Autor: Elmar Bones

  • Menos tempo e menos livros

    Evento se encerrou no último domingo, 12 de novembro, com mais de 400 mil livros vendidos (Fotoss: Tânia Meinerz)

    Naira Hofmeister

    Ao fim de 17 dias, a 52ª Feira do Livro ficou mais curta de tempo e de dinheiro. Em 2005 o evento se estendeu até o feriado da Proclamação da Republica, em 15 de novembro, mas esse ano, como a data caiu no meio da semana – uma quarta-feira – a organização não achou conveniente estender a duração do evento.

    Os três dias de diferença reverteram numa venda menos expressiva que em anos anteriores: em 2005, foram comercializados 58.596 exemplares a mais que na edição que se encerrou domingo.

    O movimento na Praça da Alfândega de fato, começou devagar: nos primeiros 5 dias – entre 27 de outubro e 1º de novembro – caminhava-se tranqüilamente entre as barracas. A multidão chegou mesmo no feriado de Finados, no segundo dia de novembro. O Presidente da Câmara Riograndense do Livro, Waldir da Silveira corrobora a tese: “Nos dois últimos dias de Feira, em 2005, vendemos 77 mil livros”. Em 2004, as vendas dos derradeiros dias ultrapassaram os 100 mil exemplares.

    Em 2006, no último final de semana, mesmo com a coleta de dados da CRL indicando a comercialização de 98,5 mil volumes, os livreiros reclamavam das vendas e alguns narravam uma diminuição de 40% nos lucros.

    Geografia da Feira em 2007 vai depender do andamento do Monumenta

    O ponto alto da 52ª edição foi, na opinião dos freqüentadores – e que se refletiu nos números – a Área Infantil. Em seu segundo ano no Cais do Porto, a feira destinada aos pequenos vendeu 20 mil livros a mais do que em 2005. Outra modificação que veio para ficar foi a Praça de Autógrafos ao ar livre – diferente dos pavilhões instalados em anos anteriores – que, a partir de 2007 leva o nome de Maurício Rosenblatt.

    Apesar da consolidação do espaço infanto-juvenil e do modelo da praça de autógrafos, a arquitetura da própria Feira é uma incógnita em 2007. O Projeto Monumenta pretende alterar o traçado da Praça da Alfândega e da Avenida Sepúlveda, aproximando o projeto arquitetônico atual do centro de Porto Alegre em meados do século XX.

    No início de dezembro os sócios da CRL se reúnem para debater as possibilidades de melhoria da Feira do Livro para 2007 e pensar como essa interferência deve ser feita.

    Yeda recebe resultados de pesquisas

    Três levantamentos de dados referentes a educação e cultura dos gaúchos foram encomendadas pela Câmara Riograndense do Livro para pressionar o novo governo a direcionar mais verbas para a área. A governadora eleita Yeda Crusius deve receber os representantes da CRL no início da próxima semana – entre segunda e terça-feira – para ouvir as propostas para atualização dos acervo bibliotecário do Estado e implantação de pequenas bibliotecas comunitárias.

    “O resultado parcial da pesquisa sobre bibliotecas, indica que há 40 municípios gaúchos onde não há locais de empréstimo de livros”, revela Silveira. As outras duas pesquisas, já finalizadas, mostraram os hábitos de leitura dos gaúchos e o nível de alfabetização da população sulina.

    Lula promete visita em 2007

    Em Brasília, ao entregar a Ordem do Mérito Cultural aos organizadores da Feira do Livro, no dia 8 de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva garantiu que estará presente na abertura do evento em 2007. Se a promessa se concretizar, será a primeira vez em 53 anos que o soberano da República visita a Feira. A medalha foi concedida pela contribuição que o evento trouxe à cultura gaúcha. Silveira destacou que “todo mundo conhece a Feira no Brasil”.

    Livro do JÁ Editores entre os mais vendidos

    INTER, Orgulho do Brasil confirmou o sucesso e terminou a 52ª edição da Feira do Livro como um dos mais vendidos. Desde as primeiras listas de divulgação, a obra de Kenny Braga publicada pelo JÁ Editores já figurava na preferência dos leitores. INTER, Orgulho do Brasil está em sua terceira edição, que acrescenta um capítulo especial sobre a conquista da Copa Libertadores da América à trajetória do colorado gaúcho.

    O livro terminou a contagem em terceiro lugar entre as obras de não-ficção, que teve como grande vencedor Fatos e Mitos sobre sua saúde, de Fernando Luchesse, da L&PM. Entre os livros ficcionais, o músico e agora escritor, Thedy Corrêa, emplacou o primeiro lugar com Bruto, também da editora gaúcha.

  • Superexploração condena aqüífero que abastece 130 mil pessoas em Florianópolis

    Francis França, de Florianópolis, especial para o JÁ

    O Aqüífero de Ingleses, no Norte da Ilha de Santa Catarina, sofre um processo de degradação que pode se tornar irremediável a qualquer momento. A superexploração do manancial, a falta de saneamento básico e a ocupação desordenada podem acabar com a única fonte de água potável de 130 mil pessoas. Para os otimistas, ainda haverá água por muitos anos, mas a realidade é que os órgãos públicos não têm a mínima idéia da quantidade de água retirada do aqüífero diariamente, nem quanto tempo ele pode resistir.

    O Aqüífero de Ingleses é protegido por uma camada de areia permeável e é abastecido exclusivamente pela água da chuva – diferente dos aqüíferos fissurais, como o Guarani, que recebem água do subsolo. Seu potencial de recarga é de 10 milhões de metros cúbicos por ano. De acordo com a geóloga Eliane Westarb, autora de um dos poucos estudos disponíveis sobre o Aqüífero de Ingleses, para garantir a qualidade da água, a exploração deve ser de, no máximo, 70% da capacidade de recarga do manancial.

    Fazendo as contas, o resultado é preocupante. A Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan) retira aproximadamente de 50% da água disponível no aqüífero em 22 poços de captação. Vinte por cento são disputados sem qualquer controle por cerca de 6 mil poços clandestinos nos bairros de Ingleses e Rio Vermelho, perfurados tanto em barracos na favela do Siri quanto em hotéis de luxo e condomínios fechados.

    A licença para perfurar poços no Aqüífero de Ingleses só começou a ser exigida pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fatma) em 2002, para empreendimentos que captassem mais de mil litros de água por hora. Mas a regra durou apenas quatro anos. Por falta de conhecimento sobre a capacidade do aqüífero, a Fatma suspendeu totalmente a emissão de licenças no início deste ano.

    “Não se sabe qual é a situação do aqüífero, só vamos saber que ele está esgotado quando já tiver acontecido”, diz Cícero Almeida, técnico da Gerência de Licenciamento Urbano da Fatma. Segundo ele, é impossível saber exatamente quantos poços existem e quanto de água é retirado. “Pela lei, a Fatma não pode invadir a casa das pessoas pra fiscalizar cada ponteira. Os órgãos não têm como estimar a vazão”, diz.

    Se a vazão superar 70% da recarga, o aqüífero será irremediavelmente contaminado com a água do mar. O Aqüífero de Ingleses estende-se por uma área de 30 quilômetros quadrados de extensão e está a 70 metros de profundidade. O lençol freático sustenta um delicado equilíbrio entre água potável e água salgada, que flui para o aqüífero em uma zona chamada de “cunha salina”. Eliane Westarb explica que a água salgada é mais pesada e fica na parte de baixo do lençol freático. Quando o manancial está cheio, as duas camadas de água ficam totalmente isoladas uma da outra, mas, se o nível for muito baixo, o equilíbrio é perturbado, misturando definitivamente as duas camadas de água.

    De acordo com Cícero Almeida, o desastre já aconteceu na Praia Brava, um dos mais elegantes balneários de Florianópolis. Em menos da década, dezenas de condomínios foram construídos e exauriram a capacidade de abastecimento da população. “Há três anos, a superexploração provocou contaminação com a cunha salina, e a água não pôde mais ser bebida”, conta Almeida.

    Além dos problemas provocados pela ação humana, a estiagem dos últimos meses aumentou o risco de problemas no abastecimento em toda a Ilha de Santa Catarina. A falta de chuvas praticamente secou pequenos mananciais no Monte Verde, Morro do Quilombo, Morro da Lagoa e da Costeira do Pirajubaé, onde o abastecimento depende de caminhões-pipa.

    Mas o clima também já afeta os grandes mananciais. De acordo com Cláudio Floriani, superintendente de Meio Ambiente da Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan), a Lagoa do Peri, que abastece todo o Sul e parte do Leste da ilha, atingiu o menor nível dos últimos 20 anos. No Norte da ilha, a preocupação é a mesma. “Com a estiagem, o risco para o Aqüífero de Ingleses é muito grande”, diz.

    Para piorar, o esgoto

    Como se não bastasse a superexploração do manancial e a ocupação desordenada, o esgoto de todo o Norte da ilha flui para o subsolo. A região não tem sistema de coleta e tratamento dos resíduos, e, por ser uma região arenosa, as fossas sanitárias não servem para conter a poluição. “As fossas sanitárias não funcionam em Ingleses por causa da variação no nível do aqüífero. Quando o nível da água sobe, mistura-se com o resíduo das fossas. Naquela região, a única solução seria rede de coleta e tratamento de esgoto”, explica Eliane Westarb.

    A população não sabe, mas já pode estar bebendo água contaminada. Muitas vezes a fossa sanitária está ao lado da ponteira e quase no mesmo nível de profundidade. “Se a pessoa fizer um poço de baixa profundidade, corre o risco de beber água contaminada pelo próprio esgoto”, diz a geógrafa.

    Perfurar poços na região do Aqüífero de Ingleses é atividade rotineira. Tem até cadeia de produção: lojas que vendem os motores, oficinas para consertar os equipamentos e profissionais especializados. Seu Odilon é um deles, perfura em média quatro poços por semana. Cobra R$ 400,00 pelo serviço, fora o motor, que pode variar de R$ 350,00 – para os de segunda mão – até R$ 600,00. O aqüífero está a 70 metros de profundidade, mas Seu Odilon perfura a cerca de 20 metros, diz que “a água é muito boa” e garante: “Não tem problema nenhum com a Casan”.

    Para muitos, os poços clandestinos são a única solução. Muitas pessoas vivem em terrenos de loteamentos irregulares e não conseguem legalizar o imóvel junto à prefeitura. Sem o aval da prefeitura, os moradores não têm permissão para ligar água nem luz. Com a burocracia, a saída são as ponteiras e as ligações clandestinas na rede elétrica.

    Luci do Carmo Alves, moradora do bairro do Rio Vermelho, comprou um terreno em 2004 e até agora não conseguiu autorização para ligar água e luz. “Em setembro consegui regularizar minha casa na prefeitura, fiz o cadastramento, paguei os impostos e mesmo assim não consegui ligar a água e a luz. A prefeitura quer que eu leve fotos da minha casa para eles entrarem com um processo e só então pedir a ligação”, reclama.

    Os órgãos públicos até tentaram regularizar os poços clandestinos na região, mas a iniciativa fracassou. No início deste ano, o Ministério Público Estadual, a Casan e a Fatma fizeram uma campanha distribuindo questionários para que os moradores informassem a condição de seus poços, mas nenhum deles foi respondido.

    Para Eliane Westarb, o problema da campanha foi o foco. “Eles começaram pelos pequenos, quando o maior problema está nos grandes empreendimentos, nos hotéis, resorts e condomínios. As pessoas têm medo de que a Casan vá fechar os seus poços, abrir processos contra eles, além de perderem a água que têm de graça. É lógico que ninguém iria se denunciar. As pessoas pensam: Por que eu tenho que me acusar e o hotel não?”, critica.

    Para ela, o maior problema são os condomínios e hotéis. O adensamento urbano para garantir a infra-estrutura turística prejudica o sistema de recarga do aqüífero. As pavimentações diminuem a área de infiltração da chuva e também prejudicam a captação feita pela Casan. “A Casan teria que desativar os poços existentes, porque estão muito próximos da população. O perímetro de proteção dos poços, pela lei, é de 400 metros de qualquer atividade urbana. Atualmente as casas estão quase em cima dos poços”, diz Westarb.

    Os grandes empreendimentos também reduzem a área de expansão dos poços de captação. Segundo Westarb, a região do Residencial Costão Golf – que está embargado na Justiça por causar risco de contaminação da água com fertilizantes e agroquímicos – poderia servir como área de expansão para os poços da Casan. “O problema do Costão Golf não é apenas o risco de poluição do aqüífero, mas principalmente o fato de, além de aumentar o consumo de água, ocupar justamente uma área que deveria ser utilizada para ampliar o abastecimento”, denuncia. “As pessoas precisam se dar conta de que o Norte da ilha só tem uma fonte de água potável, e que ela não resiste a tanta ocupação”, diz.

    Durante a temporada de verão, o problema se agrava. A população nas praias triplica e, junto com ela, o consumo de água. Cláudio Floriani diz que os problemas de abastecimento no verão são “isolados”. “As pessoas alugam casas para 20 pessoas, aí não tem condições de garantir o abastecimento. O turismo ainda é muito exploratório. A Casan prevê o armazenamento para o acréscimo da população, mas as pessoas precisam desenvolver um consumo mais consciente”, diz.

    Casan já tem projeto para substituir o Aqüífero de Ingleses

    Contando com a morte do aqüífero, a Casan já tem um “plano B”. A Companhia tem um projeto para viabilizar recursos do banco japonês JBIC e do Prodetur (Programa de Fomento ao Turismo do Governo Federal) para construir um duto submarino que trará água do continente, no município de Canelinhas. A fonte é o Rio Tijucas, que nasce na Serra catarinense. Segundo Cláudio Floriani, o abastecimento do Rio Tijucas atualmente é “insignificante”. “Pode sustentar o Norte da ilha com folga”, diz.

    Mas, segundo ele, esse é um projeto para o futuro. “Para a demanda de curto prazo fizemos um reforço no Norte da ilha via adutora de Pilões [no município de Santo Amaro da Imperatriz]”, diz.

    Para Eliane Westarb, o projeto Canelinhas é uma medida irresponsável e serve apenas para legitimar a especulação imobiliária. “Não é por falta de água que o aqüífero está em risco, é porque a região está crescendo demais. A população está se instalando sobre áreas que deveriam ser reservadas para captação”, acusa.

    Segundo ela, o Rio Tijucas não pode ser explorado para resolver o problema. “Canelinhas já está sobrecarregado também, a água não está sobrando, temos é que garantir a perenidade do aqüífero que já temos”, diz.

    Eliane Westarb também critica a visão de “futuro” da Casan. Para ela, o projeto não chegará a tempo de garantir o abastecimento. “Só vai ser construído [o duto submarino] quando houver um desastre, e daí levará pelo menos cinco anos até que a obra fique pronta. Que água vamos beber até lá?”, questiona.

    Projeto busca conscientizar para o futuro

    Eliane coordena o projeto “Água nossa de cada dia”, realizado em parceria com a Secretaria Estadual de Educação e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. O projeto foi inaugurado em março deste ano e envolve 30 crianças do ensino fundamental de sete escolas municipais e uma estadual, com o objetivo de conscientizar as crianças para a importância dos recursos hídricos da Ilha de Santa Catarina.

    O programa inclui visitas à estação de tratamento de esgoto da Casan, aulas na Universidade Federal de Santa Catarina sobre a estrutura geológica da ilha e saídas de campo até o manguezal da Estação Ecológica Carijós, no Norte da Ilha.

    Os alunos fizeram um jornal sobre a importância da água, além de confeccionar um livro de poesias e, no próximo dia 22, apresentarão peças teatrais sobre o Aqüífero de Ingleses, no teatro da UFSC.

    Segundo Eliane Westarb, o projeto, que se encerra em dezembro, conseguiu desenvolver nos alunos o sentimento de responsabilidade pelo aqüífero. “O que mais me comove é ver uma criança da primeira série me encontrar no corredor da escola e gritar a-qüí-fe-ro!”, diz.

  • Vem muita sineta por ai

    Essas manchetes sobre as “negociações” da governadora com os poderes não passam de firulas da mídia complacente que, já pensando nas verbas a partir de janeiro, tenta criar um clima de otimismo e entendimento, mesmo à custa de brigar com os fatos.
    Na campanha, Olívio Dutra anunciou que iria cortar a zero os gastos com publicidade. E a própria Yeda criticou as despesas do governador Rigotto com propaganda. Mas uma coisa é a campanha, outra é a realidade de um governo.
    A publicidade oficial, como se sabe, é um poderoso emoliente do ânimo crítico dos nossos jornais. Aí está Rigotto, que foi muito generoso nesse item e, por conta disso, permanece sob os holofotes, apesar do fiasco na eleição. Segundo a nossa gorda e patusca ZH, ele até “admite não ser ministro de Lula”.
    Vamos aos fatos: Yeda foi de lá para cá e até agora não conseguiu reduzir sequer 0,8% do orçamento do judiciário.
    Se o Judiciário, que tem proporcionalmente a “fatia do leão” no orçamento estadual, não admite abrir mão de nada, imagine os professores… Ou seja: vem muita sineta por aí.

  • Stédile exclusivo: “Governo Lula é ambíguo com relação às questões ambientais”

    Líder do MST, João Pedro Stédile afirmou que todo ano haverá ações em 8 de março (Foto: Ana Luiza Leal/JÁ)

    Cláudia Viegas, especial para o Jornal JÁ

    O 8 de março deste ano foi apenas o começo. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) promete continuar sua luta pela conscientização da população contra o “modelo concentrador do agronegócio” e o “deserto verde”. É o que garante o líder do MST, João Pedro Stédile, que esteve em Porto Alegre, nesta quinta-feira, 9 de novembro, para o Seminário Deserto Verde, Imprensa Marrom. Depois da palestra, Stédile concedeu entrevista exclusiva ao Jornal JÁ.

    Veja quais são os planos do movimento diante da iminente mudança no cenário político do Rio Grande do Sul e as articulações que prepara com entidades em nível internacional.

    – Quais são os planos do MST perante o novo governo do Estado que assume o poder no ano que vem? O que o movimento pretende realizar no próximo dia 8 de março?

    Stédile – A nossa obrigação, como eu disse na palestra, é fazer um trabalho permanente de conscientizar a nossa base para elevar o nível de conhecimento, de consciência da realidade. É isso que nós estamos fazendo permanentemente. Agora, as ações não são planejadas como e fosse alguma coisa assim, matematicamente. Isso depende muito de cada movimento, dos problemas que enfrentam na base. O que é certo é que, seguramente, as nossas companheiras da Via Campesina seguirão aproveitando o 8 de março para fazer novas ações de mobilização que tragam mais consciência para a nossa sociedade e que denunciem esse modelo perverso do agronegócio que afeta não só a monocultura de eucalipto como outras monoculturas, como os alimentos que vêm já cada vez mais contaminados com o uso do agrotóxico que o agronegócio vem trazendo.

    – Existe alguma articulação do MST com o Uruguai para manifestações contra as fábricas de papel que estão se instalando naquele país?

    Stédile – Nós temos duas articulações que envolvem os uruguaios e os argentinos. Tem uma que é uma rede ambientalista que se chama Amigos da Terra, cuja sede é justamente em Montevidéu. Com freqüência são feitas reuniões aqui no Cone Sul para debater como o meio ambiente está sendo agredido e quais são as ações comuns que cada um de nós pode fazer nos seus países. E a outra rede é a da própria Via Campesina, dos movimentos camponeses. Aí no caso do Uruguai é mais fraco. Praticamente, nas últimas décadas eles acabaram com os camponeses. Mas com os argentinos já há diversas organizações camponesas. Eu acho que o lado bom dessa intervenção de empresas transnacionais é que como são as mesmas empresas que estão lá no Uruguai, que estão na Argentina, que estão aqui no Brasil, isso facilita, também, nos obriga a ter cada vez mais uma consciência internacional e nós começarmos a nos articular para fazer também ações internacionais ao mesmo tempo.

    – Com relação à aprovação do cultivo de transgênicos, o MST chegou a entrar com ação de inconstitucionalidade a uma medida provisória do governo Lula, de 2003, que liberou esse plantio para uma safra. Depois, com a aprovação da Lei de Biossegurança, em março de 2005, essa ação perdeu o objeto, mas existe uma outra que requer que a lei seja considerada inconstitucional por ter vários dispositivos que contrariam o texto da Constituição de 1988, como possibilitar o plantio de transgênicos sem a necessidade de estudo prévio de impacto ambiental. Só que esta última ação está há mais de um ano no Supremo Tribunal Federal (STF) e não foi julgada. O MST vai se mobilizar para obter a declaração de inconstitucionalidade da lei?

    Stédile – A nossa pressão é mais no geral em relação à opinião pública, não tanto em direção ao STF, porque a gente sabe que lá há mais do que um poder judicial, aquilo lá é uma extensão do poder político, só reflete o que as classes dominantes dominam no Congresso, no Poder Executivo, e assim por diante. Então o nosso esforço é conscientizar a população de que a Lei de Biossegurança vai, como ela está, ser usada cada vez mais pelas empresas apenas para o seu lucro. E o que é pior: mesmo quando a gente consegue alguns avanços na lei, como é o caso da determinação de rotulagem de todos os produtos transgênicos nas prateleiras dos supermercados, eles não obedecem. Essa determinação já existe desde abril de 2003, e até hoje nós não vimos nenhum produto em prateleira de supermercado que tenha lá a caracterização “Esse produto contém transgênicos”. Então, isso também é uma denúncia que nós fazemos com maior freqüência junto com o Greenpeace e com outros meios ambientalistas: conscientizar o consumidor que exija a aplicação dessa lei. Outros companheiros, o próprio Idec [Instituto de Defesa do Consumidor], têm atuado mais nessa questão jurídica. Mas eu acho que nós, dos movimentos camponeses, o nosso papel maior é ir mais além do acompanhamento dessas disputas jurídicas. É conscientizarmos a população e fazermos atos que sirvam de pedagogia, de exemplo, como as mulheres fizeram aqui na Aracruz. E é isso que nós vamos continuar fazendo.

    – Isto significa que o MST vai realizar ações em supermercados, por exemplo?

    Stédile – Claro, eu acredito que as companheiras estão discutindo pelo menos para nós exigirmos a rotulagem dos transgênicos, para chamar a atenção de como está piorando a qualidade dos alimentos em função dos agrotóxicos, o que é tão grave quanto os transgênicos.

    – Qual é a sua avaliação do primeiro mandato do governo do presidente Lula em relação ao meio ambiente?

    Stédile – O governo Lula é um governo de composição. Tem uma área de direita, uma de centro e uma de esquerda. Tem todas as forças políticas. Não é um governo de esquerda. Por isto, se transforma num governo ambíguo. Em todas a áreas em que ele atua, seja no meio ambiente, seja na reforma agrária, ele vem tomando medidas ambíguas. Tem medidas que favorecem a conservação do meio ambiente, e às vezes vem a pressão da direita, e o governo toma medidas que prejudicam o meio ambiente.

    – É o caso dos embates entre o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério da Agricultura na questão dos transgênicos e entre o Ministério do Meio Ambiente e o das Minas e Energia por causa do licenciamento de grandes hidrelétricas?

    Stédile – Exatamente. É este o governo que nós temos, um governo ambíguo.

    Seminário Deserto Verde, Imprensa Marrom: mais do mesmo

    Marco Aurélio Weissheimer, jornalista da Agência Carta Maior (esq), Vanderléia Daron, do Movimento de Mulheres Camponesas e João Pedro Stédile integraram a mesa.

    Ana Luiza Leal, especial para o JÁ

    “A luta contra a Aracruz é apenas o modelo. Ela é o diabo; queremos destruir todo o inferno”. A frase é de João Pedro Stédile, líder da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que deu a tônica ao Seminário Deserto Verde, Imprensa Marrom.

    Também integraram a mesa Marco Aurélio Weissheimer, jornalista da Agência Carta Maior, e Vanderléia Daron, do Movimento de Mulheres Camponesas. A pauta do encontro foi a reação da grande imprensa à ação das mulheres da Via Campesina na Aracruz Celulose, no dia 8 de março de 2006, em Barra do Ribeiro/RS.

    As duas horas e meia de debate foram marcadas por muitos “abaixo ao capital estrangeiro das transnacionais” e pouca reflexão acerca da cobertura da mídia sobre as questões socioambientais. Mais do mesmo. Os destinatários dos ataques – grande imprensa gaúcha e nacional, governo, papeleiras – não compareceram.

    Enquanto o discurso de Vanderléia, que abriu os trabalhos da noite, girou em torno da defesa das mulheres camponesas, vítimas da “sociedade neoliberalista patriarcal”, Stédile optou por uma fala que não tinha por objetivo “falar mal das RBS, Globo”. O líder do MST preferiu recontar aos presentes a história econômica do Brasil, do pau-brasil aos transgênicos, de forma crítica, e dar um panorama do que é polêmica nos dias atuais, como a pretensa “sustentabilidade” do biodiesel. Colocou o eucalipto em pé de igualdade com as demais monoculturas que ameaçam a biodiversidade brasileira, a exemplo da soja, do arroz, da cana-de-açúcar etc.

    “Chegamos a uma situação em que dez ou 12 empresas, como a Monsanto, são as todas-poderosas da agricultura no Brasil. Essas transnacionais controlam todo o ciclo de produção: do laboratório que produz a semente transgênica, à definição do preço do grão, e impõem isso aos pequenos produtores”, declara.

    Para Stédile, o governo mente quando diz que os agricultores bateram recordes de exportação de soja. “Quem bate recorde no país é a Bunge e as outras três que dominam o mercado da oleogianosa. São essas as empresas que vendem o grão e atingem as cifras”, polemiza.

    O líder do MST também levantou a questão da padronização global dos alimentos, que seria uma marca da ação econômica das transnacionais. Segundo dados que trouxe para o seminário, até o ano de 1500, a humanidade se alimentava de cerca de 300 vegetais. Nos 1900, caiu para 33: “E hoje, a maioria da alimentação é baseada em cinco produtos: soja, trigo, arroz, feijão e milho. Você come isso aqui e em qualquer lugar no mundo”.

    Denuncismo não é a solução para a luta dos movimentos sociais

    Segundo o jornalista da Agência Carta Maior Marco Aurélio Weissheimer, o fenômeno da cobertura da grande imprensa ao 8 de março de 2006 deve ser enxergado dentro do contexto global dos conglomerados de mídia, que já é realidade no Rio Grande do Sul. “Parece óbvio repetir isso, mas a Aracruz investe muito dinheiro em publicidade e em relacionamento com a imprensa. E tudo é apresentado de forma bem natural pela mídia, como se não influísse no conteúdo do que está sendo veiculado”, relata.

    Na opinião do jornalista, o movimentos sociais devem estar preparados para a cobertura mais negativa possível por parte da mídia. “É inocência nossa achar que, algum dia, será feita uma matéria favorável. Não se pode continuar batendo na mesma tecla do denuncismo”, defende.

    Weissheimer acredita que esse estágio poderá ser superado com a identificação dos braços econômicos que sustentam os grupos midiáticos. “A situação só mudará quando realizarmos estudos analíticos sérios sobre essas empresas, além de continuarmos investindo na construção instrumentos de comunicação do lado de cá”, acredita.

    Questionado pelo JÁ sobre a forma como seria feita a “comunicação do lado de cá”, respondeu, evasivo: “A mídia alternativa ainda é muito precária, mas está melhor do que há dois, três anos. A saída é a internet, aliada à criatividade do pessoal que vai para a Comunicação”.

  • Vitória política no RS: elementos para um balanço

    As eleições no Rio Grande do Sul têm sua singularidade. Qualquer balanço sobre o último processo eleitoral precisa levar em conta, entre outros fatores, as tradições históricas e políticas do Estado, as características da construção do PT no RS, seu crescimento ao longo da década de 90 e os resultados deste período, que expressam, entre outras coisas, o reconhecimento da população mais pobre e dos setores médios sobre aquilo que fizemos. A partir de 1989, com a eleição de Olívio Dutra para a prefeitura de Porto Alegre, o PT iniciou uma ascensão sistemática, que acabou se confirmando, no plano eleitoral, pelas quatro sucessivas vitórias na capital, pelos oito anos na prefeitura de Caxias do Sul (segunda cidade do Estado), pelos quatro anos em Pelotas (terceira cidade do Estado), pelas importantes vitórias em várias cidades do anel metropolitano e, sobretudo, pela vitória e experiência de governar um Estado moderno no período 1999-2002.
    Nossas virtudes, neste período, se expressaram concretamente na melhoria da qualidade de vida, principalmente da população mais pobre, através de serviços públicos e obras estruturais, muitas delas decididas e ordenadas pelo Orçamento Participativo (OP). A idéia de democratização das decisões sobre os investimentos públicos transformou-se em uma materialidade objetiva na vida de setores da população até então extremamente marginalizados. Fomos responsáveis por uma experiência única e inédita no mundo, que foi a de implementar um OP em escala estadual, que atingiu quase 10 milhões de pessoas e 497 municípios. É importante lembrar que, no período do governo Olívio, tínhamos no máximo 30 prefeituras. E interviemos em 497 cidades, discutindo os interesses da população, com apoio da igreja, de sindicatos e de movimentos sociais. É preciso lembrar também os Fóruns Sociais Mundiais que fizeram dessas experiências referências mundiais. Com tudo isto tivemos um papel decisivo na resistência à “avalanche neoliberal”.
    Então, não é nem pretensioso, nem bairrista, dizer que o patamar de compreensão política da população gaúcha, que já tinha uma tradição importante (o trabalhismo getulista e brizolista), estabeleceu uma relação positiva com as nossas políticas, aprovando-as em sucessivas eleições. É neste contexto que, a partir de 1994, estabelece-se uma polarização indiscutível no Estado. O que o PT fez ou não fez passa a ser uma referência incontornável no debate estadual, passando a constituir um dos pólos. É neste universo de acumulação positiva de mais de uma década que os nossos adversários políticos do campo mais conservador, com a imprescindível assistência do monopólio midiático representado pela Rede Brasil Sul de Comunicações (RBS), passam a reposicionar suas forças e seu modo de agir para tentar interromper a continuidade desse acúmulo crescente.
    O papel da RBS como agente político
    Cabe, aqui, uma observação mais detalhada sobre o papel da RBS. Mais do que uma mera afiliada da rede Globo, ela é uma organização independente de grande potência e irradiação. A capacidade de intervenção desse grupo na sociedade é composta, nada mais nada menos, pelos seguintes instrumentos: 18 emissoras de televisão aberta, 2 emissoras locais de televisão, 8 jornais diários, 26 emissoras de rádio, 2 portais de internet, operação orientada para o agronegócio, editora, gravadora, empresa de logística, empresa de marketing para jovens e fundação de responsabilidade social. Essa rede de veículos articula sistemática e organicamente a agenda dos setores mais conservadores no Estado. Nenhum tema escapa. Soma-se a esse poderio quantitativo uma eficácia qualitativa muito grande de intervenção, baseada em um exame escrupuloso dos vários segmentos da sociedade gaúcha. O lançamento do jornal Diário Gaúcho, no início do governo Olívio, é um exemplo disso.
    Voltado para a população mais pobre de Porto Alegre e da Região Metropolitana, além de sortear panelas e outros brindes entre seus leitores, passou a articular diariamente, com uma linguagem simples e direta, pautas em terrenos sensíveis, como saúde e segurança pública. Assim, para cada segmento da sociedade, a RBS passou a ter um veículo jornalístico específico, com uma linguagem específica, que nos atacou dia e noite, noite e dia. Dito de outra maneira, um jornal para cada setor e uma rádio para cada gosto. Durante o governo Olívio Dutra, o grupo começou a definir a pauta da oposição já no primeiro dia com a exploração do episódio do aparecimento de uma bandeira de Cuba na sacada do Palácio Piratini, na festa da posse. Todos os movimentos da esquerda transformaram-se em temas de máxima repercussão: a bandeira de Cuba, a queima do relógio da Globo (500 anos), os transgênicos, MST, a Ford, o combate à corrupção na polícia, apenas para listar alguns. A vida interna do PT e de seus governos foi e segue sendo permanentemente devassada.
    O papel da RBS acaba sendo o de articular vários setores políticos, institucionais e econômicos, homogeneizá-los na ofensiva e unificar as palavras de ordem.
    Derrota eleitoral, vitória política
    É levando em conta este cenário, que quero sustentar que o resultado do processo eleitoral deste ano no RS representou uma derrota eleitoral e uma vitória política. Para entender porque é legítimo afirmar que obtivemos uma vitória política é preciso levar em conta o tamanho da dificuldade em que estávamos metidos. Não é preciso nenhuma sofisticação analítica maior para compreender que, na mesma proporção em que conquistamos crescentes espaços e consolidamos nossa posição como um dos pólos da disputa política no Estado, lutando até o último voto com o bloco conservador em todas as últimas quatro eleições, nossos adversários empreenderam uma reação com a mesma intensidade (ou maior ainda) e em sentido contrário. O cerco implacável a que foi submetido o governo Olívio foi um exemplo disso. O nível brutal de estigmatização deste governo foi operado sistematicamente e em todas as áreas, desde o seu início.
    O balanço do governo Olívio, com todas as políticas positivas que avaliamos que fizemos, ficou impregnada por esse bombardeio sistemático e os erros foram potencializados. E nós entramos nas eleições de 2006 com essa impregnação, esse estigma. Assim, nossas virtudes – pois algumas de nossas políticas só foram exitosas porque ousaram enfrentar setores e pautas conservadoras – também eram os nossos limites. Além disso, entramos com uma outra conta, relativa a episódios do governo Lula. O impacto da Reforma da Previdência, por exemplo, junto a setores importantes de nossa base social, foi devastador. Não custa lembrar o peso da classe média no RS, especialmente nas grandes cidades, e também o alto peso relativo e irradiador de opinião do funcionalismo público. Uma parte dele está no miolo da classe média. Nas nossas vitórias, a capacidade de atrair esses setores foi decisiva.
    O impacto da Reforma da Previdência entortou nossa posição junto ao funcionalismo público. Isto, somado aos trágicos eventos da crise política de 2005, provocou um grande rombo em nossas posições. Mais alto havíamos chegado em termos de reconhecimento junto à sociedade gaúcha, conseguindo ampliar muito além de nossas fronteiras partidárias e de nossos aliados mais tradicionais (como o PC do B e o PSB), maior foi o tombo que sofremos. É importante lembrar àqueles que nos criticavam por uma suposta incapacidade de ampliar nosso leque de alianças que foi com esses setores sociais e com essas fronteiras partidárias que conquistamos no RS (isto não quer dizer que a discussão de ampliação não seja legítima). E, este ano, quando muitos achavam que nós tínhamos acabado, fizemos mais de 46% dos votos tendo o PC do B como aliado no primeiro turno, o PSB no segundo e o apoio de mais de duas centenas de prefeitos e vice-prefeitos de outros partidos, entre eles o PDT, o PMDB e, em menor escala, o PP e o PTB. Não se pode esquecer o impacto do efeito dossiê e da não ida ao debate do Presidente Lula. Nesta sociedade gaúcha “tão a flor da pele” cortou o nosso ritmo de ascensão na boca do 1º turno.
    A ampliação política do 2° turno
    Essa ampliação junto à base de outros partidos poderá ter repercussões importantes. Há uma crise no PMDB, dividido entre o grupo do deputado federal Eliseu Padilha, apoiador de primeira hora da candidatura Yeda Crusius, e o grupo do governador Germano Rigotto, que optou por uma posição de neutralidade no segundo turno. Há ainda o tema da possibilidade de uma reconstrução das relações com o PDT, afinal de contas 55 prefeitos trabalhistas apoiaram Olívio Dutra no segundo turno. E, em terceiro lugar, mas não menos importante, vimos a retomada de laços importantes com os movimentos sociais do campo e da cidade. Ocorreram, portanto, alguns deslocamentos políticos importantes no Estado, que ainda devem ser melhor avaliados. O que é importante destacar é que o fruto do segundo turno foi uma inteligente e bem-sucedida busca de ampliação. O encontro no Hotel Embaixador, onde Olívio recebeu mais de 260 apoios, entre prefeitos e vice-prefeitos de outros partidos, é o principal símbolo disso.
    E foi com esse leque de alianças e apoios que enfrentamos o segundo turno. Perdemos, mas fizemos 46% dos votos. Os números das votações de Olívio e de Lula mostram, de modo objetivo, que o impacto dos problemas relativos ao PT Nacional e ao governo federal acabou sendo maior do que aquele relacionado com a pauta do governo Olívio. O ex-governador Olívio obteve 2.884.092 votos no RS (46,06% dos válidos), enquanto Lula atingiu 2.811.658 (44,65% dos válidos). Neste quadro, é importante lembrar que vínhamos de duas derrotas importantes: a eleição estadual de 2002 e a eleição municipal de 2004, quando perdemos a prefeitura de Porto Alegre. Em 2004, fizemos 378.099 votos na capital. Em 2006, chegamos a 416.193, com uma vantagem um pouco acima dos 5 mil votos. Além da retomada da maioria em Porto Alegre, tivemos a volta das bandeiras vermelhas às ruas, presença que havia sido atropelada pela crise política de 2005.
    Mais que os números, a maioria de nós acha que a sincronia Lula/Olívio X Alckmin/Yeda alimentou reciprocamente a clareza e o significado tanto de Lula quanto de Olívio. Ficou mais nítido, mais fácil e impediu que a direita nos infligisse uma grande derrota.
    Considerando tudo o que foi dito acima, esse resultado está longe de ser desprezível. Muita gente dizia que estávamos mortos politicamente. Não estamos. Some-se a isso o significado da vitória consagradora de Lula no país e a possibilidade que se abre para o aprofundamento das políticas sociais que ajudaram a constituir nossa identidade até aqui, e temos uma posição razoável de onde podemos tentar reconstruir coisas que perdemos. A ampliação que obtivemos no segundo turno (que tem o governo Olívio como uma das causas fundamentais, pelo tipo de relação que estabeleceu com os municípios, sem discriminar prefeitos de outros partidos), e a divisão no campo daqueles que sempre estiveram unidos contra nós talvez tenha aberto um flanco justamente quando menos esperávamos, em um de nossos mais difíceis momentos. Por fim, é preciso fazer uma observação sobre a grandeza e a qualidade política de Olívio Dutra. Não se trata de “confete”, mas sim de um reconhecimento político sobre valores que sempre foram muito caros a nós.
    O valor que cultivamos em torno da importância da construção política coletiva não deve impedir que reconheçamos a dimensão de alguns dos nossos quando enfrentam dificuldades gigantescas e conseguem resultados acima dos cálculos da obviedade política. Esse é o caso dos companheiros que compuseram nossa chapa majoritária – Olívio Dutra, Jussara Cony e Miguel Rossetto -, com uma observação especial em relação ao primeiro. Depois de uma dura saída do Ministério das Cidades, assumiu a presidência do partido no RS, em um momento crítico de nossa história, e aceitou uma candidatura ao governo do Estado em condições fortemente adversas. Por meio de seu exemplo e de sua conduta, Olívio acabou sendo uma espécie de catalisador que uniu de forma singular e incomparável a história do Rio Grande e a história das lutas sociais desse Estado. A sua candidatura acabou unindo, também, a militância dos partidos que integram a Frente Popular em torno da certeza de que é possível avançar, recuperar o terreno perdido e retomar a construção do projeto que tornou o RS fonte de esperança e inspiração para a esquerda mundial.
    *Deputado Estadual do PT

  • Uma viagem pelo mundo do eucalipto

    Árvore imigrante, originária da Austrália, o eucalipto tem ocupado as manchetes por conta da polêmica que se acirra no Rio Grande do Sul, onde três empresas planejam plantá-lo em grande escala para produzir celulose.

    O livro Eucalito – Histórias de um Imigrante Vegetal (JÁ Editores, 128p.), escrito pelo jornalista Geraldo Hasse, aborda os ciclos da madeira na economia nacional desde o descobrimento. O eucalipto está presente no Brasil há mais de um século e seu valor econômico é comprovado em inúmeras atividades – desde a indústria de papel, passando pela fabricação de móveis e a produção de farmacêuticos, até o simples fornecimento de moirões para cerca. Através da extesa pesquisa que hasse desenvolveu, aliada a entrevistas diversas, o jornalista procura colocar numa perspectiva mais ampla o embate que hoje contrapõe ecologistas, silvicultores, indústrias e governos.

    A narrativa sobre a presença ‘alienígena’, como Hasse define a planta, tem como pano de fundo a própria história da industrialização brasileira. O autor lista suas primeiras aparições em território nacional, ligadas à queima de madeira para produção de calor, passando pela construção de ferrovias, sua utilização nas usinas siderúrgicas e, finalmente, nos processos de fabricação de papel.

    A economia em torno do eucalipto o eleva de uma posição de coadjuvante à protagonista da indústria de celulose e do debate sobre a monocultura, inclusive no Pampa gaúcho. A consolidação da planta, como insumo produtor de papel, leva Geraldo Hasse a passear por entre as diversas espécies utilizadas nesses processos, até a consolidação do Eucaliptus urograndis, ou o eucalipto brasileiro, produzido por manipulação genética.

    Em Eucalipto – Histórias de um Imigrante Vegetal, o leitor ainda vai encontrar curiosidades sobre as possíveis utilizações da planta, como a coleção de estampas que o sabonete Eucalol lançou na década de 1930 e que movimentam colecionadores até os dias de hoje.

    Geraldo Hasse, que  escreve e pesquisa sobre o tema há duas décadas, autografa Eucalipto – Histórias de um Imigrante Vegetal na quinta-feira, 9 de novembro, às 18h30, na Praça de Autógrafos da 52ª Feira do Livro de Porto Alegre. Uma hora antes, a professora Elisabeth Horn apresenta o inédito livro-agenda Inglês no seu dia-a-dia, com dicas gramaticais, lista de verbos irregulares e prhasal verbs e provérbios em inglês com correspondente em inglês.

    Serviço
    Eucalipto – Histórias de um Imigrante Vegetal

    Autor: Geraldo Hasse
    JÁ Editores, 2006, 128 p.
    Preço de capa: R$ 25,00
    Preço na Feira: R$ 20,00

  • Lanceiros Negros retoma participação de escravos na Revolução Farroupilha

    Com a primeira edição esgotada em menos de um ano, Lanceiros Negros (JÁ Editores, 144 p.) novamente será lançado na 52ª Feira do Livro, desta vez em segunda edição, revista e ampliada.

    Um massacre de escravos ocorrido durante a Revolução Farroupilha (1835-1845), em Cerro dos Porongos, é o ponto de partida do livro-reportagem escrito pelos jornalistas Geraldo Hasse e Guilherme Kolling. Nesta reedição, dois novos capítulos, que atualizam o debate contemporâneo sobre o episódio.

    A partir da polêmica sobre o Massacre de Porongos, ocorrido em 14 novembro de 1844, a obra reconstitui a história dos regimentos de escravos, protagonistas na maioria das guerras gaúchas do século XIX, que tiveram papel destacado na fixação das fronteiras no extremo Sul do Brasil.

    O livro mostra também como estes fatos de um passado já remoto estão atualmente mobilizando intelectuais e ativistas que a partir deles pretendem redescobrir a história do negro no Rio Grande do Sul. Uma das ações defendidas pelo movimento negro do Estado é a construção de um memorial no sítio histórico onde ocorreu a batalha, hoje município de Pinheiro Machado.

    A partir desta demanda da comunidades negras gaúchas, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artistico Nacional (IPHAN) está pesquisando a herança da participação dos lanceiros negros. O trabalho faz parte do Inventário Nacional de Referências Culturais.

    Lanceiros Negros mostra ainda uma cronologia dos eventos guerreiros no Cone Sul, e relata a tradição do uso de lanças no pampa, desde o século 18, chegando até a Revolução Farroupilha, quando se descreve como foi feita a organização e o recrutamento dos lanceiros, e sua importância estratégica para os Farrapos. Tudo ilustrado com documentos em que chefes dos dois lados dão seu depoimento sobre esses guerreiros. O livro traz ainda um panorama da escravidão na época dos Farrapos.

    Geraldo Hasse e Guilherme Kolling autografam a 2a edição de Lanceiros Negros nesta quarta-feira, 8 de novembro, às 18h30, na Praça de Autógrafos da 52ª Feira do Livro de Porto Alegre.

    Serviço
    Lanceiros Negros – 2ª edição, revisada e ampliada
    Autores: Geraldo Hasse e Guilherme Kolling
    JÁ Editores, 2006, 144 p.
    Preço de capa: R$ 15,00
    Preço na Feira: R$ 12,00

  • O homem que inventou o ambientalismo

    Hoje, quem fala – e age – contra as derrubadas, as queimadas, o uso de agrotóxicos, a poluição das águas e do ar e as agressões contra o meio ambiente nunca é uma voz isolada. Há milhares de ONGs que voltam suas ações ao problema e os governos criaram órgãos legais – ministério, secretarias e fundações específicas – para determinar políticas públicas na área. As empresas privadas já percebem a importância de associar sua imagem à defesa do ambiente.

    Há 50 anos, entretanto, quem ousasse afrontar a idéia de progresso a qualquer custo teria que pagar um preço bastante alto. Esse é o tempo do gaúcho Henrique Luis Roessler, que antes mesmo de José Lutzenberger ou Chico Mendes, levantou as grandes questões do ambientalismo.

    Sua trajetória, seu pioneirismo e sua luta são o tema de Roessler – O Primeiro Ecopolítico, do jornalista Ayrton Centeno, volume inicial de VIDAS, a nova coleção de JÁ Editores, que publicará perfis biográficos em linguagem jornalística no intuito de resgatar a memória de personagens importantes, porém quase esquecidos.

    Feito com base em pesquisa, entrevistas e na leitura das mais de 300 crônicas escritas pelo pioneiro, Roessler – O Primeiro Ecopolítico percorre a múltipla militância desse gaúcho, que conseguia conciliar reflexão com ação, seja escrevendo, seja no front ambiental à cata de poluidores, madeireiros, caçadores clandestinos e outros predadores da natureza.

    Seu meio de vida era a contabilidade, mas foi como ativista e propagandista da ecologia, fiscal federal voluntário que trabalhava de graça em defesa do meio ambiente, que ele fundou, em São Leopoldo/RS, a primeira entidade ambiental do Sul do Brasil, a União Protetora da Natureza (UPN). A agência ambiental estadual, FEPAM, leva o nome do pioneiro ambientalista: Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler.

    Quando morreu, em 1962, foi chamado de “o maior guarda-florestal do Brasil”. Mas, nos anos que se seguiram, caiu um véu sobre seu nome. O resultado é que Roessler, apesar do boom da ecologia nos anos 1970, é muito menos conhecido do que deveria. O papel de Roessler – O Primeiro Ecopolítico é contribuir para romper este silêncio e ajudar a divulgar uma obra e uma vida exemplares.

    Ayrton Centeno autografa a obra nesta terça-feira, 7 de novembro, às 18h30, na Praça de Autógrafos da 52ª Feira do Livro de Porto Alegre.

    Serviço
    Roessler – O Primeiro Ecopolítico
    Autor: Ayrton Centeno
    JÁ Editores, 2006
    Preço de capa: R$ 20,00
    Preço na Feira: R$ 16,00

  • A obra de Carlos Reverbel em volume único

    Carlos Reverbel é um dos jornalistas mais importantes da história recente do Rio Grande do Sul. Pesquisador respeitado nas áreas de história e cultura rio-grandense, atuou na imprensa gaúcha durante mais de 60 anos, em veículos como a Revista do Globo e os jornais Correio do Povo e Zero Hora. Como repórter e pesquisador, Reverbel foi um incansável incentivador da cultura rio-grandense e sua biografia do escritor Simões Lopes Neto – Um Capitão da Guarda Nacional, edição esgotada – é considerada até hoje um marco na redescoberta do autor regionalista pelotense pelo resto do país. Como cronista, conquistou o respeito e a admiração de autores como Rubem Braga e Luis Fernando Verissimo.

    Para resgatar sua trajetória, Elmar Bones e Claudia Laitano se debruçaram sobre a obra do gaúcho e selecionaram trechos indispensáveis dos seus escritos, publicados no volume Carlos Reverbel – Textos Escolhidos, que sai pelo selo do JÁ Editores, com apoio do projeto Copesul Cultural. Além de reportagens realizadas na década de 50, o leitor vai encontrar a biografia de Simões Lopes Neto e as coletâneas de crônicas Barcos de Papel (1979) e Saudações Aftosas (1980) e o livro de memórias Arca de Blau (1993).

    O lançamento acontece em duas datas. Nesta segunda-feira, 6, um evento no Memorial do Ro Grande do Sul apresenta o livro para convidados. Na terça-feira, 7, os autores autografam Carlos Reverbel – Textos Escolhidos, na Praça de Autógrafos da Feira do Livro, a partir das 17h30.

    O livro, dividido em três partes, abre com as reportagens que têm Simões Lopes Neto como personagem principal. Na introdução deste capítulo, um ensaio do professor Flávio Loureiro Chaves destaca a importância de Carlos Reverbel nos estudos da obra do autor do Negrinho do Pastoreio. Na segunda parte, Sérgio da Costa Franco Antecipa as crônicas de Reverbel. Ao fim, uma reedição de A Arca de Blau, com fotos e correspondência.

    Reverbel conquistou boa parte de seu prestígio graças a textos que investigavam diferentes aspectos da cultura rio-grandense. Desde o início de sua carreira, no entanto, o rigor de repórter e pesquisador conviveu com a ironia fina e o agudo senso de observação do cronista.

    Carlos Reverbel trabalhou nos mais importantes veículos de comunicação do Estado ao longo de mais de 60 anos de carreira jornalística. Estava na Editora Globo, no auge do sucesso da Revista do Globo, ao lado de nomes como Erico Verissimo e Mario Quintana, e participou da criação da Província de São Pedro, revista que seria um marco na história cultural do Estado. Como editor das páginas de Cultura do Correio do Povo, publicou textos dos mais importantes intelectuais do país, movimentando a cena cultural local. Como cronista, na Folha da Tarde, no Correio e na Zero Hora, conquistou leitores com graça e leveza.

    Nas reportagens da Revista do Globo, com a qual começou a colaborar no início dos anos 40, já aparece sua habilidade para retratar a vida cotidiana em Porto Alegre com a graça e a inteligência que revelaria muitos anos mais tarde nas crônicas publicadas nos jornais Folha da Tarde e Correio do Povo – parte delas reunida nas coletâneas Barco de Papel e Saudações Aftosas – e depois em Zero Hora, onde manteve uma coluna semanal de 1987 a 1997. Nessas crônicas, assim como na seção Bibliografia Rio-grandense, publicada no Correio do Povo entre 1964 e 1966, Reverbel revela-se um incansável garimpador de histórias e personagens da cultura gaúcha, além de um narrador elegante e preocupado com o prazer dos seus – muitos – leitores.
    Serviço
    Carlos Reverbel – Textos Selecionados
    Autores: Elmar Bones e Claudia Laitano
    JÁ Editores

  • Inter, Orgulho do Brasil está entre os mais vendidos

    Jornalista autografou obra na segunda-feira, 30 de outubro (Carla Ruas/JÁ)

    O livro Inter, Orgulho do Brasil, do jornalista Kenny Braga, é o quarto mais vendido na categoria não-ficção da 52º Feira do Livro. Em primeiro lugar, está  Fatos e mitos sobre sua saúde, do médico Fernando Lucchese. Na segunda posição, 71 segundos – O jogo de uma vida, de Luiz Zini Pires, que narra a conquista do titulo da 2º divisão pelo Grêmio, principal rival do colorado.

    Lançado pela JÁ Editores (200p., R$ 30) a obra chega à sua terceira edição, revisada e ampliada, e apresenta a trajetória completa do Internacional, desde suas origens até a recente e inédita conquista da Copa Libertadores da América. A narrativa atravessa os momentos marcantes do clube, como o histórico time do Rolo Compressor, na década de 40, e as equipes de 1956 e 1984, que serviram de base para a Seleção Brasileira, no Pan-Americano do México e nas Olimpíadas de Los Angeles, respectivamente.

    A construção do Gigante da Beira Rio, a conquista dos três campeonatos brasileiros e o título ‘sonegado’ do Brasileiro de 2005, também estão no livro, que é complementado com 25 perfis de jogadores, técnicos e dirigentes decisivos na história do Inter. São nomes como o do patrono Ildo Meneghetti, o craque Tesourinha, até a dupla de ataque da Libertadores, Sobis e Fernandão.

    Conforme pesquisa da Secretaria Municipal de Cultura, até sexta-feira, 3 de novembro, foram vendidos 184.071 livros (123.803 na Área Geral – 54.450 na Área Infantil e Juvenil- 5.818 na Área Internacional).

    Confira os mais vendidos até 3 de novembro:

    Ficção

    A bruxa de Portobello – Paulo Coelho – Planeta
    Bruto – Thedy Corrêa – L&PM
    Da Terra à Lua – Júlio Verne – Melhoramentos
    Vagamundo – Eduardo Galeano – L&PM
    A Carta Roubada – Edgar Allan Poe – L&PM Pocket
    O Sono Eterno – Raymond Chandler – Brasiliense
    O Velho e o Mar – Ernest Hemingway – Círculo do Livro
    Não-ficção

    Fatos e mitos sobre sua saúde – Fernando Lucchese – L&PM
    71 segundos – O jogo de uma vida – Luiz Zini Pires – L&PM
    Na trilha da humanidade – Airton Ortiz – Record
    Inter, Orgulho do Brasil – Kenny Braga – Já
    Marley e eu – John Grogan – Prestígio
    Trata-se de não entregar os pontos – Conversas Radiofônicas – Régis Debray/Jean Ziegley – Paz e Terra
    Auto-ajuda / Esotérico

    Afinal, quem somos nós? – Moacir Costa de Araújo Lima – AGE
    Tudo tem seu preço – Zibia Gasparetto – Vida e consciência
    Entre a terra e o céu – Francisco Cândido Xavier – FEB
    O céu pode esperar – Vera Lúcia M. de Carvalho – Petit
    O evangelho segundo o espiritismo – Allan Kardec – IDE
    Infantil e Juvenil

    As aventuras dos carros – Patrícia Amorim – Vale das Letras
    As aventuras de Floribella – Patrícia Moretzsohn – Landscape
    Garfield: Toneladas de diversão – Jim Davis – L&PM
    Princesas – Sem Autor – Vale das Letras