Márcia Turcato, de Brasília
Natural de Antônio Prado, interior do Rio Grande do Sul, o bispo Dom Neri José Tondello, 55, foi nomeado pelo papa Francisco para ser um dos membros do Conselho pré-sinodal, instância que colabora com a organização da assembleia especial do Sínodo sobre a Amazônia.
Atualmente ele é bispo da Diocese de Juína, Mato Grosso, e está concentrado nos preparativos finais para o evento que acontece em Roma, Itália, no próximo mês de outubro e que tem como tema: Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral.
Dom Neri, como é conhecido, é mestre em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), foi vice-reitor do Seminário Maior São Lucas em Viamão-RS (2002), reitor do Seminário Maior São José e Maria Mãe da Igreja, Caxias do Sul-RS (2003) e reitor do Seminário Maior Sagrado Coração de Jesus da Diocese de Juína, Várzea Grande-MT (2004-2008).
Ter sido escolhido pelo papa Francisco para a importante missão de colaborar na organização do Sínodo colocou Dom Neri em destaque na mídia.
Diante dos inúmeros pedidos de entrevistas para falar sobre o evento, o bispo decidiu atender a todos por e-mail. E foi assim que conversou com a reportagem do JÁ.
JÁ- O papa Francisco propôs a Amazônia como tema do Sínodo, colocando foco num bioma que envolve nove países e populações tradicionais. Porque a Igreja Católica escolheu esse tema?
D Neri- O convite do papa Francisco para a realização de uma Assembleia Especial para a Amazônia é fruto de uma caminhada de longos anos. O Concílio Vaticano II (1962-1965) é marco referencial para a Igreja. Na década de 1970, em Santarém, outro grande momento da Igreja na Amazônia realizou encontro inspirado nas palavras de Paulo VI, o papa daquela época, quando dizia: “Cristo aponta para a Amazônia”.
Atento à realidade da Amazônia, o cardeal Bergoglio, em 2007, em Aparecida, durante a V Conferência Latino-americana, como redator do texto intuiu o caminho para o futuro da Igreja na Amazônia. Eleito papa, em 2013, cardeal Bergoglio atualizou a missão e o jeito de Francisco de Assis: “vai e reconstrói a minha Igreja”. Primeiro passo: a publicação de Evangelii Gaudium (a alegria do Evangelho). Com esta Encíclica, o papa Francisco entusiasma e encoraja o povo católico ao dizer: “não deixem roubar a esperança, a missionariedade, a comunidade, a Palavra”.
Em seguida, o papa Francisco escreve Laudato SÌ (Louvado sejas). Para entender o que o Papa Francisco deseja para o futuro da Igreja na Região Amazônica, é preciso entender Laudato Sì. Ali temos a intuição e o caminho aberto para a chamada do Sínodo, anunciado no dia 15 de outubro de 2017.
O Sínodo, hora de Deus, Kairós para o mundo, deseja uma reconciliação da Igreja para a região pan-amazônica, com o desejo de melhorar a presença na região. Mais do que olhar para o passado, mesmo que a história nos ajude a interpretar o presente, o Sínodo é, segundo o papa Francisco: “Amazônia novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”, é tema que abraça a causa da realidade pan-amazônica e seus habitantes como lugar teológico e lugar da revelação de Deus. Contudo, “a Amazônia é um banco de prova para a Igreja”, disse o papa Francisco em 2013 na cidade do Rio de Janeiro por ocasião da realização da Jornada Mundial da Juventude.
O tema central assume exatamente a ecologia integral, diante de um modus vivendi com perspectiva de uma “sobriedade feliz”, cuja lição nossos ancestrais na Amazônia nos ensinam. Ao mesmo tempo, o Sínodo mergulha nas consequências de um modelo de desenvolvimento pautado no paradigma de produzir o máximo com o menor custo e consumir tudo para obter o maior lucro possível, gerando miséria, violência e destruição do meio ambiente, tráfico de drogas e tráfico de pessoas. Concentração da terra e do capital, acúmulo de dinheiro e bens de produção, narcotráfico e narconegócio são marcas deste modelo de progresso.
JÁ- O Sínodo acontecerá no momento em que o governo brasileiro praticamente rompe com países da Europa que apoiavam financeiramente ações de sustentabilidade na Amazônia brasileira com o objetivo de preservar o meio ambiente. Há um nítido conflito político e social aqui. Como a Igreja interpreta a reação do governo brasileiro?
D Neri- Antes de o governo atual ser eleito e assumir o comando da nação, o Sínodo tinha sido anunciado em outubro de 2017 pelo papa Francisco. O Sínodo é da Igreja e para a Igreja. A Igreja, desde o mandato de Jesus que diz “Ide por todo um mundo e anunciai o Evangelho a toda criatura”, se esforça para cumprir este envio missionário. O Sínodo cumpre a agenda mínima na Igreja. Ocupa-se de sua atribuição no campo da evangelização e cuidado pastoral. Liturgia e catequese são características próprias do processo de evangelização, que é de total competência da Igreja. Longe de ser uma crítica ao governo, o Sínodo obedece a uma agenda própria.
A realidade sócio-política é importante, mas não é questão principal à preocupação da Igreja. Para isso, existe a comunidade política. Por outra parte, pensar que a preservação da Amazônia é de competência apenas do Brasil, é reduzir a responsabilidade do mundo. O problema transcende os limites do Brasil. É maior do que nós. Neste sentido, o papa Francisco, ao conclamar a todos para o Sínodo, está pensando nas benesses da Amazônia para o mundo, mas ao mesmo tempo, clama “o que o mundo pode fazer para salvar a Amazônia?”
O Sínodo por si só é um caminho aberto, livre e franco para favorecer o debate. Espaço propício para ampliar e aprofundar as questões que dizem respeito à realidade e aos povos que habitam esta região, a Casa Comum de todos nós.
As relações diplomáticas cabem aos governos em diálogo-inter-institucional, mesmo quando assistimos a imagem do Brasil bastante comprometida no contexto global da relação internacional. A Igreja católica, no sentido universal, acompanha com preocupação o que vem acontecendo nestes dias em que a Amazônia encontra-se em chamas. Olha com amor e pensa de que forma e em que modo pode ajudar, além de rezar, para salvar a Amazônia. A Amazônia é responsabilidade também da Igreja. Portanto, faz parte da missão da Igreja rezar e sensibilizar a todos no cumprimento de seu dever de casa, para com o cuidado deste povo que mora na pan-Amazônia no âmbito de sua salvação integral.
JÁ- A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) criticou a escolha do tema do Sínodo e disse que é uma ingerência estrangeira nos interesses do Governo do Brasil e exigiu participar do evento. É possível um organismo desse tipo participar do evento, ou de outra instituição do governo brasileiro participar do evento, como o Itamaraty?
D Neri- Este assunto diz respeito às relações de Estado. A realidade, portanto, deste fato, o governo brasileiro a desenvolve em nível de Estado brasileiro com o Vaticano. É assunto que diz respeito às relações diplomáticas internacionais. Além do mais, o Sínodo é da pan-Amazônia, isto é: mesmo que a região pan-amazônica se encontre em maior parte dentro do território do Brasil, cerca de 67%, contempla também em parte a Bolívia, a Venezuela, o Peru, parte do Equador e da Colômbia, Guyana Inglesa, Guyana Francesa e Suriname. Portanto, para participar deste evento supõe entendimento com os demais Estados vizinhos. Contudo, sabendo que o Sínodo é da Igreja para a Igreja. Na história procede assim.
Por outro lado, as notícias de desmatamento irregular, imagens de queimadas, problemas de invasão do garimpo, do uso de agrotóxicos inescrupulosamente poluindo os rios e matando os peixes, alimento básico para os ribeirinhos e indígenas, nos enchem de irresponsabilidade e vergonha. O mundo todo está de olho na Amazônia. Não é suficiente a desculpa de que os outros já destruíram tudo, o que importa, é o que vamos fazer de nossa parte de imediato para salvar o que ainda sobra.
O Brasil, infelizmente, está pagando um preço muito grande e graves consequências nos aguardam no futuro próximo e a médio prazo, se não cumprir o dever de casa. Até parece brincadeira o que estamos fazendo. Estamos provocando a destruição. Parece que gostamos do caos. Os filhos de amanhã pedirão contas a esta geração.
JÁ- Nas redes sociais se vê críticas do governo e seus seguidores à realização do Sínodo e quase nada a favor. Apenas as esferas da própria Igreja falam sobre o assunto, mas não há uma mobilização popular e nem foi feito um “tuitaço” ou algo semelhante em favor do evento. A Igreja não pretende ter presença forte e mobilização nas redes sociais?
D Neri- A Igreja utiliza-se de métodos próprios para a divulgação do evento. A Igreja não faz gestão de quatro ou oito anos, nem é acostumada com muito barulho. O evento por si se divulga pela própria dinâmica particular. A Igreja vive a missão permanente desde o tempo de Jesus. O Sínodo não é uma prática do momento, neste sentido. Ele tem um período preparatório que vem antes de sua realização. Ele tem um durante que vai acontecer do dia 06 ao dia 27 de outubro de 2019, e o Sínodo conta com o que vem depois dele. Não pode ser um evento estanque de momento, ou de um tempo, portanto. Aliás, a própria palavra Sínodo significa caminho, isto é, acontecimento que prossegue como parte orgânica da própria Igreja na Pan-Amazônia.
Faz parte da história da Igreja desde os primórdios da evangelização. Portanto, vai cumprir seu papel desde o dia em que foi anunciado pelo papa Francisco, no dia 15 de outubro de 2017, até alcançar os frutos necessários. Por último, o Sínodo é desígnio de Deus e iniciativa de Deus, e Deus se utilizou do papa Francisco para anunciá-lo a todos para o maior bem de toda a humanidade.
O processo de escuta que durou de junho de 2018 a junho de 2019, para elaborar o Instrumentum laboris atende a dinâmica de escutar o clamor da Amazônia. Mais de 87 mil pessoas participaram desta etapa do processo. Caminho próprio feito com pessoas e lideranças comprometidas e grupos conscientes do que quer dizer Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.
O caminho de escuta é a melhor forma de participação e envolvimento das comunidades indígenas, ribeirinhos, quilombolas, assentados e demais povos que habitam nesta região. Trata-se, portanto, de um estudo sério a partir dos protagonistas que são os próprios povos que habitam esta região. Corpo a corpo marca este processo artesanal pastoral de evangelização. Por seu lado, a comunicação faz o seu papel à sua maneira livre de publicidade.
Quando ficamos atentos à escuta do que o outro tem a dizer, entendemos o que as pessoas e os povos vivem. Ao escutar sabemos quais são os problemas que afetam a todos. Como disse o papa Francisco em Puerto Maldonado, no Peru, em janeiro de 2018: nunca os povos indígenas estiveram em risco de extinção como agora. Como disse: ”Vim aqui para vos escutar”. Por sua vez, os indígenas representam mais de 500 anos de resistência ao genocídio. Portanto, é preciso pontuar as problemáticas para favorecer não somente e apenas o debate, mas também a busca de soluções para garantir a vida das futuras gerações.
JÁ- O que a Igreja Católica, em especial a Igreja no Brasil, espera alcançar com a realização do Sínodo?
D Neri- Independentemente da resposta e decisões no final do Sínodo, dia 27 de outubro, o resultado positivo é incalculável desde agora. Temas abordados no Instrumentum Laboris estão sendo debatidos no mundo todo. Não importa se a favor ou contra. Com resistência ou apoio sobre o tema. O contrário confirma o verdadeiro. O debate está acontecendo e gestando certamente novidades que o Espírito tem a dizer à sua Igreja na Amazônia no começo do Terceiro Milênio. Nos dias da realização do Sínodo será aprofundado, discernido e decidido sobre a Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.
Ter oportunidade de debater sobre “biodiversidade”, “bem viver”, “sobriedade feliz”, “interculturalidade”, “Casa Comum”, “ministerialidade na Igreja”, “ministério oficial para as mulheres”, a “ordenação de anciãos sacerdotes”, com ampla abertura e liberdade já é uma oportunidade democrática de participação, um kairos, outro Pentecostes. A humanidade inteira participa deste debate podendo dar sugestões e propostas. Enfim, jamais o medo do novo e da surpresa de Deus.
Ouvir opiniões diferentes e até contrárias ao assunto central é um ganho imensurável. Já escutamos muitas coisas. Muitas dores. Alegrias. Esperanças, sofrimentos e desafios foram ditos à Igreja. A coleta dos dados está feita. Tudo está posto sobre a mesa do Sínodo e tudo isso será analisado com cuidado, em outubro, com a presença do papa Francisco, de todos os bispos da Pan-Amazônia, com o auxílio de peritos, teólogos e especialistas, em Roma.
Mapeamentos estão sendo feitos para identificar onde a Igreja se encontra presente e onde precisa fortalecer sua presença ainda mais junto aos povos. O grande debate está acontecendo. Alguns comentários expressam posicionamentos em sentido contrário, outros de resistência, mas a grande maioria são posturas que exprimem a hora de Deus – alegria e esperança. Sensibilidade, solidariedade, caridade, diálogo, compromisso e respeito são características que acompanham a sinodalidade da Igreja em oração.
A Igreja sonha em ser uma Igreja mais presente, não apenas uma Igreja de visita. Uma Igreja samaritana. Missionária. Uma Igreja em estado permanente de missão. Ser uma Igreja comprometida com a realidade dos povos indígenas, dos ribeirinhos, dos quilombolas, dos assentados e demais povos que buscam na Amazônia alguma coisa de melhor.
A Igreja espera ser mais solidária e defensora do meio ambiente. Espera ajudar a humanidade a pensar nesta região que produz 20% do oxigênio para o planeta. É preciso salvaguardar a Amazônia para que a Amazônia nos salve. Que o desenvolvimento equilibrado e sustentável ganhe mais forma na Amazônia e supere os projetos que põe em risco o planeta e as gerações do futuro. A Amazônia é um organismo vivo que precisa ser amado, respeitado e ser ajudado com relações de amizade, vencendo a tentação do domínio e a egolatria voraz do nosso tempo.
JÁ- Após o Sínodo da Amazônia é possível expandir a mesma preocupação tida com esse bioma para outros biomas ameaçados e que têm sua população tradicional também ameaçada?
D Neri- O Sínodo da Amazônia não é uma iniciativa isolada. Ele é fruto de uma análise profunda da possibilidade de vida e riscos do planeta que doa vida. Diz-se, hoje, que estamos consumindo cerca de 20% a mais do que a natureza pode produzir. O ritmo da natureza não acompanha o ritmo frenético da tecnologia. O que significa uma casa ou uma empresa que consome mais que produz? O que acontece quando a despesa é maior que a receita? É falência na certa. Não há saída. No planeta, não é diferente, é apenas questão de tempo.
O Sínodo da Amazônia é auxiliado por um serviço especial que é prestado pela REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica), que não é uma rede única. Outras redes, como a rede mesoamericana, a rede dos bosques tropicais asiáticos, a rede do Congo no continente africano caminham na mesma mística e espiritualidade do encontro. São redes que estão voltadas para a mesma leitura e compromisso diante dos problemas que afetam a humanidade em seu todo. A pobreza e a riqueza, a vida e a morte. O trabalho e o desemprego. A casa e o desabrigo. A terra e o exílio.
O que atinge a todos é o mesmo modelo de progresso instituído no mundo que impõe falência às águas, à terra, à floresta, aos animais, os peixes, o ar.
Em contrapartida, não podemos permitir a falência da moral e da ética. Jamais podemos admitir a falência do status humano, porque a hora chegou e a hora é agora.
O papa Francisco afirma que “Tudo está interligado”. Os indígenas, por sua vez, com uma linguagem própria, nos dizem: “Eu sou terra, eu sou água, eu sou mato, eu sou sol, eu sou lua, eu sou estrela”. Não podemos falir a espiritualidade e a responsabilidade que nos cabe. É hora decisiva para o futuro da humanidade.
No que diz respeito ao Sínodo em curso, já se pensa uma continuidade da sinodalidade da Pan-Amazônia. Diante deste sentido, é preciso pensar a sinodalidade das Igrejas Particulares (as Dioceses), a sinodalidade com a região e a sinodalidade com a Igreja Universal. Isto é, os países pertencentes à geografia da mesma realidade através de uma agenda de compromissos comuns possam continuar com espírito de abertura através de um programa de propostas pastorais de evangelização de forma conjunta para o melhor cuidado da região.