupados por afinidades de cor, textura ou transparência, eles assumem o papel da mancha pictórica: substituem a tinta, dialogam com ela, constroem camadas.

    O resultado é um híbrido entre pintura e colagem que provoca uma dupla percepção: de longe, as obras revelam composições abstratas de grande força visual; de perto, a materialidade dos papéis — suas dobras, fibras e histórias — emerge com toda a sua presença física reveladas na superfície. É um convite para pensarmos em consciência ambiental e transformação.

    Visitação: de 7 abril de 2026 a 09 de maio de 2026.

    Vernissage: 7 de abril de 2026, das 18:30 às 20:30.

    Horários: segunda a sexta-feira, das 9h30 às 18h30; sábados, das 9h30 às 13h30.

    Local: Gravura Galeria de Arte – Rua Corte Real, 647 – Petrópolis, Porto Alegre – RS

    Entrada franca

  • Artista visual gaúcha celebra os 70 anos de “Grande Sertão: Veredas” na ABL

    Artista visual gaúcha celebra os 70 anos de “Grande Sertão: Veredas” na ABL

    A artista visual gaúcha Graça Craidy não poderia desejar outro local para expor sua coleção de retratos de personagens do livro “Grande Sertão: Veredas”, no momento em que a obra-prima do imortal João Guimarães Rosa completa 70 anos de seu lançamento, a Academia Brasileira de Letras.

    É justamente na ABL que a mostra “Grande Sertão”, de Graça, será inaugurada terça-feira (31/03), às 17h. E lá permanecerá até 29 de maio, aberta à visitação das 10h às 18h, no 1º andar do Palácio Austregésilo de Athayde, à Av. Presidente Wilson, 203, Centro do Rio de Janeiro.

    Guimarães Rosa no cerrado. Reprodução

    O atual ocupante da Cadeira nº 2 da academia, Eduardo Giannetti, escreveu um texto inédito, especialmente para a mostra, pelo fato de Guimarães Rosa ter ocupado, no passado, a mesma cadeira.

     “Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande Sertão completa 70 anos mais vivo – e necessário – que nunca. Poesia ou prosa? Erudito ou popular? Culto ou chulo? Fiel ou fabular? Sério ou lúdico? Jorro ou cálculo? No épico sertanejo de Guimarães Rosa, os opostos não se opõem. Como na vida, misturam-se”, sustenta, no primeiro parágrafo de seu texto, o titular da cadeira fundada por Coelho Neto e que tem como patrono o poeta Álvares de Azevedo(leia a íntegra do texto de Giannetti ao final).

    Riobaldo e Diadorim

    Natural de Ijuí e radicada em Porto Alegre, Graça, de 74 anos, apresenta 17 quadros e um tríptico, em acrílica sobre tela e sobre papel. Nas obras, os principais personagens do livro ganham feições físicas inspiradas pela narrativa, inclusive levando em conta a personalidade e o comportamento traçados pelo autor. Entre os personagens retratados estão, por exemplo, Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo, Manuelzão, Maria Mutema, Otacília, Nhorinhá, Sô Candelário, Os Ramiros, Medeiros Vaz.

    Jagunço Hermógenes

    O próprio Guimarães Rosa aparece, em um dos trabalhos, embrenhando-se no Cerrado, a cavalo, junto com vaqueiros – a excursão de fato aconteceu, na fase em que o escritor coletava informações para escrever a obra.

    Graça não só é uma leitora constante do romance como fez um curso – “Travessia” – sobre o livro, debatido durante meses com a professora da USP Maria Cecília Marks, especialista na obra literária.

    A artista gaúcha também pesquisou em teses, monografias e ensaios sobre a ficção e assistiu algumas vezes ao monólogo “Riobaldo”, protagonizado pelo ator carioca Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad.

    A prostituta Nhorinhá

    “Me sinto muito honrada por expor na ABL. Agradeço à academia, em especial ao acadêmico Antonio Carlos Secchin, Secretário-Geral e coordenador do Ciclo de Conferências Vida de Artistas, por acolher outra linguagem artística na homenagem a uma obra literária tão importante, e a Guimarães Rosa”, diz a artista.

    Manuelzão

    “Espero que os visitantes se encantem com a história em quadros do meu ‘Grande Sertão’ particular, expressionista, apaixonado, de cores turvas, ternas e terrosas. Em cada personagem, cena, gesto, o meu gentil convite para despertar nas pessoas o desejo de ler esse grande romance”, acrescenta Graça.

     

    “Experiência transpsíquica”

    Os originais do livro foram entregues à editora José Olympio em fevereiro de 1956. Em carta a seu colega de Itamaraty, Azeredo da Silveira, o escritor, que também era diplomata, relatou: “Passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairando, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia. Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente”.

    Riobaldo na velhice

     O romance chegou às livrarias em meados de julho daquele ano. Aclamado pela crítica, foi escolhido como o melhor livro de 1956, venceu o Prêmio Machado de Assis do Instituto Nacional do Livro, o prêmio Carmen Dolores Barbosa, o prêmio Paula Brito e, em junho de 1961, o Prêmio Machado de Assis da ABL pelo conjunto da obra. “Grande Sertão: Veredas” constou da lista dos “100 melhores livros de todos os tempos” organizada, em 2002, pelo Clube do Livro da Noruega (Norwegian Book Club). O destaque do texto deu-se principalmente pelas inovações linguísticas.

     A exposição “Grande Sertão” foi montada, pela primeira vez, em Porto Alegre, em novembro de 2024, paralelamente à Feira do Livro, e permaneceu em cartaz até 20 de dezembro, no Clube do Comércio. 

    *Íntegra do texto do acadêmico Eduardo Giannetti, atual ocupante da Cadeira nº 2 da ABL, que foi de João Guimarães Rosa.

     “Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande sertão completa 70 anos mais vivo – e necessário – que nunca. Poesia ou prosa? Erudito ou popular? Culto ou chulo? Fiel ou fabular? Sério ou lúdico? Jorro ou cálculo? No épico sertanejo de Guimarães Rosa, os opostos não se opõem. Como na vida, misturam-se.

     A prosa poética rosiana instaura um universo linguístico todo seu. Ela não se reduz a instrumento a serviço de uma narrativa, mas pertence à realidade sertaneja por ela recriada com a mesma potência, vivacidade e força dos seus personagens. O dito e o modo de dizer em uníssono: acorde perfeito. O sertão feito verbo.

    Diadorim morta

    Grande Sertão mira o esquivo: o que não se deixa falar – e cala. O ponto exato em que o singular absurdo de cada consciência individual, no que ela tem de mais intratável, caprichosa e incomunicável, rompe o dique, vence o estreito e roça a outra margem. A visão-lampejo do incomum nas veias da vida comum. Em Rosa, o impulso criador está a serviço de um propósito definido: o reencantamento do mundo pela presença do mistério. O trêmulo júbilo na alma”.

     Riobaldo em crise

  • Virada sustentável apresenta exposição de Araquém Alcântara

    Virada sustentável apresenta exposição de Araquém Alcântara

    A Virada Sustentável apresenta, entre suas atrações comemorativas dos 10 anos, a exposição: O Brasil de Araquém Alcântara. Será no dia 21 de março, às 17h, na Galeria Escadaria do píer da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre.

    Esta exposição contém fragmentos visuais de um Brasil que pulsa para além das fronteiras urbanas, capturado pelo olhar sensível de Araquém Alcântara. Através destas imagens, somos convidados para uma jornada pelos territórios onde água, luz e vida selvagem compõem uma gramática do existir.

    Araquém Alcântara, um dos mais importantes fotógrafos e precursor da fotografia de natureza do Brasil, dedicou sua vida a registrar a vida em nossos biomas.

    Com mais de cinco décadas de trabalho, sua câmera se transforma em instrumento de resistência e memória, documentando simultaneamente a exuberância e a fragilidade dos ecossistemas brasileiros.

    A proposta é sensibilizar o público para a preservação da biodiversidade ao revelar sua plena exuberância no território mato-grossense: Amazônia, Cerrado e Pantanal.

    Nestas fotografias, vemos um país-organismo vivo, na onça vigilante, na mata fechada, no pescador que corta o rio como extensão de si mesmo, nas vitórias-régias que flutuam como planetas aquáticos. 

    O fotógrafo revela um Brasil das fronteiras dissolvidas – onde a água vira céu nos reflexos perfeitos, onde luz esculpe silhuetas, onde o encontro entre preservação e desaparecimento permanece em tenso equilíbrio.

    Fotos Araquém Alcântara

    Virada Sustentável

    A cidade de Porto Alegre recebe, entre os dias 18 e 22 de março, a 10ª edição da Virada Sustentável, evento que se consolidou como um dos maiores movimentos de cultura e conscientização ambiental do país. Dentro da programação, o Festival Multiartes ganha destaque ao reunir diferentes manifestações artísticas que dialogam com a sustentabilidade e a relação entre natureza e vida urbana.

    Mais informações da Virada no insta do evento

  • Artista visual Erico Santos homenageia os 254 anos de Porto Alegre

    Artista visual Erico Santos homenageia os 254 anos de Porto Alegre

    A Gravura Galeria de Arte homenageia os 254 anos de Porto Alegre com uma exposição do artista visual Erico Santos que retrata locais históricos da capital.

    A Sala Negra da galeria, na Rua Coronel Corte Real, 647, bairro Petrópolis, recebe dez telas a óleo em que Erico usa paleta vibrante e harmoniosa, que transmite uma sensação de luminosidade, de acordo com análise do professor de artes José Francisco Alves.

    Erico Santos diante da Ponte de Pedra. Um dos locais homenageados pelo artista. Foto Carlos Souza/Divulgação

    A abertura da mostra “Erico Santos por Porto Alegre” acontece nesta quinta-feira, 19/03, das 17h às 19h, e a visitação se estende até 31 de março.

    Já o professor Armindo Trevisan diz que Erico não abstrai do legado figurativo que devemos aos grandes mestres do passado: “É uma estética que, sem pedantismo nem pretensão, se mostra superior, e alérgica ao consumismo visual”.

    Entre os trabalhos estão, por exemplo, os que retratam a Ponte de Pedra (construída entre 1848 e 1854), o Viaduto da Borges (inaugurado em 1932) e o Monumento aos Açorianos, criado pelo artista Carlos Tenius, em tributo aos imigrantes que deram origem à cidade, cuja data de aniversário é 26 de março.

    Ampliando a amostragem das obras, pode-se citar ainda as pinturas da Igreja Nossa Senhora das Dores, construída em 1807 e elevada à condição de Basílica Menor pelo Papa Francisco, em 2022; e a Praça Montevidéu, de um ângulo que contempla a Fonte Talavera da la Reina, criada em 1855 pelo ceramista espanhol Juan Ruiz de Luna, o Museu do Paço (prédio da antiga prefeitura), de 1901, e o Mercado Público, inaugurado em 1869. 

    Nascido em Cacequi, Erico Santos, de 74 anos de idade e 51 de carreira, morou em Santa Maria e São Paulo, antes de se estabelecer em Porto Alegre. Há cerca de 20 anos divide-se entre a capital gaúcha e Milão, onde também tem ateliê.

    Bastante conhecido no estado e fora dele pelo tema das colhedeiras de flores, Erico, na exposição da Gravura, usa “tons quentes e frios que proporcionam um contraste equilibrado, em composição que confere profundidade”, acrescenta o professor Francisco Alves na sua análise. “As pinceladas soltas e expressivas de Erico, e o uso da luz e sombra, sugerem uma atmosfera dinâmica e cheia de movimento”, enfatiza o especialista. 

  • OSPA e grandes nomes da música gaúcha celebram 400 Anos das Missões

    OSPA e grandes nomes da música gaúcha celebram 400 Anos das Missões

    Para celebrar os quatro séculos das Missões Jesuíticas Guaranis a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) promove um encontro artístico com a tradição gaúcha no concerto “400 Anos das Missões”. Sob regência de Manfredo Schmiedt, orquestra e artistas missioneiros convidados interpretam algumas das canções mais representativas da região. Promovido pela Secretaria da Cultura (Sedac), a apresentação ocorre no Complexo Cultural Casa da OSPA na sexta-feira (13/3), às 20h. Os ingressos custam entre R$ 15 e R$ 70 na plataforma Sympla. O concerto também será transmitido ao vivo pelo canal da OSPA no Youtube.

    A apresentação reúne no palco da Casa da OSPA a histórica Família Ortaça, que será representada por Marianita, Gabriel e Alberto Ortaça, filhos de Pedro Ortaça — último “Tronco Missioneiro” vivo e referência da cultura popular missioneira.

    Família Ortaça. Foto Divulgação/OSPA

    Como participações especiais, o concerto contará com o contrabaixista uruguaio Miguel Tejera, reconhecido por sua atuação na cena instrumental sul-americana, e o violonista, compositor e produtor Guilherme Castilhos, premiado em importantes festivais do Estado.

    O repertório valoriza sobretudo os quatro representantes do tronco missioneiro: Pedro Ortaça, Cenair Maicá, Jayme Caetano Braun e Noel Guarany. “Esses quatro nomes são a essência desse concerto, cada um tem pelo menos uma obra bem importante presente no repertório. Além disso, temos outras obras que foram de festivais e outros eventos ao redor das missões”, comenta o diretor artístico da OSPA, Manfredo Schmiedt.

    A ponte entre a música regional e a sonoridade sinfônica foi construída com arranjos inéditos compostos pelo violinista da OSPA Dhouglas Umabel, que tem formação clássica, mas também ampla experiência em festivais de música regional gaúcha. Todos os arranjos do concerto, com exceção de “Milonga para as Missões”, que foi arranjada pelo violinista da OSPA Arthur Barbosa, são de Umabel. 

    Participam ainda nomes consagrados como Lucio Yanel, um dos pilares do violão solista na música sulina; Ernesto Fagundes e Neto Fagundes, representantes de uma linhagem que mantém viva a tradição do Pampa em diálogo com a contemporaneidade; Shana Müller, uma das principais vozes femininas da música regional e latino-americana; Érlon Péricles, compositor de destaque e autor recorrente dos temas dos Festejos Farroupilhas; Patrício Maicá, herdeiro artístico de Cenair Maicá; Laura Guarany, intérprete da tradição missioneira e da herança de Noel Guarany; Lincon Ramos, gaiteiro, cantor e multi-instrumentista com três décadas de atuação; e Angelo Franco, cantor e compositor com mais de seiscentas músicas gravadas e trajetória marcada pela integração cultural missioneira.

    O espetáculo está estruturado em três partes temáticas: “Parte I – O Grito e a Resistência”, que evoca o trabalho de Pedro Ortaça na preservação da tradição; “Parte II – A Alma, o Verso e a Mística”, que ressalta o lirismo do cancioneiro regional, incluindo o poema campeiro “Bochincho”, de Jayme Caetano Braun; a “Parte III – Legado, União e Fronteiras” reafirma os laços entre passado e presente com obras como Veterano (Antônio Augusto Ferreira / Ewerton Ferreira) e Milonga para as Missões (Gilberto Monteiro); e o encerramento traz de volta ao palco todos os artistas convidados para interpretar o emocionante “Canto dos Livres” (Cenair Maicá). “É um repertório que fala das músicas da região das Missões, mas também como isso se espalhou pelo Rio Grande do Sul e formou a nossa cultura de música tradicional gaúcha”, pontua o diretor artístico da OSPA.

    Programação 400 Anos das Missões – O concerto da OSPA integra o conjunto de ações orientado pelo Decreto nº 57.369/2023, que institui 2026 como o ano oficial das Missões. O calendário comemorativo do governo estadual valoriza o patrimônio histórico e cultural das Missões Jesuíticas Guaranis, fundadas em 1626, enquanto promove o desenvolvimento sustentável da região.

    Serviço 

    Concerto especial da Ospa celebra os 400 Anos das Missões Jesuíticas Guaranis

    Quando: Sexta-feira (13/3), às 20h

    Onde: Complexo Cultural Casa da Ospa (Caff – Av. Borges de Medeiros, 1.501, Porto Alegre, RS)

    Ingressos: De R$ 15 a R$ 70, na bilheteria do Complexo Cultural Casa da Ospa no dia do concerto, das 15h às 20h

    Descontos: Ingresso solidário (com doação de 1kg de alimento), clientes Banrisul, Amigo Ospa, associados AAMAC RS, sócio do Clube do Assinante RBS, idoso, doador de  sangue, pessoa com deficiência e acompanhante, estudante, jovem até 15 anos e ID Jovem

    Estacionamento: Gratuito, no local

    Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 6 anos

    Transmissão ao vivo: A partir das 20h, no canal da Ospa no YouTube
    O evento disponibiliza medidas de acessibilidade.

  • Feminicídio – Artista visual Graça Craidy há 11 anos produz obras sobre violência contra a mulher

    Feminicídio – Artista visual Graça Craidy há 11 anos produz obras sobre violência contra a mulher

    A artista visual gaúcha Graça Craidy produziu, a partir de 2015, uma coleção com cerca de 60 obras sobre feminicídio e violência contra a mulher, a fim de denunciar esses tipos de crimes e ajudar a conscientizar a população em favor do fim dessas práticas delituosas.

    Com mais de 20 mortes de mulheres registradas em janeiro e fevereiro deste ano, o Rio Grande do Sul inicia 2026 como líder nacional da macabra estatística do feminicídio.

    Obra “mulher morta pelo marido”. Reprodução

    “Meu bem, meu mal”

    Neste mês de março dedicado às mulheres, 12 obras da artista, do recorte intitulado “Meu bem, meu mal”, estarão expostas na Assembleia Legislativa do RS.

    O projeto integra o ato de lançamento do Relatório Lilás 2026, da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Casa, na quarta-feira (4/3).

    Foto Carlos Souza/Divulgação

    A mostra permanecerá aberta à visitação até as 18h de sexta-feira (6), no Espaço de Exposição Dep. Carlos Santos. A entrada é gratuita. São quadros, acrílica sobre tela e sobre papel, que variam de 60 x 40 cm a 1.80 x 3.60 m.

    A primeira exposição de Graça nessa temática coincidiu com o surgimento da Lei do Feminicídio, que tipificou o assassinato de mulheres por razões de gênero como crime hediondo no país, em 2015.

    De lá para cá, em praticamente todos os meses de março as obras de sua coleção foram expostas em instituições como Tribunal de Justiça do RS, Justiça Federal, Tribunal Regional do Trabalho, Memorial do Ministério Público, Associação dos Juízes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e Universidade Federal do Paraná (UFPR) – Campo Mourão, entre outras.

    Obra da artista já foi utilizada em capa de livro. Reprodução

    Obras suas também já ilustraram capa de livros sobre o tema, como o de autoria da primeira desembargadora gaúcha, Maria Berenice Dias (aposentada), e foram objeto do estudo acadêmico no Instituto de Artes da UFRGS.

    “Até que a morte nos separe”

    Além de “Meu bem, meu mal”, título que alude ao contexto onde geralmente acontecem os crimes, dentro de casa, muitas vezes diante dos filhos, Graça também possui outros diversos recortes: “Até que a morte nos separe” – pinturas a partir de fotos das cenas dos crimes publicadas em jornais; “Livrai-nos do Mal” – que aponta as violências referidas na Lei Maria da Penha; “Feminicidas, o machismo que mata” – na qual os homens são representados com revólveres no lugar do pênis; e “Estupro” – que retrata abuso sexual coletivo cometido por homens contra uma mulher.

    Mudança pela educação

    A artista defende que é preciso “mudar a cultura do machismo, do senhor proprietário, da mulher propriedade”, o que, acredita, só vai acontecer  pela educação.

    Aos 74 anos de idade, Graça acredita que a arte pode sensibilizar pessoas com poder de interferir para a reversão do atual quadro. “A arte não pode impor igualdade, barrar o gesto nem conter o tiro. Mas quem é tocado pela arte pode”.

    A artista Graça Craidy. Foto Carlos Souza/Divulgação

    Expressionista, ela soma dezenas de trabalhos individuais e coletivos, em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília; no exterior, já apresentou uma mostra individual na Itália, onde também fez cursos em Roma e Florença.

    Relatório Lilás

    Com 165 páginas, o Relatório Lilás reúne uma série de textos, entre os quais o do presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos, deputado Adão Pretto Filho (PT). Ele diz que a realidade brutal “exige resposta enérgica, estrutura institucional e, acima de tudo, compromisso com a vida das mulheres”. Dado trazido por Pretto aponta que, em abril de 2025, o RS registrou um aumento de mais de 1000% nos casos de feminicídio em comparação com o mesmo período do ano anterior. Em um só mês, 11 mulheres foram vítimas de feminicídio.

    Em sua 4ª edição, o Relatório Lilás conclui que “a combinação de medidas judiciais céleres, mutirões processuais, capacitação da rede de proteção, educação para a igualdade de gênero e reeducação dos autores de violência, juntamente com o envolvimento em ações promovidas por outros órgãos, tem gerado resultados significativos”.

    Casos consumados e tentados – O Brasil registrou 6.904 vítimas de casos consumados e tentados de feminicídio em 2025, o que representa um aumento de 34% em relação ao ano de 2024, quando houve 5.150 vítimas. Foram 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, totalizando quase seis (5,89) mulheres mortas por dia no país. Os dados são do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina/PR (Lesfem/UEL).

    No início de fevereiro, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário firmaram o Pacto Brasil entre os Três Poderes para Enfrentamento do Feminicídio.

  • Festival Literário Rastros do Verão 2026: de 28 de fevereiro a 28 de março em Porto Alegre e Canoas

    Festival Literário Rastros do Verão 2026: de 28 de fevereiro a 28 de março em Porto Alegre e Canoas

    Porto Alegre e Canoas recebem a sétima edição do Festival Literário Rastros do Verão entre 28 de fevereiro e 28 de março. Oito livrarias da capital e uma de Canoas farão parte do evento idealizado para homenagear a memória e o legado literário de João Gilberto Noll e difundir a produção literária local.

    O festival contará com a presença de cerca de 50 autores e autoras em mesas de debate, leituras, saraus e sessões de autógrafos – entre alguns deles estão Carolina Panta, Clara Corleone, Diego Grando, Fabiane Langona, Fernanda Verissimo, Gabriela Leal, Guto Leite, Katia Suman, Luis Augusto Fischer, Luiz Maurício Azevedo, Moema Vilela, Matheus Borges, Rafael Corrêa, Rafael Guimaraens, Sabrina Dalbelo e Tailor Diniz.

    No dia de abertura, na Livraria Paralelo 30 (Rua Vieira de Castro, 48, bairro Farroupilha – Porto Alegre/RS), o festival contará com as participações de Magali Koepke, Ramon Castro Reis e Luiza Milano que debaterão temas de algumas das obras do autor homenageado.

    Confira a programação completa abaixo:

    Abertura
    28 de fevereiro, sábado
    Livraria Paranelo 30

    15h30 – O sublime e as ruínas, bate-papo com Magali Koepke e Ramon Castro Reis sobre a obra de João Gilberto Noll. Mediação: Luiza Milano.
    17h – Conversa com Cha Dafol. Mediação: Clô Barcellos.
    17h30 – Bate-papo com Clara Corleone e Gabriela Leal. Mediação: Carolina Panta.

    03 de março, terça-feira
    Livraria Taverna

    18h30 – Bate-papo e leituras com mariam pessah e Sabrina Dalbelo
    Mediação: Manuela Dipp.

    05 de março, quinta-feira
    Livraria Bancaberta

    18h30 – Bate-papo e leituras com Ana Costa dos Santos, Diego Grando e Guto Leite.

    07 de março, sábado
    Livraria Brasa

    16h30 – Conversa com Michelle Aparecida Marques dos Santos.
    17h30 – Bate-papo com Rafael Corrêa e Santiago.
    19h30 – Bate-papo com Lielson Zeni, Samanta Flôor e Márcio Barbosa (Barbosinha). Livro Bossa Nova, projeto Música Popular em Quadrinhos. Canja musical: Márcio Barbosa.

    10 de março, terça-feira
    Livraria Cirkula
    18h – Homenagem aos escritores Jorge Rein, Marco Celso H. Viola e Mario Pirata, com Celso Sant’Anna, Letícia Schwartz, Renato de Mattos Motta e Sidnei Schneider.

    12 de março, quinta-feira
    Livraria Brasa

    18h30 – Bate-papo com Fernanda Verissimo, Matheus Borges e Rafael Scavone.
    20h – Bate-papo com Fabiane Langona, Katia Suman e Celso Augusto Schröder.

    14 de março, sábado
    Livraria Macun

    10h30 – Leituras com João Pedro Marchi.
    11h – Bate-papo com João Pedro Marchi, Laura Jovchelovitch, Leila de Souza Teixeira , Moema Vilela e Rodrigo Bittencourt.

    Livraria Clareira
    15h30 – Bate-papo com Carolina Panta e Gustavo Melo Czekster. Mediação: Irka Barrios.
    17h – Bate-papo com Pedro Gonzaga e Marcello Giulian.
    18h – Bate-papo e leituras com Lilian Rocha, Marília Floôr Kosky e Moema Vilela.
    19h – Lançamento de Há uma enorme dor anunciada em Porto Alegre às seis da tarde, de Daniel Conte. Bate-papo e sessão de autógrafos com o autor.

    17 de março, terça-feira
    Livraria Clareira

    18h30 – Bate-papo com Rafael Guimaraens e Tailor Diniz. Mediação: Oscar Bessi.

    18 de março, quarta-feira
    Livraria Taverna

    18h – Lançamento de Como ser incrível (Ed. Diadorim), de Luiz Maurício Azevedo. Bate-papo e autógrafos com o autor.

    21 de março, sábado
    Bancaberta

    11h – Bate-papo com Mayara Floss e Vivian Nickel

    Livraria Bamboletras
    15h – Roda de conversa com o coletivo Mulheres de escrita.
    16h – Leituras com Alex de Cássio.
    16h30 – Conversa sobre a obra de Paulino de Azurenha com Alex de Cássio, Luis Augusto Fischer e Marcelo Martins Silva.
    18h – Bate-papo com Cláudia de Marchi e Helena Terra. Mediação: Gustavo Machado.

    26 de março, quinta-feira
    Bancaberta

    18h – Bate-papo com Ana Luiza Koehler, Marti Mombelli e Rafael Passos.

    28 de março, sábado
    Livraria Pandorga

    15h – Encontro com Christina Dias.

    Livraria Paralelo30
    16h – Bate-papo com Matheus Borges e Caroline Joanello.
    18h – Pé na porta (podcast ao vivo), Alice Urbim entrevista Christina Dias.


    Endereços:


    Bamboletras – Av. Venâncio Aires, 113 – Cidade Baixa (Porto Alegre/RS)
    Bancaberta – Praça Berta Starosta – Bom Fim (Porto Alegre/RS)
    Brasa – Rua José do Patrocínio, 611, Cidade Baixa (Porto Alegre/RS)
    Cirkula – Av. Osvaldo Aranha, 444 – Bom Fim (Porto Alegre/RS)
    Clareira – Rua Henrique Dias, 111 – Bom Fim (Porto Alegre/RS)
    Macun Livraria e Café – Rua Octávio Corrêa, 67 – Cidade Baixa (Porto Alegre/RS)
    Pandorga Livros – Rua Frederico Guilherme Ludwig, 370 – loja 3 – Centro (Canoas/RS)
    Paralelo 30 – Rua Vieira de Castro, 48 – Farroupilha (Porto Alegre/RS)
    Taverna – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico (Porto Alegre/RS)

  • Valter Sobreiro, o dramaturgo que plantou o teatro em Pelotas           

    Valter Sobreiro, o dramaturgo que plantou o teatro em Pelotas           

    GERALDO HASSE

    Lançado em fins de 2025, o livro “6 Décadas de Teatro”, contendo uma dezena de artigos acadêmicos sobre a obra de Valter Sobreiro Júnior, oferece uma nova e ampla dimensão da carreira desse professor, cenógrafo, escritor e diretor teatral que fez toda vida profissional em Pelotas, de onde só saiu esporadicamente para encenar suas peças em outras cidades.

    Editado pela Life Editora, de São Paulo, o livro de 198 páginas foi organizado por João Luiz Pereira Ourique, professor de teatro da UFPel que coordenou o trabalho de 15 acadêmicos de universidades públicas de Pelotas, Rio Grande, Santa Maria e Campo Grande.

    É um estudo profundo sobre a dramaturgia de Sobreiro, que escreveu nove peças, adaptou dezenas de outras e participou de cerca de 70 espetáculos teatrais ao longo de seus 60 anos de militância no teatro.

    Nascido no dia do Natal de 1941 em Rio Grande, Sobreiro lembra da primeira vez em que foi a um espetáculo teatral na sua cidade natal: tinha menos de cinco anos quando assistiu “I Piccoli de Podrecca”, levado por uma trupe italiana de marionetes. Sua infância foi movimentada, em decorrência da atividade itinerante do pai funcionário público federal (fiscal da Previdência). Órfão de mãe aos três anos, foi criado por uma tia que se tornaria sua madrasta.

    Dos cinco aos sete anos morou em Santana do Livramento, onde assistiu a teatro, cinema, dança e rinhas de galos. Também transitou por hotéis de Uruguaiana, Alegrete, São Francisco de Assis e Quaraí. De 1950 a 1951 viveu em Passo Fundo, de onde certa vez foi levado a Erechim para cantar num programa de rádio de um certo Maurício Sirotsky Sobrinho, o mesmo que anos depois lançaria Elis Regina no Clube do Guri em Porto Alegre. Passou o ano de 1952 em Porto Alegre. Em 1953 a família se fixou em Pelotas, de onde nunca mais quis sair.

    Matriculado no tradicional Colégio Pelotense, terminou o ginásio em 1956 e, ao invés de continuar os estudos, passou a frequentar a Rádio Cultura, onde não faltavam opções para quem não tivesse medo do microfone. Após se apresentar como cantor em programas de auditório, foi convidado a produzir um programa sobre cinema, tema de artigos que publicava no Diário Popular, como sócio militante do clube de cinema local fundado em 1950 – na cidade havia então pelo menos seis boas salas com uma oferta variada de filmes. Apoiado pelo diretor Elias Bainy, trabalhou na discoteca, no departamento de notícias e como diretor de elenco de rádio-teatro até 1960, quando as novelas passaram a chegar gravadas de São Paulo, obrigando os rádio-atores a buscar novas atividades.

    Ele seguiu na rádio, mas retomou os estudos e a partir de 1962 passou a trabalhar em banco. Findo o colegial, começou o curso de Direito, que lhe permitiria trabalhar como advogado trabalhista.

    No meio da vida de bancário e estudante, sobreviveu a opção pelo teatro, incentivada por professores como Aldyr Garcia Schlee, Angenor Gomes e Luiz Carlos Correa da Silva, fundadores da Sociedade de Teatro Escola de Pelotas (STEP, 1962) e do Teatro dos Gatos Pelados (TGP), criado em 1963 por alunos e mestres do Pelotense (“gato pelado” é o apelido dos estudantes dessa centenária escola pública municipal). Esses dois grupos teatrais deram ressonância nacional às atividades cênicas em Pelotas, onde desde a segunda metade do século XIX se formou um público apreciador das artes exibidas nos teatros Sete de Abril, Guarany e nos auditórios de escolas e clubes sociais.

    No início de sua atividade como animador do teatro, Sobreiro fez a cenografia de peças infantis, mas, já em 1962, escreveu seu primeiro texto teatral, “O Infeliz Jovem Rei”, apresentado pela primeira vez no ano seguinte. Em 1966, se tornou oficialmente professor do Pelotense.

    Abaixo, AS NOVE PEÇAS analisadas e/ou comentadas no livro “6 Décadas de Teatro”:

    1. O INFELIZ JOVEM REI (1962/63), drama inspirado em “Hamlet”, do dramaturgo inglês William Shakespeare.
    2. BIRA & CONCEIÇÃO, escrita em 1966, é uma ópera popular cantada cuja primeira encenação, dirigida por Angenor Gomes e auxiliado por José Luiz Marasco, do TGP, desencadeou o convite para concorrer ao Festival Nacional de Teatro de Estudantes em 1968 no Rio. Uma das exigências do festival, como “contrapartida social”, era encenação de uma peça infantil em uma comunidade periférica da capital carioca. Ocupado na produção da peça maior, Sobreiro pediu ao professor Aldyr Schlee que o cobrisse na emergência. Inspirado no clássico “Chapeuzinho Vermelho”, o amigo criou uma versão moderna levada numa favela – os originais se perderam na voragem do AI-5, que escancarou a ditadura em 13 de dezembro de 1968. “Bira & Conceição” ganhou o prêmio de melhor música, superando 32 concorrentes – as canções foram compostas pelo próprio dramaturgo, que não estudou música formalmente, mas tinha o que, no popular, se chama de “bom ouvido”. Segundo o doutor em música e professor Leandro Maia, que analisou Bira & Conceição, “Valter Sobreiro tem consciência melódica e noção harmônica”. Em consequência dessa pioneira excursão ao Rio, a equipe pelotense ficaria desfalcada do cenógrafo Fernando Mello da Costa, que se mudou para o Rio algum tempo depois de abrir espaço profissional em Porto Alegre. Décadas depois, sempre no Rio, o próprio Mello da Costa cobrou o resgate da peça, principalmente da trilha musical, da qual não havia gravação nem partitura. Mesmo achando que a peça estava superada pela evolução dos temas do teatro moderno, Sobreiro o atendeu em 2012, com a ajuda do músico Leonardo Oxley Rodrigues, mas a peça não chegou a ser remontada porque o cenógrafo faleceu em 2019. As partituras transcritas pelo acadêmico Alinson Alaniz estão salvas no livro “6 Décadas”. A ópera tem apenas quatro personagens (uma mulher, dois homens e a mãe deles) e um coro de oito vozes presente o tempo todo em cena e amparado por um  grupo de músicos.
    3. EM NOME DE FRANCISCO, sobre o poeta pelotense Francisco Lobo da Costa (1853-1888). Publicada pela Editora Tchê em 1987, teve 36 apresentações no RS, PR, PB e no Uruguai, sendo premiada em Novo Hamburgo e Ponta Grossa. Um grupo de Pelotas montou-a posteriormente e, usando trechos da peça, fez um vídeo que acabou ganhando um prêmio.
    4. MARAGATO – Publicada em 1995 pela editora da UFPel. Drama falado e cantado em torno da Revolução Federalista de 1893, quando se defrontaram maragatos e ximangos, uma rivalidade histórica que até hoje ecoa no RS. Ganhou 30 prêmios entre 1988 e 1991. Foi apresentado em 31 cidades gaúchas, em oito outras fora do Rio Grande e no Uruguai, incluindo o Teatro Solis de Montevidéu. Estima-se que tenha sido assistida por 45 mil pessoas. O autor recusou propostas de montagem por um grupo de Porto Alegre.
    5. DON LEANDRO ou OS SENDEIROS DE SANGUE – Peça de 1999 inspirada no “Rei Lear” de Shakespeare. Trata do poder na velhice, envolvendo disputas entre homens e mulheres.
    6. DE PRODÍGIOS E MARAVILHAS, de 2006, peça sobre sonhos, fantasias, desejos, conflitos e os sofrimentos resultantes de enganos e frustrações.
    7. ENTREMEZ DA RAINHA MARIA , A LOUCA, E SEU CRIADO BELISÁRIO, 2011, sobre a hipocrisia entre as classes sociais, a escravidão, o exílio, e a saudade da terra natal.
    8. PAI-DE-DEUS, de 2012, trata das relações entre algoz e vítima (torturador e torturado) durante uma ditadura militar. Desde o início, a peça tem momentos que lembram o tradicional ‘pas de deux’ do balé, que simula um diálogo em forma de dança, mas na realidade do palco se trata de um confronto, uma tentativa de ajuste de contas. Estreou em Pelotas em 2012, foi apresentada em Porto Alegre em 2016 e voltou a ser encenada em Pelotas em 2020. De 2023 a 2024, cedida ao Grupo Tholl, formado por ex-alunos de Sobreiro, a peça foi levada a Porto Alegre, São Paulo e Rio, sob a direção de João Schmidt, também ator nesse que é o drama politicamente mais denso e atual de Sobreiro. No artigo em que analisa no livro “6 Décadas” o contexto político da peça, a atriz e professora de dramaturgia Fernanda Vieira Fernandes observa: “A ausência de julgamento e condenação dos crimes de tortura e morte de cidadãos brasileiros favorece a perda da memória e, pior, mantém à espreita o autoritarismo com ares de solução milagrosa”.
    9. RESSOLANA (2014), ambientada numa área de fronteira luso-castelhana no século XIX, trata de um triângulo formado por um pai, seu filho e uma prostituta que se quer livre. O desfecho é trágico: para se vingar do pai, que não cumpre a promessa de libertá-la, a mulher envenena o jovem. Ciúme, posse e vingança tecem o enredo fronteiriço que ecoa as tragédias gregas. Única peça de Sobreiro inédita em palcos.

    ÍNTEGRA DAS PEÇAS EM LIVRO

    Em reconhecimento à importância do trabalho do dramaturgo Valter Sobreiro Junior, a UFPel planeja publicar a íntegra de sua obra teatral, constituída pelas nove peças analisadas e comentadas no livro “6 Décadas”, em cuja introdução a professora Lilian Becker de Oliveira, mestra em Memória Social e Patrimônio Cultural, escreveu: “A importância das obras de Valter Sobreiro Júnior para a cidade de Pelotas transcende o âmbito teatral, configurando-se como um patrimônio imaterial de valor inestimável para a memória cultural da região. (…) Sobreiro Júnior é considerado um formador de gerações de artistas e sua influência no teatro pelotense ressalta uma metodologia que introduziu conceitos como a ‘unidade plástica do espetáculo’, integrando cenografia, iluminação, figurino e trilha sonora em uma proposta integradora, como destacou Joice Ester Ayres de Lima em trabalho de 2011 na UFPel.

    Para criar o que denomina “cenografia de planos estruturados”, Sobreiro trocou experiências com diretores, atores e teóricos, além de professores e jornalistas especializados – muita gente ao longo do tempo, cabendo porém uma lembrança especial a Gianni Ratto (1916-2005), diretor que coordenou a montagem da caixa cênica e do aparato de som e luz do Theatro Sete de Abril na reforma dos anos 1980, quando os dois tiveram uma fértil convivência.

    Se for publicado, o livro da UFPel sobre as peças de Sobreiro pode ser sua consagração final, já ensaiada em homenagens prestadas em anos recentes nas três maiores cidades costeiras da Lagoa dos Patos:  em 2021, o ano em que completou 60 anos de teatro, Sobreiro recebeu do governo estadual a Medalha Simões Lopes Neto, por mérito cultural; no mesmo ano, seu nome foi fixado em placa de bronze no saguão do Teatro 7 de Abril, fundado em 1831 no coração de Pelotas; em 2022, a prefeitura de Rio Grande também inaugurou uma placa comemorativa no teatro municipal, fundado em 1929.

    DOIS ROMANCES

    Embora tenha se dedicado prioritariamente ao teatro, encontrou tempo para escrever dois romances: “Petrona Carrasco”, premiado pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul em 1989, foi publicado pelo Instituto Estadual do Livro (IEL) em parceria com a Editora Tchê; e “O Demônio a ser Pago no Estúdio dos Fundos”, publicado pela Editora Lerigou, lançado em 2024 em Pelotas e em 2025 em Porto Alegre. No depoimento ao signatário deste perfil, Sobreiro disse que pretende ainda escrever sobre sua vida: “Tem tantas peripécias que pode dar uma novela”.

    CENA FINAL

    Comentando sua adesão incondicional ao teatro em Pelotas, Valter Sobreiro diz que cedo percebeu a necessidade de circular com os espetáculos, para justificar o investimento feito e divulgá-los, mas esbarrou nas limitações do tempo, pois tinha compromissos familiares (três filhos) e profissionais (trabalhar como professor e advogado) na cidade. Por isso recusou convites para levar suas peças a outros países. “Mas plantei a ideia de produzir em Pelotas”, conclui, lembrando que nunca lhe faltaram patrocinadores porque “muitos empresários e políticos eram frequentadores de espetáculos de música e artes cênicas”.

    Embora tenha alcançado notoriedade nacional e levado suas peças até ao Uruguai, o dramaturgo ficou toda a vida em Pelotas, sustentando-se como advogado trabalhista e dando aulas de teatro, sem se fazer notar senão pela dedicação ao meio onde as vaidades pessoais trombam nos camarins, nos palcos e até no saguão dos teatros. Por ironia da história, nenhum dos seus descendentes (três filhos, sete netos e dois bisnetos) mora em Pelotas.

     

  • Os 70 anos de “Grande sertão: veredas”, na exposição da artista visual Graça Craidy, em Niterói

    Os 70 anos de “Grande sertão: veredas”, na exposição da artista visual Graça Craidy, em Niterói

     

    Mostra de Graça Craidy, com abertura no sábado (7/2), reúne 50 obras, com destaque para retratos dos personagens da obra-prima de Guimarães Rosa e do próprio autor

    *Texto e fotos de Carlos Souza

    A obra-prima do escritor João Guimarães Rosa (1908/1967), “Grande sertão: veredas”, que revolucionou a literatura brasileira, completa 70 anos de seu lançamento, ocorrido em 1956, e recebe como homenagem uma exposição no Espaço Cultural Correios, em Niterói (RJ), de autoria da artista visual gaúcha Graça Craidy.

    Guimarães Rosa entra no Cerrado a cavalo/Divulgação

    De sábado (7/2), quando será inaugurada às 15h30, até 28 de março, a mostra “Grande Sertão”, de Graça, perfila 50 obras, entre as quais destacam-se retratos de alguns dos principais personagens do romance, como Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo, Otacília, Nhorinhá, Manuelzão, Sô Candelário e Quelemém, por exemplo.

    O próprio escritor, que foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, aparece em dois retratos – num deles se embrenhando no Cerrado mineiro a cavalo junto com vaqueiros – excursão que de fato aconteceu na fase em que coletava dados para escrever a obra. A flora e a fauna da região onde se desenvolve a narrativa ambientam a exposição, com coqueiros buritis, pássaros e aves criados pela artista.

    Artista Graça Craidy quer receber visitantes de braços abertos no Espaço Cultural Correios Niterói/ Divulgação

    Para ter domínio da temática e aguçar sua inspiração, Graça, de 74 anos, que vive e tem ateliê em Porto Alegre, não só leu o romance como fez um curso – Travessia – sobre o livro, durante o qual leu, releu e debateu a narrativa por meses com a professora da USP Maria Cecilia Marks.

    A artista também pesquisou teses, monografias e ensaios sobre o livro e assistiu algumas vezes ao monólogo “Riobaldo”, protagonizado pelo ator carioca Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad. O ator fará um pocket show na abertura da exposição no Espaço Cultural Correios.

    Ema, ave presente no Cerrado/ Divulgação

    Trabalho “expressionista e apaixonado”

    “Espero que os visitantes se encantem com a história em quadros do meu ‘Grande Sertão’ particular, expressionista, apaixonado, de cores turvas, ternas e terrosas. Em cada personagem, cena, gesto, o meu gentil convite para despertar nas pessoas o desejo de ler esse grande romance”, diz Graça.

    Jagunço Hermógenes/ Divulgação

    “Grande sertão: veredas”, na leitura da artista, “retrata o Brasil profundo, em plena mudança do Império para República, a contragosto dos senhores de terra e coronéis que viam no poder central republicano a anulação do seu poder histórico exercido nas pequenas comarcas desde o tempo das sesmarias”.

    Para ela, “naquele momento histórico de surdas batalhas entre fazendeiros e seus jagunços contra a polícia e os novos políticos representando a República, um sertão recortado por rios, veredas, coqueiros-buritis, pássaros e animais selvagens acoita homens comuns incomuns à cata de poder e de Deus, em fuga da morte e do Diabo, divididos entre o bem e o mal, regurgitando questões caras à humanidade, como o amor, e mais que amor, o amor entre dois guerreiros: Riobaldo e Diadorim”.

    Riobaldo (E) segue os passos de Diadorim, à sua frente/ Divulgação

    Com “Grande sertão”, já montada antes em Porto Alegre e no Rio, é a quinta vez que Graça une sua arte à literatura. A primeira foi na coleção “Clarices”, de 33 retratos de Clarice Lispector; a segunda e a terceira foram nas coletivas  “Autorias I” e “Autorias II”, que organizou e participou ao lado de 42 artistas gaúchos que retrataram 51 escritores do Rio Grande do Sul; e “Erico”, em novembro e dezembro de 2025, em homenagem aos 120 anos de nascimento de Erico Verissimo, da qual foi curadora e artista junto com 46 colegas.

    Personagem Maria Mutema/ Divulgação

    Inovação linguística

    Mineiro de Cordisburgo, Guimarães Rosa morava no Rio, na Rua Francisco Otaviano, 33, em Copacabana, quando escreveu as quase 600 páginas de “Grande sertão: veredas”.

    Ao entregar os originais à editora José Olympio, em fevereiro de 1956, ele escreveu ao colega diplomata e amigo Azeredo da Silveira: “Passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairante, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia. […] Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente”.

    Manuelzão, personagem da mostra Grande Sertão/ Divulgação

    Recebido com aplausos pela crítica, principalmente por suas inovações linguísticas, o livro foi um dos mais vendidos durante meses e venceu prêmios literários como o Machado de Assis. Em 2002, “Grande Sertão: Veredas” integrou a lista dos 100 melhores livros de todos os tempos do Clube do Livro da Noruega. O romance foi a única obra brasileira na relação selecionada por 100 escritores de 54 países.

    Bananeira, em aquarela/ Divulgação

    SERVIÇO

    Exposição: “Grande sertão”

    Artista: Graça Craidy

    Abertura: sábado (7/2), às 15h30, incluindo pocket show do ator Gilson de Barros

    Visitação: de 2ª a 6ª, das 11h às 18h; sábado, das 13h às 18h, até 28 de março

    Local: Espaço Cultural Correios, Av. Visconde do Rio Branco, 481, Centro, Niterói, RJ

    Entrada franca

    *Texto e fotos de Carlos Souza

  • Instituto Ágora lança, em sarau iluminado, o projeto “Vamos ler Cachoerinha?”

    Instituto Ágora lança, em sarau iluminado, o projeto “Vamos ler Cachoerinha?”

    O Instituto Cultural e Social Ágora, de Cachoeirinha, credenciado como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura, em setembro, prepara-se, agora, para lançar um programa bastante ambicioso denominado Vamos Ler, Cachoeirinha?.
    A iniciativa foi contemplada com recursos de uma emenda parlamentar de R$300 mil, destinada à entidade pela deputada Fernanda Melchionna, que lidera a Frente em Defesa do Livro, da  Leitura e da Escrita, do Congresso Nacional.
    O Vamos Ler, Cachoeirinha? tem por objeto qualificar, ampliar e diversificar projetos e ações que vêm sendo realizados, no munícipio, pelo Instituto Cultural e Social Ágora e parceiros, visando contribuir para a construção de uma cidade mais leitora.
    “Sintam-se todos convidados para o Sarau Iluminado, que realizaremos,  no dia 23 de fevereiro, às 19h, em nossa sede, para apresentar o programa, que envolverá a participação de dezenas de agentes culturais da cidade”, diz a organização do programa cultural e social.