Apicultores vão encarar defensores de agrotóxicos 

Geraldo Hasse
Em assembleia geral convocada pela Federação Apícola do Rio Grande do Sul, os apicultores gaúchos decidiram no dia 09/12 “conversar” com a A.B.E.L.H.A – Associação Brasileira de Estudos de Abelhas, entidade técnico-científica que vem propondo um convênio de cooperação recíproca.
A decisão demorou a ser tomada porque, da cúpula às bases da apicultura, há um misto de desconfiança e insegurança quanto aos propósitos da ABELHA, vista como cunha setorial ou testa-de-ferro do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), o poderoso lobby da indústria agroquímica.

José Cunha, ex-presidente da CBA, não quer conversa com a indústria de venenos ou prepostos / Tânia Meinerz / JÁ

O líder mais resistente a uma simples aproximação com a ABELHA é José Gomercindo Corrêa da Cunha, criador de abelhas-rainha em Viamão e ex-presidente da Confederação Brasileira de Apicultura (CBA). Segundo ele, desde o banimento dos neonicotinóides na Europa, em 2011, os fabricantes de inseticidas, liderados mundialmente pela Bayer (que comprou a gigante norte-americana Monsanto recentemente), estão usando entidades como a ABELHA para intermediar suas relações com as vítimas de agrotóxicos, entre as quais figuram, com destaque crescente, as abelhas melíferas e as abelhas nativas, que exercem um papel fundamental na polinização da flora.
Com verba aprovada pelo CNPq para financiar pesquisas na área apícola, a ABELHA vem oferecendo convênios a federações apícolas. Até agora todas recusaram. “O convênio proposto à FARGS não prevê repasse de recursos”, reclamou Cunha, salientando que a própria CBA, atualmente presidida por José Soares de Aragão Brito, de Sergipe, rejeitou proposta de convênio.
“A agricultura não vai parar”, diz Aldo Machado dos Santos, defensor do diálogo entre apicultores e sojicultores / Tânia Meinerz / JÁ

O maior defensor de uma negociação com a ABELHA é Aldo Machado dos Santos, dono dos Apiários São Gabriel e ex-presidente da FARGS até agosto passado. Criticado por apicultores por ter recebido dirigentes da ABELHA em São Gabriel, quando ainda estava à frente da federação, ele acredita que é preciso buscar uma forma de entendimento com os fabricantes de produtos químicos porque “a agricultura não vai parar”.  Ele mesmo se queixou de ter perdido 500 colmeias recentemente.
“Temos que sentar e conversar com a ABELHA, que está valorizada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e pelo IBAMA”, disse Machado dos Santos, que é um dos líderes da Cooperativa de Apicultores do Pampa (Coapampa), cujas instalações estão quase prontas em São Gabriel. A Coapampa está se preparando para exportar mel em grande escala.
Outros apicultores presentes à assembleia realizada na estação experimental da UFRGS em Eldorado do Sul, no Km 146 da BR-290, mencionaram notícias sobre estudos para se criar um fundo destinado a indenizar apicultores cujas colmeias tenham sido atingidas por pulverizações agrícolas.
Por relato de um participante da assembleia, soube-se que um apicultor de Encruzilhada do Sul, após entrar na Justiça por danos sofridos e lucros cessantes, foi indenizado liminarmente por uma empresa de aviação agrícola responsável pela morte de 60 colmeias de abelhas melíferas.
RS exporta US$ 6,7 milhões em mel anualmente
Mesmo sendo uma das primas pobres do agronegócio, a apicultura maneja um dos braços do ambientalismo. Além de produzir mel, as abelhas fazem a polinização dos vegetais nativos ou cultivados, contribuindo diretamente para o aumento do rendimento de diversas lavouras e para a manutenção dos ecossistemas. Os apicultores, portanto, tendem a unir-se a todos os defensores do equilíbrio ambiental ameaçado por práticas predatórias em campos e florestas.
Contando a caixa, os caixilhos, a cera e o enxame de abelhas, uma colmeia não chega ao mato ou ao campo por menos  de R$ 300. Além da vigilância feita por um parceiro, os apiários precisam ser vistoriados pelos seus proprietários, que precisam dispor de equipamentos especiais. Um uniforme apícola custa R$ 180.
A morte das abelhas por agrotóxicos não é o único problema da apicultura. O furto de colmeias começa a ser visto como uma forma emergente de abigeato.
A granel, nas fontes de produção, o quilo de mel não custa menos de R$ 10. No varejo, está sendo vendido a R$ 20, no mínimo. A exportação de mel oscila ao sabor das mudanças climáticas, mas nos últimos dez anos o Rio Grande do Sul teve uma receita média anual de US$ 6,7 milhões com vendas para o mercado externo – isso sem contar o produto gaúcho exportado por empresas do sul de Santa Catarina que compram mel a granel de apicultores do RS.
Pesquisador da UFRGS é a favor da aproximação com multinacionais
Para o professor Sattler, da UFRGS, não há saída senão negociar com a Bayer e seus aliados / Tânia Meinerz / JÁ

Considerando os dois lados do confronto apicultores x usuários de agrotóxicos, o veterano professor Aroni Sattler, diretor do Departamento de Apicultura da UFRGS, aconselhou os apicultores a negociar com os sojicultores e seus fornecedores. Para ele, não adiantar fingir que as coisas não estão acontecendo. “A Bayer está credenciada pelo Ministério da Agricultura para produzir venenos”, disse, lembrando que é preciso buscar formas de convivência com todos os elos da cadeia – desde a indústria até agricultores, passando pelos comerciantes de insumos e os prestadores de serviços, como as empresas de aviação agrícola.
Como exemplo, Sattler citou o próprio caso: convidado pela Bayer, foi à Alemanha conhecer as instalações da indústria. De volta a Porto Alegre, encaminhou um pedido de auxílio financeiro para um projeto de pesquisa sobre a apicultura migratória praticada nos eucaliptais da Celulose Riograndense, que já atua como parceira da UFRGS ao liberar a atividade apícola em seus “hortos florestais”.
O fomento apícola da indústria de celulose de Guaíba alcança 159 apicultores que cedem à empresa, como pagamento pelo pasto das abelhas, 2,5 quilos anuais de mel por colmeia.  Desse volume, 40% são encaminhados à UFRGS em forma de equipamentos de extração e envasamento de mel. Segundo Sattler, a Celulose ainda tem vagas para apicultores em 12 mil hectares de eucaliptais. No ano passado, a empresa recebeu 8 mil quilos de mel distribuído a escolas dos municípios em que atua.
Assim como se montou essa rede de amparo aos produtores de mel, está se formando uma rede para proteger os apicultores contra os danos dos agrotóxicos. Agora, em caso de acidente com colmeias situadas perto de lavouras, em vez de se queixar ao vento, os apicultores devem prestar queixa às inspetorias veterinárias regionais, que estão orientadas a lavrar boletins de ocorrência, recolher provas e pedir análise ao laboratório (Lanagro) do Ministério da Agricultura, que planejou o programa nacional de sanidade apícola (PNSA) como parte de uma articulação mundial de prevenção ao mau uso de agrotóxicos.
Credenciada para dar andamento ao PNSA, a Secretaria da Agricultura está começando uma campanha de cadastramento de apicultores cujo mote é “cadastrar para poder cuidar”. Segundo Nadilson Ferreira, coordenador da Câmara Setorial de Abelhas, Produtos e Serviços da Secretaria, este ano morreram 1500 colmeias no interior gaúcho por conta de venenos agrícolas. “A ABELHA ofereceu ajuda no cadastramento dos apicultores”, admitiu Ferreira.
Andrés Canhedo, professor da Unipampa: “A gente precisa abrir a boca” contra os abusos na aplicação de agrotóxicos / Tânia Meinerz / JÁ

Fechando o cerco aos agrotóxicos, o Ministério Público do Meio Ambiente pediu às entidades apícolas que denunciem usuários de venenos que pratiquem crimes ambientais. “Se a gente não abrir a boca, esse problema vai continuar”, disse Andrés Canhedo, professor de apicultura na Unipampa, de Bagé. Anselmo Kuhn, presidente da FARGS, botou lenha na fogueira: “O Ministério Público aceita denúncia anônima. Se o denunciante não quiser aparecer, a FARGS assume”.
“Quero lembrar que represento a FARGS no Fórum Gaúcho de Prevenção ao Uso de Agrotóxicos, que opera dentro do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema)”, lembrou Rogério Dalló, diretor-executivo da FARGS e da Coapampa. Para ele, o ambiente está maduro para o fechamento de acordos com órgãos públicos e instituições privadas em defesa da apicultura, até agora um elo esquecido da cadeia do agronegócio.
A assembleia geral da FARGS terminou com o consenso de que é preciso conversar (com a temida A.B.E.L.H.A e com quem mais aparecer)  para criar regras de convivência e definir objetivos comuns.

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