ramiro furquim
Era meia-noite. Havia o temor de que a Brigada invadisse o local e barricadas foram feitas com classes, cadeiras e até um banco de concreto: “A gente sabe que é muito fácil entrar e passar pelas cadeiras, mas é mais pra marcar nossa resistência do que para evitar uma invasão”, diz o presidente do Grêmio Estudantil, Sérgio Campos, 17 anos, do segundo ano do Médio.


É a ocupação do Colégio Paula Soares, em Porto Alegre, a 200 metros do palácio do governo do Estado.




O cardápio da janta é lasanha, arroz, feijão requentado, cenoura ralada e suco de uva artificial em canecas de inox. A trilha sonora é Beyoncé. A lasanha foi feita no olhômetro. Ninguém sabe a medida. Mas a forma tinha quase um metro quadrado. Também teve sobremesa. Salada de frutas com maçã, mamão e banana.
A gurizada fala com muita convicção sobre o movimento. O prédio está muito mal cuidado. Em dias de chuva, os corredores ficam cheios d’água que escorre pelas paredes. A Direção já orçou reforma no telhado e pintura e elétrica. Há bastante tempo a escola segue com essas mesmas defasagens.


Comentam a velocidade do aumento do número de escolas ocupadas. “Qualquer agressão que se faça aqui [no Paula Soares] vai ser um tiro no pé”, conversam debaixo do abrigo do portão principal. Os trajes são cobertas e capuzes. O frio aperta mais e mais.
Sete graus marca o aplicativo Tempo para Porto Alegre. A sensação é de temperatura bem mais baixa, mesmo agasalhado e dentro do prédio. O improvável silêncio se sucedeu após às três da manhã. Quase todos dormem.
A guarda no portão e na central de câmeras segue acordada.
O motivo: uma mãe chegou no portão e não conseguiu contato. Ficou nervosa e chamou a Brigada, que apareceu e causou pequeno susto ao adentrar com rispidez. Havia representante na diretoria e tudo acabou resolvido, contam.
Gongo das seis
O dia nasce, sem sol. Tem café, leite e achocolatado. O pão parece ter sido contado, mas tem margarina e chimia. Há também bergamota. Surge um chimarrão e bastante descontração, só quebrada porque um dos alunos está com um mal estar. A rotina recomeça.
Novos cartazes são feitos e oficinas abrem o campo da percepção sobre o que se aborda numa sala de aula. O temor inicial de invasão já não existe mais. Já passou a quinta noite de um movimento que só acabará quando os estudantes quiserem.







Deixe uma resposta