A escrita segundo João Gilberto Noll

O escritor gaúcho João Gilberto Noll tem uma produção literária ampla e variada, multigênero. Ganhou vários prêmios e algumas de suas obras foram adaptadas para o cinema, casos, por exemplo, do conto Alguma coisa urgentemente (que virou Nunca fomos tão felizes, na versão de Murilo Salles, 1984), e do romance Harmada, cuja transposição para a tela, em 2003, marcou a volta, após um intervalo de 20 anos, do veterano diretor Maurice Capovilla.
Mas há em Noll também o lado professor que o levou – ministrando oficinas literárias e aulas sobre literatura brasileira – a peregrinar entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro, Porto Alegre, e Berkeley, Califórnia, ou a fazer conferências em Madri e Londres, onde seus livros foram traduzidos.
É este Noll que o público poderá novamente tomar contato através do curso A escrita, labor e liberdade, que ele dará, a partir desta quarta-feira (21/03), no StudioClio (rua José do Patrocínio, 698). Nele, ao longo de 15 encontros, falará sobre aspectos concernentes a literatura contemporânea.
Em seu apartamento, na Rua Fernando Machado, centro de Porto Alegre, Noll resume as principais abordagens do curso que, fundamentalmente, gira em torno do tema da criação literária: “a escrita não é uma abstração e, também, não é um mapa traçado de antemão. Quando escrevo nunca sei como a história vai terminar. Trata-se de uma práxis que se alimenta do próprio ato de escrever, e é isso que quero passar para as pessoas”.
Noll, enquanto contador de histórias pode parecer um sádico. Pode começar um conto com um singelo “a abelha ronda a flor”, em Domingo sem néctar, ou “ele afundou os pés brancos no jardim das camélias”, em Ele era de Berkeley, para depois conduzir o leitor por caminhos sinistros, mórbidos, às vezes sanguinários, mesmo que as cenas descritas sejam apenas metáforas: “gosto deste casamento entre a delicadeza e a brutalidade. Esta dualidade está em todos os meus livros”, comenta o escritor.
Escrita inspirada através de pulsões, num universo onde se cruzam as influências de Marx, Freud, Sartre, Marcuse, Noll considera os diferentes tipos de crises existenciais como molas propulsoras para o ato criativo, daí a persistência em construir personagens que parecem condenados a viver a beira da ruína, sob o fio da navalha: “eu não consigo ver um personagem solar na literatura. O que existe são momentos solares. Por isso associo o ato de criar a crise. Escrever para escapar do vazio. Talvez seja um pouco da nossa herança cristã, pois da dor você emerge, cresce”, explica.
Em 2011, Noll – convidado a participar do evento literário “A Cidade a Travessa: poesia dos lugares”, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa –, tornou-se o primeiro escritor a dormir no quarto onde poeta português viveu seus últimos 15 anos de vida. Experiência, segundo Noll, ao mesmo tempo mórbida e inócua – “não senti absolutamente nada”, revelou – que deverá resultar num livro coletivo, reunindo textos de outros escritores que também passaram pela insólita experiência.
Noll, como prefaciou David Treece (do Kings College London, tradutor de suas obras para o inglês), “destaca-se no meio da conformidade uma voz disposta a enunciar um sentimento de insuficiência diante do real, a certeza de que a potencialidade humana está travada e de que seus desdobramentos possíveis não foram esgotados”.
Por Francisco Ribeiro

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