Autor: Elmar Bones

  • Mais chuva não garante qualidade à água gaúcha

    Guaíba é uma das fontes de captação na Capital (Foto: Tânia Meinerz/JÁ)

    Cláudia Viegas, especial para o Jornal JÁ

    Os dois últimos verões gaúchos têm sido lembrados como um pesadelo por quem leva a sério o cuidado com o consumo de água. Ainda está bem vivo na memória o conflito travado no ano passado entre homem e os efeitos dele mesmo sobre a natureza, especialmente no crítico mês de janeiro, em que a captação de água para as lavouras de arroz precisou ser temporariamente suspensa pela Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), quando o Rio Gravataí atingiu 50 centímetros de profundidade em relação ao nível do mar, deixando em alerta a situação de abastecimento para consumo doméstico.

    A partir de um prognóstico do 8º Distrito de Meteorologia do Ministério da Agricultura para entender como será o comportamento das chuvas, aliado a opinião dos diretores de Operações da Corsan e do Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae) de Porto Alegre, pode-se saber o que os municípios abastecidos por essas empresas podem esperar quanto ao próximo trimestre.

    As prvisões atinge um universo aproximado de 1,3 milhão de habitantes na cidade de Porto Alegre, servidos pelo órgão municipal, mais seis milhões de gaúchos (um terço dos habitantes do Estado) abastecidos pela estatal em 367 localidades.

    Um bom começo

    O mais recente boletim do 8º Distrito de Meteorologia (Disme), que foi lançado na sexta-feira passada (20/11), informa que na primeira quinzena deste mês “as precipitações ficaram dentro e acima do padrão climatológico na maior parte do Estado, com exceção do nordeste e norte do vale do Uruguai”.

    Isto indica um bom começo, mas não quer dizer que as condições serão mantidas sempre assim pelos próximos meses. Conforme o coordenador do 8º Disme, Solismar Damé Prestes, os prognósticos baseiam-se principalmente nas condições da temperatura da superfície do mar (TSM), obtidas pelos cientistas por meio de complexos cálculos e instrumentos. “Não podemos prever se vai ou não faltar água, até porque não conhecemos as condições dos reservatórios. Nosso papel é indicar as projeções da meteorologia para os próximos meses”, observa.

    O boletim do 8º Disme explica que “devido às condições atuais da TSM do Oceano Pacífico Equatorial, são esperadas precipitações entre o padrão normal e acima no mês de dezembro em praticamente todo o Estado”.

    “Piorar não vai. No início deste ano, já vínhamos com um período de estiagem que perdurou ao longo de 2005. Neste ano, o modelo estatístico, que leva em conta as águas do Pacífico, mostra chuvas acima da média em novembro e dezembro, ou seja, um pouco acima da média, em até 50%”, indica Prestes.

    Alerta para janeiro

    Para quem pensa que o tempo da abundância de água voltou, um conselho: nada de gastar mais, porque a situação muda em janeiro e fevereiro. “Devido ao possível resfriamento da TSM no Oceano Atlântico Subtropical, é esperada uma redução das precipitações principalmente na metade sul do Estado” – isto principalmente em janeiro de 2007, com a situação amenizando um pouco em fevereiro.

    O documento lança um aviso: “Alertamos para o manejo adequado dos recursos hídricos excedentes até o final do ano, pois há indicativos de redução das precipitações para os meses de janeiro e fevereiro”.

    Os mapas do boletim do 8º Disme apresentam um quadro tranqüilo para o mês de dezembro, com chuvas um pouco acima do normal nas regiões norte e central do Estado, e normal na região sul.

    Em janeiro, porém, a situação muda bastante, e a expectativa é de que todo o território tenha precipitações abaixo do normal, com exceção de uma pequena área bem ao norte. A região da fronteira com o Uruguai aparece como a mais castigada, com previsão de chuvas abaixo do convencional, mais do que no restante do Estado.

    Em fevereiro, é o sul do Estado e a Região Metropolitana que ficam com chuvas abaixo da média. “O sul é a parte mais crítica. As médias de chuvas são menores também devido ao resfriamento do Oceano Atlântico. Recomendamos, então, que as pessoas economizem água e não pensem que só porque tende a chover um pouco mais no Estado, que essas chuvas sejam com a mesma intensidade”, destaca Prestes.

    Disputa e qualidade

    Além de intensificar a cultura de consumo racional de água, as empresas de abastecimento enfrentam outros dois desafios: gerenciar bem o destino e garantir a qualidade do liquido potável.

    A disputa da água entre consumidores domésticos e outros – especialmente a agricultura, que absorve 85% das águas nas bacias dos rios dos Sinos e Gravataí – polariza boa parte dos esforços da Corsan. “Temos participado ativamente de todas as reuniões dos comitês de bacia do Estado. Na Região Metropolitana, nas bacias do Gravataí e do Sinos, temos o conflito pelo uso da água, e a Constituição Estadual manda que a prioridade seja para o abastecimento público”, relata o diretor de Operações da estatal, Jorge Accorsi.

    Tragédia no Rio dos Sinos pode afetar qualidade da água (Foto: Divulgação/JÁ)

    Segundo ele, o sinal de alerta aparece quando o Gravataí, por exemplo, atinge um metro acima do nível do mar nos pontos de captação. “Aí nós começamos o bombeamento alternado, com três dias sim e dois não para a agricultura”, explica. “No ano passado, tivemos 50 centímetros, e a captação para os arrozeiros foi paralisada até que se normalizasse o quadro. E mesmo há poucos dias, tivemos o rio com 80 centímetros”, acrescenta.

    Accorsi está otimista a partir dos dados da meteorologia para os próximos meses: “Temos previsão de que vai chover na média ou um pouco abaixo e de que, portanto, não haverá problemas de abastecimento. A situação é bem melhor do que no ano passado”.

    A qualidade da água, porém, é um fator de preocupação, ainda mais depois do acidente ocorrido no início de outubro no Rio dos Sinos. “Baixou muito o nível de oxigênio e tivemos que aumentar a dosagem de produtos químicos – cloro, sulfato de alumínio, permanganato de potássio e carvão ativado”, conta. “Tudo isto para manter os padrões dentro das exigências da Portaria 518/2004 (dispositivo do Ministério da Saúde que trata de normas de qualidade da água para consumo humano)”.

    Captação no Guaíba depende de produtos químicos

    Em Porto Alegre, o Dmae também está tranqüilo quanto à capacidade de fornecimento. “Temos oito estações de captação no Lago Guaíba, no qual a variação de volume não é tão expressiva, pois enquanto um rio se reduz em 20% a 30% de seu volume numa estiagem, o lago não sofre este problema, ele é formado por sete rios que o abastecem, sendo o Jacuí o de maior vazão”, afirma o diretor de Operações do Departamento, Valdir Flores.

    De acordo com ele, um ponto crítico de captação nos últimos meses é o localizado no bairro Navegantes, que abastece esse bairro e o São João, próximo à altura da Rua Câncio Gomes. “O porto foi deslocado para lá e, desde então, o movimento dos navios gera uma mexida no fundo do lago, causando alguma turbidez”, conta.

    Já quanto ao problemático ponto de captação junto ao clube Veleiros do Sul, no bairro Tristeza, Flores assinala que foi deslocado para 1,5 mil metros lago adentro, a fim de sair da área de influência do Arroio Cavalhada, onde há instalações do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP). “Ali, nosso maior problema era o esgoto doméstico”, diz.

    Flores corrobora a avaliação de Accorsi com respeito à qualidade da água. “Este é o nosso maior problema, em especial a ocorrência de algas quando o tempo está seco por um período prolongado e há sol radiante”, explica. Nessas situações, a água apresenta odor e cor.

    O sulfato de alumínio é o produto tradicional utilizado para melhorar as condições do líquido, mas, conforme Flores, o Dmae introduziu, no ano passado, o policloreto de alumínio. “Trata-se de um processo piloto que estaremos utilizando neste verão”, informa.

    A diferença é que o sulfato de alumínio faz baixar o pH (potencial de hidrogênio ou índice de acidez/alcalinidade) da água para 5, enquanto que o pH dela nos pontos de captação é de mais ou menos 6. “Para equilibrar o pH, precisamos usar hidróxido de cálcio ou hidróxido de sódio”, afirma.

    O policloreto de alumínio, que está sendo introduzido, não altera o pH, além de dispensar o uso de corretores de acidez. Assim, mesmo sendo um produto importado e que exige instalações especiais para sua utilização, é considerado vantajoso pelo técnico. “Temos um estoque de policloreto de alumínio para uso neste verão. O resultado da experiência piloto foi muito bom, mas não queremos abandonar o uso de sulfato de alumínio porque é um produto nosso, produzido localmente. O policloreto de alumínio será nosso produto alternativo” resume Flores.

    Mudança climática

    Se esta é uma expressão que preocupa países e faz ONGs marcharem contra o excesso de queima de combustíveis fósseis, ainda não está na agenda estratégica da Corsan, do Dmae e mesmo do 8º Disme. “Para nós ainda são especulações os efeitos da mudança climática no Estado. Sabemos que podem aumentar as anomalias e os eventos extremos, mas não temos nada específico quanto a este assunto. O que temos é a previsão climática para três meses”, afirma Solismar Prestes.

    Ele assinala, porém, que as séries de dados mostram um aumento das temperaturas mínimas no Estado, nos últimos anos. “Se levarmos em conta os últimos 40 anos, vamos constatar que a média de chuvas até aumentou no Estado, situação bem diferente da que temos se considerarmos apenas os últimos três ou quatro anos”, ressalta o meteorologista.

  • Quem polui o Rio dos Sinos

    Elmar Bones

    O diretor técnico da Fepam, Jackson Muller, é biólogo. Mas naquela manhã ele mais parecia um médico à beira de um paciente terminal. Próximo a seus pés, na beira d’água, peixinhos se debatiam, asfixiados. A trinta metros, no meio do rio, um aerador agitava a água para melhorar a oxigenação. “Ele ainda está sob terapia intensiva. Nos pontos mais críticos vamos ter que colocar linhas de oxigênio puro para ajudar”, diz Muller, fitando a outra margem.

    Quando menino, Muller vinha ali pescar com seu pai: “Vínhamos com caniços, a gente jogava a linha lá no meio do rio”. Agora, aos 42 anos, ele dirige uma operação custosa que envolve barcos, draga, bombas d’água, compressores e oxigênio – uma operação de emergência para tentar reanimar o rio dos Sinos, atingido por uma brutal carga de poluição que deixou um trecho de 15 quilômetros praticamente sem vida. “Estamos tentando criar um corredor de passagem a fim de que os peixes possam subir para a desova”, explica.

    Ele aponta a curva onde os peixes mortos formaram um tapete, no local chamado Pesqueiro, entre Portão e Sapucaia do Sul. É um ponto onde o rio faz um cotovelo e o movimento das águas é mais lento. Ali se acumulou a carga tóxica. Como é época da piracema, uma grande quantidade de peixes vinha subindo o rio, para desovar na nascente. “Quando chegaram aqui, os cardumes ficaram sem oxigênio, começaram a buscar refúgio nas margens e a morrer”.

    O oxigênio é o indicador da vida no rio. Normalmente, o índice de oxigênio naquele ponto é de 5 miligramas por litro. No dia do desastre chegou a zero e agora, um mês depois, ainda está em 0,8 miligramas por litro, insuficiente para que os peixes sobrevivam.

    Mediadas paliativas:

    “É o maior desastre ambiental no Sinos em 40 anos”, segundo Muller. Foram recolhidas 100 toneladas de peixes de 16 espécies – Cascudo, Grumatã, Viola, Cará, Jundiá, Cará (2), Lambari, Piava, Traíra, Dourado, Branca, Mandi, Pintado, Biru, Biru (2), Voga – além de exemplares de outras duas espécies exóticas de peixes.

    A mortandade foi causada por um conjunto de fatores coincidentes. O rio estava com o nível baixo em função das chuvas que foram insuficientes no inverno e da captação de água fora do normal para as lavouras de arroz. Fora isso, a água estava sendo represada pelo vento e, em alguns pontos, pelo assoreamento.

    Para completar o quadro da tragédia, uma carga maior de efluentes tóxicos foi lançada por indústrias, fato bastante comum nos fins de semana. No ponto em que se concentrou essa carga, o oxigênio foi a zero, matando os cardumes que subiam em direção à nascente. “Esse episódio é um divisor de águas”, avalia Muller, lembrando que o problema é recorrente e cumulativo. “A situação do rio vem se deteriorando ano a ano”, diz. Na verdade, há meio século a mortandade de peixes no rio dos Sinos já era preocupação do ecologista Henrique Luís Roessler, o primeiro a denunciar a transformação do rio num esgoto a céu aberto.

    Crime

    O movimento Viva São Leopoldo, que inclui diversas entidades de lojistas, empresários e lideranças comunitárias da cidade lançou um manifesto, cobrando providências efetivas e exigindo a divulgação dos culpados pelo crime do Rio dos Sinos.

    O texto, de 31 de outubro, entregue aos meios de comunicação e às autoridades da região e do Estado, diz que nada tem sido feito pelo rio há muitos anos. “O Sinos e seus afluentes estão pela hora da morte, envenenados por pessoas sem escrúpulos”, denuncia o grupo.

    As instituições apoiadoras da iniciativa garantem que não vão abrir mão da apresentação dos culpados. “As empresas devem ser denunciadas publicamente para que todos possamos saber quem são os algozes do rio dos Sinos. As multas devem ser expressivas para que eles possam avaliar o abalo moral da sua empresa e quanto custaria se adequarem à legislação ambiental”.

    O manifesto diz ainda que “se sabe quem são as empresas poluidoras, mas por conchavos, propinas, desconversações e descaso, nada é cobrado e fiscalizado e os desgastes ambientais continuam, só que cada vez mais, em maiores proporções”.

    O movimento Viva São Leopoldo exige ainda que o trabalho da Fepam seja constante daqui para frente, para que os dados coletados sirvam de prova para poder autuar os infratores.

    “Jogaram produtos muito fortes no rio”

    Sábado, 7 de outubro. O barco Martim Pescador, com 54 pessoas a bordo, retorna de Porto Alegre em direção a São Leopoldo. Era em torno de quatro da tarde, quando, já no rio dos Sinos, começaram a aparecer os peixes mortos, muitos se debatendo asfixiados. Na altura em que o Arroio Portão deságua no Sinos, próximo a Sapucaia do Sul, uma verdadeira tragédia – milhares de peixes mortos cobrem a superfície do rio.

    O relato é do ex-prefeito e ex-secretário do Meio Ambiente de São Leopoldo, Henrique Prieto, 68. Ele é presidente do Instituto Martim Pescador, que criou há quatro anos e que se dedica à educação ambiental. Estava regressando de uma aula com seu barco-escola, quando presenciou o desastre.

    Ali mesmo, Prieto resolveu fazer um documento, para confirmar que a mortandade começava no Arroio Portão. Todas as pessoas no barco assinaram o texto. Outra providência imediata foi contatar a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) e a secretaria de Meio Ambiente de São Leopoldo.

    As primeiras informações chegaram ao Serviço de Emergência da Fepam por volta das 18h, pelo biólogo Joel Garcia, coordenador do serviço de fiscalização da Secretaria do Meio Ambiente de São Leopoldo. Quem atendeu ao chamado foi a bióloga Cleonice, da Fepam.

    Às 13h do dia seguinte, ela se deslocou ao rio dos Sinos acompanhada do engenheiro químico Renato das Chagas, para a localidade de Passo do Carioca. Lá, iniciaram a avaliação do estrago e tomaram as primeiras medidas para atenuar o desastre.

    Ao longo do sábado e do domingo, os peixes mortos foram se acumulando. Na segunda-feira, 9 de outubro, os cardumes começaram a ser retidos. Também neste dia, iniciou-se a coleta de amostras de sedimento, água, peixes e efluentes, trabalho que prosseguiu até o dia 13.

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    Barco Martim Pescador foi o primeiro a registrar o desastre

    Ainda indignado com o acontecimento, Henrique Prieto é pessimista sobre a solução para o caso. “Vai acabar em pizza mais uma vez”, prevê. “Primeiro porque a Fepam demorou a fazer a análise do rio, só começou na segunda-feira. Foi possível detectar os produtos que causaram a mortandade, mas não identificar quem fez isso”, entende.

    O presidente do Instituto Martim Pescador não tem dúvidas de que a gota d’água para a ocorrência da mortandade foi o despejo de efluentes industriais. “Em um determinado momento, jogaram produtos muito fortes no rio”, acredita.

    “Se a Fepam tivesse uma fiscalização eficiente, isso não teria acontecido. O problema é que o órgão ambiental não tem condições, falta gente. O arroio Portão é uma verdadeira cloaca, mas até hoje não aconteceu nada. É preciso vontade política para montar essa grande estrutura de fiscalização. E multar”, defende.

    Documento para Yeda

    A Fepam diz que o desastre totalizou 80 toneladas de peixes, o Instituto Martim Pescador calcula que sejam 160 toneladas. O órgão ambiental do Estado estima em 1 milhão o número de peixes mortos. “Pensamos que foram mais de 2 milhões, porque a ocorrência se deu no período de reprodução, havia muitos peixes pequenos”, diz Henrique Prieto, presidente da ONG.

    Além de denunciar e contabilizar os danos da tragédia, o Instituto Martim Pescador também agiu para que os culpados sejam encontrados. Dois dias depois do crime, lançou um disque-denúncia, que recebeu 24 mensagens. O conteúdo foi encaminhado à Fepam, Ministério Público e Polícia Civil de Sapucaia do Sul, que abriu inquérito.

    Houve ainda outras atividades como o abraço ao Rio dos Sinos, bloqueio simbólico da BR-116, e um protesto em 7 de novembro, quando o episódio completou um mês. “A idéia é promover alguma ação no dia 7 de cada mês, para não deixar que este fato seja esquecido”, promete o presidente do Instituto Martim Pescador.

    Prieto conta ainda que a ONG fará uma exposição com fotos, números, mapas e o conteúdo das mensagens recebidas no disque-denúncia. O Instituto também está preparando um documento a ser entregue para a nova governadora, exigindo medidas para o meio ambiente, como a melhoria na infra-estrutura e a contratação de mais funcionários.

    “Meio ambiente não é prioridade”

    A Associação dos Servidores da Fepam (Asfepam) encaminhou carta aberta ao Conselho Estadual do Meio Ambiente e à sociedade gaúcha em 7 de novembro. O texto diz que o monitoramento do rio mostra que a qualidade da água cai cada vez mais pelo despejo de esgoto sanitário e industrial. “Isto tem gerado ocorrências cíclicas de mortandade de peixes”. A Asfepam lembra que desde 1977 o órgão ambiental tem se esforçado para mitigar impactos gerados pelas atividades poluidoras naquela bacia, como a portaria de curtumes no início da década 80, o sistema de monitoramento e o Comitê da Bacia.

    Para o grupo de funcionários da Fepam, o episódio evidencia falhas dos sistemas planejados para proteger o ambiente no Rio Grande do Sul. A falta de estrutura e de recursos dificulta, por exemplo, o trabalho de enquadramento dos rios (metas de qualidade) e dos planos de bacias como diretrizes definidoras da recuperação e manutenção da qualidade da água. Os servidores também criticam a descontinuidade administrativa no setor. Desde a criação da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, há sete anos, foram cinco secretários – somente no último quadriênio, quatro pessoas assumiram o cargo. Além disso, a Asfepam reclama que “o corpo técnico foi publicamente desacreditado”, apesar de trabalhar de forma anônima, evitando muitos outros desastres.

    “O que o episódio comprova é que meio ambiente não é prioridade para os representantes da sociedade deste Estado”, resume a Asfepam, observando que o desenvolvimento tem sido pensado sem preocupações em impedir agravos ao meio ambiente. “É urgente a implementação de ações preventivas. São necessários gestores com conhecimento e comprometimento com as causas ambientais, garantia de execução dos recursos orçamentários do Estado para os órgãos do Sistema Estadual de Proteção Ambiental”, conclui o manifesto.

    Prefeituras tem 180 dias para apresentar plano

    A situação de emergência ambiental levou a Fepam a publicar uma portaria em 11 de outubro, determinando a redução em 30% da vazão licenciada de todas as atividades industriais situadas na sub-bacia do Arroio Portão.

    A medida para combater a poluição industrial não é isolada. A mesma portaria define o prazo de 180 dias para os municípios apresentarem uma proposta de Plano de Saneamento, voltado a redução do lançamento de esgoto doméstico sem prévio tratamento. As cidades da Bacia do Rio dos Sinos tratam, em média, apenas 10% do esgoto.

    “São Leopoldo trata só 18%, Novo Hamburgo 2%, Sapiranga 2%. Cerca 90% do esgoto doméstico dos 32 municípios é despejado in natura no rio. E essa região tem uma população de 1,3 milhão de habitantes. O problema é que as prefeituras não têm dinheiro para tratar esgotos. A única maneira é a criação de um fundo federal com esse fim”, entende o presidente do Instituto Martim Pescador, Henrique Prieto, que é ex-prefeito de São Leopoldo.

    Além do esgoto, há casos de lavouras em Áreas de Proteção Permanente, uso indiscriminado de agrotóxicos, ocupações irregulares de banhados, extração mineral, pesca predatória na piracema, destruição de vegetação ciliar, depósito de areia e lixo.
    Boa parte dos 190 km de extensão do rio dos Sinos está comprometida. A bacia hidrográfica possui uma área de 3.820 km2, correspondendo à 4,5% da bacia hidrográfica do Guaíba e 1,5% da área total do Estado do Rio Grande do Sul.

    Suas nascentes estão localizadas na Serra Geral, no município de Caraá, a cerca de 900 metros de altitude correndo no sentido leste-oeste até a cidade de Novo Hamburgo, desembocando no delta do rio Jacuí entre as ilhas Grande dos Marinheiros e das Garças.

    Em dois anos, 313 empresas multadas

    Depois do desastre ambiental no Rio dos Sinos em 7 de outubro, a Fepam autuou seis indústrias, entre os dias 8 e 19: dois curtumes, duas papeleiras, uma empresa de alimentos, e uma química. Ao todo, as multas aplicadas superam R$ 1,2 milhão.

    Foram punidas a UTRESA (União dos Trabalhadores em Resíduos de Estância Velha), a Três Portos S/A – Indústria de Papel, de Esteio, e a Gelita do Brasil, curtume de pele de porco, de Estância Velha. As outras três infratoras não puderam ser identificadas após obterem liminar no dia 19 de outubro.

    Uma delas é a PSA Indústria de Papel, de São Leopoldo. Essa empresa, aliás, foi flagrada pela Fepam fazendo um novo despejo de carga poluidora no Rio dos Sinos, em 11 de novembro. As imagens foram mostradas na televisão, mas o nome da empresa, mais uma vez, não foi citado.

    Funcionários da Fepam lembram que as seis companhias identificadas não são as únicas culpadas. “Não vamos conseguir encontrar todas as responsáveis. Mas através de análises de procedências, identificamos essas seis cometendo irregularidades”, explica o diretor técnico Jackson Muller.

    O fato é que apenas nos últimos dois anos, em 1.283 vistorias, o órgão ambiental multou 313 empresas de 30 municípios. Todas essas companhias estavam infringindo a lei, despejando resíduos tóxicos sem tratamento no rio.

    A Fundação de Proteção Ambiental do Rio Grande do Sul informa a localização e a atividade dos autuados, mas não libera o nome.A fiscalização do órgão governamental é feita conforme o volume de efluentes de cada empresa. Até 20 metros cúbicos por dia é fiscalizada semestralmente, mais de 20 metros cúbicos/dia é mensal. São feitas coletas para análise da água: Ph, temperatura, DQO, presença de metais pesados.

    A poluição industrial chega diretamente ao Sinos, mas também deságua nele, através de pequenos cursos d’água como o arroio São Joaquim, Cruzinha, Portão, João Correia Pinto, Gauchinho, Pampa e outros nos quais várias empresas lançam seus efluentes. “As demandas cresceram exponencialmente e a capacidade do rio é a mesma, ou até inferior, porque ele tem menos água”, diz Muller.

    Maior desastre ambiental dos últimos 40 anos na Bacia do Rio dos Sinos matou peixes de 18 espécies | Fotos: Divulgação
    Maior desastre ambiental dos últimos 40 anos na Bacia do Rio dos Sinos matou peixes de 18 espécies | Fotos: Divulgação

    As seis empresas autuadas pela Fepam, entre 8 e 19 de outubro de 2006:

    1-Liminar concedida pela Pretora da 2ª Vara Civil de São Leopoldo em 19/10/06 – 14h:40 min
    (impedido de divulgar) – R$ 131.175,00
    2-Liminar concedida pelo Juiz de Direito Pela 3ª Vara Civel de São Leopoldo em 19/10/06 -14h:20min (impedido de divulgar)   – R$ 166.086,00
    3-U.T.R.E.S.A – União dos Trabalhadores em Resíduos de Estância Velha Estância Velha  R$ 463.386,00
    4-TRES PORTOS S/A – INDUSTRIA DE PAPEL Esteio  R$ 109.423,34
    5-GELITA DO BRASIL LTDA (curtimento de pele de porco, alta carga orgânica)  Estância Velha  R$ 158.604,00
    6- Liminar concedida pelo Juiz de Direito pela 3ª Vara Civel de São Leopoldo em 19/10/06 -14h:20min (impedido de divulgar) – R$ 188.432,00

    Valor total das multas  R$ 1.217.106,63

    Canoas e Campo Bom lideram a lista

    Dos 32 municípios que fazem parte da Bacia do Rio dos Sinos, apenas Glorinha e Caraá, onde se localiza a nascente, não têm empreendimentos autuados pela Fepam nos últimos dois anos. A lista é liderada por Canoas, que registra 57 empresas autuadas, a maior parte do setor de transporte rodoviário de produtos e ou resíduos perigosos.

    Em segundo lugar, está Campo Bom, que apresenta 38 companhias de diversos ramos multadas por cometerem irregularidades com prejuízos ao meio ambiente. São empresas como fábricas de calçados, de artefatos de plásticos, de produtos químicos, entre outras. A lista ainda tem Cachoeirinha (27 ocorrências), Gravataí (25 autuados), Portão e São Leopoldo (23 empresas multadas, cada), Novo Hamburgo (22 ocorrências), Estância Velha (16), Gramado (12), Esteio (10) e Santo Antônio da Patrulha (10).

    Curtumes e fábricas de calçado ainda são vilões

    Entre as atividades mais poluidoras que foram multadas pela Fepam entre 2004 e outubro de 2006 na Bacia do Rio dos Sinos, destaca-se o ramo coureiro-calçadista. As fábricas de calçado, componentes para calçados, acabamento em couro e curtume completo somam 39 empreendimentos autuados.

    Outros ramos também representativos são: comércio varejista de combustíveis (postos de gasolina), que somou 23 ocorrências; transporte rodoviário de produtos e ou resíduos perigosos (19); fábricas de artefatos de material plástico (16); fábricas de produtos químicos (10); e fábricas de artefatos de papel (7).

    Rio dos Sinos, vítima antiga

    A poluição do Rio dos Sinos pelas indústrias e as seguidas mortandades de peixes. Era exatamente este um dos temas de Henrique Luís Roessler há meio século, quando ele começou a publicar no Correio do Povo as suas crônicas, pioneiras do ambientalismo no Brasil.

    Sua atualidade é atestada pelas manchetes e as fotografias nos jornais dos nossos dias. Ele mostra como o Sinos, manancial que nasce cristalino e em cujas margens se desenvolveu a colonização alemã no Rio Grande do Sul, é uma vítima antiqüíssima do descaso.

    “Em 1924, quando se comemorou o centenário da Imigração Alemã, já havia 700 curtumes instalados junto à bacia dos Sinos”, diz o autor do livro. Em 1957, Roessler já denunciava a mortandade de peixes e denunciava as indústrias e prefeituras.

    O ecologista, segundo Centeno, atribuía a quatro fatores a degradação dos recursos naturais no Rio Grande do Sul: ineficiência do governo, o descaso dos políticos, atitude predatória dos empresários e a passividade da sociedade. “Todos esses fatores estão presentes nos acidentes ambientais de hoje”, diz Centeno. É sempre assim: “Quando acontece, há uma gritaria, as empresas pedem tempo e prometem resolver, depois o assunto cai no esquecimento, até acontecer de novo”, resume.

  • Copesul lança o projeto cultural Fronteiras do Pensamento

    Luiz Fernando Cirne Lima, superintendente da Copesul e Paul Kennedy, pensador norte-americano durante a coletiva de impensa que anunciou os convidados do projeto em 2007 (Foto: Fernanda Davoglio/ Divulgação)

    Helen Lopes

    A Copesul lançou na noite de terça-feira, 21, o seu projeto cultural 2007 – Fronteiras do Pensamento. Antes da palestra do historiador norte-americano Paul Kennedy – que esteve em Porto Alegre especialmente para a abertura do projeto – o superintendente da empresa, Luiz Fernando Cirne Lima, juntamente com o cienista-político Fernando Schüler, anunciou, no Salão de Atos da UFRGS, uma série de seminários com pensadores internacionais que acontecerá o longo do próximo ano, sempre as terças-feiras.

    Com Fronteiras do Pensamento, a Copesul pretende instigar o debate de temas contemporâneos, na perspectiva de que não há certezas absolutas. No vídeo de apresentação, o jornalista Paulo Markun falou de aspectos que inquietam a sociedade moderna e convidou a todos para “uma aventura intelectual”.  “Quais sãos os grandes desafios da democracia? Como gerar um capitalismo dinâmico que incentive a inovação e promova a justiça social? O que passa na arte e no cinema contemporâneo?”, instigou Markun.

    O projeto cultural Copesul 2007 se diferencia de todos os programas realizados pela empresa nos últimos anos. Além de trazer conferencias de todas as partes do mundo – 30 já estão confirmados –, Fronteiras do Pensamento valerá como curso de extensão universitária em quatro instituições do Estado (UFRGS, UERGS, Unisinos e PUCRS).

    Também serão produzidos quatro documentários, com 54 minutos cada, destinado a tevês educativas, universidades e espaços culturais, um livro de ensaios, com as palestras e os textos originais dos intelectuais convidados, e ainda quatro cadernos paradidáticos direcionados aos professores e aos estudantes do ensino médio.

    Conforme Schüler, a intenção é debater “temas de fronteira como estética, arte, pensamento e economia”.  “A vinda de Paul Kennedy, que é um pensador global, representa o que queremos: fazer uma discussão global”, anunciou o professor. O superintende da Copesul, Luiz Fernando Cirne Lima, apenas resumiu: “É um projeto ambicioso”.

    Entre os nomes aguardados para o Fronteiras do Pensamento estão: Bernard Henry Lévy, filósofo e jornalista, escritor de O século de Sartre, Michel Houellebecq, escritor de Partículas Elementares, que provocou polêmica na França em 1998; Pierre Lévy, filosofo e pesquisador da cibercultura e Jorge Casteñeda, historiador e chanceler mexicano entre 2000 e 2003.

    Serviço

    O seminário internacional Fronteiras do Pensamento será realizado entre os dias 20 de março e 4 de dezembro de 2007, em 22 conferências, sempre as terças-feiras. A organização informou que a programação  definitiva será apresentada em janeiro e que poderá sofrer alterações.

    Para participar dos encontros, os interessados devem adquirir um passaporte – no valor de R$ 500,00 – que dá direto há um ingresso por conferência.

    Onde adquirir o passaporte

    Livraria do Arvoredo
    Rua Félix da Cunha 1213 – Bairro Moinhos de Vento

    Livraria Bamboletras
    Centro Comercial Nova Olaria – Rua Gen. Lima e Silva 776, loja 03 – Bairro Cidade Baixa

    Loja do MARGS – Museu de Arte do Rio Grande do Sul
    Praça da Alfândega s/nº – Centro
    Central de Atendimento 51 3333.6475 – de segunda a sexta, das 9h às 18h.
    Através do site www.copesulcultural.com.bram

  • Encontro entre o passado e o presente da cerveja gaúcha

    Prédio será ocupado pela Dado Bier  (Fotos Edson Vara/Divulgação)

    Naira Hofmeister

    Era o único dos prédios projetados por Theodor Wiederspahn para a Cervejaria Bopp em 1910, ainda desocupado desde a inauguração do Shopping Total, em maio de 2003. Na construção funcionava o coração da cervejaria, pois eram nos três pavimentos – que totalizam 950m² – que tonéis, tanques e fermentadores fundiam malte, lúpulo e água para a produção da bebida. Em todo o prédio detalhes denotam a importância do local, como as imagens dos homens bebendo entalhadas nas grades ou a enorme escultura de Gambrinus, o deus da cerveja, que brinda com os visitantes na parte externa da construção.

    Depois de oito anos desativado, quando em 1998 a Brahma – que sucedeu as cervejarias Bopp, Continental e Ritter na produção local – fechou as portas, a construção reencontra sua vocação original através de uma parceria com a Dado Bier, que pretende implantar ali um restaurante temático. “É sem dúvida uma oportunidade única no mundo, pois estamos fundindo o passado e o presente da cerveja em Porto Alegre”, comemora Eduardo Bier Corrêa, proprietário da microcervejaria inaugurada há 11 anos.

    O edifício será ocupado por um bar-restaurante, com cozinha coordenada pelo Edevaldo Nunes, responsável pelo comando das cozinhas dos restaurantes Dado Bier. Além da metragem interna, outros 500m² de varanda serão ocupados pelo novo empreendimento, que deve custar cerca de dois milhões à cervejaria. Em julho de 2007 deve estar concluído. “Nos próximos 90 dias começaremos as obras”, garante Eduardo Bier Corrêa.

    Através de um resgate arquitetônico, o local vai servir como memorial da cerveja, contando a história da produção local da bebida e da relação do espaço com a população. Ao ser inaugurada, a Cervejaria Bopp foi considerada a mais vasta edificação de cimento armado do Brasil. Além do projeto do alemão Theodor Wiederspahn, que inclui uma torre, arcos e cúpulas, a fachada possui ornamentos e relevos executados pela equipe de escultores de João Vicente Friederichs.

    Detalhes arquitetônicos da fachada, como a torre e a escultura de Gambrinus

    A atividade de meio século que a Brahma desenvolveu no espaço levou o empresário a procurar a AmBev – Companhia de Bebidas da América, que absorveu a marca gaúcha,  para participar do projeto: “Seria inadequado esse lugar ser Dado Bier, se foi a Brahma que marcou história aqui”, lembra. A parceria, no entanto, ainda não foi oficializada.

    Em 1924, a Cervejaria Bopp – que funcionava desde 1911 – se tornou Cervejaria Continental, empresa constituída pela fusão das cervejarias Bopp Irmãos, Bernardo Sassen e filhos e sucessores de Henrique Ritter, tradicionais famílias cervejeiras, sendo na ocasião aumentada e dotada de modernos recursos técnicos. Em 1946, a Cervejaria Continental, então o maior grupo cervejeiro do Rio Grande do Sul, foi adquirida pela Brahma, permanecendo ativa até 1998.

  • Câmara levanta mapa do livro

    Guilherme Kolling

    Um levantamento inédito da Câmara Riograndense do Livro vai revelar o número e a localização das livrarias no Rio Grande do Sul. A pesquisa deve ficar pronta em 2007.

    “O empresário terá um mapa completo, onde poderá ver as carências e as oportunidades em todo o Estado”, observa o presidente da Câmara do Livro, Waldir da Silveira. A falta de pontos de venda é uma das principais queixas de editores e distribuidores.

    A Câmara estima que dois terços dos municípios gaúchos não tenham livraria. “Isso acontece até em cidades com 100 mil pessoas, quando a Unesco recomenda uma livraria para cada 10 mil habitantes”, lembra Paulo Ledur, ex-presidente da CRL e diretor da AGE Editora.

    Se o interior sofre com a escassez, Porto Alegre vive outra realidade desde que começaram a chegar as grandes redes, como Saraiva, Siciliano, Porto e Cultura, que instalaram lojas imensas nos shopping centers da cidade. Uma conseqüência imediata foi o fechamento de diversas lojas pequenas. “É uma tendência perigosa que se observa no Brasil, pois afeta o ponto de venda e por conseqüência os editores”, lamenta Ledur.

    Ledur reclama da falta de pontos de venda no Estado (Foto: Guilherme Kolling/JÁ)

    Luis Gomes, editor da Sulina, não tem ilusões: “A tendência é que surjam mais dessas grandes livrarias. E a presença delas resulta na queda do livreiro de bairro, que terá cada vez menos espaço”. João Cervo, proprietário das livrarias Cervo e tesoureiro da CRL vai no mesmo tom: “As mega estão centralizando o mercado”.

    O presidente da Câmara do Livro, Waldir Silveira, procura relativizar o efeito: “Sempre existe um impacto com a chegada das grandes. Mas elas estão ocupando uma lacuna deixada no mercado pela quebra da Sulina, da Mercado Aberto e a crise da Globo”.

    “Pequeno tem que se especializar”

    “É pena que estejam fechando as livrarias de calçada em função das grandes cadeias porque, salvo exceção, o atendimento é muito ruim. Vendem sapatos ou livros do mesmo jeito”, lamenta João Carneiro, editor da Tomo Editorial.

    Ele acha que a tendência do consumidor é ir ao shopping e que “a livraria, como espaço de convivência, onde o livreiro orienta o cliente sobre as novidades,  infelizmente, está acabando”.

    O representante dos livreiros na Câmara Riograndense do Livro, Vitor Zandomeneghi, entende que a chegada das grandes empresas é um fenômeno natural do capitalismo. “A economia é movida por essas regras, busca-se ganho de escala, por isso essa onda de fusões, essa concentração”, avalia.
    Ele acha, no entanto, que há soluções e aponta o exemplo dos minimercados, que se mantiveram mesmo com a vinda de Carrefour, Sonae e Wall-Mart. “Os pequenos terão que se habituar à concorrência e resistir”.

    O diretor da L&PM, Paulo Lima, concorda que as grandes redes, salvo exceções como a Cultura, pecam no preparo do balconista. E vê nisso uma oportunidade para o pequeno, “que pode dar um atendimento personalizado”. “O livreiro precisa de uma identidade que o diferencie”, concorda Zandomeneghi. “É necessário desenvolver um nicho, atividades na loja, estreitar relacionamento com clientes, criar promoções”, sugere o diretor da Artes e Ofícios, Luís Fernando Araújo.

    “O filão do pequeno livreiro é a especialização”, repete o presidente da Câmara do Livro. “Tem que oferecer um bom serviço, com funcionários qualificados, que conhecem o livro, sabem falar das obras, como faz com sucesso o Rui, da Palmarinca. Ou ter um mix de atividades, como a Palavraria e a Livraria do Arvoredo”, exemplifica Silveira.

    “Aqui não tem Paulo Coelho”

    Naira Hofmeister

    O pequeno livreiro começa a buscar alternativas para competir com as megastores. Comprando grandes quantidades de livros, as redes ganham descontos que podem chegar a 60%, enquanto a livraria recebe entre 25% e 30%. Uma saída seria a Lei do Preço Fixo, como propõe a Associação Nacional dos Livreiros.

    Na Europa, a lei limita em 6% o desconto que pode ser dado a um lançamento, no primeiro ano. Aqui, enquanto a proposta não vira lei, a saída é se aproximar do cliente e resgatar a relação leitor-livreiro. “Quem tem prazer na leitura gosta de escolher com calma, ler trechos e discutir com alguém o conteúdo”, lembra Carlos Luiz da Silva, sócio da Palavraria, que já tem três anos na rua Vasco da Gama. A opinião dos livreiros é que esse leitor não vai à livraria de bairro atrás dos best sellers. “Aqui não tem Paulo Coelho. Se o cliente pede, eu encomendo, mas se colocar na estante, posso até me queimar”, revela Silva.

    Além de manter uma prateleira com títulos diferenciados, lançamentos, cursos e o café expresso se tornaram quase um imperativo para as casas de médio e pequeno porte. Foi isso que perceberam os proprietários de duas novas livrarias do Bom Fim. “Fizemos uma pesquisa com clientes e, mais do que ter um site, eles acham necessário o café e o espaço cultural”, relata Blásio Hickmann, que durante 25 anos manteve a Livraria Digital – especializada em informática – e agora aposta na diversificação do acervo, com a Letras & Cia, na avenida Osvaldo Aranha.

    Natalie Illanes Nogueira veio de São Paulo com dois amigos para abrir a Zouk, uma loja onde os clientes encontram “livros renegados pelas grandes livrarias”. Durante a reforma da casa na rua Garibaldi, ela conta que foram tantos os pedidos para que a livraria tivesse um café que não viu alternativa. “Apesar disso, é raríssimo alguém entrar aqui só para isso”.

    Ventura busca saída na internet

    O fim de 2006 deve marcar o encerramento das atividades de mais uma livraria no centro de Porto Alegre. Desta vez é a Ventura, que há quatro anos funciona numa loja alugada na Marechal Floriano Peixoto, 489. O atendimento à clientela será mantido por telefone e Internet. “Vou ter um custo cinco vezes menor e manter 70% da clientela”, diz o proprietário Gustavo Ventura, o Gus. “A geração que renovaria as vendas de balcão é internauta, usa muito o computador. A partir do acervo virtual estou atingindo gente da Paraíba, por exemplo, que jamais viria até a loja comprar”.

    Com 13 anos de experiência no mercado livreiro da capital, Gustavo vê a figura do livreiro se tornando anacrônica, como o amolador de facas. “Não há mais a relação afetiva com o espaço da livraria, nem com o proprietário”. Mesmo assim, ele espera que a solução virtual seja temporária e que com os resultados possa voltar ao que realmente gosta – a atividade no balcão em meio às prateleiras de livros e em contato com os clientes. “É uma estratégia para enfrentar um momento de crise”, diz. “Pretendo usar a ferramenta da Internet para sustentar o projeto do balcão, do perfil da Ventura, da constituição de um acervo de bons títulos, independente de preço”.

    Ventura: recuo estratégico na livraria (Foto: Naira Hofmeister/JÁ)

    Ao serem informados da crise, alguns clientes tradicionais tentaram reagir. Um deles despachou um e-mail com um apelo no melhor estilo S.O.S, pedindo aos amigos que fossem até o balcão comprar os títulos que pudessem para salvar a Ventura. “Aquela livraria com iluminação discreta, silenciosa, que só tinha livros e não nos entupia com badulaques de papelaria. Dava para ficar em silêncio, para sentar num banquinho e ler. Suspendia o tempo”.

    Gustavo recebeu muitos telefonemas e manifestações de apoio, mas nada que pudesse reverter a situação. Parte do acervo, cerca de 3 mil títulos, já estão no site www.estantevirtual.com.br.

    Prosa i Verso fechou as portas

    Outro exemplo das dificuldades dos pequenos é a Prosa i Verso, livraria de 23 anos que fechou as portas em outubro. Referência para fãs de literatura, o espaço foi homenageado com um texto de Luis Fernando Verissimo na inauguração. Ainda que a proprietária Sara Turkenitch sublinhe que a decisão foi resultado da vida pessoal e não do mercado, ela admite que está mais difícil manter uma livraria. “A entrada da Saraiva até não prejudicou muito, mas depois que a Cultura chegou nós sentimos, porque lá virou um point”. A instalação da Siciliano no shopping Moinhos também dividiu a clientela da Prosa i Verso.

    Gilberto Tarakdian, proprietário da Rogil Livraria, também foi atingido pelas novas megastores. Ele chegou a ter três filiais, todas com grandes espaços. Hoje opera num espaço pequeno no Centro Comercial Bom Fim. “A gente tinha uma loja na 24 Outubro que ia bem, mas com a construção do shopping Moinhos, fomos obrigados a fechar”, lembra. Os livreiros concordam em um outro ponto: a época áurea da venda de livros na Capital foi o início dos anos 90. Mas da segunda metade em diante, os clientes começaram a sumir. Sara acredita que não é um caso isolado. “Não conheço segmento isento da crise”.

    Sebos também reclamam

    Mesmo os donos de sebos – que trabalham com faixas de preço inferiores ou com títulos esgotados – reclamam da queda nas vendas. Mas a culpa não recai sobre as grandes redes. “Há espaço para todos no mercado”, garante Neiva Maria Piccinini, sócia do Beco dos Livros, que mantém 6 lojas no centro de Porto Alegre. No caso dos usados, o problema é a renovação da clientela. Os antigos consumidores estão morrendo e os jovens não adquiriram o hábito de freqüentar sebos. “Não sei onde foram parar os velhinhos poliglotas que levavam livros em três ou quatro idiomas”, lamenta Eduardo Luizelli, proprietário da Livraria Aurora, que chegou a ter quatro lojas no auge dos seus 50 anos.

    Hoje, afogado nos 150 mil volumes da loja que restou, Luizelli planeja a aposentadoria. Gustavo Venura, que também vende usados, diz que o principal público – universitário – tem pouco tempo para ir até o Centro. Prevendo o problema, Carmem Menezes implantou em 1998 o site A Traça, que comercializa usados pela Internet. “No início era devagar, mas hoje vendemos diariamente e somos conhecidos nacionalmente”. A tendência, na opinião dos livreiros, é que o mercado virtual cresça ainda mais. Mas é pouco provável que os sebos acabem. “A maioria dos clientes que entra aqui gosta de ficar com as mãos sujas de pó, procurando o livro que quer”, observa Neiva.

  • Moradores fazem abaixo-assinado contra terminal de ônibus na Cidade Baixa

    A Associação dos Moradores da Cidade Baixa está se mobilizando contra a instalação de um terminal de ônibus no Largo Zumbi dos Palmares, como prevê o projeto Portais da Cidade, apresentado no mês passado pela Prefeitura de Porto Alegre.

    Há três semanas, a comunidade iniciou um abaixo-assinado e busca, através do Conselho do Plano Diretor, uma reunião com o secretário de Gestão e Acompanhamento Estratégico, Clóvis Magalhães, para saber mais detalhes da proposta, que estabelece a construção de mais dois terminais – Cairu e Azenha – com o objetivo de diminuir o fluxo no Centro da Capital.

    De acordo com a vice-presidente da Associação, Kira Zanol, os moradores do bairro não foram ouvidos na elaboração do projeto. “Não houve discussão, essa proposta caiu de pára-quedas”, reclama.

    Além do tumulto noturno dos bares, que tomaram a Cidade Baixa nos últimos anos, a moradora prevê maior movimento durante o dia, aumento da violência e desvalorização do bairro. “Junto com o terminal virão os camelôs, os trombadinhas, a poluição sonora e atmosférica”, entende.

    Moradora iniciou a mobilização

    A moradora Ana Lúcia Lucas teve a iniciativa e montou uma “barraca” no meio da feira Modelo, que acontece as terças-feiras no Largo. Munida de uma faixa improvisada, um banquinho e duas caixas de fruta, que servem de mesa, e algumas laranjas para segurar as folhas, Ana Lúcia ataca todos que passam pela feira para falar do terminal.

    Aos sábados, ela e outra vizinha, utilizam o capô da caminhonete de um dos feirantes para arrecadar as assinaturas. O abaixo-assinado também foi distribuído nos prédios e no comércio do bairro.

    Segundo a Ana Lúcia, já são mais de 4 mil assinaturas. “Toda a comunidade é contra. Não queremos que a feira saia daqui, nem que transformem esse local num terminal de ônibus”, diz a moradora.

    Feirantes não querem deixar o Largo

    Os feirantes do Mercadão do Produtor e da Feira Modelo, realizados no Largo aos sábados e as terças-feiras respectivamente, também são contra o projeto, mas não estão se mobilizando por medo de retaliações da administração municipal.

    “Dependemos da licença da Prefeitura, por isso não podemos agir contra, mas o ideal seria ficar no local, porque tem estacionamento e fácil acesso aos ônibus”, diz Antônio Fonseca, presidente da Associação dos Usuários dos Mercadões da Ceasa, entidade representativa dos feirantes.

    A Prefeitura pretende transferir as feiras para a rua da República, entre a João Alfredo e a Praia de Belas, mas os comerciantes não aprovam a idéia. “As vendas devem diminuir de 20% a 30% com a mudança, porque na República o acesso é mais difícil e não estaremos à vista da população”, prevê Fonseca, que trabalha há 20 anos na feira de sábado.

    Mais de 80 feirantes participam das feiras da Epatur. Cerca de 50 aos sábados, dos quais 30% são pequenos produtores, e 30 nas terças-feiras. A feira de sábado, chamada de Mercadão do Produtor, é uma das mais antigas da cidade, funciona desde 13 de outubro de 1982.

  • Mais títulos, menos vendas

    Em 2005 foram vendidos 18 milhões de exemplares a menos que em 2004 (Foto: Carla Ruas/Arquivo JÁ Editores)

    Guilherme Kolling

    Desde 1990, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) promove a pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”. As informações mais recentes mostram uma tendência curiosa. O número de títulos lançados aumentou, mas a venda de livros caiu. Em 2004, foram 34.858 livros em primeira edição e reedição, contra 41 mil em 2005. Mas as vendas, que chegaram a 288 milhões de unidades em 2004 baixaram para 270 milhões no ano passado.

    “Trata-se de um fenômeno mundial. E o antídoto utilizado pelos editores é diversificar o número de títulos, atendendo ao mercado consumidor e aos autores. Escreve-se cada vez mais e os meios de produção facilitaram a publicação”, observa Paulo Ledur, diretor da AGE Editora.

    Para o editor da Sulina, Luis Gomes, a queda nas vendas se explica pela baixa qualidade do conteúdo. “Aumentou muito a quantidade de livros técnico-científicos. As pessoas têm vontade de publicar e as editoras aceitam, mas com menos cuidados e critérios do que seria desejável. Nos livros de ficção também há uma oferta muito grande”, avalia.

    O diretor da Artes e Ofícios, Luís Fernando Araújo, diz que a explicação é a demanda por novidades. “O mercado está na mão das grandes redes do varejo e elas impõem a compra, sob consiganção, somente de novidades, ou seja, o que já foi lançado há quatro ou seis meses já era. O sistema montado impõe que se lancem livros. Mas aumentar o número de publicações não significa que o brasileiro está lendo mais”.

    Independente da qualidade editorial, a avaliação de que há, no declínio das vendas, grande influência da questão econômica é unanimdade. O empresário João Cervo, proprietário da Cervo, uma rede com oito livrarias, afirma que a queda não está relacionada à falta de interesse ou ao preço do livro, mas sim ao baixo poder aquisitivo da população, que gasta em outras necessidades. “O consumidor acaba tendo que fazer escolhas, a começar pelo lazer. Vai gastar R$ 40 num livro ou em cerveja, cinema?”, exemplifica Luis Gomes.

    “A crise econômica do Estado é um fator determinante na queda das compras de livro”, observa ele. O presidente da Câmara do Livro, que distribui para editoras de obras didáticas sabe bem disso. “Os problemas da agricultura gaúcha se refletem diretamente na compra até do livro escolar. A crise do setor calçadista, a pobreza da Metade Sul, tudo isso atrapalha”, aponta.

    O propreitário da livraria Terceiro Mundo e representante dos livreiros na CRL, Vitor Zandomeneghi, cita outro componente. A disputa com outras mídias, como internet. “As pessoas continuam lendo, só que não necessariamente o livro”, acredita. Apesar de concordar que o item é dos primeiros a serem cortados no orçamento familiar, ele cita a tendência mundial de diminuição do impresso.

    “Livros e jornais não estão muito mais caros. Mas as vendas e as tiragens continuam caindo. Além disso, o Brasil não tem um mercado consumidor de livros forte. Uma grande fatia da população, independente de classe social, não tem o hábito da leitura”, ressalta Zandomeneghi.

    Apesar da queda nas vendas de 18 milhões de exemplares na comparação entre 2004 e 2005, o faturamento aumentou no ano passado. “Com a diversificação dos títulos, as tiragens ficam menores e o preço unitário do livro aumenta. Isso é inevitável em qualquer processo produtivo. Mas ainda assim, convertendo o preço para dólar, o livro brasileiro é até barato”, acredita Paulo Ledur.

    * Pesquisa realizada todos os anos desde 1990 que fornece um completo panorama da indústria do livro brasileira. São os mais confiáveis dos dados disponíveis sobre a quantidade de títulos e exemplares produzidos no Brasil. É patrocinada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL).

    Na contramão, L&PM registra crescimento

    Na avaliação do diretor da L&PM, Paulo Lima, a queda na venda de livros tem uma razão simples: preço alto e baixo poder de compra da população. Ou seja, a saída é vender livro barato, mas essa solução esbarra num hábito arraigado. “O editor brasileiro gosta de livro caro. E o livreiro brasileiro também. Acha que vai ganhar mais. Não percebe que o poder aquisitivo é baixo”, constata Lima. Prova de que esse não é o caminho é a própria L&PM, que vem crescendo em suas vendas de 20% a 35% por causa da coleção pocket, que tem preços acessíveis, cerca de um terço do preço do livro convencional. A oferta é a partir de R$ 6 e vai até por R$ 24, mas nesses casos, são livros com centenas de páginas. Os pockets representam 85% das vendas da L&PM.

    Paulo Lima: mais de 6 milhões de pockets vendidos (Foto: Tânia Meinerz/Arquivo JÁ Editores)

    Além do preço baixo, a estratégia da editora inclui a diversificação na distribuição, com a abertura de novos canais de venda, como supermercado, padaria, posto de gasolina. São 3 mil pontos de venda em todo Brasil. Se deixasse só em livrarias, esse número seria um terço disso.

    “A questão do preço é muito importante. A redução do mercado aconteceu de fato. Mas não afetou a L&PM”, garante Lima. A editora lançou 80 pockets em 2006 e 12 livros convencionais. Ano que vem projeta 100 pockets e 40 livros. Já tem mais de 6 milhões de pockets vendidos desde 1997.

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  • Uma marcha, muitas histórias

    Caminha começou por volta das 7h na BR-290 (Foto: Daniel Cassol/Divulgação)

    Helen Lopes

    O sol estava nascendo na manhã do Feriado de 15 de novembro, quando mais de 500 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) – cerca de 100 crianças – começaram uma caminhada rumo ao trevo de Charqueadas, na BR-290 com a RS-401, última parada antes do destino final: a fazenda Cabanha Dragão, em Eldorado do Sul.

    O MST saiu do Km-139 da BR-290, no município de Arroio dos Ratos, por volta das 7h da manhã. A reportagem do JÁ encontrou os sem-terra às 8h30. Nessa hora e meia, já tinham percorrido quase dois dos oito quilômetros previstos. Quem passava na estrada identificava a mobilização a partir de uma carroça com a bandeira vermelha do Movimento.

    Um carro de som dava o ritmo da mobilização. “Estão cansados?”, pergunta uma das coordenadoras. “Não”, gritam os sem-terra, organizados em duas fileiras no acostamento da via. Alguns metros adiante, o carro da polícia rodoviária desvia o trânsito.

    A caminhada segue em ritmo rápido, apesar dos rostos marcados pelo sol, testas franzidas, suor escorrendo e pés marrons de poeira. Às vezes se houve apenas o barulho do arrastar dos chinelos ou uma foice roçando no asfalto, em outros momentos, palavras de ordem.

    Nesse meio tempo, Ana Hanauer e Mauro Cibulski, coordenadores estaduais do MST, explicam à imprensa o porquê da mobilização. A reivindicação é que o Governo Federal cumpra a meta estabelecida pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) de assentar 1.070 famílias em 2006. Há menos de dois meses do final do ano, apenas 98 famílias foram assentadas no Estado.

    “Também pedimos a liberação de R$ 2,4 milhões, repassados da União ao Governo do Estado, que nos últimos quatro anos não assentou nenhuma família”, afirma Mauro. Em Eldorado do Sul, o MST quer a desapropriação da Fazenda Dragão, de 760 hectares.

    Propriedade de um jordaniano, que está envolvido num inquérito policial por tráfico de droga, a área chegou a ser vistoriada, mas como o MST ocupou a fazenda em junho de 2005, a vistoria foi suspensa pelo Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRF), com base na lei que impede a desapropriação de áreas ocupadas pelos sem-terra.

    “Esse local serve ao crime organizado e à lavagem de dinheiro do tráfico. Deveria beneficiar dezenas de famílias”, diz Ana Hanauer, lembrando que a mídia negligencia essa parte da história. “Não esperamos outra posição, pois a imprensa é financiada pelo grande capital, só enxerga nossos pontos negativos. Temos problemas, sim e são muitos, mas temos também muitas coisas que dão certo”, sustenta Ana, natural de Roque Gonzáles, que está há 10 anos no Movimento.

    Ao chegar na beira da estrada, em menos de uma hora as  barracas estavam quase prontos (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    Após três horas e meia de caminhada, às 10h30, o grupo chega ao destino e começa levantar acampamento – o material já estava lá, fora levado por caminhão. Em menos de uma hora, as barracas estão quase montadas, um poço começa a ser limpo e o almoço preparado. Ana passa instruções aos colonos, que vêm de três acampamentos – Nova Santa Rita, Charqueadas e Arroio dos Ratos –, indicando o ponto em que cada grupo vai se instalar.

    Os coordenadores do MST anunciam que ficam por tempo indeterminado na beira da estrada do trevo de Charqueadas, mas uma das integrantes do setor de alimentação dá a dica. “Temos comida para mais ou menos uma semana”.

    Ao fundo, os fardos de arroz, farinha e feijão (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    A pedagoga que virou professora do MST

    Integrada à marcha, encontramos a pedagoga Julia, professora da rede estadual em Mato Grosso. Aos 42 anos, ela decidiu mudar de vida e passou a educar os filhos dos sem-terra no Rio Grande, seu estado natal. Depois de criar os dois filhos homens, ela e o marido partiram em busca da “realização pessoal”. Ela garante que a família apóia. “Entendem que o importante é que eu esteja feliz”, conta.

    Julia explica que “sempre sentiu uma inquietação, queria ajudar a construir a conscientização coletiva”. Para isso, acha que o ensino é o melhor meio. Há oito meses no Movimento, ela educa 50 crianças na Escola Itinerante do acampamento de Nova Santa Rita, região metropolitana de Porto Alegre. “Trabalhamos com os elementos do cotidiano delas na alfabetização e nas primeiras noções de matemática. Método reconhecido pelo MEC [Ministério da Educação]”, destaca.

    Realização pessoal: Julia educa 50 crianças da Escola Itinerante (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    Na mobilização do dia 15, Julia acompanhava os pequenos que vinham nas carroças no final da marcha – parte das crianças eram levadas no colo ou caminhavam com os pais. Sob calor intenso, ela revezava as garrafas d’água entre elas. Volta e meia, dois homens passavam com um galão de água do poço, trazida do acampamento de Arroio dos Ratos. Era o único refresco ao calor.

    Paulo Índio deixou o campo e entrou no Movimento

    Em frente às carroças das crianças, um homem aparentando 40 anos leva um menino nos ombros. Ele observa um riacho que cruza a estrada e não resiste ao comentário: “Deve ter uns baita peixe aí”, fala para o amigo. Como a marcha já se aproxima do entroncamento de Charqueadas, os homens deixam a pescaria prá lá.

    Um deles era Paulo Roberto, ou Paulo Índio, como é conhecido. A história dele coincide com a de grande parte dos integrantes do MST. Filho de pequenos agricultores que trabalhavam em uma fazenda na região de São Borja, ele e os irmãos ficaram sem nada quando os pais morreram. Decidiram sair do campo.

    Em três horas e meia de caminhada, MST chega ao trevo de Charqueadas (Foto: Daniel Cassol /Divulgação)

    Na cidade, com pouco estudo e nenhuma qualificação para atividades urbanas, acabaram desempregados e foram morar na favela. “Aquilo não era vida”, recorda. Nessa época, Paulo Índio resolveu se juntar ao MST para reivindicar um pedaço de terra que considera de direito, já que os pais trabalharam a vida inteira no campo.

    Há quatro anos e sete meses nos acampamentos do MST, ele diz que recuperou a dignidade e a esperança. “Sonhar é tudo. Dá motivação, um objetivo… Estou preparado para lidar na minha terra, já tenho um cavalo, uma carroça e ferramentas”, conta entusiasmado. Paulo também sente orgulho dos animais que cria com as outras famílias sem-terra, num dos núcleos do acampamento de Arroio dos Ratos, ponto de partida da marcha na segunda-feira, 13 de novembro. “Lá tem galinha e porco”.

    Isolde: Da fábrica para de volta para  lavoura

    Assim como Paulo Ìndio, Isolde teve que sair do interior para buscar colocação na cidade. Ela não tentou a Capital, ficou por Sapiranga mesmo, município onde nasceu. “Trabalhava na indústria, repetia todo dia a mesma coisa. Não era o que gostava, nem o que sabia fazer”, conta.

    Isolde: entre um chimarrão e outro, dê olho na construção das barracas (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    Com o marido e três filhos, Isolde está há três anos e 10 meses no MST. Ela é uma das responsáveis pelo setor de infra-estrutura. Nessa função, não tem cotidiano. Ao chegar no destino da marcha, organizada, Isolde indica quantas são e onde devem ser montadas as barracas. Depois, acompanha a “construção” das moradias provisórias. “Vamos montar 10 barracas aqui na beira da estrada. Esse local é bom, tem sombra e um poço”, explica.

    Poço antigo fornecerá água para o acampamento provisório (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    Estudantes da UFRGS apóiam Reforma Agrária

    Cerca de 30 estudantes de vários cursos da UFRGS montaram um grupo de apoio à Reforma Agrária, o Garra. A iniciativa surgiu a partir da crítica ao projeto de extensão da Universidade. “Era superficial, conhecíamos a realidade, mas não interagíamos com ela”, conta Eduardo Ruppental, de 25 anos, filho de pequenos agricultores de Lajeado e estudante de Biologia.

    Os acadêmicos montaram um seminário com representantes do MST e professores, para começar a conhecer o Movimento, depois, fizeram um estágio de vivência de 15 dias no assentamento de Nova Santa Rita e hoje acompanham os sem-terra nas atividades. Ajudam na construção das casas dos assentamentos, ensinam a fazer viveiros, a instalar as fossas e a fazer os poços.

    Eduardo: “aprendemos com a experiência de vida deles” (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    “Na verdade, aprendemos muito mais do que ensinamos, é uma troca de conhecimento. Nos assentamentos, pedimos para que cada um desenhe como imagina seu lote e depois, vamos indicando onde é melhor colocar a fossa, por exemplo”, conta.

    Além da orientação, os alunos estão tentando montar uma feira ecológica no Campus do Vale, só com produtos dos assentamentos. Algumas edições já foram realizadas, mas o bar do Campus reclama da concorrência. “Os colegas gostam, sai tudo que levamos”, comemora Ruppental.

    Quando conseguem, as feiras acontecem nas quartas-feiras, das 10h às 16h. Também participam do Garra acadêmicos de Veterinária, Ciências Sociais, Jornalismo, entre outros cursos.

    Húngaro pesquisa MST

    O antropólogo húngaro Gábor Halmai, de Budapeste, está no Estado há um mês para conhecer as práticas dos movimentos sociais brasileiros contra o neoliberalismo. O pesquisador explica que sua tese de doutorado busca identificar semelhanças e diferenças entre as manifestações latino-americanas e as da Europa ocidental.

  • Crise financeira do Estado afeta setor livreiro

    Governo não compra livros há anos – bibliotecas públicas estão defasadas (Foto: Divulgação)

    Guilherme Kolling *

    O declínio nas vendas do mercado livreiro é um fenômeno nacional, mas no Rio Grande do Sul o quadro é agravado pela crise financeira que afeta o Estado há três décadas.

    O principal efeito deste déficit crônico nas contas do poder público estadual é o sucateamento e defasagem das bibliotecas públicas.

    “São 15 anos sem um programa de compra de livro. A Biblioteca Pública não adquire exemplares novos há mais de 20 anos. Imagine como estão os acervos das nossas escolas”, alerta o presidente da Câmara do Livro, Waldir da Silveira.

    A queixa ecoa entre diversos editores. “O Estado está falido e não investe. Nossa editora tem 15 anos. Já vendemos para diversos governos, mas de outros estados, como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná”, conta Luís Fernando Araújo, diretor da Artes e Ofícios.

    “O Governo não tem fomentado a leitura e o mercado se ressente disso”, avalia João Carneiro, da Tomo Editorial. Os editores observam que a compra governamental é um fator importante nas vendas e no preço do livro, que depende do tamanho da edição.

    Ou seja, se a comercialização de parte da tiragem está garantida, é possível imprimir mais exemplares a um custo unitário mais barato para o leitor. “Aqui não há esse agente”, resume Carneiro.

    O exemplo vem de outros países. “O Brasil nunca teve uma política de compra de livros. Mas na França, só para dar um exemplo, a venda de boa parte das edições dos livros está garantida por universidades e bibliotecas”, compara Luis Gomes, editor da Sulina.

    O diretor da AGE Editora, Paulo Ledur, cita o caso dos Estados Unidos. “Lá, as bibliotecas representam 60% do mercado editorial. Temos 3 mil escolas públicas no Rio Grande do Sul. Só esse número já supera a tiragem tradicional dos livros aqui editados. E no Brasil, as bibliotecas representam 10% do mercado. A lógica seria o contrário, já que se trata de um país carente, em que o livro deveria estar disponível em acervos públicos”.

    Última compra foi feita por Britto

    O diretor da L&PM, Paulo Lima, lembra que a última aquisição feita pelo Palácio Piratini foi na gestão de Antônio Britto, numa ação isolada que ocorreu por conta de um embaraço que o governador passou.

    Ao visitar em Cruz Alta a biblioteca de uma escola chamada Erico Verissimo, ele pediu, em meio aos alunos, que a diretora lhe entregasse um determinado livro do escritor. Não havia nem um exemplar. Britto solicitou então que lhe alcançassem qualquer obra de Erico. Mas não tinha uma sequer, informou, encabulada, a executiva do colégio.

    O fato irritou o ex-governador, que imediatamente criou na Secretaria da Educação o Projeto “Estante do Autor Gaúcho”, em que escolas públicas estaduais recebiam de 30 a 60 exemplares de livros da literatura sul-riograndense. Desde então, não houve novas aquisições.

    Questionada se vai acabar com esse jejum, a governadora eleita Yeda Crusius respondeu que a distribuição de livros é sempre feita por financiamento do Governo Federal. Ela pretende exigir de Brasília a continuidade do projeto “Uma biblioteca em cada escola”. Sobre a aquisição de livros pelo Estado, Yeda informa que, “enquanto o Governo não tiver recursos próprios, terá que se valer de parcerias”.

    RS perde terreno

    A Câmara Riograndense do Livro divulgou durante a Feira uma pesquisa sobre os hábitos de leitura da população gaúcha. A pesquisa feita pelo Ibope e preparada pelo Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e no Caribe apontou que o Rio Grande do Sul lê três vezes mais que o resto do país.

    Enquanto a taxa nacional é de 1,8 livro por ano, no Estado, esse número cresce para 5,5. Estudos semelhantes na América Latina indicam que o índice de leitura no continente é de 2,4 livros ao ano.

    Foram aplicados 1.008 questionários em 60 dos 496 municípios gaúchos. A amostragem foi definida através de cotas sociais estipuladas pelo IBGE, como a repartição entre homens e mulheres, grau de instrução, idade e renda familiar. O intervalo de confiança estimado é de 95% e a margem de erro máxima é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos.

    Outra pesquisa apresentada ao longo do evento foi a de alfabetismo funcional. Apenas 30% da população do Estado consegue ler um texto e identificar o conteúdo. No Brasil, esse índice é de 25%. Apesar dos resultados positivos em nível de país, editores contam que o Rio Grande do Sul está perdendo posições por conta da falta de aquisição de livros do Governo e do sucateamento das bibliotecas.

    “Sempre fomos o terceiro pólo livreiro no Brasil. Mas hoje devemos ser o sexto. Minas Gerais, Paraná, Distrito Federal e sabe-se lá quem mais já nos passaram”, avalia o diretor da Artes e Ofícios, Luís Fernando Araújo.

    O diretor da L&PM, Paulo Lima, concorda. “O gaúcho se vangloria de seu nível de leitura, mas esse índice começou a cair de forma vertiginosa. É um reflexo do desabastecimento de livros em escolas e bibliotecas”. Seu sócio na editora, Ivan Pinheiro Machado, completa o depoimento. “Quando distribuo um livro aqui no Rio Grande do Sul, sei que metade vai voltar, não vende. Mas se encaminho para São Paulo, logo estão me pedindo um novo repasse”.

    “Bibliotecas públicas estão num atoleiro”

    Em 2003, quando Germano Rigotto assumiu no Palácio Piratini, houve uma tentativa do Clube dos Editores do Rio Grande do Sul, Câmara Riograndense do Livro e Associação dos Representantes de Editoras do RS de convencer o Governo do Estado a comprar livros para escolas públicas.

    A idéia era que a aquisição acontecesse através de financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento. A proposta esbarrou no endividamento do Estado, sem condições de obter novos financiamentos. O Governo adiou por mais algumas temporadas o aparelhamento das bibliotecas.

    Para 2007, a Câmara Riograndense do Livro terá um novo instrumento para pressionar o Governo. Trata-se de uma pesquisa que vai mapear e diagnosticar a situação das bibliotecas públicas e comunitárias em todo Rio Grande.

    Esse “Raio-X” deve ficar pronto até o final do ano. “A idéia é ir nas autoridades e mostrar essa situação. Temos que tirar as bibliotecas gaúchas do atoleiro”, propõe o presidente da Câmara Riograndense do Livro, Waldir da Silveira.

    O editor da Tomo, João Carneiro, que faz parte da diretoria da CRL, entende que a saída é mobilizar a sociedade para que as bibliotecas públicas e comunitárias sejam encaradas como um lugar de formação de leitores.

    “São locais de difusão do conhecimento. Cada município precisa de um espaço bem equipado, com profissionais capacitados e verbas para custeio, isto é, para compra de livros. É um processo que vamos desencadear no início do ano que vem”, projeta Carneiro.

    Um dos argumentos que será exposto ao novo Governo é a constatação, obtida na pesquisa feita pelo Ibope, de que a maior parte da população lê livros emprestados. Um terço dos entrevistados busca livros em bibliotecas e outro terço pede emprestado a amigos ou conhecidos. Apenas 32% do universo pesquisado vai às compras.

    Outra informação importante é que as bibliotecas são uma referência importante, principalmente para jovens leitores: 35% dos gaúchos costumam freqüentar bibliotecas. O número mais que duplica quando o universo é reduzido à população com menos idade: entre 11 e 15 anos, 86% utilizam o serviço de empréstimo de livros.

    A Câmara do Livro defende a popularização da biblioteca a partir da criação de pequenas salas de leitura e empréstimo de livros, seja em sindicatos, igrejas, condomínios. “Não adianta esperarmos por grandes prédios que têm alto custo, qualquer espaço pode receber uma biblioteca comunitária”, sustenta o presidente da entidade, Waldir da Silveira.

    * Colaborou Naira Hofmeister

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  • Efluentes dos estabelecimentos de saúde de Porto Alegre são despejados sem tratamento

    Ana Luiza Leal, especial para o JÁ

    João mora há 25 anos na orla do Guaíba, em uma casa construída dentro do terreno do clube Veleiros do Sul, onde trabalha como porteiro. O local é limite entre os bairros Cristal e Vila Assunção, em Porto Alegre. Exatamente embaixo da casa, ele encontrou uma tubulação que despeja efluentes fétidos diariamente, das 22h à meia-noite. Para o consultor ambiental do clube náutico, Israel Barcellos de Abreu, o despejo é feito por condomínios da região e pelo Hospital da Brigada Militar (HBM), que lança efluentes in natura no Guaíba.

    O HBM não é exceção. Nenhum estabelecimento de saúde da cidade trata seu esgoto, embora a legislação seja clara: “Os efluentes de hospitais e outros estabelecimentos, nos quais haja despejos infectados por microorganismos patogênicos, deverão sofrer tratamentos especiais independente de seu número de coliformes” (artigo 5º do Decreto Municipal 12.961/2000).

    E ainda: Os resíduos líquidos provenientes de esgoto e de águas servidas de estabelecimento de saúde devem ser tratados antes do lançamento no corpo receptor ou na rede coletora de esgoto, sempre que não houver sistema de tratamento de esgoto coletivo atendendo a área onde está localizado o serviço (Resolução RDC Anvisa nº 306/2004).

    O AmbienteJÁ perguntou para Secretaria de Meio Ambiente de Porto Alegre (Smam), órgão fiscalizador dos efluentes hospitalares, e para o Departamento Municipal de Águas e Esgotos (DMAE) quais hospitais estariam obrigados a realizar o tratamento, já que somente 27% do esgoto em Porto Alegre são tratados. O primeiro disse não ter a informação e pediu para que a reportagem entrasse em contato com o segundo, que seria o responsável pelo “mapeamento”. O DMAE afirmou que nunca existiu mapeamento e que a questão cabe somente à Smam – “responsável por emitir as licenças ambientais dos hospitais”. Fica a impressão de que se a Smam quisesse começar a multar amanhã, não saberia quem precisa e quem não precisa tratar seus efluentes.

    Segundo o porteiro João, a poluição na área piorou com os anos. “Quando cheguei, pescava peixes enormes. Você nem acreditava na beleza que era isso aqui. Hoje, o cheiro é horrível. Às vezes a coloração da água que vem do cano é vermelha. O pessoal do clube já denunciou várias vezes, mas nunca tomam uma providência”, comenta.

    Peso na consciência

    O diretor administrativo do HBM, Major Freitas, confirma que a casa de saúde não possui estação de tratamento de esgoto (ETE). Disse desconhecer o destino final dos efluentes do hospital. “Sabemos sobre o dano provocado. Contudo, as verbas para as obras serão discutidas apenas em fevereiro”, afirma.

    O mesmo sentimento de peso da consciência foi manifestado pela chefe do setor de higienização do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Ana Helena Ramalho. Quando perguntada sobre o cumprimento da legislação, suspirou e disse: “Não tratamos, infelizmente. E não há previsão para tratarmos, os custos são elevados”.

    O clima de pesar chegou até a Smam. O secretário-adjunto da pasta, Walter Koch, também reconhece a importância do tratamento. Em sua opinião, a legislação sobre o tema é boa – o problema estaria justamente na cobrança e conseqüente penalização dos estabelecimentos de saúde: “É inviável fechar um hospital por ele não estar cumprindo com esse tipo de norma ambiental. E ainda há a carência de espaço físico e de recursos na saúde. Os hospitais do município deveriam ser exemplo, mas não se faz investimento nesse tipo de questão. Só se apaga incêndio”.

    A discussão acerca dos efluentes tomou corpo a partir de 2004, com a publicação da última normatização da Anvisa sobre resíduos hospitalares. O AmbienteJÁ perguntou para Smam e para Departamento Municipal de Águas e Esgotos (DMAE) quais hospitais estariam obrigados a realizar o tratamento, já que somente 27% do esgoto em Porto Alegre são tratados. O foco dos trabalhos se concentrou em resolver primeiro a questão dos resíduos sólidos, que hoje estaria bem encaminhada, na opinião dos entrevistados.

    Ana Helena conta que a destinação correta dos dejetos sólidos deve ser encarada como uma vitória, embora acredite que alguns pontos da legislação dêem margem à má interpretação por parte da comunidade médica: “A aplicação prática da lei, no que se refere a sólidos, é prejudicada pela correria diária de um hospital – ainda há muito a evoluir. As capitais brasileiras estão bem, mas o interior está defasado. Quanto aos efluentes, já há discussão, mas pouco foi feito”.

    Koch se defende alegando estar cansado de “perder tempo licenciando pastelaria de oito metros quadrados” – atividades de baixíssimo impacto. Para o secretário-adjunto, o foco da pasta deveria ser o licenciamento de atividades de maior potencial poluidor, como a Saúde, e disse que a questão está sendo revista em conjunto com os demais órgãos de meio ambiente.

    Em outubro, representantes da Smam e do Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre se reuniram para discutir a implementação de um projeto de lavanderia industrial que atenderia a todos os estabelecimentos de saúde do município. A iniciativa ajudaria a reduzir gastos e facilitaria o monitoramento de parte dos efluentes produzidos diariamente. Koch não quis adiantar detalhes porque a notícia ainda não é oficial. Fora esta, nenhuma novidade.

    Faltam estudos sobre o tema

    Outro agravante é o fato de a academia brasileira pouco estudar o assunto. A opinião é do professor Luiz Olinto Monteggia, do Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos e Saneamento do Instituto de Pesquisa Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em 2002, ele orientou a dissertação de mestrado da aluna Isabel Teles Silveira, que hoje é chefe da divisão do Serviço de Licenciamento e Monitoramento das Indústrias da Fepam e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

    A pesquisa consistiu em construir, através de projeto-piloto, uma Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), com R$ 80 mil doados pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa). A equipe do IPH fez o monitoramento do efluente e testou a sua desinfecção. São gastos diariamente cerca de 1 milhão de litros de água no HCPA.

    O estudo comparou o esgoto do hospital com o doméstico em três enfoques: águas residuais (matéria orgânica), nutrientes (como a presença de hidrogênio e fósforo) e microorganismos. O IPH constatou que os efluentes são similares nos dois primeiros pontos e diferentes no último. “O hospitalar é muito mais contaminado do que o doméstico. Ele apresentou toxicidade elevada em todas as análises, especialmente de bactérias resistentes, como os streptococcus”, afirma Isabel.

    Contudo, a equipe não conseguiu provar a toxicidade por números. “Os resultados variam. O trabalho precisa ter valor estatístico para ter relevância científica”, admite Monteggia. Eles atribuem a culpa ao pouco tempo de acompanhamento (dois anos), à bibliografia escassa e ao tipo de análise feita, que não detectava a presença de vírus e quimioterápicos nos efluentes, por exemplo.

    Esse foi o único projeto de ETE em hospital apoiado pela Funasa. Tampouco o IPH tem realizado outras pesquisas sobre o assunto. Isabel Teles Silveira disse estar tentando introduzir o assunto no curso de Engenharia Química, da PUCRS.

    Para Monteggia, os esgotos domésticos, hospitalares e industriais são igualmente perigosos. “Não se leva saneamento básico a sério no Brasil. Puxam a descarga e esquecem, falta conscientização. O que dá mais voto: iluminação pública ou saneamento?”, polemiza. Exemplificou sua posição com a polêmica que envolveu a Corsan e os municípios de Cachoeirinha e Gravataí, no ano passado. A companhia fez as obras de saneamento, mas os deputados barraram a cobrança da taxa de esgoto dos moradores.

    Química verde seria solução

    O professor do IPH Luiz Olinto Monteggia e o ambientalista e engenheiro agrônomo Jacques Saldanha, responsável pelo site Nosso Futuro Roubado levantam a mesma questão: existem mais doentes fora do que dentro dos hospitais. Os dejetos de quem ingere remédios em casa também vão para a tubulação sem tratamento.

    Monteggia e Isabel questionam a legislação vigente no que se refere à dispensa de tratamento dentro dos hospitais caso haja ETE em toda extensão do município. A funcionária da Fepam faz um alerta: os microoganismos presentes no efluente hospitalar têm a característica de contaminar o esgoto domiliciar quando misturados.

    “Quem garante que a tecnologia fará a desinfecção de orgânicos, nutrientes e microorganismos de forma adequada? O mais seguro seria a combinação dos dois tratamentos”, afirma o professor.

    Jacques Saldanha também discorda da legislação. Em sua opinião, o problema está nos produtos químicos sintéticos usados como remédios, e não na falta de ETEs nos estabelecimentos de saúde: “O que se medica aos pacientes vai para o meio ambiente? Há tratamento eficaz para esse líquido contaminado? Estão aparecendo resíduos de fármacos, como o Prozac, na água”, destaca.

    Na opinião do ambientalista, o contrasenso está no fato de os “verdadeiros culpados” pelo problema – empresas que fabricam os medicamentos – não serem culpabilizados. “Como um hospital vai resolver a questão, se a molécula é comprada como medicamento? Vai se analisar quando já está feito, no ambiente. É preciso ir na fonte. Quando já é um problema, não há mais solução”, opina.

    Poucos laboratórios no mundo são capacitados para detectar a presença de substâncias tóxicas no corpo humano. Ele diz conhecer apenas um, na cidade de Vancouver, no Canadá, que faz o exame de sangue ao preço de U$ 15 mil. Saldanha acredita que a única saída é a adoção da química verde, que usa compostos biodegradáveis, além do incentivo às terapias medicinais alternativas, como a acupuntura.Efluentes dos estabelecimentos de saúde de Porto Alegre são despejados sem tratamento