A petroquímica entrou no Rio Grande do Sul pela Cientec

ELMAR BONES
Como repórter, conheci os pioneiros que trabalharam no projeto de um pólo petroquímico no Rio Grande do Sul, na Fundação de Ciência e Tecnologia.
Foi ali, apesar da incipiente estrutura, que um pequeno grupo de pesquisadores desenvolveu o primeiro estudo de viabilidade, que seria o principal instrumento do governo (e dos gaúchos, porque a certa altura tornou-se uma causa estadual), para conquistar o polo.

Mayer Avruch em 1976, quando era presidente do Cientec / Acervo JÁ
Mayer Avruch em 1976, quando era presidente do Cientec / Acervo JÁ

O estudo foi concluído em abril de 1974 por três funcionários da Cientec: Mayer Avruch, economista e presidente da fundação, Orion Hertes Cabral, engenheiro químico e diretor executivo e Élio Falcão Vieira, economista e coordenador da pesquisa.
Foi encadernado num grosso volume de capa vermelha com o título: “Polo Petroquímico do Rio Grande do Sul – Estudo Preliminar”. Ao que consta, está arquivado na biblioteca do BRDE, em Porto Alegre.
No palanque das autoridades, em 1983, quando o polo foi inaugurado, havia dois presidentes da República (Geisel que saia, Figueiredo que entrava) três governadores  e todos os ministros do governo recém empossado. Nem um dos pioneiros.
Nestes tempos de fúria, em que se pretende extinguir estruturas como a Cientec num golpe de caneta, vale a pena lembrar um pouco da história:
petroquimicacj-300x430A PALAVRA PETROQUÍMICA*
A soja dominava o noticiário econômico local quando a palavra petroquímica começou a aparecer com regularidade nos jornais de Porto Alegre, no início de 1972.
Nos primeiros dias daquele ano, o Correio do Povo noticiou a criação de um “grupo técnico do governo” para estudar a viabilidade de um polo petroquímico no Rio Grande do Sul   
A nota do jornal assinalava que “a petroquímica é um dos ramos mais dinâmicos da indústria moderna”, capaz de dar um novo rumo ao desenvolvimento do Rio Grande do Sul, ainda “muito dependente da produção agropecuária”.
O decreto que deu origem à notícia  era a primeira vitória numa batalha silenciosa travada por um pequeno grupo de economistas, no interior do governo estadual. Eram quatro ou cinco abnegados que, não raro, eram motivos de piada entre os colegas.
Eram homens de planejamento, sabiam que no interior do governo se discutia a criação de um terceiro polo petroquímico no pais. Viram nisso uma oportunidade para um Estado que se debatia em busca de caminhos para o desenvolvimento.
Havia um polo pioneiro em São Paulo, outro em construção na Bahia. O  terceiro poderia ser no Rio Grande do Sul, por que não?
Mayer Avruch era o inspirador do grupo. Aos 43 anos, ele tinha a cabeleira precocemente branca, mas seu rosto era jovial e seu discurso otimista.  Tinha vinte anos  de serviço público e há mais de dez insistia na petroquímica como caminho para acelerar a industrialização do Rio Grande do Sul, com reflexos em toda a região Sul.
(…) Havia um estudo pioneiro, incomplerto, feito em 1965 por economistas do BRDE, sobre a indústria química. Mostrava o acelerado crescimento que ela registrava no Brasil e as limitações que tinha no Rio Grande do Sul, onde a matéria prima era toda importada de São Paulo. Esse foi o ponto de partida do grupo de Avruch, em 1972.
Sua primeira tarefa foi criar um núcleo de pesquisa com a transformação do velho e autárquico Instituto Tecnológico do Estado numa Fundação de Ciencia e Tecnologia, Cientec, para poder receber dinheiro de empresas e aplicar em pesquisas e projetos. “O Triches (governador Euclides Triches ) me mandou para a Cientec para fazer coisas para o futuro, me deu verbas e disse:”equipa aquilo lá”.
“Foi através da Cientec que conseguimos contratar o Instituto Francês do Petróleo, mandar gente para o exterior, acumular conhecimento lá dentro”.
Num folder distribuído em 1972, a Cientec oferecia “tecnologia química” como o motor que poderia acelerar a indústria. “É o instrumento que o Rio Grande do Sul que o rio grande do sul necessita para enfrentar (sic)   o acelerado e contínuo desenvolvimento brasieiro.
Oferecia pesquisas, análises e ensaios em 17 ramos da indústria química, além de serviços de consultoria e projetos. Exibia uma lista de 34 clientes privados e estatais que já usavam seus serviços de  consultoria e projetos, entre as quais estavam Aços Finos Piratini, Petrobrás, Esso Brasileira de Petróleo,  Indústria Celulose Riograndense e Siderurgica Riograndense”.      
*Do livro “A Petroquímica Faz História”, de Elmar Bones e Sérgio Lagranha, JÁ Editores, 2008  
 

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