Autor: Elmar Bones

  • Ponto de Cultura movimenta comunidade GLBT

    Alexandre Böer comemora as novas instalações (Fotos: Naira Hofmeister/JÁ)

    Naira Hofmeister
    Uma casa ampla, de dois pisos na rua Jacinto Gomes, 378 (bairro Santana) deve ser o novo local de encontro do público homossexual de Porto Alegre. O Ponto de Cultura GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Transexuais, Travestis e Transgêneros) mantido pelo Grupo Somos – Comunicação, Saúde e Sexualidade é o primeiro local voltado ao estudo e discussão da cultura gay no Estado.
    “A cultura tem sido muito importante para enxergar a sexualidade de forma diferente, sem moralismo”, acredita Alexandre Boër, coordenador do espaço e militante da causa gay.
    A primeira atividade do local foi a abertura da mostra Um olhar atrás das cores, do fotógrafo Walter Karwatsky, um ensaio fotográfico em preto e branco, feito na Parada do Orgulho Gay, em 2005, no Parque Farroupilha.
    Além da mini-galeria, que vai abrigar exposições como a de Karvatski, a casa conta com um espaço multimídia, biblioteca e acervo de filmes em VHS e DVD, que abordam a sexualidade ou produzidos por artistas homossexuais. Entre os títulos podem ser encontradas obras de Truman Capote ou Andy Wharol. O catálogo de filmes transita entre clássicos como A Cor Púrpura, de Steven Spielberg, Beleza Roubada, de Bernardo Bertolucci, até o recente O Segredo de Brokeback Mountain, do diretor Ang Lee, que narra um romance entre caubóis homossexuais.
    Mesmo dedicado especialmente à comunidade GLBT, o Ponto de Cultura também está aberto a heterossexuais. “A nossa lógica é sempre a da inclusão, nos interessa desmistificar essa crença de que gay é apenas sexo”, resume Alexandre.
    O atendimento ao público acontece de segunda à sexta-feira, das 14h às 19h, e os empréstimos gratuitos de material podem ser feitos mediante a apresentação da identidade e comprovante de residência para o cadastramento.
    Mudança para ampliar atendimento
    Depois de cinco anos na Voluntários da Pátria, a sede do Grupo Somos se transfere para a Jacinto Gomes em busca de acessibilidade e espaço: “Mudamos para proporcionar esse Ponto de Cultura”, conta Boër. Também foi instituído o Centro de Referência Adelmo Turra, que homenageia o histórico militante morto em 1995, e que propõem a reflexão sobre a homossexualidade.

    A biblioteca contém um acervo sobre homoerotismo e sexualidade

    No espaço, além das atividades culturais, seguem acontecendo os projetos de apoio e debate da causa gay no Estado. Um dos mais importantes, na visão do coordenador do Ponto de Cultura, é o trabalho desenvolvido com profissionais da educação pública do Estado: “Há muitos professores que não sabem como lidar com a homossexualidade na sala de aula”.
    Há também uma atividade de fomento à criação de novos grupos no interior do Estado. “Não interessa ao SOMOS ser uma organização super forte e centralizadora”. Para combater isso, já foram selecionadas 30 lideranças do interior do Estado, que receberão capacitação e apoio logístico para formação de novos núcleos de debate a apoio da causa gay.
    “Explicamos que eles devem estar atentos às atividade nas Câmaras de Vereadores de sua cidade, propor projetos e acompanhar os Conselhos Municipais, de saúde ou direitos humanos, por exemplo”. A idéia é levar as atividades do Ponto de Cultura de Porto Alegre a essas futuras sedes GLBT no Estado, realizando exposições itinerantes, debates e conversas sobre a questão homossexual. “Já temos alguns parceiros, entre eles, a própria UERGS”, comemora Alexandre.
    Preconceito: uma questão histórica
    Com as atividades do Centro de Cultura GLBT e do Centro de Referência Adelmo Turra, o que pretende o SOMOS é ampliar a conscientização da sociedade perante os gays. “A sexualidade não é uma escolha, é um imperativo”, prega Bôer. O militante acredita que, ainda hoje, muitos gays desenvolvem relações heterossexuais por pressão e medo da sociedade. “É inacreditável que as pessoas se assustem mais com dois homens se beijando do que se dando tiros”, exemplifica.
    A causa também não se restringe ao Estado. Interligados com organizações semelhantes em todo o território nacional, os representantes do SOMOS coletam dados e experiências de sucesso: “Segundo um grupo da Bahia, a cada dois dias um homossexual é morto por sua orientação sexual”. A atual bandeira é de apoio ao projeto da deputada federal Iara Bernardi (PT/SP), que criminaliza a homofobia.
    “Sabemos que não é isso que vai mudar a cabeça de um preconceituoso, mas ao menos, essa pessoa vai pensar duas vezes antes de chamar alguém de veado ou bichinha”, protesta. Para Boër, o que incomoda é que ambas as práticas sexuais possuem obrigações iguais, mas não ganham os mesmos direitos. “Homossexual é obrigado a votar, a pagar impostos, tem os mesmos deveres do resto da população, mas não têm amparo legal para casar, por exemplo”.
    Há ainda a luta pelos direitos dos gays em todo mundo. Segundo o militante, a homossexualidade é crime em oito países. “No Irã, dois gays foram enforcados recentemente por se amarem”, lamenta. Para Alexandre, a Igreja é uma das principais responsáveis pela criação e manutenção do preconceito. Ele refere à Antiguidade Clássica, quando a homossexualidade era aceita com naturalidade, por exemplo. “Temos que entender que isso faz parte de um processo histórico, que passa pela criação do pecado e posteriormente, pela taxação de doença”.
    Boër narra páginas desconhecidas da II Guerra Mundial, onde, junto com judeus, homossexuais e ciganos foram encarcerados nos Campos de Concentração. “Depois que a guerra acabou, os judeus que restaram foram libertos, mas os gays, continuaram presos por que era crime ter uma sexualidade diferente”. Foi para fugir desse processo que um médico declarou pela primeira vez que a prática era uma doença: “Doentes não podem ser presos”.
    Alexandre não vê razões para estudar a ‘causa’ da homossexualidade, mas luta simplesmente pela aceitação e respeito aos gays na sociedade. “Sempre pesquisa-se o desvio, ou seja, parte-se do pressuposto de que os heteros são normais. Porque nunca se pesquisou a origem da heterossexualidade?”, ironiza.

  • As velhas bicicletas

    Marco Aurélio Nunes*

    Sentado num banco do Parque da Redenção, na manhã de um domingo, assisti ao movimento do Brique. Era fácil notar famílias passeando sob o sol com o inseparável chimarrão, cães nas guias e suas crianças comendo pipoca ou lambuzadas pelo algodão doce. O fluxo de bicicletas era pequeno. Mas um grupo de ciclistas exibindo suas bikes com marchas desfrutava da sombra de árvores centenárias. Neste momento, retrocedi no tempo. Sem deixar a poluição visual de cartazes e bandeiras de partidos políticos afetar minha memória, comecei a recordar do Parque da Redenção há 35 anos.

    O Brique não existia oficialmente. Se não estou enganado, consolidou-se no início da década de 80. Naquela época, então com dez anos de idade, meu avô convidava-me para andar de bicicleta. O rumo era certo. Não precisava nem perguntar. O caminho tinha a direção da Redenção. Saíamos de Teresópolis sempre após o almoço. A idéia era aproveitar ao máximo a tarde de domingo. Antes, porém, eu sempre indagava: “pegou a carteirinha?”. Tratava-se de uma carteira do Sindicato dos Comerciários. Acontece que, com esse documento, meu avô alugava minha bicicleta.

    Depois de escolhida – geralmente preferia uma de aro 26, apesar da dificuldade para me equilibrar – pedalava por cerca de uma hora. Meu avô observava-me sentado em um banco próximo do espelho d’água. Após devolver a bicicleta locada, atirávamos pipoca às carpas, andávamos de pedalinho, trenzinho e, ainda, visitávamos o mini-zôo. Admirávamos os macacos-pregos coçar a cabeça e, logo em seguida, caminhávamos pelos recantos existentes no parque. Somente depois pegávamos o ônibus para irmos embora. Chegava em casa exausto, mas aproveitava tudo o que a Redenção oferecia em termos de divertimento.

    Quando lembro de tudo isso fico refletindo: como seria hoje a Redenção se ainda houvesse as velhas bicicletas para locação? Sei, alguém me disse, “parece que acabaram com as bicicletas porque estavam sendo furtadas e, além disso, pessoas acostumadas a caminhar pelas trilhas do parque reclamavam muito!”. É, os princípios mudaram e a violência cresceu assustadoramente. Imagine hoje alguém chegar na Redenção e alugar uma bicicleta apenas portando um documento sindical! Aposto que em menos de duas semanas não haveria mais bicicletas para locar. Por isso, quem seria louco de enfrentar um processo licitatório com esse propósito se, atualmente, esse serviço de lazer fosse de interesse da Prefeitura?

    Sem garantias de ressarcimento do prejuízo e, também, de segurança, isso não seria possível. Mas que saudade das velhas bicicletas! Será que não há uma maneira delas retornarem? Pessoas como eu, que moram num apartamento pequeno e sem condições de guardar uma bicicleta, creio, gostariam de ter essa opção nos finais de semana, apesar de tudo. Ah! esqueci dos que possuem bicicletas! Porto Alegre não se compara, por exemplo, com cidades da Holanda, que têm o trânsito adaptado ao tráfego das bicicletas. Mas, no Bom Fim, já existem as ciclovias. O ciclista pode chegar tranqüilo na Redenção. Não vamos perder o glamour! A Capital dos gaúchos merece mais charme. Antigamente se ouvia o som do trenzinho, agora não mais.

  • Fepam aperta cerco contra postos de gasolina

    Fepam fechou 25 postos no Estado. Mais de 23% das 2.965 unidades cadastradas atuam sem Licença de Operação. (Foto:Naira Hofneister)

    Cláudia Viegas

    Depois de fechar seis postos de combustíveis no final do mês passado – três em Vacaria, um em Flores da Cunha, um em Pedro Osório e um em Guaíba –, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) está intensificando sua ação, especialmente no interior. O problema da contaminação causada por vazamentos é grave: apenas 10 mililitros de combustíveis por dia, durante um ano, por exemplo, podem comprometer 3 milhões de litros de água.

    A Fepam já fechou 25 postos no Estado. Segundo o órgão ambiental, o Rio Grande do Sul tem 2.965 unidades cadastradas, das quais 694 – 23,4% – atuam sem Licença de Operação. Estes postos deverão ser alvos de fiscalização ainda este ano.

    Pior é que 67% dos postos estão em situação regular, 3,6% com processos em andamento e 3,4% em fase de implantação das modificações requeridas para funcionarem de acordo com a legislação. Esta lista da Fepam não inclui Porto Alegre, onde o licenciamento é realizado pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente.

    Segundo o químico Luiz Fernando Guaragni, responsável pelo Setor de Emergência Ambiental da Fundação, a regional de Santa Maria, por exemplo, está vistoriando todos os postos. “Temos mais postos para fechar”, avisa.

    O técnico diz que o processo de requerimento do licenciamento dos postos teve início em 1997, sendo realizado por regiões. O trabalho foi concluído em 2001. Até 2003, as licenças eram concedidas anualmente. Depois, uma resolução do Conama alterou esse prazo para um período de quatro anos, o que, conforme Guaragni, é um prazo compatível com o que está previsto na Constituição Estadual.

    As principais irregularidades apontadas pelo químico estão no piso (que deve ser impermeável, mas muitas vezes não é construído com material adequado), áreas de bombas e lavagem, caixa separadora de óleo e sobras de estopas sujas, suspiros e válvulas, sem falar na condição dos tanques, que devem ser impermeáveis.

    “Observamos graves situações em que os postos não têm condições mínimas de operar porque contaminam o lençol freático”, assinala. No caso dos três postos de Vacaria, a ação da Fepam foi realizada junto com o Ministério Público do Estado.

    Entre as mais recentes exigências ambientais a esses estabelecimentos está a de recuperarem embalagens de substâncias lubrificantes. “Estamos exigindo inclusive das distribuidoras que recuperem esse material. Há um trabalho conjunto entre elas para enviar as embalagens para uma empresa recicladora, no Rio de Janeiro”, informa.

    SP: convocação deverá atingir 8.500 postos até janeiro de 2007

    Em São Paulo, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) adotou a estratégia de realizar encontros com os proprietários de postos para tratar das questões técnicas e legais relativas ao licenciamento.

    Em 29 e 30 de maio, realizou em Ribeirão Preto o 6º Painel de Debates sobre o Licenciamento Ambiental de Postos e Sistemas Retalhistas de Combustíveis no Estado de São Paulo, com apoio da Câmara Ambiental do Comércio de Derivados de Petróleo. O evento reuniu cerca de cem empresários, consultores e técnicos de toda a região.

    “A Cetesb está realizando estes encontros em todo o Estado, criando a oportunidade de intercâmbio de informações, para receber críticas e sugestões, com o objetivo de trabalhar em parceria com o setor empresarial”, afirma o diretor de Controle de Poluição Ambiental, João Antonio Fuzaro.

    Os encontros são coordenados pelo gerente do Setor de Ações Especiais, engenheiro Rodrigo Cunha, que conduz as apresentações sobre o roteiro do processo de licenciamento, documentos necessários, equipamentos, instalações e certificação. Também são debatidas questões relativas à investigação de passivos em instalações que armazenam combustíveis em tanques aéreos e subterrâneos, remoção de tanques e desmobilização de empreendimentos.

    De acordo com a Assessoria de Imprensa da Cetesb, existem 8.500 postos de combustíveis em todo o Estado de São Paulo que deverão ser convocados até janeiro do ano que vem. Os resultados das ações ainda são tímidos. Em Sorocaba, por exemplo, de 212 postos convocados, 28 (cerca de 13%) já receberam Licença de Operação.

    O assessor de imprensa da Cetesb, Mário Senaga, informa que é difícil ter uma idéia exata do quadro de licenciamento ambiental do setor. “O que os técnicos conseguiram apurar é o que está no site da Cetesb, explica ele. No local, há seis listas contendo nomes e endereços, num total de mais de mil postos de combustíveis convocados, sendo apresentada a situação de cada um em termos de requerimento – ou seja, se necessitam de reforma completa, de adequação às condições mínimas de operação, ou se estão em condição intermediária.

    Pequenos vazamentos, grandes impactos

    O problema da contaminação causada por vazamentos em postos de combustíveis é tão grave quanto invisível aos olhos da população. Um vazamento de apenas 10 mililitros por dia, durante um ano, por exemplo, pode comprometer 3 milhões de litros de água. A dimensão da contaminação depende do tamanho do vazamento e do tipo de solo onde o posto está instalado. O problema pode trazer graves riscos à saúde pública, principalmente em áreas urbanas. Cidades como Cascavel e Campo Largo (PR), por exemplo, tiveram o abastecimento de água suspenso, em 2001, devido à contaminação de cursos d’água por postos de combustível da região.

    No Brasil, existem cerca de 27 mil postos de combustíveis (estimativa de 2004, conforme a Agência Nacional do Petróleo). Contudo, ainda não existem dados sobre o tamanho da contaminação por benzeno, tolueno e xileno, que são compostos altamente tóxicos. Grande parte dos postos possui tanques de armazenagem com 25 anos de uso ou mais, sujeitos a rachaduras e corrosão. Por isto, as chances de ocorrerem vazamentos são grandes.

    Nos Estados Unidos, a Agência de Proteção Ambiental Norte Americana (EPA) estima que existam mais de 1,5 milhão de tanques subterrâneos de armazenamento de combustíveis. Desse total, 400 mil foram substituídos ou adaptados de acordo com a legislação federal. Houve mais de 250 mil casos de vazamento e mais de 97 mil ações remediadoras foram implementadas. Semanalmente, mais de mil novos vazamentos estão sendo encontrados em todo o território norte-americano.

    O grande problema é que os vazamentos muitas vezes são “silenciosos”, ou seja, somente se consegue percebê-los por seus efeitos, e não diretamente. Quando isso acontece, só resta a remediação.

  • Depois de Iberê, é a vez de Weingärtner


    Auto-retrato de Weingärtner: artista reconhecido nacionalmente (Reprodução/JÁ)

    Naira Hofmeister

    O momento é mesmo de preservação da história da arte gaúcha. Depois de a Fundação Iberê Camargo ter concluído o primeiro volume do catálogo completo do autor – o livro com as gravuras já está sendo vendido – chegou a vez de Pedro Weingärtner, outro ícone do Rio Grande do Sul.

    Suas gravuras foram catalogadas pelo Núcleo de Gravuras do RS, que obteve patrocínio do Fumproarte para pesquisa, edição de um livro e uma mostra no Museu de Arte do Rio Grande do Sul. O trabalho apresenta uma face menos conhecida de Weingärtner: ilustrações em metal, que utilizam a técnica da água-forte, produzidas entre 1908 e 1925, quatro anos antes de sua morte.

    O levantamento feito durante o primeiro semestre deste ano revelou 27 obras, que estarão expostas no Margs a partir do dia 10 de agosto. A data marca também o lançamento do livro com as informações mais precisas divulgadas até hoje sobre a produção de Weingärtner.

    As 48 páginas da publicação refletem a mostra do Margs e trazem surpresas: além de obras completamente desconhecidas e outras que fogem das temáticas tradicionais de Weingärtner – o meio rural, por exemplo –, algumas gravuras são releituras de quadros do artista. Entre os destaques, a famosa As Garças e um Auto-retrato.

    “Não temos ambição de esgotar o assunto. Esse é apenas o início de um processo mais amplo”, avalia Paulo Gomes, curador da mostra e coordenador do projeto. Ele classifica o autor como “único artista gaúcho de relevância nacional, antes da década de 50”. Ainda assim, sua obra é pouco conhecida, mesmo na terra natal, Porto Alegre.

    “Temos pouquíssimos estudos sobre arte do Rio Grande do Sul anteriores a 1950”. Gomes conta que a principal bibliografia utilizada na pesquisa foi o livro de Ângelo Guido, que também mapeou a produção de Weingärtner, ainda na primeira metade do século XX. Os dados levantados por Guido apontam cerca de 200 obras e, entre elas, 14 gravuras. O principal problema é a dificuldade de identificação, já que nesse catálogo algumas obras não contêm nome, data, nem a técnica utilizada, o que dificulta a localização.

    Ainda há vazios históricos sobre o artista: “Não sabemos onde e quando Weingärtner aprendeu a fazer gravuras e nem quem foi seu professor”. Descobrir o título das obras também é um desafio: diferentes reproduções de uma mesma gravura exibem nomes distintos, que assim ficaram registrados. A tiragem de algumas imagens também não ficou clara, pois o artista não costumava numerar as cópias da maneira tradicional, incluindo a quantidade total de reproduções.

    “Há obras com numeração do um ao cinco e depois, 22 ou 50”. Weingärtner também não assina algumas delas, mas a identificação foi possível graças a matrizes encontradas em coleções particulares e no Museu de São Leopoldo. Paulo Gomes levanta outro problema: nem todas 27 gravuras foram localizadas. Nesses casos, uma reprodução fotográfica vai representar a obra, tanto na exposição como no livro.

    Idéia é montar um catálogo completo


    Obras do autor gaúcho estarão expostas no Margs em agosto (Reprodução/JÁ)

    Para pesquisar a obra de Pedro Weingärtner, a equipe envolvida no projeto articulou uma rede de artistas, colecionadores, marchands e galerias para localizar as gravuras. Mais de 20 obras que compõem a exposição e o livro são de coleções particulares e menos de cinco estão em acervos públicos. O trabalho é parte de um projeto mais amplo, semelhante ao realizado pela Fundação Iberê Camargo, que está catalogando a obra completa de Iberê.

    Ainda em 2003, Paulo Gomes conseguiu o apoio da Lei Rouanet para realizar o levantamento da produção de Weingärtner distribuída em coleções públicas do Rio Grande do Sul – são cerca de 80 obras. “Ainda não consegui captar recursos. Acredito que o Estado deveria estar no comando de um projeto como esse, mas  não consegui nada além do apoio da lei”, reclama. Os possíveis investidores não se interessaram pelo trabalho, pois as coleções particulares não entrariam na sistematização.

    A saída é uma iniciativa independente, como a articulação entre Paulo Gomes e o Núcleo de Gravura do Estado. A idéia surgiu quando o professor foi convidado a escrever um texto sobre a técnica, em 2005.

    Estudioso da obra de Weingärtner, Gomes decidiu divulgar a produção de gravuras do artista, pouquíssimo conhecida pelo público. “É a parte menos divulgada de sua obra, menos até que os desenhos”, compara. Ele conta que grande parte da obra do artista está no centro do país. “Inclusive ouvi boatos de que a Pinacoteca de São Paulo faria uma retrospectiva”.

    Biografia

    Pedro Weingärtner (1953-1929) é dos mais notáveis pintores gaúchos. Natural de Porto Alegre, eternizou em suas telas cenas típicas e paisagens do Sul. Pintor, gravador e desenhista, estudou em Paris e na Alemanha, na Real Academia de Belas Artes de Berlim. Após passar boa parte de sua vida na Europa, retornou ao Brasil onde afirmou-se como um dos pioneiros a dedicar-se à técnica da água-forte.

    Excursionou pelo pampa gaúcho colhendo informações que utilizaria em telas que se tornaram clássicas na história das artes plásticas sulinas, como o quadro Tempora mutantur, de 1898, comprado pelo então presidente do Estado, Borges de Medeiros, para colocar no Palácio do Governo. O Museu de Arte do Rio Grande do Sul foi inaugurado em 1954 com uma exposição de suas obras.

  • Cancelada megalicitação para limpeza urbana

    O Departamento de Limpeza Urbana (DMLU) oficializou nesta quarta-feira, 2 de agosto, o cancelamento da licitação pública para reformulação da limpeza urbana em Porto Alegre. A decisão foi motivada por irregularidades envolvendo uma empresa que prestou consultoria e porque o Tribunal de Justiça (TJ) determinou a republicação do edital por constatar dispositivos ilegais.

    A direção do DMLU informou que vai formular outro edital em 90 dias para evitar contratos emergenciais, pois os contratos vigentes acabam em novembro. Sobre as irregularidades, afirmou não ter conhecimento. “Vamos rever todo o documento. Dessa vez, sem consultoria”, enfatizou o diretor-presidente do órgão, Garipô Selistre.

    O Ministério Público Especial (MPE), vinculado ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), recomendou a suspensão imediata do processo porque averiguou envolvimento entre a Profill Engenharia e Ambiente Ltda, empresa que fez um diagnóstico do órgão (publicado em 2005) e auxiliou na confecção da licitação, e uma das empresas pré-qualificadas.

    O representante da Profill, Fábio Pierdomenico, teve despesas de hospedagem pagas em Porto Alegre pela empresa Cavo, do grupo Camargo Corrêa, atesta a investigação da força-tarefa formada por MPE, Ministério Público Estadual e Delegacia Fazendária.

    “Esse fato mais recente é que levou a recomendação de suspensão”, constatou o procurador-geral substituto do MPE, Geraldo Costa Da Camino, ao lembrar que as investigações seguem o trâmite normal com o cancelamento.

    Justiça determina republicação

    O juiz Pedro Luiz Pozza, da 5ª Vara da Fazenda Pública, determinou, na segunda-feira, 31 de julho, a republicação do edital por constatar pontos ilegais no documento. “Fica claro que as cláusulas ilegais do edital, ainda que não propositadamente, levam à restrição do número de concorrentes ao certame e, portanto, impedem a administração de selecionar a proposta mais vantajosa”, pondera o magistrado na liminar encaminhada à direção do DMLU.

    Pozza pediu a revisão da exigência de experiência, por considerar que tal aspecto não é objeto da licitação. Enfatizou que “o edital veda que a mesma empresa ou consórcio vença a licitação em sua integralidade, o que não tem o mínimo amparo legal – ainda que se trate de um só edital, não se justifica que, como refere a inicial, acaba por restringir a competição entre os licitantes”.

    Também sublinhou que há diversos pontos subjetivos no documento. “Há manifesta subjetividade na avaliação das propostas. A Lei das Licitações prevê que a avaliação seja efetuada exclusivamente por critérios objetivos”, lembrou.

    O magistrado determinou a exclusão das expressões “fugir totalmente aos aspectos solicitados”, “abordagem for manifestamente inaplicável, tecnicamente incompatível”, “não apresentar um exame profundo e detalhado especificado” e “apresentando um exame em nível adequado, detalhado e especificado com sólida fundamentação metodológica”.

    Ainda observou ser ilegal exigir de cada participante de consórcio que comprove isoladamente o cumprimento das condições para a participação na licitação. De acordo com Pozza, “é inadmissível que se faça, quanto às empresas consorciadas, exigências maiores do que aquelas feitas para as que concorrem individualmente, o que viola o princípio da isonomia. Afronta exatamente o espírito do consórcio, que é admitir que empresas menores, que isoladamente não podem atender aos requisitos do edital, possam fazê-lo se somarem suas forças”, finalizou o magistrado.

    A liminar foi concedida através de uma Ação Popular, proposta pelo vereador Carlos Todeschini (PT), em 21de julho. Segundo o vereador, o que motivou a Ação foi a contrariedade com o modo como o governo Fogaça está tratando o  DMLU. “Esse processo vai acarretar em elevação de custos e está claro que é uma privatização com privilégio para as grandes empresas”, acusa.

    Megalicitação

    O edital de licitação, publicado no dia 12 de maio, tem como objeto a contratação de empresas ou consórcios de empresas para a prestação de serviços de limpeza urbana. A intenção da Prefeitura é reformular o sistema de coleta e varrição na cidade, centralizando os serviços em duas empresas, substituindo os 38 contratos existentes.

    Com valor de R$ 305 milhões, a licitação prevê varrição mecanizada, limpeza de monumentos e riachos e lavagem de locais onde ocorrem feiras. Dezoito empresas demonstraram interesse e apresentaram cartas-fianças, documentos bancários que comprovam a capacidade de investimento.

    Com reportagem de Helen Lopes

  • Eles querem público


    O primeiro videoclipe da Pública despertarou interesse das gravadoras do centro do país (Foto: Divulgação/JÁ)

    Naira Hofmeister

    Em atividade desde 2001 no circuito alternativo de Porto Alegre, a Banda Pública começa a ensaiar os passos para a fama, com o lançamento do primeiro álbum, “Polaris”, pelo selo Mondo 77, de São Paulo.

    A história começa no Bom Fim, entre as ruas Fernandes Vieira e a Tomaz Flores, onde moram o guitarrista Pedro Metz e o pianista João Amaro, fundadores da Pública. Ao longo da trajetória da banda, se incorporaram o guitarrista, Guri Assis Brasil, o baterista Cachaça e, finalmente, o baixista Guilherme Almeida, que entrou para a turma em 2005.

    “A banda sempre teve um compromisso de trabalhar sério, de ter uma carreira de músico, mais objetivamente de músico da Pública”, ressalta Metz. Com as metas traçadas, eles começaram a investir na profissionalização: em março de 2005 gravaram um EP, ou Extended Play, um disco que não é tão curto como um Single, que tem entre duas ou quatro músicas, e nem não longo para ser um álbum de fato.

    Desse trabalho, surgiu o primeiro videoclipe da Pública, “Bicicleta”, lançado logo em seguida. Com as veiculações na MTV e em programas da TV local, não demorou até despertarem o interesse das gravadoras do centro do país: o lançamento do segundo clipe da Pública, num show na casa noturna Ox, no início de julho, marcou a assinatura do contrato com a Mondo 77. “Eles tinham adorado nosso som e o clipe, mas queriam nos ver no palco para bater o martelo”, lembra Guri.

    Um pé no Bom Fim, outro na Indústria Cultural


    Na Lancheria do Parque, eles dizem que sua meta é São Paulo
    (Foto: Naira Hofmeister/JÁ)

    Agora, entre um e outro sanduíche na Lancheria do Parque, eles sonham com o futuro. “São Paulo é uma meta, com certeza”, acredita Guri. Pedro Metz complementa. “O mercado do Sul também é difícil, mesmo porque não somos uma banda que tenha uma peculiaridade, uma semelhança com as coisas que foram feitas no rock gaúcho, então é natural que a gente procure as grandes cidades”.

    Eles querem seguir caminho semelhante à dos amigos da Cachorro Grande, que, junto com a residência em São Paulo, conquistaram também uma gravadora e muitos fãs Brasil afora. “Ficar famosos? Nunca pensamos nisso, mas é uma conseqüência, no momento em que tivermos um hit que comece a tocar na rádio”. A faixa Long Plays já circula na Internet e é a aposta de Guri para estourar.

    A inserção na “Indústria Cultural” traz junto a preocupação com o visual da banda. “Depois da MTV, a imagem é algo fundamental”, acredita Metz. Mas ele faz questão de sublinhar que a inquietação estética não se sobrepõe à criação musical. “Conversamos muito sobre roupas, cabelos, temos estilos semelhantes, mas é muito mais pela convivência e preferências musicais do que algo forçado”.

    Além do mais, Pedro considera que esse pode ser um dos caminhos para a banda ficar mais conhecida: “Se interessar apenas pela imagem é muito vazio e nossas músicas não são difíceis de assimilar. É uma porta de entrada”, resume.

    Arte de garagem


    “Nossas melodias são impensáveis sem um piano”, diz Metz. (Foto: Divulgação/JÁ)

    Ainda transitando no circuito independente, a Pública se destaca pela preocupação artística, que existe desde a gênese do conjunto. “Já começamos com músicas próprias, nunca fizemos cover, nosso trabalho é bastante autoral”, define Pedro Metz, que compõe a maioria das letras da banda.

    A melodia é dividida entre Metz, Guri e Amaro e a harmonia é composta em conjunto. No CD, as gravações de Amaro foram feitas no piano de cauda da Ospa, substituído no palco por um Teclado Fender Rhode de 88 teclas, vedete dos músicos.

    “Tu tem que ter diferenciais e esse é um dos nossos. Nossas melodias são impensáveis sem um piano, pois é um instrumento muito rico. Nosso teclado tá estouradão mas o som continua excelente”, diz, orgulhoso, Metz.

    O preciosismo musical é, na opinião de Metz, o que os distingue das demais bandas locais. “As melodias chamam bastante atenção, são bonitas e transitam entre arranjos caóticos e outros mais certinhos”.

    A característica, aliás, foi responsável por um período de rejeição da Pública na cena local. “No começo a banda era mal vista no underground, porque as melodias são bonitas e as letras falam de amor”, recorda Pedro. Com o passar do tempo, veio o amadurecimento e a consolidação do estilo. “Hoje, muitos músicos freqüentam nossos shows”, agradece Guri.

    Na hora das apresentações, eles gostam de brincar com o público, instigar e modificar as composições. “Às vezes mudamos uma parte da música, inserimos ou tiramos elementos ou criamos um final diferente, instrumental, por exemplo”, revela Guri.

    O som da Pública é claramente influenciado pelo rock contemporâneo, e segundo os guris, principalmente aquele produzido na Inglaterra por bandas como Supergrass, Radiohead e Stone Roses. Mesmo muito próximos do rock’n roll moderninho, os acordes não negam os fundadores da escola: The Beatles e The Rolling Stones encabeçam a lista de bandas presentes nas composições da Pública, ao lado de David Bowie, The Smiths, e Television.

    “Cada componente traz uma característica especial para a banda: o Cachaça que sempre ouviu muito Stone Roses, Led Zeppelin, trouxe uma coisa mais indie pra banda. O Guilherme estudou jazz e o Amaro cursou regência na UFRGS”, exemplifica Guri.

    Quem não conhece o som feito pelos cinco rapazes do Bom Fim, pode baixar o single com as músicas, Long Play, Precipício e Polaris nos sites: www.tramavirtual.com.br/publica e www.purevolume.com/publica.

  • Shopping prepara centro cultural


    Prédio contruído por Theodor Wiedersphan vai abrigar dois museus (Foto: Carla Ruas/JÁ)

    Mais um centro cultural está sendo gestado em Porto Alegre. Até o final do ano, o Shopping Total pretende colocar em funcionamento três museus: um do vinho, outro dedicado à cerveja e um para o esporte. A proposta é instalar as novidades nos espaços ainda desocupados da antiga fábrica da Brahma, em prédios tombados pelo patrimônio histórico.

    Sob a chaminé da extinta cervejaria será construída uma rede de túneis que irão abrigar o Museu do Vinho e a Cave Vinicola Aurora. Este espaço terá confrarias, champagnarias e charutarias interligadas por baixo da terra com alguns restaurantes da área externa, como o John Bull Pub, La Pasiva e Marco’s.

    Outros museus – da cerveja e do esporte – serão instalados no chamado “prédio 2”, um edifício construído pelo alemão Theodor Wiedersphan, em 1911. Para homenagear o famoso arquiteto, haverá um memorial em frente ao local, onde será exposto o acervo de projetos e fotos.

    Wiedersphan também é responsável por outras edificações da Capital, como as atuais sedes do Margs, Memorial do Rio Grande do Sul, Santander Cultural e Casa de Cultura Mario Quintana.

    O Total também quer oferecer exposições, leilões e lançamentos de design, que acontecerão no Espaço Alto da Bronze, no prédio 3.

    Atividades externas como shows e apresentações culturais ocorrerão no Largo Elis Regina, num palco em frente ao prédio principal do shopping. A proposta é dar mais opções a quem visita o centro de compras. “Hoje em dia as pessoas estão sempre correndo, então criamos um espaço onde tudo acontece” explica a gerente de Marketing, Silva Rachewski.

    Quatro alamedas temáticas


    As ruelas entre os prédios serão ocupadas (Ilustração/Shopping Total/JÁ)

    O primeiro ambiente que será inaugurado é a Alameda dos Escritores, prevista para o final do mês. Trata-se de um deque entre os prédios 5 e 2, com mesas em cima, equipadas de guarda-sol e iluminação. O espaço, destinado para os restaurantes Marco’s, La Pasiva, John Bull Pub e Habib’s, busca homenagear autores consagrados da literatura brasileira. Terá grandes fotos em painéis, lançamentos de livros e outras atividades literárias.

    Além desta rua temática, outras três alamedas estão previstas no projeto: a das Artes; dos Artistas; e a dos esportistas. A primeira terá comércio de antiguidades, moedas e selos inspirado nos mercados de pulgas europeus. A dos Artistas será destinada para a expressão artística, como ocorre nas praças de Paris. Na Alameda dos esportistas, haverá uma homenagem aos 10 melhores atletas do Rio Grande do Sul com fotos nos dois lados da rua.

    Com reportagem de Carla Ruas

  • Filmes inéditos compõem mostra nos shoppings Bourbon

    O norte-americano Jason Reitman dirige Obrigado por fumar, que abre oficialmente o festival (Foto: Divulgação)

    Naira Hofmeister

    A partir de 4 de agosto, Porto Alegre irá conhecer 14 dos principais lançamentos da indústria cinematográfica mundial, na 3ª edição da Seleção de Filmes Bourbon Shopping. Durante uma semana, serão apresentados títulos inéditos no Brasil que tiveram destaque em festivais internacionais. As exibições acontecem em três locais: nos Bourbon Ipiranga e Country (em Porto Alegre) e na loja de São Leopoldo.

    O festival é organizado pela Panda Filmes, que, ao lado dos representantes da Cia Zaffari, selecionou as obras que compõem a mostra. “Esse ano foi um desafio montar o programa, porque é um dos piores anos para o cinema, com poucas ofertas de qualidade”, criticou Beto Rodrigues, da Panda. Ainda assim, a maioria dos títulos da mostra já tem em seu currículo premiações importantes, como a Palma de Ouro (Cannes) e o Urso de Ouro (do Festival de Berlim).

    A programação antecipa os lançamentos do próximo semestre e inclui produções de diferentes países. Entre eles, o grande vencedor do Festival de Cannes, A Criança, co-produção de França e Bélgica, dirigido por Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne que narra a vida de um casal que utiliza o filho recém-nascido para aplicar golpes.

    O festival inicia na noite de quinta-feira, 3 de agosto, com a apresentação da comédia norte-americana Obrigado por fumar para convidados. A película, estrelada por Katie Holmes, Aaron Eckhart e William Macy é o primeiro longa de Jason Reitman. A partir da sexta-feira, 4 de agosto, o público poderá conferir títulos do Japão (Consumido pelo Ódio), da Bósnia (Em Segredo) ou do Irã (Ás cinco da tarde).

    Cuba ambienta duas produções: A Cidade Perdida, que marca a estréia do ator Andy Garcia na direção e Soy Cuba, o Mamute Siberiano, que revisita um documentário clássico do cinema socialista. Também os argentinos marcam presença. “Hoje, é quase impossível realizar uma mostra de filmes internacionais excluindo os argentinos”, defende Rodrigues.

    Os “hermanos” participam da mostra com quatro longas-metragens, entre eles, Aura, do diretor Fábian Bielinski, que morreu no final de junho. Bielinski foi um dos responsáveis pelo patamar qualitativo que o cinema argentino alcançou nos últimos anos, com a realização de Nove Rainhas, em 2000.

    O diretor também lançou Ricardo Darín, uma das maiores estrelas das produções locais, que tem como marcos em sua carreira, Kamchatka, O Filho da Noiva, e o recente Clube da Lua. Além de Aura, estão na programação do festival O Buda, Buena Vida Delivery e Iluminados pelo Fogo, que ainda não recebeu propostas de distribuidoras nacionais, mesmo depois de vencer o Goya 2006 e levar também troféus em Havana e San Sebastian.

    Do Brasil, apenas um representante: Dia de Festa, de Pablo Giorgieff e Toni Venturi, documentário que acompanha as ocupações do Movimento dos Sem-teto em construções abandonadas no Centro de São Paulo.

    Os ingressos para a 3ª Seleção de Filmes Bourbon Shopping terão o mesmo valor das bilheterias praticadas normalmente em cada sala de cinema.

  • Lançamento de edital do Araújo Viana é adiado


    O Ministério Público exige a proteção acústica do auditório
    (Fotos: Helen Lopes/Arquivo/JÁ)

    Naira Hofmeister

    Prometido para o final do mês de julho, a publicação do edital para seleção de propostas para reforma e administração do Araújo Viana será novamente adiada. É que o Ministério Público está cobrando da Secretaria Municipal de Cultura a inclusão do projeto acústico para o auditório.

    A medida segue decisão da Justiça de 2004, que determina proteção contra a poluição sonora causada em eventos, como reclamavam moradores da região, que acionaram a Promotoria do Meio Ambiente a ingressar com uma ação civil pública.

    Segundo a secretária adjunta da Cultura, Ana Fagundes, o edital contemplava a proteção acústica do auditório, mas não nos termos que o Ministério Público exige. “No nosso projeto, 60% do barulho seria absorvido, porém, o MP trabalha com a quase totalidade”.

    Com a imposição judicial, já não é possível prever um prazo mínimo para a liberação das novas regras. Ainda assim, Ana Fagundes acredita que não será muito longo. “Não precisaremos fazer um novo projeto, apenas adequar o que temos”.


    O novo projeto de reforma deverá ser mais caro e pode diminuir o número de interessados

    Mesmo demonstrando tranqüilidade, a secretária revela uma preocupação. “O problema é que isso vai encarecer o projeto e as chances de não termos empresas interessadas são ainda maiores”. A expectativa é que na semana que vem já sejam conhecidos o novo orçamento e data de lançamento do edital.

    Apesar do contratempo, Ana Fagundes brinca com a situação. “A sentença dizia que a mudança precisava ser feita, caso contrário, a Prefeitura deveria fechar o Araújo. Ou seja, cumprimos uma parte da determinação sem saber”.

  • Luciano Alabarse em cena

    Alabarse, sobre os destaques desta edição: “Nekrosius é o nome do Em Cena” (Foto: Divulgação)

    Naira Hofmeister
    O diretor de teatro Luciano Alabarse é um dos responsáveis pela criação do Porto Alegre em Cena e pela sua elevação ao posto de “maior festival de teatro do Brasil”. Considerado arrogante por alguns, reverenciado por outros, Alabarse expõe alguns pontos de vista que alimentam essa polêmica nessa entrevista, concedida na segunda-feira, 24 de julho, no Solar Paraíso.
    Depois de três anos afastado da coordenação do festival, ele enfrentou críticas na edição de 2005, por exterminar a “fila dos sem ingresso”, diminuir as apresentações descentralizadas e aumentar em 100% o valor das entradas, que até 2004, custavam R$ 10.
    Os valores continuam R$ 20 para 2006, medida que é defenida com furor ideológico por Alabarse. Ele argumenta que o trabalho artístico deve ser pago, assim como qualquer outro. “Lamento que uma pessoa pense que pode simplesmente invadir o teatro: é uma falta de respeito com quem compra ingresso, com os artistas”.
    Além de falar das novidades de 2006, como o 1º Troféu Braskem Em Cena, que vai distribuir quase R$ 30 mil em prêmios aos espetáculos gaúchos, o coordenador do festival sublinha as principais atrações que escolheu para a 13ª edição.
    E faz uma crítica à “auto-suficiência” do gaúcho, que parece ter invadido o campo das artes. “O teatro que se faz no Rio Grande do Sul é bom, está num patamar de qualidade elogiável, mas não pode se bastar a si mesmo”, cutuca, numa alusão à freqüente prática de aplaudir todos os espetáculos em pé.

    Alabarse: “Não há nada mais equivocado do que aplaudir de pé a todos os espetáculos. Eu fico sentado. Só levanto quando é algo excepcional” (Foto: Naira Hofmeister/JÁ)

    JÁ – Muda alguma coisa no Em Cena 2006?
    Um festival de teatro é sempre a mesma coisa: apresentação de espetáculos convidados, dentro de um período de tempo. Não quero passar filmes no Em Cena, nem fazer instalações de artes plásticas… Quero uma programação cada vez mais qualificada e digna, no sentido da provocação e da beleza artística. Um evento cheio de atividades agregadas gera um inchaço desnecessário. Gosto quando um festival de teatro tenha na sua programação o seu foco absoluto.
    JÁ – Mas há novidades…
    Vamos ter uma atividade solidária à Casa dos Artistas, que está passando por uma fase muito difícil. Quem levar 1 kg de alimento tem desconto de 50% no ingresso. É uma atividade compatível, não demagógica, de visão social. E o público que ajudar tem a solidariedade do festival. Também pela primeira vez, a pedido de um patrocinador, teremos um prêmio no festival, que não é só de mérito, mas também de dinheiro, que acho importante. É o Troféu Braskem Em Cena, que vai premiar o melhor espetáculo gaúcho com R$ 20 mil.
    JÁ – Quais os destaques da 13ª edição?
    É uma das edições mais interessantes do meu ponto de vista, pois conseguimos espetáculos que jamais estariam em Porto Alegre. É uma oportunidade para que as pessoas venham à cidade. Tenho particular interesse de que o Brasil conheça o diretor lituano [Eimuntas] Nekrosius, com a sua versão de Othelo que é extraordinário e só vem a Porto Alegre. Ou a Pina Bausch, que vai se apresentar em São Paulo com ingressos à R$ 200 e aqui vai custar entre R$ 20 e R$ 10. É claro que qualquer festival ambiciona ter a Pina Bausch na sua programação, assim como o Nekrosius, que eu vi na Europa e em Buenos Aires. Esse é o nome do Porto Alegre em Cena que Porto Alegre ainda não conhece e que o Brasil nunca ouviu falar.
    JÁ – Em 2005, o valor dos ingressos aumentou em 100%, diminuiu o número de espetáculos gratuitos e acabaram com “a fila dos sem ingresso”. Por quê?
    Eu tenho horror da fila dos sem ingressos!!! E esse ano, no que depender de mim, não haverá. Nenhum festival de teatro precisa alimentar esse vício. Todos eventos no mundo são pagos e tem políticas solidárias, de redução de preço de ingressos, de cotas de convites. Não vejo porque no nosso festival isso deva ser encorajado ou aplaudido. O trabalho artístico não tem que ser de graça. Ou sou convidado, ou compro um ingresso, ou não vou. No ano passado, as estatísticas mostraram que estávamos certos em nossa estratégia, porque 97% dos ingressos vendidos nas bilheterias do Em Cena, foram de R$ 10 [vendidos com 50% desconto]. Isso é estatística e os números não mentem. Se eu fosse praticar preços de mercado, cobraria R$ 40, R$ 50, R$ 200.
    JÁ – Mas isso não exclui uma parte do público?
    Se alguém quer trabalhar de graça, que seja feliz. O meu trabalho custa, eu sei quanto e isso deve ser repassado para o público. Tenho horror de gente que acha que o trabalho artístico tem que ser de graça! Porque nada no mundo é de graça. Não existe em nenhum lugar do mundo um ingresso tão acessível quanto o nosso. Não acho que seja educado, nem vou contribuir para a falta de educação com a cultura. Nem o Festival de Gramado é de graça, nem o Porto Verão Alegre, nem a Mostra de Inverno… Então, não vejo porque o Porto Alegre em Cena deveria fazer benemerência. Lamento que uma pessoa pense que simplesmente vai chegar e entrar no teatro, invadir. É uma falta de respeito com quem compra ingresso, com os artistas. Eu fui à Berlim, há dois meses e o ingresso custava 35 euros. No festival de Santiago do Chile, custava 200 pesos. Eu gosto que seja um ingresso extremamente barato, acessível, mas que tenha essa demarcação: a arte não é de graça, arte é trabalho e trabalho tem que ser remunerado.
    JÁ – Sendo um projeto realizado via Lei de Incentivo à Cultura (LIC), não deveria existir uma responsabilidade de devolver ao público esse investimento?
    A LIC me pede 10% dos convites e eu dou. Não devo nada à LIC, tudo que a LIC me pede, eu dou. As Leis de Incentivo, incentivam, não bancam, não é 100% subsidiado. As ações de inclusão social que a gente vai fazer são específicas. Por exemplo, esse ano chamei a Tônia Carreiro para mostrar seu espetáculo nos bairros da cidade. Tem também o Teatro de Rua, que tradicionalmente é sem ingressos, e as oficinas gratuitas. Esses são incentivos de um festival para que a população não fique sem nada. Ou seja, mesmo aqueles que não tem dinheiro algum para ir ao teatro, podem desfrutar o festival, nas ações de inclusão social. Quando um espetáculo é oferecido de graça, ele só atrapalha o trabalho dos artistas, porque eu não vou querer pagar para ver um espetáculo, se tem outro de graça.
    JÁ – E qual o valor estimado de gastos no Porto Alegre em Cena 2006?
    É difícil falar, pois ainda não fechamos os valores. Mas um festival como o nosso, não sai por menos de R$ 2 milhões. Ano passado custou R$ 2 milhões e 300 mil. Ainda mais que é um festival internacional, com grandes atrações, não é nada decadente. A mídia brasileira vem em peso, porque o Em Cena é uma potência artística e gera uma provocação estética.
    JÁ – Que lhe parece a descentralização?
    Não podemos transformar um festival de teatro em um evento de clientelismo para ganhar votos. Sou contra a demagogia. No ano passado, teve sim a parte da descentralização, mas não houve em todos bairros da cidade, porque não tinha orçamento para isso. Esse ano, é uma grande façanha do festival contar com uma estrela do porte da Tônia Carreiro, dirigida pelo Fauzi Arap, que é um dos meus diretores de teatro preferidos, para ir a essas populações de baixa renda. Não estou dando qualquer coisa, não estou fazendo política, eu acredito no que faço. Alguns espetáculos que farão duas apresentações, também vão aos bairros. Mas esse é um espetáculo pensado para isso. Eu não contratei a Tônia Carreiro para ir ao Theatro São Pedro, eu contratei ela para conhecer os bairros da cidade, baseada numa experiência que ela fez nos CEUs [Centros Educacionais Unificados] de São Paulo. Levar qualquer coisa, só para preencher uma planilha, não tem ganho real para a população, não fica nada. Nesse caso, acho que realmente estou colaborando com uma mudança, com um patamar. Mas não é por política, é por arte mesmo. E tem outras pessoas que colocam a política antes da arte.
    JÁ – Mas nas primeiras edições essas políticas de incentivo como a descentralização o subsídio dos ingressos já existiam…
    Estou aqui para promover ações que qualifiquem o Porto Alegre em Cena. Por que o festival é considerado o melhor do Brasil? Porque eu tenho essa preocupação e meus líderes políticos me deixam trabalhar, não me sinto nem um pouco pressionado a fazer demagogia. Sempre foi assim, não só agora, mesmo quando a prefeitura era governada pelo PT. Nunca gostei da “fila dos sem”, isso cresceu assustadoramente na minha ausência… eu participei do 1º ao 8º e havia os espetáculos de rua, que sempre são de graça. Ano passado, trouxemos uma co-produção chilena e francesa, e era um espetáculo de rua magnífico nos bairros. Não era qualquer espetáculo, não gosto disso, nunca gostei. Até onde eu trabalhei esse era o meu padrão. Eu sei bem aonde quero chegar, na qualificação cada vez maior do evento. Só assim tem importância. Por que os festivais de cinema ou artes cênicas vão despertando menos interesse? Porque eles decaem em qualidade, vão fazendo política. Por exemplo, se um festival de cinema quer mais artistas globais do que gente de cinema – não tô falando de A ou B –, perde a importância. Não quero que perca a importância com o que não é importante. Minha busca é para que o festival traga profissionais, que não precisam ser necessariamente conhecidos, mas com qualidade. Não importa se a cidade não conhece, acho que já consegui ao longo da minha vida, um crédito na cidade e Porto Alegre sempre presta atenção no que eu proponho para ela como artista.
    JÁ – Nesse tempo em que esteve afastado, essas questões mudaram o rumo do festival? Isso poderia ser marcado como uma diferença?
    São diferenças, mas não fiquei preocupado com o festival enquanto não estava aqui, mesmo porque trabalhei no festival de teatro de Buenos Aires. As coisas acabam, assim como a direção de uma peça de teatro que termina. Nunca fico pensando no passado, sempre opero no presente e no futuro. Gosto muito do Ramiro [Silveira], é meu amigo e, salvo um engano meu, começou como meu estagiário lá na coordenação de Artes Cênicas. Nunca torci contra. Seria um engano se eu achasse que outras pessoas têm que pensar como eu. Cada um que estiver na frente do Em Cena vai imprimir a sua marca.
    JÁ – E qual a marca que o Luciano Alabarse deixa?
    Assisti aos vídeos de todas peças que mandaram, e foram quase 300. Tinha períodos em que eu dormia na frente na televisão, às vezes há surpresas magníficas no material que te mandam. Mas um festival não se faz só de inscrição, se faz de convites principalmente. São as peças que tu queres que estejam presentes. A parte nacional e internacional é da minha responsabilidade. A mais delicada de qualquer festival é sempre a local, porque todo mundo quer estar num evento dessa envergadura. Nessa parte, sempre divido a curadoria. Esse ano foram 10 curadores, todas pessoas de teatro, para que ninguém acredite que estou prejudicando ou protegendo determinados grupos. Desde o Luiz Paulo Vasconcelos, coordenador de Artes Cênicas, até o Aloísio Tomasoni, que é da área de dança, a gente do teatro que trabalha no festival, diretores e atores que não tinham peças disputando vagas.
    JÁ – Quais as características que dos espetáculos de fora de Porto Alegre?
    Nunca preparo nada, simplesmente vou ver os espetáculos. A melhor forma para selecionar, é assistir às peças. Se pudesse, veria todos, mas não tenho tanto dinheiro assim, porque tudo isso é do meu bolso. Não procuro coisas específicas: o que importa é que te surpreendam. Às vezes é uma direção surpreendente, outras uma atuação maravilhosa ou um texto que te chama atenção. Pode tudo em teatro, diferentes linguagens, provocação. Não acho que teatro é só para as pessoas gostarem, é para provocar também. Nem todos espetáculos são belos, alguns são incômodos, trazem inovações estéticas que chocam o gosto conservador, mas todo o festival tem que ter isso. Ninguém entra por ser amigo, ou deixa de estar porque eu não conheço. Tem, que ter um valor estético.
    JÁ – Recentemente, duas peças shakespearianas estiveram em cartaz na cidade: o Hamlet, dirigido por você, e Sonho de uma noite de verão, da Patrícia Fagundes. Mas há uma corrente que defende o teatro contemporâneo para estimular a reflexão sobre a vida moderna e acredita que montar clássicos seria algo menos engajado…
    Acho que clássicos são clássicos, justamente por se incorporarem ao imaginário do ocidente. Achar que um Sheakspeare não tem nada a dizer dos dias de hoje é estranho. Um dos defeitos de Porto Alegre é que a cidade tem muito pouco contato com os clássicos. Se a gente vai a Berlim, por exemplo, sempre tem uma ou duas montagens de Shakespeare, Ibsen, Tchecov. Por exemplo, o Hamlet fazia 30 anos que não era montada em Porto Alegre. Ou seja, toda uma geração que não viu… não vejo qual é o ganho disso. Não gosto é do dogma… não acho que nem o clássico seja a salvação, e tampouco o contemporâneo. O teatro é um território sem preconceitos. E uma cidade que não tem acesso ao clássico é uma cidade menor, sem cultura.
    JÁ – Qual a tua avaliação da produção cênica local?
    Ontem [23 de julho] assisti à peça da Deborah [Finochiaro], Sobre Anjos e Grilos. Lá pelas tantas, o Mario Quintana diz assim: “Porto Alegre, num determinado tempo, era uma pequena cidade grande, e hoje acho que é uma grande cidade pequena”. Isso é tão bonito e tão verdadeiro… Eu não me identifico em nada com essa coisa separatista, histórica, do Rio Grande do Sul, da Revolução Farroupilha. Não gosto disso, gosto de estar conectado com o Brasil, com o mundo e gosto que o mundo esteja conectado com Porto Alegre. Não tenho nenhuma relação de deslumbramento com o mundo, mas também não tenho de auto-suficiência e às vezes penso que o nosso povo acredita que pode ser auto-suficiente e não há nada mais enganoso que isso, ainda mais na arte. O teatro que se faz no Rio Grande do Sul é bom, está num patamar de qualidade elogiável, mas não pode se bastar a si mesmo. Temos que ver o teatro do mundo, o que as pessoas estão fazendo ou realizando. Essa troca é legal, não é subserviente, e trabalho para que aconteça. Uma boa temporada de teatro mescla tudo: experiências de vanguarda, clássicos, teatro de texto, sem texto.
    JÁ – E essa prática que se instaurou em Porto Alegre, de aplaudir de pé a todos os espetáculos?
    Não há nada mais equivocado do que isso, eu fico sentado. Só me levanto para aplaudir quando é algo realmente excepcional. Também não gosto de ser aplaudido de pé por costume ou hábito. Nenhum lugar do mundo aplaude de pé por hábito… e aqui sim. Isso causa a falsa impressão de que tudo é muito bom e não é. Não sou o vilão da novela quando digo que tudo não é bom em teatro. Procuro ter sempre uma perspectiva para selecionar. Pensar que aqui temos o melhor teatro do mundo, que ninguém erra… isso é o começo de uma ilusão nefasta que é a de achar que somos melhores, superiores ao outros. E não somos, simplesmente porque é da troca com os outros que vem o crescimento. Sempre vejo muito teatro gaúcho, não tenho nenhum problema de aplaudir teatro gaúcho, mas essa arrogância é desnecessária. O que ajuda é eu, como diretor de teatro, querer me aperfeiçoar. O público não aplaudindo tudo de pé ou pensando que eu tenho que trabalhar de graça. E essas experiências de troca, como se faz no Em Cena é que despertam o interesse.