Autor: Elmar Bones

  • Sindicato dos Enfermeiros critica gestão da saúde em Porto Alegre

    Em audiência na Câmara Municipal, enfermeiros reclamaram que faltam ações de prevenção (Fotos: Juliana Freitas/CMPA)

    Helen Lopes

    O Sindicato dos Enfermeiros do Rio Grande do Sul (Sergs) denunciou na tarde desta terça-feira, 29 de agosto, na Comissão de Saúde e Meio Ambiente (Cosmam) da Câmara Municipal, deficiências no sistema de saúde da Capital.

    Conforme a diretora da entidade, Nelci Dias, a gestão está priorizando ações de alta complexidade – exames e tratamentos avançados – em detrimento dos procedimentos de prevenção.

    A análise foi feita perante dados do relatório do primeiro trimestre de 2006 da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), que aponta um aumento de 26% da mortalidade infantil, em relação ao mesmo período do ano passado. Foram 66 mortes de crianças de até um ano, 14 a mais que no período anterior, quando faleceram 52. Óbitos de recém nascidos aumentaram 38%, passando de 26 para 36.

    O Sindicato reclama que as medidas preventivas na área odontológica também foram deixadas de lado. “Não há mais ações nas escolas de orientação e conscientização”, acusa Nelci, que trabalha como enfermeira há 15 anos.

    De acordo com o relatório, os três itens que compõem as atividades básicas diminuíram neste ano – extração de dentes caiu 61% e procedimentos odontológicos coletivos e ações básicas baixaram 14%, cada. Além disso, a entidade afirma que a administração municipal está realizando 2,77% menos exames preventivos de câncer do colo do útero.

    O Sindicato também acusa a Prefeitura de estar comprometida com a classe médica, promovendo a contratação de 65 médicos e apenas dois enfermeiros. Os dados indicam que nos três primeiros meses do ano foram feitas 28 mil consultas. Segundo Nelci, esse número representa uma média diária de 16 atendimentos por médico. “É muito pouco. Para isso, 29 profissionais seriam o suficiente”, acredita a enfermeira.

    Secretário rebate avaliação do Sindicato

    O secretário municipal de Saúde, Pedro Gus, explicou que as variáveis mudam de ano para ano e que o dado de aumento da mortalidade precisa ser consolidado no final do ano para se tornar real. “Não podemos pinçar dados do relatório e analisar isoladamente”, afirmou.

    Gus admitiu, porém, que ocorreram problemas internos na Secretaria e que existe deficiência de verbas para compra de remédios. “O primeiro trimestre foi ruim, mas não aceito que se diga que a saúde piorou em Porto Alegre”, rebateu o secretário.

    Secretário de Saúde, Pedro Gus: “O primeiro trimestre foi ruim, mas não aceito que se diga que a saúde piorou em Porto Alegre”

    Conforme o gerente de Regulação dos Serviços de Saúde da SMS, Eduardo Elsade, os gestores não estão priorizando ações de alta complexidade porque não escolhem o destino dos recursos. “Isso já vem definido do Ministério da Saúde”.

    Elsade reclamou que a situação piora porque o Governo do Estado não repassa o dinheiro da saúde aos municípios há 18 meses. A dívida totaliza R$ 208 milhões.

    Para o presidente do Conselho Municipal de Saúde, Oscar Paniz, existem muitas questões “que não estão minimamente resolvidas”, como exemplo, a necessidade de maior controle da SMS na falta de medicamentos nos postos de saúde.

  • Prefeitura vai apresentar ao BID alterações no Programa Socioambiental

    Programa vai tratar 50% do esgoto de Porto Alegre (Foto: Tânia Meinerz/Arquivo/ JÁ)

    Guilherme Kolling

    A Prefeitura está preparando mais uma cartada para retomar o Programa Integrado Socioambiental, que irá tratar 50% do esgoto cloacal de Porto Alegre. Com isso, o índice da cidade vai saltar de 27% para 77% de esgoto tratado. Trata-se de um passo decisivo para a despoluição do Lago Guaíba.

    O gerente do Programa, engenheiro Carlos Fernando Marins, e técnicos da Prefeitura estão trabalhando nos últimos detalhes das alterações que serão feitas no projeto. Um encontro com Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) está marcado para 11 de setembro, em Washington, quando serão entregues três propostas.

    Além do engenheiro Marins, a administração municipal vai levar aos Estados Unidos o diretor do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), Flávio Presser, e o secretário de Gestão e Acompanhamento Estratégico, Clóvis Magalhães. A reunião servirá para aprofundar discussões técnicas iniciadas em fevereiro deste ano, quando uma missão do BID visitou a Capital.

    A negociação para garantir o financiamento do banco, ameaçado após os sucessivos déficits do Município (2002, 2003 e 2004), também está na pauta. A idéia da Prefeitura é enquadrar as obras ao novo orçamento, mais apertado.

    Os recursos aprovados pelo BID para a implantação do Programa Socioambiental totalizam 115 milhões de dólares. O problema é que o cálculo foi feito em 2003, quando a moeda norte-americana estava cotada a R$ 3, ou seja, o projeto custaria R$ 345 milhões. Hoje, o preço do dólar está abaixo dos R$ 2,20. Por isso, ao invés de 115 milhões de dólares, seriam necessários 160 milhões de dólares para concretizar a empreitada.

    Engenheiro Marins prepara propostas para o BID (Foto: Naira Hofmeister/JÁ)

    A principal alteração no projeto original do Socioambiental é na largura do emissário de 17 km de comprimento, que vai levar os resíduos da Ponta da Cadeia, no Centro, até o bairro Serraria, onde serão instaladas estações de tratamento. Ao invés de dois tubos de 1.200mm (1,2 metro) de diâmetro, haverá um único cano, com 1,6 metro de diâmetro.

    Programa vai durar uma década

    A Prefeitura solicitou ao BID que o prazo de execução do Programa Socioambiental seja esticado – o projeto original previa seis anos para os trabalhos. Pelo novo acordo, serão dez anos, o que permitirá ao poder público municipal cumprir sua contrapartida financeira com mais folga.

    Se tudo ocorrer como o previsto, isto é, se o Banco aprovar a proposta e a Secretaria do Tesouro Nacional der o aval para a negociação internacional, as obras devem iniciar em 2007 e ser concluídas em 2016.

    Como a Prefeitura já tem uma carta-consulta aprovada no valor do cálculo original (115 milhões de dólares) decidiu dividir o projeto em duas partes. A primeira etapa, ao custo dos 115 milhões, vai durar seis anos, priorizando o saneamento básico. A segunda parte, orçada em 45 milhões de dólares, demora mais quatro anos, e é voltada para a drenagem e o reassentamento de famílias em locais de risco.

    Para aprovar o projeto, a administração de Porto Alegre aposta nos números. Depois do superávit de R$ 87,5 milhões em 2005, a expectativa é ter mais um ano com saldo positivo neste 2006. Outro trunfo é a demonstração de interesse no início dos trabalhos.

    Para isso, nada melhor do que dar início à contrapartida, o que a Prefeitura pretende fazer através de uma grande obra na Restinga. O bairro, no Extremo Sul da cidade, receberá 80 quilômetros de rede de esgoto, ao custo de R$ 32 milhões. São R$ 29 milhões de recursos da Caixa Econômica Federal e R$ 3 milhões do Dmae.

    Conselho do Plano Diretor aprova obras na Restinga

    Com 15 votos favoráveis e duas abstenções, o Conselho do Plano Diretor aprovou em 15 de agosto o termo de referência do Estudo de Impacto Ambiental (EIA-Rima) para as obras de instalação da rede de esgotos na Restinga.

    Com a verba liberada pela Caixa Econômica Federal, a obra depende agora de licitações para o EIA-Rima e a construção. “É possível que iniciemos ainda este ano”, projeta o engenheiro Fernando Marins, com otimismo.

    As diretrizes do estudo de impacto ambiental que será realizado foram mostradas ao Conselho do Plano Diretor por uma equipe da Secretaria do Meio Ambiente. O diagnóstico levará em conta ligações de redes já existentes, geografia, espécie de fauna e flora, áreas verdes, potencial arqueológico e identificação do impacto com a implantação e evolução do projeto.

  • Saúde para 1 milhão de habitantes de Alvorada


    Equipe da Unidade Móvel do Hospital Mãe de Deus comemora mais de 1 milhão de atendimentos em dez anos de existência (Foto: René Cabrales/Divulgação/JÁ)

    Naira Hofmeister

    Na estrada desde 1996, a Unidade Móvel do Hospital Mãe de Deus comemora 10 anos de funcionamento. O ônibus percorre cinco vilas de Alvorada durante a semana, equipado com aparelhos e profissionais das áreas de medicina geral comunitária, odontologia, oftalmologia, enfermagem e serviço social. Desde sua implantação, foram 910 mil atendimentos gratuitos e 1.422.227 medicamentos distribuídos.

    Nos finais de semana, a unidade vai para Muçum, Campo Bom, Torres, Capão da Canoa ou Porto Alegre, cidades onde o Mãe de Deus mantém centros de atendimento. Ao longo dessa década, foram 128 mil atendimentos nesses finais de semana, quando a prioridade foi trabalhar a prevenção de doenças crônicas, como a diabetes, hipertensão e obesidade.

    A Irmã Lúcia Boniatti, presidente da instituição, explica que a dedicação ao serviço social é prática da congregação à qual pertence a mantenedora do Mãe de Deus, as Irmãs Missionaieras de São Carlos Borromeo – Scalabrinianas. Por isso, a escolha de Alvorada para receber a Unidade Móvel regularmente.

    O atual prefeito João Carlos Brum (PTB), denuncia o que chama de ‘injustiça histórica’ com o município, por parte dos governos do Estado e Federal. Ele apresentou dados da década 1950, quando a cidade tinha cerca de 4 mil habitantes. Depois que se emancipou de Viamão, em 1965, já eram 12 mil moradores. “Na última carta que recebemos do IBGE, com o censo, anotaram 210 mil 476 habitantes”.

    Com um crescimento populacional em desproporção ao desenvolvimento econômico, Alvorada não possui sistema de atendimento público compatível com o número de habitantes. “Nossa demanda é muito grande, e esperamos que o serviço do Mãe de Deus seja efetivamente ampliado, para amenizar nossas dificuldades”, sugeriu o prefeito.

    Além do atendimento em saúde, na Unidade Móvel, faz parte do programa uma itinerância de profissionais pelas escolas municipais, onde realizam palestras: “Eles falam sobre educação sexual, ensinam a escovar corretamente os dentes e aplicar flúor e ainda realizam o teste de acuidade, que descobre se a criança necessita de óculos”, relata Irmã Celsa Zucco, gestora dos programas sociais de saúde comunitária do Mãe de Deus.

    É também a equipe de Irmã Zucco que realiza o pré-natal e atendimento às crianças desnutridas, serviço que atinge atualmente 50 famílias. Além disso, o Mãe de Deus mantém diversas outras ações sociais, como o Posto de Saúde Avançado, o Centro Comunitário Vila Gaúcha, no Morro Santa Teresa, e o Projeto Visão, que faz atendimento oftalmológico gratuito, e que realiza, inclusive, cirurgias.

    O orgulho da equipe do Hospital é ter visto, durante esses 10 anos de atuação, resultados que vão além da saúde das comunidades: “Não precisamos mais ir em algumas localidades que visitávamos em 1996, pois a sociedade já está organizada”. Irmã Zucco conta que o atendimento no ônibus desperta a cidadania das pessoas, que cobram a inclusão de suas comunidades em programas como o Saúde da Família e a implantação de unidades básicas nas vilas.

  • Desigualdade social, a prioridade

    Frei Betto

    O maior mérito do governo Lula é contribuir efetivamente para reduzir a desigualdade social no Brasil. Em 2002, nosso país ocupava o vergonhoso 3º lugar em desigualdade social no mundo. Hoje, somos o 10º; se não é motivo de orgulho, já representa um avanço nesta nação tão populosa.
    O pico da desigualdade ocorreu na segunda metade dos anos 80, efeito da política de concentração de renda implementada pela ditadura militar – o herético “milagre brasileiro”, que levou o general Médici a admitir: “a economia vai bem, mas o povo vai mal”.
    Desde 2001 há progressiva redução no fosso da desigualdade. A renda dos mais pobres tem crescido cerca de 4,5% ao ano. No governo Lula isso se acentuou graças às políticas sociais, em especial o Bolsa Família, que hoje distribui renda a mais de 30 milhões de pessoas pobres e, segundo o Ipea, há maior número de pessoas da família inseridas no mercado de trabalho.
    Pesquisa do Ipea aponta que, em 2001, uma família de quatro pessoas dispunha de uma renda média mensal (em valores de hoje) de R$ 209. Em 2004 passou a R$ 239, um aumento de 14%.
    Como fatores indiretos dessa melhora do quadro social temos a Constituição de 1988, que ampliou os direitos do trabalhador; o aperfeiçoamento de nossa democracia, que possibilitou mais controle das instituições e, em especial, a fiscalização do poder público (embora isso ainda esteja longe do razoável); e o maior profissionalismo dos funcionários do governo. Um dos desafios da reforma política, pela qual a nação tanto anseia, será a drástica diminuição dos cargos de confiança, de modo a vetar o uso da máquina pública como moeda eleitoral e compensação de alianças partidárias.
    A questão social, tão efêmera nos governos anteriores ao de Lula e, quase sempre, restrita à dedicação da primeira-dama, tornou-se central a partir de 2003. Somada à expansão da educação fundamental, iniciada no governo FHC, influi na mudança do perfil da desigualdade no país.
    Se o governo Lula merecer um segundo mandato, como anseio, terá como desafios, para melhorar esse perfil, reformar a política de juros, que hoje asfixia os gastos públicos e impede o desenvolvimento sustentável; massificar a educação de qualidade (a aprovação do Fundeb é um passo importante nesse sentido); e incluir na reforma tributária a tributação progressiva, de modo a obrigar os mais ricos a pagarem mais impostos.
    Hoje a carga tributária é regressiva. Quem ganha até dois salários mínimos por mês arca com 48,8% do total, enquanto os privilegiados que recebem mais de 30 salários mínimos pagam apenas 26,3%. Eis aqui uma das principais causas da violência urbana. Não é a pobreza que revolta, é a desigualdade, essa odiosa convivência entre a miséria e a ostentação reforçada pela cultura do consumismo. Basta dizer que 70% dos recursos canalizados para atenuar a dívida pública (o famoso superávit primário) são amealhados por apenas 20 mil famílias. Ou seja, o Bolsa Marajás abocanha três vezes mais recursos que o Bolsa Família. Enquanto a Saúde dispõe de um orçamento anual de R$ 36 bilhões e a Educação de R$ 16 bilhões, os credores da dívida pública embolsam cerca de R$ 150 bilhões por ano.
    Ainda não há motivos para comemoração. São raros os brasileiros dotados de liberdade substantiva, ou seja, em condições de vislumbrar alternativas para o seu projeto de vida, poder escolher uma delas e realizá-la, inclusive alterando-a parcial ou totalmente. A maioria está privada do direito à vocação e se submete à oportunidade de emprego, condenada a um trabalho que raramente se traduz em satisfação subjetiva, espiritual.
    Um dos efeitos da desigualdade social é o desprezo pelos valores éticos. Na ânsia de livrar-se da pobreza e ingressar no mundo do consumo sofisticado (que os anúncios de TV propagandeiam como único reduto de dignidade e felicidade), ampliam-se a sonegação, a corrupção, o nepotismo e o corporativismo.
    As reformas política e tributária são imprescindíveis para reduzir ainda mais a desigualdade social, mas não suficientes. O passo significativo será dado no dia em que o Brasil comemorar o êxito de sua reforma agrária, pois só o campo é capaz de absorver a mão-de-obra hoje condenada ao desemprego e estancar o êxodo rural que provoca o inchaço de nossas cidades, visivelmente marcadas pelo subemprego e pela crescente favelização.

  • Domingo de homenagem aos jovens vítimas da violência


    No chão, virados para baixo, os cartazes alusivos aos jovens falecidos (Fotos: Carla Ruas/JÁ)

    Carla Ruas

    Neste domingo, 27 de agosto, a manhã nublada combinou com a revolta e a tristeza dos amigos e familiares de jovens assassinados no Estado. Em duas caminhadas até a Redenção, eles pediram justiça e providências do poder público para conter a violência.

    A ONG Chega de Violência lembrou as vitimas na 3ª edição da Passeata pela Paz. Próximos dali os amigos do jovem Rodrigo Carvalho, morto há dez dias, protestaram contra o racismo.

    Pela Avenida João Pessoa, cerca de 200 pessoas caminharam vestidas de branco, acompanhadas de cavaleiros do Centro de Tradições Gaúchas 35. Os manifestantes seguravam alguns cartazes em forma humana, que continham o nome, a idade e a data de morte de cada uma das vítimas. Eles seguiram pela rua Paulo Gama e Rótula da Setembrina até o parque da Redenção.

    Para a vice-presidente da ONG Chega de Violência, Corina Breton, a sociedade civil tem que se organizar e exigir das autoridades segurança, “que é um direito”. Corina, que já organizou outras duas passeatas semelhantes, espera conscientizar a comunidade ao lembrar das vítimas que morreram jovens por causa da violência.

    Ela afirma que a ONG Chega de Violência também atua em outras áreas, como ações sociais, antidrogas e legislação penal. “Essas são as causas dos crimes que choramos hoje”.

    Contra o Racismo


    As faixas: “Rodrigo, tua morte não será em vão, para o racismo dizemos não”; e “Olho por olho e o mundo acaba cego, não há vingança e sim justiça”

    Outro grupo chamou a atenção nos arredores da Redenção, apitando e segurando faixas e cartazes com dizeres pela paz. O manifesto lembrou os dez dias do assassinato de Rodrigo Carvalho, 28 anos, morto com um tiro numa discussão com o vizinho.

    O incidente, que ocorreu num prédio no bairro Santana, foi motivado por agressões verbais racistas, na noite em que o jovem comemorava a vitória do Internacional na Copa Libertadores.

    Aproximadamente 60 pessoas entre familiares, amigos e vizinhos pediram justiça e providências aos órgãos públicos. Um dos irmãos da vítima, José Carlos Carvalho, diz que a caminhada tem como objetivo homenagear Rodrigo e pedir tolerância à diferença. “Não podemos esquecer que meu irmão foi assassinado por um racista”.

    Outro irmão, Paulo Henrique Almeida Carvalho, diz que o protesto é Contra o Racismo, Pela paz e Pela vida. “Queremos mostrar que as grades são ilusórias e os preconceitos é que nos prendem”. Ele adianta que a família está se organizando para pedir todas as indenizações possíveis. “Sabemos que o dinheiro não traz meu irmão de volta, mas dá o exemplo para não acontecer mais”.

    A passeata saiu da frente do Hospital de Pronto Socorro e seguiu pela avenida Venâncio Aires até a rua Santana, quando se encaminhou para o Parque Ramiro Souto pelo Brique da Redenção.

  • Índios guaranis ganham melhores condições de vida


    Dez casas foram planejadas e construídas para o estilo de vida dos índios
    (Fotos: Carla Ruas/JÁ)

    Carla Ruas

    Um terreno próximo à Parada 22 da Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, abriga há nove anos a aldeia Anheteguá, com 70 índios Mbyá-Guarani. Desde o início do ano, o espaço recebe obras dos governos estadual e federal para melhorar a infra-estrutura e qualidade de vida. A comunidade, que ainda mantém costumes milenares, celebra a construção de novas casas.

    A Secretaria estadual de Habitação e Desenvolvimento Urbano já entregou 10 casas para a aldeia e deve construir mais três até o final do ano. As residências de madeira foram estrategicamente planejadas para comportar o estilo de vida dos índios – com portas grandes, muitas janelas e uma área aberta na frente.


    O cacique da aldeia, Cerilo, também representa todos os Guarani do Rio Grande do Sul

    O cacique da Lomba do Pinheiro, José Cerilo, explica que antes da construção, foi consultado sobre a forma dos domicílios. “Só assim daria certo porque temos os nossos costumes”, explica o índio, que também é cacique dos Guarani do Rio Grande do Sul.

    O grupo ainda terá um centro cultural até o final do ano, com a forma de um tatu. O cacique conta que o formato foi escolhido e desenhado por estudantes de arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). No local serão realizados rituais da comunidade e eventos para visitantes, como palestras. “Faremos um cronograma das atividades”, garante Cerilo.


    O posto de saúde indígena está quase pronto

    Os índios ainda aguardam a conclusão de um posto de saúde indígena, que será feito com recursos do Ministério da Saúde. O local vai oferecer atendimento especializado aos integrantes da comunidade. Até dezembro, outros 23 postos serão entregues a grupos indígenas do Rio Grande do Sul, totalizando um investimento de R$ 3 milhões, financiados pelo Banco Mundial.

    A aldeia Anheteguá

    Reduzidos a aproximadamente mil pessoas no Estado, os índios Mbyá-Guarani mantêm sua cultura, apesar das dificuldades para sobreviver em áreas verdes cada vez mais restritas. Na Lomba do Pinheiro, o grupo pesca carpas em um pequeno lago e planta milho e batata doce, entre outros alimentos.

    Eles também produzem artesanato – miniatura de animais em madeira, cestas e bijuterias – mas não costumam ir até o centro da cidade vender as peças, como fazem outras comunidades indígenas.

    “Preferimos ficar reservados na aldeia”, diz o cacique. O isolamento faz parte estilo de vida destes guaranis, que gostam de ficar em casa, cuidando da família, de preferência tomando chimarrão. “Chimarrão é a nossa vida”, resume o cacique.

    Além de estar distante de grandes centros urbanos, a aldeia recebe poucas visitas, geralmente de estudantes universitários e professores. Mas Cerilo garante que a relação com os vizinhos em volta é pacífica. “Ninguém entra aqui sem permissão”, ensina.

  • Comunidades pedem recursos para a agricultura negra


    O objetivo do encontro é lutar por políticas públicas para o desenvolvimento da atividade (Fotos: Carla Ruas/JÁ)

    Carla Ruas

    Na manhã deste sábado, 26 de agosto, iniciou o Seminário Nacional de Agricultura Negra e Quilombola, que segue até domingo no auditório da Igreja Pompéia, na rua Barros Cassal, nº 220, em Porto Alegre.

    O encontro discute produção, comercialização, visibilidade e cultura da agricultura negra tradicional no país. O objetivo é gerar encaminhamentos que busquem políticas públicas para o desenvolvimento desta atividade.

    Entre os palestrantes estão representantes de associações de quilombolas, organizações não governamentais, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),  Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA) e Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Inca).

    A platéia, que também participa de debates, é composta por aproximadamente 150 pessoas, a maioria integrante de comunidades quilombolas no interior do Rio Grande do Sul.

    O coordenador da Federação Nacional de Quilombolas, Roberto Potácio Rosa, destaca a importância de colocar em pauta as dificuldades da agricultura negra, cujos produtos não têm visibilidade ou valor no mercado.

    “Precisamos mostrar que temos mão-de-obra qualificada, conhecimentos culturais, técnicas de plantio e produtos com qualidade sem o uso do agrotóxico”.

    Rosa diz que um dos principais problemas é o acesso à terra e a falta de políticas públicas de educação e saúde, que melhorem o dia-a-dia das famílias negras rurais. “Vivemos as seqüelas do passado, de um regime escravocrata que obrigou as comunidades negras tradicionais a ficaram em estágio de confinamento”.


    Aproximadamente 150 pessoas participam do seminário

    A coordenadora da Federação Estadual dos Quilombolas, Cledes de Souza, afirma que a principal demanda é o repasse oficial de territórios históricos que a comunidade tem direito e recursos para produzir nestas áreas.  “A meta do seminário é buscar o acesso a linhas de crédito e incentivos que outras camadas da agricultura têm”.

    O grupo defende que o Pronaf – Programa Nacional de Apoio ao Desenvolvimento Rural, do Ministério de Desenvolvimento Agrário – seja estendido aos quilombos. O programa apóia a agricultura familiar com linhas de crédito e recursos para a infra-estrutura. É coordenado pelo Ministério, através da Secretaria da Agricultura Familiar.

    Além das palestras e debates, a programação do seminário inclui mostra de artesanato quilombola, exposição fotográfica das comunidades quilombolas do Estado, mostra de produtos e apresentações artísticas.

  • Plano Aquarela projeta o Brasil lá fora

    Wilson Muller*

    Pela primeira vez na história do trade nacional o país conta com um programa científico de divulgação do Brasil turístico no exterior. Trata-se do Plano Aquarela desenvolvido pelo Ministério do Turismo e posto em prática pela Embratur, em janeiro de 2005. O diferencial do país é reforçado por um símbolo formado por figuras geométricas em verde, amarelo, azul e vermelho em composição com as palavras Brasil e Sensacional, criação que sugere valores como alegria, sinuosidade, luminosidade e modernidade. A marca Brasil foi idealizada a partir de minuciosa pesquisa que se prolongou por vários meses, período em foi colhida a opinião de mais de 6 mil pessoas sobre o Brasil, em 18 dos principais mercados do mundo, entre profissionais do setor e os próprios turistas. Os resultados positivos que o país vem apresentando no setor evidenciam o acerto da iniciativa.

    Para você ter uma idéia, só nos três primeiros meses de 2006, os turistas estrangeiros gastaram no Brasil 1,559 bilhão de dólares, ou 20% a mais que em igual período de 2005. Mais: ainda em 2006 o Brasil avançou oito pontos na posição relativa a destinos turísticos do mundo, subindo do 19o lugar, registrado em 2003, para o 11o este ano. Além disso, foi o melhor colocado entre os países da América do sul , no item destino turístico, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

    Números como esses sugerem que não é excesso de otimismo afirmar que nosso país está caminhando para ocupar vigorosa posição de prestígio e relevância no turismo mundial. Para isso contribui uma nova mentalidade sobre a importância do turismo no Brasil de hoje, assunto levado a sério também pela iniciativa privada, estados e municípios, profissionais da mídia e a própria população. Cada qual fazendo a parte que lhe cabe no projeto, porque reconhecem que a indústria do turismo é essencial para fortalecer a economia, gerar empregos e produzir idéias ricas e produtivas.

    *Presidente da Câmara de Turismo do RS

  • Catálogo de Iberê deve ser reeditado

    Naira Hofmeister

    O prestígio da publicação do primeiro volume do catálogo raisonné de Iberê Camargo, que reúne a produção em gravuras do artista, foi atestado na noite de lançamento do volume, no Santander Cultural.

    Repleta de personalidades das artes gaúchas – estavam lá Anico Herscovitz, Nelson Coelho de Castro e Lilliana Magalhães, por exemplo – a noite de autógrafos se estendeu por uma hora além do previsto, em função da grande procura.

    A coordenadora da equipe de catalogação, Mônica Zielinsky, que assina a obra, se mostrou surpresa com a quantidade de livros vendidos, antes mesmo do lançamento oficial. “Os volumes da editora já se esgotaram”, comemora.

    Pudera, já que a sistematização da obra completa de artistas é atividade rara no país, onde apenas Cândido Portinari possui estudo semelhante. A reedição já é cogitada, ainda que só deva acontecer depois da publicação dos demais volumes – um de pinturas e outro de desenhos.

    Na apresentação, Mônica agradeceu a toda equipe que participou da pesquisa, que durou quatro anos. “Esse é o resultado de um trabalho de várias mãos”. Também lembrou os patrocinadores – Gerdau e Petrobras – e parabenizou a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, da qual é professora no Instituto de Artes. “Essa é mais uma amostra do trabalho de extensão da UFRGS, que se insere fortemente na comunidade”.

    O livro, com 500 páginas e 329 gravuras é editado pela Cosac Naify, responsável por publicações da mais alta qualidade gráfica. Além dos 2.500 exemplares em português, o catálogo recebeu uma versão em inglês, com tiragem de 500 livros. Livrarias de todo país já comercializam a obra por R$ 159.

    Mônica Zielinsky comemora: “Os volumes da editora já se esgotaram”(Foto: Tânia Meinerz/Arquivo/JÁ)

    No próximo dia 30 de agosto, Caxias do Sul recebe a equipe para o lançamento local, que será acompanhado de palestra com Mônica Zielinsky. Seguem-se eventos no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Florianópolis, Curitiba e São Paulo.

    Na capital paulista, o primeiro catálogo raisonné de gravuras do país chega acompanhado de uma exposição no Instituto Tomie Ohtake.

    Pesquisadores pedem auxílio na pesquisa

    Em meio ao lançamento do primeiro volume do catálogo raisonné de Iberê Camargo em diversas capitais brasileiras, a equipe de Mônica Zielinsky já prepara os próximos passos da coleção, que deve dar conta das mais de 7 mil obras que o gaúcho deixou.

    Com o número de integrantes reduzido, o mapeamento da produção de Iberê em pintura, desenhos, guaches e cerâmicas será ainda mais complexo. “Sofremos muita pressão para publicar o primeiro volume, mas optamos por retardar o processo em nome da excelência da publicação”, revela Zielinsky.

    Perseguindo com exaustão a cobertura completa da produção de 55 anos de carreira do artista, Mônica solicitou que a comunidade participe do processo de mapeamento: “Quem tiver alguma obra do Iberê, achar que tem, ou souber de um vizinho que possua, por favor, entre em contato”.

    Os colaboradores podem conversar com a equipe através dos telefones (51) 3247.2666, 3247.2940 ou através do site www.iberecamargo.org.br, da Fundação Iberê Camargo.

  • Experiência de gestão cultural

    Santander Cultural foi um dos exemplos de gestão cultural bem sucedida apresentado durante o Fórum Cultura, Comunicação e Cidadania (Foto: Divulgação/JÁ)

    Naira Hofmeister
    Santander Cultural, Porto Alegre Em Cena, Bienal do Mercosul, Centro de Cultura Telemar, no Rio de Janeiro e SESC foram os exemplos de bem sucedidas iniciativas de gestão cultural, apresentadas no Fórum Comunicação, Cultura e Cidadania, ocorrido na noite de terça-feira, 22, no Santander Cultural. O público, que na porta de entrada da instituição, lotava a lista de espera para ouvir o seminário, acabou o evento com um brinde de champagne e a sensação de que não foi exatamente o que esperavam.
    A expectativa era pelo debate do atual modelo de gestão cultural, de possibilidades de junção do interesse público com o marketing das empresas voltado para a cultura e dos problemas das Leis de Incentivo à Cultura, que não dão conta da diversidade artística do país nem viabilizam projetos menos comerciais.
    Os convidados – Liliana Magalhães, do Santander Cultural, Maria Arlete Gonçalves, do Centro Cultural Telemar, Justo Werlang, da Bienal do Mercosul, Danilo Miranda, do SESC e Luciano Alabarse, do Porto Alegre Em Cena – em sua maioria acabaram atendo-se a narrativas das experiências de seus institutos, celebrando as atividades que cada um promove, sempre destacando o interesse de viabilizar a transformação social através da arte.
    Nádia Rebouças: a teórica da cultura
    O seminário iniciou com uma apresentação de Nádia Rebouças, salientando que suas atividades não estavam ligadas à produção cultural, mas sim, à pesquisa sobre o assunto. Em sua abordagem teórica, Nádia materializou a mudança do paradigma sócio-cultural da contemporaneidade. Ela entende que tudo o que antes recebia interpretações mecanicistas, práticas, “newtonianas”, tem hoje uma concepção atual mais holística, sistêmica e integrada.
    Segundo a pesquisadora, essa visão abriga novos olhares, pede mudanças na percepção, nos valores e  credos das pessoas. “Compreender é holístico, mas explicar é mecanicista”, exemplificou, sublinhando que nesse mundo holístico, as mensagens são sentidas e não faladas.
    Dentro dessa lógica, a cultura exerceria o papel fundamental de formação de identidade. A comunicação, proporciona alcance a iniciativas de resgate e reflexão sobre o que somos. Juntos, os dois processos culminam na cidadania, que se reflete no cuidado e respeito com o que nos pertence. Quanto ao enfoque cultural, Nádia afirma que a excelência artística está em saber unir a preservação do passado e a criatividade do futuro.
    Diálogo: a palavra da boa gestão cultural
    Na prática, o que os palestrantes do Fórum de Gestão Cultural – Cultura, Comunicação e Cidadania apresentaram, foi o modelo do sucesso de suas instituições. As diferenças entre os estabelecimentos – o SESC, entidade de classe, o Em Cena e a Bienal, que têm apoio nas LICs e as casas que representam o braço cultural de grandes empresas – não se refletiram na maneira como seus gestores comandam as políticas culturais, que se aproximam bastante umas das outras.
    A regra geral é manter um diálogo, identificando as necessidades da sociedade e trabalhando em parceria com outras instituições: “Quando fizemos o balanço de nossas atividades, fiquei muito surpresa ao saber que 60% de tudo o que o Santander Cultural realizou foi com recursos externos”, revela Liliana Magalhães, superintendente da instituição. Foi ela também que sistematizou a regra: ter sintonia com o tempo e o espaço que convive a instituição, capacidade de adaptação e respeito ao mercado.

    LIliana Magalhães, que, há cinco anos comanda o Santander Cultural, surpreendeu-se com a quantidade de projetos viabilizados através de parcerias (Foto: Naira Hofmeister/Arquivo JÁ)

    Seguindo esse parâmetro se deu a criação do Centro Cultural Telemar, na cidade do Rio de Janeiro. A privatização do setor de telecomunicações, ocorrida em 1998, deu à Telemar o antigo prédio do Museu do Telephone, que, após muito estudo e discussão, transformou-se, no início de 2005, em um espaço de reflexão social, a partir de trocas culturais. “Nos demos conta que não havia como a empresa sobreviver sem incentivar o crescimento do país, que não deve ser reduzido à economia. Por isso, determinamos que cultura, educação e cidadania, seriam os três eixos principais de nosso trabalho”, resumiu Maria Arlete Gonçalves, curadora do instituto.
    A opinião de que o desenvolvimento não se dá apenas na área financeira é dividida com Danilo Miranda, representante do SESC, instituição voltada ao bem estar social dos trabalhadores do comércio. “Todos aqui temos uma característica em comum, que é ser da religião que acredita que a cultura é muito importante”, disse.
    Para o gestor, formado em filosofia, um dos principais problemas a ser enfrentado pelas entidades culturais no Brasil é a falta de sintonia entre educação e cultura. Ele citou como exemplo o MEC, que, na sigla carrega o antigo conceito de cultura e educação trabalhando em conjunto, mas que dividiu-se: “Hoje, o MinC conta com apenas 0,5% do orçamento federal”, lamentou.
    Miranda também deu uma dica para quem se interessa pelo assunto: para uma gestão cultural dar certo, deve ter claro o seu “DNA”, que seria o público alvo, a intenção e o financiador das ações sócio-culturais. Outro conselho do pensador é investir na facilitação de acesso, seja levando as atrações para quem precisa, seja disponibilizando transporte gratuito.
    Luciano Alabarse, do Porto Alegre Em Cena e Justo Werlang, da Bienal do Mercosul, trouxeram o exemplo de projetos que não funcionam em tempo intergral, alternando momentos de intensa atividade com outros de “dormência”, como referiu Werlang.
    Para Alabarse, a principal característica do meio cultural é que sabe lidar bem com seus próprios erros, “que podem dar origem à verdadeiras maravilhas”. Esse sintoma, na visão de Werlang, é o que culmina no que ele chamou de caos criativo, “uma verdadeira tsumani” de idéias.
    O papel do patrocinador também foi elucidado e, a conclusão geral é que os interesses comerciais jamais podem se sobressair aos artísticos: “Jamais podemos ter dúvida de que o determinante é o interesse cultural, ainda mais se lidamos com recursos públicos”, pontuou Miranda, complementando que a prioridade do corpo social deve ser a da manutenção da condição humana para as gerações vindouras.