O grupo chileno CMPC, que assumiu o controle da fábrica de celulose que pertenceu à Aracruz, em Guaiba, está pautando seus primeiros movimentos por uma atenção especial ao relacionamento com a comunidade gaúcha.
Manteve praticamente intacto o quadro de executivos que já vinham desenvolvendo o projeto de expansão da produção e, na primeira apresentação de seus planos no Estado, em almoço com a imprensa na última quinta-feira, 4, fez questão de prometer transparência nas suas atividades e respeito às peculiaridades locais.
“Queremos falar sempre, na alegria e na tristeza”, disse Francisco Bueno, que permanece à frente da assessoria de Comunicação.
“Será permanente a nossa preocupação com a licença social, dada pela opinião pública, que para nós é tão importante quanto as licenças legais”, reforçou Walter Lídio Nunes, que já estava à frente do projeto da Aracruz e agora assume a presidência da nova empresa. “Queremos ser e parecer uma empresa afinada com os interesses do Estado”.
Segundo Nunes, o próprio nome adotado – “Celulose Riograndense” – é uma demonstração da sensibilidade dos controladores para os valores locais. “Era para ser Celulose Brasil, mas um dos dirigentes do grupo, que veio ao Estado, sugeriu a mudança, ao saber o quanto os gaúchos são ciosos dos seus valores”.
A CMPC é o maior grupo chileno do setor, com faturamento da ordem de 3 bilhões de dólares e uma trajetória empresarial de 80 anos. A compra da unidade de Guaiba, por 1,43 bilhão de dólares, é o maior investimento feito por um grupo chileno no exterior.
O negócio foi fechado em dezembro passado, como uma saída para a crise que inviabilizou a Aracruz.
Abalada por gigantescas perdas no mercado financeiro em decorrência da crise internacional de 2008, a Aracruz foi absorvida pela Votorantim Celulose e Papel, dando origem à Fíbria, a maior empresa do setor no país. Mas devido ao elevado grau de endividamento que herdou e à necessidade de investimentos maciços para levar adiante o projeto de expansão da unidade de Guaiba, a Fibria preferiu transferí-la para o grupo chileno.
A continuidade do projeto de expansão – das atuais 450 mil para 1,8 milhão de toneladas anuais – já está assegurada pela CMPC, mas o ritmo da retomada dos investimentos vai ser ditado pelas condições do mercado.
João Augusto da Rosa, o Irno“Nem parecia um policial. Tinha a cara e o focinho de um burocrata medíocre e exótico de algum escritório infecto de contabilidade da periferia”.
Foram estas duas linhas, pinçadas num texto de 450 páginas, que levaram o ex-agente do Dops gaúcho João Augusto da Rosa a processar por danos morais o jornalista Luiz Cláudio Cunha.
Cunha é autor do livro “O Sequestro dos Uruguaios”, que reconstrói com riqueza de detalhes um dos episódios emblemáticos dos regimes militares que assolaram o continente sulamericano, na segunda metade do século passado.
O seqüestro foi uma operação conjunta e clandestina de policiais brasileiros e uruguaios, perpetrada em novembro de 1978.
As vítimas foram Universindo Díaz e Lílian Celiberti, militantes de uma organização de esquerda que combatia a ditadura no Uruguai e que estavam refugiados no Brasil.
Apanhados em Porto Alegre, junto com os dois filhos menores de Lílian, eles seriam entregues na fronteira aos agentes da repressão uruguaia.
Um detalhe impediu que a operação fosse um êxito completo, como foram muitas outras.
Um telefonema anônimo para a redação da revista Veja, em Porto Alegre, levou Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo João Batista Scalco a um apartamento no bairro Menino Deus, onde os dois uruguaios estavam morando. “Está ocorrendo um seqüestro”, disse o informante.
Quando os dois jornalistas chegaram ao apartamento, Lílian e Universindo já estavam nas mãos dos agentes da repressão, que aguardavam para apanhar outro militante – Hugo Cores, o chefe do grupo.
Lílian abriu a porta, mas não conseguiu falar nada. Dois homens que estavam no interior do apartamento apareceram, de armas na mão. Um colocou a pistola na cabeça de Cunha e o outro fez o mesmo com Scalco.
Os jornalistas se identificaram e depois de breve interrogatório foram liberados, com a recomendação da nada falarem, pois se tratava de uma operação para apanhar uruguaios ilegais no país.
O seqüestro seguiu seu curso. Em poucos dias, os dois uruguaios e as crianças estariam em Montevidéo, nas mãos dos agentes da ditadura uruguaia.
Outro detalhe seria decisivo para desvendar toda a história: Scalco, experiente fotógrafo de futebol, reconheceu o homem que apontou a arma para sua cabeça. Era o ex-atacante do Inter, conhecido como Didi Pedalada, que se tornara agente do Dops.
A partir desta pista, os jornalistas desvendaram a operação. O segundo homem seria idendificado quase dois anos depois – era João Augusto da Rosa, que usava o codinome de Irno.
A identificação de Didi foi cabal e ele chegou a ser condenado. Mas a identificação de Irno, através de fotografias, foi insuficiente. Embora denunciado pelo promotor e condenado em primeira instância, ele foi absolvido, em recurso, por falta de provas.
As provas que poderiam ser decisivas contra ele – o testemunho dos seqüestrados – não puderam ser usados. Quando ele foi absolvido, Lílian Celiberti e Universindo Dias, estavam incomunicáveis no cárcere da ditadura uruguaia.
“Ele me chamou de medíocre e com focinho. Quem tem focinho é animal, eu não sou animal”, afirmou João Augusto da Rosa, o Irno, quando a juíza Maria Claudia Hardt perguntou por que razão estava processando o jornalista.
A estratégia de seu advogado não previa remexer no caso, mas apenas fixar-se na suposta ofensa por ter sido chamado de medíocre e, segundo sua interpretação, de animal. “Tenho filhos e netos”, justificou o ex-policial.
Mas a audiência, na pequena sala da 18ª. Vara Cível, no Fórum de Porto Alegre, nesta quinta-feira, 4 de fevereiro, tornou-se uma verdadeira viagem no tempo, com a reconstituição de toda a história, principalmente dos detalhes que levaram à identificação de João Augusto da Rosa, como um dos homens que estavam no apartamento da rua Botafogo, há 32 anos atrás.
Além de Luiz Cláudio, foram ouvidos Lílian Celiberti, o fotógrafo Ricardo Chaves e o jornalista Pedro Maciel. “Sim, eu o reconheço”, disse Lílian, categoricamente, quando a juíza perguntou se ela conhecia o homem de óculos, calvo, de bigode e cavanhaque que estava sentado a dois metros dela, na sala de audiências. Foi a primeira vez que ela fazer o reconhecimento de um dos seus seqüestradores.
Visivelmente decepcionado ao final da audiência, o ex-policial reclamou que em vez de discutir a ofensa de que ele foi alvo no livro, “trouxeram toda essa história outra vez”. Falando aos repórteres no saguão do fórum ele repetiu: “Não fui, não sou e nunca serei animal”.
O policial Irno processa o jornalista
que denunciou o seqüestro em 1978
O ex-policial do DOPS gaúcho João Augusto da Rosa, codinome Irno, está processando o jornalista Luiz Cláudio Cunha, autor do livro Operação Condor: O Sequestro dos Uruguaios, lançado em 2008 pela editora L&PM.
O livro conta a história do sequestro de Lílian Celiberti, seus dois filhos menores e Universindo Diaz, ocorrido em Porto Alegre em novembro de 1978. Irno – ex-inspetor do DOPS e membro da equipe do delegado Pedro Seelig, principal nome da repressão no sul do país durante a ditadura militar – foi o agente que recebeu Cunha com uma pistola apontada para sua testa, no apartamento da rua Botafogo, no bairro do Menino Deus, onde os policiais do DOPS e oficiais do Exército uruguaio mantinham Lílian seqüestrada.
Irno – juntamente com outro policial do DOPS, o escrivão Orandir Portassi Lucas, o ex-jogador de futebol Didi Pedalada – foi reconhecido por Cunha e pelo fotógrafo J.B. Scalco como seqüestradores dos uruguaios. Ambos foram condenados pela Justiça em 1980.
Na ação, Irno pede indenização por dano moral, alegando que Cunha não menciona sua absolvição por “falta de provas” no recurso que apresentou em 1983, em segunda instância. O policial esqueceu de dizer que as “provas” do seqüestro – Lílian e Universindo – estavam então presas, sob tortura, nas masmorras da ditadura uruguaia, que acabou apenas em 1985.
O seqüestrador do DOPS gaúcho tenta reverter na Justiça a verdade que a imprensa brasileira publicou na época e que é recontada, em detalhes, no livro de Cunha: “Lembro apenas uma história que o Brasil todo conhece. Irno é um dos policiais que nós identificamos como seqüestradores dos uruguaios. O livro conta e reafirma uma história que narrei há 30 anos, na série de reportagens da revista Veja que ganhou os principais prêmios de jornalismo do país”.
Agora, 32 anos depois do sequestro, Irno terá que enfrentar não só a verdade publicada pela imprensa. Como uma das testemunhas de defesa de Cunha, a uruguaia Lílian Celiberti terá a chance de falar o que lhe foi sonegado dizer há três décadas.
Pela primeira vez desde 1978, Lilian estará frente a frente com o seqüestrador Irno na audiência do processo marcada para esta quinta-feira, dia 04/02, às 15h, na 18º Vara Cível, no Foro Central de Porto Alegre.
Operação Condor: O Sequestro dos Uruguaios – que em 2009 recebeu o troféu Jabuti da Câmara Brasileira do Livro e a Menção Honrosa do prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos – acaba de ser agraciado em Havana no Prêmio Casa de Las Américas de 2010, que reuniu 436 obras de 22 países. Cunha ganhou menção honrosa na categoria Literatura Brasileira, vencida pela escritora Nélida Piñon.
Bruna Cardoso
Com um mega-fone, um integrante do coletivo “Marcha da Maconha” percorreu nas ruas Acampamento da Juventude, em Novo Hamburgo, convocando: “Se você assiste televisão, fuma unzinho ou toma coca-cola, venha debater sobre drogas”. Cerca de 200 jovens participaram da discussão, que terminou com uma marcha pela liberação da maconha.
“Se você assiste televisão, fuma unzinho ou toma coca-cola, venha debater sobre drogas” convidava um integrante do coletivo “Marcha da Maconha” nas ruas do Acampamento da Juventude, em Novo Hamburgo.
O debate já tivera uma preliminar no dia anterior, quando o Ministro da Justiça, Tarso Genro, em uma visita ao acampamento, se declarou favorável a mudanças na atual legislação.
“Acho que nossa política de drogas é atrasada, em relação, inclusive, ao próprio usuário. Mas tem que ocorrer uma discussão muito séria para modificar as leis relacionadas ao uso de drogas leves”, disse o ministro.
No dia seguinte, o debate reuniu cerca de 200 pessoas a favor da legalização e descriminalização da maconha.
Em forma de roda, sentaram-se os participantes no Espaço Mundo B do acampamento. E o debate informal começou.
O militante do Rio de Janeiro, Renato Cinco, iniciou falando sobre o fato histórico que gerou o preconceito que até hoje persegue os usuários da droga.
-“A primeira delegacia a reprimir o uso da maconha no Brasil se chamava Inspetoria de entorpecentes e miscigenação. Essa mesma delegacia era responsável por perseguir a cultura negra e suas manifestações, como o candomblé, o samba e a capoeira”.
Cinco conta que num primeiro momento a proibição não vingou por aqui e só foi levada a sério quando o então presidente dos EUA, Richard Nixon, em 1969, declarou guerra aos comunistas e as drogas. Criminalizar a pobreza
Aos poucos o assunto fugiu da história e chegou aos dias de hoje e aos problemas que a proibição gera a sociedade.
Para o historiador Laurence Gonçalves, independente dos danos que as drogas possam causar à saúde, a criminalização gera muito mais.
-“A maconha ainda é a principal forma de criminalizar a pobreza. Drogas e armas não são fabricadas nas periferias, mas ela é criminalizada para enriquecer traficantes internacionais e colarinhos brancos, sustentando o capitalismo”.
Gonçalves diz ainda que quebrando pelo menos com o tráfico de drogas, outro tipo perigoso de tráfico acaba falindo no Brasil.
-“Se quebrarmos o tráfico da maconha e da cocaína, provavelmente os traficantes não terão dinheiro para pagar propina ou comprar fuzis”.
Outro questão levantada no debate foi: como seria o cultivo, se fosse legalizada a maconha?
De acordo com a grande maioria dos presentes, o ideal seria o auto-cultivo ou, então, a agricultura familiar.
Um dos participantes do debate argumentou que a planta da maconha gera menor impacto ambiental que o eucalipto e serve para diversas funções como produzir tecidos, remédios e comida.
Por fim, Renato Cinco alertou sobre a proposta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que sugere a descriminalização do usuário e o aumento da repressão ao tráfico de drogas.
-“O projeto de FHC é uma armadilha, é um jeito de condenar ainda mais os pobres e pequenos traficantes sem envolver os usuários da classe média”.
Logo após o debate, o grupo deu início a marcha.
Fora do acampamento os militantes, sempre enfrentam dificuldades com o Ministério Público e Polícia Militar para conseguir realizar a marcha no mês de maio em diversas capitais do Brasil e no mundo.
No Fórum o espírito foi completamente diferente.
Ao som de batucadas e samba, a marcha percorreu as ruas do AIJ, despertando no máximo a curiosidade dos outros participantes.
Sem a presença da PM no acampamento, a planta foi usada livremente sem nenhuma repressão e a marcha – considerada a maior do acampamento – aconteceu livre de incidentes.
A jornalista Tereza Cruvinel, presidente da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), está fazendo uma última tentativa junto à governadora Yeda Crusius, para que a TVE do Rio Grande do Sul permaneça no prédio que ocupa há mais de 20 anos, no morro Santa Teresa, em Porto Alegre.
O prédio que pertencia ao INSS e era alugado ao governo gaúcho foi adquirido pela EBC no final do ano passado, para implantar no Estado uma regional da TV Brasil, a rede pública federal criada pelo governo Lula em 2008.
A governadora não aceita integrar a rede da TV Brasil e, até agora, recusou todas as propostas feitas para manter a TVE no local.
Inclusive já anunciou a decisão de transferir a emissora estadual, junto com a rádio Cultura FM, para o Centro Admistrativo.
“Vou entregar uma carta à governadora dizendo que não exigimos nenhuma contrapartida, a TVE não precisa transmitir nenhum minuto da nossa programação”, disse Tereza Cruvinel. “Apenas queremos evitar uma mudança precipitada, pois não vamos precisar de todo o prédio mas apenas espaço para instalar uma gerência executiva regional”.
A jornalista afirmou que não tem audiência marcada, mas confia no bom relacionamento que criou com a governadora, em Brasilia, quando ela era comentarista política e Yeda, deputada federal.
“Vou ao Palácio tentar entregar a carta em mãos. Se ela não me receber, vou deixar com a secretária. É uma manifestação de boa vontade”, disse Cruvinel, que veio a Porto Alegre para participar de um seminário sobre Comunicação Social, dentro da programação do Forum Social Mundial.
Até o presidente Lula acha que o Fórum Social Mundial tem que ir além da crítica ao neoliberalismo e definir uma lista mínima de propostas concretas para tornar um novo mundo possível.
“Não adianta sair daqui com uma pilha de papéis que depois ninguém vai ler”, disse Lula no discurso que fez nesta terça-feira, 26, no ginásio Gigantinho.
Embora sem usar a expressão, ele sugeriu uma “agenda mínima” que possa resultar numa ação unificada de todos os movimentos que compõem o Fórum.
Lula deu, inclusive, uma sugestão aos organizadores do FSM: promover uma campanha em todos os continentes para ajudar a reconstruir o Haiti.
A idéia de uma pauta de iniciativas que possam dar unidade às ações dos movimentos de todos os continentes que integram o FSM tem sido sugerida pelos principais participantes dos debates que se realizam em Porto Alegre e as cidades da região metropolitana.
Inclusive alguns dos idealizadores do fórum, como o jornalista francês Bernard Cassen, do Le Monde Diplomatique, tem insistido nessa postura “mais propositiva” para dar mais consistência ao movimento.
Ainda há, no entanto, resistência, entre muitos dos conferencistas mais influentes, que acham a idéia de “agenda mínima” uma prática da antiga esquerda, que poderá engessar o movimento e tirar uma de suas características mais fortes, que é a autonomia das entidades que integram o FSM.
É de se prever que este será o tema central no seminário de encerramento, quando se fará um relatório das discussões, na tentativa de definir os rumos do movimento que comemora os seus 10 anos em 2010.
O Acampamento Intercontinental da Juventude, adota uma experiência inédita neste 10º ano do Fórum Social Mundial em Porto Alegre.
Ao contrário dos outros anos, o acampento é em Lomba Grande – uma área rural de Novo Hamburgo – onde a preocupação é integrar as pessoas com o meio ambiente.
Logo no primeiro dia do Fórum, há pelo menos 2.500 pessoas no acampamento. Que conta com uma infraestrutura voltada para influenciar a sustentabilidade.
A alimentação do acampamento é fornecida pela comunidade local, que é formada em sua maioria por produtores rurais ligados à economia solidária.
É possível comprar produtos orgânicos e caseiros, que também podem ser trocados pelo MATE, moeda social do fórum.
Outro fator importante é o uso racional da água, no acampamento há distribuição de água potável, que deve ser utilizada com bom senso, já que ela é armazenada em reservatórios com capacidade limitada.
Porém a cultura e o debate do Fórum não é deixado de lado. Por se tratar de um Fórum descentralizado, o acampamento tem sua própria programação. Cerca de 300 atividades serão realizadas dentro do parque, entre elas, painéis, shows, debates e oficinas em diversas áreas.
A segurança interna do espaço é por conta da guarda municipal, que patrulha desarmada pelo parque. Porém a segurança externa é feita com auxílio da Brigada Militar. O clima é pacífico e a intenção é que o acampamento seja feito em um processo de autogestão. Onde tudo possa ser resolvido em conjunto pelos grupos.
O Ibase, um dos promotores do evento, realiza desde 2003 uma pesquisa entre os participantes dos debates centrais do Fórum Social Muncial. Os resultados indicam um público predominantemente jovem e com bom nível de escolarização.
No encontro de 2009, em Belém (PA), 64% dos participantes tinham até 34 anos de idade e 81% tinham ou estavam cursando uma faculdade. Foram ouvidos 2.262 num universo de 150 mil participantes.
Para eles, o papel do Fórum é “propor políticas públicas” e “oferecer espaço para trocas culturais” (ambas com 19% das citações), além de “construir articulação internacional” (16%). “Pressionar governos” e “protestar”.
Para 89%, o “ponto forte” do Fórum é a “diversidade”; para 60%, o “ponto fraco” é a sua organização.
Apresentados a nove instituições, 85% dos participantes disseram que não confiam no Fundo Monetário Internacional (FMI) e nas “empresas transnacionais” (83%).
Também não confiam nos parlamentos (79%), no Banco Mundial, no Sistema Jurídico (77%), nos blocos regionais (60%) e em governos nacionais (62%). A Organização das Nações Unidas (ONU) foi a que mais dividiu opiniões (49% não confiam e 44% confiam).
Em Belém, 80% dos participantes eram brasileiros, 13% da América Latina e Caribe e 7% do “resto do mundo”, num total de 142 países representados.
A alta concentração de pessoas do próprio país que sedia o Fórum ocorre em todas as reuniões centrais do FSM.
O fato de 76% dos que estiveram em Belém estarem participando de uma reunião central do Fórum pela primeira vez (12% pela segunda vez) indica, segundo os técnicos do Ibase, um bom potencial de renovação do Fórum. IDENTIFICAÇÃO COM MOVIMENTOS OU “LUTAS”
Foi perguntado: você pertence ou tem maior identificação com algum tipo de movimento ou luta?
As principais alternativas assinaladas foram:
21% se identificam com a Luta Ambientalista
16% com Movimentos por Direitos Humanos
11% com Movimento Cultural e Artistico
Apenas 10% dos entrevistados identificam-se com o Movimento Estudandil.
Um detalhe: 20% dos entrevistados não têm identidade com nenhum movimento.
Observação: os pesquisadores do Ibase concluíram que “as lutas com caráter mais universalista têm maior destaque”, o que sugere que os participantes do Fórum Social Mundial têm uma “visão com foco amplo sobre os problemas e desafios” do mundo atual – embora seja preciso destacar que um quinto dos entrevistados afirme não se identificar com nenhum movimento específico (tendência que se acentua entre os mais jovens).
Foi perguntado: De que tipo de organização ou entidade você participa? (o entrevistado podia escolher mais de uma opção).
As mais citadas foram:
Movimento social – 27%
ONG – 17%
Grupo Religioso – 12%
Associação – 11%
Grupo Cultural – 10%
Sindicato – 8%
Partido político – 8%
Economia solidária – 3%
NENHUMA – 30% (quase um terço dos participantes não integra nenhuma organização ou entidade).
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GLOBALIZAÇÃO
Foi perguntado: o que você pensa sobre a globalização? (foram apresentadas 3 alternativas)
A maioria dos entrevistados (54%) respondeu que “deve haver mudança radical”;
Outros 34% acreditam que “deve-se criar formas de melhorar” e apenas 7% acham que a globalização deve seguir o seu curso “da forma como se dá hoje”. 5% não sabiam ou não tinham opinião.
Também foram apresentadas aos entrevistados medidas para o enfrentamento da situação de crise financeira mundial.
Parcela expressiva (53% dos entrevistados) defendeu que haja um aumento “do controle estatal sobre o sistema financeiro”.
A imensa maioria (83%) rejeita a redução de direitos trabalhistas e a flexibilização de leis ambientais,90% são contrários como medidas para evitar demissões. A IMPORTÂNCIA DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL
Foi perguntado: o que o Fórum Social Mundial tem de mais importante?
19% dos entrevistados responderam “oferecer espaço para trocas culturais”
19% responderam “propor políticas públicas”
16% “construir articulação internacional”
Foram citadas ainda “pressionar governos”, “protestar”, entre outras.
Para a maioria dos participantes (89%) o principal “ponto forte” do Fórum é a “diversidade”; já o principal “ponto fraco” do FSM (para 60% dos entrevistados) é sua organização.
. ACESSO A INFORMAÇÃO
Foi perguntado sobre qual o principal meio utilizado para obter informação.
Os principais meios citados foram a Internet (60% dos entrevistados), seguida de Televisão (19%) e jornal diário impresso (13%).
O principal uso da Internet é para e-mails (56%), sendo que entre os mais jovens, os sites de relacionamento aparecem como primeira opção (entre os jovens de 14 a 17 anos, 46% usam a Internet com esta finalidade).
Quando perguntados, porém, sobre “qual forma de comunicação e informação mais influencia as suas opiniões”, 22% responderam “revistas e jornais impressos comerciais”, opção seguida por “debates com amigos e parentes” (19%), estudos (16%) e publicações impressas de “organizações e entidades de movimentos sociais” (13%). TEMAS DA AGENDA PÚBLICA
O que mais dividiu opiniões entre os participantes do Fórum em Belém foi a legalização do aborto: 45% foram a favor e 44% contra (o restante não tinha opinião).
Sobre a discriminalização das drogas, 49% foram contra e 40% a favor (o restante, sem opinião).
Já a união civil entre pessoas do mesmo sexo é aceita por ampla maioria: 65% foram favoráveis e 27% contrários (o restante não tem opinião formada).
Observação: a polarização de opiniões (particularmente em temas como a legalização do aborto e descriminalização das drogas) aponta, segundo os pesquisadores do Ibase, o caráter de diversidade do Fórum Social Mundial. (Fonte: IBASE -Instituto Brasileiro de Análise Social e Econômica )
Razões de segurança convenceram os organizadores do Forum Social Mundial e dobraram a vontade do próprio presidente Lula. Seu discurso, nesta terça-feira, 26, não será ao ar livre no auditório Por do Sul ou no lado externo da usina do gasômetro, como estava inicialmente previsto.
Lula vai falar no ginásio de esportes do Inter, o Gigantinho, a partir das 19 horas.
O presidente brasileiro, que encerra este ano o seu segundo mandato e hoje é o líder político mais identificado com o Forum Social Mundial, vai falar como “militante social” e não como chefe de Estado, uma vez que a organização do FSM não prevê essa hipótese.
“Uma grande prestação de contas das ações sociais do governo”. Este será o conteúdo do discurso que o presidente Lula vai fazer em seu pronunciamento no Forum Social Mundial, em Porto Alegre.
A informação foi dada na sessão de abertura do FSM, na manhã desta segunda-feira, 25, pelo representante do governo federal, Wagner Caetano.
Lula fala no fórum não como chefe de Estado, mas como “militante social”. Quer, no entanto, aproveitar sua última participação, enquanto presidente, no evento que o projetou internacionalmente, e fazer um balanço completo do que realizou em sete anos no terreno das políticas sociais.
Lula participa desde a primeira edição do FSM, em 2001, quando ainda era candidato à presidência, e é hoje o líder político mais identificado com as teses dos movimentos que contestam a globalização sob a hegemonia do capital financeiro.
Sua presença em Davos logo em seguida, inicialmente muito criticada, tornou-o uma espécie de porta-voz do fórum social junto aos grandes da comunidade internacional, que se reunem anualmente naquela cidade, para discutir os rumos da economia mundial.
Como nos anos anteriores, no dia seguinte ao seu pronunciamento em Porto Alegre, Lula estará novamente em Davos.
No desfile que abriu a décima edição do FSM, na tarde desta segunda feira, 25, deu pra ver: Lula será mais uma vez a estrela, mas não faltarão cobranças.
Uma crítica contundente que ele, certamente, vai enfrentar é das entidades que congregam as religiões de origem africana.
Um manifesto lido na passeata do Fórum acusa “Lula e sua candidata Dilma” de terem engavetado o Plano Nacional de Proteção das Religiões, para não sofrer desgaste com a igreja católica e os evangélicos.