Elmar Bones e Naira Hofmeister
O feriado de quinta-feira e o ponto facultativo, na sexta, nas repartições públicas, serviram para esfriar o ambiente político no Estado, em ebulição desde quarta-feira, quando o governo sofreu um revés sem precedentes ao ter o seu plano de ajuste fiscal rejeitado por 34 votos a zero.
Conforme anunciado pela secretária de Cultura, Mônica Leal, “o feriadão foi providencial para esfriar a cabeça e pensar com calma nos próximos desdobramentos”. De fato, depois de quatro dias de recesso público, o partido da secretária que está no centro da crise, divulgou uma nota na manhã desta segunda-feira, 19 de novembro, cancelando a reunião da executiva estadual que definiria a saída definitiva da base governista.
O texto é assinado pelo presidente estadual do partido, Jerônimo Goergen, e admite as dificuldades que os progressistas enfrentam para se manter nos cargos estaduais desde a votação na Assembléia. Sublinha, porém, que “a proporção dos acontecimentos gerou conflitos desnecessários e menores”.
Com quatro secretarias e uma dezena de cargos importantes no primeiro escalão do governo, o partido foi o principal alvo das queixas da governadora, que no momento de maior tensão, logo depois da derrota, falou até em “traição”.
Cinco representantes do PP (Adolfo Brito, Leila Fetter, João Fischer, Mano Changes e Francisco Appio), garantiram o quórum mínimo de 28 deputados para que houvesse a votação, contrariando a orientação do Palácio Piratini, que pretendia adiar a decisão para negociar mudanças e assim viabilizar a aprovação do pacote. Na hora da votação, os oito integrantes da bancada progressista estavam em plenário e votaram contra o governo.
Três dos quatro secretários indicados pelo PP (Pedro Westphalen, de Ciência e Tecnologia, João Carlos Machado, da Agricultura, Celso Bernardi, de Relações Insitucionais), além do presidente do IPE, Otomar Vivian, colocaram os cargos à disposição na última semana.
Apenas a secretária Mônica Leal, que se considera da “quota pessoal da governadora” dá sinais que fará um movimento contrário, permanecendo no governo e se afastando do partido. Na manhã dessa segunda-feira, Mônica cancelou um compromisso no Instituto de Educação, onde participaria da solenidade de inauguração de três telas restauradas.
Íntegra da nota do Partido Progressista
“Crise entre aliados exige espírito público e grandeza política”.
O episódio da votação do plano de recuperação do Estado, na quarta-feira da semana passada, acabou gerando dificuldades nas relações entre o PP e o Governo do Estado.
A proporção dos acontecimentos, entretanto, gerou conflitos desnecessários e menores do que o papel que os gaúchos esperam de seus agentes políticos, responsáveis que são pela geração de serviços públicos essenciais à sociedade.
O Governo do Estado tem um desafio imensamente maior a enfrentar em nome da verdadeira “base aliada”, que são todos os gaúchos.
É por isso que interesses e vaidades pessoais precisam ser deixadas de lado. O mesmo se refere a transferência de responsabilidades.
O momento exige que cada um avalie seus atos e assuma sua parcela de culpa no episódio do dia 14 de novembro.
A governadora Yeda Crusius, num ato de grandeza, sinaliza que a hora é de prudência e calma, o que reforça ainda mais nosso compromisso com o Estado.
É por isso que, em nome do Rio Grande, faço um apelo pela unidade. A superação das dificuldades do Rio Grande do Sul exige um esforço de todos.
O PP, com humildade, irá retirar lições positivas do episódio para levar adiante aquela que é a razão de ser da política: construir democraticamente uma sociedade justa e harmônica. É preciso que todos, governo, poderes estaduais e federal, partidos aliados e de oposição façam o mesmo.
Somados a esta consciência da importância do momento estão os gestos oferecidos pela governadora Yeda Crusius, dando conta da importância da presença do PP no esforço coletivo para encontrar saídas que possibilitem a recuperação das finanças do Estado.
Governos passam e o Rio Grande permanece. Por isso a hora é de união e de diálogo.
Foi em nome desse objetivo e da preservação da unidade que determinamos o cancelamento da reunião da Executiva do Diretório Estadual, marcada para a tarde desta segunda-feira.
Porto Alegre, 19 de novembro de 2007
Jerônimo Goergen
Presidente Estadual do PP
Autor: Elmar Bones
PP suspende reunião da executiva
Jornal JÁ lança revista comemorativa dos 21 anos

Revista vai trazer as melhores reportagens das duas décadas do JÁ (Reprodução)
Circula dia 5 de dezembro a edição especial comemorativa aos 21 anos do Jornal JÁ, completados em outubro deste ano. Em formato de revista, a publicação reunirá as melhores reportagens e entrevistas veiculadas em duas décadas, além de matérias inéditas.
Serão 15 mil exemplares, para venda em bancas e distribuição dirigida a formadores de opinião e jornalistas dos principais veículos de comunicação do Estado e do país.
A edição comemorativa dos 21 anos do JÁ vai traçar a trajetória do jornal que nasceu em 1985, a partir da visão de seus fundadores.
A história do jornal começa no momento em que o Brasil sai da ditadura, com a eleição de Tancredo Neves. Naquele ano, um grupo de intelectuais e jornalistas de Porto Alegre se reúne para fundar um jornal com a cara do novo Brasil.
A revista também vai trazer entrevistas históricas com Eduardo Galeano, Chico Buarque, Gilberto Gil, Frei Rovílio Costa e muitos outros. E mais artigos exclusivos com os grandes nomes que passaram pelo JÁ.
Opus vai administrar Araújo Vianna por 10 anos
Naira Hofmeister
Única empresa a apresentar um projeto de acordo com as normas do edital de fevereiro de 2007, a Opus Promoções terá concessão do Auditório Araújo Vianna pelos próximos 10 anos. “Fiquei muito satisfeito ao ser informado de que é uma empresa gaúcha, porto-alegrense e intimamente ligada com a produção de espetáculos culturais”, comemorou o secretário municipal de cultura, Sérgius Gonzaga.
A permissão de uso do espaço é mediante a reforma das instalações do Araújo Vianna, cuja maior urgência é a substituição da cobertura – a lona que protege o interior do auditório foi instalada em 1996, mas tinha prazo de validade, esgotado em 2002. A entrega das obras deve ser feita em 18 meses, a contar da assinatura do contrato. “Não temos como definir datas ainda, mas acredito que em dezembro de 2008, o Araújo esteja pronto”, projetou Carlos Konrath, diretor da Opus Promoções.
Em troca das reformas, com valor estimado em sete milhões de reais, a Opus Promoções terá direito de utilizar o Araújo Vianna durante 75% dos dias do ano, enquanto à Prefeitura estão reservados as demais datas, que representam 91 dias. “É mais do que utilizamos desde que o auditório foi reinaugurado, na década de 90”, constata o secretário.
A recuperação será comandada por Moacyr Moojen, que ao lado do falecido Carlos Fayet, assinou o projeto original do auditório, quando foi transferido da Praça da Matriz para o Parque Farroupilha, em 1964.
Além da cobertura definitiva, o Araújo vai receber novos equipamentos de illuminação, som e reformas no palco, platéia, banheiros e camarins. “O Araújo Vianna será um modelo para o Brasil e os visitantes terão de marcar hora para conhecer o espaço”, enalteceu Sérgius.
“Terceira Vida” ou “Privatização Branca”?
“Uma nova fase será inaugurada no Araújo Vianna”, acredita o secretário municipal da Cultura, Sérgius Gonzaga. A reforma no auditório está sendo considerada pela Prefeitura como a “terceira vida” do espaço – em referência ao período entre 1927 e 1964, quando funcionava no Centro da capital, e a posterior transferência para o Parque Farroupilha.
Mas a nova etapa já começa com polêmica. Antes mesmo do anúncio do vencedor, alguns pontos do edital vinham sendo questionados. Os vereadores da oposição criticam o que chamam de “privatização branca” e prometem entrar com representação junto ao Ministério Público.
Durante a coletiva de imprensa que anunciou a Opus como vencedora da licitação, o coordenador de música da secretaria da Cultura, Henrique Mann, fez um apelo aos jornalistas. “Vamos acabar com essa história de privatização, que significa venda de patrimônio público”. Mann entende que o auditório terá uma “gestão compartilhada” entre Prefeitura e iniciativa privada.
Sérgius Gonzaga argumenta ainda que “não se trata sequer de uma Parceria Público Privada”, pois o prazo de utilização é de 10 anos, muito inferior ao de uma PPP, normalmente compreendido entre 25 e 30 anos.
Edital gera dupla interpretação
O primeiro problema refere-se a um possível cercamento do auditório. “Isso está no edital, mas não foi discutido com o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, nem aprovado em plebiscito, como prevê a legislação”, levanta o vereador Marcelo Danéris, do PT. Segundo o documento, serão realizadas “obras de impermeabilização, pintura, cercamento, reforma nos camarins e sanitários” do Araújo Vianna.
“Isso foi um erro da equipe da Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural”, justifica Sérgius Gonzaga. O titular da cultura do município explica que a hipótese realmente foi levantada, porém, antes mesmo da publicação do edital, os arquitetos Moojen e Fayet desistiram da idéia. A proposta, porém, acabou nas páginas por “falta de atenção”. “A possibilidade de cercar foi anulada pela Procuradoria do Município”, reitera.
Isso não significa que uma proteção externa esteja descartada. “Faremos um pesado investimento e seria lamentável se no próximo ano nos encontrássemos aqui para contar as perdas”, insinua Carlos Konrath, diretor da Opus Promoções. O empresário admite, porém, que se a decisão coubesse exclusivamente à ele, “não cercaria jamais”.
O problema, na visão de Konrath, é que o Araujo está constantemente exposto ao vandalismo. “Isso é um problema da sociedade, e é com ela que vamos resolver”. O produtor sinaliza que, se a necessidade de uma proteção for constatada, o assunto será debatido na comunidade. “O Araújo Vianna é um patrimônio da cidade”, completa.
Ainda que a prefeitura tenha recebido as queixas antes do anúncio do vencedor do edital, o documento não foi alterado. “A secretaria não fez as alterações no tempo hábil e agora terá que confiar na boa fé da empresa, mas o edital está bem claro: prevê o cercamento com blocos de concreto e cerca”, denuncia Daneris.
O segundo aspecto questionado pelos parlamentares é uma cláusula que diz que ao fim dos dez anos, a empresa pode levar consigo os bens investidos. “Não há garantias de que as melhorias ficarão no auditório. Como assim, a empresa poderá levar das cadeiras à iluminação?”, questiona o vereador.
O assessor jurídico da prefeitura, José Moreira, que participou da elaboração do edital, garante que a cláusula se refere exclusivamente aos equipamentos da administração do espaço, “como computadores e móveis de escritório”. “Não existe a menor possibilidade de remover a cobertura ou arrancar as cadeiras depois dos 10 anos”, completa Carlos Konrath.
Outro tema são os dias de uso da Prefeitura, considerados insuficientes pelos vereadores. De acordo com o edital, o poder público tem direito a 91 dias por ano. “Não é o uso em si, mas a questão do acesso. Com a entrada da iniciativa privada, deve ficar mais difícil para os artistas locais usufruírem do espaço”, entende Danéris.
Para essa questão, Sérgius dá a seguinte explicação. “Fizemos um levantamento de utilização do espaço pelo poder público, e o pico máximo foi a trinta dias por ano. Ou seja, com esse acordo, temos 61 dias a mais”. Sobre quem poderá usufruir do Araújo, Sérgius também tem uma resposta na ponta da língua. “Não podemos concorrer com a Opus, portanto a preferência será toda para novos músicos e bandas não comerciais da região”.
Reencontro histórico

Naira Hofmeister
A alcunha de Redenção, do Parque Farroupilha, tem origem na comunidade negra que ocupou o Bom Fim no século XIX. Escravos recém libertos, sem ter onde viver, se instalavam nos campos em frente ao Casarão da Várzea, no prédio onde hoje funciona o Colégio Militar. “Redenção faz menção à liberdade, à alforria do povo africano”, aponta Guto Obáfeni, militante do movimento negro e um dos responsáveis pelo resgate dessa relação territorial entre o povo negro e o Bom Fim.
Guto (foto) é o presidente da Áfricanamente, ONG com cinco anos de atuação na periferia da cidade, que desde dezembro de 2006, ocupa o número 68 da Protásio Alves. “Foi uma comoção quando achamos esse espaço, tem tudo a ver com o trabalho de resgate da identidade negra”. Na sede da Áfricanamente, as noites são embaladas pelo som do berimbau e do atabaque. A capoeira angola – que conserva as características do tempo da escravidão – só é praticada por oito grupos em Porto Alegre. Nas aulas são abordados música, ritmo e história da capoeira. A Áfricanamente também trabalha outros aspectos da cultura africana, igualmente distorcidos pela sociedade contemporânea. “As pessoas acham que samba é na boquinha da garrafa”, critica. A tradição dos Orixás, por exemplo. “O elemento que dava uma certa humanidade aos escravos foi, sem dúvida, a religião”, acredita Guto.
Mais que resgatar aspectos da negritude, o trabalho da ONG é tornar possível à experimentação da matriz africana na sociedade atual. O Brasil é o segundo país no mundo em população negra, atrás apenas da Nigéria. O dado só não surpreende mais do que a revelação de que o Rio Grande do Sul foi o estado brasileiro com mais praticantes assumidos do Candomblé. “Esses números não estão representados na nossa cultura”.
Centro de Cultura Negra não vinga
Dezoito meses depois da assinatura do convênio entre Governo do Estado e Associação Cultural de Mulheres Negras (ACMUN), o Centro de Cultura Negra, previsto para funcionar na esquina da Venâncio Aires com a João Pessoa, realiza suas atividades em salas emprestadas ou alugadas.
“Por onde é que eu começo”, se pergunta Elaine Oliveira, uma das encarregadas da ONG, tamanhas as dificuldades que enfrenta para oficializar a instituição. “Estamos tentando um horário na agenda da governadora, que garantiu apoio antes da eleição”.
A primeira providência a ser tomada é a publicação no Diário Oficial da concessão do prédio – há cinco anos desocupado. “Sem essa ação, não podemos pedir ligação da rede elétrica”, expõe. O prédio ainda precisa de pintura interna, instalação de forro e reparos nos banheiros.
Bom Fim: convivência exemplar para o mundo
Guilherme Kolling
O médico e escritor Moacyr Scliar teve a espinhosa tarefa de falar na mesma noite em que a jornalista Asne Seierstad, no ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre. A autora de O Livreiro de Cabul encantou o público com histórias sobre o Afeganistão, Chechênia, Sérvia, Rússia e Iraque.
O gaúcho optou então pela máxima: “cante sua aldeia que serás universal”. Foi o que fez, ao abordar a imigração judaica para o Rio Grande do Sul, terreno em que esteve a vontade o tempo inteiro, provocando risos do público com seus causos do bairro.
Depois da aula de Asne sobre os conflitos gerados por diferenças étnicas, religiosas e culturais, Scliar apresentou a tese de que pessoas que não são iguais podem viver de forma harmônica, apresentando como exemplo emblemático o Bom Fim, de sua infância.
Foi o bairro que abrigou os imigrantes depois de eles terem vindo da Bessarábia para as colônias de Quatro Irmãos (Erechim) e Philipson (Santa Maria). Era um local multicultural – além de judeus, o Bom Fim abrigava negros, descendentes de alemães, entre outros.
Um fator decisivo que pesou e muito nessa convivência harmônica foi a vontade dos imigrantes de que a vida desse certo na nova terra, fato ilustrado com bom humor por Scliar.
“Houve uma integração cultural, o Brasil era visto como um paraíso pelo seu clima, a floresta, as frutas… Na Bessarábia, acontecia de uma família com nove pessoas dividir uma única laranja de sobremesa. Só os ricos compravam. E depois, por aqui, encontraram essa abundância”.
Scliar execerceu o ofício de escritor:
“Perto da Vasco da Gama vivia uma mulher que nunca tinha visto um abacate na vida. E lá onde ela vivia, na Europa, essa fruta era só para nobreza. O sonho dela era comer um abacate. De modo que depois de passar semanas sofrendo em um navio superlotado, a primeira coisa que ela falou ao marido quando chegou a Porto Alegre foi: ‘Eu quero um abacate’. E mesmo sem falar português, não se sabe como, o homem deu um jeito de conseguir o tal abacate. A mulher ficou emocionada. Mas nunca tinha provado,e comeu com casca e tudo. O marido, depois de um tempo observando as caretas de sua esposa perguntou: ‘Que tal o abacate?’. E a mulher: ‘Não é o que eu esperava, mas vou me acostumar’”.
Com essas narrativas, Scliar demonstrou a vontade do imigrante em se adaptar, o que permitiu uma perfeita integração cultural. O escritor contou outras passagens que marcaram sua infância, como a da mãe judia que estava sempre a alimentá-lo. Outras que ele aprendeu numa época em que as pessoas se reuniam ao fim do dia, em frente às casas, sentados em cadeiras na calçada, formando rodinhas na Felipe Camarão, Henrique Dias, Ferandes Vieira…
*Esta reportagem é um dos destaques da edição 376 do JÁ Bom Fim/Moinhos, que já está circulando nos pontos de comércio da região central de Porto Alegre.
Atlas Ambiental inspira ecologia nas escolas municipais
Adriana Agüero, especial para o JÁ
Uma abordagem local. Essa foi a idéia da professora Cleonice Silva, da Escola Municipal Judith Macedo de Araújo, ao criar o projeto “Construindo conceitos e valor a partir do Atlas Ambiental de Porto Alegre”. No caso da escola, que está situada no Morro da Cruz, na zona leste de Porto Alegre, foi feito um detalhado estudo do relevo e da vegetação da área. “Porto Alegre é estudada dentro da imensa paisagem natural do planeta Terra; ressaltamos a fauna e a flora exclusivas da cidade, valorizando o bioma local, para que o aluno aprenda a valorizar o espaço onde vive e, a partir disso, ser um agente multiplicador”, explica Cleonice.
Outro exemplo é a Escola Municipal Chapéu do Sol, que desde 2000 desenvolve o projeto “O meio ambiente é o meu ambiente”. O projeto se estrutura no tripé holístico: o cuidado de si, do outro e do meio. A diretora da escola, professora Rosane Pereira, explica que o diferencial da Chapéu do Sol é a dimensão da educação ambiental para além da preservação ecológica, a partir da perspectiva da natureza como uma extensão do ser humano. “Não podemos falar de preservação quando os alunos apresentam situações de agressividade e maus tratos em casa. Por isso, partimos do pressuposto de que, se não há auto valorização, auto estima elevada e respeito pelo próximo, também não há cuidado com o entorno”, salienta.
A abordagem tem dado resultados dentro da própria escola, com a conservação do espaço físico limpo e sem depredações. “Eu acredito que a preservação da nossa escola está relacionada à noção de responsabilidade que o aluno adquire pelo bem público, com o uso cuidadoso e não exploratório daquilo que é de domínio coletivo”, expõe a diretora.Apesar dos bons resultados, nem todas as 93 escolas da rede municipal de ensino aderiram à educação ambiental.
Para o professor de Ciências da Escola Chapéu do Sol, Vinícius Machado, o “carro-chefe” deste trabalho foi o curso de Extensão sobre o Atlas Ambiental de Porto Alegre, promovido pela Secretaria Municipal de Educação (SMED) e o Instituto de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Mesmo assim vejo que não conseguimos explorar nem 30% da potencialidade do Atlas para o uso na escola”, comenta.Pelo curso, que teve apenas quatro edições, passaram mais de 200 professores da rede municipal.
Questões como os impactos ambientais da especulação imobiliária, a ocupação urbana na capital e a preservação dos morros são debatidas, mas fundamentalmente, a cidade é apresentada como uma região rural e urbana, com micro climas diferentes, espécies próprias, caminhos rurais e população indígena particular.Segundo a assessora de Educação Ambiental da SMED, Teresinha Sá Oliveira, que fez o elo entre a Prefeitura e a Universidade no projeto, a formação através do Atlas, que em 2006 teve lançada sua 3ª edição, já está esgotada.
O novo plano agora é a criação de um curso de pós-graduação em Educação Ambiental. “Para isso estamos conversando com o Instituto de Geologia da UFRGS, mas ainda não temos nenhuma previsão de quando abriremos turmas”, diz.
A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMAM) também desenvolve trabalhos de educação ambiental. Entre eles o Projeto Extremo-Sul, que integra escolas da rede municipal e estadual do extremo sul da capital, com cursos de capacitação de monitores ambientais para alunos e professores.
Ainda assim, segundo a funcionária do Centro de Educação e Informação Ambiental da SMAM, Jaqueline Lessa Maciel, a disseminação de uma cultura ecológica não atinge a todos os educadores, porque faltam recursos públicos para promover cursos de formação. “Apesar do apoio do governo, esbarramos na falta de verbas do município. Para pagar os lanches dos professores durante um curso, por exemplo, muitas vezes é a nossa equipe que se mobiliza e tira do próprio bolso o dinheiro necessário”, conta.Empolgada com a formação adquirida no curso sobre o Atlas Ambiental, a professora de Geografia, Cleonice Silva, da 1ª turma, elaborou planos para serem aplicados na Escola onde leciona.
“No início eu batalhei muito sozinha para provar que o projeto traria resultados positivos. Tive de convencer a direção da escola e meus colegas para que apoiassem a idéia e a tornassem interdisciplinar. Somente depois de ter ganhado muito prêmios, até no exterior, obtive reconhecimento. Hoje eu tenho 20 horas semanais para trabalhar com os alunos do turno inverso ao que eu leciono”, explica.
Em 2000 a professora formou o Grupo de Educação Ambiental Amigos do Verde. Ali os alunos recebem formação para serem agentes multiplicadores tanto na escola quanto na família e na comunidade. A aluna do Ensino Fundamental e presidente do Grupo, Natália da Silva Raythz, de 14 anos, explica que com as trilhas ecológicas e saídas de campo os alunos enxergam os problemas locais e podem intervir. “O Grupo descobriu em 2001 um lixão a céu aberto numa das nascentes do Arroio Moinho no Morro Pelado. Anotando as placas dos caminhões que depositavam lixo para poder identificar os criminosos. Depois, organizamos um mutirão de limpeza no local e extraímos dali 10 caminhões de lixo”, conta.
Depois que o espaço foi todo aterrado, famílias começaram a
estabelecer casas no local. Preocupada com o problema, a estudante e integrante do Grupo, Ana Miriã Goulart, de 13 anos, avisou aquela comunidade dos perigos de construir moradias num local que corre o risco de explosão, devido ao gás metano que se encontra embaixo da terra. “Eu conversei com algumas pessoas, mas eles disseram que não vai explodir, que eu era louca. Então, quando eu passo por ali tem um homem que grita: Olha a bomba! Aí vem a bomba!”, relata Ana.Entre outras ações, os jovens implantaram a separação do lixo na escola, com reuniões de esclarecimentos aos funcionários e à comunidade quanto à importância da reciclagem. Construíram também uma horta comunitária; confeccionaram uma mapoteca do bairro; construíram maquetes de cidades ambientalmente corretas e replicas de prédios históricos na disciplina de Artes e coletaram rochas, fotos, gravuras antigas da cidade, documentários e textos de jornais e revistas para formar o Laboratório de Inteligência do Ambiente Urbano (Liau) numa das salas de aula.
“Nosso objetivo é tornar a escola um centro de saber local que faz a diferença na comunidade. Já que aqui não temos espaços verdes como outras escolas, construímos o Laboratório para que seja um espaço de estudos e exposição permanente, porque queremos construir, acima de tudo, um conhecimento que seja perene”, observa Cleonice.
Além disso, os alunos realizam oficinas de sabonetes, fotografia, papel reciclado e confecção de lixeiras. Com a produção e a venda destes produtos, eles financiam suas saídas de campo a cidades próximas, como Gramado e Canela, visitas a reservas ambientais e ao centro histórico da cidade. “Fazemos todo esse trabalho sem verba nenhuma. Eu busco materiais por conta própria para atualizar os alunos. Os painéis expostos no Liau foram doados pela UFRGS, mas todos eles estão escritos em inglês. Estamos lutando por materiais em português agora”, revela a professora.Também são promovidos intercâmbios sobre questões ambientais com outras escolas.
A professora Cleonice recebeu em 2000 um convite para apresentar seu projeto na Feira de Hannover, na Alemanha. “Para ir até Hannover eu contei com o apoio financeiro de um colégio particular em que eu também lecionava na época, senão teria sido impossível”. Agora intercâmbistas da Alemanha e da Itália também vão até a Escola para escutar dos próprios alunos explicações sobre a fauna e flora de Porto Alegre dentro do Liau.
Artista ou mago?
Naira Hofmeister
Tudo indicava que a chuvarada de domingo em Porto Alegre ia continuar noite adentro. Mas, como num passe de mágica, pouco antes do início da intervenção anunciada por Antoni Muntadas, às 19h, no Torreão da Santa Teresinha, as nuvens se dissiparam e o que ainda restava de raios de sol pôde entrar pelas “Janelas Abertas”, a criação conceitual do artista.
Quem foi ao local esperando ver a “performance” anunciada por um jornal da capital ou a mais nova criação de um vanguardista da arte contemporânea saiu decepcionado. Na sala do Torreão, nada além das 12 janelas, arqueadas e finas, escancaradas: a vista e os sons da rua, o vento soprando.
“Olhar pela janela, eu posso da minha casa”, esbravejou um espectador. E possivelmente essa era a proposta de Antoni Muntadas, que, pelo menos na última década, têm desenvolvido projetos a partir da frase “Atenção, percepção requer envolvimento”.
“Esse gesto de abrir as janelas é muito simples, mas compreende uma metáfora de sentir coisas que não estamos esperando. A mudança da luz, da temperatura, do cheiro, do espaço alteram a percepção”, esclareceu.
Simples ou não, a intervenção de Muntadas foi fruto de um longo processo de gestação. “A primeira vez que estive aqui foi em 2002 e saí já com essa idéia”, recordou. Muntadas só colocaria em prática a proposta se fosse mantida em segredo absoluto pelos curadores do Torreão.
“Foi um desafio e me lembrou muito uma obra de Marcel Duchamp, chamada Barulho Secreto”, comparou Elida Tessler, que organiza e escolhe as exposições que serão sediadas pelo espaço. Duchamp morreu em 1968, sem saber qual objeto seu marchand havia escondido dentro do cubo negro que ele chamou de Barulho Secreto.
Muntadas estava mais interessado em ouvir o que as pessoas tinham para falar do que, ele mesmo, explicar seu objetivo. “Seria um gesto contraditório porque a idéia é exatamente provocar uma reação, não induzi-la”.
Ainda assim, o artista fez questão de sublinhar que nesse caso especifico, atitude do espectador frente à obra de arte deve ser de uma certa passividade. “A pessoa não deve esperar que aconteça alguma coisa, possivelmente não vai acontecer. Ou vai… basta que dedique um tempo a ficar aqui, observando o que é natural mas, às vezes, imperceptível”.
Apesar das poucas dissidências, o público soube interpretar – e aproveitar – a proposta de Muntadas. “A obra de arte não tem que ser necessariamente material. Gostei muito da surpresa de não a encontrar aqui. Em compensação, há esse brilho especial da luz depois da chuva”, observou a também artista plástica Maria Luiza Sarmento.
O artista leva tão a sério a necessidade da observação do mundo exterior que recentemente, durante uma viagem que fez até Paris, recebeu um telefonema de um vizinho. “Deixei as janelas da casa de Veneza abertas durante esses dias que estive fora e, com as chuvas, diversos cômodos foram inundados”, ilustrou.
O renascimento da arte

Helen Lopes
Depois de quase dois anos de restauração, os três quadros históricos que ornamentam o saguão do Instituto de Educação estão prestes a ser reinaugurados. As telas serão entregues no início do ano letivo.
A recuperação das pinturas gigantes – entre as cinco maiores do Brasil – está nos retoques, mas ainda faltam recursos para as molduras e para instalar iluminação adequada. Os quadros estão na escadaria do Instituto de Educação desde 1935 e, desde os anos oitenta, freqüentes tentativas de conserto foram feitas.
No dia 19 de novembro, representantes dos governos estadual e federal poderão ver em primeira mão o resultado do trabalho, que custou desde março de 2006 cerca de R$ 400 mil, financiados através das leis de incentivo à cultura.
“Precisamos da verba para concluir a recuperação e proteger as obras”, explica a presidente da Associação de Ex-alunos do colégio, Amélia Bulhões, que pretende transformar o local em uma pinacoteca e projeta para março de 2008 a inauguração oficial do espaço. Apesar de ainda não estarem totalmente prontos, os quadros já podem ser visitados pelo público, às quintas-feiras, mediante agendamento.
Debruçados sobre as telas

Seis pessoas, coordenadas pela artista plástica Leila Sudbrack, trabalharam na restauração dos quadros pintados entre 1919 e 1923 por ordem do então governador do Estado Antônio Borges de Medeiros.
A primeira pintura a sofrer intervenção dos restauradores, em março de 2006, foi A Tomada da Ponte da Azenha, de Augusto Luiz de Freitas. Apesar do péssimo estado de conservação em que se encontrava, o material de qualidade utilizado pelo gaúcho em 1922 facilitou o trabalho da equipe de Sudbrack e evitou uma intervenção radical, que alteraria suas características originais. “Graças aos conhecimentos técnicos do artista a tela sobreviveu com exemplar dignidade aos maus tratos sofridos na sua primeira fase no Brasil”, elogia o relatório.
A tela mais deteriorada era Garibaldi e a Esquadra Farroupilha, de Lucílio de Albuquerque, pois estava na parede que mais sofreu com infiltrações. A pintura do piauiense é também a mais antiga das três e data de 1919. A maior das três, A Chegada dos Casais Açorianos – que tem quase sete metros de largura – está recebendo os últimos retoques e deve estar plenamente concluída no final de novembro.
Para proteger as obras, todas as molduras ganharam um suporte metálico para que não fiquem grudadas na parede, que por ser extremamente úmida, foi uma das principais causas da deterioração ao longo dos últimos setenta anos.
*Esta reportagem é um dos destaques da edição 376 do JÁ Bom Fim/Moinhos, que já está circulando nos pontos de comércio da região central de Porto Alegre.
O renascimento da arte
O Furacão de Arequito
Cleber Dioni
O furacão de Arequito ou, simplesmente, La Sole. Assim foi batizada pelos fãs a cantora argentina que vem arrastando multidões com seu ritmo folclórico sul-americano. Ela fez sua estréia no Brasil na última quarta-feira, 14 de novembro, na abertura do 22º Musicanto de Nativismo, em Santa Rosa.
O festival acontece até o próximo sábado, dia 17 de novembro, no parque de exposições do município. A coordenação do evento espera a chegada, para logo mais, de dezenas de excursões de diferentes cidades e estados, além do Uruguai e da Argentina.
Considerada uma das mais expressivas representações da nova geração da música argentina, Soledad Pastorutti nasceu em 12 de outubro de 1980 na cidade de Arequito, ao Sul da Província de Santa Fé, distante 360 quilômetros de Buenos Aires. Foi nesse povoado, com cerca de sete mil habitantes, que La Sole ganhou o apelido de furacão por contagiar o público com sua energia e o reboleio do poncho, que se tornou marca registrada da artista.
Cantora desde muito pequena, herdou dos pais o amor pela música. Aos 6 anos, começou a estudar piano, aos 8 anos estudou violão e aí começou a cantar entre familiares e colegas da escola. Seu repertório envolvia artistas como Teresa Parodi, Mercedes Sosa, Los Cantores del Alba, Los Chalchaleros e Horacio Guarany, a quem considera seu padrinho artístico.
Fez seu primeiro show como profissional aos 15, no tradicional Festival da Canção em Cosquín. Aí veio o primeiro contrato de trabalho, em 1996, com a gravadora Sony BMG, com quem está até hoje. Seu primeiro álbum foi Poncho ao Vento, gravado em 1997 num estúdio humilde, acompanhada de dois violões e um bombo legüero. Vendeu mais de um milhão de cópias, um dos discos mais vendidos em todo o país para espanto da crítica e um fenômeno comercial para a música folclórica.
A partir do quarto álbum, gravado em Miami, a carreira da artista ganhou ares internacionais. Produzido pelo cubano Emilio Estéfan, seu trabalho ganhou outros ritmos. Fez shows no Chile, Uruguai, Paraguai, Bolivia, Estados Unidos e alguns países europeus. Além do grupo que sempre a acompanha, tem na irmã Natalia uma companheira em quase todas as apresentações.
Seu último trabalho foi o álbum duploDiez Años de Soledad que reuniu as que já estouraram nas rádios, como Tren del Cielo e Adonde Vayas a alguns composições novas, como Pa´todo el año, um clássico da música mexicana.
Apesar de contar mais de uma década de carreira e já ter rodado pelo mundo, La Sole ainda é desconhecida do grande público brasileiro. Através de sua assessoria ela explicou que sempre quis se apresentar no Brasil, mas via algumas barreiras como o idioma e a quantidade de artistas famosos no país, o que segundo ela a deixaria em segundo plano.
Musicanto dará R$ 25 mil em prêmios
O 22º Musicanto terá 24 músicas concorrentes, sendo apresentadas 12 em cada noite de eliminatória. Foram inscritas quase 600 músicas, dos mais diversos rincões brasileiros e latino-americanos – Peru, Uruguai, Argentina, Belém do Pará, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre e interior gaúcho entre eles.
O público ouvirá milongas, chacareras, chamamés, canções, emboladas, zambas, gato, candombles, entre outros ritmos. O coordenador do festival, Cláudio Joner, confirmou a presença.
Serão distribuídos mais de R$ 25 mil em prêmios, sendo R$ 12 mil para o vencedor, R$ 6 mil para o segundo e R$ 3 mil para o terceiro colocado.
O Musicanto foi orçado em R$ 410 mil, tendo parte do valor aprovado nas leis de incentivo à cultura, estadual e federal, e o patrocínio da Eletrobrás, que garantiu R$ 80 mil, e de empresas locais.
Confira a programação:
Abertura – às 21h
– Sesi Show
– Concorrentes do Musicanto Universitário
– Soledad in concertDia 15- Show da Família Guedes
– Concorrentes do 22º MusicantoDia 16
– Show com Luiz Marenco – Concorrentes do 22º Musicanto
Dia 17- Tributo a Gonzaguinha (Vitor Hugo, Geraldo Flach e do Ó)
– Final do 22º Musicanto Valores:
Mesa primeiro setor (4 cadeiras): R$ 240,00
Mesa segundo setor (4 cadeiras): R$ 200,00
Arquibancada: R$ 5,00 (exceto na quarta, 14, para o show de Soledad, que custará R$ 20,00). Maiores informações pelo fone 3512 4861. Valores:
Mesa primeiro setor (4 cadeiras): R$ 240,00
Mesa segundo setor (4 cadeiras): R$ 200,00
Arquibancada: R$ 5,00 (exceto na quarta, 14, para o show de Soledad, que custará R$ 20,00). Maiores informações pelo fone 3512 4861.Cerros dos Porongos deve ser tombado
Guilherme Kolling
Cerro dos Porongos, no município de Pinheiro Machado, pode ser mais um local da Revolução Farroupilha tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O processo está em andamento há quatro anos, desde que o movimento negro passou a se mobilizar pelo resgate do massacre de Porongos, que aconteceu no local.
Foi uma batalha no final da Guerra dos Farrapos, em 14 de novembro de 1844 – completa 163 anos nesta quarta-feira –, que resultou na morte de um grande contingente de soldados negros, entre eles o famoso corpo de lanceiros negros.
Com isso, o local deve ser o primeiro relacionado aos negros que será reconhecido como patrimônio histórico. A Prefeitura de Pinheiro Machado comprou 3 hectares da região, onde deve ser feito o Memorial dos Lanceiros Negros. O projeto já foi escolhido através de concurso nacional de arquitetura, promovido pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil.
Outros cinco locais relacionados à Guerra dos Farrapos estão entre os bens tombados pelo IPHAN, todos relacionados a personagens brancos. São imóveis de personagens importantes ou prédios que foram usados como base de líderes dos exércitos.
Piratini abriga três desses locais: o Palácio do Governo Farroupilha (construído em 1826 e tombado em 1941), o Quartel General Farroupilha (construído no início do século XIX e tombado em 1952), e a casa do general Giuseppe Garibaldi (tombada em 1941).
Em Triunfo, está a morada onde Bento Gonçalves nasceu – hoje ela abriga o Museu Municipal Bento Gonçalves (construída em 1754 e tombada em 1940). Santana do Livramento tem a casa de passagem do comandante David Canabarro (construída em meados do século XIX e tombada em 1953).
A casa de Canabarro será sede do Museu do Pampa, que vai contar a biografia do ícone farroupilha e um pouco das práticas e lidas campeiras. O local foi tombado em 1953, graças à mobilização iniciada pelo historiador da cidade Ivo Caggiani.
Legenda: Área foi palco de batalha que dizimou solados negros do exército farrapo
Crédito: Acervo IPHANTraição ou surpresa?
Em 1844, imperiais e farroupilhas lidavam para pôr fim à Guerra dos Farrapos que se arrastava por quase 10 anos. Os negros que lutaram ao lado das tropas revolucionárias eram um empecilho ao acordo, pois ficariam livres tão logo acabasse o confronto. Como conciliar uma província com negros libertos e um país escravocrata? A solução foi pragmática.
Na madrugada de 14 de novembro de 1844, o exército farroupilha acampado no Cerro dos Porongos sofreu um ataque de surpresa das tropas sob comando do coronel Francisco Pedro de Abreu, o Chico Moringue, que foi direto ao ponto onde se concentravam os lanceiros negros. Sem munição, recolhida na véspera sob pretexto de uma possível revolta, eles foram massacrados. Soldados brancos e índios, acampados ao lado, tiveram tempo de fugir e se salvaram.
Esta versão da penúltima batalha da Guerra dos Farrapos vem ganhando força nos últimos anos. Seus defensores dizem que o episódio até agora conhecido como “Surpresa de Porongos” merece ser chamado de “Traição de Porongos”. Além de martirizar os soldados negros mortos na revolução farroupilha, é uma revisão que fere a biografia de dois heróis: o general David Canabarro e o Duque de Caxias, comandantes dos dois exércitos e responsáveis pelas negociações de paz.



Guto (foto) é o presidente da Áfricanamente, ONG com cinco anos de atuação na periferia da cidade, que desde dezembro de 2006, ocupa o número 68 da Protásio Alves. “Foi uma comoção quando achamos esse espaço, tem tudo a ver com o trabalho de resgate da identidade negra”. Na sede da Áfricanamente, as noites são embaladas pelo som do berimbau e do atabaque. 
