A maioridade da Casa de Cinema


Gerbase diz que a produção gaúcha é que provocou a criação da Casa de Cinema
(Fotos: Naira Hofmeister/JÁ)

Naira Hofmeister e Sérgio Lagranha

A Casa de Cinema nasceu em 1987 para fazer cinema, mas faz tevê com prazer. Publicidade, não. O grande divisor de águas foi o curta Ilha das Flores (1989). Logo depois, o então presidente da República, Fernando Collor fechou a Embrafilme e outros órgãos federais de apoio ao cinema nacional. Com o curta repercutindo no mundo, a turma resolveu resistir. E deu certo.

Em 1995, como co-produtora, participou do longa Felicidade É…, no qual respondeu pelo último dos quatro episódios, Estrada, dirigido por Jorge Furtado. Depois veio Tolerância (2000), de Carlos Gerbase, o primeiro longa integralmente feito pela Casa. em seguida Houve Uma Vez Dois Verões (2002), O Homem Que Copiava (2003), Meu Tio Matou Um Cara (2004), todos de Furtado e Sal de Prata (2005), de Gerbase.

Como essa turma talentosa teve coragem de resistir e fazer cinema de qualidade em Porto Alegre é o que contamos na entrevista abaixo com Carlos Gerbase, Ana Luiza Azevedo – que está em pré-produção de seu primeiro longa-metragem – e Jorge Furtado.

JÁ – A Casa de Cinema completou 18 anos em dezembro. Nesse período viu o cinema brasileiro perder instrumentos como a Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilmes) e renascer no final dos anos 90. Como foram esses anos para vocês?
Carlos Gerbase – Na verdade todo mundo fala da Embrafilmes, mas para nós não fez diferença ela ter acabado porque financiava basicamente longas-metragens. Agora com o fim da Fundação do Cinema Brasileiro, que era o antigo departamento cultural da Embrafilmes, foi brabo. Teve ainda o fim do Concine {Conselho Nacional de Cinema, órgão colegiado criado em 1976 e vinculado ao Ministério da Cultura}. Só depois percebemos que a Embrafilmes Distribuidora também era importantíssima pra nós. Todo mundo fala que o Collor {Fernando Collor de Mello, presidente da República de 1990/92} acabou com a Embrafilmes, mas ele acabou com tudo! Sorte que nós tínhamos feito Ilha das Flores (1989). Acho que Ilha das Flores tem um papel importante, pois foi feito sem dinheiro algum, sem apoio.

Ana Luiza Azevedo – Só com a vontade de fazer e o apoio dos fornecedores. A Kodak deu película, o laboratório fez toda a revelação de graça. Foi um filme que a gente fez entre parceiros. Naquele momento a Casa de Cinema, assim como todos os outros produtores de cinema, estava num impasse: fechar as portas ou continuar.  Isso era início da década de 90 e, até então, nós éramos 12 sócios.

JÁ – Vocês iniciaram como uma cooperativa…
Ana Azevedo – Era como um condomínio, porque eram quatro produtoras que formavam uma cooperativa de produtoras. A Casa de Cinema era formada por 12 sócios daquelas produtoras. Naquele tempo, cinema não tinha muita saída, a gente começava a acumular dívidas, muitas produtoras de cinema estavam fechando. Então resolvemos que iríamos fechar a Casa de Cinema.

Gerbase – E tínhamos uma lei entre nós: não faríamos filmes publicitários. Tinha muita gente que fazia para entrar no mercado. Havia essa possibilidade de transformar a Casa de Cinema numa produtora de comerciais. Nesse momento começamos a decidir nosso futuro.

Ana Azevedo – Alguns resolveram criar a sua produtora de publicidade. O Zé Pedro [José Pedro Goulart] criou a Zeppelin, o Werner [Schünemann] e a Mônica [Schmiedt] criaram a 30 Segundos e nós resolvemos continuar. Eu e a Luli [Luciana Tomasi, produtora] fomos as mais resistentes a não fechar, exatamente porque Ilha das Flores começava a nos dar um retorno do exterior, começávamos a ser procurados. Eu achava um absurdo fechar naquele momento. As coisas estavam começando a acontecer, depois de um investimento de quatro anos. De repente, fechar?

“A idéia não é que a Casa de Cinema criou a movimentação, mas o contrário. Os filmes criaram a Casa de Cinema. Por isso ela nasceu já relativamente forte.” (Gerbase)

JÁ – Vocês tinham a intenção de fazer um pólo de cinema gaúcho?
Gerbase
– O tal do pólo de cinema gaúcho é uma coisa que não depende de empresas ou de oficializar as coisas. Depende de filmes, que são anteriores à Casa de Cinema. Todos nós já tínhamos feito filmes. Então o que aconteceu foi que a Casa de Cinema oficializou ou institucionalizou algo que já acontecia. Inclusive com colaborações de várias pessoas que estavam fazendo filmes junto conosco.  A idéia não é que a Casa de Cinema criou a movimentação, mas o contrário. Os filmes criaram a Casa de Cinema. Por isso ela nasceu já relativamente forte.

Ana Azevedo – A idéia inicial  era um pouco de unir forças. Cada um tinha a sua produtora. Eu tinha uma produtora que era a Luz Produções, junto com o Jorge [Furtado] e o Zé Pedro [Goulart]; O Gerbase tinha uma com a Luciana [Tomasi]. Nenhuma das produtoras tinha condições de sobreviver sozinha, pagar o espaço, manter os filmes em dia. O primeiro material que fizemos, dizia: O cinema gaúcho agora tem endereço. Porque era sempre assim: alguém queria exibir o Dorival [O dia em que Dorival encarou a guarda – 1986], ligava pra minha casa; eu tinha que ligar para casa do Jorge porque a cópia estava com ele. A gente não tinha um espaço, na verdade a In Vídeo era a única que tinha.

Gerbase – Naquelas… era no andar de cima da minha casa.

JÁ – E de 1987 pra cá, o que mudou?
Gerbase – São dois cenários diferentes: o cenário de curta-metragem e de longa-metragem. Quando começamos não tinha longa, e a perspectiva de fazer um estava bem distante. Até tínhamos o projeto, mas era caro, muito caro a ponto de ser filmado. A distribuição de curtas sempre funcionou mais ou menos do mesmo jeito: temos as cópias aqui e as pessoas que têm interesse, procuram. Claro, metade delas se surpreendia com o fato de ter que pagar. A distribuição continua do mesmo jeito, mas o que acontece é que temos muito mais títulos, inclusive alguns que  são de outros cineastas gaúchos que estão aqui conosco, que foram incluídos como “Outras Históricas” na caixa dos curtas em DVD. É um mercado que não tem uma luta econômica  como no caso dos longas. Já o mercado de longas é um outro cenário que só começamos a entrar em 1999. Nos associamos com a Columbia, que é uma major. Todos os nossos longas foram distribuídos por majors, cinco pela Columbia e um pela Fox.

“Já superamos aquele problema de que o cinema brasileiro era tecnicamente ruim. Não é mais.Hoje, o cinema brasileiro tem qualidade técnica.” (Ana Luiza Azevedo)


Ana Azevedo dirigindo o curta Dona Cristina Perde a Memória

JÁ – E funciona?
Gerbase – É difícil responder, mas funciona. Nós temos os mesmos problemas que o cinema brasileiro como um todo. A lógica da legislação é de apoio à realização e produção. A maioria dos filmes não é distribuída ou precariamente distribuída. As produtoras em si não se capitalizam nunca. A não ser aquelas que eventualmente fazem filmes de muita bilheteria, em termos de Brasil. Mas nem assim: Fernando Meirelles deu entrevista dizendo que eles continuam no vermelho. Então se Cidade de Deus, que teve três milhões de espectadores, não se pagou, imagina quem teve 500 mil, 600 mil, cem mil ou cinqüenta mil?  Sobre as majors, eu tenho uma opinião, que sempre falo em nossas reuniões: ruim com elas, pior sem.

Ana Azevedo – Hoje, grande parte dos cineastas que estão fazendo longa-metragem, vieram do curta-metragem, e se adaptaram, como nós da Casa de Cinema, a produzir. Tem muitas produtoras funcionando e funcionando bem, produzindo direito. Então acho que já superamos aquele problema de que o cinema brasileiro era tecnicamente ruim. Não é. Acho que o cinema brasileiro, hoje, tem qualidade técnica, tem bons roteiristas, bons diretores, tem capacidade para concorrer no mercado. Agora, a distribuição, mesmo as próprias majors, não estão preparadas para distribuir filmes brasileiros. Tem estrutura e estão preparadas para distribuir cinema norte-americano. Mas sinto falta – e acho que não sou só eu –, de profissionais no mercado brasileiro que saibam olhar o filme brasileiro e pensar como que ele tem que ser distribuído para chegar no seu público.

Gerbase – E pensar como que ele vai enfrentar as terríveis reduções de espaço nas salas…

Ana Azevedo – É… ainda tem tudo isso. Mas tem que ser aquela coisa: esse filme tem tal  perfil para ganhar esse nicho de mercado. Os norte-americanos fazem isso com os filmes deles lá. Ou seja, já vêm com uma estratégia pronta pra cá. Eu acho que nos falta isso. Falta essa profissionalização da distribuição. Não é que as distribuidoras não sejam profissionais, não é isso. Mas elas não estão preparadas para o produto específico, que é o filme brasileiro, que é diferente.

JÁ – Mas está melhorando?
Gerbase – Há um diálogo entre o cinema brasileiro e as majors. Esse diálogo é positivo, porque os filmes estão aí, têm público. Os brasileiros querem rodar e estão nos cinemas via distribuição das majors. Os filmes que movimentaram o cinema brasileiro nos últimos anos foram distribuídos pelas majors. Eu acho que isso é bom, é positivo. O problema que isso é uma fatia do mercado, uma parte do cinema brasileiro. A parte que não consegue entrar, reclama. Em 2004, por exemplo, teve a famosa discussão Ancinav [Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual], que foi uma tentativa de repensar o modelo como um todo. O governo, aparentemente, estava bancando isso, havia vontade política. Mas aí houve um choque com o centro e o governo acabou tirando o pé, voltou atrás. Eu sou favorável a repensar,  sou contra acabar com tudo, porque tem gente que prega isso. Inclusive pessoas inteligentes. Eu acho que não, acho que tem coisas que precisam ser priorizadas. A discussão é sempre essa: a Lei do Audiovisual, principal mecanismo de financiamento.

Ana Azevedo – Uma das propostas que estava incluída na Ancinav, para a regulamentação do mercado, modificava o cenário que temos hoje, onde os filmes que entram em exibição com um número muito grande de cópias, acabam sufocando os outros. O Harry Potter, por exemplo, entrou com seiscentas e tantas cópias. Levando em conta que o Brasil tem mil e setecentas salas, um terço delas ficaram ocupadas com um único filme. Isso é uma coisa que sufoca o mercado. Claro que não é factível proibir o filme de entrar com o número de cópias que quiser. O projeto previa que a partir de um determinado número de cópias, tinha uma taxação, que vai aumentando. Então, é uma opção da própria distribuidora, se quiser investir e puder pagar mais. E esse dinheiro iria fomentar a própria atividade. Esse tipo de regulamentação que estava prevista acabou caindo por terra junto. O grande problema da Ancinav, é que se tentou discutir num único momento muita coisa. Coisas boas acabaram sendo soterradas, porque tinham outras que eram questionáveis.

JÁ – Como vocês analisam a política cultural brasileira e as Leis de Incentivo?
Gerbase – Se não tivesse a Lei do Audiovisual e a Lei Rouanet não haveria filmes. A lei tem coisas positivas, realmente ajuda que os filmes sejam feitos. Alguns filmes conseguem colocação no mercado porque ganham dinheiro das majors também. O dinheiro dos longas vem de duas fontes: primeiro é a Lei do Audiovisual, onde a empresa, quando vai pagar seu Imposto de Renda, pode destinar uma parte para os filmes. Isso interessa as grandes, como Copesul, RGE, Ipiranga… Geralmente outra parte do dinheiro vem das majors, que são as grandes empresas multinacionais, que pagam um imposto extremamente alto. Uma parte desse imposto pode ser reduzido em cima dos filmes brasileiros. Aqui na Casa de Cinema nossos filmes podem ter essas duas fontes conjugadas. No cinema brasileiro como um todo. Isso faz com que esses filmes que ganham dinheiro das majors tenham uma colocação mais fácil no mercado, porque são filmes em que eles investiram dinheiro.  E a outra peça do quebra cabeça é a Globo Filmes, que escolhe alguns filmes considerados mais viáveis no mercado, injeta indiretamente algum dinheiro via divulgação.

Ana Azevedo – Só queria lembrar mais uma coisa que foi bastante importante nesse governo, que foram os concursos.

Gerbase – São duas opções para financiar os filmes, duas filosofias diferentes de financiamento neoliberal, que é essa coisa de aplicar uma parte do imposto. Na primeira, quem decide o filme que vai ser feito são os próprios donos do dinheiro, que é uma grande empresa, as majors, a Globo Filmes. O concurso já é outra lógica, que já existe na Argentina, por exemplo. O dinheiro do financiamento público, na Argentina, é um fundo de imposto, que paga o concurso.

Ana Azevedo – Na RGE é um dinheiro incentivado, mas que é repassado aos cineastas através de um concurso. Aí é bacana, porque não tem ligação com o departamento de marketing da empresa.

Gerbase – A diferença é que na Argentina eles fazem filmes mais baratos. Não vou nem dizer se são melhores ou piores, mas são mais baratos, sem dúvida. Estive na Argentina agora e olhei alguns números. É um terço do que nós gastamos. E eles têm um público razoável.

JÁ – E qual a diferença no formato deles?
Gerbase – A política cultural deles é diferente. A nossa, veio o presidente Itamar Franco, depois o FHC {Fernando Henrique Cardoso}, com essa idéia de que o cinema tem que dialogar com o mercado. Não é o governo que vai tutelar a escolha, como em outros lugares. Na Argentina, a filosofia é essa. Tu ganhas X para fazer o filme, mais X quando entregar a primeira cópia em DVD. Depois mais X para distribuir e quando entrar em cartaz, recebe mais.

Ana Azevedo – Como é na França e em outros lugares.

JÁ – Em termos de liberdade de criação, os dois formatos têm diferença? No caso das LICs, a decisão seria das empresas e, nos concursos, do governo?
Ana Azevedo – Não… porque não é o governo. Os concursos são comissões, júris formados por pessoas ligadas ao mercado cinematográfico, então não é o governo. Um dos grandes problemas do ex-presidente Fernando Collor com a Embrafilmes é que, exatamente naquele momento, se discutia a forma de repasses das verbas, que sempre era muito fechada. Até estava se criando concursos, teve o primeiro de desenvolvimento de projetos. A forma começava a ser repensada e transformada. Somente agora se retomou esse formato. As verbas do governo são repassadas através de concursos. O resultado disso é uma renovação muito grande de cineastas, muita gente nova. É o resultado desse sistema.

JÁ – Como foi que vocês criaram essa parceria com a Globo, começaram a fazer televisão. Esse foi o caminho encontrado perante as dificuldades de fazer cinema?
Ana Azevedo – Desde o início da década de 90 a gente já fazia, por exemplo, Dóris para Maiores. Nós  fazíamos pequenas coisas que entravam na programação.

Gerbase – A idéia de fazer televisão sempre foi simpática para nós. É diferente de fazer publicidade. Televisão todo mundo quer fazer, não tem nenhum preconceito com televisão. O que acontece é que há pequenos produtores.

JÁ – Mas ao longo desse  período vocês acabaram fazendo muita tevê. E existe uma certa crítica de mesclar cinema com televisão, como se a tevê banalizasse as produções…
Ana Azevedo – Eu não concordo com essa idéia de que a televisão nos prostitui. Tive belíssimas experiências com a  televisão. Acho que Cidade dos Homens rompeu com muita coisa. Acho que todo o espaço que se consegue dentro da televisão acaba renovando linguagem, coisas que antes não eram captadas na televisão. Acho bárbaro. Acho muito romântico a gente pensar em uma produtora que vai viver só de cinema..Nós não conseguimos. No entanto, a televisão também tem uma frustração que é um super trabalhão, mas vai ao ar e acaba. É um produto efêmero, passou e nunca mais. Mas dá uma possibilidade de experimentação que é muito legal, que o cinema infelizmente não propicia. Não tem como fazer um filme a cada hora. O Gerbase fez Tolerância em 1999, filmou Sal de Prata em 2004 e agora está preparando um outro pra sei lá quando. Se a gente fosse esperar isso, sem fazer nada no meio do caminho…Já a tevê dá essa possibilidade. E não só aos cineastas, mas a toda uma equipe que se qualifica, tem trabalho.  No momento estamos fazendo quadros para o Fantástico e tem uma equipe permanentemente trabalhando e que está aprendendo um monte.

JÁ – Vocês utilizaram a produção de tevê no DVD?
Ana Azevedo – Na caixa de DVD dos curtas conseguimos colocar alguns dos produtos que fizemos para a televisão. Dia de Visita [episódio da série Brava Gente, que foi ao ar em 2001, pela TV Globo] é um dos trabalhos que mais gosto do resultado. E acho que é um trabalho extremamente ousado para televisão. Ele tem três minutos onde não se diz uma palavra. Se tu pensares nisso, é um ritmo completamente diferente do que a tevê estava usando. Aquela coisa de prender a atenção do espectador. Eu queria provar que é possível fazer isso usando um plano extremamente longo, criando um suspense…

JÁ – Essa parceria com a RBS é única no Brasil. Isso incita aquela velha discussão sobre o Pólo de Cinema Gaúcho…
Gerbase – A gente meio que ensinou a RBS a fazer cinema. Agora, eles já fazem sozinhos, não precisam mais da nossa mãozinha. A RBS poderia entrar muito mais, mas é claro que aí a Globo dá uma prensa neles, né? Mas seria ótimo se a RBS fosse muito mais forte do que é na área da realização, da produção. Se tivesse novelas, minisséries…

Ana Azevedo – Tem um núcleo dentro da RBS, com a Alice Urbim, Gilberto Perin. A Alice tinha esse projeto há muito tempo de fazer teledramaturgia. E nunca conseguia espaço. A Casa de Cinema começou colocando curtas que já existiam nesse espaço que eles conseguiram dentro da programação. E a própria RBS começou a se dar conta que o público queria ver a dramaturgia produzida no Rio Grande do Sul. Então isso foi abrindo espaços. E acho que esses projetos que eles têm agora das Histórias Curtas é bárbaro. Tem muita gente boa surgindo, é um espaço para quem está começando. Já tem um espaço sedimentado e tomara que consigam aumentar.

JÁ –  No Brasil ainda é incipiente a relação dos produtores de cinema com as redes de tevê?
Ana Azevedo – Essa associação da televisão com a atividade cinematográfica existe  no mundo inteiro. No Brasil tem um modelo em que a produção está muito centralizada na própria emissora, que produz sua programação, diferente do que existe quase que no mundo inteiro. Essa associação é fundamental na França, Alemanha, Inglaterra. É através dela que se viabiliza a atividade cinematográfica. Acho que no Brasil a gente está engatinhando ainda. Praticamente só a Globo faz isso. Tem que ter investimentos das outras redes também.

JÁ – As associações da Globo são estratégicas, pois como concessionária de um canal de tevê não poderia obter recursos da LIC.
Gerbase – A Lei do Audiovisual teoricamente impede que uma produtora não independente utilize seus recursos. Mas aí o ‘não-independente’ também é subjetivo. Na verdade quando ela produz um produto dela como Os Normais, na verdade, a produtora é outra. O X da questão é a relação entre a outra produtora e a Globo. Mas isso não nos toca diretamente, porque a nossa relação eventual com a Globo é como produtora. A Globo entra, ou não entra, depende dela. Mas todo o filme, quem produz é a Casa de Cinema.

Ana Azevedo – No nosso caso, os apoios da Globo Filmes foram posteriores ao nosso filme estar pronto, não houve qualquer interferência na própria realização do filme. Tem outros filmes que a Globo se associa antes, então ai participa da realização do filme. O próprio Carandiru foi anunciado antes…

JÁ – Quando vocês começaram, em 1987, existia um tipo de estrutura pra fazer cinema em Porto Alegre. Hoje já temos o número suficiente de profissionais qualificados?
Gerbase – Sem dúvida melhorou muito. Hoje é muito mais fácil locar equipamento, até pela evolução tecnológica, das tecnologias digitais. Tem muito mais gente pronta para fazer filmes na área técnica, muito mais atores e atrizes. Duas faculdades de cinema sérias.

Ana Azevedo – É outro cenário, completamente diferente. O que acontecia é que as pessoas começavam a fazer cinema e quando se qualificavam, iam para o Rio e São Paulo. Claro que isso ainda acontece, mas hoje existe um mercado aqui para quem optar em ficar. Então, os técnicos de cinema ou audiovisual, podem ficar em Porto Alegre e trabalhar. E esse mercado de conteúdo audiovisual está crescendo muito, se diversificando. Agora tem a Internet, gente trabalhando com criação de conteúdo para celular. Lembro-me quando foi realizado O Quatrilho [Fábio Barreto, Brasil, 1994] que a maior parte da equipe era de fora. Esse ano, o Beto Brant vai filmar aqui e virão ele, o co-diretor e o fotógrafo, mas só porque ele acha importante trazer. O resto da equipe será toda daqui.

“Todos os países devem ter a sua cultura refletida através da imagem em movimento, através da sua música.” (Ana Luiza Azevedo)

JÁ – E vocês acham que está se criando uma consciência empresarial de que investir em cultura é legal?
Ana Azevedo – Sem dúvida que grande parte das empresas já perceberam que investir em cultura tem um retorno muito grande. Acredito que elas devam ter suas pesquisas de retorno de imagem através dos projetos – que a gente não conhece – mas que mostram que mudou a partir do momento que fez esse investimento. Se qualquer uma empresa dessas fosse pagar a quantidade de vezes que o nome dela saiu no jornal, em razão dos projetos, seria muitas vezes maior do que o valor que eles investem em cultura.

Gerbase – O que a LIC tem de diferente da lei do Audiovisual, é que no Audiovisual o empresário coloca só o dinheiro do imposto, não coloca dinheiro dele. A LIC exige que o empresário que quiser patrocinar um projeto dessas áreas coloque mais 20% do dinheiro dele. É um investimento que tem que ser pensado.
Ana Azevedo – Agora, o que a gente tem tido bastante e essa questão do vicio. O empresário que investia em cultura sem a lei e passou a investir com a lei, agora só coloca mais dinheiro se tiver renúncia. É um problema… Existir cinema num pais é importante. Seria uma catástrofe a gente viver aqui, só com uma imagem realizada nos EUA,  em outros paises. A gente não teria em nenhum momento o espelho, onde pudéssemos nos olhar e saber quem nós somos. Por isso é importante que as pessoas invistam em cinema. É uma questão de soberania nacional. Todos os países devem ter a sua cultura refletida através da imagem em movimento, através da sua música…

JÁ – Deve ter o governo também…
Ana Azevedo – Sem dúvida. O cinema é uma atividade híbrida, por que ele é uma atividade cultural e também é um produto. Às vezes, ajuda e, às vezes, complica. Porque é uma discussão que está dentro da área do comércio e, simultaneamente, da cultura.  Em 2005 foi aprovado pela Unesco que o cinema é um produto que não pode ser discutido apenas com leis de mercado. Isso foi uma grande vitória da França, nossa, de países periféricos na industria cinematográfica, que não têm a hegemonia dos EUA.  Porque a tendência é uma dominação total da industria norte-americana, que lá no início da atividade, em 1914, percebeu a potencialidade e criou um mercado, incentivos, e chegou ao nível atual.

“O DVD surgiu com uma tecnologia que, associada aos televisores maiores, à melhor qualidade de som em casa, à insegurança na rua, está tirando o público dos cinemas. É um caso novo, uma revolução completa.” (Gerbase)


Gerbase e Ana Azevedo apostam no mercado de DVDs

JÁ – Essa idéia de lançar a caixa de curtas da Casa de Cinema tem a ver com isso?
Gerbase – Se dizia do VHS ia acabar com o cinema, depois que a tevê a cabo ia acabar, não aconteceu. Agora, com o DVD surgiu uma tecnologia que, associada aos televisores maiores, à melhor qualidade de som em casa, à insegurança na rua, à concentração de cinema nos shoppings, à pirataria, está tirando o público dos cinemas. Em dois anos, o número de gente que vai ao cinema caiu no mundo todo, e no Brasil, caiu muito. É um caso novo, uma revolução completa. É uma opção para distribuir. Nós estamos conseguindo entrar no Rio de Janeiro, em São Paulo, vende-se pela Internet. Já pensou, daqui a pouco estamos chegando na Europa, nos Estados Unidos. Por isso, a gente fez a caixa de DVD com legenda em inglês, espanhol, francês e português. É um produto que vai ganhar o mundo, nós vamos ganhar espaço.

JÁ – Deu muito trabalho recuperar os curtas mais antigos?
Gerbase Nós revisamos todos os filmes. Os que estavam com imagem ou som meia boca, nós refizemos. A telecinagem  é um trabalho que custa um bom dinheiro. Com legendas tínhamos uns três ou quatro curtas, todo o resto teve que ser feito. Nossas ilhas [de edição] ficaram ocupadas durante meses.  Vários curtas antigos tinham músicas de discos que não tínhamos direitos, então refizemos. .
Ana Azevedo – A gente quis fazer um trabalho primoroso, criterioso. O Giba [Assis Brasil] é o homem que tem grande responsabilidade por isso. Ele ficou nas ilhas de edição, madrugadas a fio, conferindo legenda por legenda.

JÁ – O que motivou vocês a editarem a caixa de curtas?
Ana Azevedo – Acho duas coisas muito legais na caixa: primeiro, a possibilidade disponibilizar todos os nossos curtas para o público, o que a gente fez para tevê e também para o cinema. Essa possibilidade de colocar os produtos de televisão, dá um ar de permanência. Outra coisa, são 40 filmes ao todo. Já imaginou a quantidade de atores gaúchos que tem? Todos os nomes que tu pensares estão nessa caixa. Tem um volume de trabalho de dezoito anos que é muito legal e que não é só nosso. Tem uma quantidade de atores, de técnicos. Um dia desses estávamos vendo as fichas técnicas dos filmes de alunos e estão lá pessoas que hoje são profissionais, que estão no mercado. Dá um belo retrato do cinema gaúcho dos últimos 23 anos que é muito interessante.

JÁ – Ana, você acaba de ser premiada pela Petrobras pelo conjunto de sua obra e, conseqüentemente, ganhou verbas para filmar seu primeiro longa-metragem. Em que pé está o projeto?
Ana Azevedo – Nós estamos trabalhando na pré-produção do filme, pensando como ele vai ser esteticamente.Ainda estou trabalhado no roteiro, apesar de já ter a versão final. Como eu me envolvo muito nos outros projetos da casa, acabava sempre deixando o longa para depois. Aí tive o prêmio Bndes e agora esse a Petrobras, que foi um prêmio pessoal. Aí me botaram na parede, né? (risos)

JÁ – O enredo fala sobre fotografia, sobre percepção…
Ana Azevedo – É um filme que fala sobre o olhar. A história de um garoto do interior, que vive no seu mundinho, e que através com o contato com o pai, fotógrafo, que ele não conhecia, começa a perceber o mundo de forma diferente, através do olhar. Ele percebe que  mundo é muito maior…

JÁ – Poderíamos encontrar uma certa polarização na Casa de Cinema entre o Gerbase e o Furtado? Um fazendo filmes que pendem para a crônica, essa coisa de contar histórias do cotidiano, e outro, com temáticas mais eróticas?
Gerbase – Eu e o Jorge trabalhamos juntos algumas vezes. Já fizemos roteiros em parceria e nos damos muito bem. Mas cada um tem as suas preferências temáticas, a sua formação. Se bem que a gente tem muitas coisas em comum: os dois estudaram no Anchieta, eu fiz jornalismo, ele acabou fazendo também, nós temos exatamente a mesma idade. Mas a formação dele tem muitas referências a esse mundo da tevê, e eu, do Super 8. É diferente, é outra escola. Se a gente considerar o ponto de saída dos dois, são bem diferentes. E nos encontramos depois e fizemos muitas coisas juntos.

Ana Azevedo – Acho que são bem diferentes os filmes de cada um, e acho fundamental que sejam. Seria um problema se a gente trabalhasse num grupo de seis, durante 18 anos – ou mais, porque antes da Casa já trabalhávamos juntos – e de repente estivéssemos fazendo um monte de filmes iguais. Então se cada um consegue manter o filme com a cara do diretor, mesmo com participação e contribuição de todos, é fundamental! A mesma coisa com o meu filme, eu acabei de dar o roteiro final para o Gerbase olhar. Quero que eles critiquem, que eles olhem, mas vai ter a minha cara, a minha direção.

Gerbase –  Naturalmente as diferenças aparecem. Eventualmente têm os trabalhos mais coletivos, as coisas da televisão, meio que dilui um pouco, mas chega na hora do cinema, a autoria permanece. Meus filmes são bem diferentes, com certeza.

“A televisão é muito melhor que o cinema brasileiro”

Entrevista com Jorge Furtado:


Jorge Furtado diz que só sabe filmar o que conhece

JÁ – Como foi essa experiência de revisitar todos seus curtas para lançar a caixa de DVDs da Casa de Cinema?
Jorge Furtado – Eu adorei fazer a caixinha e o que eu achei de mais legal, é que ela preserva os filmes numa ordem cronológica, com qualidade e no formato digital. E também o fato de termos feito legendagem para quatro idiomas. Gosto especialmente de Anchietanos*, que foi meu primeiro roteiro. Ia ser um longa-metragem que acabei não conseguindo fazer. Então, fiz para televisão, mas considero que é meu primeiro longa.  A tevê tem um problema: o produto é visto por 40 milhões de pessoas, mas parece que ninguém viu, porque é espalhado. E as pessoas dizem que nunca viram. E se não viram, não tem como ver nunca mais. E agora, está disponível. Vários filmes que nunca tinham sido nem telecinados, como o Temporal, que é meu primeiro filme. Veja Bem, que eu fiz para São Paulo, pra Secretaria de Cultura… E também o Paradoxo (2004), o último curta que eu fiz, que é um documentário sobre um pioneiro do cinema, um cineasta amador de Caxias, também só foi visto em São Paulo, uma vez. Então, resgatar esses filmes raros e preservar com qualidade e legenda dos outros todos, foi o que mais me deixou feliz.

JÁ – E a caixa tem uma característica de compilação histórica?
Furtado
– É a obra completa de todo mundo. Depois de a caixinha estar pronta, a única coisa que eu dirigi, que não tem em DVD, foi um episódio de Comédias da Vida Privada, que não está ali, nem no DVD do programa mesmo. Todas as outras coisas que eu dirigi, todos os curtas, todas as séries de tevê estão em no DVD.  Nesse caso, não são os melhores momentos, mas uma obra completa, tem tudo. Inclusive O Temporal, meu primeiro filme, que é ruim, por exemplo. É ruim… principalmente mal dirigido. Mas é bem produzido, bem fotografado… ele tem qualidades, claro!

JÁ – Na caixa foram incluídos diversos curtas realizados para a televisão. Essa foi a via econômica encontrada para sobreviver num momento de crise? E quanto essa mistura interfere na sua produção de cinema?
Furtado – Eu não vejo a televisão como uma coisa alternativa ao cinema. Para mim são duas formas de expressão da nossa linguagem – que é a linguagem audiovisual –, com características muito deferentes. A televisão é real: ela atinge 40 milhões de pessoas, tem lucratividade, ela se reproduz, as pessoas adoram, sentem falta. Se a televisão brasileira parasse um dia,  provocaria uma revolução. E o cinema brasileiro parou dois anos e, alem de nós cineastas, ninguém sentiu falta. Então, essa idéia de que televisão é uma coisa menor, não concordo, acho que são diferentes. Acho que é possível fazer coisas de qualidade na TV e no cinema e fazer coisas ruins em ambas.

JÁ – A televisão brasileira tem qualidade?
Furtado – Acho que a televisão é muito melhor que o cinema brasileiro, todo mundo acha: o público, mundialmente. A população gosta, tem bons programas. 95% é porcaria, é péssimo. Mas os 5% que a tevê produz de qualidade todo ano – Dia de Maria, Cena Aberta, A Grande Família – esses 5% são muito melhores do que a média do cinema brasileiro, que é muito ruim. Em grande parte o cinema brasileiro não se defende: nem esteticamente, nem atinge público, e é muito elitista, porque e feito só para quem tem dinheiro para pagar ingresso. Acho que cinema brasileiro esta aprendendo muita coisa, ruins e boas. Eu me interesso pelos dois veículos. Pretendo continuar fazendo tevê e filmes.

JÁ – Alguns críticos tomam como exemplo o Cidade dos Homens, onde você foi um dos roteiristas. Dizem que a série perdeu a profundidade e os questionamentos no final dos quatro anos de exibição. Também fazem a mesma critica com Carandiru na tevê, comparado com o filme…
Furtado – Quando vi o Carandiru – o filme –, achei que ele seria mais bem sucedido como uma série de televisão. Porque o livro do Dráuzio (Varella – Estação Carandiru), baseado em histórias reais, não tem uma ordem, ele é um painel de histórias. Essas muitas pequenas histórias, no filme, estão aproximadas de uma maneira espacial, elas se passam dentro do Carandiru e alguns personagens se tocam. Mas são histórias independentes. Então, ao ver filme, que é longo, percebi que algumas poderiam sair, outras serem deslocadas. Essa característica de que se pode tirar coisas, faz com se perceba que não tem uma estrutura inteira, de história. No caso de Cidade do Homens, há um filme anterior ao Cidade de Deus – um curta, estrelado pelo  Douglas e pelo Darlan, chamado Palace II – que é um episódio do livro do Paulo Lins, que não entrou no filme. Mas depois do filme, todo mundo pensou que dava para pegar aquele personagem e contar muitas outras histórias. O filme é violentíssimo, só é possível passar na tevê depois da meia noite. A série foi pensada para um determinado horário. Mesmo sem a violência, foi um sucesso genial, estrondoso. Está sendo distribuída no mundo todo. O Darlan foi indicado ao Emmy Internacional por Melhor Ator. Não é um subproduto do filme.

JÁ – Como você recebe as críticas?
Furtado – Todos os filmes que são feitos recebem críticas. Ruins e excelentes. Na verdade, pouca crítica de verdade, porque tem muita gente ‘falando sobre’ cinema e televisão. Então se tu pegares o exemplo do Meu tio…, ele teve excelentes criticas em todo o Brasil, com exceção do Rio Grande do Sul. Folha de São Paulo, JB, Estadão, O Globo, Veja, Istoé. No Rio Grande do Sul não teve muitas críticas boas, principalmente porque os gaúchos foram ver o filme esperando ver um filme gaúcho, eu acho.  Outra questão e essa da superficialidade: o que é superficial ou profundo? Eu acho que uma boa história, bem contada, sempre é profunda. Existe uma idéia de que a comédia é superficial, de que um filme, para ser importante ou sério, não pode ser engraçado, não pode ser uma comedia. Eu não dou importância para isso.

JÁ – Que tipo de filmes você gosta de fazer?
Furtado – Eu gosto de fazer filmes bem diferentes uns dos outros. Os três longas que filmei até hoje são distintos e o próximo vai ser ainda mais diferente. Nada parecido com o que eu já fiz. Se tu te guiares pela crítica, vai perder o rumo. Tem que pensar o que te incomoda e o que te dá prazer e fazer um filme verdadeiro.

JÁ – Você pensa em fazer filmes no exterior?
Furtado – Eu já recebi inclusive convites para ir filmar fora do Brasil. Mas não consigo de jeito algum. Só sei falar do que conheço. Se fosse fazer um filme nos Estados Unidos, o título seria “Perdido em Nova Iorque” (risos).

* Anchietanos, rodado em 1997, foi o episódio n° 19 da série “Comédias da vida privada” da TV Globo. O curta não está incluído na seleção de filmes do diretor na caixa de DVD, mas vem de brinde nos primeiros conjuntos vendidos.

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