Van Gogh: suicídio ou homicídio involuntário? Filme reabre polêmica

Francisco Ribeiro
A morte do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890) não é o tema central de “No portal da Eternidade” (Julian Schnabel, 2018). Entretanto, algumas cenas no final do filme – de caráter dúbio, sugerindo uma tese ou um delírio – deixam o espectador com uma pulga atrás da orelha, e reabre a polêmica sobre o tiro que matou o artista na localidade de Auvers-sur-Oise, França, em 29 de julho de 1890. Afinal, foi um suicídio ou um homicídio involuntário, acidente?
É antiga a hipótese de que o tiro que matou Van Gogh não foi efetuado por ele. Uma das teorias atribui o fato a um acidente perpetrado por dois adolescentes – um dos quais, no dia fatídico, estaria vestido de cowboy – que “brincavam” com uma arma que não funcionava bem. Eles eram conhecidos de Van Gogh que, para protegê-los, teria assumido a autoria do disparo: “não culpem ninguém”, teria dito no seu leito de morte”, ocorrida dois dias após ter sido baleado. Tese que, nos anos 30 do século passado, foi veiculada pelo renomado historiador de arte John Rewald, autor de vários livros sobre pintores impressionistas. E também, mais recentemente, pelos biógrafos Gregory White Smith e Steven Naifeh, autores de “Van Gogh, a vida” (Companhia das Letras, 2012).
O filme de Schnabel expõe a teoria do homicídio involuntário através de uma seqüência rápida de imagens, praticamente um clip, em que aparecem dois adolescentes em atividade lúdica, a indumentária de um cowboy, o disparo, a arma jogada no rio, e a caminhada do artista ferido até o seu quarto. Contudo, não se trata de um ponto de vista claramente assumido, pois sugere também um delírio, um surto psicótico, como tantos outros, num dos quais, em dezembro de 1888, fizera com que cortasse a própria orelha. Episódio cuja autoria também gera polêmica, alguns atribuindo a Gauguin.
E, ainda no filme, o questionamento do doutor Gachet (Mathieu Amalric) junto a Van Gogh – de como ele poderia ferir-se com um revólver se jamais possuiu um – não chega a ser um argumento contundente. Neste aspecto, a bela animação, “Com amor, Van Gogh”, 2017, uma narrativa em forma de triller, abordando pessoas e situações envolvendo o pintor na fase final de sua vida, coloca questões mais pertinentes (vide infra) para refutar ou assumir a tese do suicídio.
Fora da ficção, nem a extensa correspondência com o irmão – levando-se em conta as últimas cartas e a alternância de humores – aporta uma prova cabal. Afinal, qualquer um, com um histórico desequilibrado ou não, numa situação limite, pode atentar contra a sua vida.De certo, em Van Gogh,, foram as crises, os surtos, as alucinações e os delírios que povoaram sua curta existência, apenas 37 anos, e que lhe valeram algumas internações em sanatórios. E por isso a hipótese do suicídio ser comumente aceita.
De certo, também, é que não foi somente um louco ou, pelo menos, não o tempo todo. Gostava muito de beber e, sobretudo, de pintar. Atingiu nesta arte a designação de gênio, principal motivo de tantas biografias e cinebiografias, tornando-se interessante examinar mais detalhadamente algumas destas ultimas, ainda longe serem definitivas. Resta muita coisa pra contar sobre o seu universo mágico e colorido, e o cinema, e sua telona, é o melhor canal.
Uma vida, várias (cine)biografias
Há muitos livros e filmes que exploram a “totalidade” ou certos períodos da agitada, termo mais apropriado, vida de Van Gogh, pois, está provado, não dá, como querem alguns, resumi-la aos seus aspectos mais trágicos. Os biógrafos, por mais rigorosos que sejam em suas pesquisas e investigações, defrontam-se sempre com o inexorável, o inapreensível, pois, “o gênio perambula por esses caminhos misteriosos”, diz o livro de Gregory White Smith e Steven Naifeh.
Com respeito aos filmes – do clássico “Sede de viver” (Vincent Minelli, 1956), a “No portal da eternidade” – roteiristas, com suas histórias, e diretores, com sua criatividade visual, têm procurado explorar momentos ou fatos ligados a personalidade do artista, mas sempre ressaltando, como principal traço, a obstinação, seguido do gosto pela bebida, e a forte ligação com o seu irmão Theo Van Gogh.

Assim, o Van Gogh interpretado por Kirk Douglas em “Sede de Viver” é um ser febril, muito engajado em tudo que empreende, alternando desejos de santidade com surtos demoníacos. O filme mostra um Van Gogh encarando a arte como uma espécie de apostolado, e a origem disso, ele, filho de uma pastor, atuando, antes de descobrir sua verdadeira vocação, como missionário protestante na região mineira do Borinage, Bélgica. Baseado na biografia de Irving Stone, “Sede de Viver”, rendeu a Anthony Quinn, que interpretou Gauguin, o seu segundo Oscar de melhor ator coadjuvante.
Já o Van Gogh de “Vincent e Theo” (Robert Altman, 1990) é mais cru, apresentando um personagem com os dentes permanentemente sujos pelo tabaco, e, em boa parte do tempo, vestindo trapos. O Van Gogh vivido por Tim Roth é um ser mais próximo daquele comumente encontrado num asilo público de alienados. Também aborda de maneira mais clara as questões pecuniárias, e ressalta o fato do artista sentir-se um fardo como o motivo principal do seu suicídio. Trata-se, sem dúvida, da mais depressiva das ficções enfocando a vida do pintor. E, assim como em “Sede de viver”, adere explicitamente à tese do suicídio.
Numa espécie de compensação, um ano depois, 1991, o diretor francês Maurice Pialat construiu, através do ator Jacques Dutronc, um “Van Gogh” intrigante, sedutor e boêmio, capaz, inclusive de fazer brincadeiras. Traços, enfim, que o colocam longe daquela figura permanentemente atormentada que sempre colam a sua pele. Dutronc vive o mais carnal dos Van Gogh, e a tensão, constante, decorrendo mais das paixões do que por um problema de insanidade mental. Neste filme, a morte de Van Gogh, em princípio, parece resolver os problemas de todos: de Theo, por ter de sustentá-lo; o doutor Gachet, em relação a filha, e ao próprio Vincent. A autoria do disparo não fica esclarecida.
Já a bela animação “Com amor, Van Gogh” é uma narrativa em tom de suspense, uma investigação sobre a morte do pintor. Ele realmente se matou? As argumentações contrárias são fortes. Quem quer se matar não dá um tiro na barriga, atira na cabeça ou na boca. E, dado o tiro no estômago, percebendo que continuava vivo, por que não completou o serviço, dando um segundo tiro? Arrependimento?Questões pertinentes, mas o que mais se destaca é a excelência do tratamento plástico, graças à contribuição de dezenas de artistas, transformando o mundo em animadas telas de Van Gogh.
Um artista em busca do absoluto
A versão de Julian Schnabel vai por um caminho diferente. Também não é primeira vez que biografa aspectos da vida de um artista. Em 1996 filmou “Basquiat” – pintor, grafiteiro, poeta, etc – outro marginal que, ao contrário de Van Gogh, teve seus 15 minutos de fama. Basquiat não teve um Theo para sustentá-lo. Foi retirado, literalmente, das ruas para o efêmero, morreu de Aids, estrelato. Em vida sentia-se tão maldito, excluído, rejeitado quanto Van Gogh, acrescentando mais o preconceito por ser negro.
Vinte anos separam “Basquiat” de “No portal da eternidade”. Schnabel, nesta aventura, contou, na elaboração do roteiro, com a prestigiosa e competente colaboração de Jean-Claude Carrière, o grande parceiro da fase gaulesa do diretor espanhol Luis Bunel (1900-1983), um realizador célebre na arte do delírio, do surreal, principalmente quando esteve associado a Salvador Dali (1904-1989).

Mas de louco, no filme de Schnabel, só o sistema, a sociedade. É ela a grande promotora de tensão e agressividade. Expressa no filme através das crianças que, atiçadas pelos comentários dos adultos, sentem-se encorajadas a agredir um ser aparentemente mais frágil do que elas. Esquizofrenia pura. Afinal, trata-se da mesma sociedade que,depois de morto, irá glorificá-lo e lucrar com ele, erguendo museus e colocando placas nos muquifos em que viveu. Transformando em lugares de peregrinação os mesmos caminhos onde antes lhe atiravam pedras. O capitalismo é necrófilo
Mas isso, assim como a especulação sobre a morte de Van Gogh, é periférico. Schnabel, ele próprio um pintor, explora o fazer artístico ou, mais precisamente, tenta materializar algo impenetrável, a sensibilidade aguçada que diferencia o artista de gênio do resto dos mortais. Nisto contou com esplêndida atuação Willem Dafoe, que, por ela, ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza. Dafoe, como os colegas que o precederam na interpretação do pintor holandês – Kirk Douglas, Tim Roth, Jacques Dutronc – tem o phisique du rôle. Também não pesou a idade, 64 anos, pois caracteriza bem as feições de alguém precocemente envelhecido, que extraiu todo o sumo da vida, a sua.
E a bela fotografia do filme ajuda a materializar um pouco daquilo que se imagina tenha sido a percepção do mais febril dos impressionistas. Variação de planos valorizando as paisagens, a vegetação, as cores luxuriantes, o sol, coisas intrinsecamente, sensorialmente associadas à pintura. Bom uso da câmera subjetiva fazendo o espectador assumir a visão de um personagem em comunhão com a natureza. Totalmente entregue a pintura, o Van Gogh de Dafoe,é um personagem Zen, absorvendo, literalmente, aqueles cenários naturais ou moldados pelo homem, como os campos de girassóis ou trigo.
Enfim, “No portal da eternidade” deve ser interpretado como uma metáfora para a glória e não para a morte. Os dois últimos anos da vida de Van Gogh são comparáveis à força de um poema selvagem, místico. E ah, que trabalhador, pintou 75 quadros durante os 80 dias que passou em Auvers-sur-Oise, ritmo de produção só alcançado em Arles, pré-orelha cortada. Obras consideradas entre as melhores pinturas já realizadas em todos os tempos. É o que importa. O resto são pó e ossos.

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