Vai completar 40 anos neste 2017 a profética entrevista do professor Jorge Babot Miranda, então secretário da Fazenda do Rio Grande do Sul.
Homem da academia, titular da cátedra de Microeconomia, na Universidade Federal, Babot Miranda sentiu-se no dever de alertar sobre a gravidade do problema que ele detectara nas finanças do Estado.
O Tesouro vinha há muitos anos tomando empréstimos para cobrir um deficit crônico no caixa. Chegara a um círculo vicioso, a dívida alimentando o déficit coberto com mais dívidas. “Se nada for feito, o Estado se tornará ingovernável”, disse ele numa entrevista coletiva.
Foi uma atitude corajosa, em tempos de governos nomeados, e Babot confessaria anos mais tarde que se incomodou muito por ter dito aquilo aos jornais.
Os jornais deram algum destaque no dia seguinte, mas depois o que ganhou mais espaço foi um comentário que o secretário fez ao final da entrevista.
A crise financeira do Grêmio estava nas manchetes e Babot, que era também conselheiro do clube, fez uma brincadeira, dizendo que a situação no Grêmio era pior.
A diretoria do Grêmio rebateu, instalou-se uma polêmica e o assunto, devidamente grenalizado, foi posto de lado.
Era o governo de Sinval Guazzelli, o terceiro dos quarto governadores nomeados pelo poder central. Quando o ciclo militar se encerrou, o Rio Grande do Sul já tinha a pior situação financeira entre os principais estados brasileiros.
O primeiro governador eleito foi Jair Soares, homem do regime que as urnas referendaram no pleito de 1982.
Quando seu governo terminou, em dezembro de 1987, a crise financeira do Rio Grande do Sul rendeu manchete no Jornal Nacional: apresentou o maior déficit entre os estados, a despesa era 15% maior do que a receita.
Neste ponto o círculo vicioso deficit-dívida ganhou uma componente política.
Desafio e frustração de todos os governos que se sucederam até agora, a crise financeira é provavelmente o principal fator da descontinuidade administrativa que se tornou regra no Estado – nenhum governador, desde então, conseguiu se reeleger ou fazer o sucessor.
Sem solução a curto prazo, pelo tamanho e a complexidade que adquiriu, a crise financeira do setor público gaúcho hoje se combina com a crise política para dar realidade à previsão de Babot Miranda.

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