Ativando a memória: 25 anos sem Nelson Rodrigues

Naira Hofmeister

Vinte e cinco anos se passaram, mas a polêmica que sempre envolveu a obra do dramaturgo Nelson Rodrigues continua em voga. A despeito da opinião sobre suas temáticas, todos concordam numa coisa: Nelson foi, sem a menor dúvida, um dos mais importantes autores teatrais brasileiros. Sua peça Vestido de Noiva, que se desenvolve em três planos diferentes – da memória, da realidade e da alucinação – é até hoje sua obra mais elogiada.

Na opinião do diretor do depósito de Teatro, Roberto Oliveira, “revolucionou e renovou e teatro nacional”. Os personagens de Nelson Rodrigues são densos, vivem sempre situações extremas de obsessão, geralmente ligadas ao sexo e à morte. “Nelson era apelidado de Flor de Obsessão, o que, muitas vezes o levou a ser taxado de tarado, por exemplo”, explica Oliveira. Apesar do estigma, decorrente das cenas ardentes de sexo, presentes na maioria da sua obra, Nelson Rodrigues era um homem ‘de família’. Casou duas vezes e teve filhos.

Além da tara, o dramaturgo foi também acusado por alinhar-se à extrema direita durante o Golpe Militar de 1964. “Ele apoiou a ditadura até que precisou rever suas posições, quando um de seus filhos morreu nos porões da  tortura”, conta o Oliveira.

O professor Sábato Magaldi, um dos mais antigos admiradores de Nelson Rodrigues, organizou suas obras completas e escreveu uma tese acadêmica a seu respeito. Para ele, Nelson foi o fundador do moderno teatro brasileiro. Na época, em importância, cita apenas Oswald de Andrade. Outros, entendem que autor criou personagens vazios, esquemáticos e repetitivos, variações em torno de Palhares, o canalha, que tentava agarrar a cunhada atrás da escada. Enfim,  uma das frases mais definitivas de Nelson: “Toda a unanimidade é burra.”

Suas imagens são divertidas, como “tremeu dentro dos sapatos”. Tem o início de  O Casamento: “Sabino vai comprar cigarros. Enquanto esperava o troco, viu um sujeito bater nas costas do outro e berrar: Todo o canalha é magro! Por mais estranho que pareça, aquilo doeu-lhe como uma desfeita pessoal. Apanhou o troco e veio caminhando. O sujeito ainda repetiu, com a mesma ferocidade jucunda: O canalha é magro. Com surda cólera, Sabino pensa, como alguém que se justifica ou se absolve. ´Eu não sou canalha´”.  Em “Asfalto Selvagem” o promotor Odorico diz: “Assim é o povo: tem fome de sangue e escremento”.

O mais importante, apesar das críticas que sofreu – e ainda sofre – por parte de muitos estudiosos, é que, 25 anos depois de sua morte, o universo rodrigueano permanece atual, moderno, instigante. E pensando nisso, o Deposito de Teatro, que, desde a sua criação esteve ligado à obra do pernambucano, programa atividades a partir dessa sexta-feira (16), para debater, pensar e, principalmente, assistir Nelson Rodrigues.

Espalhados por alguns pontos da capital, como a Usina do Gasômetro, o DAD, o próprio Depósito e a rua, atores da trupe e alguns agregados – como  a atriz Tainah Dadda e Caco Coelho, diretor da Usina do Gasômetro – estarão apresentando esquetes, peças completas e promovendo seminários para repensar e compreender (ou não) Nelson Rodrigues.  “É muito importante salientar que os próprios atores estão custeando esse projeto, com entrada franca em todas asatividades, pois mais uma vez, não conseguimos parceiros que invistam no teatro em Porto Alegre”, sublinha Oliveira.

Programação todas as atividades têm entrada franca

Sexta-feira, 16, 20h30
*A Falecida*
Leitura e Bate-Papo com os diretores: Roberto Oliveira e Fernando Kike Barbosa
Onde: Sala 505 – Usina do Gasômetro

Sábado, 17, 20h30
*O Beijo no Asfalto* – vídeo
*Boca de Ouro* – vídeo
Bate papo sobre Nelson com Caco Coelho, diretor da Usina
Onde: Café da Usina – Usina do Gasômetro

Domingo, 18, 20h30
*Nelson Despedaçado *
Espetáculo de teatro
Onde: EntreAto Bar – República, 163

Segunda-feira, 19, 18h30
*Nelson Despedaçado*
Espetáculo de teatro
Onde: Depósito de Teatro – Benjamin Constant, 1677

Terça-feira, 20, 21h
*Bonitinha mas Ordinária*
Espetáculo de teatro
Onde: Depósito de Teatro

Quarta-feira, 21, 18h30
*Perdoa-me por me traíres*
Espetáculo de teatro
DAD – Estúdio 3 – Cidade Baixa

22h
*Assalto Teatral*
Performance teatral na rua
Cidade Baixa – República, esquina com a Lima e Silva

Quinta-feira, 22, 21h
*Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo.*
Espetáculo de teatro
Depósito de Teatro

*A Falecida*

Conta a história de uma mulher frustrada do subúrbio carioca, a tuberculosa Zulmira, que não vê mais expectativas na vida. Pobre e doente, sua única ambição é um enterro luxuoso. Quer se vingar da sociedade abastada e, principalmente de Glorinha, sua prima e vizinha que não lhe cumprimenta mais. O marido, Tuninho, está desempregado e gasta as sobras da indenização jogando sinuca e discutindo futebol.

Um pouco antes da morte, Zulmira manda Tuninho procurar o milionário Pimentel para que pague o enterro. Zulmira não dá maiores explicações nem diz como conhece o empresário milionário. Pede apenas para que o marido se apresente como seu primo. Tuninho acaba descobrindo que Pimentel e Zulmira foram amantes. Toma-lhe o dinheiro, mas dá um enterro “de cachorro” à Zulmira e aposta o dinheiro todo num jogo do Vasco no Maracanã.

*Nelson Despedaçado* (Episódio IV)

Direção: Daniel Colin

Os episódios da série Nelson Despedaçado são baseados em contos de Nelson Rodrigues e contam com a participação dos artistas do Depósito de Teatro, além de alguns atores especialmente convidados. O episódio IV traz trechos dos contos Macaco, Fome de Beijos, Toquinhos de Braços e Sórdido, de Nelson Rodrigues, e é marcado pela amargura do autor para ressaltar a solidão e a carência emocional das personagens, cujas histórias se interligam de modo quase acidental, e cujas obsessões pessoais justificam qualquer atitude ou conduta.

*Bonitinha, mas Ordinária*

Direção: Fernando Kike Barbosa

Em tempos insanos como esses que marcam a política no Brasil
do novo milênio, assombrado por fraudes e escândalos, a obra do maior dramaturgo nacional comprova mais uma vez a imortalidade do Gênio. Em Bonitinha mas Ordinária, Nelson Rodrigues fala de um Brasil corrupto, com gigantescos contrastes sociais e, imobilizado por uma feroz elite e seus caprichos dominadores.

Neste ambiente todos são corruptos ou corruptíveis, contrastando libido e moral em uma luta vertiginosa, como de costume nos personagens e tramas do autor. A peça conta a história da rica e depravada família Werneck e da tentação de Edgard, pobre contínuo da empresa do milionário dr. Werneck. Peixoto, genro do magnata faz ao funcionário uma proposta tentadora – o casamento com a filha de dr. Werneck – e lhe entrega um cheque astronômico . A trama inteira irá girar em torno das hesitações de Edgard – que ama sua vizinha, Ritinha -, até sua escolha final.

*Perdoa-me Por Me Traíres – Uma Fração de Solidão*

Direção: Tainah Dadda

Esquete baseada na obra de Nelson Rodrigues, tem como ponto de partida o ingresso da adolescente Glorinha no universo da prostituição que, guiada pelas mãos de sua amiga Nair, acaba envolvendo-se na rede de corrupção e desejos reprimidos que regem o bordel de Madame Luba e seu braço direito na administração da casa, Pola Negri.

Resultado final do quinto semestre do curso de Artes Cênicas da
Ufrgs, este projeto enfoca as relações de obsessão e dependência engendradas pela solidão das personagens. Para tanto, aposta numa estilização visual, cujas referências à estética oriental pretendem evocar a esterilidade da vida das quatro personagens, camufladas pelo clima artificial da sensualidade que as cerca.

*Assalto Teatral – Performance de Boca de Ouro*

Direção: Roberto Oliveira e Sandra Possani

Vinte casais encenam ao mesmo tempo (mas de formas diferentes) trecho da briga entre o casal Leleco e Celeste. Ele viu a mulher em um táxi com um homem de aproximadamente 50 anos, o bicheiro Boca de Ouro. Leleco, que não conseguiu reconhecer o homem, mas garante ter visto a mulher, exige que ela confesse a traição e diga o nome do suposto amante. Celeste resiste até, que ameaçada pelo marido, conta tudo.

*Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo*

Direção: Alessandra Chemello

Através de Myrna, personagem de Nelson Rodrigues, o espetáculo penetra no inquietante mundo de dúvidas e anseios das mulheres que amam e, incondicionalmente, sofrem. Têm-se os relatos mais reais e, por isso os mais tristes e irônicos momentos da vida humana, ilustrados através da dança contemporânea, aliada a   outras linguagens como o teatro, a música, e a uma boa dose de sarcasmo, tal qual os textos de Nelson.

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