Uma pesquisa do Sesi entre operários da indústria revela que a saúde do trabalhador gaúcho não é bem aquilo que se imagina. A pesquisa faz parte de um programa para melhorar a saúde dos empregados da índústria e foi aplicada em 187 empresas, onde trabalham 27,5 mil operários para avaliar o tamanho do problema.
Quase a metade (47,3%) dos entrevistados não pratica atividade física, 15,5% são obesos. A grande maioria (65,7%) não consome frutas e verduras diariamente e 61% ingere refrigerantes mais do que o recomendável.
Pela amostragem da pesquisa constata-se que a grande maioria são casados (62%), tem menos de 34 anos (60,5%) e que os homens (69,8%) ainda representam mais de dois terços da força de trabalho. Beira também os 70% o percentual dos que recebem “até três salários mínimos”.
No quesito saúde propriamente dito, as doenças mais citadas são tendinite ou LER (Lesão do Esforço Repetitivo), hipertensão, depressão e diabetes. Provavelmente por conta do sedentarismo, 17,4% tem problemas na coluna, mas a saúde bucal é mais precária: 34,.1% necessitam tratamento dentário de alta complexidade. O indice de fumantes é alto: 15,6%. Mas o excesso de bebidas alcoólicas foi acusado em apenas 1,2% dos entrevistados. (Dados da revista Indústria em Ação/julho 2009)
Autor: Elmar Bones
Operário gaúcho é sedentário e se alimenta mal
Passe Livre volta à pauta da Câmara em agosto
Por Paula Bianchi
Com o recesso da Câmara Municipal ficou suspensa também a discussão sobre o passe livre. Ainda sem projeto, o tema foi debatido pela Comissão de Urbanização, Transportes e Habitação (Cuthab) no dia 16 de junho e deve voltar a pauta dos vereadores em agosto.
Para a assessora técnica da Câmara, Márcia Mello, “o que saiu da reunião foi a decisão de aprofundar a discussão”.
De concreto, apenas a encomenda à Brigada Militar de um relatório comparando o número de ocorrências em dias de Passe Livre com as ocorrências em domingo normais – uma dos principais argumentos contra o passe livre é o suposto aumento da violência. As novas discussões devem partir desse dado.
“Alguns já estão chamando estes domingos de Dia do Deus Me Livre”, afirmou Jairis Maciel, presidente do Conselho Municipal de Transportes Urbanos (COMTU), entidade que convocou a reunião.
Para Maciel, o objetivo do Passe Livre foi desvirtuado com o tempo. “O Comtu não quer extinguir o Passe Livre, mas apenas discutir novos moldes de gratuidade.”
Outra questão levantada pelo Comtu é o preço da passagem. “Para o empresário, não faz diferença, mas não é justo para o pagante não poder utilizar o ônibus nesses dias por falta de segurança”, disse Maciel.
Segundo a EPTC, que não tem posição sobre o assunto, a eliminação do passe livre nesses dias representaria uma redução de apenas 3 a 4 centavos na tarifa do ônibus, o que contabiliza a rodagem realizada nesses datas.”
No entanto, para o presidente da Cuthab, vereador Waldir Canal (PRB), antes de mais nada é preciso buscar mais subsídios para uma tomada de posição sobre o assunto. “Precisamos analisar profundamente todos os aspectos do passe livre”, declarou.
O Passe Livre, no primeiro domingo de cada mes em todos os ônibus da capital, foi criado há 18 anos para permitir que pessoas com menor poder aquisitivo pudessem usufruir do transporte coletivo em dias de lazer.
Em domingos normais, cerca de 291 mil pessoas pegam ônibus na capital, número que sobe para 762 mil em dias de isenção.
Além da diminuição de passageiros, no fim de semana a frota também cai passando de 1.575 para cerca de 800 carros, o que explica a lotação dos ônibus.Morador denuncia derrubada de Jacarandás
O engenheiro Eduardo di Primio Conceição, morador da Rua Pelotas, está denunciando a derrubada de antigos jacarandás, que formam um tunel verde na rua. Ele diz que sete já foram derrubados nos últimos sete anos e que já recorreu até ao prefeito José Fogaça, sem que ninguém tome providência…

Integra da carta que o engenheiro Eduardo Di Primo Conceição está distribuindo na internet:
Amigos:
Infelizmente, a SMAM derrubou hoje (14 de julho) mais um jacarandá de cerca de 80 anos na Rua Pelotas. Nos últimos dois anos já foram SETE árvores derrubadas, pondo um lento e agonizante fim em nosso túnel verde.
Nenhuma árvore nova foi plantada. Nenhum trabalho de tratamento ou recuperação das velhas árvores tem sido feito. É um descaso e um desrespeito total.
Eu, que nasci, cresci e vivo aqui na Pelotas até hoje, não me conformo. Grito! Mas ninguém me escuta. Denuncio! Em vão. Em AGOSTO DE 2007, portanto há dois anos atrás, gerei uma matéria de capa na ZH MOINHOS. Mandei e-mail para os vereadores Beto Moesch e João Carlos Nedel e nada… Tentei a Associação da Cristóvão Colombo e nada…Fiz contato com a SMAM e com o gabinete do prefeito Fogaça e também nada… Ironicamente o Fogaça que tinha comitê eleitoral aqui na Rua Pelotas… Aliás, dois jacarandás foram derrubados bem em frente ao seu último comitê de campanha. A quem mais devo recorrer?
Estou mais uma vez denunciando, fazendo o possível. Por favor, nos ajudem. Ajudem a nossa rua, a nossa cidade.
SALVEM OS JACARANDÁS DA RUA PELOTAS!!!
Eduardo di Primio ConceiçãoA crise do governo Yeda
Elmar Bones
Acompanho à distância a crise que envolve a governadora Yeda Crusius. Estou com a impressão de que tanto a oposição, quanto parte da mídia (RBS, principalmente) estão fazendo uma avaliação emocional e precipitada dos fatos.
“Empurra que ela cai”, diz a campanha do Cpergs, ilustrada com fotos deformadas da governadora, numa agressão descabida. O PT dá a entender que a CPI é inevitável. E o Psol, em busca de espaço, parte para o “impeachment já”.
Quanto à mídia (RBS, principalmente) o que se vê é uma cobertura sensacionalista, acrítica e oportunista, certamente levando em conta os baixos índices de popularidade da governadora.
Quando um veículo poderoso como a Zero Hora (que acaba pautando o noticiário de todo o grupo) dá grande importância às denúncias de uma figura como Lair Ferst – denúncias já conhecidas e sem provas – é sinal que está faltando boa apuração e bom senso. A cópia do depoimento de Ferst com certeza foi entregue ao jornal por alguém interessado em jogar lenha na fogueira. Por que o jornal se deixou manipular?
Os políticos mais experiente sabem como é perigoso transformar o adversário em vítima. Se as tais provas ( que o Psol prometeu apresentar em abril ) não aparecerem, se a Justiça isentar a governadora… ela estará em condições de mostrar que foi vítima de uma “orquestração” e a opinião pública – que é volúvel, como se sabe – não hesitará em dar-lhe crédito. Inclusive, porque a mídia, governista por índole e muito sensível a certos apelo$, também poderá mudar de tom sem qualquer constrangimento.
Convém não esquecer que Yeda, mesmo em meio ao cerrado tiroteiro, tem conseguido passar a idéia de que faz uma boa gestão. São discutíveis os “feitos” do governo Yeda, mas já vi muito “comentarista” e muita gente séria lamentar a crise política que atrapalha “um governo que conseguiu o déficit zero e está atacando as corporações como nenhum outro fez”. Se as denúncias caírem no vazio, essas afirmações ganharão foro de verdade e talvez seja tarde para descontruí-las.Bonobo: o primeiro café vegano de Porto Alegre
Por Bruno Cobalchini Mattos

Foi-se o tempo em que ser vegetariano e comer fora de casa significava falta de opções. Além dos diversos restaurantes vegetarianos que se espalham pelo Bom Fim, agora esse público também tem à sua disposição o Bonobo, o primeiro café vegano da cidade. Sim, vegano, pois não é só a carne que fica de fora: os pratos do lugar não levam nenhum ingrediente proveniente de animais, tais como leite, ovo e queijo.
O Bonobo é dirigido por um casal, o Marcelo e a Valesca, que também são os responsáveis por cozinhar e servir a comida. O café, que abriu no começo de março, já recebeu visitantes de países como Irlanda, Suécia e Alemanha. Isso porque a comunidade vegana internacional é muito unida, e existem páginas na Internet que mantêm um catálogo com todos os estabelecimentos do gênero no mundo. Ainda assim, os proprietários se dizem surpresos com a boa aceitação que estão tendo, principalmente junto ao público não-vegetariano.
A variedade do cardápio contribui para o bom movimento, assim como o ambiente aconchegante. Entre as especialidades da casa estão o vegeburguer e o pão-sem-queijo, de sabor parecido ao do pão-de-queijo, mas… – adivinhe! – sem queijo. Para beber, além de diversos sucos, há chocolate quente (feito com leite de amêndoas) e vinho e cerveja artesanais. A água é liberada por cortesia da casa.
O Bonobo funciona de terça a sábado, entre as 16h30 e as 22h. Na segunda terça-feira de cada mês ocorre ali um sarau literário. O café fica no número 101 da Castro Alves, esquina com a Felipe Camarão. Tele-entrega politicamente correta, feita de bicicleta, pelo telefone (51) 3013-1464.O lado político do código – Um passeio pelas ideias no FISL – Fórum Internacional do Software Livre
Por Carolina Maia de Aguiar, especial para o Jornal Já
Entre 23 e 27 de junho, milhares de programadores, defensores da cultura livre, nerds e curiosos circularam pelo Prédio 40 da PUC, onde ocorreu o 10 Fórum Internacional do Software Livre – FISL. Embora essa edição tenha parecido menor do que as anteriores, realizados na FIERGS, a organização do evento comemorou o recorde de público.
Os mais de 8 mil participantes inscritos incluíam expositores e visitantes, que passeavam pelos estandes em busca de informações, contatos, CDs de software e outros brindes. A programação do FISL também incluiu palestras de ativistas da liberdade na rede, como o sueco Peter Sunde, criador do site de compartilhamento de arquivos The Pirate Bay, e o norte-americano Richard Stallman, um dos fundadores do movimento software livre.
O conceito de liberdade
A principal diferença entre o modelo livre de software e o modelo proprietário está na ideologia de desenvolvimento e distribuição. Sistemas proprietários, como o Windows e muitos de seus programas, têm seu uso restrito: o usuário não adquire o programa, mas uma licença de utilização em um número limitado de computadores. Além disso, não é permitida nenhuma alteração no funcionamento do sistema.
Para ser considerado livre, um software precisa garantir quatro liberdades: o usuário deve poder usar, estudar, redistribuir e modificar o software. Para permitir o estudo, o acesso ao código-fonte (os processos que determinam o funcionamento do programa) também deve ser livre. Daí o outro nome pelo qual esse modelo de distribuição é conhecido: open source, ou “código aberto”.
A única restrição prevista está na forma de distribuição: uma vez livre, o programa ou seu código (e todos os trabalhos desenvolvidos a partir dele) não podem ser tornados proprietários. A explicação para isso remonta aos primórdios do movimento, nos anos 80.
O físico e programador Richard Stallman havia criado o sistema operacional aberto Unix, que foi utilizado como base para um projeto da operadora de telefonia norte-americana AT&T. Como a empresa não lhe permitiu acesso ao código desse novo sistema, Stallman partiu para o desenvolvimento de outro: o GNU, um dos componentes do sistema operacional popularmente conhecido como Linux.
Para garantir que todos os projetos que surgissem a partir de códigos livres fossem disponibilizados da mesma maneira, Stallman também criou a GPL, a Licença Pública Geral do GNU. Essa licença é a mais utilizada pelos programas livres.
A liberdade é política
Quando se fala sobre software livre em português, não há mal-entendidos: “livre” remonta diretamente à ideia de liberdade. Em inglês, no entanto, a palavra “free”, utilizada por Stallman e sua organização, a Free Software Foundation, pode significar tanto “livre” quanto “gratuito”. Para afastar a dúvida, o fundador do movimento recomenda: pense em free speech (liberdade de expressão), não em free beer (cerveja grátis).
A politização pode explicar a repercussão, entre os participantes, da relação de alguns políticos com o FISL. Yeda Crusius, por exemplo, não compareceu ao evento, mesmo tendo confirmado o compromisso em sua agenda oficial. A ausência da governadora no evento não foi o suficiente para impedir os protestos do público. O presidente da Procergs, representando o governo, recebeu as vaias em nome de Yeda. Em março desse ano, foi anunciada uma parceria entre o Estado e a Microsoft, para o desenvolvimento de um sistema operacional voltado para a educação. Na época, o coordenador do FISL, Marcelo Branco, disse que o contrato era vergonhoso.
Pela primeira vez, um presidente da República compareceu ao evento. A megaoperação de segurança da comitiva presidencial não foi bem vista pela maioria dos participantes, pois limitou o acesso aos estandes durante toda a tarde do dia 26. Além dos portadores de uma credencial fornecida pela Presidência, somente 300 pessoas puderam circular pela área restrita.
“O que me incomoda não é tanto a presença do Lula, mas a minha ausência lá dentro”, complementou Rafael Salvatori, desenvolvedor web, apontando para o seu estande. Henrique Pereira, estudante de sistemas de informação da Unifra, também descontente, tentava puxar um canto de protesto: “Lula, cadê você? Vai embora, pro FISL acontecer!”
Quando o presidente chegou, não se ouviu canto nenhum. O FISL é patrocinado majoritariamente pelo governo federal, e a organização do evento comemorou a visita. Em seu discurso, Lula defendeu a liberdade, declarando-se contrário a um dos projetos mais combatidos pelos presentes no Fórum: o projeto de lei de cibercrimes do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG).
A “Lei Azeredo”, como o projeto é chamado, prevê o armazenamento dos dados de navegação pelos provedores. Caso a lei seja aprovada, os internautas também terão que fornecer seus dados – nome completo, nome da mãe, número do RG – aos administradores de todas as redes de Internet que acessarem. Com isso, torna-se inviável a utilização de redes sem fio abertas, como as que existem em shoppings. Por esse e outros motivos, uma petição online contra o projeto já conta com mais de 140 mil assinaturas até o momento.
A liberdade também foi defendida de outras formas: paralelo à programação do evento, acontecia o Festival de Cultura Livre, que trouxe shows como o da banda Teatro Mágico para Porto Alegre. Os participantes também tiveram acesso a oficinas e workshops para aprender a utilizar melhor alguns programas de código aberto.
Dificuldades
Estatísticas apontam que cerca de 90% dos computadores pessoais utilizam o sistema operacional Windows, que é proprietário. E daí vem a maior dificuldade na migração para o GNU/Linux: as pessoas resistem a programas diferentes daqueles que já estão acostumadas a usar.
“A solução para isso é ensinar a usar o programa de maneira mais aberta”, defende Marcelo Branco, ativista do software livre e coordenador do FISL. “Em vez de ensinar o Word, as escolas deviam ensinar a usar um editor de texto; deviam ensinar planilhas eletrônicas em vez de Excel. Quando eu comecei a usar máquina de escrever, eu estudei datilografia, não ‘como escrever em uma máquina Olivetti’”, complementa.
Como é criado e distribuído de maneira livre, o sistema operacional Linux é disponibilizado em diferentes versões, que são criadas e mantidas pelas comunidades de usuários, sendo chamadas de distribuições. A compatibilidade de programas e a aparência de cada sistema, portanto, podem variar, mesmo tudo sendo “Linux”, e isso muitas vezes dificulta a utilização por usuários inexperientes.
Por que usar software livre
Uma das distribuições expostas no FISL procura tornar mais fácil a migração para o modelo livre. Para facilitar esse processo, o BRLix imita a aparência do Windows. Desde sua criação em 2003, mais de 28 milhões de downloads do sistema foram efetuados.
Embora os ativistas defendam a ideologia da liberdade, há empresas que optam pelo software livre por questões bem menos elevadas, como o preço. Em vez de investir na aquisição de licenças do Windows, a montadora de motores WEG preferiu contratar a BRLix para instalar Linux em todos os seus computadores.
Não é necessário abrir mão do Windows para utilizar software livre. Os Correios, por exemplo, continuam utilizando o sistema da Microsoft, optando somente por evitar a aquisição do pacote Office: a empresa já utiliza o BrOffice, uma versão open source, em quase metade de seus computadores. Na visita ao FISL, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Roussef, que acompanhava Lula, afirmou que o governo já economizou R$370 milhões ao utilizar software livre.
Outras empresas optam pelo modelo de código aberto por questões técnicas. É o caso do Banco do Brasil (BB), que utiliza software livre em seus servidores e está organizando a migração de todos os terminais de auto-atendimento para o Linux. “É uma solução técnica, não necessariamente ideológica”, garante o Gerente de Divisão da Área de Software Livre do BB, Ulisses Penna.
A opção por abrir o código permite desenvolvimento mais rápido do sistema, pois alguns usuários participam do processo. Por esse motivo, há empresas que preferem compartilhar a criação de seus produtos. É o caso do sistema operacional Solaris, utilizado em data centers. Para aumentar a base de usuários e acelerar seu desenvolvimento, a empresa Sun disponibilizou seu código para a comunidade, criando o OpenSolaris.
Colaboração e política
O trabalho colaborativo é muito importante para o desenvolvimento dos produtos livres. Os motivos que levam as pessoas a contribuir podem incluir tanto a intenção de melhorar os serviços utilizados quanto a busca de reconhecimento. Além do desenvolvimento de software, a colaboração torna possíveis iniciativas como a Wikipédia, a enciclopédia criada e mantida livre por uma comunidade de usuários.
Empresas como a Mozilla, que criou o Firefox, o navegador livre utilizado por 22% dos internautas, aproveitaram o FISL para incentivar a colaboração. Para ganhar uma camiseta, era necessário desenvolver novas funcionalidades para o programa. Quem não sabia programar, podia escrever um artigo ou traduzir arquivos da ajuda para outro idioma.
Nesse ambiente, é comum que as pessoas se aproximem, criando redes de colaboração. O norte-americano Ethan Crawford veio a Porto Alegre pela primeira vez em 2003, em um evento totalmente político: o Fórum Social Mundial. Nessa ocasião, fez os contatos que o trariam mais uma vez ao Brasil. No estado do Colorado, nos EUA, Ethan trabalha na Free Speech TV, uma emissora de TV independente. Por conta de sua experiência, foi convidado a participar como voluntário na edição de vídeos para a TV Software Livre, que fez a cobertura do festival.
Num dos últimos paineis do FISL, a liberdade na era digital foi discutida por integrantes da organização do evento, acadêmicos e ativistas. Em sua fala, a pesquisadora de Direito de Yale, Elizabeth Stark, enfatizou a importância da participação de cada internauta na vigilância dessa liberdade. Para ela, somente a visão política do código vai manter a liberdade na rede.Estado ainda não sabe o que fazer com casarão abandonado há 20 anos
O casarão amarelo, numa esquina nobre de Porto Alegre (Venâncio Aires com João Pessoa), já abrigou uma escola. Há duas décadas, pelo menos, está abandonado, porque seu proprietário, o governo do Estado do Rio Grande do Sul, não consegue achar um destino para ele.

Planos não faltaram. O governador Olívio Dutra queria sediar ali o Museu Antropológico do Estado. Seu sucessor, Germano Rigotto pensou num “Centro de Cultura Negra”. A Procergs quis botar lá dentro seus computadores… Todos os planos fracassaram, ninguém sabe direito por que. Consta que o prédio tem uma dívida impagável com a CEEE.
Agora, a Secretaria de Administração informa que o casarão terá um destino nas próximas semanas. Segundo a assessora de imprensa, Adriana Correia, o secretário Elói Guimarães se reuniu na semana passada com três entidades, cujos nomes ainda não foram divulgados, para escolher qual a melhor proposta.

“É tudo enrolação. Ninguém sabe nem de quem é essa casa, se do estado, do município ou da união. Cada vez vem um aqui dizendo que vai fazer um projeto, mas nunca acontece nada e a casa vai continuar abandonada se eu sair” afirma Geraldo Márcio Xavier, 64 anos que há três anos mora no casarão. Ele transformou o imponente prédio, de área equivalente a três apartamentos médios, num escritório para seus biscates.
Nos tempos em que ficou ao Deus dará, o “escritório do Geraldo” foi abrigo de desocupados, ponto de drogas, antro de maconheiros e até bordel para sem teto. Os vizinhos reclamavam, mas a polícia raramente aparecia por lá.
Segundo o arquiteto Helton Bello, do EPAHC (Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre), o prédio pertencente ao casario histórico da João Pessoa erguido no início do século passado, com traços do período Positivista.
Por dentro, é um favelão. Não tem água, nem luz, está sem forro. De móveis tem apenas um sofá. Seu Geraldo usa o lugar para fazer bicos de eletricista, pedreiro, carpinteiro, pintor – e aos domingos tira um troco usando o pátio como estacionamento para freqüentadores da Redenção.
Geraldo conta que veio de Curitiba e que tem curso de administração ( ele é propositalmente vago e esquivo). O dono da banca de revistas localizada na frente do imóvel comentou que se sente mais seguro agora que ele expulsou os “chinelões”. Orgulhoso do seu feito, Geraldão se gaba: “Se eu não tivesse feito aquilo, hoje isso aqui nem existiria mais”.
Por enquanto ele está tranqüilo. Só a Brigada Militar aparece por lá de vez em quando:“Quando eu não estou os brigadianos arrombam o portão, entram aqui, quebram tudo e levam as minhas coisas de caminhão”. Ele até deu queixa na polícia, reclamando sumiço de cama, mesa e cadeiras.
Lá dentro o quadro é deprimente. Vidros quebrados em janelas quebradas, pintura gasta. Quando chove, o “xerife” passa trabalho com as dezenas de infiltrações no telhado. Tudo o que ele tem lá é um sofá e uma mesinha de ferro. Na parede, ele pintou uma frase guia da empreitada: “Propriedade de Deus”.
Antes, Geraldo morava numa área invadida na avenida Padre Cacique, perto do Estádio Beira Rio. Foi removido pela Prefeitura, junto com os demais moradores, por estar em “área de risco”. Pouco depois, na “área de risco” foi construída a sede da “Imperadores do Samba”, que está lá até hoje.
Segundo Geraldo, durante um tempo, a prefeitura pagou um hotel para ele e o filho, mas depois não tinha para onde ir. Todos os dias passava em frente ao casarão e não entendia o porque de estar vazio, sendo que necessitava tanto de um lugar pra dormir.
Numa dessas decidiu entrar. “Quando eu entrei aqui isso era uma bagunça, tinha traficante, prostituta, drogado. Eu limpei isso aqui, os vizinhos até hoje apertam a minha mão e me agradecem. Tem um monte de gente que fica falando que eu invadi, mas isso aqui estava abandonado, se eu não tivesse aqui cuidando ia estar bem pior”
“Eles acham que eu estou enriquecendo aqui, ganhando 70 reais por domingo. Ficam preocupados comigo, enquanto tem um monte de gente roubando. Se eles quiserem que eu devolva o dinheiro que ganho aqui, eu devolvo, mas só se os políticos e os colarinhos brancos que roubam bilhões também devolverem.”
Sobre as entradas constantes da polícia ao imóvel, afirma que “eles quebram tudo: janelas, correntes do portões. O portão da frente e eu já mandei consertar várias vezes, tenho todos os recibos comigo, para não dizerem que eu estou depredando o patrimônio público”.
Há 15 dias atrás, viaturas da polícia militar e uma funcionária do departamento de patrimônio, foram até o casarão tentar tirar Geraldo e o filho de lá. Sem saber explicar muito bem, ele diz que a “dra. Fátima, diretora do departamento, prometeu um acordo”. Ele sonha com “uma licença para continuar na casa e regularizar a situação”.
“Se eu sair, isso aqui vai continuar abandonado. Se querem que eu saía, então, venham conversar comigo, me ajudar, arrumar um lugar pra eu morar, porque já me tiraram uma casa”, diz ele.Com reportagem de Daniela De Bem e Pedro Lauxen
Palestra aborda participação no planejamento da cidade
Nesta terça-feira, 7 de julho, a sociologa Eunice Schwengber fala para moradores e lideranças comunitárias da Zona Sul sobre “A participação da sociedade no Planejamento Urbano”.
Será no auditório da Escola Padre Reus, na Av. Otto Niemeyer, 650, Tristeza, das 19 às 20h30min. A socióloga é coordenadora do Programa Regionalização e Participação da Secretaria Municipal do Planejamento.
A reunião faz parte de uma série de palestras para preparação das eleições para Delegados e Conselheiros dos Fóruns Regionais de Planejamento, no biênio 2010/1011.
As eleições, que indicarão representantes para o Conselho do Plano Diretor de Porto Alegre, estão previstas para o egundo semestre deste ano.
Esses encontros preparatórios já ocorreram nas regiões do Humaitá, Navegantes, Centro (que inclui Moinhos, Bom Fim e bairros do entorno). Nas próximas semanas será a vez dos moradores da região 8 (Restinga/Lami).
Embora despertem menos interesse do que o Orçamento Participativo, já que tratam de questões de mais longo prazo, as reuniões tem despertado um “interesse surpreendente”, segundo a coordenadora.Falta de investimentos agrava situação do HPS

O jornal Já teve acesso a áreas restridas do Hospital de Pronto Socorro, principal centro para atendimentos de emergências na região metropolitana de Porto Alegre. Basta caminhar pelos corredores para ver os sinais da deterioração por falta de investimentos: umidade nas paredes, equipamentos quebrados ou obsoletos, móveis velhos, infiltrações no teto, escadas perigosas pelo desgaste dos degraus. Salas que foram desocupadas com a construção do prédio anexo, há cinco anos, continuam fechadas e abandonadas.
Em mobilização recente, para protestar contra o corte do percentual de insalubridade, os funcionários denunciaram o agravamento das condições de trabalho por falta de pessoal, falta de material e de manutenção em diversos setores do hospital que está completando 65 anos em 2009. Mesmo no prédio anexo, inaugurado em 2004 é possível ver sinais da falta de recursos para manutenção.
No ano passado, quando foi constatada em uma das UTI a presença da bactéria Acinetobacter sp, que infectou 15 dos 24 hospitais da cidade, já foi revelada a piora nas condições do HPS. A radiologia, a farmácia, o banco de sangue e a lavanderia são as áreas mais afetadas. A falta de funcionários, pela não substituição dos que se aposentam ou se afastam, já era mencionada como um problema crônico. Segundo a Associação dos Funcionários, há 150 concursados à espera de nomeação.
Na ocasião, o diretor do HPS, Paulo Roberto Azambuja, reconheceu os problemas estruturais do hospital e atribuiu as dificuldades à intensa procura pelo atendimento clínico. “Estamos virando um posto de saúde e pedimos socorro às autoridades para que o hospital não se perca de sua missão, que é o atendimento ao trauma”, disse o diretor ao jornal Já. O HPS atende em média 900 pacientes por dia e tem cerca de 1.400 servidores.O zelador dos mortos
Por Sindia Santos, especial para o Jornal Já

Cuidar de mortos não é tarefa fácil. Ainda mais quando se trata de mortos imortais. Mas Francisco Pinheiro Filho, de 62 anos, tira o trabalho de letra. Ele zela para que a vida de seus mortos seja mais do que palavras, já que os seus mortos cuidaram para que toda e qualquer vida seja imortal. No final, todos falam a mesma língua, com letras diferentes.
Devagar, Francisco emerge da cova numero 20 do mausoléu da Academia Brasileira de Letras. Nem morto, nem imortal, Francisco é o zelador do mundo dos mortos, o guardião que retém a chave da última página do livro da vida dos 67 escritores lá enterrados.
Um balde, outro, e mais outro; um dia, dois, três. Tudo que fora Antonio Callado (1917-1997) repousa numa urna plástica sobre a lápide seguinte. Morrer é deixar de existir. No fundo da sepultura escura, a lama da existência.
Os braços magros de Francisco tremem, gotas de suor desfiguram-lhe o rosto, enquanto pás de lama preta são retiradas do buraco úmido que fora a morada do escritor niteroiense por onze anos.
– Imagine só: a viúva viu o corpo boiando!
A sexta alça do caixão aparece. Fatigados, os músculos de Francisco davam sinais para não prosseguir. Então, ele pára, fuma um cigarro. Morto não dá trabalho. Ele ri.
A tarefa segue, a luva volta a grudar-lhe nos dedos.
– Esqueci de trazer o talco… O suor escorre de dentro das mãos de borracha.
Viver era rotina de eternidade. Sem glórias, Francisco vence a briga contra a infiltração que com ganas de Rio Estige, o mitológico pântano de Dante, veio reclamar os imortais do mausoléu.
Do alto do cemitério São João Batista, no bairro carioca de Botafogo, as sepulturas se misturam às casas dos morros Tabajara e Santa Marta. No Corcovado, o Cristo pétreo debocha da tentativa de separar da vida a morte. Na entrada principal, a memória de Francisco retrocede 13 anos e mais uma vez ele vê o pai chorar diante de uma sepultura.
– Eu poli isso aqui na mão em 1942 – o pai confidencia ao filho, alguns meses antes de morrer. Afastado fazia dois anos do cemitério, sentia falta do trabalho que exercera por mais de 60 anos, assentando mármore, entalhando nome e data nas sepulturas. Parou porque um dos pulmões secou, efeito do pó de mármore inalado.
– Era outra época. Não se trabalhava com proteção. Meu pai aprendeu tudo com os italianos, principalmente com Tito Bernucci. Trabalhou também com Mario de Murtas, Heitor Usai e Mario T. Urata. Eles e muitos italianos principalmente desenharam e esculpiram quase tudo o que está aqui.
O costume de se homenagear os mortos com obras de arte veio para o Brasil na primeira década do século XX. São Paulo e o Rio, após a Proclamação da República, viviam o momento da Belle Époque brasileira e o ideal de vida dos noveaux riches era a imitação dos hábitos parisienses.
Cemitérios que recebiam todo tipo de sepultamento, na virada do século passaram quase que exclusivamente a receber pessoas da classe média alta e da burguesia. O ornamento luxuoso representava a importância que o morto tivera para a sociedade.
Assim, a corrida do ouro consistia não em achar pepitas, mas em contratar artistas à altura do defunto. Amigos e familiares com muito afinco e alguns contos de réis a menos contaram com o apoio de artistas como Jean Marie Joseph Magrou, Victor Brecheret, Amadeo Zani, Elio de Giusto, Ottoni Zorlini, Rodolfo Bernardelli entre outros.
Depois da II Guerra Mundial, ficou mais caro importar o mármore de carrara ou italiano, o preferido da maioria dos artistas. Sem matéria prima, a produção de obras nos cemitérios foi gradativamente diminuindo. Atualmente, poucos artistas se dedicam à arte tumular.
Caminho sem volta
Pouco antes do pai de Francisco morrer, veio o convite para trabalhar na academia. Tudo por causa da ausência da letra “a” na frase que acompanha a imagem de Machado de Assis na entrada da ABL: “Esta a glória que fica, eleva, honra e consola”. Tão ilustre escritor não suportaria frase lhe faltando artigo. Então, Josué Montello, na época presidente da academia, chamou Francisco, que há 12 anos trabalhava no São João Batista, para consertar o erro.
– Eu, que nem completei o segundo grau, corrigia a frase do grande mestre da literatura. Ainda hoje o “a” me parece sobrar.
Os primeiros passos nesse caminho foram dados sem saber que uma vez lá, não há como voltar.
– Nunca imaginei que eu viesse parar aqui. Assisti meu pai em sua tarefa, sem domingo, sem feriado.
Feito Sísifo, Francisco fora condenado não a rolar, mas a entalhar a pedra. E ao acabar o trabalho, entra outro morto, e outra pedra e outras letras.
Três As, dois Ls, dois Ns, três Os, um C, um I, um T e um D; essas eram as próximas letras. O corpo exumado de Antonio Callado iria para o ossário, uma parede onde já descansavam Guimarães, Bandeira, Cecília Meirelles e muitos outros.
Sobre a tampa de mármore poroso Francisco cola os nome, depois as datas. A vida é o breve espaço entre o nascer e morrer. Por isso, as visitas são escassas, mesmo quando se trata de imortais.
– Às vezes, algum colégio vem aqui, mas é raro. As pessoas não gostam de cemitério. E estão certas. Quem gosta de lembrar que um dia vai morrer?
O sino da igreja São João Batista que fica na Rua Voluntários da Pátria toca. Meio-dia. O sol reflete nas campas de mármore e ofusca a visão. Duas campas em especial chamam a atenção. Odete e Betinha, nove e seis anos. Os túmulos mais visitados do cemitério. Elas fortalecem a crença de que fortes são as almas do São João Batista. Placas de agradecimento por pedidos concedidos se espalham por suas sepulturas. Não é difícil acreditar em milagres num cemitério cujo solo foi inaugurado por uma criança. A menina Rosaura ia completar quatro quando foi enterrada em 4 de dezembro de 1952, pouco mais de um ano um ano após a criação da necrópole.
– Dizem que essas crianças fazem milagres. Depois de morto, todo mundo faz.
Francisco não precisou morrer para fazer o milagre de encontrar um caminho com sombra em meio ao deserto fumegante de lápides e chegar até o Bar do Srº Cícero, onde almoça quase todos os dias.
– Quem trabalha aqui sabe que a Rua das Àrvores, ou Aléia 10, é o único lugar que dá para respirar esse horário. Agora é só cruzar a Rua General Polidoro.
Bolo de fubá, filé de frango, lingüiça, salgados. Francisco olha e desiste. Desde que fizera uma cirurgia para extirpar uma úlcera estomacal, perdera o apetite e mais dez quilos que teimavam em não voltar.
– Me vê um café, Cícero. Vou almoçar um sanduíche que trouxe.
A orientação médica é comer mais, fumar menos e descansar um tanto entre uma coisa e outra.
– Fico muito só ali em cima, daí eu fumo, fazer o que… Um maço por dia, tudo bem que às vezes divido com as pessoas que trabalham por aqui. É muita gente me pedindo.
Retirar do esquecimento
Naquela manhã de fevereiro, os cigarros ultrapassariam a cota diária. Um número errado no pedido de exumação do corpo da esposa do acadêmico Hermes Lima trazia problemas a Francisco, obrigando-o a subir e descer dezenas de vezes inúmeros degraus de escada até a administração do cemitério.
Hermes Lima foi quem criou o mausoléu, em 1962, por meio de um decreto-lei. Seu corpo fora exumado em 1996, e desde então, aguarda a exumação da esposa para se juntar à parede com os demais escritores.
– O número da sepultura é 28. No ofício da ABL está 20. O funcionário do cemitério não quer fazer a alteração à mão porque se trocar aqui, terão de trocar nos registros da Santa Casa, que administra tudo isso aqui.
Enquanto aguarda por uma definição, Francisco varre, tira o pó, capina, e mantêm limpas as sepulturas que ficam dentro e fora do mausoléu. Não é outono, mas o chão está repleto de folhas envelhecidas.
– Exumar é tirar do esquecimento um parente, a saudade, e muitas vezes a solidão. Também é lembrar que aqueles ossos sem cor e sem vida são o destino de tudo o que respira. Escritor quando morre é como os outros. As belas palavras não lhes rendem vida eterna. Não há nada a fazer.
Duas crianças se aproximam a correr entre as campas do cemitério. Do alto do Morro Tabajara, a mãe as olha de casa.
– Aonde vocês vão com tanta pressa? – pergunta Francisco.
Tuiú e sua irmã param.
– Eles passam por aqui todo dia, usam o cemitério de atalho para chegar em casa. Ali em cima é um lugar perigoso, de muita miséria. E o que mais assusta é como a gente pode se acostumar à miséria.
Francisco tira três reais do bolso e entrega às crianças, que sorriem, acenam para a mãe e seguem morro acima. José de Alencar e sua Georgina testemunham a cena, guardados por duas imagens esculpidas à semelhança de fantasmas, esverdeadas, sem face, que se escondem atrás do véu do abandono.
– Esse é um dos escritores que mais gosto, mas essas imagens são assustadoras. Não acredito em assombração, mas há alguns anos encontrei uma mulher morta em frente à sepultura dele. Era moradora de rua e costumava tomar banho num tanque que havia aqui embaixo. Um dia se sentiu mal, coitada…
Em cada uma das quadras é isso o que Francisco vê. Histórias envoltas em mistério que não seriam mais contadas, congelariam num último momento: A jovem morta que emanava cheiro de rosas quando a mãe vinha visitá-la; o velho velado que apareceu para um dos coveiros ordenando que retirassem a coroa de flores de cima da sepultura; a estátua de um imigrante italiano que levou um tiro na bunda de um segurança, que acreditava acertar um ladrão de túmulos; o escritor que se matou no dia de Natal por terem descoberto sua homossexualidade; o outro que fora assassinado pelo amante da esposa, homem que posteriormente também lhe mataria o filho.
Não tivesse o fósforo acabado, Francisco ascenderia o quinto cigarro em menos de duas horas. Do lado de fora do mausoléu, o vento forte amenizava o calor de 35 graus e jogava pelo chão as folhas que Francisco havia juntado. Um sujeito magro de rosto avermelhado, cego de um olho passa por Francisco e o cumprimenta.
– Esse é o Zé, um dos jardineiros do mausoléu.
Toda a energia da construção é desligada para que Zé possa molhar o jardim. O mausoléu fica na escuridão.
– Li poucos dos que estão enterrados aqui. Há muitos juristas e políticos. Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Jorge Amado, José de Alencar, esses todo mundo lê.
Naquela noite, Francisco não conseguiria assistir ao jornal. Cansado, tomaria banho, jantaria e dormiria em frente à televisão. No dia seguinte seria a exumação da Srª Lima. A documentação estava ajeitada. Junto aos coveiros e ajudantes, Francisco esperaria por horas o filho que não chegaria para acompanhar a exumação do pai.
– Poxa!, estou desanimado. Sei que é um momento difícil para a família… Não falei para você? Ninguém gosta de cemitério. Estão certos. O que pode ser melhor do que a vida?






