A farsa do "ritual satânico": o que ainda falta esclarecer

Ladeado por quatro corregedores, o chefe de Polícia, Emerson Wendt, abriu a entrevista coletiva na sexta-feira, 16, para apresentar relatório das investigações sobre a conduta dos agentes policiais no inquérito que levou à prisão sete pessoas inocentes por suposto envolvimento em um ritual satãnico, no qual teriam sido sacrificadas duas crianças.
A conclusão aponta para uma farsa completa e até grosseira, que rendeu mais de um mês de manchetes na imprensa, na maior fake news registrada este ano.
O delegado Wendt abriu a entrevista anunciando que nos próximos dias será reforçada a equipe da Delegacia de Homicídios de Novo Hamburgo, para intensificar as investigações num dos crimes que assombra a polícia gaúcha: o caso das duas crianças esquartejadas, encontradas à beira de uma estrada no bairro Lomba Grande.
“Pelo menos dois agentes vão para lá, liberar a equipe e ampliar as investigações”, disse o delegado.
A polícia, após quase sete meses de trabalho, segue sem pistas que possam levar aos criminosos. Sabe apenas que eram dois irmãos, um menino entre 8 e 10 anos uma menina entre 10 e 12.
O caso já se tornou constrangedor para a polícia. Não bastasse a total falta de indícios que possam levar aos verdadeiros culpados, as investigações foram desviadas e embrulhadas numa trama que levou sete pessoas à prisão, acusadas pelo sacrifício das crianças num ritual satânico.
Era disso que queriam falar os corregedores que ladeavam o chefe de Polícia, na entrevista de sexta-feira. Delegado Marcos Meirelles, chefe da Corregedoria da Polícia, fez a apresentação dos três delegados -Antonio Lapis, Bruno Oliveira e Bruno Pitta – autores do relatório que seria entregue à Justiça naquela mesma tarde.
Eles trabalharam 45 dias, desde o dia 8 de fevereiro quando a chefia de Polícia decretou uma intervenção no inquérito que apurava a morte das crianças, conduzido pelo delegado Moacir Fermino.
Pediram afastamento do delegado e quatro policiais de sua equipe. Chegaram a pedir a prisão de Fermino, porque ele continuava frequentando a delegacia, mas a Justiça não autorizou.
Ouviram 26 pessoas, fizeram buscas e apreensões, refizeram todas as investigações, para descobrir como o delegado Moacir Fermino chegou a história do “ritual satânico” , que além de levar cidadãos inocentes à cadeia por crime hediondo, enganou a polícia, a Justiça e a imprensa.
“Complexo, muito complexo”, foi a expressão que os delegados repetiram muitas vezes na exposição que fizeram do caso à imprensa.
Três pessoas foram indiciadas: o delegado Fermino, por falsidade ideológica e corrupção de testemunha, um agente da delegacia de Novo Hamburgo, por falsidade ideológica, e um homem chamado Paulo, que está preso e é a testemunha-chave.
Segundo os delegados, o homem que montou toda a farsa é esse Paulo. Ele está preso desde o início de fevereiro.
Os delegados lembraram que os corpos das crianças foram encontrados em dois momentos: no dia 4 de setembro um morador achou uma sacola com pedaço de um corpo e ligou para a polícia; no dia 18 numa busca no local foram encontrados outros pedaços.
No dia 6 de outubro, quando o caso já ganhava destaque na imprensa, Paulo fez o primeiro contato com o delegado Fermino, de quem era velho conhecido. Eles não se viam nos últimos anos, mas foram muito próximos e um foi cabo eleitoral do outro nas eleições municipais de 2004 e 2008. “Comprovamos que eles se falaram nesse dia”. Paulo, que Fermino chama de “profeta”, se diz “estudioso de física quântica”.
No dia 13, o delegado Fermino registra ocorrência, de testemunha anônima que afirma ter visto o “ritual satânico” num sítio em Morungava, em Gravataí, a 30 quilômetros do local onde foram encontrados os corpos.
A partir daí, segundo os corregedores o delegado manteve uma investigação não autorizada, paralela ao inquérito oficial conduzido pelo delegado Rogério Baggio, da Homicídios de Novo Hamburgo.
Quando o titular saiu em férias, no dia 10 de dezembro, Fermino assumiu o caso com a história já pronta. Nove dias depois pediu a prisão temporária de sete pessoas.
Até então, segundo concluíram os corregedores o delegado não tinha nenhuma testemunha, nem indício material. Apenas o relato do “profeta” Paulo e uma história montada com base num livro de magia negra, do qual trechos inteiros foram transcritos no relatório que o delegado apresentou para justificar a prisão temporária dos sete suspeitos. “A história foi sendo montada aos pedaços, à medida da necessidade de apresentar elementos que justificassem as prisões”, diz o delegado Antonio Pitta.
As três testemunhas reais arroladas no inquérito apareceram depois do dia 4 de janeiro, quando o delegado já dava o caso por resolvido.
Elas corroboram a história em linhas gerais, mas seus depoimentos têm tantas contradições que não resistiram ao interrogatório dos corregedores e, ao final, confessaram as mentiras.
Eram aliciadas e instruídas por Paulo com promessa de benefícios do sistema de proteção à testemunhas. Uma delas reclamou que haviam prometido 3 mil mensais e não estava recebendo nem mil reais.
A terceira testemunha se apresentou à polícia no dia 22 de janeiro, num momento crucial da investigação, era o próprio filho de Paulo, que apontou ao delegado o sétimo envolvido no ritual, elo que faltava para ligar o “bruxo” Silvio Rodrigues com os outros acusados.
Márcio Brustolin, o sétimo acusado, teria apresentado o bruxo aos dois sócios que contrataram o ritual. Era mais uma armação. Os corregedores encontraram uma mensagem de Paulo ao delegado Fermino, na véspera: “Mais uma missão cumprida…a testemunha vai se apresentar”.
Além de Paulo que o ajudava a construir a história, o delegado Fermino contava com um segundo profeta: um pastor evangélico, de antiga amizade, que ele escuta como um “guia espiritual”. No dia em que comandava escavações no local onde foram encontrados os corpos, o delegado recebeu uma mensagem deste pastor: “Não sei onde você está, mas cave mais para a esquerda”. A polícia não considera esse pastor envolvido nos crimes do delegado.
O relatório era falso. Não havia qualquer investigação, era só cortina de fumaça. Os corregedores encontraram nas buscas na casa de Fermino um esboço do relatório, datado de outubro… Ele tinha a história pronta antes de qualquer investigação.
Quais os motivos que levaram Paulo a criar toda essa história e o delegado Fermino a acreditar nela, mesmo sabendo que era falsa?
As conclusões dos corregedores são hipóteses. Eles acreditam que Paulo foi motivado por uma dívida.
Paulo foi contratado por Jair Silva e seu sócio para limpar um terreno, onde seria feito um loteamento. Ele cobrou 20 mil para retirar um lixão que ocupava grande parte da área. O serviço não foi feito. Jair começou a pressioná-lo. Quando surgiu o caso das crianças esquartejadas nos jornais ele teria urdido a trama para se livrar do problema.
O delegado Moacir Fermino, com 44 anos de policia, teria motivos religiosos para apostar na história. Evangélico, ele buscaria “ascensão religiosa”.
Os corregedores chegaram a mencionar a “vaidade” do delegado que o levaria a buscar um caso de grande repercussão e que ainda o credenciaria como homem de fé.
A uma pergunta, se a história não teria sido criada por Paulo para encobrir os verdadeiros executores do crime, o delegado Antonio Lapis respondeu: “O conjunto probatório que reunimos não aponta neste sentido”
O delegado Fermino acreditou na história levada pelo Paulo e buscou elementos para prová-la mesmo atropelando os fatos.
No depoimento que prestou aos corregedores, Fermino foi lacônico. Disse que acreditou na história e procurou comprová-la. “Muitas perguntas ele respondeu com evasivas”, disse um dos corregedores. O delegado, que já foi candidato a vereador, teria algum interesse político? Os corregedores não encontraram nada neste sentido.
Os corregedores disseram que com esse inquérito, a instituição policial estava “cortando na própria carne”.
O advogado Marco Alfredo Mejia, que defende o bruxo Silvio Rodrigues, e estava presente à entrevista, criticou as conclusões. “Infelizmente terminou em pizza. Não queria dizer isso mas é o que aconteceu”.
Ele disse que houve nesse caso um “crime de discriminação religiosa e racial” e isso não foi apontado. “Onde se viu delegado prendendo em nome de Deus, com base em revelações proféticas?”.
Seu cliente ficou 40 dias preso, sofrendo ameaças. “Sete pessoas foram levadas ao cárcere, famílias foram destruídas e o crime é falsidade ideológica? Só tem uma explicação pra isso: manipulação”, disse Mejia.
Uma cópia do relatório dos corregedores vai para a Justiça, outra para o Conselho Superior de Polícia.

Adquira nossas publicações

texto asjjsa akskalsa

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *