Edgar Vasques resgata uma expressão que remonta às guerras do pampa, para definir a Associação dos Artistas Gráficos de Porto Alegre. Quem “vai na fumaça” é aquele que combate na vanguarda, debaixo do fogo da artilharia.
A Grafar, da qual Vasques é um dos fundadores, está na origem de um movimento que é vanguarda no Brasil, reconhecido até no exterior.
Desenhista em tempo integral, aos 68 anos, Vasques combate em todas as frentes do humor gráfico – charge, cartoon, caricatura, quadrinho. Sempre debaixo da fumaça.
Desde a estreia, no distante ano de 1973, quando começou a publicar o Rango, na Folha da Manhã.
Era plena ditadura, na euforia do milagre brasileiro. Ele apresentou um personagem que era o retrato da fome e da pobreza no país.
Edgar Vasques falou ao JÁ sobre esse movimento dos artistas gráficos gaúchos, na linha de frente do humor que não dá tréguas.

JÁ – Onde começa a Grafar?
Vasques – Os antecedentes estão na Folha da Manhã, em 1973. Entrei para cobrir umas férias do Veríssimo. Criamos o Quadrão, um encarte editado pelo Fraga (José Guaraci Fraga). Ali surgiram o Santiago, o Corvo… Era ditadura… O que o jornalista não podia dizer, o humorista dizia, com um desenho ou uma charge.
O espaço do humor foi valorizado. Vimos também que havia uma tradição e, então, juntamos os mais velhos: Bendatti, Mottini, Joaquim da Fonseca, Sampaulo, Sampaio, Canini – os mestres, com os guris que estavam começando – Bier, Iotti, Guazzelli, Rodrigo Rosa…
O Quadrão teve uma fase no Coojornal…
A Folha da Manhã mudou e, depois, fechou. O Coojornal levou o Quadrão e a partir dali a cooperativa criou um setor de arte aplicada, charge, ilustração, quadrinho, comandada pelo Sérgio Batsow, onde tinha o Ferré, o Corvo, Santiago, começando a chegar o Moa, o Juska, Roberto Silva.
A cooperativa tinha diversas publicações impressas, demandava bastante ilustração. Tudo isso ajudou a aglutinar e resultou na Grafar, uma associação completamente anárquica. Já tentamos organizar, com mensalidade, sede, estatuto, não deu certo.
Mas tem um presidente?
Sim, o presidente é o Hauss, está no cargo há dez anos, porque não se consegue fazer uma eleição. Apesar disso, de todas as tentativas de se criar associações no país na área a Grafar é mais bem sucedida.
O que faz a Grafar?
A Grafar “vai na fumaça”. Ela leva o humor e a crítica aos limites, vai onde precisa, através de publicações, salões, palestras…e por ultimo se expandiu pelo Estado: Rio Grande, Santa Maria, Passo Fundo, tem uma rapaziada furiosa. Tem lista na internet, tramam os planos e fazem acontecer, estão sempre produzindo. Claro, tem fases desleixo…faz parte.
Da Grafar nasce o Salão de Desenho para Imprensa?
O salão nasce daí, pensamos numa coisa institucional, da cidade, uma mostra anual dessa arte aplicada que é o desenho feito para a imprensa, para a população, aberta, gratuita. A ideia foi acolhida pelo secretário de Cultura, o jornalista Pilla Vares, e a vereadora Margarete Moraes aprovou uma lei incluindo o salão no calendário cultural do Município. Nesse período o salão teve muito apoio. Trazia o Millor Fernandes para ser jurado. Os irmãos Caruso, cartunistas da argentina e do Uruguai, os melhores.

A Grafar era a curadora do Salão?
No início sim, ajudamos a criar o regulamento, os conceitos porque era uma área que o poder público não conhecia. Mas era um evento da prefeitura. Depois nos afastamos, continuamos colaborando à distância. Sempre participamos do júri, por exemplo. Sugerimos nomes, eu este ano fui jurado nas duas instâncias, na seleção que escolhe 100 trabalhos de um total de 300 inscritos e na premiação que indica os cinco melhores.
O que houve com o Salão este ano?
As últimas administrações não se interessavam pelo Salão, mas as equipes da Secretaria de Cultura, briosamente, faziam cumprir a lei.
Até que chegou abril deste ano e não aconteceu nada. Não tinha os editais, prazo de inscrição… A lei prevê uma dotação de verba para realizar o Salão, é 20 ou 25 mil reais. São 10 mil para cinco prêmios de 2 mil cada um e o restante para a produção do Salão.
Falamos com a vereadora Sofia Cavedon, foi marcada uma reunião com o secretário Municipal de Cultura, Luciano Alabarse. Aí aconteceu que a reunião foi suspensa e não me avisaram, cheguei lá na secretaria não tinha ninguém. Mas quando estou saindo vem chegando o secretário Alabarse. Ele esteve também na prefeitura do PT, promotor do Porto Alegre em Cena…tem um currículo a zelar. Falei e disse que o Salão este ano completa 25 anos e inclusive é lei e burlar a lei tem consequência.
Na verdade ele não era contra, não estava nem aí… mas viu que o negócio da lei podia dar problema, mobilizou o pessoal da coordenação de artes plásticas e acabou saindo, sem prêmio. O vencedor ganha um portfólio de seu trabalho. Não teve nem cachê para o júri, fomos de graça, amor à camiseta.
E o resultado do Salão neste ano?
São cinco categorias. Quadrinhos tava legal, tem em Rio Grande um maravilhoso aquarelista, Alyssom Afonso – o que ele faz com a aquarela… lindo visualmente, conceitualmente muito adequado. Não ganhou porque tinha Pablito Aguiar, de Alvorada. Ele aborda a vida daqueles em que ninguém presta – é um repórter.

Na caricatura tinha coisas primorosas, a vencedora, do ator Tonico Pereira, é um requinte. Na ilustração, ganhou Cleber Salles, do Correio Brasiliense com uma caricatura de Fidel Castro.
Charges e cartoon foram os mais fracos. Falta de informação é o maior problema, os caras tentam fazer humor em torno de assunto que entenderam errado. Apenas uma charge inscrita se referia ao impeachment da presidente Dilma Roussef.
Como foi a participação, assim com uma organização tardia?
Foi surpreendente, inclusive a inscrição de grandes nomes internacionais, da Bélgica, da Ucránia.
E tem até charges de Iberê Camargo. “Iberê chargista” é o tema da mostra paralela do salão. É uma exposição surpreendente de trabalhos poucos conhecidos Iberê. Nem eu sabia que existia, uma coisa que o Iberê não tinha era humor, o que não quer dizer porque mau humor também é.
E a imprensa local como reage a um salão sobre desenhos para a imprensa?
A imprensa ignora solenemente. Os desenhistas dos grandes veículos não participam. As vezes são jurados, como o Fraga, da Zero Hora, o Iotti, quando está aí, porque mora nos EUA. Notícia mesmo quem dava alguma coisa era o Roger Lerina… Agora nem isso.
Há sentido em falar em imprensa?
O meio impresso está combatendo em retirada… Na internet ninguém é de ninguém… A crise é muito grande. Eu me sinto cercado, precisamos de uma sortida para romper o cerco.
Vocês todos, de certa forma, são discípulos do Sampaulo, não?
Sampaulo foi o primeiro profissional. O Sampaio, o irmão dele, excelente chargista, virou funcionário público. Ele não, viveu daquilo, mostrou para nós que esse atividade pode ser uma profissão. Além da grande qualidade, ele tem esse mérito.
Ele consagrou também o humor político.
Fizemos uma exposição das charges publicadas (ou censuradas) na imprensa gaúcha durante a ditadura militar. Já em 1965, Sampaulo escrachava o general Castelo Branco numa caricatura.


“A Grafar vai na fumaça”
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