O impacto das apostas esportivas na saúde mental foi o tema da Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Câmara de Porto Alegre nesta terça-feira (7/7). O debate foi proposto pela vereadora Psicóloga Tanise Sabino (MDB).
Sabino considerou que cerca de 11 milhões de brasileiros apresentam comportamento de risco em relação a jogos de azar e cerca de 1 milhão sofrem de ludopatia, o vício ao jogo.
“Nunca são só números. Essa reunião trata de pessoas, de sofrimento, de saúde pública”, ressaltou.
A vereadora relatou que as bets, como são conhecidas, foram liberadas no país em dezembro de 2018 e que ficaram longo tempo sem regulamentação (a normatização foi feita em 2025). Nesse meio tempo, cresceram campanhas milionárias em torno das apostas.
Tanise Sabino lembrou que, no passado, álcool e cigarro também demoraram para serem vistos como questão de saúde. “Muitos problemas de saúde pública passam por um período de invisibilidade pública. Com as bets parece estar acontecendo isso”.
A proponente da reunião relatou que a Prefeitura de Porto Alegre foi procurada e que informou que não possui dados consolidados sobre esse tema. O Município também disse que tem apenas três casos informados de problemas com apostas na rede municipal de saúde.
Para Sabino, a ludopatia pode estar mascarada em casos de pacientes com outros sintomas como ansiedade e depressão.
“Estamos no olho do furacão”
Integrante da diretoria do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), o médico psiquiatra Ricardo Nogueira afirmou que o país passa por um momento agudo da crise relacionada às apostas esportivas.
“Estamos bem no olho do furacão. Há três Copas do Mundo as bets tinham apenas uma cota de patrocínio. Nesta Copa, a maioria dos patrocínios é de bets. As crianças estão sendo estimuladas, com jogos tipo ‘tigrinho’, a jogar desde pequenas”, alertou.
Nogueira disse que é difícil dimensionar o impacto das bets, dada a força dele. “A gente não tem noção do tamanho. Segundo informações da Associação Gaúcha de Supermercados (AGAS), houve redução de 20% na venda de alimentos. O buraco é muito mais embaixo no sofrimento que essas bets estão causando na família brasileira”.
Nogueira relatou ter pacientes que pararam de trabalhar para jogar e que tomaram dinheiro emprestado com agiotas. “Aumentaram casos de ansiedade, de depressão e de suicídios por pessoas que não conseguiram pagar essas dívidas”.
O diretor do Simers destacou ainda que as bets não trazem benefícios econômicos para o país. “Esse dinheiro vai todo embora do país, porque essas bets são sediadas em paraísos fiscais. Então é um mal em todos os aspectos”.
A psiquiatra Carla Bicca apresentou dados que mostram um custo de cerca de R$ 38 bilhões anuais ao país com os danos causados pelos jogos de azar, principalmente na área da saúde, e que a arrecadação de impostos do setor é insuficiente para custear os impactos no SUS.
Ainda segundo Bicca, os consumidores devem perder aproximadamente 700 bilhões de dólares até 2028 em todo o mundo.
A psiquiatra ressaltou que os danos das bets se concentram em grupos vulneráveis, como adolescentes. Carla Bicca afirmou que cerca de 1,8% das pessoas que são expostas ao jogo ficam adictas, por isto é preciso diminuir a visibilidade, com diminuição da publicidade. “A melhor política de tratamento é reduzir quem precisará dele”.
Também participaram da reunião representantes de diversas instituições, como Ministério Público, Conselho Regional de Medicina (Cremers) e Hospital Psiquiátrico São Pedro.
Dentre os presentes para assistir à reunião, Vitória Vargas, estudante de Direito, também fez uso da palavra. “Crianças e adolescentes estão expostas a publicidade de apostas. Há uma insuficiência normativa. Enquanto não houver consenso na regulamentação, precisamos de normas mais severas”, defendeu.
Texto: Felipe Prestes (reg. prof. 14976)










