Autor: Elmar Bones

  • Fechamento de escolas: deputado quer ouvir Conselho de Educação e Associação de Pais

    O deputado Pedro Ruas está propondo uma lei para que o fechamento de unidades de educação só ocorra após manifestações do Conselho Estadual de Educação e da Associação de Pais e Alunos, após análise da justificativa apresentada pela Secretaria Estadual de Educaçã.

    Conforme o parlamentar, o fechamento de escolas prejudica principalmente a população mais carente.

    Ainda na justificativa para o projeto que tramita com o número 34/2018, Pedro Ruas destaca a preocupação com o fechamento de 7 escolas neste início de ano letivo.

    “O secretário trata o caso sem a necessária seriedade, dizendo que deveria fechar ainda mais escolas, em vez de apurar as razões de uma queda tão acentuada”, afirma.  

    “Ao alegar a queda do número de matrículas, o governo não parece preocupado em solucionar o problema com criatividade e empenho, optando por fechar o estabelecimento de ensino por uma questão econômica”, diz na justificativa.

     Da mesma forma que a lei exige que, para o fechamento, sejam consultados o Conselho Estadual de Educação e Associação de Pais e Alunos, prevê que o fechamento de níveis de turnos escolares na rede estadual de ensino, passe pelo mesmo critério, de forma a impedir que comunidades escolares sejam prejudicadas.

  • Mel branco dá o primeiro passo para obter o selo de origem

    GERALDO HASSE
    O radialista Gabriel Boeira, secretário da Associação de Apicultores dos Campos de Cima da Serra, classificou como “excelente” a reunião realizada na última segunda-feira à tarde em São Francisco de Paula para se obter o selo de indicação geográfica do mel branco produzido nos municípios de Bom Jesus, São José dos Ausentes, Cambará do Sul, Jaquirana e São Chico.
    Os apicultores receberam dicas e instruções da veterinária Beatriz Kuchenbecker, do escritório do Ministério da Agricultura em Porto Alegre.
    À reunião esteve presente o professor (de apicultura) Anselmo Kuhn, presidente da Federação Apícola do Rio Grande do Sul. “O processo de obtenção do selo leva de dois a três anos”, diz ele, lembrando que é fundamental criar uma infraestrutura ou, seja, uma “casa do mel” apta a conquistar o certificado de inspeção federal (CIF) concedido pelo MAPA. Depois disso, pode ser encaminhado o pedido de registro no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), cujo processo pode demorar pelo menos um ano.
    Estima-se que uma casa do mel bem equipada custe cerca de R$ 300 mil reais, valor que pode ser obtido por empréstimo junto a bancos de fomento ou mediante contribuição voluntária de apicultores em ação conjunta com apoiadores públicos e/ou privados.

    Mel branco / Tânia Meinerz / JÁ

    O mel branco dos Campos de Cima da Serra é uma especialidade resultante das floradas de três árvores da região – carne-de-vaca, gramimunha e guaraperê – que dão néctar abundante no auge do verão. Este ano a safra (considerada boa) se prolongou até meados de fevereiro.
    O assunto da indicação geográfica do mel branco será discutido em meados de 2018 no congresso estadual de apicultura em Panambi. Há muitos apicultores nativos dos Campos de Cima da Serra, mas os maiores produtores desse ecossistema são oriundos de outras regiões, especialmente de Santa Catarina, que sedia alguns dos maiores operadores da apicultura migratória.
    No Rio Grande do Sul há uma dezena de variedades de mel. Além do branco, os mais comuns são os de eucalipto, de laranjeira e o silvestre, que poderia ser qualificado como “genérico”, já que resulta de uma composição do néctar de diversas plantas, como todos os méis, já que as abelhas visitam todas as flores que encontram em seus voos.
    Nas últimas safras vem aumentando o volume do mel de uva-do-japão, tanto que alguns apiários já colocaram em circulação rótulos indicando o produto dessa árvore exótica invasora da mata atlântica. No litoral norte do RS produz-se o mel de quitoco, erva também chamada de arnica. Destaca-se ainda o chamado melato, resultante do processamento pelas abelhas da resina da bracatinga, árvore nativa do sul do Brasil. Por ser um mel escuro, o mel da bracatinga é pouco valorizado. No entanto, segundo Anselmo Kuhn, é de todos o mais rico em sais minerais.

  • Os riscos do jornalismo passivo

    A policia abriu um inquérito para identificar os responsáveis pelo desvio ético que resultou no comprometimento da autoridade policial com uma farsa, no caso do ritual satânico de Novo Hamburgo.
    Segundo as notícias, a Corregedoria da Polícia destacou três delegados para elucidar como se construiu a trama falaciosa e qual o envolvimento de policiais nesse lamentável episódio.
    Nessas horas é que se vê como o jornalismo, pela falta de regramentos e de auto crítica, se tornou um atividade irresponsável. Tira o assunto de pauta, e está tudo resolvido.
    Esta farsa do ritual satânico não se teria constituído e adquirido foros de verdade diante de um jornalismo crítico, cioso de seus princípios.
    É provável que toda a culpa, inclusive pela violência que se cometeu contra os acusados, recaia tão somente sobre o delegado Moacir Fermino, que bancou e turbinou a versão do ritual satânico.
    Será uma reducionismo. Em certo momento, mesmo a cúpula da polícia acolheu essa versão, dadas as evidências expostas acriticamente na mídia.
    E a mídia, ela também foi vítima do delegado? Ou foi vítima da própria passividade-cumplicidade que a coloca na dependência das autoridades para poder informar?
     

  • Três delegados trabalham para desvendar a farsa do ritual satânico

    Três delegados estão reconstituindo as investigações para esclarecer como e porque foi armada a farsa que levou a polícia e a imprensa a acreditarem que as duas crianças esquartejadas em circunstâncias ainda não esclarecidas haviam sido sacrificadas num ritual satânico.
    O delegado Marcos Meirelles, chefe da Corregedoria da Polícia onde corre o inquérito, disse ao JÁ que no prazo estabelecido, 16 de março, o trabalho estará concluído.
    Por enquanto o que ele pode adiantar é que há um homem preso, suspeito de ter sido o mentor de toda a trama – induzindo as testemunhas a mentirem para a polícia.
    A identidade do suspeito não foi revelada, assim como as motivações que o teriam levado a inventar a trama.
    O envolvimento do delegado Moacir Fermino e outros policiais na montagem da farsa também está sendo investigado.
    Fermino, um policial experiente, com 44 anos de atividade, foi quem encampou desde o início a tese duvidosa do ritual satânico, levado ao que tudo indica por suas convicções de “evangélico fervoroso”.
    A partir dos testemunhos falsos, Fermino encontrou elementos para uma história completa, cheia de detalhes que chegou a apresentar à imprensa, dando o caso como elucidado, com o indiciamento de sete pessoas.
    Quatro, inclusive o bruxo que teria feito o ritual, estiveram presas mais de 40 dias.
    O delegado Fermino perdeu-se na coletiva que convocou para apresentar à imprensa o caso resolvido. Quando teve que explicar como havia chegado às três testemunhas, invocou a intervenção divina, dizendo que eram “profetas” que Deus havia enviado para que ele elucidasse o monstruoso crime.
    A fantasia comprada pela internet chegou depois do crime / Divulgação PC / JÁ

    Uma prova da manipulação é uma foto de uma capa preta com a cabeça de um lobo, que teria sido usada para “assustar as vítimas”.
    A cabeça do lobo é uma máscara comprada pela internet por um filho do “bruxo”, para uma festa à fantasia, chegou ao Brasil muito depois dos corpos terem sido encontrados.
    A montagem da foto reforça a versão fantasiosa do delegado, de que a indumentária foi usada no ritual em que as crianças foram sacrificadas.
  • Polícia rastreia chamadas telefônicas em busca de pista sobre crianças esquartejadas

    ELMAR BONES
    Na manhã desta quinta, 1 de março, o delegado Rogério Baggio autorizou mais uma diligência em escolas da região do Vale dos Sinos, para averiguar denúncia anônima sobre crianças desaparecidas.
    É a centésima denúncia desse tipo que ele manda investigar nos últimos seis meses.
    “Até agora deu em nada, mas não posso descartar qualquer pista”, diz o delegado de 39 anos. Há dez anos como delegado, Baggio está diante não só do maior desafio de sua carreira, mas de um dos casos mais intrigantes da história policial do Estado.

    Policiais encontraram os corpos esquartejados no meio do lixo à beira da estrada / Divulgação PC / JÁ

    É um crime hediondo que parece perfeito: duas crianças esquartejadas, sem cabeça, dentro de caixas de papelão, no meio do lixo à beira de uma estrada deserta. Nem imagens de câmeras, nem testemunhas, nem registro de crianças desaparecidas, nem impressões digitais, nem as cabeças, apesar das buscas e escavações.
    Há seis meses a polícia tateia em busca de pistas que possam levar ao assassino ou assassinos.
    Os testemunhos que apareceram levaram as investigações a uma farsa: as crianças teriam sido sacrificadas num Ritual Satânico.
    Sete pessoas tiveram a prisão decretada, quatro foram parar no presídio, inclusive o “bruxo” que teria feito o ritual. Era uma armação até agora não esclarecida.
    O delegado Baggio está no caso desde o início. Trabalhou com a hipótese de tráfico de órgãos (descartada porque a caixa toráxica dos dois corpos estava íntegra), guerra entre facções do tráfico, ritual de sacrifício, vingança, nem caso passional foi descartado.
    O delegado reconhece que até 10 de dezembro, quando saiu de férias, nenhum desses caminhos havia levado a nada.
    Quando ele retornou, no dia 10 de janeiro a versão do ritual satânico estava consagrada, com grande estardalhaço na imprensa.
    O delegado Moacir Fermino, que o substituiu, botou fé em duas testemunhas que se apresentaram, direcionou as investigações para a hipótese de ritual satânico e chegou a construir uma história completa que aparentemente fazia sentido.
    “Os testemunhos eram muito detalhados e as diligências policiais encontraram comprovação do que eles diziam em muitos pontos. Tudo fechava, tinha muitos elementos verdadeiros”.
    A primeira testemunha, um pedreiro que trabalhou numa obra num sítio onde havia um templo em que se realizavam rituais. Um dia esqueceu a carteira e o casaco no local e quando voltou à noitinha para buscar viu uma cena que lhe pareceu um ritual: sete pessoas em círculo, duas crianças no centro, que pareciam sedadas.
    Os policiais foram ao local indicado, chamado Morungava, e se espantaram com o que encontraram. “Era macabro”, diz o delegado Baggio.
    O portão com o pentagrama / Divulgação/JÁ

    Começava no portão preto de metal, ornado por um pentagrama, antigo simbolo associado à magia em diversas culturas.
    A casa de alvenaria, por fora era comum, a não ser pela pintura cor de laranja. Na sala, porém, descortinava-se um altar sobre o qual dominava uma estátua de Lúcifer e por todo lado símbolos de magia negra, inclusive uma bacia com crânios (que depois se veria, eram de silicone) mergulhados num líquido vermelho (não era sangue, como os jornais chegaram a relatar).
    O dono do lugar era Silvio Rodrigues, que tem na internet um site “Templo Iniciático de Lúcifer” e se apresenta como bruxo e mestre em rituais de alta magia negra: pactos para riqueza, abertura de caminhos, amarração amorosa entre outros.
    Para complicar, no celular de Rodrigues a polícia encontrou uma postagem da notícia sobre o achado dos corpos no dia 4 de setembro. Quem compartilhou a notícia foi Jair da Silva, um dos suspeitos de terem encomendado o ritual. Fechava.
    Delegado Fermino foi afastado do caso / Divulgação / JÁ

    Nas mãos do delegado Moacir Fermino o caso adquiriu dimensões mediúnicas. Policial experiente, com 44 anos de investigações, Fermino é considerado pelos colegas um “evangélico fervoroso” que se deixou levar por preconceitos religiosos.
    Na versão que se montou, Silva e um sócio, Paulo Ademir Norbert, ambos qualificados como “empresários” nas noticias dos jornais, teriam pago 25 mil reais a Rodrigues para um ritual, buscando prosperidade nos negócios.
    O bruxo teria exigido sacrifício humano, duas crianças do mesmo sangue. Sete dias de preparação, sete participantes, tudo foi adquirindo um tom cabalístico.
    A segunda testemunha que se apresentou, “um trabalhador que passava”, disse ter visto as caixas onde foram encontrados os corpos sendo descarregados de uma caminhonete vermelha.
    Nada menos que uma caminhonete vermelha foi encontrada com um dos suspeitos.
    Esse depoimento pareceu ainda mais convincente quando a polícia levou a testemunha à estrada onde foram encontrados os corpos e ele apontou o local exato onde viu a caminhoneta e o descarte das caixas: “É uma estrada extensa, tomada de lixo nas margens, um matagal, e ele foi no ponto certo”.
    Ao reassumir o caso, o delegado Baggio percebeu que faltava um elo consistente que ligasse os seis suspeitos ao bruxo Rodrigues. Mandou refazer investigações e não encontrou elementos convincentes. Nesse momento se apresenta uma terceira testemunha.
    O delegado desconfia e passa, então, a investigar as testemunhas. Um dossiê de cada testemunha deu base a um novo interrogatório e aí apareceram contradições que desmontaram a farsa.
    Uma das testemunhas disse que lembrava a data, 4 de setembro, em que viu as caixas com os corpos serem descartadas, porque era aniversário de seu filho que morava em outra cidade e viera comemorar com ele.
    A polícia checou as informações, ele realmente tinha um filho que mora em outra cidade e faz aniversário dia 4 de setembro. Mas há dois anos ele não via o filho.
    A testemunha disse também que viu as caixas com os corpos sendo largadas na estrada quando passava a caminho do trabalho. Na checagem a polícia descobriu que na época ele trabalhava no outro lado da cidade.
    Essa terceira testemunha contou uma história tão detalhada que o delegado achou que estava mentindo. Quando foi checar descobriu que essa “testemunha-chave” era filho do homem que as outras duas testemunhas já haviam apontado como o mentor da farsa. Ele teria prometido dinheiro e benefícios do Programa de Proteção à Testemunha e forjado a história toda.
    Este homem está preso e sua identidade não é revelada. O inquérito que corre na Corregedoria da Polícia tem até o dia 16 para esclarecer o que aconteceu nesse episódio do Ritual Satânico.
    Enquanto isso o caso das crianças esquartejadas continua um mistério.
    A delegacia de homicídios de Novo Hamburgo destacou desde o início dois de seus 12 investigadores para cuidar exclusivamente desse caso.
    Um dos investigadores nesse momento está dedicado a rastrear os telefonemas registrados na região nos três dias anteriores ao crime.
    Com autorização da Justiça, a polícia está checando todas as chamadas telefônicas registradas em três estações de rádio-base de Novo Hamburgo, nos dias anteriores ao crime. Só uma delas registra 20 mil ligações nesses três dias.
    “É um trabalho de formiguinha”, diz o delegado.

  • "Regimento não foi respeitado", dizem deputados que foram à Justiça para anular sessão da AL

    Uma ação declaratória de invalidade foi protocolada, nesta terça-feira (27.02) na justiça estadual, pedindo a nulidade da sessão plenária nos dias 07 e 08 de começo de fevereiro, que aprovou o projeto de Lei Complementar 249/2017, de autoria do Poder Executivo.
    A lei aprovada autoriza o governo do Estado do Rio Grande do Sul a aderir ao Programa de Recuperação Fiscal, que suspende por três anos o pagamento da dívida com a União.
    Os autores da ação, deputados Pedro Ruas (Psol), Stela Farias e Tarcísio Zimmermann (PT) e Juliana Brizola (PDT) informaram à Imprensa que a votação realizada foi ilegal desde a origem, uma vez que o Executivo não encaminhou, junto ao projeto, o documento descritivo do acordo que foi aprovado.
    “O Legislativo aprovou um contrato cujas cláusulas não foram encaminhadas, conforme prevê o Regimento Interno. Os artigos 165 e 166 foram desrespeitados”, afirmou Ruas.

  • Mariante centenário

    ELMAR BONES
    Quantas vezes você viu alguém apagar com um sopro uma velinha de 100 anos em cima de um bolo de aniversário?

    João Gomes Mariante na festa do seu centenário

    Eu vi pela primeira vez nesta segunda feira, 26 de fevereiro, quando tive o privilégio de estar entre os amigos que o dr João Gomes Mariante reunir para comemorar o seu centenário.
    “Uma celebração da vida”, como disse o jornalista Batista Filho que saudou o aniversariante e seus familiares em nome dos convidados.
    Voltarei ao assunto.

  • Flávio Tavares exuma o cadáver do mito Che

    GERALDO HASSE
    “As Três Mortes de Che Guevara” (L&PM, 2017): eis um livro pra dar de presente e/ou pra guardar na estante dos grandes livros do jornalismo histórico.
    Com sua última obra, lançada no final do ano passado, o gaúcho Flavio Tavares leva ao extremo sua experiência como testemunha ocular da História e intérprete privilegiado de fatos vividos e narrados por ele há mais de 60 anos.
    Jornalismo-memorialístico do qual emana um luminoso painel da segunda metade do século XX.
    Coisa rara, temos aqui as lembranças do Flávio – dirigente estudantil que conheceu Moscou em 1954; as anotações do Flávio Tavares repórter em Punta del Este em 1961, quando conheceu o revolucionário Ernesto Che Guevara; do jornalista-testemunha do desbaratamento do poder civil em Brasília em 1 de abril de 1964; do preso político/exilado de 1969 no México; do correspondente jornalístico por longos anos em Buenos Aires; do autor de “Memórias do Esquecimento”(Globo, 1999), um dos melhores livros sobre a ditadura militar brasileira de 1964/85…
    Por fim, mas não por último, surge nas entrelinhas de “As Três Mortes de Che Guevara” o analista político que não hesita em colocar-se pessoalmente na narrativa para refletir sobre alguns dos principais acontecimentos políticos do século XX no âmbito da esquerda – a revolução de 1917 na Rússia, a revolução de 1949 na China, a revolução cubana de 1959 e os desdobramentos da Guerra Fria que manteve o mundo em suspense por décadas no período 1950-1990.
    Resulta um privilégio gratificante ler Tavares discorrendo sobre um dos maiores personagens do século XX.
    Nesse livro de 233 páginas, despojado de sua condição mitológica, Che Guevara desponta como o humanista que acreditou no nascimento do Homo solidarius, criatura que se deixaria pelo sentimento de solidariedade comunitária numa sociedade — a cubana — teoricamente livre do egocentrismo.
    Já nas primeiras páginas fica claro que Che ficou praticamente sozinho, isolado politicamente, no meio de revolucionários acuados por Washington e alinhados a Moscou.
    Descontente, talvez desiludido com o rumo das coisas na ilha de Fidel Castro, o argentino de 30 e poucos anos, pai de quatro filhos, saiu pelo mundo disposto a aplicar os conceitos do internacionalismo proletário. Missionário da revolução comunista num mundo bipolar…
    Já pela página 80 o livro vai ficando pontilhado de sinais de interrogação que, bem ou mal, refletem pontos obscuros da biografia de Che Guevara, de seu relacionamento com Fidel e do próprio desenrolar da história de Cuba a partir do sua aliança com a União Soviética e sua inimizade com o vizinho ianque.
    A partir daí Tavares se revela um mestre do jornalismo litero-histórico, um gênero em que poucos se dão bem.
    Quando Che chega calvo ao Congo, escondendo sua identidade dos próprios soldados cubanos que vai comandar, o livro adquire a dimensão de uma novela policial.
    O livro de Tavares cresce ao jogar luz sobre as contradições do argentino Ernesto Guevara de la Serna. Afinal, o que um branco asmático, filho de uma família de classe média de Buenos Aires, vai fazer nas montanhas da África tribal?
    A tese guevarista era  libertar o homem do jugo do imperialismo capitalista, ainda que tal revolução precisasse ser sustentada pelo imperialismo comunista, como ocorria em Cuba e em outros países, com nuances regionais ora pró-soviéticas, ora pró-chinesas.
    Embora aconselhado (pelos líderes Nasser e Ben Bella) a não se intrometer no continente negro, Che usou sua condição de médico para encobrir sua compulsão pela aventura revolucionária.
    Quebrou a cara, tanto no Congo como na Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, onde aliciou um grupo de assustados camponeses — mais interessados na boca livre oferecida pelo revolucionário estrangeiro do que em seus ideais libertários.
    O desfecho é conhecido: Che morreu em outubro de 1967 metralhado por um sargento embriagado de quem era prisioneiro. Foi executado por ordem do comando do Exército da Bolívia, devidamente assessorado por agentes do governo dos Estados Unidos.
    São fatos cujas luzes se projetam até os dias de hoje.
    Ungido por uma aura romântica, o guerrilheiro emergiu da selva boliviana com um boina estrelada na cabeça e um charuto cubano entre os dentes, transformando-se pelas artes da propaganda no apóstolo predileto da juventude idealista do Terceiro Mundo e até de cabeças coroadas das esquerdas do Primeiro Mundo.
    Difundida em camisetas, posters e panfletos, a herança intelectual de Guevara foi resumida numa frase ambígua — “Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás” – que acabou se tornando uma espécie de mantra de esquerdistas que ignoravam ou faziam questão de não  tomar conhecimento das lutas pelo poder nos bastidores dos governos das repúblicas ditas populares.
    O comunismo agoniza em Cuba, mas a lenda do argentino audaz e charmoso permanece misteriosamente viva.
    Uma história ainda sem ponto final, admite Flávio Tavares, no final do seu livro.
    Sem acusar diretamente, ele sugere que Che foi descartado pela cúpula da revolução cubana, que usou seu idealismo missionário para afastá-lo de Cuba, onde seu inconformismo se tornara incômodo.
    Por ter vivido muito tempo fora do Brasil, o jornalista-historiador conheceu pessoas, entrevistou políticos, teve acesso a documentos e leu livros que jamais chegaram à maioria dos leitores do Brasil.
    Vem daí e dos seus 80 anos de vida a riqueza desse livro que coloca seu autor no pódio dos melhores jornalistas-historiadores brasileiros.
    Membro do raro clube de escritores que narram os fatos sem torcida nem distorção, Flávio Tavares não esconde, porém, o sentimento de compaixão pelo destino de seu trágico personagem.
     

  • Defensores públicos federais repudiam mandados coletivos

    É com extrema preocupação que a Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais – Anadef observa os desdobramentos da intervenção federal levada a efeito na área de segurança pública do estado do Rio de Janeiro.
    A possibilidade de expedição de mandados de busca e apreensão coletivos, bem como as abordagens ostensivas e humilhantes contra crianças e adolescentes nas comunidades cariocas, são merecedoras de completo repúdio.
    Grande parte das ações até agora adotadas e cogitadas são absolutamente incompatíveis com a Constituição Federal, ferindo de morte a cidadania e a dignidade da pessoa humana, fundamentos da República Federativa do Brasil, bem como os direitos que receberam o contorno de garantias fundamentais por parte do constituinte.
    Ademais, a atual situação social do Rio de Janeiro – que não difere em muito do restante do Brasil – é construção da ausência total do Estado, ineficaz na elaboração e concretização de políticas públicas, sobretudo as sociais, em áreas como saúde, educação, moradia e segurança.
    Diante desse descalabro, a Anadef condena e repudia qualquer conduta violadora dos direitos humanos a serem praticadas contra cidadãos que se encontrem em situação de vulnerabilidade, aumentando ainda mais o estigma de pobreza carregado pela população brasileira.

  • Janeiro com duas mortes no trânsito: recorde em 20 anos

    Duas pessoas morreram em acidentes de trânsito nos mês janeiro de 2018, em Porto Alegre. É o menor número de mortes no trânsito no primeiro mês em 20 anos. No janeiro de 2017, foram sete as mortes por acidentes na cidade.
    Na série da EPTC, o janeiro mais letal foi o de 1999, que registrou 27 mortes no trânsito da capital.
    A estatística dos acidentes em janeiro, divulgada pela EPTC, revela uma tendência de queda em todos os níveis no trânsito de Porto Alegre.
    O número total de acidentes reduziu em 10% (793 a 890); feridos foram menos 9% (336 a 371); vítimas fatais com motos caíram 60% ( 2 a 5) e menos 100% em mortes por atropelamentos (0 a 2).
    A redução dos acidentes com vítimas fatais vem acontecendo gradualmente nos últimos anos. Em 2017 foram 90 mortes no trânsito porto-alegrense, também o menor número dos últimos 20 anos.
    Fabio Berwanger Juliano, presidente interino da EPTC, atribui a redução de acidentes ao “engajamento da população nas campanhas de educação, fiscalização e ações de engenharia de tráfego para um trânsito com menos mortes, acidentes e feridos”.