Autor: Elmar Bones

  • Capela Positivista ganha Associação de Amigos

    Nova diretoria promete recuperar atividades no templo positivista (Helen Lopes/JÁ)

    Gestada desde novembro do ano passado, a Associação de Amigos da Capela Positivista foi criada oficialmente nesta quarta-feira, 4 de abril, com a eleição da primeira diretoria.

    Aclamado presidente, o arquiteto George Augusto de Moraes ressalta que a entidade vai buscar recursos para restaurar o templo, que está praticamente abandonado, e viabilizar o tombamento do local. “A Associação está aberta a todos que tenham algum interesse pelo legado positivista”, afirma Moraes.

    Atualmente, a Capela só abre aos domingos, quando o guardião Afrânio Pedro Capelli, um dos últimos seguidores do positivismo no Estado, recebe alguns curiosos ou pesquisadores. Aos 78 anos, é ele quem banca as despesas do prédio, que guarda um grande número de livros e documentos, maioria obras originais, em francês.

    Afrânio ainda está meio reticente com a criação da Associação, mas indicou a arquiteta Rossana Giongo para fazer parte da direção.

    Assim como Rossana, que fez um estudo sobre aspectos arquitetônicos do templo, a maioria dos membros da Associação tem alguma ligação com a Capela ou com o Positivismo.

    A historiadora Elizabete Leal conheceu a Capela quando foi fazer mestrado e recorreu aos volumes do acervo.  Na época, o guardião pediu para que Elizabete e um colega organizassem os livros. Com verba do Funproarte, em 1996, os pesquisadores realizaram o trabalho e seguiram estudando o Positivismo no doutorado.

    Além de restaurar a Capela, a Associação pretende abrir para visitação de escolas e oferecer cursos de francês. A iniciativa que conta com o apoio da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos e do ICOMOS – Brasil (International Council on Monuments and Sites, instituição pertencente à UNESCO).

    Localizada na João Pessoa, 1058, quase ao lado da Redenção, a Capela Positivista é pouco conhecida pelos porto-alegrenses. Começou a ser construída em 1912 para ser um templo da religião fundada por Auguste Comte. A doutrina do Positivismo – filosofia racionalista do final do século XIX – inspirou muitos governantes gaúchos, entre eles, Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros e o ex-presidente Getúlio Vargas.

    Leia mais sobre a história do templo e do Positivismo no Estado, na Revista JÁ Especial 21 anos, nas bancas

  • Instituto de Educação dribla vandalismo com união da comunidade

    Ao completar 138 anos, o Instituto de Educação General Flores da Cunha luta para conter a onda de vandalismo que vem sofrendo desde o inicio do ano –  a escola foi invadida nove vezes para roubo de fios de cobre.

    As atividades alusivas ao aniversário do IE buscam integrar a comunidade escolar e alertar para a necessidade de preservação o prédio, conforme ressalta a pedagoga Soraia Solentino.

    Após os ataques, a direção da escola, juntamente com pais, alunos, ex-alunos e professores, criou o movimento Eu Abraço o IE para buscar parcerias junto à iniciativa privada para ampliação do muro dos fundos e cercamento da escola.

    Programação

    2 de abril – 19h

    Debate: Galeras e/ou Gangues, com: Stella Maris Silveira Bohn (psicóloga e terapeuta familiar- Programa de Saúde Escolar/SE), Profª Drª Carmem Craidy e Milene Petracco (UFRGS – Programa Sócio Comunitário), Mara Liliane Feter Schiengold (profª de matemática- IE e Monteiro Lobato), Tânia Vasconcelos (profª português-IE e Inclusão Dig.SMED)

    4 de abril – 10h

    Palestra: “Aspectos históricos do Instituto de Educação” com a historiadora Regina Portella Schneider.

    Após a palestra, cerimônia de encerramento com Banda da Brigada Militar e comemoração organizada pelo CAIE.

  • Robert Darnton mostra efeitos sociais das revoluções

    Em pouco menos de uma hora, o historiador norte-americano Robert Darnton mostrou a relação entre o Iluminismo e o mundo contemporâneo na conferência Voltaire, Rousseau e nós, que aconteceu na terça-feira, 27 de março. Foi a segunda sessão do ano do curso de altos estudos Fronteiras do Pensamento, promovido pela Copesul.

    Mais uma vez, o Salão de Atos da UFRGS esteve lotado por um público interessado – o professor da Universidade de Princeton respondeu a perguntas por mais de 30 minutos. Especialista em Iluminismo, ele fez uso de muitos termos em francês, mantidos dessa forma pelos tradutores, caso de Ancient Regime, que se refere à monarquia vigente na França antes da Revolução.

    Darnton justificou a escolha do tema, dizendo que o Iluminismo está na base fundamental da civilização ocidental. “Suas idéias baseiam-se nos direitos humanos e partem da reavaliação do patrimônio cultural de uma era”, entende.

    O historiador explorou as transformações culturais na Revolução Francesa e os novos significados e nexos sociais que ela trouxe. “O poder não vem apenas do cano de uma arma, vem também de uma revolução cultural, da transformação de valores e de atitudes”.

    Mesmo assim, o pesquisador observa que a resistência a uma nova relação social só foi vencida pela violência. Para exemplificar as mudanças que aconteceram no final do século XVIII, recorreu ao slogan da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. “A igualdade se dá no momento em que deixam o pronome vous e passam a usar o tu”.

    Segundo Darnton, o pronome vous (vós) provoca distanciamento e hierarquização, ao passo que o tu causa uma sensação de intimidade e maior igualdade. Assim, a sociedade francesa adotou o uso do tu nas relações cotidianas pós-Revolução. “Desempenhamos papéis cotidianamente, lutamos para estabelecer uma ordem e nunca paramos para pensar que as coisas poderia ser de outra forma”, refletiu Darnton, analisando as convenções empregadas no mundo atual.

    Ele acredita que uma reflexão sobre o tema ou mesmo a alteração no comportamento, na visão de mundo das pessoas, só acontecem diante de uma passagem extraordinária, um choque revolucionário, como foi a Revolução Francesa no século XVIII e o episódio do 11 de Setembro, na contemporaneidade. “Quando aconteceram aquelas explosões, todos nós paramos no tempo. Naquele momento, todos éramos iguais, estávamos unidos pela catástrofe”.

    Por fim criticou o fundamentalismo que o ataque gerou, de ambos os lados. “O ressurgimento da religião fanática é perigosíssimo”, concluiu. Foi uma palestra didática e fluente, apesar das quebras para leitura de citações de textos de Montesquieu, Diderot e Pierre Bourdieu.

    Veja a síntese da conferência

    Voltaire e Rousseau morreram em 1778 e suas teorias iluministas foram inspiradoras da Revolução Francesa. Além disso, nada mais tinham em comum, pelo contrário, eram fortes opositores.

    Na segunda noite do curso de altos estudos Fronteiras do Pensamento, coube ao historiador americano Robert Darnton fazer um relato dessa rivalidade entre dois dos grandes pensadores da civilização ocidental.

    “São opostos lendários: Voltaire defendia a reforma e Rousseau, a Revolução”, resumiu.

    A ilustração típica do embate intelectual entre ambos é a carta que Voltaire envia a Rousseau aos receber e ler o livro Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (1755).

    Opositor das teorias românticas de retorno ao passado – onde a moral seria mais eficiente no controle social – Voltaire escreve que “ninguém colocou alguma vez tanto engenho em nos querer converter em animais” do que Rousseau. Ler sua obra o fez desejar “caminhar em quatro patas”.

    O reformista

    Mesmo não sendo nobre, Voltaire era bem relacionado com a corte. Assim, suas propostas para uma ordem mais igualitária eram um espelho da aristocracia. “Ele acreditava que a sociedade ideal era polida, tinha boas maneiras, conversas sofisticadas”.

    Robert Darnton (foto) advertiu a platéia de que essa posição política não podia ser considerada de direita, visto que a dicotomia entre esquerda e direita foi justamente inaugurada com a Revolução Francesa. “Voltaire entendia a política com temas anacrônicos. Para ele o importante era haver uma administração racional da sociedade”.

    A partir da morte de uma atriz por quem se apaixonou, Voltaire passa a refletir sobre o sofrimento e o bem o mal. Adrianne, que tinha interpretado sua peça Édipo, morre antes de receber a extrema unção, pois na época, os artistas deveriam renunciar à profissão antes de receber o sacramento.

    O corpo da moça foi jogado numa vala comum e coberto com cal para apressar a decomposição. “Essa situação obcecou Voltaire com o assunto da própria morte. Ele temia ter o mesmo fim de sua amante”. Assim, ao escrever a obra Cândido, Voltaire coloca seu personagem principal diante dessa cena. “A reação de Cândido, no capítulo 22, é muito curiosa. Ele simplesmente diz que foi algo realmente descortês”. Essa é a passagem que Darnton identifica como a definição de sociedade polida desejada por Voltaire.

    A lógica de Voltaire para uma sociedade harmônica foi interpretada pelo acadêmico americano como uma sucessão de termos: polidez, polícia e política. “O Antigo Regime era policial, portanto, um poder”.

    A partir da publicação de O Século de Luis XIV, Voltaire inaugura a idéia de que cultura também é sinônimo de poder. “O livro traz uma definição de Estado-teatro, transforma a corte de Luis XIV numa encenação e o exercício do poder, em atuação”. Em uma sociedade onde a cultura é o coração do sistema de poder, não haveria mal em impor costumes de cima para baixo. “Para Voltaire, essa relação de civilidade significava progresso”.

    O revolucionário

    Mesmo sendo opositor de Voltaire, Rousseau concordava com idéia de que a história cultural era fator de composição da sociedade. Mas para ele, “as cadeias que prendiam os homens provinham da arte”.

    Por isso, Rousseau atacou a cultura em si, não apenas suas manifestações, defendendo uma verdadeira revolução cultural. Da mesma forma que seu rival, é um trauma que leva Rousseau a refletir profundamente sobre a moral e a purificação.

    Um dia, ao fazer o caminho para visitar o amigo Diderot que estava na prisão, Rousseau passou pelo orfanato aonde havia deixado seus 5 filhos ilegítimos. O mal-estar causado pela situação o leva a refletir sobre sua existência. È sob o efeito dessas indagações que escreve o Discurso sobre a Restauração das Ciências e das Artes (1750). “Rousseau se dá conta de que se corrompeu por respeitar a série de valores culturais imposta para adequação social”.

    Assim, o pensador interpreta a cultura como uma força do mal, algo relativo à manutenção do poder das classes dominantes. Robert Darton advertiu o público de que o conceito de cultura insinuado por Rousseau no século XVIII e mais amplo do que o utilizado atualmente. “Ele fala sobre um poder inserido nos costumes, nas línguas, nos quadros sociais.

    Na verdade, Rousseau inventou a Antropologia”. Ou seja, o conjunto de simbologias que conferem poder a um sistema político estabelecido, tudo aquilo que tem sentido. “Mesmo a geologia e a física estão dentro desse conjunto, pois são compreendidos através de conceitos culturais”.

    A cultura que mantém e a que modifica

    Sem defender a visão de um ou de outro, Robert Darnton procurou adaptar as contribuições de Voltaire e Rousseau para a contemporaneidade. “O poder não vem apenas do cano da arma, vem também da cultura, da manutenção de valores e atitudes que regem as relações”.

    A cultura é responsável pela quebra da igualdade em que fomos criados por Deus – é ela que mantém a sociedade hierarquizada. Assim, apenas uma reconfiguração dos códigos culturais pode modificar as relações de poder existentes na sociedade. “Para uma verdadeira revolução cultural é necessário transformar valores”.

    A revolução cultural imprimida pela Revolução Francesa pode ser sistematizada no emprego dos pronomes vous e tu, na França do Século das Luzes, cujo lema era Igualdade Liberdade, Fraternidade. “A igualdade se dá no momento em que deixam o pronome vous e passam a usar o tu”.

    Segundo Darnton, o primeiro provoca distanciamento e hierarquização, ao passo que tu causa uma sensação de intimidade e maior igualdade. A resistência à nova ordem social originou “uma guerra trágica”, mas ainda assim, a sociedade francesa adotou o uso do tu nas relações cotidianas pós-Revolução.

    A idéia de que “o mundo não é o melhor mas é o único possível”, contida no Contrato Social de Rousseau, é a questão visceral do debate contemporâneo. “Desempenhamos papéis cotidianamente, lutamos para estabelecer uma ordem e nunca paramos para pensar que as coisas poderia ser de outra forma”, refletiu Darnton, analisando as convenções empregadas no mundo atual. A crença na imobilidade do mundo é o que nos impede de sugerir alternativas.

    Essa estabilidade só pode ser rompida através de um um evento extraordinário. “Quando aconteceram aquelas explosões, todos nós paramos no tempo. Naquele momento, todos éramos iguais, estávamos unidos pela catástrofe”. A partir do choque revolucionário “é possível fazer uma reconstrução social da realidade”.

    No caso francês, Darnton observa que “a liberação social gerou terror”, que culminou com as guerras napoleônicas. Mas no século XX, que “nos ensinou a desconfiar”, o historiador acredita que os grandes eventos possibilitam reordenar as coisas, relativizar a ordem estabelecida. “A partir de um acontecimento podemos repensar a realidade, não mais com algo dado, mas como algo que pode ser ou não”.

  • Pandeiro e cerveja ao pôr-do-sol

    Naira Hofmeister

    O batuque vem da esquina da Riachuelo com a General Salustiano, bem de frente à Usina do Gasômetro. O horário não podia ser melhor: cinco da tarde, quando o sol dá as últimas braçadas e mergulha no Rio Guaíba.

    Os dez rapazes que ocupam o centro da roda de samba estão devidamente fardados com camisas listradas alviverdes que estampam o logotipo: Central do Samba. “É um movimento sócio-cultural de resgate dos grandes sambistas brasileiros, de um bairro tradicional de Porto Alegre e da parte mais pobre da sociedade”, define Arruda, o presidente da entidade.

    O Movimento Cultural Central do Samba nasceu há pouco menos de um ano, em junho de 2006, do encontro de amigos cansados do “estereótipo das rodas de samba de Porto Alegre”, que segundo Arruda, tocam sempre a mesma coisa.

    A idéia era abrir o baú dos sambistas clássicos, interpretando o repertório de Noel Rosa, Ataulfo Alves, Cartola e Donga, entre outros.

    O resultado mais aparente é que a cada domingo o bar Pôr do Sol está mais cheio de apreciadores. “Estamos fazendo reviver um bairro da capital, isso aqui voltou a ser um ponto cultural efervescente”, diz o orgulhoso presidente.

    A Central do Samba recebe convidados de peso da música local, como os músicos Giba Giba e Djalma Corrêa, freqüentadores assíduos da roda de samba. Também fazem apresentações eventuais um grupo de maracatu e outros de samba e choro, como o Feijoada Completa.

    Encontro de gerações

    O repertório do Central do Samba inclui canções como “Disseram que eu voltei americanizada”, de Carmem Miranda ou “Meu Barracão”, de Noel Rosa, passando pelos tradicionais sambas-enredos da Mangueira, Salgueiro e outras escolas, cariocas ou não. “Mantemos um grupo de pesquisa durante a semana, que escolhe os temas e os compositores que apresentaremos no domingo”, explica Arruda.

    A cada apresentação o público ouve um breve texto sobre o músico escolhido, dando conta de sua vida e sua obra. Só através da pesquisa é que a gurizada do Central do Samba poderia conhecer essas músicas. Todos têm menos de 30 anos. “Eu sou uma das mais velhas, tenho 29”, confidencia Elinka Matusiak, uma das vozes femininas do grupo. “Tem uns bebês de 20, mas eu nunca vi eles darem uma fora”, elogia a cantora.

    Ela conta que os rapazes não se apertam nem diante da presença dos “macacos velhos” do samba porto-alegrense. “Sabe como é essa gente: senta, pega o violão e pede um dó, sem dizer o que vai ser. Nunca vi os guris dizerem que não conhecem a música ou não sabem tocá-la”.

    O samba que vem do coração

    Já dizia Vinícius de Morais – o branco mais preto que existe – que o samba é branco na poesia e negro no coração. Dos dez integrantes fixos do Central do Samba, apenas um é mulato. “O samba faz parte da cultura popular brasileira e não da cultura negra, da asiática ou da alemã”, discursa Arruda. Ou seja, não é uma questão de raça, mas de nacionalidade. “O samba é o mensageiro do Brasil”.

    Por isso os meninos assinam os e-mails da programação com uma frase de Noel Rosa que ilustra a crença de que o samba é patrimônio tupiniquim. “O samba, na realidade, não vem do morro, nem lá da cidade. E quem suportar uma paixão, sentirá que o samba, então, nasce do coração”.

    O Central do Samba atrai um público diverso. Na improvisada pista de dança, muitos jovens chacoalhavam os quadris brancos, pretos e mulatos. Nos pés da galera, All Star ou sandália dourada, tanto faz. “Já vi punk, roqueiro e moderninho da música eletrônica curtindo o som deles”, atesta Catarina, membro honorário da agremiação, que, no entanto, não toca nenhum instrumento.

    Catarina faz parte do grupo que ocupa as cadeiras do bar Pôr do Sol. A meia idade é o segundo maior freqüentador da roda de samba. Catarina tem ao seu lado uma cadeira de praia aonde descansa um moleque loirinho de uns sete anos. Criança também freqüenta as reuniões dominicais no boteco.

    Panela velha é que faz música boa

    A formação heterogênea do grupo – são publicitários, advogados, médicos e cientistas políticos, além de músicos profissionais – agregou um outro valor à agremiação, a preocupação com a responsabilidade social. “Vamos registrar o grupo como ONG para poder captar patrocínio para os projetos”, explica Arruda, que interrompe a roda para dar o seguinte aviso. “Quem tiver em casa panelas velhas e cabos de vassouras que não use mais pode doar para a gente”.

    As panelas recebidas são fazer instrumentos musicais onde meninos da Vila Cruzeiro vão aprender a lição dos mestres sambistas. “A oficina do Central do Samba vai tirar muito moleque das drogas, da violência e de outras porcarias”, garante ao público, o presidente Arruda.

    No último domingo, 25 de março, mais uma parceria foi consolidada, também relacionada a Cruzeiro. Uma exposição fotográfica de João Freitas mostra rostos molhados de suor, chutes precisos, e sorrisos abertos. Resultado de um projeto mais antigo que o dos sambistas e que já imprime novos contornos ao morro. Trata-se da fundação de um time de futebol local, chamado Ajax, do qual todos os integrantes do Central do Samba são torcedores.

  • Fepam é "linchada" em audiência pública

    Carlos Matsubara e Ana Luiza Leal, especial para o JÁ
    Crucificar a Fepam. Este parece ter sido o propósito da Audiência Pública que debateu o Zoneamento Ambiental para a Silvicultura, ontem (21/03) no auditório Dante Barone na Assembléia Legislativa. De um lado do auditório sentaram os prefeitos e vereadores dos municípios da Metade Sul do Estado.
    Do outro, ambientalistas, acadêmicos e funcionários da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). Enquanto um dos lados, literalmente, gritava: “os moradores da Zona Sul estão morrendo de fome, precisamos dos 1 bilhão e 300 milhões de dólares que virão da Silvicultura”, o outro respondia, também aos gritos: “que comam eucaliptos!”.
    Ambientalistas e críticos da monocultura eucaliptiana também estavam lá. Sebastião Pinheiro e os professores da Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Paulo Brack e o casal Buckup, Ludwig e Georgina. A audiência, promovida por três comissões do legislativo, começou mal. O material de divulgação anunciava que a Fepam faria uma apresentação técnica do Zoneamento, o que não aconteceu.
    O resultado foi uma saraivada de vaias. Ao final, as comissões e Fepam prometeram agendar uma outra reunião somente para tal apresentação. “Mas o que foram fazer na Assembléia,então?“, questionavam os presentes. Em nome dos parlamentares, o deputado Nelson Härter (PMDB), prometeu agilizar um novo encontro. Finalmente, a primeira apresentação, que coube ao professor Marcelo Dutra, da Universidade Católica de Pelotas. Ele mostrou seus estudos em parceria com a Votorantim Celulose e Papel (VCP).
    Em uma apresentação “Power Point”, tentou explicar ao povo o que seria a ecologia e a metodologia científica do trabalho. O público não entendeu nada. O professor, então, concluiu o que muitos esperavam: “é possível conciliar a silvicultura com as espécies campestres através do incentivo e a criação de Unidades de Conservação (UCs) públicas e privadas”.
    Dutra ainda atacou a Fepam de forma subentendida dizendo que o Zoneamento precisa ser um documento técnico e não pode ter viés ideológico. Essa última afirmação também apareceu no discurso do palestrante seguinte, o professor Mauro Schumacher, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM): “a finalização do Zoneamento tem que ser trabalhada. Não podemos investir numa Silvicultura predatória e destrutiva”.
    Oposição critica Fepam
    O Zoneamento da Fepam conseguiu uma proeza. Desagradou o Setor Florestal, deputados ligados ao agrobusiness e parte da bancada petista. Se a bancada ruralista gaúcha não gostou do documento da Fepam por considerá-lo um “entrave ao setor”, os petistas reclamam da morosidade do órgão ambiental.
    O deputado Ivar Pavan (PT) lamentou que a Fepam, sob o pretexto de desencontro de informações, não apresente o único documento público existente sobre tema. Já o seu companheiro, Ronaldo Zulke, exigiu a divulgação da versão do estudo que será encaminhado ao Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema). “A Assembléia Legislativa precisa saber se o conteúdo será idêntico ao elaborado no governo anterior ou se será enviada uma versão com alterações propostas pelo grupo de trabalho montado pelo governo Yeda para revisar o estudo”, ressaltou.
    Daniel Bordignon, também do PT, anunciou que irá reapresentar na Comissão de Saúde e Meio Ambiente requerimento para realização de outra audiência pública para discutir especificamente o estudo da Fepam. Algo que já havia sido decidido no início dos trabalhos, diga-se de passagem.
    A favor do Zoneamento, se pronunciaram os deputados Raul Carrion (PC do B), Stela Farias (PT), Zulke (PT) e Elvino Bohn Gass (PT). Eles ressaltaram que o estudo foi em parte com verbas da Associação Gaúcha de Empresas Florestais (Ageflor), que contratou uma firma especializada para fazer as análises, e que não entendem por que a própria Ageflor quer agora desmerecer o trabalho.
    Apresentações
    A Emater de Pelotas apresentou o programa Poupança Florestal da VCP, que já tem 4 mil hectares plantados de eucalipto em terras de 264 famílias. Foi explicado aos presentes que a compra da produção é garantida para a VCP por sete ou 14 anos. Lélio Falcão, presidente da Comissão de Meio Ambiente do Corede-Sul e representantes do Fórum da Metade Sul foi mais um a se queixar: “A Corede-Sul não participou da elaboração do documento, nem as universidades da região. Defendemos um zoneamento coerente.
    Querem alterações significativas que o tornem viável”, disse. O presidente da Associação dos Servidores da Fepam fez o discurso mais emocionado da manhã.
    Ele lamentou as acusações dos representantes do setor florestal. “Nos acusam de fundamentalistas ou de vagabundos”, disse, ao lembrar de uma matéria publicada na coluna da jornalista Denise Nunes do Correio do Povo, onde o deputado Giovani Cherini (PDT) diz que atraso nas autorizações para construções de barragens se deve a falta de trabalho da Fepam.
    O professor Ludwig Buckup, da Ecologia da UFRGS foi categórico: “A UFRGS não foi convidada para essa audiência, mas viemos”, disparou e pediu respeito ao trabalho da Fepam. “O zoneamento é um excepcional documento científico, é uma fonte altamente qualificada. Eu o analisei detalhadamente”. Buckup pediu ainda que o Projeto de Lei, do deputado Nelson Härter seja retirado.
    “Está na cara que esse projeto é um processo que visa às empresas plantarem como, onde, quando e quanto quiserem. Espero que a Universidade possa ser ouvida da próxima vez em um ambiente com acadêmicos mais neutros”, afirmou, referindo-se à UFSM e à UCPEL.
    Presidente da Fepam se defende
    Acuado pela enxurrada de críticas, o presidente da Fepam, Irineu Schneider, não fugiu do debate. Ele afirmou não acreditar que o Zoneamento inviabilize os plantios de eucalipto, uma vez que o órgão ambiental já se reuniu com os representantes das maiores empresas que mantém investimentos no Estado, e ficou acordado que a Fepam iria licenciar pela regra existente.
    “O Ministério Público concorda com isso. Dá para licenciar qualquer empreendimento até mil hectares sem EIA/RIMA, num processo mais simplificado, para viabilizar os plantios de 2007. O resto fica para depois de aprovado o zoneamento”, explicou. Conforme Schneider, a pressão da Ageflor está sendo, sem dúvidas, muito grande em cima dos órgãos ambientais. “Não quero questionar se a pressão é procedente, ou não. A Ageflor defende um grupo produtivo e tem todo o direito de fazer isso, de apresentar suas ponderações”, disse.
    O presidente da Fepam lembrou que qualquer alteração no projeto será decidida pelo Consema, que receberá o documento até 31 de março. “Faremos quatro audiências públicas pelo Estado para a apresentação do zoneamento”, avisou. Schneider lembrou que, além da Ageflor, o trabalho foi feito por muitas outras mãos. “Posso citar USP, a Universidade Federal de Lavras, Uninos, Unilassale, Universidade de Viçosa, PUCRS, Ministério do Meio Ambiente, Emater, FZB, entre outras”, disse.
    O presidente da Fepam aproveitou a ocasião para se queixar da situação em que o órgão ambiental do Estado se encontra. “Nós estamos com um problema de auto-estima. Precisamos recuperar o prestígio da Fepam, claro que, para isso, temos que fazer a lição de casa, mas também temos sérias dificuldades”, disse.
    Na opinião de Schneider, se o Estado quiser se desenvolver tem que dar condições ao órgão ambiental de fazer os licenciamentos que estão represados lá, por questão de estrutura de pessoal e financeira. “Não é somente uma questão de custo, ali é investimento, porque são milhares de empregos e bilhões de reais em empreendimentos que estão lá”, destacou.
    A engenheira agrônoma da Fepam, Silvia Piagel tentou explicar a complexidade da elaboração de um trabalho como o zoneamento ambiental. “O zoneamento dá uma visão de base regional, isso implica olhar o Estado como se tu olhasses uma imagem de satélite, ou seja, diretrizes regionais”. Segundo a engenheira, enquanto a Emater faz uma análise de planejamento na propriedade, a Fepam faz o estudo com base em regionais, conseguindo agregar uma série de informações que o Estado não dispunha, como por exemplo, a espacialização das espécies ameaçadas de extinção, ou seja, onde é que elas estão concentradas.
    “Tendo essas informações tu geras diretrizes regionais, e isso é uma coisa nova”, avaliou. Argumentou ainda que, o fato de serem novas, as diretrizes precisam ser discutidas e muitas delas não são inviabilizadoras. Conforme Sílvia, elas apontam problemas e pedem mais estudos, como no caso de disponibilidade hídrica.
    A Fepam, explica ela, apontou áreas que têm risco potencial, onde é necessária a realização de estudos aprofundados, justamente para ver se comporta a atividade de Silvicultura. Ela destacou que, se o projeto de lei que adia o zoneamento para 2011 passar, todo o trabalho que foi feito será jogado no lixo, porque foi feito com uma preocupação com o bioma pampa, analisando 45 unidades e delimitando os percentuais de ocupação da silvicultura. “Mas estamos a abertos a dialogar. A Fepam é criticada de qualquer forma, se não faz o estudo, é omissa, se faz, é ideológica”, lamentou.

  • Osório recria empregos de engraxate

    Guilherme Antunes dos Santos, o “Queijinho”, o último engraxate de Osório, numa das cadeiras da Boca do Brilho, engraxateria pública construída pela prefeitura para resgatar o ofício semi-esquecido pela modernidade (Fotos: Geraldo Hasse/JÁ)

    Geraldo Hasse, especial para o JÁ

    Numa cerimônia singela, presenciada por uma centena de pessoas, na manhã de sábado (17/3), o prefeito Romildo Bolzan Junior reentroduziu no centro de Osório a profissão de engraxate. O projeto tocado pelo Serviço de Assistência Social da prefeitura gastou R$ 6 mil para gerar quatro empregos.

    Depois de um breve discurso em que lembrou o nome de alguns companheiros de escola e de futebol que iniciaram a vida profissional dando brilho aos sapatos dos mais abonados da cidade, Bolzan, recém-entrado no 48º ano de vida, sentou-se num dos dois cadeirões instalados pela prefeitura junto ao último ponto onde esse serviço funcionou até cinco anos atrás.

    Quem lhe passou a graxa, por R$ 3 (preço de tabela), foi ninguém menos do que o último engraxate osoriense, Guilherme Antunes dos Santos, o popular “Queijinho”, que pôde inaugurar assim a sua nova caixa de engraxate — agora, com a inscrição “Engraxate “Emérito” – oferecida pela prefeitura.

    Exultante no uniforme doado pelo governo municipal, Queijinho estava sem trabalhar desde que sofreu um acidente vascular, no início do século XX. “Quero que agora todos meus fregueses voltem pra mim”, disse ele, cercado por familiares emocionados.

    O mais feliz era o seu irmão mais velho, João Antunes dos Santos, 64 anos, pedreiro profissional, que fez parte da comunidade de jovens engraxates que passavam os dias prestando serviços na antiga rodoviária, a alguns metros da Boca do Brilho, reaberta nos fundos da catedral, ao lado do mais antigo ponto de táxi de Osório. “Nós éramos uns 15 moleques, a gente engraxava, vendia jornal e carregava mala no centro”, conta João, lembrando de um tempo, 50 anos atrás, em que só havia quatro táxis em Osório (hoje são 58).

    Enquanto Queijinho (de costas) engraxa mais um par de sapatos, seu irmão João, pedreiro profissional, festeja a construção da Boca do Brilho — dois cadeirões em madeira de lei — no coração de Osório

    Em sua fala, o prefeito explicou que os 6 mil reais do projeto Boca do Brilho foram gastos na construção dos dois cadeirões, ambos equipados com tablado e telhado, tudo em madeira de lei (itauba) “capaz de agüentar 50 anos na intempérie”. Dentro da mesma verba deu para incluir também as quatro caixas de engraxate e todos os insumos e instrumentos necessários aos exercício da atividade, praticamente esquecida desde que a juventude aderiu ao tênis e a maior parte do povo passou a andar de chinelas de plástico. “São empregos modestos, mas valiosos para o povo da periferia”, disse Bolzan, que costuma ser cumprimentado por ter “ganho” o Parque Eólico de Osório, investimento de R$ 670 milhões que gerou 40 postos fixos de trabalho qualificado.
    Vanda Diemeczuk, coordenadora de Assistência Social de Osório, calcula que cada um dos quatro engraxates remobilizados pela prefeitura vai faturar entre 15 e 20 reais por dia. Uma de suas idéias para movimentar a Boca do Brilho é mobilizar as mulheres para que levem à praça suas botas de couro. A Boca do Brilho vai funcionar todos os dias. No começo será operada por engraxates veteranos credenciados pela prefeitura, mas no futuro poderá dar prioridade para jovens carentes, a critério do Poder Judiciário. O projeto faz parte da comemoração dos 150 anos de Osório, que se tornou município em dezembro de 1857.

  • Poupança Florestal da VCP enfrenta crise com MST e Incra

    Carlos Matsubara, especial para o JÁ
    O presidente da Votorantim Celulose e Papel chegou ao Rio Grande do Sul na última quinta-feira (15/03) afirmando estar “surpreso e revoltado”. José Luciano Penido se referia à destruição de 68 hectares de eucaliptos cultivados por 114 famílias em assentamentos no município de Pedro Osório desde o ano passado.
    A produção fazia parte do programa Poupança Florestal que a empresa mantém com os assentados. “É a única empresa no Brasil a estabelecer este tipo de diálogo e todas as plantações estão licenciadas pela Fepam em conjunto com o projeto da VCP”, ressaltou. Penido classificou a atitude como um ato de agressão à propriedade. Mas livrou a barra dos assentados. Ele culpa a Superintendência do Incra no Rio Grande do Sul. No mês passado, o Incra enviou uma correspondência aos colonos, na qual classifica o plantio de eucalipto em terras de reforma agrária como uma atividade irregular e passível de represálias.
    Além disso, o documento afirma que os assentados não podem assinar nenhum tipo de contrato de arrendamento das terras recebidas pela União. O documento assinado pelo superintendente Mozar Artur Dietrich sugeriu que o órgão poderia inclusive retomar as propriedades cedidas em 1999. “Com medo de perder suas terra e inflamados pelo MST, os agricultores arrancaram as árvores”, acredita Penido.
    Em nota, o Incra garante que cumpre o que determinam as licenças ambientais dos assentamentos, expedidas pela Fepam e fiscalizadas pelo Ministério Público, que proíbem florestamento com espécies exóticas. Afirma que não foi consultado em relação aos contratos de florestamento firmados com os assentados, nem solicitou, concedeu ou autorizou qualquer procedimento para licenciamento ambiental para esse uso. Assegura que sua atuação neste caso é no exato cumprimento dos mandamentos legais.
    O presidente da VCP esclarece que, de acordo com o Plano Regional de Reforma Agrária do Rio Grande do Sul, Estatuto da Terra e Constituição Federal, os assentados estão agindo dentro da lei. Isto porque não existe contrato de arrendamento ou parceria entre a empresa e os agricultores para uso da terra. O que existe, explica ele, é um contrato de compra e venda da produção de madeira, no prazo de sete anos e 14 anos como garantia. “Não é contra a lei, portanto, plantar qualquer tipo de árvore em assentamento, quaisquer que sejam elas”, afirma.
    A coordenadora do MST em Pedro Osório, Irma Ostroski, lembra que o movimento sempre foi contrário à monocultura do eucalipto. E que quando souberam da ameaça do Incra, as famílias, que fazem parte do MST, decidiram promover assembléias para decidir o que fazer. “Não foi uma decisão impensada e tampouco influenciada pelo movimento”, ressalta Irma. De acordo com a líder dos sem-terra no município, a ação foi acertada após três assembléias com a participação de todas as famílias.
    Ela ainda denuncia que existe uma pressão por parte dos técnicos da Emater e das prefeituras para que os assentados plantem eucalipto. O MST também critica o modelo de financiamento proposto aos assentados. Irmã diz que o movimento tirou do site da VCP a informação de que, para cada hectare plantado, o assentado receberia apenas R$ 32.
    Banco Real financia plantio
    O financiamento é feito através do Banco Real a juros de 9% ao ano e a empresa garante a compra da produção de madeira no prazo de sete e 14 anos. “Não há contrato de arrendamento com a VCP. Nós apenas nos comprometemos a comprar a produção. 5 % dela pode ser vendida para terceiros”, explicou Penido. O diretor-florestal da empresa, José Maria Mendes garante que é sugerido ao produtor que ele plante o eucalipto de modo consorciado a outras culturas. “O contrato com o Banco Real estipula que a propriedade não pode ter mais do que 20% da área plantada com eucalipto”, diz.
    Mendes cita como exemplo o modelo aplicado em São Paulo nos assentamentos com plantações de cana-de-açúcar. “A diferença é que lá eles vendem para as usinas de álcool”. Garantiu ainda que muitas ONGs conhecem e apóiam a parceria com os assentados. As duas mais expressivas são a paulista SOS Mata Atlântica e a gaúcha, ligada ao setor florestal, Amigos da Floresta.
    E os colonos que arrancaram seus pés de eucalipto, como pagarão sua dívida com o banco?
    Penido não deixou claro se a empresa ajudará. Limitou-se a afirmar que, como trata-se de um ato involuntário e criminoso, talvez os assentados possam ficar livres da dívida.
    Mais solidário, o MST promete colocar seus advogados para defender os colonos. “A empresa não fez e nem vai fazer nada”, dispara Irma, ao afirmar ainda que esses 100 hectares de Pedro Osório não fazem diferença para a VCP. “Esse programa deles é para envolver pequenos numa propaganda social”. Questionado sobre qual seria hoje o “pior inimigo” do setor florestal, Mendes foi diplomático com os movimentos sociais. “Vivemos numa democracia e a empresa entende que eles (MST) são legítimos, dentro da lei”.
    Para as Ongs ambientalistas, o diretor-florestal manda o recado: “Elas se apóiam em argumentos ultrapassados”. Segundo ele, teses como a de que o eucalipto seca o solo já foi derrubada há muito tempo por estudos científicos. Não é o que pensa a maior parte da Biologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, capitaneada pelo mais famoso combatente do eucalipto no Estado, professor Ludwig Buckup. Em diversas ocasiões, sempre que pode, faz questão de mencionar o quão prejudicial seria o plantio maciço de eucalipto ao meio ambiente.
    Queixa
    Na sexta-feira (16/03), a direção da VCP relatou o fato ao procurador-geral de Justiça, Roberto Bandeira Pereira. Um dia antes, a cúpula da empresa já havia se encontrado com a governadora Yeda Crusius para garantir a continuidade do projeto no Estado. Claro que aproveitou a ocasião para tocar no assunto. “A governadora é solidária, disse que analisará a questão e tomará um posicionamento em breve”, revela Penido.

  • Plano Diretor: Fortunati bota o dedo na ferida

    Guilherme Kolling

    O discurso que o secretário municipal do Planejamento, José Fortunati (foto), apresentou à imprensa na manhã desta terça-feira, 27 de fevereiro, é o mesmo dos políticos que o antecederam no cargo desde 2003: “Esperamos concluir a revisão do Plano Diretor este ano”. Até o momento, todos fracassaram no intento.

    — Por que o senhor acredita que será diferente agora?, pergunta o repórter. Resposta: “Pela primeira vez o projeto está pronto”. De fato, o texto apresentado pela Prefeitura na coletiva que reuniu 20 jornalistas na sede da Secretaria do Planejamento é o mais completo desde o início das discussões, no final de 2002.

    E o mais objetivo. Sem estratagemas para desviar o foco do debate, coloca o dedo na ferida e estabelece soluções para temas polêmicos. Para começar, propõe a redução das alturas máximas dos prédios na chamada área radiocêntrica, entre o Centro e a Terceira Perimetral.

    É a região mais densa da cidade e a que concentrou a maioria dos espigões construídos depois que o novo Plano Diretor entrou em vigor, em março de 2000.

    Também foi palco dos principais conflitos envolvendo comunidade, poder público e entidades da construção civil, já que os moradores de bairros como Moinhos de Vento, Petrópolis, Menino Deus, Rio Branco e Bela Vista protestaram contra a descaracterização da paisagem.

    A nova proposta da Prefeitura mantém o limite de 52 metros (18 pavimentos) como altura máxima da cidade. Mas na área central, o índice só poderá ser aplicado nas grandes avenidas. “No miolo dos bairros não haverá mais prédios desse porte”, prevê o assessor da SPM e responsável pela sistematização da revisão do Plano, o técnico André Kern.

    Assim, evita-se distorções como a construção de um espigão numa rua estreita, composta por casas e prédios baixos. As alturas propostas variam de região para região, oscilando entre 9 metros (3 andares) e 45 metros (15 andares).

    Outra medida apresentada pela Prefeitura e que preenche uma lacuna no Plano Diretor é a instituição das áreas especiais de interesse cultural.

    O objetivo é preservar o patrimônio histórico-cultural existente em locais específicos. Foram identificadas 136 áreas, que terão um regime urbanístico especial, isto é, alturas, afastamentos e índices constrututivos adequados para a manutenção das características que conferem relevância a esses locais.

    Outro destaque é o Plano Viário – todas as vias da cidade foram hierarquizadas, de acordo com sua função. Também foram sugeridas novas regras para projetos especiais, além de mudanças nas normas para edificações residenciais – todos novos projetos deverão reservar entre 12,5% e 20% de área livre, permeável e vegetada no terreno.

    A alteração dos afastamentos das edificações, que serão de 25%, ao invés de 18%, é mais uma medida bem importante sugerida pela Prefeitura. “O objetivo é garantir maior qualidade de vida, sem frear o crescimento da cidade”, resume Fortunati.

    Os técnicos da Secretaria do Planejamento também trabalharam na redação dos artigos do Plano Diretor para melhorar a compreensão dos conteúdos, e o compatibilizaram às legislações existentes, como o Estatuto das Cidades.

    Agora, tudo será discutido nas oito regiões da cidade, a partir desta segunda-feira, 5 de março. No feriado de 21 de abril, um sábado, está prevista uma audiência pública como toda cidade. “Nossa idéia é entregar os projetos na Câmara em maio”, projeta o secretário do Planejamento, que tem esperança que os vereadores concluam o trabalho ainda em 2007.

    Cronograma da Discussão sobre o Plano Diretor:

    Fórum Regional de Planejamento 1
    Dia 5 de março, às 19h30, no Plenário Ana Terra da Câmara Municipal (Av. Loureiro da Silva, 255).
    Bairros abrangidos: Floresta, Auxiliadora, Centro, Moinhos de Vento, Marcílio Dias, Independência, Bom Fim, Rio Branco, Mont’ Serrat, Bela Vista, Farroupilha, Santana, Petrópolis, Santa Cecília, Jardim Botânico, Praia de Belas, Cidade Baixa, Menino Deus e Azenha.

    Fórum Regional de Planejamento 2
    Dia 6 de março, às 19h30, na ETE – DMAE (Av. A.J. Renner, 495)
    Bairros abrangidos: Farrapos, Navegantes, Humaitá, São Geraldo, Anchieta, Arquipélago (ilhas), São João, Santa Maria Goretti, Higienópolis, Boa Vista, Cristo Redentor, Passo d’ Areia, Jardim São Pedro, Jardim Lindóia, São Sebastião, Vila Ipiranga, Jardim Itu.

    Fórum Regional de Planejamento 3
    Dia 7 de março, às 19h30, na Associação do Porto Seco
    (Av. Plínio Kroeff, 1000 – Rubem Berta)
    Bairros abrangidos: Sarandi, Passo das Pedras e Rubem Berta.

    Fórum Regional de Planejamento 4
    Dia 8 de março, às 19h30, no CTG Raízes do Sul (Rua São Domingos, 89)
    Bairros abrangidos: Três Figueiras, Chácara das Pedras, Vila Jardim, Jardim Sabará, Bom Jesus, Jardim do Salso, Jardim Carvalho, Morro Santana e Mario Quintana.

    Fórum Regional de Planejamento 5
    Dia 12 de março, às 19h30, na Faculdade Ritter dos Reis – Auditório 2 (Rua Orfanatrófio, 555 – Alto Teresópolis)
    Bairros abrangidos: Cristal, Santa Tereza, Medianeira, Glória, Cascata e Belém Velho.

    Fórum Regional de Planejamento 6
    Dia 13 de março, às 19h30, na Escola Estadual Padre Réus
    (Av. Otto Neimayer, 650 – Tristeza)
    Bairros abrangidos: Camaquã, Cavalhada, Nonoai, Teresópolis, Vila Nova, Campo Novo, Vila Assunção, Tristeza, Vila Conceição, Pedra Redonda, Ipanema, Espírito Santo, Guarujá, Serraria e Hípica.

    Fórum Regional de Planejamento 7
    Dia 14 de março, às 19h30, na Paróquia Santa Clara
    (Rua João de Oliveira Remião, 4444 – parada 10)
    Bairros abrangidos: Santo Antônio, Partenon, Cel. Aparício Borges, Vila João Pessoa, Vila São José, Lomba do Pinheiro e Agronomia.

    Fórum Regional de Planejamento 8
    Dia 15 de março, às 19h30, no Aeroclube do Rio Grande do Sul (Av. Juca Batista, 8101 – Belém Novo)
    Bairros abrangidos: Restinga, Ponta Grossa, Chapéu do Sol, Belém Novo, Lageado e Lami.

    Audiência Pública
    Dia 21 de abril, das 9h às 17h, em local a ser definido.

  • Nasce uma revista

    Elmar Bones fez um relato da trajetória de 21 anos do Jornal JÁ (Foto: Arfio Mazzei/JÁ)

    JÁ Especial 21 anos é o número zero da nova publicação da JÁ Editores, e ao mesmo tempo encerra em suas páginas uma história consagrada de mais de duas décadas. A revista foi lançada na noite de quinta-feira, 15 de março, no Memorial do Rio Grande do Sul.

    Um público atento de 300 convidados participou da cerimônia, que teve discursos do diretor do Memorial, o historiador Voltaire Schilling, e de Elmar Bones, que fez um relato da trajetória de 21 anos da empresa que dirige.

    Schilling, um dos intelectuais que fundou o em 1985, lembrou o voluntarismo dos pioneiros. Reconheceu que a gestão era amadora na sua época e que a falta de profissionalismo levou seus companheiros a entregar o jornal para um grupo liderado por Elmar Bones.

    “Quando os jornalistas assumiram o , o veículo se profissionalizou, e agora, aos 21 anos está aí, consolidado como uma publicação relevante para a sociedade gaúcha”.

    Além de Schilling prestigiaram a festa outros fundadores do , como o advogado Helio Rodrigues, o músico Flávio Oliveira e ainda os fotógrafos Luiz Eduardo Achutti e Daniel de Andrade.

    Bones: “Seguimos na busca por um jornalismo de alto nível”

    A apresentação de Elmar Bones resgatou a história do jornal que acumula diversos prêmios, inclusive o único Esso de Reportagem vencido pelo Rio Grande do Sul, em uma categoria nacional de jornalismo impresso.

    Desde a época dos intelectuais, o projeto era de um jornal que abordasse temas fora da pauta da grande imprensa, com textos mais aprofundados. “Na primeira capa já está explicita a idéia de buscar assuntos diferenciados”, comentou o diretor da empresa, mostrando a manchete sobre maconha, de outubro de 1985.

    Bones salientou a importância da publicação frente à falta de diversidade na imprensa brasileira, assunto preferido da coluna de PC de Lester, um personagem da redação do . A crítica à imprensa transbordou dos artigos de PC de Lester e ganhou voz durante a cerimônia: “Não é um problema de ideologia, mas sim da exigência de um maior aprofundamento dos temas. No , seguimos na busca por um jornalismo de alto nível”.

    Nova revista quer ampliar horizontes

    Jornalismo crítico, atento e orientado pelo interesse público. Essa foi a proposta do jornal durante seus  21 anos e será a linha da nova revista. A diferença entre as páginas que ficaram na história e a nova publicação será a abrangência – a revista trará assuntos de interesse nacional.

    “Começamos aqui pelo Estado, e aos poucos, vamos avançando para o centro do país”, projeta Bones.

    A capa da edição número zero traz a governadora Yeda Crusius, em reportagem sobre o problema do déficit estadual. “Todos os governos que assumem prometem combater os rombos nos cofres públicos”, lembrou Bones durante sua apresentação, em que foram exibidas diversas capas do sobre o assunto – uma de 1986, outra de 1987 e a recente “Máquina sem Governo”, de agosto de 2006 – reportagem ganhadora do primeiro lugar no Prêmio ARI de Reportagem Econômica.

    Outro destaque dessa edição é o especial sobre o PAC – Plano de Aceleração de Crescimento – que aborda as possibilidades abertas pelo programa e os desafios para pôr em prática a marcha do desenvolvimento. Uma reportagem sobre o ciclo de estudos Fronteiras do Pensamento, mostra o que se pode esperar do maior evento cultural do país no ano.

    A polêmica sobre produção massiva de etanol também encontrou nas páginas da revista um meio para o debate: afinal, o Brasil tem ou não condições de ampliar a área cultivada, dos atuais 5,6 milhões de hectares para um número que gira em torno dos 20 milhões de hectares? Ainda recheam as 64 páginas da publicação uma reportagem sobre a presença do positivismo no Estado, uma reconstituição das últimas horas do presidente Jango no Brasil, em 1964 e os graves problemas que envolvem a mortandade de peixes no Rio dos Sinos.

    A revista pode ser adquirida nas bancas de Porto Alegre por R$ 8,90 ou através da assinatura anual no valor de R$ 106,00 por doze exemplares.

  • Para quem tem fome de teatro

    A mais esperada: Les Éphémerès, partes I e II, cada uma com quatro horas de duração (Foto: Divulgação)

    Naira Hofmeister

    Começou com banquete a 14ª edição do Porto Alegre Em Cena. A platéia do Theatro São Pedro saboreou a apresentação da alemã Hanna Schygulla na abertura oficial do festival, na segunda-feira, 5 de março. No espetáculo Uma Biografia Musical, a musa do cineasta Rainer Fassbinder, interpretou músicas memoráveis de sua vida, acompanhada do piano de Stephan Kania, entremeando canções tradicionais alemãs, clássicos do rock’n roll e até composições de Bach e Schubert com narrativas de seus 63 anos de vida.

    O diretor do festival, Luciano Alabarse, apresentou as atrações de 2007, que trará aos palcos porto-alegrenses um prato cheio para os amantes do teatro de vanguarda. As negociações já vinham desde a edição passada, mas só em 2007 será possível assistir à Ariane Mnouchkine dirigir a turma do Théâtre du Soleil nas apresentações de Les Éphémerès, partes I e II, cada uma com quatro horas de duração.

    A meca dos teatreiros, a Cartoucherie, em Paris, ganhará uma filial porto-alegrense, para abrigar os 70 integrantes da equipe e os 11 contêineres de carga que trarão. Além de camarins, cenários e figurinos, o espaço vai contar com forno e fogão, já que os atores cozinham um jantar para o público em pleno espetáculo.

    Também vão sair de barriga cheia aqueles que assistirem a alemã Ute Lemper – que volta ao festival –, a companhia japonesa Sankai Juku, os argentinos do Bocca Tango e o ballet moderno feito na França por Adrien Mondot, representantes musicais dessa edição. A Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro interpretará Pierot Lunaire, de Arnold Shoenberg, considerada a obra de inauguração do expressionismo, cujo arranjo foi feito sobre poesias de Alberto Giraud, que na versão brasileira, ganhou texto de Augusto de Campos.

    O espanhol será mais uma vez a segunda língua do Em Cena. Da Argentina vêm uma adaptação de Kafka (Comunidad) e outra de Tchekov (Espia una Mujer que se Mata). A uruguaia China Zorrila (protagonista do filme Elsa & Fred), se apresenta em O Caminho para Meca. Da Espanha, Calixto Bieito – considerado a grande revelação do teatro europeu – traz a montagem Plataforma, que parte de um poema do francês Michel Houllebecq.

    Samyr Yazbek (O Invisível e O Fingidor), Ariano Suassuna (Fernando e Isaura e A Pedra e o Reino), Plínio Marcos (Navalha na Carne) e Nelson Rodrigues (O beijo no Asfalto e Toda a Nudez será Castigada) são algumas das delícias nacionais em cena. O festival também contará com a experiente atriz Laura Cardoso na estréia nacional de Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse sob direção do paulista Marcelo Lazzarotto.

    Mas prato cheio mesmo é a implantação do Profit – Programa de Fidelidade ao Teatro Local, que premia espectadores da cena gaúcha. Durante todo o ano, cada cinco peças assistidas na capital, podem ser trocadas por uma entrada para o Em Cena. O 14º Porto Alegre Em Cena acontece de 10 a 23 de setembro, nos principais teatros da cidade. A mesa está posta!