Morte do artista visual Gelson Radaelli surpreende e causa comoção no meio cultural

Gelson Radaelli. Foto: Tulia Radaelli/ Divulgação

Morreu na madrugada de sábado, às 2H30, o artista visual gaúcho Gelson Radaelli. Ele tinha 60 anos e a causa da morte foi um infarto fulminante, sofrido em sua residência depois de passar a noite trabalhando no restaurante Ateliê das Massas, do qual era um dos sócios.

Embora sua morte não tenha repercutido nos meios eletrônicos como rádio e televisão com a atenção que merecia, nas redes sociais, na mídia impressa, no meio cultural oficial e fora dele, inclusive no setor político, foi muito comentada, já que a candidata à prefeita de Porto Alegre, Manuela D’ Ávila lamentou e reconheceu a importância do artista para a cena cultural gaúcha.

Segundo Nadir Lodi Rossini, cozinheiro e que há anos trabalha no Atelier de Massas, Radaelli foi encontrado pela esposa, Rogéria, na sala de casa por volta das 2h30 da madrugada deste sábado. “A causa da morte ainda está sendo investigada, mas informações preliminares indicam para um ataque cardíaco fulminante”, comentou Rossini. Ele deixa dois filhos, Tulia e Teodoro.

Parede do restaurante Ateliê das Massas, com obras de Radaelli. Foto: Ayres Cerutti

O jornalista Ayres Cerutti, amigo do pintor e frequentador do Ateliê das Massas chegou a fazer um desabafo na noite do sábado em seu Facebook : “Assustador absurdo! Nenhuma repercussão midiática pela morte do gênio pictórico Radaelli. Fosse um analfabeto jogador de futebol ganharia estátua de bronze. Poa, cidade imbecilizada!” escreveu Cerutti.

Reconhecimento artístico

No entanto, nas redes sociais e nos depoimentos aos veículos impressos,  amigos do pintor deram depoimentos comovidos. Como o professor Francisco Marshal, gestor do Studio Clio, que registrou:

“Artista grandioso, sincero, revelador, poético, livre, arrojado, ciente do mundo em que vivemos e de como a Arte pode e deve ser. Uma reflexão séria, vigorosa, sobre o mundo, a linguagem, a condição humana.

O concidadão sensível, filântropo, propiciador. Em seu restaurante Atelier de Massas (o melhor restaurante de massas do planeta), a arte e a amizade tinham morada sagrada. Quantos artistas e pessoas da educação e da cultura foram por Gelson apoiados?

Enófilo primoroso, porque um grande artista é também Dioniso, como Radaelli sempre foi. E um amigo diletíssimo. Estou absolutamente arrasado com a morte súbita e indevida de meu queridíssimo amigo. Gelson Radaelli. Um dos melhores. Fica conosco teu legado de arte, amor e vida. Eternamente.”

Galeson Radaelli com Graça Craidy e Francisco Marshall no Studio Clio. Foto: Reprodução/ Divulgação

A artista visual Graça Craidy também deu um depoimento  sobre a morte do artista, de quem era amiga.

“Uma figura especialmente amorosa, bonachão, homem de paz, um grande querido. Como artista, um estilo único, livre, talentoso, desaforado, reinava naquelas telas como um maestro de mazurka, expressionista do gesto carregado de tinta e paixão. Herdeiro natural de Iberê Camargo, encantava com os revolteios das suas pinceladas soltas que iam do céu à terra sem medo de ser feliz. Ele brincava comigo que éramos da mesma família artística, a dos viscerais apaixonados. Me sentia honrada e feliz por um artista tão especial como ele me acolher no seu generoso clã. Há poucos dias, expôs na Bolsa de Arte uma coleção incrível de pinturas fresquinhas, atrevidas, intensas. E eu até tinha recém feito um retratinho dele, para lhe homenagear pela exposição, mas nem deu tempo de lhe entregar em mãos! Adorava fazer cara feia, só acreditava quem não o conhecia. Um corazón de melón! Um amor de Radaelli. No seu inesquecível restaurante Atelier das Massas, foi um mestre amoroso abrindo os braços para acolher todos em seu imenso coração. Para nossa infinita tristeza, parte o homem, fica a sua arte para sempre, a nos lembrar da sua enorme liberdade e fulgor. Descansa em paz, amado Radaelli!”

 

Gelson Radaelli, em pintura de Graça Craidy. Foto; Reprodução

Homenagens oficiais

Os veículos impressos da capital, Zero Hora, Correio do Povo e Jornal do Comércio deram a notícia com o merecido destaque em seus espaços culturais. O jornal Extra-Classe fez um extenso registro da vida e obra do pintor, destacando sua produção artística e dono de um estabelecimento de gastronomia apreciado por todos seus frequentadores. No local, Radaeeli expunha parte de sua produção pictórica.

Por meio de nota, a Associação dos Escultores do Estado do RS (AEERGS) comunicou o falecimento e agradeceu ao artista. “As obras dele também integram coleções de diversos museus, instituições e galerias brasileiras, que agora manterão viva a memória de tão importante artista. A ele, nossa gratidão”.

A Secretaria de Estado da Cultura- SEDAC também emitiu nota sobre o falecimento do artista. Nela diz:

“A Secretaria de Estado da Cultura – SEDAC, através do Instituto Estadual de Artes Visuais – IEAVi, do Museu de Arte do Rio Grande do Sul – MARGS e do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – MACRS, lamenta com pesar o falecimento do artista Gelson Radaelli, na madrugada deste sábado, 28.11.2020, aos 60 anos.

Destacado nome da pintura do Rio Grande do Sul, Radaelli integra a geração que despontou nos anos 1980, vinculando-se à vertente dos jovens artistas que protagonizaram o que se convencionou denominar por “retorno da pintura”.

já não mais partindo da oposição anterior entre figuração e abstração, mas de um renovado interesse por uma pintura de linguagem e conceituação contemporânea, de tratamento gestual e forte apelo subjetivo, constituindo certo encaminhamento da tradição das correntes expressionistas.

Graduado em 1986, em Comunicação Social, Radaelli estudou pintura com Karin Lambrecht, Michael Chapman, Luis Baravelli, Armando Almeida e Fernando Baril.

A partir dos anos 1980, realizou e participou de dezenas de exposições, incluindo o MACRS e o MARGS. Também recebeu diversos prêmios nacionais.

Integrava a Casa do Desenho, ao lado de Eduardo Haesbaert e Fábio Zimbres. Foi ainda editor de arte e ilustrador dos jornais “O continente” e “Prá ver”, além de proprietário e chef de cozinha do tradicional restaurante Atelier das Massas, em Porto Alegre.

Em 2017, apresentou no MARGS a exposição “Neon”, sua última individual no Museu, com curadoria de Icleia Cattani.

Nas palavras de Radaelli: “A arte é um tipo de produção ou posicionamento que não provoca apenas coisas boas, mas também te provoca o estranho, relação de proporcionar a letargia, tirar o prazer absoluto. A arte é um caminho de reflexão”.

Deixamos nossa solidariedade e sentimentos à família e aos amigos.

Foto: Túlia Radaelli/ Divulgação

Igualmente, a Secretaria de Cultura de Porto Alegre, registrou o falecimento, em nota:

“Lamentamos com profundo pesar o falecimento do pintor Gelson Radaelli. Apaixonado pelas artes plásticas e gastronomia, no ano de 1992 inaugurou e passou a administrar o Atelier das Massas, no Centro Histórico. Nas paredes do restaurante exibia suas obras. Mais um grande nome que nos deixa em 2020 e que será lembrado através de seu legado”.

 

 

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