2017: o governo Sartori e o estrago do pacotaço

ELMAR BONES
Só a benevolência que a imprensa comercial reserva aos bons anunciantes explica as avaliações que o governo de José Ivo Sartori recebeu nas tradicionais retrospectivas dos jornais no final de 2016.
Nos textos, que resumem o tom da cobertura ao longo do ano, os problemas são exteriores ao governo Sartori. As propostas de solução que ele apresenta podem ser difíceis de engolir, mas não há saída.
O setor público do Rio Grande do Sul “de degrau em degrau desceu ao fundo do poço”. Disso decorrem o parcelamento dos salários, o não pagamento de fornecedores, a precariedade dos serviços, todas as mazelas enfim…
Sartori não tem culpa de nada e o que ele propõe é a única alternativa que resta para sair desse labirinto. Cortar, cortar, equilibrar as contas, como faz qualquer pai de família sensato.
Esse é o discurso, bem sucedido. E os fatos o que dizem?
Sim, Sartori “conseguiu o aval da Assembleia” para cortar nove fundações, estruturas tradicionais da máquina pública, com inegáveis serviços prestados.
Vai cortar 230 milhões de custos, 0,4% do orçamento. Está comprando uma encrenca que vai atazanar o que lhe resta de governo.
A extinção das fundações só se justifica pelo viés ideológico: afirmar o compromisso com o Estado restrito às questões centrais: saúde, segurança, educação.
Em nome disso, ameaça um patrimônio incalculável de experiências e de conhecimentos que remontam a meio século.
Personalidades como Ludwig Buckup, pioneiro da pesquisa científica no Estado, Claudio Accurso, decano dos economistas gaúchos, centenas de nomes influentes na sociedade do Rio Grande do Sul, não sensibilizaram o governador. Nem os servidores na rua. Ele manobrou sua base política e aprovou a extinção das fundações.
Os primeiros movimentos, com recursos dos funcionários à justiça mostram o vespeiro em que se meteu.
No que poderia lhe render um caixa imediato – a autorização para vender a CEEE, Sulgás e CRM, sem consulta popular – o governo perdeu.
As estimativas internas avaliavam em  mais de 2 bilhões a receita com a venda das estatais, que poderiam ser contabilizados em 2017. Agora, com os malditos plebiscitos mantidos, só para 2018, e aí talvez já seja tarde.
Restariam os duodécimos, com os quais o caixa de Sartori poderia  ganhar mais de 500 milhões por ano.
Era provavelmente o item mais justo do seu pacote – que o dinheiro distribuído entre os poderes fosse o efetivamente arrecadado, não o previsto no orçamento, sempre otimista.
O projeto do governo foi clamorosamente derrotado pelo lobby do judiciário (cadê os repórteres!).
Para fechar o ano, o fato que não entrou nas retrospecitivas dos jornalões (ou jornalecos?): a vaia que Sartori recebeu na Academia da Brigada Militar.
Na cerimônia da incorporação de 166 praças no efetivo da BM, os familiares que estavam no auditório vaiaram Sartori. Não há talvez na história centenária da Brigada Militar, registro de vaia a um governador num recinto da corporação.
 

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