Em cartaz nos cinemas da capital, Ratatoulle, Shrek e Harry Potter são “mania” entre as crianças e pré-adolescentes. Os filmes se caracterizam por histórias de seres (no caso rato, ogro e bruxo) que conseguem ser aceitos apesar das diferenças.
Ratatoulle conta a história de um rato que sonha em ser um grande chefe e é desmotivado por seu pai, que considera impossível a aceitação do filho em tal posição entre os humanos.
Shrek aborda o isolamento de um ogro por não se sentir aceito na sociedade em que vive, um império onde o rei exige que todos sejam belos e semelhantes a si para poder conviver e serem felizes.
Por sua vez, a série de romances fantásticos Harry Potter, conta a saga de um menino que vive na casa de seus tios e é sempre maltratado e excluído da família. Ao ser admitido na escola de magia e bruxaria, Harry Potter consegue criar seu ciclo de amizades, em que é admirado e aceito, como nunca seria em sua família.
O que chama a atenção é o fato de tais películas terem sido desenvolvidas em uma sociedade caracterizada por uma cultura consumista como a nossa, que transforma diferenças em barreiras dificilmente superadas.
Os enredos destes filmes levam a algumas indagações sobre a realidade em que vivemos. Por que, justamente, neste cenário, são imaginados estes desfechos? Por que, tais filmes chamam tanto a atenção?
Segundo o padrão social vigente, buscar-se-ia omitir a possibilidade de haver sucesso em meio às diferenças. O imaginário infantil deveria descrer em tal saída ou desistir da busca incessante pelo enquadramento nos padrões determinados para o tão sonhado “final feliz”.
Refletindo sobre o tema das diferenças, pode-se pensar que a criação destes filmes rompe com a cultura estabelecida e, como arte, cria uma saída criativa para aqueles os assistem.
Tal ruptura cai nas graças dos públicos infantil, juvenil e de seus pais, por enxergar nos filmes uma saída, quem sabe, para “sobreviver” em meio a uma sociedade de iguais, onde todos têm que ser esbeltos, ter famílias “perfeitas” ou casas lindas.
Já que a nossa realidade não se assemelha em quase nada a tal “perfeição”, a possibilidade de ser feliz e de se aceitar com as suas diferenças é uma grande dádiva. Qual pai não gostaria que seu filho conseguisse tal proeza?
Refletindo sobre o trabalho psicoterápico, estabeleço uma relação bem próxima dos filmes ao meu trabalho no consultório. Assim como ocorre nas histórias fictícias, em que as personagens conseguem modificar seus caminhos através das relações criadas, o mesmo se dá com os pacientes.
Com a relação psicoterapêutica busca-se oportunizar a reparação das falhas, encontrando maior satisfação na própria realidade, refletindo mais e sendo autor de suas escolhas.
Desta forma, enxergo com esperança os espaços que primam pela individualidade do ser humano. Os filmes em cartaz são uma esperança, pois plantam nos adultos de amanhã a possibilidade de admirar o ser humano que apresenta-se singular, exercendo em suas vidas o tão aclamado livre arbítrio.
Autor: Elmar Bones
O sucesso das diferenças estampado no cinema infantil
Que cidade é essa?
Marcelo Danéris, vereador de Porto Alegre pelo PT
Para uma cidade que já foi considerada a capital com melhor qualidade de vida do país, segundo a ONU, ver o governo Fogaça comemorar o terceiro lugar em premiação realizada por uma entidade local não pode ser exemplo de mudança para melhor. Ao mesmo tempo temas relevantes e graves para a população estão sem solução por parte da atual administração.
A crise da saúde, com as precárias condições do HPS, contas rejeitadas pelo Conselho Municipal da Saúde, postos fechados, sem medicamentos e médicos, e o Hospital da Restinga, promessa que não saiu do papel. A crise do lixo, com a falta de recolhimento e limpeza, além de suspeitas nas licitações do DMLU.
A crise com os funcionários, com uma greve de mais de vinte dias, e a crise envolvendo a revisão do Plano Diretor, sob investigação do Ministério Público. Outro exemplo é a inoperância da prefeitura para exigir do Estado uma solução para as obras da Avenida Baltazar de Oliveira Garcia.
Mesmo assim o governo Fogaça destaca a construção de 3,4 mil moradias, sendo que a maioria está no papel (Vilas Dique e Chocolatão), 700 são “casas de passagem” e mais de 1200 são programas do Governo Federal. Destaca também as 21 novas creches, cinco ao ano, quando antes eram conveniadas dez creches por ano. Essa ausência do poder público se reflete também no superávit artificial alcançado com um brutal corte dos investimentos, serviços e custeio, tão festejado pelo prefeito.
Os investimentos previstos para 2006 eram de 215 milhões de reais, mas foram aplicados menos da metade deste valor. Das 335 demandas definidas pelo OP em 2005/2006 apenas 29 tinham sido realizadas até maio de 2007. Depois de dois anos de abandono o Auditório Araújo Vianna foi entregue para a iniciativa privada por dez anos, em um processo de privatização branca.
Recentemente foi denunciado o descaso com os programas Fome Zero e Cozinhas Comunitárias, que em 2006 receberam pouco mais de 20 mil reais, contra 6,7 milhões gastos em publicidade. Isto revela um governo sem cuidado com a cidade, mais, a idéia “modernizadora” de administrar Porto Alegre como uma empresa tem se mostrado prejudicial para a população, sobretudo para quem mais precisa.Técnicos da Fepam aprovam tecnologia da Veracel

Debora Cruz, especial para o JÁ
Seis técnicos da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) que analisam o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da quadruplicação da capacidade produtiva da Aracruz Celulose no município de Guaíba (RS) estiveram em Eunápolis, no Sul da Bahia, na semana passada, para conhecer a Veracel – uma associação entre a empresa brasileira e a sueco-finlandesa Stora Enso. A planta, que entrou em operação em 2005, é uma das maiores do mundo e afirma incorporar sistemas de controle de processos e de proteção ambiental de última geração.
A viagem foi proposta pela Aracruz. O objetivo era mostrar aos técnicos a tecnologia utilizada lá, muito semelhante a que a deve ser implantada na fábrica gaúcha. “A planta da Veracel foi muito bem planejada, o projeto tem uma performance ambiental excelente e é o retrato da tecnologia que está sendo ofertada aqui”, explica o gerente de qualidade e meio ambiente da Aracruz, Clóvis Zimmer, que acompanhou o grupo.
Eles foram na segunda-feira e voltaram ao Rio Grande do Sul na quinta “satisfeitos com o que viram”, segundo a diretora-presidente da fundação, Ana Pellini. Até o final de agosto deve ser concluída a análise do EIA, de acordo com ela. Desta forma, uma audiência pública para apresentar o projeto à população da cidade afetada ocorreria em 15 de outubro.
Veracel
Conforme o coordenador do grupo que examina o EIA, engenheiro Renato Chagas, a equipe da Fepam que visitou a Veracel fez o reconhecimento do local e uma avaliação de como opera uma planta de produção de celulose com nível tecnológico avançado, observando com maior atenção aspectos como a captação de água, o lançamento de efluentes e as emissões atmosféricas.
Para ele, o resultado foi positivo: “O que a gente verificou é que é uma planta realmente de ponta, em todos os sentidos, na parte de processo, de produção, de meio ambiente, de segurança. Avaliamos todos os dados de emissões liberadas, comparando-os com as melhores tecnologias existentes em termos mundiais. Em todos os fatores, ela emite abaixo do exigido pela legislação”.
Após a viagem, a Fepam concluiu que, a partir da tecnologia empregada lá, a empresa tem condições de implantar e operar uma nova linha em Guaíba, sem grandes prejuízos ao meio ambiente. Segundo Chagas, a experiência também serviu para que os técnicos saibam o que precisa ser exigido em relação à planta antiga da Aracruz, que continuará funcionando, mas passará por um processo de modernização.
EIA/Rima
Nas próximas semanas, a equipe que analisa o EIA/Rima pretende concluir uma primeira avaliação sobre o estudo para, em seguida, solicitar aos empreendedores os esclarecimentos necessários a respeito do projeto. Só então o documento será disponibilizado para consulta da sociedade. “Isso vai acontecer quando a equipe técnica julgar que ele [o EIA] está com consistência suficiente”, explica o técnico da Fepam.
A justificativa para a demora se deve à preferência da fundação por tornar público não só o relatório (Rima) – procedimento exigido pela legislação através da Resolução Conama nº 001/86 – mas também os volumes que compõem o EIA. A instituição prefere que isso aconteça após uma primeira análise realizada pelo corpo técnico. Chagas esclarece que a Fepam divulgará a informação acerca do acesso ao documento em jornais de grande circulação e no Diário Oficial do Estado.
Plano de comunicação
Enquanto o órgão ambiental examina o estudo de impacto ambiental do empreendimento, feito pela EcoÁguas, de Guaíba, a Aracruz coloca em prática um plano de comunicação para que a comunidade local não seja pega de surpresa com a notícia da ampliação. De acordo com Clóvis Zimmer, o trabalho está sendo realizado por uma empresa consultora em comunicação e tem como meta dar maior transparência ao processo.
Fóruns internos, envolvendo funcionários e prestadores de serviços, já alteram a rotina da fábrica. Em eventos de cerca de duas horas de duração, são apresentados os detalhes da expansão e do EIA, com possibilidade de perguntas ao final. Até agora já aconteceram cinco reuniões. Com a comunidade do município são esperados oito encontros, por bairros, a partir de 20 de agosto. Em Porto Alegre ocorrem duas reuniões na Zona Sul. Haverá exposição do projeto também para públicos específicos, como o Comitê do Lago Guaíba, o Executivo municipal, entidades assistencialistas, instituições de ensino, entre outros.
Todas as reuniões organizadas pela consultoria de comunicação contratada devem ocorrer até a segunda semana de outubro. O registro das dúvidas surgidas nos encontros estão sendo repassados à Fepam. Conforme Zimmer, foi constituído ainda um conselho comunitário consultivo, com representantes da empresa e de associações de bairros de Guaíba, para acompanhar o desenrolar da ampliação. A idéia é que o grupo atue de forma permanente, a fim de mediar os interessas da Aracruz e da comunidade.
O empreendimento
A Aracruz Celulose é líder mundial em produção de celulose branqueada de eucalipto e prepara a quadruplicação da capacidade produtiva da planta de Guaíba. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (Rima) do empreendimento foram entregues em 21 de junho à Fepam. A idéia é passar a produzir 1,8 milhão de toneladas do insumo por ano, quatro vezes mais que as 450 mil atuais. O investimento será de US$ 1,2 bilhão, com previsão de gerar cem empregos diretos.
Cooperativa de recicladores como alternativa para ex-presidiários
Adriana Agüero, especial para o JÁ
Imagine uma Cooperativa que pudesse dar condições de trabalho e geração de renda ao ex-presidiário. Modelo assim ainda não existe, mas em Porto Alegre 700 pessoas, oriundas de comunidades carentes, trabalham na separação do lixo em parceria com o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU). Elas estão distribuídas em 14 unidades ou associações de separação de resíduos sólidos urbanos. Em uma delas, na Associação dos Recicladores do Loteamento Cavalhada, onde trabalham 42 pessoas, a renda média gira em torno de R$ 400,00 mensal para cada trabalhador. Cada associação recebe um subsídio de R$ 2.500,00 do município para pagar as contas de energia e água, os equipamentos de proteção individual, além de fazer a manutenção ou compra do maquinário e garantir a conservação dos galpões.
Pensando nisto, o coordenador da Pastoral Carcerária na Região Sul, Giuseppe Marramarco, que há 20 anos luta por condições mais dignas aos apenados, idealizou a construção de uma Cooperativa de Recicladores de Resíduos Sólidos Urbanos para Egressos do Sistema Peniteniário. A proposta, entre outras coisas, visa driblar as tristes estatísticas do sistema prisional no estado. No Rio Grande do Sul são atualmente 24.839 presos para 16.168 vagas, de acordo com a Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe). A taxa de reincidência dos presídios gaúchos é de 73%, e é considerada a menor do País. O número de foragidos da Justiça chega a 6.000. A situação mais crítica de superlotação é a do Presídio Central de Porto Alegre, que tem em torno de 4 mil presos, enquanto a capacidade é de 1.542 vagas.
Mesmo num cenário tão desanimador, Marramarco acredita que esta situação pode mudar. A Cooperativa seria uma oportunidade de reintegração do ex-detento na sociedade, que ajudasse a diminuir a taxa de reincidência, aproveitando o resíduo sólido gerado no município. “Somente 30% do lixo da capital é reciclado; o 70% restante é desperdiçado. Quanta riqueza é jogada fora! É dever do Governo dar condições de ressocialização e reinserção no mercado de trabalho, mas ele não cumpre essa tarefa. Então, por que não criar cooperativas com a mão-de-obra de tantos egressos?”, questiona Giuseppe.
No Brasil, dos 361 mil presos, apenas 18% participam de alguma atividade educativa durante o cumprimento da pena, apesar de a Lei de Execução Penal garantir o direito à educação. Do total da população carcerária, 10% são analfabetos e 70% não terminaram o ensino básico, segundo informações do Ministério da Justiça. Para Giuseppe, a alfabetização dada nos presídios é tão precária, que o percentual de presos que assistem às aulas formam um percentual quase insignificante. “O Estado considera o preso alfabetizado quando ele consegue ler e escrever o próprio nome, mas esse mesmo preso não é capaz de ler e interpretar o texto do seu próprio processo penal”, critica.
Fundação do egresso
Numa de suas visitas de rotina, realizada semanalmente nos presídios do Estado, ele perguntou a um grupo de presos o que eles fariam quando saíssem em liberdade. Muitos responderam que teriam que roubar para comer, porque não sabiam fazer outra coisa. Este diálogo o levou a pensar em meios para a reinserção do ex-detento na sociedade, dando origem a Fundação de Apoio ao Egresso do Sistema Penitenciário (Faesp), localizada na Avenida Bento Gonçalves.
Em 1997, ano da Campanha da Fraternidade, Jesus Cristo Encarcerado, Giuseppe foi convidado para dar uma palestra sobre o trabalho da Pastoral Carcerária no Tribunal de Justiça de Porto Alegre. Durante a explicação, ele perguntou a esposa de um desembargador quantos dias ela já havia ficado sem comer. Um dos ouvintes questionou, então, o que ele queria sugerir com isso. Ele explicou que não basta libertar o preso e não oferecer-lhe assistência. “Porque quando esse liberto volta para casa e não encontra trabalho, e ainda vê sua família passando fome, ele volta a roubar, porque a fome é urgente”.
A partir desse dia, os juízes que o escutavam construíram a Faesp, que atua no plantão de pronto-atendimento ao ex-presidiário e o encaminha para as áreas de educação, trabalho e administração, através de parcerias e doações. A iniciativa já atendeu até hoje mais de mil egressos, e a taxa de reincidência é quase nula. “Ainda assim, só a Faesp é muito pouco; ela vem cumprindo com muita dificuldade seu papel. Nesses 20 anos, o número de apenados quadruplicou, aumentando a superlotação. Apesar da construção de novos complexos carcerários, eles, infelizmente, não recuperam ninguém. Muito pelo contrário, ali se aprimoram os pequenos e grandes crimes”, comenta Giuseppe Marramarco desolado.
Devido a sérios problemas de saúde, Marramarco realiza hoje um trabalho do tipo formiguinha, em passos lentos. Apresentou a proposta para o Tribunal de Justiça, mas não obteve retorno e quer começar a recolher assinaturas de detentos que estão cumprindo os últimos anos de pena e têm interesse em trabalhar na Cooperativa. “Esse projeto é para aquele preso excluído do excluído, analfabeto, sem formação qualquer, que não aprendeu ofício nenhum nem na sociedade nem na prisão”, explica.
Proposta utópicaDe acordo com o DMLU, órgão responsável pela gestão dos resíduos sólidos de Porto Alegre, o lixo da cidade já tem um destino: as 13 Unidades de Separação do Lixo da Coleta Seletiva e a Unidade de Triagem e Compostagem na Lomba do Pinheiro, que recebe o lixo domiciliar, isto é, aquele lixo que não foi separado pela população. “Das mais de mil toneladas de lixo recolhidos diariamente pelo DMLU, somente 30% é potencialmente reciclável. Isso porque as pessoas não se preocupam em fazer a separação nos seus domicílios. Todos os dias, apenas 60 toneladas são levadas para a coleta seletiva, enquanto as outras centenas de toneladas de lixo domiciliar são levadas diariamente para triagem e compostagem. Não reciclamos mais por falta de conscientização ambiental da população”, argumenta o diretor da Divisão de Projetos Sociais, Reaproveitamento e Reciclagem do DMLU, Jairo Armando dos Santos.
O DMLU realiza o serviço de limpeza, coleta, tratamento e disposição final dos resíduos, além da promoção de atividades de preservação e educação ambiental. Neste trabalho, 100% dos bairros da cidade são atingidos e 90% das ruas são percorridas pelos caminhões da coleta. O número não é maior porque existem regiões com vielas muito estreitas, que dificultam o acesso do caminhão.
Um dos entraves para a aplicação concreta deste projeto é a questão legal, já que o município não permite a coleta de material reciclável em vias urbanas. Neste caso, a expansão da capacidade da Cooperativa estaria ameaçada, porque, desde meados de 1990, as empresas são obrigadas a entregar todo o lixo que geram ao DMLU, para receber a licença de operação da Prefeitura.
Segundo Jairo, a idéia de cooperativa proposta pelo Marramarco é utópica. “Sou favorável às cooperativas, às associações, desde que a coleta seja feita pelo poder público. Quando alguém deixa seu lixo em vias públicas, este passa a pertencer imediatamente ao governo municipal e, neste caso, ao DMLU. Para nós o lixo não é problema sob hipótese alguma. Ele é nosso e ninguém tasca!”
O DMLU fiscaliza e autua os carroceiros e carrinheiros, que, muitas vezes, rasgam as sacolas de lixo jogadas nas calçadas, retirando somente aquilo que tem valor comercial imediato, como o papelão, plástico, alumínio, deixando um rastro de resíduos exposto pela cidade, quando não o levam para as Ilhas do Delta do Jacuí, formando os lixões com todo o material que eles não reaproveitam. “A Prefeitura pode terminar hoje mesmo com a atividade ilegal dos carroceiros, porque ela tem poder para fazer isso, mas não é assim que trabalhamos. Preferimos a via do diálogo, encaminhando-os para as nossas Associações. A dificuldade reside na falta de interesse, já que muitos deixariam de vender o que conseguem coletar individualmente, para estar submetidos a comercializar o lixo coletado pelo DMLU. Neste caso, autuá-los também seria desumano, pois muitos retiram dali sua única fonte de renda. Sem esse dinheiro, não teriam como comer e começariam a roubar para sobreviver”.
Monopólio do lixo
Giuseppe diz que o lixo já se tornou um monopólio do município, o único dono. “O Governo Estadual e Federal devem apontar uma solução para os ex-presos. São 92 unidades prisionais no Estado, onde cada preso custa 3 salários mínimos por mês aos cofres públicos. Melhor seria, então, colocá-los para trabalhar pagando ao menos 1 salário, o que reduziria a reincidência e ainda economizaria 2 terços do que se gasta atualmente”, argumenta.
O vereador João Carlos Nedel, do PP, é favorável a idéia da Cooperativa, mas aponta que a doação de um terreno de 10 hectares pela Prefeitura, como sugerido por Marramarco, é inviável, porque a cidade já sofre com o grave problema do déficit habitacional. “A Cooperativa é interessante, eu dou todo o meu apoio, mas ela deve ser construída próximo de Porto Alegre, para evitar desperdício de combustível com o transporte. Mas acontece que a cidade não tem mais terrenos próximos para doar”. O vereador sugeriu também a captação de recursos através de ONG´s internacionais como forma de obter ajuda para os gastos iniciais com a compra do terreno, a estrutura do local e as máquinas necessárias.
Para o diretor do DMLU, com a construção da Cooperativa, o bolo do lixo coletado diariamente teria que ser dividido em pedaços ainda menores para ser distribuído a todas as unidades, o que diminuiria significativamente a renda dos catadores organizados nessas associações, e arremata: “Assim como o projeto do Marramarco, outros tantos também passam por aqui, muitas pessoas me procuram para apresentar idéias, mas a maioria delas é inviável”, lamenta.
Giuseppe sabe das dificuldades para dar início ao projeto. “Iniciar esta tarefa não será nada fácil, muitas pessoas vão se opor, principalmente por causa do estigma que o ex-presidiário carrega. Sempre vai ter quem diga que eles não têm direito a este trabalho, porque são ladrões, assassinos. Neste caso, eu pergunto: não seria mais fácil colocar todos eles em um paredão e matá-los? Você teria coragem de fazer isso?” E conclui: “Eu já estou velho para continuar esse trabalho, mas quando alguém me pergunta por que eu ainda me ocupo com os presidiários, eu respondo uma frase de São Francisco de Assis: É tão fácil levantar um ferro para bater, mas tão difícil levantar uma mão para acariciar. Na Pastoral Carcerária nossa missão não é julgar ou condenar o erro, mas sim, conscientizar o agressor das suas faltas cometidas e incentivá-lo ao perdão”.
Moradores da Bela Vista querem manter área verde

Helen Lopes
A construção de três edifícios residenciais no número 1230 da rua Cabral e o prolongamento de 200 metros da Coronel Bordini – entre as vias Casemiro de Abreu e a Cabral – estão gerando polêmica no bairro Bela Vista.
A Associação de Moradores da Bela Vista (Amobela) quer manter a área verde de 8 mil m² que será usada para o empreendimento, considerado o pulmão do bairro que não possui nenhum parque com grande extensão. “Queremos urbanizar a área e transformá-la numa praça”, propõem Alexandre Sperotto, que reside na avenida Passo da Pátria.A discussão esquentou no dia 30 de julho, quando a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam) convocou os moradores para uma reunião onde apresentou uma nova proposta, preservando 20% das árvores. “O projeto já está aprovado pela Secretaria de Obras e Viação (Smov), o que estamos fazendo é diminuir o corte de árvores”, observa Lisiane Cortez, bióloga da Smam.
De fato a polêmica se arrasta há muitos anos e desde 2003, a Prefeitura, através da Smov, licenciou a obra. Mas no final do ano passado, quando projeto retornou à Smam para autorização dos cortes, o secretário do Meio Ambiente, Beto Moesch, pediu uma reavaliação da proposta. Conseguiu que a empresa Bolognesi, responsável pela obra, se comprometesse a deixar um cinturão verde na área a ser construída e também aumentasse a compensação ambiental – que será de 2.048 mudas.
Segundo o estudo solicitado pelo órgão ambiental à empreiteira, no local existem 473 vegetais com mais de dois metros de altura. Conforme o novo projeto, a empresa preservaria 39 árvores – 22 a mais que o projeto anterior. “É o que podemos fazer. Não há lei que proíba o corte de árvores na área urbana”, afirma o secretário.
No entanto, as mais de cem pessoas que lotaram uma sala do Hotel Blue Tree Towers, na Lucas de Oliveira, não estão satisfeitas com a proposta. O presidente da Amobela, João Paulo Fagundes, entende que a abertura da Cel. Bordini é importante para o escoamento do trânsito da região, mas alerta que a sombra dos prédios de 13 e 14 andares pode matar as árvores. “Não adianta deixar cinturão, o que tem que mudar é o Plano Diretor da cidade para impedir prédios tão altos”, defende.

Os moradores querem fazer um levantamento de fauna e flora. “É preciso um estudo isento, sem intervenção da empresa, para sabermos quais as espécies que habitam o local”, diz o advogado Decio Martins, que acompanhou a reunião a convite de Carlos Sperotto, presidente da Farsul. Sperotto, que mora num edifício atrás da área verde e perderá iluminação solar, era um dos mais exaltados. “É um absurdo o que querem fazer ali”, diz Sperotto, que reside no local há 20 anos.
Favoráveis
Também estavam lá moradores favoráveis ao projeto, como Maria Sonia Marin, que mora ao lado do terreno e sofre com o lixo jogado no local e a falta de iluminação. “Sou a favor porque o lugar serve de lixão e para o pessoal usar droga”, conta.
Consumidor desconfiado
Pesquisa realizada pela IBM entre consumidores americanos e ingleses aponta uma queda significativa da confiança nas informações que as empresas de produtos de consumo fornecem sobre conteúdo, origem e impacto no meio ambiente. Recentes contaminações e recalls, somados a problemas de propaganda enganosa, são fatores decisivos para a desconfiança.
A IBM entrevistou 1.676 consumidores nos Estados Unidos e no Reino Unido. Desses, 70% expressaram um nível geral baixo de confiança nas afirmações feitas em “produtos alimentícios de marca” sobre o seu impacto no meio ambiente e os benefícios para a saúde e para o bem-estar. Quase metade dos consumidores está mais preocupada com segurança e, aproximadamente, dois em cada cinco disseram que hoje compram marcas diferentes devido a essas preocupações.
Cerca de 60% dos entrevistados disseram ter agora maior conhecimento sobre o conteúdo dos alimentos que estão comprando do que tinham há dois anos. Apesar dessa maior conscientização, 72% querem ainda mais informações sobre a fonte, os métodos de produção e o conteúdo dos produtos alimentícios embalados que estão comprando.
Pesquisa retrata consumidor que decide
A pesquisa foi conduzida on-line para a IBM pela Harris Interactive. Participaram 1.064 pessoas dos Estados Unidos e 612 do Reino Unido, com 18 anos ou mais. Os entrevistados escolhidos foram classificados como responsáveis por decisões de compras de supermercado, com base nas responsabilidades que possuem em seu domicílio.Restabelecendo a confiança
A IBM sugere no estudo que as empresas alinhem o planejamento de “rastreabilidade de valor total” com sua visão de marca, de modo a se diferenciar dos concorrentes. Esses sistemas novos podem proteger o fornecimento de alimentos e viabilizar a confiança e a transparência necessárias para gerar confiança no consumidor e, desse modo, proteger e fortalecer as marcas de empresas individuais.
Trazendo a questão para a realidade local e respaldando-se na crescente queda da confiança do consumidor, a consultora Ana Serres, questiona: “Como restaurar esta confiança?” Para isto, ela aponta como um dos caminhos a transparência. Ela observa que se houver um interesse sincero nas necessidades do consumidor e cada um fizer o seu melhor – tanto fornecedor como cliente – pode-se chegar num coeficiente positivo. “O importante é acreditar que não há bilhete premiado. Tudo tem seu custo de produção”, observa Ana, lembrando que no Brasil as empresas têm ainda que agregar, um bom planejamento e testes baseados na realidade local e de acordo a cultura local.Construção civil vence embate no Conselho Plano Diretor
Guilherme Kolling
Os debates no Conselho do Plano Diretor seguiram a linha das audiências públicas e, mais uma vez, o segmento da construção civil saiu vencedor, aprovando ou vetando artigos da lei conforme seus interesses. Ficou claro, de novo, o recuo estratégico do setor, que aceitou baixar as alturas e aumentar os afastamentos entre os prédios.
E com mais um avanço para os moradores: a fim de incluir a proposta feita pela UFRGS, a ala liderada pelo Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil) aceitou aumentar os recuos mais do que havia sido proposto. Assim prédios com até 27 metros de altura terão afastamento mínimo de 18%; edificações entre 27m e 42m terão 20%; e os empreendimentos com 42m a 52m de altura, 25% de recuo.
O mapa que definiu os limites de altura para a área radiocêntrica, bairros entre o Centro e a Terceira Perimetral, é o mesmo (publicado no JÁ Bom Fim/Moinhos, edição 372 – julho 2007), com um máximo de 52m nas grandes avenidas, 42m, 33m e 27m nas demais áreas. Com um detalhe: através do Solo Criado, os construtores podem subir seus empreendimentos em até três andares.
A proposta sofreu contestação, não dos movimentos de bairro, que não estão participando do Conselho, mas dos técnicos da Prefeitura. Os urbanistas do Município foram derrotados em todos os temas em que houve divergência: área livre vegetada, sacadas, recuos, afastamentos, projetos especiais e alturas.
Em 8 de agosto, o secretário José Fortunati entregou o texto ao prefeito José Fogaça, que deve encaminhar o projeto de revisão do Plano Diretor até o final de agosto. Lideranças comunitárias já se mobilizam para convencer os vereadores sobre seus pontos de vista. Paralelamente, seguem atos questionando empreendimentos aprovados pelo atual Plano, casos de espigões no Petrópolis e na Bela Vista.
Os debates no Conselho do Plano Diretor seguiram a linha das audiências públicas e, mais uma vez, o segmento da construção civil saiu vencedor, aprovando ou vetando artigos da lei conforme seus interesses. Ficou claro, de novo, o recuo estratégico do setor, que aceitou baixar as alturas e aumentar os afastamentos entre os prédios.
E com mais um avanço para os moradores: a fim de incluir a proposta feita pela UFRGS, a ala liderada pelo Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil) aceitou aumentar os recuos mais do que havia sido proposto. Assim prédios com até 27 metros de altura terão afastamento mínimo de 18%; edificações entre 27m e 42m terão 20%; e os empreendimentos com 42m a 52m de altura, 25% de recuo.
O mapa que definiu os limites de altura para a área radiocêntrica, bairros entre o Centro e a Terceira Perimetral, é o mesmo (publicado no JÁ Bom Fim/Moinhos, edição 372 – julho 2007), com um máximo de 52m nas grandes avenidas, 42m, 33m e 27m nas demais áreas. Com um detalhe: através do Solo Criado, os construtores podem subir seus empreendimentos em até três andares.
A proposta sofreu contestação, não dos movimentos de bairro, que não estão participando do Conselho, mas dos técnicos da Prefeitura. Os urbanistas do Município foram derrotados em todos os temas em que houve divergência: área livre vegetada, sacadas, recuos, afastamentos, projetos especiais e alturas.
Em 8 de agosto, o secretário José Fortunati entregou o texto ao prefeito José Fogaça, que deve encaminhar o projeto de revisão do Plano Diretor até o final de agosto. Lideranças comunitárias já se mobilizam para convencer os vereadores sobre seus pontos de vista. Paralelamente, seguem atos questionando empreendimentos aprovados pelo atual Plano, casos de espigões no Petrópolis e na Bela Vista.Consumo é o grande tabu da mídia da catástrofe climática
Mariano Senna da Costa, de Berlim, especial para o JÁ
Desde que o Painel Intergovernamental da Mudança Climática (IPCC, sigla em inglês) divulgou em fevereiro seu segundo relatório confirmando a responsabilidade humana sobre o fenômeno, alternam-se na mídia versões e contra-versões a respeito das causas e efeitos do problema.
Um exemplo interessante foi o da edição de junho da revista alemã Cicero. “A mentira do clima – Um dossiê contra o Eco-pânico”, dizia o título. Entre análises parciais sobre o interesse de ONGs no assunto e um glossário com as dúvidas que ainda persistem na discussão, a revista criticou a forma sensacionalista como a grande imprensa tem abordado a questão. Logo na primeira página do texto há uma reprodução da capa de dois jornais de Berlin, o Die Tageszeitung e o Berliner Zeitung. Ambos publicados no dia 3 de fevereiro, noticiando a profecia da ONU para a catástrofe climática, mas exibindo em suas capas cenários opostos. Um trazia uma montagem do portão de Brandenburgo, símbolo turístico da capital alemã, inundado. O outro ilustrava o mesmo lugar transformado em um deserto.
Independente das diferentes interpretações, o fato é que mesmo prevendo catástrofes, a grande mídia ainda se nega a debater o ponto nevrálgico para enfrentar a mudança climática: o consumo. Seja na Europa, nos EUA, ou na América Latina, e salvo raríssimas exceções, nenhum veículo toca no assunto. E ele não é nenhuma novidade. “Como pode a economia crescer infinitamente num planeta finito? De onde virão os recursos? Temos que mudar a forma de contabilizar o uso dos nossos recursos”, defendia o ecologista José Lutzenberger jà na década de 90.
Clima de consumo
Ultimamente o alerta vem sendo reforçado por experts do aquecimento global. “Nós vamos ter problemas tanto com a quantidade de consumo quanto com o padrão das coisas que compramos”, declarou o pesquisador do INPE, Carlos Nobre, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo no dia 08 de março deste ano. Como uma das maiores autoridades brasileiras sobre a mudança climática, Nobre faz coro com outros nomes conhecidos internacionalmente. Em seu último livro “The Revenge of Gaia” (A Vingança de Gaia), James Lovelock diz que o maior desafio mundial na luta contra a mudança climática é o que ele chamou de “inércia social”. “Pense em como será difícil para nações como China, Índia e Estados Unidos mudar o comportamento de suas populações”, traz o texto publicado em fevereiro de 2006.
Uma das tentativas de abordar o tema de forma mais profunda e abrangente foi feita pelos norte-americanos Michael Maniates, Thomas Princen e Ken Conca no livro “Confronting Consumption” (Confrontando o Consumo). Publicado em 2002 o livro descreve cases, faz análises e reflexões sobre conceitos tipo “imersão social do consumo”, “soberania do consumidor” e “políticas do consumo”. “O desafio não é apenas confrontar o consumo, mas transformar as estruturas que sustentam ele”, diz a conclusão do livro.
A publicidade é uma dessas estruturas. “Realmente é uma questão ainda sem respostas. Como mudar a mentalidade das pessoas, como fazê-las refletir sobre a abundância de que dispõe, se o sistema de comunicação que as condiciona e educa diariamente depende primordialmente da publicidade, das vendas e do consumo? Eu realmente não sei”, declara Michael Maniates, professor de ciência política e ciência ambiental no Allegheny College na Pennsylvania.
Iniciativa X Inércia
Entre as iniciativas que tentam enfrentar o desafio está a revista “Adbusters”. Com sede no Canadá e 90 mil “apoiadores” em todo o mundo, ela visa combater o que chama de “poluição física e mental” das grandes corporações. Na capa de Agosto do site há um artigo sobre a iniciativa da Prefeitura de São Paulo de regular a publicidade ao ar livre. A idéia vem sendo seguida por outras capitais brasileiras, como Porto Alegre, mas em ambos os casos os argumentos para a implementação de leis que regulem a publicidade não tem a ver com a “racionalização do consumo”, mas com o que se pode chamar de “bem estar urbano”.
De maneira geral mídia e governos falam confortavelmente sobre uma solução tecnológica ou política para o controle das emissões de gases estufa. Porém, parecem não querer ver que quando o foco é o indivíduo as contradições continuam cada vez maiores. “Conheço uma mulher absolutamente convencida de que algo precisa ser feito. Mas ela nem cogita deixar de ter a água da sua piscina na temperatura de uma taça de chá bem quente durante todo o inverno, não importa o que isto custe”, exemplifica a jornalista britânica Deborah Orr em artigo no The Independent. Uma das poucas vozes a atacar sistematicamente a incoerência de políticos e grandes empresas de comunicação, ela usa a autocrítica como forma de abordar temas escamoteados do noticiário. “Em alguns momentos, a habilidade para convencer a nós mesmos de que desastres são coisas que acontecem com outras pessoas é realmente muito podedorosa”, comenta ela em outro artigo.
Sentado confortavelmente em seu jardim no subúrbio de Berlim, o médico aposentado Claus Kuhlmann, sabe que o consumo é um ponto importante no debate para “salvar o mundo”. Mas ele também sabe quão difícil é imaginar uma mudança de hábitos. “Dói só de pensar em reduzir aquilo que normalmente compro, mesmo que seja algo supérfluo”, admite. Aos 64 anos, Claus acredita que só depois que “algo muito grave acontecer” é que as pessoas talvez acordem. “Dificíl imaginar um mundo sem crescimento econômico, sem capitalismo. É como pensar numa volta à idade média”, comenta ele, concordando com o slogam da cúpula do G8 deste ano: “Nenhuma política do clima sem a economia”.
Otimismo e Ceticismo
Para Wolfgang Pomrehn, geofísico e meteorologista que atua como jornalista especializado em assuntos do clima e energia desde meados da década de 90, a redução do consumo não é nem desejável, nem factível. “Eu sou cético quanto a isso. Primeiro há uma questão moral aí, pois mesmo na Alemanha, há pessoas que já consomem o mínimo, que dirá em outros países do mundo”.
Outro aspecto, segundo ele, diz respeito a questões como a estrutura e a tecnologia de geração, sobre as quais o cidadão comum tem pouca ou nenhuma influência. “Para os proprietários de apartamentos e casas alugadas, por exemplo, pouco interessa se os inquilinos precisam gastar mais ou menos energia com aquecimento por conta das condições do isolamento térmico dos imóveis”. Wolfgang defende assim, uma série de medidas políticas de difícil implementação. Entre elas está uma valorização do transporte coletivo, em detrimento da “cultura do automóvel”. Isso sem afetar o bem estar social. “Algumas medidas já estão sendo postas em prática, mas ainda são muito poucas e vem aparecendo muito devagar”, avalia ele que em setembro estará lançando um livro sobre o tema.
Apesar da inércia do debate, o otimismo continua sendo a base do discurso oficial. “Uma das coisas maravilhosas do capitalismo é que a economia consegue aperfeiçoar aquilo que o público deseja comprar”, acredita o secretário de meio ambiente da Embaixada brasileira em Berlim, Flávio Mello. E essa visão também é válida para a “sustentabilidade da mídia”. “Eu acho que é possível que os órgãos publicitários e a iniciativa privada de modo geral se antecipem a essa necessidade de mudança. Acho que o ‘consumo destrutivo’ tende a diminuir progressivamente porque ele é autodestrutivo e as pessoas têm instinto de preservação”, pondera o secretário que é um dos interlocutores da política brasileira para biocombustíveis na Alemanha.
Aliás, uma das grandes promessas para combater os problemas provocados pela queima de combustíveis fósseis é a sua substituição por produtos de origem vegetal. Pelo menos para o Brasil. “Para discutir a questão climática com seriedade, tem que olhar a questão dos biocombustíveis. E olhar com muito carinho”, avisou o presidente Lula durante o encontro do G8 na Alemanha. O objetivo, segundo o presidente, seria convencer o mundo de que os biocombustíveis são a solução para a substituição dos combustíveis fósseis, para a despoluição do planeta e para a geração de renda. “Os países ricos precisam aceitar que os países em desenvolvimento têm o direito de crescer como eles cresceram, para conquistar a mesma qualidade de vida que eles conquistaram”, arrematou Lula.
Na contramão desse discurso estão entidades malditas para o stablishment. “Não creio que os países em desenvolvimento precisam ser ajudados pelos países desenvolvidos. Devemos lutar todos juntos por uma mudança de paradigma”, acredita a agricultora francesa, Isabelle Rouet, de 27 anos. Integrante da Via Campesina, ela defende que antes de falar em substituição de combustíveis é fundamental reduzir o seu consumo. “As pessoas na Europa devem entender que elas usam muito mais recursos do que dispõe. Esse excedente vem de fora, através de uma relação comercial bastante desequilibrada”. Para Isabelle a simples mudança de produtos, ou insumos não tornará as relações entre ricos e pobres mais justa. “É uma questão de cultura e filosofia”. Mas movimentos como a Via Campesina, que só na França tem cerca de 10 mil membros, estão fora do governo e da grande mídia.A conversão socialista

Naira Hofmeister, de Havana, Cuba*
Miguel, de 42 anos, é guia turístico na Sierra Maestra. Ao pé da montanha onde Fidel Castro e Che Guevara iniciaram a revolução cubana, Miguel lamenta, mas não pode subir “sem o pago”. São 18 pesos convertibles (a moeda que os turistas usam, equivalente ao dólar) para ele e mais dez convertibles pelo táxi que facilita a escalada até a comandância de La Plata, o quartel general dos 300 guerrilheiros há 50 anos.
Miguel é graduado pela Universidad de La Habana em Artes Plásticas e Economia. Há dez anos vive do turismo, como autônomo. Em vez de salário, recebe pagamento dos visitantes que leva para conhecer os caminhos de Che e Fidel. Trabalha sem nenhum tipo de contrato, apesar de o governo estar ciente de sua presença na Sierra Maestra.
Ele poderia ser empregado do governo, como a maioria dos cubanos. Receberia no máximo 500 pesos cubanos por mês (mais ou menos 20 pesos convertibles). “Isso eu ganho num dia aqui, atendendo um único grupo de turistas”.
Trabalhando menos de dez dias por mês, Miguel junta o suficiente para ir ver as filhas, que vivem em Bayamo, e ir a Havana tratar-se do vitiligo. O tratamento é gratuito, inclusive os medicamentos. Ruim é o ônibus, caro e não funciona.O guia tenta comover os turistas com sua história. Fala das filhas gêmeas de 15 anos que cria sozinho, da mulher que o trocou pelo sonho de Miami. Queixa-se que não pode oferecer seus trabalhos de artesão aos turistas. Pode ser expulso dali se fizer isso, mas ele às vezes dá um jeito.

Já teve obras vendidas na Europa, por um marchand que se impressionou com as cores de sua pintura. “Ganhei uns mil dólares nessa ocasião”. Hoje ele divide um quarto semi-mobiliado com um colega de profissão, come arroz e feijão uma vez por dia e engana a fome com bananas que ganha do campesinato. “Não gosto do sabor, então o povo já sabe que quando me vê comendo banana é porque a barriga está incomodando demais”, explica com a boca cheia da fruta.
O turismo é hoje a principal fonte de emprego dos cubanos. As estatísticas oficiais falam em mais de dois milhões de turistas por ano, serão cinco milhões até 2010. São muitos engenheiros, médicos, advogados, trabalhando em hotéis ou restaurantes, como garçom ou carregador de malas. Poucos são autônomos, como Miguel. A grande maioria é empregado do governo.
*Leia íntegra da reportagem na Revista JÁ, número 1 que está nas bancas.





